Mariazinha e Verônica: classe e gênero nos palcos da metrópole
Arte social, arte coletiva, arte da representação, inseparável da vida urbana e
da sociabilidade multifacetada, o teatro em São Paulo converteu-se em
laboratório voluntário e compulsório dos sonhos acalentados pelas camadas
médias e pelas elites. Ele deu forma a assuntos que pulsavam, antecipou
comportamentos que se tornaram emblemáticos, forneceu régua e compasso para
enquadrar as transformações em curso e, quando a censura e a perseguição
política aos setores de esquerda tornaram-se mais violentas com a ditadura
militar instaurada em 1964, o palco virou um reduto da resistência.
Comprovando, assim, a tese de que a dramaturgia é "a forma literária mais
adequada à esfera da ação e, portanto, à ética e a política"1. A formulação do
historiador Carl Schorske é potencializada na enunciação do escritor Alexandre
Dumas, filho: "no teatro somos sempre três". Desdobrada, ela dá a ver a
singularidade do espetáculo quando contrastada à prática da leitura.
Silencioso, o livro "fala baixo para uma única pessoa". Já o teatro, arremata o
escritor, "procede da tribuna e da praça pública"2.
Assim, não é aleatório que a sociedade encenada no palco encontre em certos
contextos tamanha ressonância na sociedade real do público3. Tal foi o caso do
teatro na metrópole paulista. A dramaturgia de Jorge Andrade (1922-1980) e
Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) sintetizou representações inquietantes de
uma sociedade em fogo morto sobre a qual sobrevinha a lufada de energias
impulsionadas pelos grupos emergentes. Enquanto Jorge Andrade remexeu as
feridas dos abastados de ontem, Guarnieri fabricou uma classe operária povoada
pelo ideário dos setores médios em ascensão4. A derrocada da economia cafeeira
engolfou proprietários, linhagens, estilos de vida, critérios de prestígio,
valores e certezas; a gênese da metrópole espicaçou a imaginação social, criou
linguagens, produziu novos enfrentamentos e utopias. A cena teatral paulista,
antenada com as transformações em curso, abrigou o adeus à civilização do café
e exaltou a sociedade urbano-industrial. Nos palcos da cidade, ganharam
tratamento renovado as vicissitudes dos setores médios; a ascensão dos
imigrantes, cuja presença em sucessivas levas migratórias conformou a paisagem
social e urbana da metrópole em expansão; a experiência da classe operária; as
transformações nas relações de gênero; o impacto da vida urbana nos costumes e
nas relações familiares.
1
Improvável, quase inconcebível, seria um encontro entre Mariazinha Mendonça de
Morais e Verônica. Modesta e bem-comportada, Mariazinha esforçava-se para estar
sempre impecável em seu uniforme do dia a dia, um tailleur discreto. Cumpria
com zelo as obrigações: a pontualidade no escritório, o pagamento das
prestações do Mappin e da quitinete, adquirida com as economias feitas ao longo
de cinco anos de trabalho, transcorrido em ritmo estafante, das 7 às 19 horas.
O sonho da casa própria, materializado no apartamento diminuto, valeu a pena
porque, segundo ela, além da segurança, iria garantir-lhe o futuro. Mas antes
da mudança, na pensão para moças em que residia, Mariazinha contornava a
solidão com o auxílio da televisão ligada (Hebe Camargo era um de seus
programas preferidos) e dos devaneios. Se pudesse teria feito filosofia.
Matéria que lhe parecia a mais adequada para dar conta de sua personalidade
mística. O raciocínio complexo, do qual se sentia portadora, era expresso quase
sempre em voz alta, para si mesma e para os objetos que compunham o mobiliário
de seu quarto: o relógio de parede que herdara do pai, o criado-mudo, a cama e
o armário. Todos eles decorados com balões e laçarotes do mesmo tipo que usava
para enfeitar os cachinhos dos cabelos na hora de dormir. Quando pequena, ela
cabia dentro dos móveis. Adulta, os interrogava para saber se foram eles que
cresceram ou ela que diminuíra. A dúvida sobre o tamanho real das coisas -
dela, dos móveis, do mundo - embaralhava-se com a perplexidade espicaçada pelo
escapismo. Nas palavras de Mariazinha, "eu pensava que as pessoas passavam o
dia inteiro pensando em mim" - daí o apuro no traje e o comportamento comedido.
Mas elas "não sabiam que eu existia".
Verônica, ao contrário, não tinha dúvida sobre o impacto de sua presença na
vida dos que lhe eram próximos: o pai, o amante, a mulher e a filha dele, o
colega e amigo de faculdade. Jovem, rica, bem-nascida, ela passou quatro anos
de sua adolescência perambulando sozinha pela Europa, mas sustentada pela
mesada da família. A saída precoce de casa, motivada por uma briga violenta com
o pai, permitiu-lhe uma profusão de experiências num registro pouco usual, na
época, para as moças de sua classe. De volta ao Brasil, ingressou na Escola de
Arte Dramática. Queria ser atriz. Gostava de escrever, de dançar, de sapatinho
italiano, de roupas francesas, de passar os dias na piscina, de tomar uísque
escocês, de se insurgir contra o mundo burguês do qual fazia parte. Gostava
especialmente de namorar o professor de dramaturgia, com quem manteve por três
anos uma intensa e conturbada relação amorosa. Vinte e dois anos mais velho que
ela, ex-militante do Partido Comunista, o professor e amante sonhava com o
teatro, mas tirava seu sustento, da mulher e da filha, das novelas medíocres,
espichadas a contragosto por pressão da televisão.
Enquanto Mariazinha se enredava nos devaneios com a ajuda dos objetos de seu
quarto, Verônica aprontava todas com o suporte da irreverência, da ironia
temperada com melancolia, da recusa das convenções, da indisciplina, da
inteligência ferina, da bebida. Família para ela era uma questão de crença e,
no caso da sua, um lixo. Na peça que escreveu com o amigo da faculdade - e que
não chegou a ser montada - a intenção de ambos era incendiar a televisão, a
sagrada família, os preconceitos de raça, o conceito de certo e errado. Não
queriam governo de espécie alguma, nem proletariado, nem burguês, nem católico.
"Não vai sobrar nada" - avisou-nos Verônica. A arma? O humor cáustico e
desativado. Ofélia fingia-se de louca na versão "totalmente porra-louca de
Hamlet", que estavam escrevendo. Shakespeare foi só o começo. Pretendiam
liquidar também com Sófocles. "No que o Édipo descobre que comeu a própria mãe,
não fica desesperado não, fica felicíssimo. Começa a ler Freud para justificar
o incesto. Pede a mãe em casamento e se casam na Catedral da Sé, cantando
'mamãe, mamãe, tu és a razão dos meus dias'" - esclareceu Verônica.
O gozo era uma experiência desconhecida para Mariazinha. Apesar de "tentar",
ela "não conseguia". Virgem, tida já como "solteirona", ela foi surpreendida
uma noite com a entrada de um homem armado no quarto do pensionato. Se real ou
fictícia, não sabemos ao certo, mas não restam dúvidas de que o acontecimento
insólito precipitou um passeio imaginário pela cidade, feito com o recurso da
alucinação, da vivência por procuração, do diálogo crispado, do desmonte da
contenção e da convenção. Temerosa e recatada de início, furiosa e
convulsionada ao final, Mariazinha gritou, falou palavrão e recuou quando o
intruso disse que só a levaria ao apartamento dele se fosse para "trepar" e não
para ouvir disco ou aguentar a "ondinha" dela. Impiedoso, ele teria dito: "E
você acha que o bonitão aqui vai perder tempo com um bagulho como você?".
Descontrolada, ela insistiu que era "inteligentíssima, independente,
intelectual bonita" e, aos gritos, suplicou-lhe: "Minta! Minta! Minta! Que é um
solitário que talvez se case comigo. Eu sou boa de cama! Mente que quer casar
comigo".
Os desejos de Verônica, ao contrário, passavam longe do casamento e da família.
Seu tormento tinha pouco a ver com a sexualidade. Nesse domínio parecia
realizada. O que a dilacera eram os ciúmes que sentia do professor e amante, a
tensão que modulava a relação de ambos, a admiração misturada ao amor, ao
rancor e ao desprezo que nutria por ele, a recusa obstinada do estilo e dos
desígnios da feminilidade convencional. A informação de que abortara após uma
briga violenta com o pai, seguida pela fúria que a levou a quebrar tudo que
encontrou pela frente e pela tentativa fracassada de incendiar a casa, ela
transmitiu ao amante, no apartamento que usavam para se encontrar, sem muita
inflexão na voz, como se relatasse um acontecimento visto de fora. Valeu-se da
ironia para caracterizar o "dramalhão perfeito" que vivera, enquanto ele,
desesperado com seu sumiço por mais de uma semana, procurara por ela, sem
sucesso, em toda parte: na faculdade, na polícia, nos hospitais. Atônito com o
relato e com a expressão estranha de alheamento que tomara conta dela, ele se
inteirou horrorizado sobre o que sucedera em sua ausência: a bofetada que ela
recebeu do pai, a tentativa malograda de esquivar-se dela; os vinte e quatro
degraus que ela rolara escada abaixo, o aborto involuntário, mas desejado, que
deu fim ao filho que ela não queria ter e que ele só então veio a saber que
existia.
A súplica de Mariazinha para que o homem que invadira o pensionato se casasse
com ela foi formulada, como vimos, no decorrer do passeio imaginário que ambos
fizeram pelas ruas da cidade enquanto corriam ao redor do quarto. O ritmo
frenético dessa deambulação acompanhou a excitação progressiva e o desvario de
ambos. À medida que Mariazinha soltou a voz e explicitou os desejos recalcados,
eles principiaram a quebrar com fúria todos os objetos do quarto. E só pararam
quando a angústia entrelaçada à alucinação instalou-se como sentimento
dominante. O homem anunciou, então, que ia embora e que a levaria com ele.
Tremendo, desesperada e balbuciante ela disse que não, enquanto os laçarotes
que emolduravam os móveis e seus cabelos se desfaziam ao som do estouro de
balões, do ruído crescente do rádio e da televisão. Seguiu-se um silêncio
denso, quebrado pela voz de uma mulher, vinda de fora, anunciando o adiantado
da hora (7h) que levaria Mariazinha a perder o ponto. Ela despertou aos berros.
Pediu socorro, chamou pela polícia e gritou que tinha um ladrão dentro do
quarto. Foi a última notícia que se teve dela.
O último ato de Verônica foi também um pedido mudo de socorro, precedido pela
certeza de sua inutilidade. Em meio a mais uma discussão crispada com o
professor e amante, ela decretava a falência de tudo: da relação de ambos, da
família, do progresso, da civilização - condensada num conjunto heteróclito de
objetos, como o liquidificador Walita, o Modess, a nave Apolo 11, a arma
química Napalm, o apresentador de televisão Chacrinha - enquanto atirava os
livros, a máquina de escrever e os papéis ao chão. Em seguida, berrou e caiu
gemendo como um animal. Assustadíssimo, o professor e amante abraçou-a e ela se
deixou beijar; de início como uma menina e depois como uma mulher adulta e
decidida. Animada, ela lhe propôs que fizesse naquela noite tudo o que ela
pedisse, começando pelo ensaio do finalzinho da peça que ela terminara de
escrever com o amigo da faculdade. Ele faria uma das personagens e ela a outra,
mas a direção da cena desta vez seria dela. Séria e convicta, ela o instruiu
para ficar de costas, quieto, sem emitir nenhum juízo crítico como era de seu
feitio, por personalidade e dever de ofício (professor de dramaturgia e
escritor de novela). A deixa para ele se virar e entrar em cena - no papel de
Hamlet, no momento em que o príncipe dinamarquês monologa sobre o ser e o não
ser - seria um gemido de dor, que ela, no papel de Ofélia, emitiria como se
estivesse sendo esfaqueada.
Obediente, ele seguia a orientação. Enquanto ela, com os olhos vidrados como se
estivesse mirando fixamente o público, mencionava a inutilidade de sua
violência e a vontade de partilhar da única tarefa que lhe parecia ter ainda
algum sentido: incendiar o lixo que tomara conta de tudo. Mas nem isso estava
mais ao seu alcance. "Há um espião em mim que não consente que eu viva". O
duplo suicídio, da personagem e da atriz, diante da plateia imaginária e de
costas para a personagem interpretada pelo amante, foi a última notícia que
tivemos de Verônica.
2
A cena teatral paulista, na década de 1960, foi marcada por uma estreita
articulação entre cultura e política5. A criação de novos grupos, a
consolidação do Oficina e do Teatro de Arena, a expansão do público jovem,
universitário e de esquerda, a sedimentação do "conceito de engajamento
artístico de esquerda"6, a estreia de novos dramaturgos, tudo isso, somado,
alterou a composição social do palco e pôs de escanteio o teatro de repertório
que, por quase duas décadas, imperara na metrópole. Temas como o adultério, a
angústia e a liberdade, discutidos até então em registro metafísico e de
maneira elevada, numa linguagem próxima "ao português de escola"7, pareciam
assuntos de um passado longínquo. A combinação entre "a cena 'rebaixada' e um
público ativista"8, somada à introdução de novas temáticas e de novas maneiras
de dizê-las, teve um efeito extraordinário no palco e um acolhimento vibrante
do público engajado. O teatro ecoava e a um só tempo vocalizava a "relativa
hegemonia cultural da esquerda". Ele era um dos termômetros a medir a alta
temperatura cultural do país, que "estava irreconhecivelmente inteligente"9,
apesar da ditadura militar instaurada em 1964.
Quatro anos mais tarde - após a decretação do Ato Institucional n. 5 (AI5) em
dezembro de 1968, pela junta militar que comandava o país - as forças
repressivas e conservadoras, impulsionadas pela censura, pela ampliação das
perseguições políticas e pela suspensão da liberdade de imprensa, não mediram
esforços para desmontar a hegemonia cultural da esquerda e liquidar o sonho da
revolução acalentado por uma parcela expressiva da juventude engajada. O teatro
acompanhou de perto a ferocidade desse desmonte e sempre que possível contornou
a censura com o recurso da burla e da linguagem cifrada. Os censores não davam
trégua e os dramaturgos faziam das tripas coração para manter um controle
mínimo sobre o que escreviam10. E ainda que a censura tenha sido inclemente,
impedindo a montagem das peças ou retirando outras de cena, ela deixou passar
assuntos, temas e maneiras inusitadas de abordá-los. Ao que tudo indica por
incapacidade e cegueira para perceber a novidade em curso, como as trazidas por
Mariazinha e Verônica e pelo universo social que confirmou a existência de
ambas.
Elas de fato nunca se encontraram. Mas foram vistas juntas, quase lado a lado,
nos palcos da metrópole pelo público jovem que continuou a buscar refrega na
cultura. Jovens, inquietas e destemidas eram também as criadoras de Mariazinha
e Verônica, as dramaturgas Leilah Assumpção (1943) e Consuelo de Castro (1946).
Leilah Assumpção tinha 26 anos quando sua peça Fala baixo senão eu grito foi
montada e Mariazinha se fez conhecida pelo público11. Consuelo de Castro, a
autora de À flor da pele, tinha 23 anos quando Verônica, a protagonista da
peça, encarou uma plateia real12. A notoriedade de Mariazinha e Verônica deve-
se à destreza de suas autoras na carpintaria da dramaturgia. E também às
intérpretes que lhes deram vida: Marília Pera e Miriam Mehler.
Peça de um único ato, Fala baixo senão eu grito centra-se em duas personagens
(Mariazinha e o Homem, sem nome definido), encerradas em um mesmo lugar (um
quarto de pensão). A ação transcorre em uma única noite. A habilidade da autora
reside em multiplicar o espaço dramático, como mostra Elza Cunha de Vincenzo,
sem que se altere o espaço físico do palco, e o tempo se torna
verdadeira duração, através do puro discurso verbal, dosado com
perícia entre as rubricas e o diálogo. As rubricas compõem a
narrativa teatral, de forma a caracterizar a personagem central mesmo
antes de sua primeira fala. Por Mariazinha, falam os objetos de seu
quarto, os balões coloridos, os laçarotes, a roupa, o cabelo13.
A peça estreou no Teatro da Aliança Francesa da capital paulista em 1969, sob a
direção de Clóvis Bueno, com Marília Pera no papel de Mariazinha e Paulo
Villaça - o namorado da atriz na época - interpretando o homem que invade seu
quarto de pensão com uma arma na mão e que a conduz pelo passeio imaginário na
cidade. Mariazinha marcou a carreira de Marília Pera, associada até então à
atriz de musicais14. Graças ao mecanismo social e cultural de burla teatral -
que permite aos intérpretes, com o acordo tácito do público, contornar
constrangimentos diversos (físicos, sociais e de gênero)15 - Marília Pera,
então com 26 anos, tornou-se crível no papel de uma solteirona. A maquiagem que
vincou os traços de seu rosto e a postura encurvada do corpo - em tudo
contrário à leveza que Marília adquirira como bailarina amadora e atriz de
musical - ajudaram a compor a personagem. Mas o mais importante veio da
inteligência e da capacidade de intepretação da atriz, que misturou dimensões
trágicas com registros da comédia desataviada, para dar vida à personagem
patética e à "sutil ambiguidade [do] realismo da peça". Qual seja, de que "a
invasão do estranho - grande desempenho de Paulo Villaça - podia ser apenas
fantasia de mulher carente", premida entre o desejo de "ruptura, liberdade ou
escapismo"16.
O entusiasmo de Marília Pera pelo papel foi imediato. Assim que ouviu a
primeira leitura da peça ficou claro que ela "queria dizer aquelas palavras,
queria [se] exibir fazendo aquela mulher. Ela falava coisas que [Marília]
gostaria de falar"17. Segundo atriz,
Mariazinha era uma pessoa muito deprimida, louca para se soltar e aí
chega aquele homem, um cínico, sem nenhum senso moral e acaba com o
mundo todo arrumadinho dela [...] Ela tinha a ver comigo por ter,
dentro dela, uma menina reprimida que ainda existe em mim até hoje,
não sei se é um defeito ou uma qualidade, mas é uma característica
minha. Ela tinha um jeito "ostra", tímida, tímida, tímida, meiga,
frágil e isso é parecido com a menina que eu tenho dentro de mim.
Acho que foi essa a identificação instantânea que aconteceu entre nós
duas18.
Distanciamento e identificação, tais foram os recursos que Marília Pera
utilizou para compor a personagem e transitar da comédia para as cenas
dramáticas. O impacto de sua interpretação levava a plateia a chorar junto com
ela a cada apresentação. Segundo a atriz, foi a primeira vez que isso aconteceu
em sua carreira. "Quando o espetáculo terminava, eu estava com o nariz vermelho
de tanto chorar, e isso foi um passo novo para mim, apesar de [ser] um
espetáculo muito engraçado, com momentos de fazer a plateia rolar de rir"19 .
A autora da peça, Leilah Assumpção, estranhou quando viu o texto montado porque
"acreditava ter escrito um drama, com a Mariazinha muito sofrida", e ao vê-la
corporificada por Marília Pera constatou que ela tinha virado uma tragicomédia.
Intrigada, perguntou ao diretor, e seu namorado na época, Clóvis Bueno se ele
achava que ela tinha se tornado uma "comediógrafa". À dúvida seguiu-se o
aprendizado de que "as grandes atrizes se apropriam dos personagens", como fez
Marília Pera ao dosar na medida certa o seu lado tragicômico e fazer da peça
uma comédia pungente, que levava o espectador a rir "com um sorriso trêmulo que
dá vontade de chorar"20.
O sucesso da peça deu uma guinada na vida da atriz e da autora. Marília Pera
ganhou o prêmio mais cobiçado na época pelos intérpretes (o Molière), a
projeção nacional e a "confiança em si mesma como protagonista e produtora de
seus espetáculos"21. Leilah Assumpção foi premiada pela Associação Paulista de
Críticos Teatrais. E mudou de vida. Largou o emprego - modelo de alta-costura,
contratada pelo costureiro de maior projeção nacional na época, Dener - e
deixou o pensionato em que vivia para morar com Clóvis Bueno. Pouco tempo
depois, ambos viajaram para a Europa, onde viveram alguns meses no clima da
contracultura e no estilo hippie, com o dinheiro que ganharam com o
espetáculo22. Mas antes disso ela recebeu em grande estilo, no Teatro
Municipal, a distinção que a consagrou como dramaturga23, o Molière de Melhor
Autora de 1969. Na lembrança do crítico de teatro Jefferson Del Rios, quando o
prêmio foi anunciado,
[Leilah] saiu dos bastidores em linha reta até o meio do palco, em
seguida avançou em direção à plateia. Usava minissaia e botas pretas
até a metade das pernas longas. Foi espetacular. Era a bela manequim
de Dener de Abreu, a moça de Botucatu, formada em Pedagogia, atleta
de saltos ornamentais, que se consagrava com a peça inicial, Fala
baixo senão eu grito24.
O gosto pela escrita ela herdou da mãe, que morreu jovem, quando Leilah tinha
treze anos. Ambas nasceram "num casarão sombrio cheio de tias professoras, em
Botucatu". A primeira escola da cidade foi fundada pela bisavó. O pai nasceu na
fazenda do avô em Tietê, conheceu o descenso social e tornou-se professor. Após
a morte da mãe, Leilah foi viver com a irmã mais velha, que já estava casada.
Saiu de lá para fazer o curso de pedagogia em Campinas, antes de se transferir
para a capital e dar continuidade aos estudos na Faculdade de Filosofia e
Letras da Universidade de São Paulo. Formou-se em 1964 em pedagogia. Nesse
período morava num pensionato na avenida Angélica que não era administrado por
freiras como os outros dois em que residira antes. Esse fato, somado à
liberdade que sentia por não estar controlada diretamente pela autoridade
familiar, fez do pensionato um "lugar ideal para se viver"25.
3
A inserção de Leilah Assumpção no universo teatral paulista principiou pela
atuação como atriz figurante em Vereda da salvação, de Jorge Andrade. A peça
estreou no Teatro Brasileiro de Comédia (tbc) em junho de 1964, três meses
depois do golpe militar. Baseada em acontecimentos reais ocorridos no nordeste
de Minas Gerais (em Malacacheta), ela aborda com o recurso da intriga "simples
e densa" o messianismo e o fanatismo religioso que tomou conta do lugar. A
história "flui do crepúsculo de um dia ao amanhecer do dia seguinte, num
pequeno grupo de agregados, adeptos de uma seita em que traços adventistas se
misturam a resquícios de catolicismo"26. A caracterização é de Antonio Candido
e uma parte do material fotográfico que ele coligiu para sua tese de doutorado,
Os parceiros do rio Bonito, foi reproduzida no programa da peça. Nas palavras
de Candido,
fechados pelo latifúndio, esmagados pela miséria, privados dos
elementos mínimos de realização pessoal, desamparados de qualquer
instrumento que lhes permita afirmar-se no universo da propriedade e
da espoliação - só resta aos agregados a saída para o transcendente.
[...] Nessa atmosfera de transe coletivo - que Jorge Andrade cria com
os mais belos recursos expressivos, suscitando um mundo ansioso de
libertação - se anuncia a intervenção da polícia que vem restabelecer
a ordem exterior, dos patrões e das leis27.
Familiarizado com a dramaturgia de Jorge Andrade e sintonizado com os debates
suscitados pela peça, Antunes Filho dirigiu o espetáculo com um elenco composto
de vinte e três intérpretes. Depois do sucesso estrondoso de Os ossos do barão,
que ficou quase um ano em cartaz no ano anterior e ajudou a levantar as
finanças do Teatro Brasileiro de Comédia, não só o elenco como todos os
diretamente envolvidos com a companhia paulista, especialmente o diretor,
esperavam, se não a mesma adesão por parte do público, ao menos uma boa
recepção para a nova peça de Jorge Andrade. Afinal, a temática social engajada
- o mundo agrário visto pela ótica dos dominados - estava afinada com o clima
de contestação política da época. Mas era ousada demais para o público de
extração burguesa que frequentava o tbc. Relações sem subterfúgios entre as
classes, apreendidas na chave da desigualdade, do mando e do autoritarismo, tal
como expostos por Jorge Andrade em Vereda da salvação, excediam o esperado por
esse público. A não ser pelo apoio da crítica, a montagem foi um fracasso de
tal ordem que liquidou de vez os recursos da companhia, obrigando-a ao
fechamento. Vereda da salvação foi a última peça encenada pelo tbc28 e também a
primeira e última experiência de Leilah Assumpção como atriz.
O interesse de Leilah pelo palco, longe de arrefecer, ampliou-se. A carpintaria
da dramaturgia ela aprendeu nos cursos, especialmente com Eugênio Kusnet29, no
Teatro Oficina. A ele e ao grupo, ela deve "a maior parte da [sua] formação
teatral"30. Ao clima da época e à Faculdade de Filosofia da Universidade de São
Paulo, ela atribui a descoberta de Marx, do comunismo, da política, filtrada na
primeira peça que escreveu, em 1964, quando ainda morava no pensionato que
serviu de ambiência para Vejo um vulto na janela. Inspirada na vivência e na
sociabilidade das moças que residiam no pensionato, alheias, engajadas ou
divididas pelos embates políticos, atônitas ou confiantes com a substituição
acelerada dos valores no plano das relações amorosas e familiares, a peça, de
nítido cunho autobiográfico, não chegou a ser montada por determinação da
censura.
4
Prova de fogo, a primeira peça de Consuelo de Castro, conheceu destino similar:
foi proibida pela censura em 1968, em meio às primeiras leituras do texto
promovidas pelo Teatro Oficina. Os personagens principais são jovens,
universitários, divididos pelas clivagens políticas que atravessavam o
movimento estudantil, às voltas com a ocupação da Faculdade de Filosofia da
usp, sediada na rua Maria Antônia, no tenso período que antecede a invasão do
prédio por parte da polícia e a edição do Ato Institucional n. 5. No decorrer
da ocupação, vêm à tona conflitos de ordem individual, relações amorosas,
visões de mundo contrastantes, experiências familiares distintas, um torvelinho
de emoções e sentimentos enredados nas disputas e nas alianças que os
estudantes travam entre si dentro da faculdade ocupada. "O entrelaçamento
desses dois planos, o afetivo e o político, o individual e o coletivo, o
burguês e o revolucionário, dá à peça um caráter de tragicomédia que ela
desenvolve consciente e exemplarmente, indo, com igual firmeza, da tensão
dramática à distensão farsesca"31. A avaliação de Décio de Almeida Prado é
corroborada pelo juízo crítico de Sábato Magaldi. Além das virtudes requeridas
pela dramaturgia - diálogos incisivos tensionados pela corda esticada do
conflito -, Sábato Magaldi vê em Prova de fogo "um dos mais verdadeiros e
importantes documentos do país", essencial para quem desejar "entender, no
futuro, o que se passou no Brasil, de 1964 a 1968"32. Tamanho acerto
dramatúrgico e voltagem histórica devem-se à desenvoltura com que Consuelo de
Castro relaciona "o microcosmo cênico com o macrocosmo social"33.
Uma parte do acerto advém da maneira com que ela trata as palavras, imprimindo
"ao virtuosismo do seu domínio verbal, um aspecto de jogo, de brincadeira
intensamente lúdica, que combina muito bem com a natureza específica do
teatro"34, esclarece o crítico Yan Michalski. Ciente de que "cada frase tem um
tempo" e que o tempo é a "pedra de toque no teatro" - se bem usado ele fisga o
espectador e o enlaça na peça, caso contrário, o faz "roncar na plateia"35 -,
Consuelo tem ainda outro trunfo na mão: a ampla intimidade com o universo
social, político e existencial retratado em suas peças.
Tensionada desde muito cedo pela infância transcorrida entre Araguari,
cidadezinha do interior de Minas, e a vibrante metrópole paulista, Consuelo
principiou a aventura pelas letras na adolescência, amparada pelo acesso à
Biblioteca Municipal e pelo estímulo do modernista Guilherme de Almeida, com
quem discutia literatura e de quem recebeu a primeira avaliação crítica pelo
livro de poesias que escreveu aos dezesseis anos, A última greve, publicado
pela Martins Editora36. Dois anos depois ela ingressou na Faculdade de Ciências
e Letras da Universidade de São Paulo. Escolheu o curso de Ciências Sociais
porque queria mudar o mundo. Consuelo "faz parte de uma geração que despertou
para a vida adulta sob o impacto do golpe militar de 1964 e teve a fase
decisiva da sua formação intelectual, existencial, cívica e emocional
fundamentalmente afetada e condicionada pelas consequências desse golpe"37,
ocorrido no mesmo dia da sua primeira aula na faculdade.
Inspirada pelas duas professoras que mais a marcaram, Ruth Cardoso e Giocanda
Mussolini, Consuelo quis ser antropóloga e acadêmica como elas. Mas foi
desaconselhada por Décio de Almeida Prado, que não a considerava talhada para o
ofício. O sentimento de urgência e de inquietação que ela sentia, no entender
do crítico, seria mais bem canalizado em outra direção. Ela escolheu o teatro.
O interesse pela dramaturgia, alimentado pelas leituras, pela vivência na
cidade e pela militância no Partido Comunista, foi sedimentado no decorrer da
graduação, no prédio da rua Maria Antônia, epicentro do movimento estudantil,
em meio à convivência com Plínio Marcos. No último ano do curso, ela largou a
faculdade e se profissionalizou como publicitária. Mas não a abandonou como
assunto e eixo de sua formação, como atesta a primeira peça, Prova de fogo.
Proibida pela censura, ela trouxe, porém, um notável rendimento simbólico para
a autora, que aos vinte e dois anos virou uma "celebridade" no meio teatral.
Nas palavras de Consuelo,
Todos os diretores queriam fazer [a peça]. Ela estava sendo montada
pelo Oficina. Estava em processo de leituras quando foi proibida pela
censura em todos os itens, aí saiu nos jornais. Eu fiquei muito
orgulhosa, porque eu pensava assim: Bom, se eu, mineira, com meu
jeanzinho, bota ''topa-tudo"... - a gente usava uma bota da
Alpargatas, chamada "topa-tudo", para fugir da polícia. Ela era dessa
altura assim, de borracha, ninguém pegava a gente com aquilo, a gente
voava, era uma ave com aquela bota, era uma bota que era o uniforme
do pessoal da Filosofia - então uma menina com aquela bota topa-tudo,
aquele velho jeans desbotado, uma camisetinha e sem saber - eu não
sei até hoje como se mexe com revólver - então ser tão perigosa, eu
falei: Gente, mas eu sou o máximo! Eu falei para você no depoimento e
vou dizer aqui: eu acho que a censura foi quem mais levou a sério a
dramaturgia, foi quem nos deu o impulso. Eu devo à censura ter me
explicado que era por aí, porque, se com uma simples peça eu consigo
fazer um estrago destes, se eles acham que eu posso fazer esse
estrago, então é isso mesmo, eu quero fazer este estrago, então é por
aí que eu vou fazer. Minha fé no teatro vem daí38.
A segunda peça de Consuelo de Castro, À flor da pele, escrita um ano depois de
Prova de fogo, estreou em 1969, em São Paulo, no teatro Paiol. Miriam Mehler
fez o papel de Verônica; Perry Salles interpretou Marcelo, o professor de
dramaturgia, escritor de novela, casado, pai de uma filha adolescente e amante
da protagonista. Para o sucesso da peça contribuíram a direção de Flávio
Rangel, a atuação dos intérpretes, a temática ventilada sem peia, o vigor do
texto. O drama que leva Verônica ao suicídio condensa o impasse vivido por duas
gerações: a da autora da peça e daquela que a precedeu - prensada entre as
constrições da vida adulta, o acerto de contas com as ilusões políticas do
passado, a aceitação amargurada das limitações do presente, o acicate da
diferença geracional, o escape da relação amorosa extraconjugal.
A resposta do público foi imediata. A da crítica também. Todos os críticos
importantes se manifestaram para ressaltar a força do espetáculo e a urdidura
do texto. Entre as avaliações recebidas, vale a pena destacar a de Antonio
Candido. Ao contrário de Décio de Almeida Prado, cujo treino na leitura da
literatura dramática o capacitava a imaginar de imediato o desdobramento no
palco, para Candido "o efeito da leitura depende das qualidades propriamente
literárias, desde a fatura com o que o autor constrói o desenvolvimento até o
recado final, que é a mensagem"39.
Por essa razão, não foram poucas as vezes em que Antonio Candido se surpreendeu
com "a diferença entre o que leu e o que viu; ou, pelo contrário, a diferença
entre o que viu e o que leu depois". Na peça de Consuelo de Castro essa
surpresa não se manifestou. Em 1969, quando assistiu à primeira montagem de À
flor da pele, ele gostou tanto que voltou ao teatro para vê-la de novo, "porque
desejava refazer a experiência daquele choque dramático intenso, que mantinha o
público num ritmo ofegante de catástrofe". A maneira como a autora "desenha o
conflito como condição das relações, das quais ele é ao mesmo tempo a maldição
e o combustível"; a coragem de trazer para uma peça "modernamente
anticonvencional, o punhal suicida dos dramalhões", com o propósito de
sublinhar os dilemas, as angústias e os impasses da época; "a capacidade de
fazer sentir o que era comum a toda uma geração, mas expresso no plano
irredutível do que há de mais individual em cada um", explicam a adesão total
que Antonio Candido sentiu entre o texto e o espetáculo, entre o que ele viu e
o que leu40. Explica também para os que não o viram, mas leram o texto, o
alcance da peça, as razões de seu impacto junto ao público e a ressonância que
ela tem até hoje, quarenta e quatro anos depois da primeira montagem.
5
Leilah Assumpção e Consuelo de Castro tornaram-se conhecidas em 1969. A
coincidência da data não é casual. Ela registra o início da autoridade cultural
das mulheres na dramaturgia, um domínio até então masculino. Na divisão de
trabalho que então sustentava o universo teatral, as mulheres tiveram uma
presença constante e marcante como atrizes, mas foram quase ausentes como
autoras41. Enquanto o trabalho de ator era facultado a homens e mulheres, o da
dramaturgia era privilégio ou atributo dos homens. Entre o polo mais "feminino"
da representação, ocupado por atores e atrizes, e o mais "masculino" da
dramaturgia, exercido pelos autores, encontravam-se os diretores e as
ensaiadoras, com claro e diferenciado reconhecimento para os primeiros.
Na virada da década de 1960, esse panorama se alterou. As mulheres entraram na
cena escrita não mais de forma isolada e esporádica, mas como "um conjunto de
nomes de autores que, por sua vez, integra um grupo mais amplo de dramaturgos
estreantes, o qual veio a ser conhecido como o da nova dramaturgia"42. A
novidade era dupla: de gênero e de procedência cultural e institucional. Da
"inquieta república de que a faculdade da Rua Maria Antônia era um dos centros
de irradiação"43 - na imagem precisa de Antonio Candido para se referir à
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, antes
de sua transferência para o campus universitário - vieram alguns dos nomes mais
expressivos da "nova dramaturgia"44.
Mariazinha e Verônica, as protagonistas das peças abordadas, condensam uma
parte importante da experiência social das mulheres no período. Vistas de
relance, elas são muito diferentes. Mas, quando examinadas de perto, à luz das
novas experiências e dos novos desafios que se abriram no plano da sexualidade,
na vida púbica e no rearranjo das relações de gênero, elas parecem ser a face e
a contraface uma da outra. Ambas são impensáveis sem a experiência fervilhante
da metrópole e o esgarçamento em curso dos estilos dominantes de feminilidade e
de família. Mariazinha estava fora da universidade; Verônica, dentro dela. O
transe imaginário de Mariazinha por alguns dos espaços mais representativos da
cidade (a Praça Roosevelt, a rua Augusta, o cemitério da Consolação, o Mappin)
é acompanhado pela implosão da contenção infantilizada que a caracteriza e pela
liberação vicária de energias solapadas e desejos recalcados. Verônica, por sua
vez, faz a primeira aparição em cena como jovem liberada, desafiante e
contestatória, ciente da represália do amante, pela ousadia que tivera de bater
na casa dele, bêbada, para contar para a mulher e a filha sobre o caso que
mantinham há três anos. Envergonhada e a um só tempo envaidecida com o que
fizera, ela relata o incidente com o recurso da ironia e o sustenido do
dramalhão. Os mesmos recursos que ela usará para sair de cena e da vida.
Personagem complexa e dilacerada, Verônica dá a ver o diapasão cerrado de
possibilidades que interpelavam as mulheres da geração dela e da autora que a
pôs no palco.
Há, assim, uma incontornável relação entre as feições das dramaturgas e das
personagens que elas criaram. Verônica é uma projeção ambivalente de Consuelo
de Castro e da linha de frente de sua geração. Mariazinha não é Leilah. Ela era
sem graça, contida, limitada. Leilah, ao contrário, era exuberante, inquieta,
modelo de alta-costura, pedagoga de formação. Mas uma poderia ter sido a outra
se tivessem passado pelos mesmos espaços que dividiram o destino social de
ambas - a Faculdade de Filosofia, o movimento estudantil, o teatro.
Uma rápida comparação entre Mariazinha e Verônica, de um lado, e Lucília, a
personagem mais pé no chão de A moratória (1955), de Jorge Andrade45, ajuda a
tornar mais claro o protagonismo diverso que as três tiveram na cena teatral da
metrópole. Na peça de Jorge Andrade, os personagens, antes de serem
caracterizados com os traços da psicologia individual, são "o Pai, a Mãe, o
Filho, a Filha; e os atos, pensamentos e desejos que deles derivam, ligam-se
menos à história isolada de cada um do que à história da propriedade a que
pertencem. É a perda da fazenda que explica a revolta do pai, o fracasso do
filho, a crispação subterrânea da filha, a desencantada abnegação da mãe"46.
Lucília, a filha e a protagonista da peça, é a "única personagem que abandona a
lamúria pela fortuna perdida e enfrenta com decisão a realidade"47.Realista e
avessa ao exercício complacente do autoengano, empenhada na sobrevivência da
família com o auxílio da máquina de costura que lhe serviu de hobby quando
menina rica e bem-vestida e que, no momento do descenso, tornou-se a fonte de
sustento da família, Lucília expõe sem meios-tons a ruína que dilacera a todos.
Ela recusa a proposta do noivo para que os pais dela fossem morar com eles
depois do casamento, porque, não estando mais de "igual para igual"48, isso
seria uma humilhação para o pai e para ela também. O noivo, que até a derrocada
da família representava muito para ela "no meio que [lhe] pertencia e que agora
não pertence mais"49, deixara de suscitar a paixão de antes. Não por vontade
dele, mas dela. A consciência do rebaixamento social e a vivência de
sentimentos ambivalentes no registro forte do ressentimento crispado a impedem
de deixar os pais para ter uma vida própria, ao mesmo tempo que a levam a
romper o noivado.
Família é tudo que Verônica não quer. Numa conversa ao telefone com o amigo e
colega de faculdade, ouvimos Verônica repetir em voz alta:
- O exame? Deu duvidoso. Veja você; tudo comigo tem que ser mais ou
menos. Azar... Pois é. Posso estar grávida, como posso não estar.
[...] Não falei nada pro Marcelo [o professor e amante]. Ele ia dar
uma de romântico e ia querer ter o filho. Mas eu vou rezar para dar
negativo o resultado. Que filho, Toninho. Você ficou louco? Pra que é
que eu vou querer um filho? [...]E já pensou o desastre se o Marcelo
resolver criar a criança à maneira dele? [...] O pior não é isso. O
pior é se for menina. Não quero nem saber. Eu já não aguento comigo
[...] Essas pílulas... Eu me atrapalho toda. Isto é que é. Tomo tudo
errado, ou então esqueço de tomar. Foi por isso que já engravidei de
besta umas mil vezes já [...] Eu tinha brigado com o Marcelo. Aí,
joguei o pacotinho das pílulas no lixo, em sinal de protesto. E
estava na metade do mês - arremata Verônica, aos risos, dançando iê-
iê-iê, antes de encerrar a conversa com o amigo50.
O rompimento violento com o pai, o aborto involuntário, mas desejado, o
sarcasmo com que se refere à família (a "sagrada instituição"), o desejo de pôr
fogo em tudo são indicadores eloquentes do protagonismo desvairado de Verônica.
A constatação de que isso não seria mais possível em vida levou-a a ser
protagonista da própria morte.
Contida, carente, desengonçada, apesar do esforço diário para se manter
impecável, Mariazinha vivia aprisionada no universo de restrições sociais e
psíquicas da classe média rebaixada. O aceno de uma vida mais livre, propiciado
pelo passeio imaginário pela cidade na companhia do homem que invadira seu
quarto, é pesado na balança oscilante do resguardo e da entrega. Num dos
momentos mais pungentes da peça, o homem, que não tem nome, insiste para que
continuem a "voar nas nuvens, leves, leves". Evasiva, ela menciona "o viaduto,
o bar, o viaduto, o bar, o Municipal". Em seguida, como se estivesse
encurralada, grita: "O viaduto! O viaduto! O viaduto aqui na minha frente! O
Viaduto"51. O desejo cifrado do suicídio é desfeito e estancado com a palavra
para-raios (o Mappin) e a lembrança súbita das obrigações, simbolicamente
enfeixadas no pagamento da prestação que ela contraíra junto à loja de
departamentos mais conhecida de São Paulo na época.
A família de Mariazinha, ausente da vida dela no pensionato, se materializa nos
objetos e nos móveis de seu quarto, com os quais ela conversa, pede e concede
bênção, compartilha o desconcerto diante do mundo. Embora seja muito menos
afirmativa que Verônica, que, além de mais jovem, era socialmente mais elevada
e existencialmente mais trunfada pelos deslocamentos e pela inscrição em
espaços que não lhes eram franqueados (a Europa, a casa luxuosa dos pais, a
faculdade onde cursava as artes cênicas, o apartamento onde se encontrava com o
professor e amante), Mariazinha está longe de ser apenas uma vítima passiva.
Seu protagonismo advém do gradiente complexo de sentimentos, tão bem captado
pela atriz que lhe deu vida no palco e pela autora que a criou com as palavras.
O protagonismo das personagens e de suas autoras é inseparável da experiência
delas na metrópole. São Paulo aparece nas peças por intermédio das ruas,
logradouros e instituições que aglutinam o imaginário na época sobre os
prazeres perigosos e transgressivos da cidade: as ruas Augusta, Aurora e
Consolação, o Teatro Municipal, a Faculdade de Filosofia, o Mappin. O leque
social dessa geografia urbana abarca os espaços de circulação e sociabilidade
da juventude, do sexo pago com dinheiro, da cultura da elite, do saber
contestatório e do consumo conspícuo resumido na primeira loja de departamentos
da cidade, o Mappin, inaugurada em 1913.
Desdobramento nacional dos department stores ingleses, como a Harrods, e dos
grandes magazins franceses, como o Printemps e o Bon Marché, o Mappin
destinava-se, de início, a um segmento reduzido de mulheres privilegiadas que
não mediam tempo, esforço e dinheiro para adquirir novas mercadorias e novos
hábitos de consumo52. Com a deterioração progressiva do centro da cidade e o
deslocamento das elites para outros bairros, ele foi se convertendo em uma loja
para as camadas médias e remediadas, que, como Mariazinha, podiam pagar os
sonhos de consumo com o recurso da prestação.
No final dos anos 1960, o Mappin virou também presença obrigatória na trilha
urbana dos jovens politizados de classe média, em luta aberta contra a censura
e a ditadura. Sua localização era estratégica: em frente ao Teatro Municipal,
bem no "olho" da cidade. Além dos espetáculos culturais montados para as
elites, o teatro abrigava em suas escadarias comícios variados. "Os conchavos,
os pré-conchavos e o conchavo dos conchavos"53, que antecediam os comícios e o
deslocamento dos jovens em direção ao Teatro Municipal, eram finalizados nas
portas da entrada do Mappin. Ali decidiam a política, fruíam a sociabilidade,
partiam e chegavam da Faculdade de Filosofia, da Biblioteca Municipal, dos
bares, dos cafés e dos teatros localizados nas imediações. Segundo Consuelo de
Castro, "havia uma cumplicidade entre o espaço e as pessoas. A cidade era
nossa. Havia também uma sensação de que ela nos esconderia, de que ela era
segura". Esse sentimento de pertencimento, de intimidade com o espaço público,
foi rompido com a ditadura. "Ela tirou essa sensação da gente"54 - nas palavras
da dramaturga.
6
Mariazinha e Verônica condensam as transformações que ocorreram na cidade, na
dramaturgia e na plateia, motivadas pela alteração da composição social do
público e do padrão de recrutamento do alunado do ensino superior no campo das
humanidades. Ao contrário das faculdades tradicionais (direito, medicina e
engenharia), a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências foi, desde o início,
bem mais receptiva às moças e aos descendentes de famílias imigrantes. E isso
teve um efeito visível (e notável) no plano cultural. A entrada em cena dos
filhos da segunda ou terceira geração de imigrantes de variadas procedências, a
maneira desopilada com que os imigrantes foram tratados na dramaturgia de Jorge
Andrade, o foco na estreia das peças de Leilah Assumpção e Consuelo de Castro,
o exame detalhado das personagens femininas que as protagonizaram em plena
vigência dos parâmetros de censura e repressão impostos pelo regime militar,
tudo isso, quando escrutinado de perto, permite recuperar a reelaboração
dramática à luz das injunções de classe e de gênero que enredavam os
personagens, seus inventores, a sociedade em cena e a sociedade real do
público.
Leilah e Consuelo fizeram valer os trunfos da formação sofisticada recebida na
Universidade de São Paulo para driblar as vicissitudes de uma cena cultural
ainda hostil e reticente às pretensões de dicção e criação autoral das
mulheres. O aprendizado misturado à sociabilidade praticada por inteiro no
centro de irradiação da universidade garantiu às jovens estreantes na
dramaturgia a ousadia necessária para assumirem riscos na escrita (e na vida).
As peças de estreia que as tornaram conhecidas, calibradas pelo viés das marcas
de classe e de gênero, desarrumaram as convenções dramáticas usuais. Em pleno
regime militar, elas miraram as experiências desconcertantes das protagonistas
femininas e os impasses de toda ordem que as condensavam - materiais,
profissionais, sexuais, éticos. Mas, no lugar de encapsularem as personagens no
quadro estreito da chamada condição das mulheres, elas encenaram relações de
gênero. Materializadas nos objetos, no par amoroso, nos estilos de feminilidade
e masculinidade, elas foram corporificadas também pelas personagens masculinas
que a um só tempo atiçavam a libido, solapavam as balizas correntes do
relacionamento amoroso e escancaravam os limites de todos no mundo social em
transformação convulsa retratado nos palcos.
Fala baixo senão eu grito e À flor da pele, como dão a entender as faíscas
insinuadas nos títulos, arriscaram inovações substantivas em diversas frentes e
dimensões. Constituíram as protagonistas femininas em sujeito da ação, o
retrovisor das projeções do espectador, o móvel dos dilemas éticos. Fizeram com
que a temática feminina invadisse o cerne da trama e se convertesse em filtro
privilegiado das mudanças sociais em curso, prensadas entre o desgaste dos
modelos tradicionais de classe e de gênero, o influxo de energias represadas, o
acerto de contas com as utopias e os desacertos políticos do passado recente; o
deslocamento da urgência da transformação para o plano das relações amorosas,
menos sujeitas às investidas crescentes da ditadura e da censura. Assim como as
novas carreiras universitárias nas humanidades impulsionaram "vocações" de
moças talentosas, os palcos da metrópole paulista forneceram régua e compasso
para o desenho de novos sujeitos e novos regimes de enunciação. Ecoaram
experiências de vida que pouco tempo depois seriam abordadas com radicalidade
pelo movimento feminista e diluídas pela mídia, em especial pela televisão,
voltada para um público mais amplo, segmentado e diversificado do que aquele
que frequentava os palcos da cidade55.
* Este artigo beneficiou-se das discussões promovidas no "Projeto Temático
Fapesp - Formação do campo intelectual e da indústria cultural no Brasil
contemporâneo". Agradeço a leitura aguda de Sergio Miceli, Marcelo Ridenti,
Fernando Pinheiro, Maria Filomena Gregori, Luís Felipe Sobral e Luiz Gustavo
Freitas Rossi. Agradeço ainda o apoio do cnpq, concedido sob a forma de uma
bolsa de produtividade em pesquisa.
1 Cf. Schorske, Carl. Viena fin-de-siècle. São Paulo: Companhia das Letras,
1993, p. 40.
2 A estimativa de Alexandre Dumas filho de que as apresentações teatrais no
século XIX podiam atingir mais de 1500 pessoas a cada espetáculo diz muito
sobre o alcance dessa arte nos palcos das grandes cidades europeias - Paris,
Londres, Viena e Berlim. Como mostra o historiador Christophe Charle, as peças
de sucesso da época difundiram novas representações sociais muito antes e muito
além das camadas que tinham acesso à literatura. Romances com tiragens em torno
de 100 mil exemplares só apareceram no final do século XIX. Já as peças
representadas mais de cem vezes para grandes plateias eram frequentes desde os
anos 1850. Principal entretenimento do século XIX, o teatro esteve desde sempre
na mira da censura. E por muito tempo. Na França ela só foi abolida em 1906, em
Berlim e Viena perdurou até o final da Primeira Guerra. E na Inglaterra, tão
liberal no plano político, ela se estendeu até a década de 1960. Tamanha
ingerência do Estado e dos censores é proporcional ao efeito de real produzido
pela encenação no palco, bem mais duradouro que o suscitado pela leitura
solitária de um livro. Cf. Charle, Christophe. A gênese da sociedade do
espetáculo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. Ver também
o prefácio que escrevi para esse livro, "Introdução à edição brasileira.
Sociedade em cena", pp. 9-18.
3 Para o aprofundamento desse pressuposto, enfeixado pela relação entre cidade,
teatro, público e sociedade, ver Auerbach, Erich. "La cour e la ville" (In:
Ensaios de literatura ocidental. São Paulo: Duas Cidades/Ed. 34, 2007); Schorske, Carl. "Grace and the word: Austria's two cultures
and their modern fate" (In: Thinking with history: explorations in the passage
to modernism. Princeton University Press, 1998); Charle,
Christophe. Théâtres en capitales (Paris: Albin Michel, 2008) e A gê nese da sociedade do espetáculo (op. cit.); e Pontes, Heloisa.
Intérpretes da metrópole (São Paulo: Edusp/Fapesp, 2010).
4 Cf. Pontes, Heloisa e Miceli, Sergio. "Memória e utopia na cena teatral".
Sociologia & Antropologia, vol. 2, n. 4, 2012, pp. 241-63.
5 Para uma visão abrangente dessa articulação e suas implicações, ver de
Marcelo Ridenti: Em busca do povo brasileiro. Rio de Janeiro: Record, 2000; "Caleidoscópio da cultura brasileira: 1964-2000". In: Miceli,
Sergio e Pontes, Heloisa (orgs.). Cultura e sociedade (Brasil e Argentina). São
Paulo: Edusp (no prelo).
6 Cf. Napolitano, Marcos. "A arte engajada e seus públicos, 1955-1968". Estudos
Históricos, no 28, 2001. Para uma visão abrangente das
transformações culturais em curso no período, ver Ortiz, Renato. A moderna
tradição brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1988.
7 Cf. Schwarz, Roberto. "Cultura e política, 1964-68". In: O pai de família e
outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p. 81.
8 Ibidem.
9 Ibidem, p. 69.
10 Uma das táticas usadas pelos autores para contornar os censores era colocar
"muitos palavrões nas peças, para a hora da 'barganha'. E assim trocávamos,
muitas vezes, sete palavrões da pesada e nove médios, que cortávamos, pela
liberação de uma frase que considerávamos de real importância". Cf. Assumpção,
Leilah. Na palma da minha mão. São Paulo: Globo, 1998, p. 114.
11 Cf. Assumpção, Leilah. "Fala baixo senão eu grito". In: Onze peças de Leilah
Assumpção. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2010, pp. 95-158.
12 Cf. Castro, Consuelo de. "À flor da pele". In: Urgência e ruptura. São
Paulo: Perspectiva/Secretaria de Estado da Cultura, 1989, pp. 119-83.
13 Cf. Vincenzo, Elza Cunha. Um teatro da mulher: dramaturgia feminina no palco
brasileiro contemporâneo. São Paulo: Edusp/Perspectiva, 1992, p. 92.
14 Marília Pera estreou no palco aos quatro anos, em 1951, na companhia de
Henriette Morineau, Os Artistas Unidos, onde trabalhavam os pais, o ator Manoel
Pera e a atriz Dinorah Marzullo. Carioca, iniciou a carreira no período em que
o teatro brasileiro procurava "acertar os ponteiros" com as rotinas do teatro
moderno, tal como estabelecidas na cena internacional. E, embora ela não tenha
participado diretamente desse movimento de renovação, foi beneficiária dos seus
efeitos, sob o ponto de vista das conquistas feitas no plano da dramaturgia e
da concepção do espetáculo teatral.
15 Para um desenvolvimento dessa ideia, ver Pontes, Heloisa. "A burla do
gênero: Cacilda Becker, a Mary Stuart de Pirassununga". Tempo Social, vol. 16,
no 1, 2004, pp. 231-62.
16 Cf. Del Rio, Jefferson. "Leilah e o tempo". In: Pace, Eliana. Leilah
Assumpção: a consciência da mulher. São Paulo: Imprensa Oficial, 2007, Coleção
Aplauso, p. 118.
17 Trechos do depoimento de Marília Pera transcritos no livro Vissi d'arte (de
Marília Pera e Flavio de Souza), São Paulo: Escrituras, 1999, p. 75.
18 Ibidem.
19 Ibidem, p. 78.
20 Todas as citações desse parágrafo são de Leilah Assumpção e encontram-se em
Pace, Eliana. Leilah Assumpção: a consciência da mulher, op. cit., p. 50.
21 Cf. Pera e Souza, op. cit., p. 71.
22 A viagem à Europa naquele período foi uma experiência "iniciática" para
muitos artistas importantes da época. Refúgio contra a perseguição acionada
pela ditadura, ela foi também um espaço de aprendizado da contracultura e da
liberdade propiciada pelo deslocamento. Cacilda Becker (1921-1969), a grande
atriz do teatro paulista, teve essa experiência um ano antes de sua morte
precoce, na companhia do ator e então marido Walmor Chagas no momento em que
ambos tentaram, sem sucesso, uma nova reconciliação. A viagem, iniciada pelos
Estados Unidos, se estendeu pela Europa, durou três meses e teve, segundo Décio
de Almeida Prado, um efeito notável sobre Cacilda. Lá, ela "fumou maconha, viu
espetáculos recentes de vanguarda e voltou modificada. Perdera o medo da
pobreza". Cf. Prado, Décio de Almeida. Peças, pessoas, personagens. São Paulo:
Companhia das Letras, 1993, p. 150.
23 O sucesso de Fala baixo senão eu grito pode ser medido pelos prêmios que
Leilah Asumpção recebeu, pela longevidade que a peça conheceu no Brasil e pelas
montagens que foram feitas no exterior. Ela estreou, como vimos, em 1969; no
ano seguinte foi montada no Rio; em 1971, em Curitiba; em 1972, em Bruxelas, na
Bélgica (com essa montagem Leilah recebeu uma Menção Especial da Sociedade
Brasileira de Autores Teatrais pelo recorde de permanência de uma peça
brasileira no exterior); em 1973, ela foi apresentada em Belo Horizonte; em
1974, tornou a ser montada em São Paulo; em 1975, foi encenada em Paris, em
1976, estreou em Salvador, em 1977, foi montada em Buenos Aires e, mais tarde,
em Portugal e Cuba. As informações sobre a trajetória da peça encontram-se em
Pace, op. cit., p. 53.
24 Cf. Del Rio, op. cit., p. 116.
25 Informação obtida em Pace, op. cit.
26 Cf. Candido, Antonio. "Vereda da salvação". In: Andrade, Jorge. Marta, a
árvore, o relógio. 2-ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1986, p. 631.
27 Ibidem, p. 632.
28 Como que antevendo o fim, o programa traz um histórico sintético da
companhia e informa que ela apresentara 144 peças, entre 1948 (ano de sua
inauguração) até 30 de junho de 1964. Com Vereda da salvação, cuja estreia se
deu em 1-º de julho, completaria 145, ao longo de seus 16 anos de existência
com elenco estável, dirigido de início por diretores estrangeiros de
nacionalidades diversas e, mais tarde, por brasileiros de reputação e prestígio
no meio, como Flávio Rangel e Antunes Filho. Das 145 peças encenadas, a maioria
(111) era de dramaturgos estrangeiros, ainda que no programa de Vereda da
salvação haja um destaque maior para as peças de autores brasileiros. Estas, em
termos absolutos (34 no total), ficavam em segundo lugar, logo após as 35 peças
de autores ingleses levadas ao palco. Ao todo, foram 8.990 representações -
sendo 6.551 em São Paulo, 2.363 no Rio de Janeiro e 76 no interior - e quase
dois milhões de espectadores (1.991.128, distribuídos da seguinte maneira:
1.332.767 em São Paulo, 538.885 no Rio de Janeiro e 39.476 no interior). Esses
dados encontram-se transcritos no programa de Vereda da salvação (1964). Remeto
o leitor interessado no aprofundamento da história do TBC ao trabalho de
Alberto Guzik, TBC: crônica de um sonho (São Paulo: Perspectiva, 1986) e ao meu
livro, Intérpretes da metrópole (op. cit.).
29 Professor, ator e diretor russo radicado no Brasil, com ampla atuação no
teatro paulista, Eugênio Kusnet (1189-1975) atuou na Companhia Maria Dela
Costa, no TBC e no Teatro de Arena, antes de integrar-se, em 1962, ao Teatro
Oficina.
30 Cf. Assumpção, Na palma da minha mão, op. cit., p. 56.
31 Cf. Prado, Décio de Almeida. "As provas de fogo". In: Castro, Urgência e
ruptura, op. cit., p. 518.
32 Cf. Magaldi, Sábato. "Um documento exemplar". In: Castro, Urgência e
ruptura, op. cit., p. 517.
33 Ibidem, p. 516.
34 Cf. Michalski, Yan. "Consuelo de Castro: sempre urgente. Sem rupturas". In:
Castro, Urgência e ruptura, op. cit., p. 23.
35 As citações dessa frase são de Consuelo de Castro e foram retiradas da
transcrição do depoimento audiovisual que ela concedeu, em 2006, aos sessenta
anos, para Daisy Perelmutter e Luis Francisco de Carvalho, no âmbito do projeto
"Memória oral da Biblioteca Mário de Andrade".
36 O primeiro contato de Consuelo de Castro com Guilherme de Almeida foi
intermediado pela mãe de uma colega de escola, amiga da mãe do escritor, que se
prontificou a levar os poemas de Consuelo para o filho ler. "Ele gostou e me
ligou. Imagine que chique", nas palavras de Consuelo. Combinaram, então, um
encontro na Biblioteca Municipal. Aconselhada por ele, ela não parou mais de
frequentar a biblioteca, não só para ler, mas para ter um lugar tranquilo para
escrever. "Na verdade - prossegue Consuelo - ele sabia que a minha vida era uma
bagunça e que eu não ia conseguir me concentrar em nenhum outro lugar. E foi
uma boa dica." Trecho do depoimento de Consuelo de Castro para o projeto
"Memória oral da Biblioteca Mário de Andrade", op. cit., pp. 5-6.
37 Cf. Michalski, op. cit., p. 15.
38 Trecho do depoimento de Consuelo de Castro para o projeto "Memória oral da
Biblioteca Mário de Andrade", op. cit., p. 22.
39 Cf. Candido, op. cit., p. 525.
40 Todas as citações do parágrafo são de Antonio Candido e encontram-se no
artigo citado, pp. 525-26.
41 Nos grupos e nos elencos, a figura da primeira atriz, remodelada pelas
concepções do teatro moderno, continuou a ter grande centralidade, mesmo quando
o nome dela não vinha estampado no nome da companhia. Para a manutenção de tal
centralidade, as mulheres fizeram valer a competência adquirida como atrizes,
com a anuência e apoio de seus parceiros. Não aleatoriamente singularizaram ou
mesclaram seus nomes artísticos aos de suas companhias, como procurei mostrar
em Intérpretes da metrópole.
42 Cf. Vincenzo, op. cit., p. XIX. Entre os nomes isolados de autoras com
passagem pela dramaturgia entre os decênios de 1930 a 1950, encontram-se Maria
Jacinta (Trovão da Costa Campos), autora de Conflito, encenada em 1939 pela
Companhia Dulcina de Moraes; Clô Prado, autora de Diálogo de surdos, encenada
em 1952 pelo TBC; Rachel de Queiróz, autora de Lampião, encenada pela Companhia
Nydia Licia-Sergio Cardoso; e Edy Lima, autora de A farsa da esposa perfeita,
montada pelo Teatro de Arena, em 1959.
43 Cf. Candido, op. cit., p. 525.
44 Segundo o crítico Jefferson Del Rio, a geração teatral de Leilah Assumpção e
Consuelo de Castro é "quase toda da Universidade de São Paulo - mais
especificamente o território intenso e, no fim, perigoso da Rua Maria Antônia.
Timochenco Wehbi cursou Sociologia, [como Consuelo] José Vicente de Paula fez
Filosofia, Mário Prata, Economia. Antônio Bivar e Eloy Araújo, que estudaram
teatro no Rio de Janeiro e em São Paulo, eram a exceção". Cf. Del Rio, op.
cit., pp. 117-18.
45 Andrade, Jorge. "A moratória". In: Marta, a árvore e o relógio. 2-ª ed. São
Paulo: Perspectiva, 1986.
46 Cf. Souza, Gilda de Mello. "Teatro ao sul". In: Exercícios de leitura. São
Paulo: Duas Cidades, 1980, p. 114.
47 Cf. Magaldi, Sábato. "Dos bens ao sangue". In: Andrade, Marta, a árvore e o
relógio, op. cit., p. 650.
48 Cf. Andrade, "A moratória", op. cit., p. 155.
49 Ibidem, p. 156.
50 Cf. Castro, "À flor da pele", op. cit., pp.149-50.
51 Cf. Assumpção, Fala baixo senão eu grito, op. cit., p. 154.
52 Para uma análise densa e original do Mappin, na linha da história social,
ver Bonadio, Maria Claudia. Moda e sociabilidade: mulheres e consumo na São
Paulo dos anos 1920. São Paulo: Ed. do Senac, 2007.
53 Cf. Depoimento de Consuelo de Castro para o projeto "Memória oral da
Biblioteca Mário de Andrade", op. cit., p. 48.
54 Ibidem, p. 9.
55 Sobre a tematização dessas experiências de vida pelo movimento feminista,
ver Pontes, Heloisa. Do palco aos bastidores: o SOS Mulher e as práticas
feministas contemporâneas. Campinas: dissertação de mestrado, Departamento de
Antropologia, UNICAMP, 1986. Sobre a ressignificação que elas sofreram na
televisão, ver Almeida, Heloisa Buarque de. Pedagogia feminista no formato da
teledramaturgia, São Paulo, 2013 (mimeo). Como mostra a autora, o seriado Malu
Mulher, exibido pela Rede Globo, trouxe "à cena uma 'nova mulher' que as
camadas médias urbanas pareciam buscar na televisão no começo da modesta
abertura do regime militar [...] De um modo um tanto ousado para a Rede Globo
de então, mas já corriqueiro noutras produções culturais mais afeitas à elite
cultural do país, nota-se assim uma certa transformação no ideal de
feminilidade que passa a ser promovido também nas telenovelas".