A gestão macroeconômica do governo Dilma (2011 e 2012)
O governo Dilma manteve o regime de política macroeconômica1 ancorado nas metas
de inflação e de superávit fiscal primário e na flutuação (suja) da taxa de
câmbio. Não obstante, mudanças importantes introduzidas na gestão desse regime
o tornaram mais flexível. A obtenção de taxas mais elevadas de crescimento
econômico (com destaque para a recuperação da indústria) passou a ocupar uma
posição central entre os objetivos dessa política em 2011 e 2012. Além disso,
houve uma ampliação da gama de instrumentos utilizados, que não se limitaram
aos instrumentos convencionais das políticas monetária, fiscal e cambial. E,
por fim, a melhor coordenação entre as autoridades econômicas, em especial
entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central do Brasil (bcb), possibilitou
uma maior convergência dos objetivos e, consequentemente, uma maior eficácia do
conjunto de políticas implementadas.
Entre 2011 e 2012, podem ser identificados três períodos distintos na
orientação da política macroeconômica do governo Dilma. No primeiro período,
que abarca o primeiro semestre de 2011, as políticas monetária e fiscal tiveram
um caráter restritivo, no intuito de arrefecer a atividade econômica e, assim,
conter a aceleração inflacionária observada naquele momento. A diretriz de
política do novo governo alinhou-se, então, às iniciativas adotadas no final do
governo Lula2, tais como as medidas macroprudenciais no mercado de crédito de
dezembro de 2010, que procuravam reduzir os riscos associados à forte expansão
dos empréstimos com recursos livres às famílias, mas que também contribuíram
para a desaceleração da demanda. Nesse período, novas medidas macroprudenciais
no mercado de câmbio e controles de capitais foram adotados no sentido de
conter a tendência de apreciação do real, resultante do maior diferencial entre
os juros internos e externos.
O contexto do segundo período, que se inicia em agosto de 2011 e termina em
junho de 2012, foi condicionado pelo aprofundamento da crise da área do euro3.
Diante da acentuada desaceleração da atividade econômica, o governo adotou
medidas anticíclicas, embora menos intensas que aquelas tomadas em 2008/09:
redução da taxa básica de juros, estímulos creditícios e desoneração
tributária. A deterioração do cenário externo e a desaceleração da inflação
abriram caminho para a reorientação dos objetivos da política econômica para
priorizar a diminuição do diferencial entre a taxa básica de juros brasileira
(Selic) e as taxas de juros internacionais. Em contrapartida, para garantir
estabilidade monetária com taxas de juros mais baixas e taxa de câmbio
competitiva para o setor industrial, o governo anunciou uma contenção adicional
de gastos públicos, reforçando seu compromisso com a austeridade fiscal, e
ampliou os controles de capitais diante do receio de uma nova enxurrada de
capitais externos após a expansão de liquidez pelo Banco Central Europeu (bce),
em dezembro de 2011 e fevereiro de 2012.
Esse conjunto de medidas, todavia, não gerou estímulos suficientes para
reativar o nível de atividade e o investimento produtivo. O terceiro período,
que compreende o segundo semestre de 2012, foi marcado, então, pelo
aprofundamento da desaceleração da atividade econômica. Com o objetivo de
estimular a economia, além da redução da meta da taxa básica Selic, os bancos
públicos agiram novamente de forma anticíclica (à semelhança do observado em
2008 e 2009), mitigando o efeito negativo sobre a oferta de crédito da perda de
ritmo do crédito concedido pelos bancos privados e assegurando que as reduções
da taxa básica de juros atingissem os tomadores finais.
Combinadas a essas medidas, formas mais diretas de atuação sobre a demanda com
a flexibilização da política fiscal foram adotadas pelo governo. A estratégia
foi a adoção de pacotes de compras governamentais e de investimentos públicos,
que compõem uma política fiscal de estímulo ao crescimento econômico de caráter
mais ativo e direto em comparação com a desoneração tributária que até então
vinha sendo privilegiada. No caso do investimento, o estímulo extra ocorreu por
meio do Programa de Sustentação do Investimento (psi), que passou a cobrar, até
dezembro de 2012, juros negativos na aquisição de máquinas e equipamentos.
O processo de aceleração inflacionária, que teve início no final de 2012 e se
estendeu pelo primeiro semestre de 2013, associado ao resultado decepcionante
do crescimento econômico de 2012, explicitou os dilemas do regime de política
macroeconômica e os limites da própria estratégia de flexibilização, que
caracterizou o primeiro biênio do governo Dilma. O combate à inflação, que
havia cedido espaço para a busca de um crescimento econômico mais acelerado,
voltou a ocupar o topo das prioridades do governo em 2013. Assim, diante da
manutenção da política de metas de inflação, a autoridade monetária acabou
respondendo às pressões inflacionárias, levando ao início de uma nova fase de
elevação da taxa básica de juros.
Além desta introdução, este artigo está estruturado em três seções, que
analisam as três políticas macroeconômicas (monetária, cambial e fiscal).
Seguem algumas considerações finais.
POLÍTICA MONETÁRIA
Embora não tenha ocorrido ruptura do regime de metas de inflação, que se
manteve como um dos pilares centrais da política macroeconômica do atual
governo, sob o comando de Alexandre Tombini, ocorreram alterações
significativas na operacionalização da política monetária e na utilização do
seu principal instrumento, a meta da taxa Selic. Essas mudanças tiveram duas
consequências importantes: possibilitaram a ampliação do grau de liberdade de
ação do bcb ante as flutuações da atividade econômica e produziram uma melhor
coordenação da política monetária com as demais políticas macroeconômicas.
Num primeiro momento, com o propósito de assegurar a convergência das
expectativas para o centro da meta, em um contexto de inflação ascendente e em
aceleração, associado à elevação dos preços internacionais das commodities (e,
em menor medida, à alta dos preços de alguns serviços4), a autoridade monetária
substituiu a estratégia de elevação tempestiva da meta dos juros pelo
gradualismo, aguardando os efeitos defasados das medidas macroprudenciais de
controle do crédito às pessoas físicas5, adotadas em dezembro de 2010 e em
abril de 2011, em vez de sobrecarregar a política de juros.
Essa postura do Comitê de Política Monetária (Copom), que decidiu elevar
gradualmente a meta da taxa Selic em 1,75 ponto percentual (p.p.) em cinco
reuniões consecutivas, entre os meses de janeiro e julho de 2011, pode ser
vista no Gráfico_1. Um dos fatores que permitiram a adoção dessa nova postura
pelo BCB foi o alongamento do horizonte temporal para o cumprimento da meta de
inflação ao se estabelecer o ano de 2012 como o prazo para a convergência da
inflação ao centro da meta6.
Indicando uma melhor coordenação das políticas macroeconômicas, a estratégia
gradualista de combate à inflação foi acompanhada da adoção, pelo Ministério da
Fazenda, de uma série de medidas nas esferas creditícia, cambial e fiscal. Além
das medidas de restrição ao crédito ao consumo e de controle dos fluxos de
capitais adotadas no primeiro semestre de 2011, foram estabelecidos, no segundo
semestre, limites às operações especulativas de investidores estrangeiros com
derivativos cambiais e lançadas medidas adicionais de austeridade fiscal.
A elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (iof) sobre operações de
crédito para pessoas físicas, de 1,5% para 3,0% em abril de 2011, funcionou
como instrumento auxiliar da política monetária ao potencializar o efeito do
aumento gradual da meta da Selic. Já os controles de capitais atenuaram o
impacto do aumento do diferencial de juros doméstico sobre a taxa de câmbio do
real, cuja queda (apreciação do real) vinha afetando seriamente a
competitividade da indústria brasileira, tanto no mercado internacional como no
doméstico, em razão da concorrência dos produtos importados. Já o compromisso
assumido de controlar as contas públicas (reiterado com o anúncio, em agosto,
da ampliação do esforço fiscal em R$ 10 bilhões em 2011) teria contribuído, na
visão do governo, para aliviar as pressões sobre a política monetária,
permitindo que o bcb iniciasse uma nova fase de corte da meta da taxa Selic,
tão logo percebeu os sinais de deterioração do cenário externo, com agravamento
da crise das economias da área do euro.
Em um segundo momento, o corte de 0,5 p.p. na meta da Selic, decidido pelo
Copom em agosto de 2011, surpreendeu o mercado e impôs perda aos agentes
privados que, no mercado financeiro, apostavam na manutenção da taxa em vigor.
Essa decisão significou uma expressiva alteração de postura da autoridade
monetária, que passou a atuar de forma menos conservadora e com maior
independência em relação ao consenso estabelecido por esses agentes.
O agravamento da crise do euro a partir de setembro de 20117, ao lado da
desaceleração da inflação e da sua trajetória de reaproximação ao centro da
meta (condicionadas pelo menor ritmo de alta dos preços das commodities no
mercado internacional e da demanda interna), favoreceu a continuidade da
política de redução da meta da taxa básica de juros ao longo do segundo
semestre de 2011 e em 2012. Essa meta da taxa Selic recuou 5 p.p. em relação ao
patamar de julho de 2011, passando de 12,5% nesse mês para 7,5% no dia 29 de
agosto de 2012. Essa trajetória cadente resultou numa significativa queda do
diferencial entre as taxas de juros doméstica e internacional.
Além da mudança de postura do bcb, esse prolongado processo de afrouxamento
monetário foi viabilizado por ações complementares das demais autoridades da
área econômica do governo. Esse foi o caso da alteração nas regras da caderneta
de poupança, em maio de 2012, considerada essencial para que a queda da Selic
abaixo do patamar de 8,5% não resultasse em migração de recursos dos fundos de
investimento para a poupança8.
No quadro de incertezas internacionais, a política econômica apostou em outros
instrumentos, em paralelo à diminuição da taxa básica de juros para estimular a
reativação da demanda privada. Entre os meses de novembro e dezembro de 2011,
foi revertida parte das medidas restritivas ao crédito de caráter
macroprudencial9 e o Ministério da Fazenda reduziu de 3% para 2,5% a alíquota
de iof sobre as operações de crédito ao consumo10. Ademais, nesse período, o
governo Dilma incentivou os bancos públicos a atuar de forma anticíclica,
neutralizando a desaceleração da contratação de crédito pelos bancos privados
(Gráfico_2). No primeiro semestre de 2012, o governo Dilma também utilizou
novamente os bancos públicos com carteira comercial (bb e cef) para forçar,
pelo mecanismo da concorrência, a queda dos juros e spreads praticados pelos
bancos privados11. O bndes continuou desempenhando papel fundamental na
implementação da política creditícia. Além da prorrogação do Programa de
Sustentação do Investimento (psi) (em vigor desde 2009), para até o final de
2013, a Taxa de Juros de Longo Prazo (tjlp), que estava no patamar de 6% ao ano
desde julho de 2009, foi reduzida para 5,5% a.a. em junho de 2012 e para 5%
a.a. em janeiro de 2013.
Ao longo do segundo semestre de 2012 acumularam-se pressões inflacionárias que
levaram o IPCA acumulado no ano para o patamar de 5,8%, bem acima do centro da
meta de 4,5% a.a. A aceleração inflacionária do período decorreu da interação
de diferentes fatores, entre os quais a elevação dos preços dos alimentos,
desencadeada pela seca nos Estados Unidos (impactando os preços dos grãos,
especialmente da soja e do milho) e no Brasil (com efeitos sobre produtos in
natura), o pass-through da desvalorização cambial de mais de 20% entre final de
fevereiro e junho de 2012, além da resiliência da inflação de serviços e bens
não comercializáveis. Contudo, diante do fraco desempenho da economia
brasileira, das incertezas advindas do front externo e do peso de fatores
climáticos na evolução da inflação, a autoridade monetária manteve inalterada a
meta da taxa Selic em 7,25% a.a. até março de 2013.
POLÍTICA CAMBIAL
A exemplo da política monetária, no governo Dilma a política cambial também foi
marcada por um maior nível de coordenação entre o BCB e o Ministério da
Fazenda. Além disso, duas outras mudanças caracterizam a política cambial desde
2011, ainda que o regime de câmbio permaneça sendo o de flutuação suja.
Em primeiro lugar, identificou-se uma ampliação dos objetivos perseguidos
(ainda que nem sempre convergentes). Além da mitigação da volatilidade cambial
(para atingir os objetivos de controle da inflação e estabilidade financeira) e
do acúmulo de reservas (voltado para a redução da vulnerabilidade externa), a
política cambial passou a ter como meta o patamar da taxa de câmbio, com o
propósito de conter a deterioração da competitividade da indústria brasileira
(seja no mercado externo, seja no mercado interno).
Em segundo lugar, foi diversificado o conjunto de instrumentos utilizados para
o alcance desses objetivos. Desde janeiro de 2011, o BCB e o Ministério da
Fazenda recorreram não somente a alterações das alíquotas do iof12 sobre os
investimentos estrangeiros de portfólio, mas também impuseram esse mesmo tipo
de controle de capital sobre as captações externas, inclusive sobre empréstimos
intercompanhias. Adicionalmente, acionaram dois novos instrumentos
regulatórios: (a) a regulação financeira prudencial, ao impor recolhimento
compulsório sobre as posições vendidas dos bancos no mercado de câmbio à vista;
e (b) a regulação das operações com derivativos cambiais, ao impor IOF de 1%
sobre as posições líquidas vendidas nesses derivativos acima de US$ 10
milhões13. Ademais, esse arsenal de medidas regulatórias foi utilizado de forma
dinâmica, ou seja, ajustado em função das mudanças no ambiente financeiro
internacional, que afetaram o ingresso líquido de divisas (Gráfico_3).
Dessa maneira, o governo Dilma optou por ampliar o mix de instrumentos
regulatórios, alargando o raio de manobra e a eficácia da política cambial, em
vez de recorrer, quase que exclusivamente, às intervenções no mercado de câmbio
à vista e ao acúmulo oneroso de reservas. Entretanto, em função do ambiente
macroeconômico (patamar elevado da taxa básica de juros) e institucional (grau
de abertura financeira) domésticos, bancos e empresas residentes e investidores
não residentes encontraram várias formas de burlar esses instrumentos
(movimento denominado "arbitragem regulatória").
O governo só conseguiu efetivamente desmontar as estratégias especulativas do
tipo carry trade14(nos mercados à vista e futuro de câmbio) com a cobrança de
IOF sobre as posições líquidas em derivativos cambiais, em julho de 2011,
penalizando as apostas dos investidores estrangeiros na apreciação do real.
Depois de zerarem suas posições líquidas vendidas em dólar em setembro, esses
investidores alternaram posições líquidas vendidas e compradas em volume bem
inferior ao vigente antes dessa regulação (Gráfico_4).
A desvalorização do real entre os meses de setembro e outubro de 2011 não pode
ser, contudo, creditada exclusivamente às medidas adotadas pelo governo, uma
vez que o cenário externo voltou a se deteriorar no período com o
aprofundamento da crise do euro. Esta teve um impacto negativo sobre os fluxos
de capitais para os países emergentes e sobre o apetite por risco em âmbito
global, contribuindo para a inversão das apostas dos investidores estrangeiros
e dos bancos no mercado futuro de dólar e para o déficit no movimento
financeiro de câmbio a partir de agosto.
Assim, pode-se afirmar que a deterioração do ambiente financeiro internacional
ampliou a eficácia da política cambial para atingir sua nova meta, conduzindo a
taxa de câmbio para um patamar mais competitivo. Ao mesmo tempo, o efeito
deflacionário dessa deterioração sobre os preços das commodities atenuou o
impacto da desvalorização cambial sobre a inflação interna, reduzindo o
conflito entre os objetivos "controle da inflação" e "competitividade externa".
Já a manutenção da estabilidade financeira não foi ameaçada por essa
desvalorização, tal como ocorreu no último trimestre de 2008, devido à forte
redução do risco cambial das empresas e de contraparte dos bancos nas operações
com derivativos cambiais desde 200915. Ademais, para evitar uma alta adicional
da taxa de câmbio e não sobrecarregar a política cambial, o governo realizou o
primeiro ajuste no mix regulatório, relaxando os controles de capitais ao
eliminar o iof sobre investimentos de portfólio em ações e em títulos de renda
fixa de longo prazo (debêntures vinculadas a projetos de infraestrutura).
Não se pode subestimar a importância das medidas regulatórias adotadas até
julho de 2011. Elas tiveram o papel de evitar um acúmulo excessivo de posições
especulativas em ativos financeiros vinculados ao real, cuja desmontagem
poderia trazer pressões também excessivas sobre a taxa de câmbio, colocando em
risco o objetivo de controle da inflação e/ou de redução da vulnerabilidade
externa (se, para evitar a desvalorização, o bcb utilizasse seu colchão de
segurança, ou seja, as reservas internacionais).
A dificuldade de compatibilizar os múltiplos objetivos da política cambial veio
à tona no primeiro bimestre de 2012. Do início de janeiro ao final de
fevereiro, a taxa de câmbio R$/US$ deslizou de um patamar de 1,86 para 1,71, o
que correspondeu a uma apreciação de 8,9% do real (Gráfico_3). Nesse período, o
bcb manteve-se praticamente ausente do mercado de câmbio à vista, apesar da
retomada do ingresso de divisas após três meses consecutivos de déficit. O
excesso de divisas no mercado à vista foi absorvido pelos bancos, cuja posição
cambial passou de vendida, em dezembro, para comprada, em janeiro e fevereiro.
Esse excesso decorreu, principalmente, da melhora das condições financeiras
internacionais após a expansão da liquidez pelo bce no âmbito da nova linha de
crédito de três anos a juros de 1% ao ano lançada em dezembro de 201116. Essa
iniciativa, ao afastar o risco de falência de instituições relevantes (e,
assim, a ameaça de crise sistêmica na área do euro), teve como desdobramento a
queda da aversão aos riscos dos investidores globais, que voltaram a assumir
posições em ativos de risco, como moedas, títulos e ações de economias
emergentes. O movimento de câmbio comercial também foi beneficiado pelo alívio
das tensões no mercado financeiro internacional, que favoreceram as operações
de pagamento antecipado de exportações, as quais dependem da oferta de linhas
bancárias externas de mais longo prazo17. De acordo com o BCB, essas operações
estavam concentradas em um número pequeno de empresas que utilizavam esse
mecanismo para realizar operações de arbitragem de juros.
A leniência em relação ao patamar da taxa de câmbio em janeiro e fevereiro de
2012 sugere a maior importância atribuída nesses meses ao objetivo "controle da
inflação". Ou seja, o governo optou por aproveitar a nova fase (de duração
incerta) de apetite por riscos para garantir a desaceleração do ipca acumulado
em 12 meses, que recuou de 6,5% em dezembro para 5,8% em março (Gráfico_1).
Confirmado o cenário mais benigno para a inflação (para o qual também
contribuiu a queda dos preços das commodities no mercado internacional), o
objetivo "competitividade externa" voltou a ser priorizado. Por um lado,
receoso do aumento das pressões baixistas sobre a taxa de câmbio do real
decorrentes do "tsunami" monetário do bce, o governo reforçou os controles de
capitais no início de março de 2012 (Gráfico_3). Por outro lado, no âmbito da
política cambial, a autoridade monetária retomou as intervenções no mercado à
vista em março e abril18. Ademais, após três meses praticamente ausente do
mercado de derivativos cambiais, o bcb ampliou as operações de swap reverso,
mediante as quais assume uma posição comprada em dólar para atenuar as pressões
em prol da apreciação do real.
Após as novas medidas de controle de capitais e a retomada das intervenções
cambiais nos mercados à vista e de derivativos, a trajetória da taxa de câmbio
se inverteu, tornando-se novamente ascendente. Do patamar de R$ 1,70 no final
de fevereiro, essa taxa atingiu o patamar de R$ 1,89 no final de abril de 2012.
Mais uma vez, os desdobramentos da crise da área do euro condicionaram essa
trajetória. A partir de março, iniciou-se uma nova fase de aprofundamento dessa
crise - agora com foco na Espanha - contaminando a aversão aos riscos dos
investidores globais. Nesse contexto, a taxa de câmbio do real seguiu seu
movimento ascendente, atingindo R$ 2,00 no dia 18 de março. Desde então, ela
passou a flutuar entre esse valor e o patamar de R$ 2,10, o que suscitou a
interpretação de que o BCB estaria defendendo uma banda estreita de flutuação,
com piso em R$ 2,00 e teto em R$ 2,10 (Gráfico_3).
Essa defesa não se ancorou em intervenções no mercado à vista, já que o bcb se
manteve ausente desse segmento entre maio e novembro, operando exclusivamente
por meio de swaps e swaps reversos. Ou seja, a autoridade monetária optou pelas
atuações no mercado de derivativos, que não afetam as reservas internacionais,
para defender o piso e o teto implícitos da taxa de câmbio, já que altas
adicionais dessa taxa poderiam comprometer o objetivo "controle da inflação". A
preocupação com esse objetivo também parece explicar a flexibilização dos
controles de capitais sobre captações externas pelo Ministério de Fazenda em
junho e dezembro (quando predominaram pressões de depreciação cambial). Ao
mesmo tempo, as pressões em prol da apreciação do real foram mitigadas tanto
pelas tensões no mercado financeiro internacional como pela redução do
diferencial entre os juros internos e externos.
POLÍTICA FISCAL
No primeiro semestre de 2011, a política fiscal teve perfil contracionista,
responsável pela elevação do superávit primário do setor público consolidado,
de 2,77% do pib no acumulado de 12 meses (R$ 101,7 bilhões) em dezembro de 2010
para 3,74% do pib (R$ 150,1 bilhões) em julho de 2011 (Gráfico_5). Segundo o
próprio governo federal, com essa contribuição do setor público para o
arrefecimento da expansão da demanda agregada, buscava-se abrir caminho para a
redução da meta Selic pela autoridade monetária. Nesse período, o Ministério da
Fazenda também realizou desonerações tributárias para atenuar a elevação do
nível geral de preços.
Já garantido o cumprimento da meta de superávit fiscal estabelecida para o ano
- devido à expansão das receitas, mais do que à contenção de gastos públicos no
primeiro semestre -, no mês de agosto, o governo federal divulgou a elevação da
meta de superávit fiscal do setor público em 2011de R$ 125,5 bilhões para R$
135,5 bilhões. Dessa forma, buscou ratificar seu compromisso com o equilíbrio
das contas públicas, com o objetivo de reforçar a confiança dos agentes
privados e conceder graus de liberdade à atuação do bcb.
Entre o segundo semestre de 2011 e o primeiro semestre de 2012, a política
fiscal assumiu, contudo, um perfil anticíclico que, graças ao resultado do
primeiro semestre de 2011, pode ser adotado sem comprometer a obtenção da meta
de superávit fiscal. A desoneração tributária de diversos setores foi o
principal instrumento utilizado nesse período, aliando os objetivos de
reaquecimento econômico ao aumento da competitividade da indústria nacional,
prejudicada, então, pela apreciação cambial e pelo acirramento da concorrência
nos mercados externo e doméstico após a crise financeira global de 2008-2009.
A maior parte das medidas de desoneração fiscal integrou o Plano Brasil Maior,
lançado em agosto de 2011. Dentre elas podem ser citadas: redução do ipi sobre
bens de investimento; instituição do Reintegra (Regime Especial de Reintegração
de Valores Tributários para as Empresas Exportadoras), que permite a devolução
às empresas de até 3% das receitas de exportação; redução gradual do prazo de
devolução de créditos referentes ao pis-Pasep/Cofins sobre bens de capital;
ampliação do Simples Nacional; desoneração da folha de pagamento de setores
intensivos em mão de obra (confecções, móveis, calçados, softwares); e
estabelecimento de um novo regime tributário para o setor automotivo19.
Ademais, para estimular o investimento público, o governo federal autorizou, no
final de 2011, a ampliação dos limites de endividamento dos estados para R$ 40
bilhões junto ao bndes e a outros agentes financeiros internacionais, como o
Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (bid). Uma nova
rodada de desonerações fiscais foi lançada no segundo trimestre de 2012, com a
adoção, no mês de abril, de medidas adicionais no âmbito do Plano Brasil Maior,
tais como a ampliação da desoneração da folha de pagamento, a redução do ipi de
bens de consumo, a postergação do recolhimento do pis/Cofins e a redução da
alíquota de IOF sobre operações de crédito a pessoas físicas, a partir do mês
de maio.
A política fiscal anticíclica anunciada pelo governo previa, portanto, a
redução dos tributos (em virtude das desonerações) e o aumento dos
investimentos, sem o comprometimento da meta fiscal. Entre agosto de 2011 e
julho de 2012, o superávit primário do setor público foi reduzido de 3,7% para
2,5% do pib (Gráfico_5). No mês de julho, o superávit acumulado chegava a R$
71,2 bilhões, cerca de 51% da meta estabelecida para o ano de 2012 (R$ 139,8
bilhões).
Entretanto, diante das expectativas empresariais pessimistas (em razão,
sobretudo, do cenário externo de forte incerteza), os estímulos fiscais por
meio de desonerações não tiveram o efeito esperado em termos de dinamismo
econômico, exigindo intervenções mais diretas por parte do governo federal.
Marcou, então, o segundo semestre de 2012 a implementação de pacotes de
ampliação das compras governamentais e dos investimentos públicos.
No mês de junho de 2012, o governo federal divulgou o Programa de Compras
Governamentais, sob o qual foram previstos R$ 8,43 bilhões de compras,
beneficiando diferentes setores, como o de máquinas e equipamentos (3,6 mil
retroescavadeiras e 1,33 mil motoniveladoras), veículos (8 mil caminhões, 40
blindados e 30 lançadores de mísseis para as Forças Armadas, 8,7 mil ônibus
para o Programa Caminho da Escola, 2,1 mil ambulâncias, 3 mil tratores),
medicamentos (R$ 6 bilhões em vacinas e medicamentos), etc. O pacote incluiu
compras governamentais adicionais - gastos que não estavam previstos no
Orçamento - de R$ 6,6 bilhões.
Esses gastos eram vistos como necessários para o andamento do pac. O governo
esperava que contribuíssem para que o investimento público avançasse,
estimulando igualmente alguns setores industriais, como o automotivo, que
fornece parte dos equipamentos. Todavia, apesar dos esforços governamentais,
perdurou uma grande dificuldade para executar os investimentos ancorados em
recursos do Orçamento Geral da União.
No final de agosto de 2012, juntamente com a redução da taxa de juros cobrada
no psi de 5,5% para 2,5% a.a., o que a levou para patamares reais negativos,
foram anunciadas a prorrogação e a definição de novas renúncias fiscais,
totalizando R$ 5,5 bilhões a serem divididos entre os anos de 2012 (R$ 1,6
bilhão) e de 2013 (R$ 3,9 bilhões). A redução do ipi do setor automotivo foi
prolongada para até o final do mês de outubro, enquanto para outros setores,
como o de móveis e linha branca, a cobrança de alíquotas reduzidas foi
garantida até o final do ano de 2012 e, no caso dos setores de materiais de
construção e de bens de capital, até o final de 2013. Para as empresas
participantes do PSI, mas com dificuldades de pagar seus compromissos, criou-se
a possibilidade de acelerar (de 48 para 12 meses) a depreciação de determinados
bens (caminhões e vagões), o que implica redução do lucro contábil e,
consequentemente, da arrecadação de imposto de renda e da Contribuição Social
sobre Lucro Líquido (csll) (em R$ 586 milhões, segundo o Ministério da
Fazenda).
O resultado primário da União da ordem de R$ 86,1 bilhões, obtido em 2012,
contou com a ajuda de operações contábeis atípicas, que ficaram conhecidas na
imprensa especializada como "contabilidade criativa". Essas operações20
envolveram a troca de ativos financeiros públicos e privados entre Secretaria
do Tesouro Nacional, bndes, Caixa Econômica Federal e Fundo Soberano do
Brasil21, assim como a antecipação do pagamento de dividendos ao governo, de
forma a reforçar contabilmente seu resultado primário (Gráfico 6). Segundo
Oreng22 (2013), excluídas as receitas "não recorrentes", resultantes dessas
operações atípicas, o resultado primário do setor público consolidado23 de
2012, que chegou a 2,4% do pib, seria apenas de 1,8% do pib.
Ademais, o esforço fiscal de 2011 e a trajetória de queda da taxa básica de
juros, na segunda metade de 2011 e em 2012, também contribuíram para a adoção
de uma política fiscal anticíclica, implicando menor comprometimento com o
pagamento de juros da dívida24. De fato, a dívida líquida do setor público foi
reduzida de 39%, no início de 2011, para 35%, no final de 2012. A dinâmica da
dívida líquida não capta, entretanto, o suporte financeiro a um dos aspectos-
chave da política anticíclica brasileira: a expansão do crédito pelos bancos
públicos. A capitalização dessas instituições foi realizada, desde o
aprofundamento da crise internacional em 2008, por meio de créditos do Tesouro
aos bancos públicos. Na prática, o Tesouro emitiu títulos de dívida que foram
posteriormente transferidos aos bancos públicos, a título de concessão
extraordinária de empréstimo. Dessa forma a dívida bruta aumentou (53,4% do pib
em 2010, para 58,7% em 2012), mas também cresceram os créditos do governo (os
empréstimos às instituições financeiras oficiais contabilizavam 6,8% do PIB em
2010 e 9,2% em 2012). No longo prazo, contudo, essas operações não são isentas
de efeitos negativos sobre as finanças públicas, uma vez que a taxa de juros
que remunera os empréstimos aos bancos públicos (geralmente tjlp) é menor do
que aquela que o Tesouro deve pagar (Selic)25.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo dos dois primeiros anos de mandato, caracterizados por um contexto
internacional adverso, o governo da presidente Dilma Rousseff obteve resultados
econômicos positivos e negativos. No que diz respeito aos resultados positivos,
destacaram-se: a redução do diferencial entre as taxas de juros doméstica e
internacional, a diminuição da dívida líquida do setor público, a obtenção de
uma taxa de câmbio mais competitiva e a queda da taxa de desemprego. Em relação
aos resultados negativos, a atividade econômica, continuou apresentando
desempenho insatisfatório, condicionado, especialmente, pelo desempenho
decepcionante da indústria do lado da oferta e dos investimentos (sobretudo de
infraestrutura) do lado da demanda.
Ainda que a conjuntura internacional não tenha progredido para a ruptura da
área do euro, conservou-se um cenário de fortes incertezas e de recessão em
vários países da Europa. Do ponto de vista doméstico, fatores estruturais de
perda da competitividade da economia brasileira se sobressaíram e se ampliaram
com os efeitos conjunturais negativos do período 2011-2012 de ajuste nos
estoques, observado principalmente no setor industrial26. Nesse contexto, o
ritmo de crescimento do pib recuou de 7,5%, em 2010, para 2,7%, em 2011. Em
2012, foi de apenas 0,9%, bastante abaixo das expectativas do Ministério da
Fazenda no início desse ano, que apontavam para a faixa de 4%.
O desempenho de 2012 decorreu da conjunção de diferentes fatores, dentre os
quais a demanda externa mais fraca e o acirramento da concorrência
internacional, mas também explicitou os limites da reafirmação da estratégia
governamental de estímulo da demanda. Era de se esperar que os efeitos das
medidas adotadas fossem menos expressivos em 2012, dado o forte crescimento,
nos anos anteriores, do consumo, sobretudo, de bens duráveis. A aceleração da
inflação no segundo semestre de 2012 e o elevado endividamento das famílias,
cuja inadimplência manteve-se em patamar considerado elevado pelos bancos,
também contribuíram para a baixa eficácia dessas medidas27.
A esses fatores, somou-se uma fonte de incerteza possivelmente resultante da
própria ação do governo. À medida que anúncios de desoneração fiscal a
determinados setores passaram a integrar o modus operandi da política
econômica, alguns empresários podem ter preferido adiar seus projetos e
intensificar suas pressões junto ao governo com o objetivo de antes obter algum
benefício fiscal. Mudanças nas regras de concessões e da remuneração de alguns
setores, tais como de energia elétrica, também ajudaram a minar a confiança dos
empresários.
No que diz respeito à evolução dos preços, as pressões inflacionárias do
segundo semestre de 2012 estenderam-se para o início de 2013, levando o IPCA,
no acumulado em 12 meses, a superar o limite superior da meta de inflação em
março de 2013. A elevação dos preços de alimentos, condicionada pela seca nos
Estados Unidos e no Brasil, e o pass-through da desvalorização cambial de 2012
explicam, em boa medida, essa aceleração inflacionária. Também importante foi a
decisão do governo, em janeiro de 2013, de elevar os preços dos derivados de
petróleo, devido às condições financeiras e operacionais fortemente debilitadas
da Petrobras. Esses fatores cíclicos somaram-se a uma inflação de serviços e de
bens não comercializáveis resistente à queda. Assim, avolumaram-se pressões
exigindo a ratificação do compromisso do bcb no combate à inflação.
A taxa Selic foi, contudo, mantida em 7,25% a.a. até final de março de 2013.
Essa decisão contribuiu, ao menos nesse momento, para não abortar a frágil
aceleração do crescimento econômico iniciada no último trimestre de 2012. A
autoridade monetária contou, para tanto, com o auxílio de medidas do Ministério
da Fazenda, ainda que nem todas elas tivessem como principal objetivo a
desaceleração da inflação. O reajuste dos preços de derivados de petróleo, em
janeiro de 2013, ficou abaixo das expectativas do mercado; também nesse mês
passou a vigorar a redução das tarifas de energia elétrica (Medida Provisória
n. 605). Em março de 2013, vários itens28 da cesta básica foram isentos de
tributos federais, tais como pis/Cofins (Medida Provisória n. 609) e ipi
(Decreto-lei n. 7947). O governo federal também conseguiu o compromisso das
prefeituras de São Paulo e do Rio de Janeiro para a postergação do reajuste do
preço dos transportes, que geralmente ocorre no mês de janeiro. Esse adiamento
acabou se transformando na suspensão do reajuste diante das manifestações
populares de meados de 2013.
Se as medidas de desoneração fiscal, de um lado, e a manutenção da taxa básica
de juros, de outro, sugeriam a conservação da coordenação entre Ministério da
Fazenda e Banco Central, a evolução da taxa câmbio do real sinalizava que os
dilemas de política macroeconômica tinham se agravado. Entre novembro de 2012 e
março de 2013, o bcb deixou a taxa de câmbio deslizar de R$ 2,10 para R$ 1,95,
voltando, então, a usar a apreciação cambial como instrumento auxiliar do
combate à inflação. Esse movimento contrapunha-se aos objetivos, reconhecidos
pelo governo federal, de elevar a competitividade do produto nacional, tanto no
mercado doméstico como no mercado internacional, e de promover a recuperação da
indústria. O aparente conflito entre os objetivos da política cambial foi,
todavia, contornado pela inversão da tendência da taxa de câmbio a partir do
final de maio, quando o real (e a maioria das moedas emergentes) voltou a se
depreciar ante o dólar em razão de estratégias de recomposição das carteiras
dos investidores internacionais, após o presidente do Federal Reserve, Ben
Bernanke, ter sinalizado que a desaceleração da política de afrouxamento
quantitativo poderia ter início ainda em 2013.
Em abril de 2013, o Copom deu início a uma nova fase de elevações graduais da
taxa básica de juros. Não apenas a aceleração do índice oficial de inflação, o
ipca, mas também a difusão dos aumentos de preços entre os itens que o compõem
justificaram a decisão da autoridade monetária. Abriu-se, nesse momento, um
novo período da gestão macroeconômica, em que o combate à inflação retornou ao
topo das prioridades do governo. Não se trata de abandonar o crescimento
econômico a taxas mais elevadas enquanto objetivo do governo, mas, diante da
conjuntura e dos dilemas do regime de política macroeconômica, de trazer para o
primeiro plano o equacionamento da questão inflacionária. O episódio ilustra as
limitações da estratégia de flexibilização desse regime, que decorrem,
sobretudo, da manutenção da política de metas de inflação como um dos seus
pilares.
* Este artigo consiste em uma versão atualizada de trabalhos anteriores
desenvolvidos no âmbito do Grupo de Economia da Fundação do Desenvolvimento
Administrativo do Estado de São Paulo (FUNDAP/SP) ("Regime de política
macroeconômica no governo Dilma". Boletim de Economia da FUNDAP, nº 7, set.
2011. Disponível em
<http://novo.fundap.sp.gov.br/arquivos/pdf/
Boletim_de_Economia%207_Conjuntura_Economica_Regime_de_Politica_Macroeconomica_no_Governo_Dilma.pdf>
e "Balanço do regime de política macroeconômica do governo Dilma". Boletim de
Economia da FUNDAP, nº 17, ago. 2012. Disponível em <http://
novo.fundap.sp.gov.br/arquivos/pdf/BOLETIM_17_agosto_2012_completo.pdf> ), com a colaboração de Júlio S. Gomes de Almeida, Geraldo
Biasoto Júnior e Marina Sequetto. Os autores agradecem ainda os comentários de
Bruno M. De Conti (UNICAMP) e de Carlos Eduardo G. Cavalcanti (FUNDAP/SP),
assumindo, como de praxe, a total responsabilidade por possíveis erros e
omissões dessa versão. Foram utilizadas informações disponíveis até o mês de
setembro de 2013.
1 O conceito de "regime de política macroeconômica" refere-se aos objetivos e
metas da política macroeconômica, bem como aos instrumentos utilizados para o
alcance desses objetivos, que incluem tanto as políticas monetária e
creditícia, cambial e fiscal, como os instrumentos de regulação financeira (no
caso do período analisado, medidas de regulação financeira prudencial,
controles de capitais e regulação dos derivativos cambiais). Contudo, mesmo
utilizando um amplo leque de instrumentos (além das três políticas
macroeconômicas convencionais), que ampliam o raio de manobra da gestão
macroeconômica, esse regime pode não atingir os objetivos almejados.
2 Sobre as medidas de natureza macroprudencial de controle do crédito a pessoas
físicas, ver FUNDAP. "Intervenções macroprudenciais no mercado de crédito e de
câmbio". Boletim de Economia da FUNDAP, no 3, abr. 2011. Disponível em <http://
novo.fundap.sp.gov.br/arquivos/pdf/
Bol3_CE_Intervencoes_macroprudenciais_no_mercado_de_credito_cambio.pdf> .
3 Ver, por exemplo, Freitas, Maria Cristina Penido. "A crise na área do euro".
Boletim de Economia da FUNDAP, nº 10, dez. 2011. Disponível em <http://
novo.fundap.sp.gov.br/arquivos/PDF/
Boletim_de_Economia_10_Setorial_A_crise_na_area_do_euro.pdf> .
4 A alta dos preços dos serviços refletiu tanto uma pressão conjuntural, em
razão do forte dinamismo de alguns setores em 2010, como uma mudança estrutural
de preços relativos, associada à melhora da distribuição da renda (Martinez,
Thiago S. "Inflação e o padrão de crescimento brasileiro: considerações a
partir da desagregação do IPCA". Texto para discussão do Ipea, nº 1804, dez.
2012; Martinez, Thiago S. e Cerqueira, Vinícius S. "Estrutura
da inflação brasileira: determinantes e desagregação do IPCA". Economia e
sociedade, vol. 22, nº 2 (48), pp. 409-56, 2013).
5 Sobre as medidas de natureza macroprudencial de controle do crédito às
pessoas físicas, ver FUNDAP, "Intervenções macroprudenciais no mercado de
crédito e de câmbio", op. cit.
6 O Relatório de Inflação de março de 2011 explicita a estratégia do bcb,
segundo a qual "nas atuais circunstâncias, a boa prática recomenda buscar uma
convergência mais suave da inflação para a trajetória de metas, à semelhança de
estratégia adotada no passado pelo Banco Central. Nesse contexto, então, o
Copom ressalta que a estratégia de política monetária será implementada com
vistas a conter os efeitos de segunda ordem do choque de oferta e a garantir a
convergência da inflação para a meta em 2012".
7 Sobre as diversas fases da crise internacional, ver FUNDAP. "A crise não
acabou: gênese da crise e evolução recente das economias avançadas". Boletim de
Economia da FUNDAP, nº 20, nov. 2012. Disponível em <http://
novo.fundap.sp.gov.br/arquivos/PDF/
Boletim_FUNDAP_20_nov2012_Conjuntura_A_crise_global_nao_acabou.pdf> .
8 A partir de 4 de maio de 2012, por força da Medida Provisória n. 567, os
novos depósitos na caderneta de poupança passaram a ter remuneração equivalente
a 70% da meta da taxa de juros Selic, quando esta for igual ou menor a 8,5% ao
ano. No caso de patamares superiores a esse, os saldos novos e antigos
continuam sujeitos à regra anterior de remuneração (TR+0,5% a.m.). Para mais
detalhes, ver FUNDAP, "Ritmo da atividade econômica e mudança nas regras da
poupança". Boletim de Economia da FUNDAP, nº 15, maio 2012b. Disponível em <
http://novo.fundap.sp.gov.br/arquivos/PDF/
BOLETIM_15_maio_2012_Conjuntura_Ritmo_da_atividade_economica_e_mudanca_nas_regras_da_poupanca.pdf
>.
9 A Circular n. 3563 revogou a exigência de capital adicional para as operações
de empréstimos ao consumo com prazo máximo de 60 meses (ainda que tenha sido
acompanhada de elevação do requerimento de capital para as operações de crédito
ao consumo com prazo superior a cinco anos). Por meio da Circular n. 3512, a
autoridade monetária também desistiu de elevar o percentual mínimo de pagamento
das faturas de cartão de crédito de 15% para 20%, que havia sido determinado em
junho de 2011.
10 Decreto do Ministério da Fazenda n. 7.632, de dezembro de 2011.
11 Ver, por exemplo, FUNDAP "A evolução do crédito bancário em 2012". Boletim
de Economia da FUNDAP, nº 19, out. 2012. Disponível em <http://
novo.fundap.sp.gov.br/arquivos/PDF/
boletim_19_out2012_A%20EVOLUCAODO_CREDITO_BANCARIO_EM_2012.pdf>_ ; Costa, Fernando Nogueira e Pinto, Gabriel Musso de Almeida.
"Impactos da pressão para concorrência bancária no mercado de crédito
brasileiro". Instituto de Economia da UNICAMP. Texto para discussão, 2013.
12 Sobre a manipulação das alíquotas de IOF como meio de controle dos fluxos de
capitais no Brasil e de regulamentação macroprudencial, ver Munhoz, Vanessa da
C. V. e Silva, Thiago de M. "Vulnerabilidade externa e controle de capitais no
Brasil: uma análise das inter-relações entre câmbio, fluxos de capitais, IOF,
juros e risco-país". Trabalho apresentado no XVI Encontro Nacional de Economia
Política, Uberlândia, de 21 de junho a 24 de junho de 2011. Disponível em
<http://www.sep.org.br/artigos/
download?id=1762&title=Volatilidade+dos+Fluxos+Internacionais+de+Capitais+e+a+Oferta+de+Cr%C3%A9dito+na+Economia+Brasileira+entre
+1995+e+2010>_ ; Freitas, Maria Cristina Penido e Cagnin,
Rafael Fagundes. "Tributação das transações financeiras: a experiência
brasileira com o IOF e a CPMF". XVII Encontro Nacional de Economia Política.
Rio de Janeiro, de 5 a 8 de junho de 2012. Disponível em
<http://www.sep.org.br/artigos/
download?id=2038&title=Tributa%C3%A7%C3%A3o+das+transa%C3%A7%C3%B5es+financeiras%3A+a+experi%C3%AAncia+brasileira+com+o
+IOF+e+a+CPMF> , entre outros.
13 Vários trabalhos, a partir de diferentes abordagens teóricas e empíricas,
concluíram que as operações com derivativos cambiais (com destaque para os
contratos de dólar futuro da BM&FBovespa) têm uma influência decisiva na
dinâmica da taxa de câmbio do real. Ver, entre outros, Dodd, Randall e
Griffith-Jones, Stephany. Brazil's Derivatives Markets: Hedging, Central Bank
Intervention and Regulation, Economic Commission for Latin America and the
Caribbean (ECLAC), 2007; Farhi, Maryse. "Os impactos dos
derivativos no Brasil". In: Marcolino, L. C. e Carneiro, R. Sistema financeiro
e desenvolvimento no Brasil. São Paulo: Atitude, 2010;
Prates, Daniela M."Os determinantes das taxas de câmbio nominal e real no
Brasil no período 2003-2007". In: Ferreira, F. e Meireles, B. Ensaios sobre
economia financeira. Rio de Janeiro: BNDES, 2009.
14 As operações de carry trade consistem em estratégia de arbitragem de taxas
de juros, segundo a qual o investidor assume uma posição passiva em uma divisa
associada a baixas taxas de juros e uma posição ativa na divisa que lhe rende
maiores taxas de juros.
15 Vale lembrar que um dos principais canais de transmissão da crise financeira
global para o mercado financeiro brasileiro, após a falência do banco Lehman
Brothers em meados de setembro de 2009, foi a exposição de várias empresas em
contratos de derivativos cambiais negociados no mercado de balcão, nos quais os
bancos eram as contrapartes. Além da forte redução dessa exposição após a
crise, vários avanços na regulação desses contratos foram realizados a fim de
ampliar sua transparência e o monitoramento das transações, dentre os quais a
criação, pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban), da Central de
Exposição a Derivativos (ced). Porém a rentabilidade corrente das grandes
empresas, que tinham ampliado no período o endividamento em moeda estrangeira,
caiu devido à elevação das despesas financeiras, dificultando, assim, a
reversão do ciclo de baixa do investimento.
16 O primeiro leilão foi realizado em 21/12/2011, quando 523 bancos tomaram ¤
489 bilhões; o segundo leilão ocorreu em 28/02/2012, com empréstimos de ¤ 529
bilhões a 800 bancos, totalizando cerca de ¤ 1 trilhão.
17 Essas operações avançaram 48% em relação aos dados do mesmo período de 2012
(de US$ 4,4 bilhões para US$ 8,5 bilhões); com isso, sua participação no total
do câmbio de exportação passou de 15% para 22% no mesmo período. Ver FUNDAP. "O
novo plano Brasil Maior, a política cambial e a indústria brasileira". Boletim
de Economia da FUNDAP, nº 14, abr. 2012. Disponível em <http://
novo.fundap.sp.gov.br/arquivos/PDF/
Boletim_de_Economia_14_mai2012_O_NOVO_PLANO_BRASIL_MAIOR_A_POLITICA_CAMBIAL_E_A_INDUSTRIA_BRASILEIRA.pdf> .
18 Para mais detalhes, ver FUNDAP, "O novo plano Brasil Maior, a política
cambial e a indústria brasileira", op. cit.
19 Para uma avaliação do Plano Brasil Maior, ver Iedi ("Uma análise do plano
Brasil Maior". Carta Iedi, nº 486, 2011. Disponível em <http://www.iedi.org.br/
cartas/carta_iedi_n_486_uma_analise_do_plano_brasil_maior.html> e "Indústria, desenvolvimento e política industrial". Carta Iedi, no
530, 2012. Disponível em <http://www.iedi.org.br/cartas/carta_iedi_n_530.html> ) e FUNDAP ("O novo plano Brasil Maior, a política cambial e a
indústria brasileira", op. cit.). Informações recentes podem ser encontradas
diretamente no endereço eletrônico <http://www.brasilmaior.mdic.gov.br/>.
20 Um conjunto de medidas adotadas no final de dezembro de 2012 permitiu que
tais operações se concretizassem: Medida Provisória n. 600 permitiu que o
Tesouro Nacional aumentasse a concessão de crédito extraordinário à Caixa
Econômica Federal ante uma emissão de títulos, vendesse recebíveis da Usina de
Itaipu ao BNDES (cujo pagamento foi feito com ações de empresas privadas
cotadas em bolsa) e ampliasse os subsídios associados ao PSI; Decreto n. 7880
autorizou o aumento de capital da Caixa Econômica Federal por meio de ações da
Petrobras e de outras empresas de capital aberto (tais ações tinham sido
recebidas pelo Tesouro do BNDES em troca dos recebíveis de Itaipu); Decreto n.
7881 permitiu que o Fundo Soberano vendesse suas ações da Petrobras para o
BNDES (autorizado desde 28 de dezembro a declarar "dividendos intermediários");
Resolução n. 4175 do Conselho Monetário Nacional autorizou o BNDES a não abater
de seu lucro as perdas obtidas com a queda do valor de mercado das ações de
empresas como a Petrobras e a Eletrobras. Para uma discussão detalhada sobre a
"contabilidade criativa" a que o governo federal fez recurso em 2012, ver
Barros, Gabriel Leal e Afonso, José Roberto. "Sobre 'fazer o cumprimento' da
meta de superávit fiscal primário de 2012". Instituto Brasileiro de Economia,
Fundação Getúlio Vargas. Texto para discussão, fev. 2013. Disponível em
<http://portalibre.fgv.br/
main.jsp?lumPageId=8A7C82C53B9D2561013BB36110F5309F&lumItemId=8A7C82C53CAC196A013CF2AE9E443197> , entre outros.
21 Denominado oficialmente de Fundo Fiscal de Investimentos e Estabilização.
22 Oreng, Mauricio. "Contas públicas: dimensionando o impacto das operações
'não recorrentes'". Itaú BBA Macro Visão, jan. 2013. Disponível em
<http://www.itau.com.br/itaubba-pt/analises-economicas/publicacoes/macro-visao/
contas-publicas-dimensionando-o-impacto-das-operacoes-nao-recorrentes> .
23 Setor público consolidado considera o esforço fiscal da União (Tesouro
Nacional e Previdência Social), estados, municípios, além do resultado do Banco
Central e das empresas estatais (das três esferas de poder), exceto Petrobras e
Eletrobras.
24 A mudança na composição da dívida, com o aumento da participação dos
compromissos indexados a índices de preços e a juros prefixados e queda da
participação da Selic como indexador, ajuda a arrefecer esse efeito positivo.
25 Para mais detalhes ver Afonso, José Roberto. "As intricadas relações entre
política fiscal e creditícia no Brasil pós-2008". Revista Econômica, vol. 13,
nº 2, dez. 2011, pp. 125-54; e Barros e Afonso, op. cit.
26 Ver Almeida, Julio S. Gomes e Novais, Luis Fernando. "O desempenho das
grandes empresas de capital aberto no período recente (2007-2011) e no primeiro
trimestre de 2012". Boletim de Economia da FUNDAP, nº 16, jun. 2012. Disponível
em
<http://novo.fundap.sp.gov.br/arquivos/PDF/
BOLETIM_16_junho_2012_Setorial_O_desempenho_das_grandes_empresas_de_capital_aberto.pdf> ;
FUNDAP, "O novo plano Brasil Maior, a política cambial e a indústria
brasileira", op. cit., e FUNDAP, "Ritmo da atividade econômica e mudança nas
regras da poupança", op. cit.
27 Sobre a evolução da inadimplência em 2012 e seu impacto sobre o crescimento
do crédito, ver FUNDAP, "A evolução do crédito bancário em 2012", op. cit.
28 Carnes, café, óleo, manteiga, açúcar e papel higiênico tiveram a alíquota de
PIS/Cofins reduzida de 9,25% para 0%; pasta de dentes e sabonete, de 12,5% para
0%. Foi zerada a alíquota de ipi sobre açúcar e sabonete (5% antes da isenção)
(Dieese, "A desoneração dos produtos da cesta básica". Nota Técnica, nº 120,
mar. 2013. Disponível em <http://www.dieese.org.br/notatecnica/2013/
notaTec120DesoneracaoCestaBasica.pdf>).