O cortiço, romance econômico
No ensaio "O fator econômico no romance brasileiro", Graciliano Ramos lamenta
que os escritores do país tenham reiteradamente evitado a economia, o que
resultaria em "trabalhos incompletos". Graciliano defende, para suprir essa
falta, um projeto essencialmente realista:
[Falta-nos] a observação cuidadosa dos fatos que devem contribuir
para a formação da obra de arte. Numa coisa complexa como o romance o
desconhecimento desses fatos acaba prejudicando os caracteres e
tornando a narrativa inverossímil.
Ainda na primeira das sete páginas desse texto curto, mas denso, Graciliano
avalia que os escritores "abandonaram a outras profissões tudo o que se refere
à economia". A consequência é que "fizeram uma construção de cima para baixo",
em que as questões sociais e políticas surgem sem que se perceba que elas
dependem de outras "que não podiam deixar de ser examinadas"1.
A leitura desse ensaio permite inferir que Graciliano refere-se a obras
contemporâneas suas, não fazendo uma avaliação abrangente da trajetória
literária nacional. Entretanto, a citação de Balzac - que "em um só livro
estuda a fabricação de papel, a imprensa de Paris, casas editorais, teatros,
restaurantes, oficinas de impressão etc.", levantando toda a base econômica
desses setores antes de colocar para se mover toda a sociedade - permite
considerar que o escritor poderia ter mencionado uma exceção nada desprezível:
O cortiço, romance que encontra na esfera econômica uma de suas forças
estruturantes.
A economia dá sentido e verossimilhança, um conceito caro a Graciliano, ao
livro de Aluísio Azevedo, publicado em 1890. No Naturalismo brasileiro do
século XIX, Aluísio é o autor que frequenta com mais regularidade a vida
econômica: em O homem, surge o tema da transformação da natureza nas pedreiras;
em O coruja, temos a fragilidade dos projetos de educação privada; em Casa de
pensão aparece a questão da exploração capitalista da habitação coletiva. Mas é
em O cortiço que a modernização da segunda metade do XIX ganha uma geografia
especial, atores dinâmicos, elementos transformadores e confluência de
processos que resultam no painel humano em que a exploração do trabalho emerge
em movimento.
A vida econômica do cortiço de João Romão e Bertoleza expressa o ganho de
complexidade na vida urbana do Rio de Janeiro, na dramática passagem do
trabalho escravo para o trabalho livre, quando capitalistas em ascensão
encontram oportunidades inéditas de exploração, e os trabalhadores são forçados
a se adaptar a novas formas de dominação. A partir dessa realidade, Aluísio
concebeu um romance ímpar, em que dá expressão ao "drama social" da exploração
escravista e de seu fim, revelando como esse fim era, também, naquele momento,
um drama econômico, em que os negros foram as maiores vítimas, mas não as
únicas.
A relação de Romão e Bertoleza revela, desde o primeiro capítulo, uma divisão
de trabalho cada vez mais sofisticada e perversamente renovada. No processo, o
capitalista Romão eliminará muitos outros capitalistas ou personagens que estão
na fronteira de se integrar ao emergente capitalismo brasileiro - entre eles,
Bertoleza. Sim, porque costumamos observar Bertoleza apenas como "negra",
"escrava" e "mão de obra" não remunerada de Romão. No entanto, o início do
livro permite vê-la também como uma figura que aspira a participar do
capitalismo em ascensão, mas que terá seu destino barrado pelo racismo. Ainda
que seu negócio volte-se para a subsistência e não para a ampliação de capital,
mesmo que não seja dona da própria liberdade e que precise pagar o jornal a seu
dono, o que a coloca numa posição especial na história econômica nacional
(entre o livre-pobre e o escravo que fica sob o controle mais direto do
proprietário, urbano ou rural), Bertoleza é capaz de cuidar de sua quitanda,
pagar o ganho de seu dono e poupar o necessário para a futura alforria, ou
seja, realiza uma pequena acumulação. A condição jurídica de Bertoleza, porém,
não será de pequena importância para o entrecho de O cortiço. Se, no dia a dia,
ela está socialmente muito próxima de Romão no começo do romance, o peso da
escravidão não deixará de se fazer sentir.
A associação econômica de Bertoleza com Romão, na perspectiva da escrava, abre
a possibilidade de organizar ainda mais a quitanda do Botafogo. É inicialmente
com esse objetivo que ela confia a Romão sua poupança, formada com o destino de
um dia pagar a alforria, e o caixa do negócio, além de fazer dele seu
procurador e conselheiro. Cabe lembrar que, inicialmente, é Romão quem se
acerca de Bertoleza, por ver nela potencialidades de ganho econômico. Ou seja,
a rigor, podemos dizer que, no início do romance, Bertoleza encontra-se numa
posição econômica superior à de Romão. Juntos, eles estabelecem uma relação que
é antes de tudo de divisão de trabalho, e quando passam a viver em "mancebia" é
que tem início o processo que leva à ascensão social de Romão. Da situação de
proximidade social entre os dois, caminhamos para o enriquecimento progressivo
de Romão e o apagamento social, até a morte, de Bertoleza. A construção do
cortiço como espaço de acumulação será, portanto, também a criação de um espaço
social de geração de desigualdade econômica, social e política2.
Retomemos outras observações importantes de Graciliano Ramos sobre economia e
romance para testar essas proposições em O cortiço. Ao fim, esperamos que o
leitor concorde, poderemos dizer que o livro atende completamente às demandas
formuladas por ele.
Ao contrário do que acontece nos romances que incomodam o escritor do século
XX, em nenhuma página da obra de Aluísio temos vontade de perguntar "de que
vivem as suas personagens". Desde o início, o autor estabelece o método que
dominará a apresentação delas durante todo o romance: cada personagem
importante deve ter uma história econômica pregressa. Assim,
João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um
vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura
taverna nos refolhos do bairro do Botafogo; e tanto economizou do
pouco que ganhara nessa dúzia de anos, que, ao retirar-se o patrão
para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só
a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em
dinheiro3.
À apresentação econômica de Romão segue-se a de Bertoleza, escrava de um cego
residente em Juiz de Fora, que se sustenta e paga o jornal de seu proprietário
- vinte mil réis por mês (ou 667 réis para cada um dos 30 dias do mês) -,
trabalhando forte com a quitanda mais bem afreguesada do bairro. Também ela
poupa e já tem guardado quase o necessário para a sua alforria. Na quitanda de
Bertoleza é que Romão faz suas refeições, a quatrocentos réis por dia (não são
especificadas quantas). O português, portanto, no começar de sua ascensão, vive
na condição de "cliente" de Bertoleza. As duas informações são dadas em
sequência, o que permite ao leitor fazer as contas e ter uma dimensão do
negócio de Bertoleza: apenas para pagar o ganho de seu proprietário, eram
necessárias cinquenta diárias como as de Romão.
Estamos no terceiro parágrafo da obra e já sabemos exatamente do que vivem as
duas principais personagens, que relações econômicas travam antes de se unirem
e, finalmente, que ambos são altamente produtivos, capazes não apenas de
sobreviver, mas também de fazer planos comerciais e poupar.
Da mesma forma, será respondida outra demanda de Graciliano, apresentada na
forma de um contraexemplo: "O cidadão é capitalista. Muito bem. Ficamos sem
saber donde lhe veio o capital e de que maneira o utiliza", escreve, para
sugerir casos semelhantes de agricultores e operários. "Não surpreendemos essas
pessoas no ato de criar riqueza. A riqueza surge criada, como nas histórias
maravilhosas"4. Como sabemos, não há nada de maravilhoso no processo de
produção de riqueza em O cortiço: ele vem do sobretrabalho, da privação, da
apropriação ilegal de terrenos, do roubo de materiais de construção ou de
economias alheias. Com as reservas de Bertoleza, Romão compra alguns metros de
terreno ao lado esquerdo da venda e levanta uma casinha de duas portas, com a
quitanda à frente e o dormitório ao fundo. Pouco depois, o vendeiro dá a
Bertoleza uma carta de alforria falsificada, "e nem mesmo o selo, que ele
entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar à burla maior formalidade,
representava despesa porque o esperto aproveitara uma estampilha já servida". O
crime de falsificação aqui, no entanto, ainda conta com um atenuante para o
leitor republicano: embora mantenha Bertoleza numa condição de insegurança e,
na prática, seja um roubo dos recursos da negra, a rigor Romão está se
recusando a pagar um falso direito, naturalizado pelo sistema jurídico
brasileiro, que o leitor antiescravista em geral considera injusto.
Inicialmente, Romão e Bertoleza exploram, sobretudo, a própria mão de obra.
Nesse sentido, estão realizando uma acumulação que não é capitalista, embora
ambos já atuem dentro do mercado capitalista. Trabalham duro, como uma junta de
bois, pouco bebem, pouco se divertem, alimentam-se dos piores legumes, não
comem ovos. Um ano depois de fraudar a alforria de Bertoleza, o vendeiro
arremata algumas braças de terra, onde constrói as primeiras casas. "Servia de
pedreiro, amassava e carregava barro, quebrava pedra." A pedra era furtada da
pedreira ao fundo, subtraída, como também acontecia com outros materiais, de
casas em obras na região. Romão (e aí o romancista o separa ideologicamente de
Bertoleza) "só tinha uma preocupação: aumentar os bens".
Romão deixa de pagar todas as vezes que pode, mas não deixa nunca de receber.
Manipula pesos e medidas e compra produtos roubados por escravos, rompe as
relações de trabalho com o caixeiro Domingos sem lhe pagar as dívidas,
apropria-se das garrafas cheias de cédulas mofadas do velho Libório e mesmo as
notas vencidas são aproveitadas como troco, misturadas a notas válidas.
Em O capital, Marx recorre a uma metáfora para explicar o papel central do
processo de acumulação primitiva no desenvolvimento do capitalismo. No
imaginário capitalista, defende, a "lenda econômica" não explica por que e como
surgem homens que não precisam viver do trabalho. Ela ignora crimes e
violências escondidas por trás do processo que separa o capitalista do
trabalhador:
A lenda teológica conta-nos que o homem foi condenado a comer o pão
com o suor de seu rosto. Mas a lenda econômica explica-nos o motivo
por que existem pessoas que escapam a esse mandamento divino.
Aconteceu que a elite foi acumulando riquezas, e a população vadia
ficou finalmente sem ter outra coisa para vender além da própria
pele. Temos aí o pecado original da economia. Por causa dele, a
grande massa é pobre e, apesar de se esfalfar, só tem para vender a
própria força de trabalho, enquanto cresce continuamente a riqueza de
poucos5.
Marx demonstra que o processo de acumulação primitiva não tem nada de natural e
que, na verdade, trata-se do processo histórico que resulta da dissociação e do
progressivo afastamento do trabalhador em relação aos meios de produção. Esse
caminho envolve apropriação privada de terras públicas, dissolução de
propriedades comunais, fraudes, cobranças de impostos e manejo do poder
estatal, seja por meio da intervenção do poder em disputas privadas em favor de
um dos lados, seja pelo manejo da dívida pública. Marx inclui, também, a
reforma protestante como um fator que acelerou esse processo na Inglaterra, ao
tornar privadas terras da Igreja católica. É esse processo que cria o
capitalista e o assalariado - na verdade, essa é a principal resultante, para a
história do capitalismo, da acumulação primitiva, a criação do proletariado,
privado de outras formas de sobrevivência além da venda de sua força de
trabalho.
O capítulo 23 de O capital, "A lei geral da acumulação capitalista", se inicia
prometendo examinar "a influência que o aumento do capital tem sobre a sorte da
classe trabalhadora"6. É esse processo, diz Marx, que conduz à subordinação do
trabalhador ao capital.
Ao progredir a produção capitalista, desenvolve-se uma classe
trabalhadora que, por educação, tradição e costume, aceita as
exigências daquele modo de produção como leis naturais e evidentes. A
organização do processo de produção capitalista, em seu pleno
desenvolvimento, quebra toda a resistência; a produção contínua de
uma superpopulação relativa mantém a lei da oferta e da expansão do
capital e a coação surda das relações econômicas consolida o domínio
do capitalista sobre o trabalhador7.
Ainda que não coincidentes, há um ponto que aproxima as análises marxista e
naturalista. As duas compartilham a preocupação de expor como a dinâmica
capitalista promove substanciais alterações no modo de viver e, também, de
compreender a vida pelos trabalhadores. As duas leituras são universalizantes,
totalizantes, cada uma a seu modo. A produção romanesca de Zola - e de seus
melhores e piores seguidores - levará para a literatura o desejo de conhecer os
mecanismos gerais da sociedade do século XIX, uma sociedade de classes. Embora
não busque sua fundamentação teórica no marxismo, o romance naturalista não se
furta, como pede Graciliano, a tentar testemunhar o "conflito em que se debatem
o capital e o trabalho".
Como o Naturalismo é um movimento internacional, esses conflitos são percebidos
e registrados em momentos e espaços nacionais diferentes. Antonio Candido, em
sua leitura paralela de L'Assomoir e O cortiço, apontou a "pertinência" da
escolha de Aluísio por tratar da vida econômica:
Na França, o processo econômico já tinha posto o capitalista longe do
trabalhador; mas aqui eles ainda estavam ligados, a começar pelo
regime da escravidão, que acarretava não apenas o contato, mas
exploração direta e predatória do trabalho muscular. Daí a
pertinência com que Aluísio escolheu para objeto a acumulação do
capital a partir das suas fases mais modestas e primárias, situando-
a em relação estreita com a natureza física, já obliterada no mundo
europeu do trabalho urbano. No seu romance, o enriquecimento é feito
à custa da exploração brutal do trabalho servil, da renda imobiliária
arrancada ao pobre, da usura e até do roubo puro e simples,
constituindo o que se poderia qualificar de primitivismo econômico8.
O que faz O cortiço especial, do ponto de vista econômico, é justamente a
demonstração daquilo que Marx chamou de "lenda" e de "pecado original" do
capitalismo: ao descrever o surgimento de capitalistas e de um proletariado
explorado, o romance acaba revelando uma sucessão de "crimes" que Romão e, por
extensão, o agente capitalista cometem, bem como a relação entre acumulação e
extração de riquezas da natureza. Os suores de Romão e Bertoleza estão
presentes nos primeiros estágios de acumulação. Bertoleza continuará "suando"
até o fim do romance, ao passo que Romão se livrará, progressivamente, do
trabalho braçal. Não é o suor, portanto, conta-nos Aluísio, que faz o
capitalista, mas os crimes que a riqueza permitirá, por meio da ideologia,
esconder.
É esse o processo que cria o capitalista Romão e, por consequência, seus
assalariados. Romão não tem escravos, e não os compra com o que acumula -
assim, mostra-se sensível ao futuro da sociedade brasileira, não se amarrando a
sinais de status do passado que não tivessem futuro. Quanto a Bertoleza, desde
o começo sabemos da grande fraude que significou sua alforria; ela, porém, a
ignora. Para o leitor, é a prova viva do "pecado original" de Romão, que não
precisa aparecer muito ao longo do romance para que essa tensão permaneça.
Enquanto aguardamos o desfecho da trama entre Romão e Bertoleza, a massa de
habitantes do cortiço é colocada em movimento. É na pedreira que o modo de
produção propriamente capitalista ganha vida. A acumulação primitiva mostra
seus limites, porque só então, com o processo de transformação da natureza,
Romão passa, informa o narrador do romance, a "ganhar em grosso, tão em grosso
que, dentro de ano e meio, arrematava já todo o espaço compreendido entre as
suas casinhas e a pedreira". O grande salto, porém, virá com a chegada de
Jerônimo, no quarto capítulo. A contratação do operário, também português, é
precedida de um diálogo entre ele e Romão sobre a organização do trabalho. Pela
primeira vez no romance alguém se impõe diante de Romão. Jerônimo pede um
salário de 70 mil réis9, prometendo ampliar o sucesso da exploração da pedreira
- ao observar os outros trabalhadores, afirma, numa terceira pessoa
majestática: "Tudo isso está a reclamar um homem teso que olhe a sério para o
serviço". Romão, que diz pagar 30 mil para seus outros trabalhadores, resiste,
mas acaba se dobrando quando, a partir das observações de Jerônimo, percebe que
será introduzida uma racionalidade até então ausente no trabalho da pedreira.
Romão então imagina o fluxo do dinheiro, pergunta onde Jerônimo fará suas
compras e, ao fim, aceita pagar os 70 mil réis, convencido de que eles voltarão
ao seu caixa direta e indiretamente - ou seja, para além da acumulação
propriamente dita, Romão passa a considerar também no seu processo de
enriquecimento a lógica da circulação do capital: na célebre fórmula de O
capital, D-M-D'.
Essa nova etapa na acumulação, que inclui a ampliação da mais-valia relativa,
não esgota as trapaças e a acumulação primitiva, apenas as torna
progressivamente menos relevantes. É que a etapa seguinte não elimina por
completo a anterior10. Quando se casa com a filha do Miranda, Romão passará a
acumular capital sem dirigir diretamente todos os empreendimentos, num processo
de acumulação em escala ampliada. Seu cortiço se transformará num pequeno
bairro, com ruas organizadas, enquanto outros cortiços surgem na região, com
destaque para o Cabeça-de-Gato, que já não é explorado como o cortiço de Romão:
o português que cuida desse aglomerado humano não é mais o proprietário, mas um
gerente do espaço; enquanto isso, Romão cuida de um negócio que tem
primeiros, segundos e terceiros caixeiros, além de guarda-livros, do
comprador, do despachante e do caixa; do seu escritório saíam
correspondências em várias línguas e, por dentro das grades de
madeira polida, onde havia um bufete sempre servido com presunto,
queijo e cerveja, faziam-se largos contratos comerciais, transações
em que se arriscavam fortunas; e propunham-se negociações de empresas
e privilégios obtidos do governo; e realizavam-se vendas e compras de
papéis; e concluíam-se empréstimos de juros fortes sobre hipotecas de
grande valor.
A Vila São Romão é reformada e passa a se chamar Avenida São Romão. As casinhas
exploradas pelo português chegam a quatrocentas, e os moradores passam a ser
selecionados. O espaço privado de exploração privada transforma-se, sob as
bênçãos do catolicismo que Romão não pratica, mas que é seu aliado no controle
da vida social, em espaço público de exploração privada. Romão pode agora viver
numa mansão maior que a do Miranda, e seu capital é cobiçado pelo vizinho, que,
não podendo com ele, transforma-se em seu sócio, por meio do casamento com a
filha, Zulmira. A condecoração de Romão como abolicionista, ao final do
romance, é o indício de que as benesses do seu enriquecimento não serão mais
apenas materiais, como até então - Romão começa, ao fim do romance, um
acelerado processo de acumulação de capital simbólico.
BERTOLEZA E GERVAISE
A palavra cortiço designa no final do século XIX um tipo de habitação popular
que guarda relação com duas formas presentes nas grandes cidades brasileiras de
hoje: o cortiço, que herdou o nome, hoje mais associado a casarões decadentes
cujos cômodos são alugados separados para famílias inteiras, e a favela, em que
o aluguel de habitações precárias convive com outras diferentes formas de uso
do solo: as famílias pobres podem alugar, mas também com grande frequência são
proprietárias mais ou menos formais do terreno e das casas que habitam. Na
origem, contudo, a palavra cortiço está intimamente ligada ao mundo natural: na
definição do Diccionario de lingua brasileira, de 1832, é "onde as abelhas
criam, e fazem o mel". Na linguagem popular, chamada de "termo baixo" por Luiz
Maria da Silva Pinto, também significa "corpo mal feito por grosso, e igual"11.
Ao representar a habitação popular, a palavra, de certo modo, une essas duas
acepções: a alta concentração demográfica (a imagem da colmeia) e,
simultaneamente, o caráter precário das habitações.
Do ponto de vista do romance, a associação com o mundo das abelhas permite
outra leitura: na colmeia, há rainha, zangões e operárias, que cumprem,
dependendo da fase da vida, funções diferentes, de limpadoras, nutrizes,
armazenadoras, guardiãs e campeiras. A divisão do trabalho e sua organização
"funcional" é uma metáfora comum da sociedade capitalista, embora as abelhas
sejam, desde a Grécia antiga, fonte permanente de representação das sociedades
ocidentais12. Por fim, no final do século XIX, o nome "cortiço" traz também uma
associação possível com a política: o Rio era, até o fim do Império, uma Corte
(o romance se passa, aproximadamente, entre 1872 e 1880, embora essas datas não
sejam explicitadas; para o biógrafo Jean-Yves Mérian, a ausência de datas na
obra se dá porque, para o leitor da época, era muito fácil identificar o
período13). O cortiço seria, assim, um microcosmo da cidade, com regras
próprias e um novo tipo de déspota, o burguês. Nele, João Romão proclama-se um
imperador não de uma Corte, mas de seu cortiço, de sua pequena Corte: ao tomar
conhecimento do título de barão obtido pelo vizinho Miranda, ele como que
proclama a sua independência de proprietário, expulsando a inquilina Marciana:
"Os tarecos fora! e já! Aqui mando eu! Aqui sou eu o monarca!".
A metáfora das abelhas, assim como a alegoria da Corte, no entanto, é
imperfeita. Desde o século XVIII, sabe-se que a abelha principal de uma
colmeia, a chamada rainha, é uma fêmea, e não um macho. Se o mundo da colmeia e
se as ciências da natureza fossem, assim, o modelo exclusivo de Aluísio, o
"natural" seria a abelha Bertoleza assumir o papel de "imperatriz" do romance -
afinal, as colmeias vivem em torno de uma abelha rainha, e não de um zangão.
Mas é o zangão João Romão que assume esse papel de autoridade. Repito os nomes
aqui com seus papéis "naturais" para indicar que as suas sonoridades não
parecem ser insignificantes: elas também remetem ao mundo natural que serve de
modelo, mas que será subvertido. Se o cortiço de Romão continuará sendo o local
em que as abelhas operárias se reproduzem ("criam") e produzem ("fazem o mel"),
sua "organização natural" será superada pela organização social capitalista, em
que o trabalho e a ordem cotidiana são regidos sobretudo por homens,
especialmente por Romão. Esse nome, sinônimo de "romano", coloca o português na
posição possível de um republicano - embora Roma tenha seus períodos de
monarquia e império, ela era essencialmente o modelo, entre as sociedades
antigas, para projetos republicanos, não necessariamente democráticos.
O papel de Bertoleza, porém, não deve ser negligenciado: ele é central na
estrutura do romance, mesmo quando ela é apenas aludida, porque sua "sociedade"
com Romão no início da obra e o suicídio ao final dão o caráter dramático do
enredo e permitem que as cenas do correr do livro ganhem a tão celebrada
unidade. Seu destino também permitiu ao autor inserir o livro no debate
político mais importante do seu tempo: que futuro a República reservava aos
libertos? O cortiço foi lançado a 13 de maio de 1890,
exatamente dois anos após a abolição da escravatura no Brasil [...] e
numerosos leitores ficaram chocados de ver o trágico suicídio de
Bertoleza coincidir com o episódio de um diploma de membro benfeitor
que os abolicionistas entregam a João Romão. Mas quantos
abolicionistas de última hora devem ter reconhecido em si próprios a
João Romão!14.
Aluísio parece ter tido consciência clara de que seu romance não tratava apenas
da gestação de um mundo de trabalhadores "livres" (o operariado), explorados
por capitalistas em ascensão social, como também via em Bertoleza uma
personagem especial, que representava os negros e mestiços (ela é cafuza, ou
seja, mestiça de negro e índio em algum grau ou, pelo menos, na aparência) de
seu tempo e a ausência de perspectivas para esses grupos no pós-abolição.
Bertoleza, ao final do livro, "num relance de grande perigo", compreende a
situação:
Adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para sempre:
adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era
uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matá-la,
restituía-a ao cativeiro.
A saída que Bertoleza encontra, considerada "apenas teatral" por Bosi15, é o
suicídio. A carta de sua alforria, que lhe fora entregue por João Romão,
contudo, creio, permite outra leitura desse final. A falsa liberdade de
Bertoleza merece ser lida como uma alegoria da lei assinada pela princesa
Isabel, dois anos antes da publicação de O cortiço. Estamos diante de um
documento forjado, assim como era "falsa", ou ao menos precária, a liberdade
concedida pelo Império.
No capítulo 21 do romance, o mais cadenciado da obra, em que o narrador usa
longos parágrafos para expressar a busca de opções por Romão, interrompidos por
frases curtas da personagem, com interjeições e muitos pontos de exclamação e
interrogação ("E se ela morresse?...", "E se eu a matasse?", "Diabo!"),
Bertoleza flagra Romão em conversações com Botelho. Ela, que "não é tola"
segundo o próprio Romão, demonstra alto grau de consciência de seu papel na
acumulação de riquezas no período em que manteve a sociedade com o português:
- Você está muito enganado, seu João, se cuida que se casa e me atira
à toa! exclamou ela. Sou negra, sim, mas tenho sentimentos! Quem me
comeu a carne tem de roer-me os ossos! Então há de uma criatura ver
entrar ano e sair ano, a puxar pelo corpo todo o santo dia que Deus
manda ao mundo, desde pela manhãzinha até pelas tantas da noite, para
ao depois ser jogada no meio da rua, como galinha podre?! Não! Não há
de ser assim, seu João!
Romão oferece-lhe uma nova quitanda, mas Bertoleza insiste em seu papel na
ascensão do cortiço e expressa suas ambições: "Quero desfrutar o que nós dois
ganhamos juntos! Quero a minha parte no que fizemos com o nosso trabalho!".
Romão, então, relembra o estatuto social de Bertoleza. Como é branco, não
precisa dizê-lo com todas as letras: "Tu não te conheces?... [...] Tinha graça,
com efeito, que ficássemos vivendo juntos!... Não sei como não me propões
casamento". Bertoleza responde com clarividência: "Então a negra servia para um
tudo; agora não presta para mais nada, e atira-se com ela no monturo do cisco!
Não!".
A assertividade e objetividade de Bertoleza não serão suficientes, no entanto,
para evitar que Romão organize uma armadilha para denunciá-la como fugitiva,
aproveitando-se da fraude inicial da carta de alforria16. A denúncia, feita por
Botelho em conluio com Romão, coloca a negra diante da perspectiva de uma
escravidão renovada, com base na fraude inicial, exposta com a chegada de
policiais. Essa possibilidade de futuro, que representa em termos práticos um
retorno a condições de submissão e crueldade talvez ampliadas, é recusada por
Bertoleza, que recorre à violência autodestrutiva - traída por Romão, o homem
em quem depositara inicialmente toda a sua confiança, ela faz essa violência
voltar-se contra si própria, suicidando-se com uma peixeira, seu instrumento de
trabalho, recusando o destino de mais dor e sofrimento.
Ao pagar sua liberdade ao proprietário por meio da associação com João Romão, e
não diretamente, como em tese seria possível, dada sua trajetória inicial,
Bertoleza como que se livra de aceitar o processo de manumissão, ou seja, a
alforria, dentro do sistema escravista. Ela abandona a lealdade ao senhor e a
transfere, simbolicamente, à parceria que mantém com Romão. Essa transferência
debilita sua dependência em relação ao sistema escravista, abrindo a
possibilidade para que ela possa contestá-lo quando Romão rompe com o pacto que
os uniu no início do romance. Ao não obedecer a Romão quando ele relembra seu
"devido lugar", Bertoleza torna evidente que não aceita mais o acordo em que
aquilo que o ex-escravo ganha "nunca é igual ao que o senhor perde", pois "a
taxa de redenção é interpretada mais como um bem simbólico, como sinal de
gratidão ao senhor pelo bem da liberdade", tornando-se, assim, "o início de uma
nova dialética de dominação e dependência"17. Isso porque, na lógica da
escravidão, mesmo "livre", o escravo permanece submisso ao ex-proprietário.
Machado de Assis demonstra essa ideologia por meio da ironia: Prudêncio, o
garoto que serve de cavalinho a Brás Cubas na infância, já livre, compra um
escravo e paga "com alto juro" a violência que sofrera. Ao reencontrar seu
senhor, que lhe pede para perdoar o escravo, que deixara a quitanda para beber
e por isso estava sendo castigado, Prudêncio responde: "Pois não, nhonhô.
Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!". Ou seja, mesmo livre e
proprietário de escravo, Prudêncio mantinha para com seu ex-senhor uma relação
de submissão, e não à toa Brás Cubas conclui que esse capítulo (intitulado "O
vergalho") "alegre", "gaiato", "fino", "e até profundo"18.
Bertoleza se comporta de forma oposta à de Prudêncio. Ao proclamar assim seu
direito à igualdade, ela coloca, paradoxalmente, seu parceiro em condições
"morais", na sociedade escravista brasileira, de recorrer ao antigo estatuto
jurídico da negra para romper a seu modo o acordo que lhe permitiu tornar-se um
burguês "respeitável", que foi capaz de compreender os movimentos e
oportunidades de um capitalismo em expansão e realizar um projeto de ascensão
social - o que não ocorre com Gervaise, a protagonista de L'Assomoir, o romance
de Zola que promove a internacionalização do Naturalismo nos anos 1870 e que
também tem como elementos centrais a vida social e a exploração econômica nos
bairros populares. Gervaise, inicialmente uma lavadeira que usa um espaço
coletivo de trabalho, também tentará construir o seu negócio. Nos seis
primeiros capítulos (dos treze) do romance, seus projetos, econômicos e
sentimentais, parecem caminhar para a consolidação, em direção a uma
autossuficiência, ainda que com algumas frustrações, na sociedade burguesa. No
sétimo capítulo, há a inversão das expectativas, e a partir de então, nos seis
capítulos finais, a vida de Gervaise toma um rumo descendente. Como escreve um
crítico francês numa introdução à obra, ela "parte de muito baixo para terminar
ainda mais baixo"19.
O que falha nos projetos burgueses de Gervaise? De início, vale indicar que,
embora houvesse mulheres que comandassem negócios no século XIX, elas eram
exceção - assumir esse papel era relativamente mais simples para viúvas do que
para filhas de homens ricos, porém um projeto de ascensão protagonizado por uma
mulher trabalhadora era relativamente raro. Mas só a interdição social não
explica o bloqueio presente na obra de ficção: ele precisa ser construído
formalmente, com a sucessão de fatos, pelo romancista. Logo no início, Gervaise
é deixada por Lantier e passa a viver com Coupeau, trabalhador especializado da
construção civil. Com as economias do trabalho mais alguns empréstimos, ela
abre uma lavanderia. Coupeau, então, sofre um acidente, cai de um telhado em
construção. O álcool é a resposta mais direta para a decadência de Coupeau, e
depois da própria Gervaise, e é comum associar a suposta simplificação dos
escritores naturalistas a essa explicação determinista. Mas é preciso
considerar também como Zola indica ser pequeno o espaço de acumulação do casal,
que associava o trabalho assalariado e cada vez mais inconstante do homem ao
negócio da mulher - que, como Bertoleza, tem uma mentalidade voltada,
sobretudo, para a subsistência. Gervaise passa a ter de sustentar não apenas o
seu projeto, mas também o fracasso e a falta de qualquer assistência externa
(seja do Estado, da Igreja, de colegas ou de um benfeitor) ao marido. E, na
psicologia da personagem Gervaise, podemos identificar que ela, ao contrário de
Romão, não sucumbe à "ética" capitalista, ou seja, viver para acumular, o que a
levaria a deixar Coupeau à própria sorte. Gervaise é solidária: preocupa-se
também com o destino das pessoas próximas, paga contas que esperava dividir,
organiza festas que não sabe como arcará. Sua ambição material não subordina o
desejo de ser querida pelos pares proletários. Da mesma forma, ela não submete,
como faz Romão, a vida sexual às necessidades da acumulação20.
No início do romance francês, Germinie espanca Virginie, o que precipita o
abandono de Lantier. Depois, já dona da lavanderia, voltará a tê-lo como
amante, enquanto Coupeau afunda-se na bebida e no próprio vômito. Finalmente,
ela não explora os potenciais ganhos que teria num relacionamento com Goujet,
que a convida a fugir. Apenas quando já está desesperada pela fome, oferece-se
como prostituta, sem sucesso (um recurso a que Bertoleza não ousa recorrer,
fiel à sua tentativa de seguir uma moral que se afirma pelo trabalho).
Gervaise, mesmo no auge da fome, mantém-se solidária e busca permanecer fiel a
sua cultura proletária. Como não se permite desumanizar, é, paradoxalmente,
desumanizada pela bebida e pelo capitalismo, que destrói seus desejos, projetos
e ambições.
O ocaso de Bertoleza diante de Romão também se expressa no corpo do romance: se
na primeira página pensamos que a obra será centrada nos dois, ao longo do
livro o português torna-se cada vez mais o protagonista, deixando Bertoleza num
segundo plano. As breves menções a ela servem sobretudo para lembrar ao leitor
qual é a trama principal do romance. Bertoleza permanece como que na "voz
passiva" no desenrolar da obra. Está lá, mas cada vez mais rebaixada. Bertoleza
representa um estorvo ao projeto capitalista do português. Romão imagina
recorrer ao poder médico, pois "ia pensando em metê-la como idiota no Hospício
de Pedro II". Mas uma pergunta do Botelho, que quer saber se Bertoleza "era
escrava quando João Romão tomou conta dela", simplifica as coisas. "Acudia-lhe
agora coisa muito melhor: entregá-la ao seu senhor, restituí-la legalmente à
escravidão." Ao perceber o golpe que Romão lhe aplicara, Bertoleza tenta
reverter a situação lembrando a parceria selada com o amante, num gesto de
resistência da personagem negra. Ele não é capaz, no entanto, por meio de
argumentos, de recolocá-la em seu "devido lugar". Romão então recorre ao poder
de polícia do Estado, que mobiliza suas forças para reescravizar Bertoleza e,
assim, tirá-la do caminho que conduzirá Romão à acumulação de capital social.
Ele esconde o rosto ao ver o suicídio, mas a vida segue em frente.
Essa cena não é, no entanto, chocante, para o leitor. Apenas confirma o que
havia sido insinuado. Porque, de certa forma, O cortiço é um romance sem
surpresas. Com isso, não se afirma que na obra não haja grandes cenas, momentos
dramáticos ou emocionantes. Apenas que há um grau elevado de previsibilidade
nas ações e sensações de suas principais personagens. Como em nenhuma outra
obra do Naturalismo brasileiro, há um cuidado especial na construção da
narrativa, de modo que a toda cena relevante antecede uma cena preparatória.
Retomando o papel que a economia tem na obra, pode-se dizer que há mais do que
uma administração do entrecho, há uma contabilidade que faz com que, para cada
saída do romance, corresponda uma ou mais entradas.
O caso mais explícito dessa contabilidade está no suicídio de Bertoleza. Para
sua morte ao final (saída), há uma entrada principal, que é a carta falsa de
alforria. Ela, porém, não é suficiente: cada gesto de Romão ao longo do livro
constitui uma operação quase matemática que vai fazer o leitor, ao final do
livro, considerar verossímil qualquer ação do português contra a escrava. O
distanciamento entre os dois é construído ao longo do romance por meio de
pequenas adições para o lado de Romão e de subtrações para o de Bertoleza.
Nessa conta, no entanto, entram outras personagens. Em dois momentos do livro,
a expressão "bem tolo é quem se mata" aparece, a primeira delas na boca de Rita
Baiana, a segunda na de Pataca, ao assediar Piedade, que a essa altura já vive
sem Jerônimo. O "atenuante" de que Bertoleza é negra e que Romão pode dar o
destino planejado a ela é oferecido por Botelho: "Bolas! Não foi você que a fez
negra!..." - na verdade, é nesse momento que a conta se fecha: a afirmação
inicial, em que é possível dizer que o racismo de Aluísio confunde-se com o do
narrador, quando esse afirma que, "como toda a cafuza, Bertoleza não queria
sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior à
sua", encontra seu complemento, em que ocorre justamente o que Botelho está
negando. Durante todo o livro, a questão racial tem papel pouco explicitado na
fundamentação do distanciamento progressivo entre os protagonistas, mas, no
momento em que mobiliza a polícia para prender Bertoleza, Romão a refaz, social
e juridicamente, escrava - portanto, negra, trazendo a questão racial para a
frente da cena.
Em seu estudo sobre o papel dos provérbios em I malavoglia, Antonio Candido
mostra como o escritor italiano recorreu a um recurso comum na ficção
narrativa: "mostrar uma realidade aparentemente igual à que podemos observar,
mas na verdade rigorosamente marcada, no sentido de que é possível marcar as
cartas do baralho, a fim de levar o jogo aonde queremos":
Verga costumava semear antecipações que rompem a objetividade do
relato, como se o leitor-observador tivesse o dom de prever o que se
vai dar em seguimento ao que lhe é mostrado21.
Aluísio faz algo parecido, mas por outros meios. Quando Romão coloca na capa de
um caderno o título "Ativo e passivo de Bertoleza", no início do romance,
indica que sua relação com ela, como acontece com qualquer freguês, será
mediada pela expectativa de ganho material. A possibilidade de ruptura é
sinalizada quando ele afirma que tudo o que ela ganhar será dela e de seus
filhos, "se os tiver". Romão evita, desde o início, a primeira pessoa do
plural, o que dá a ele, no plano da linguagem, uma garantia "contratual" de que
a união com Bertoleza depende da relação custo/benefício22.
A própria dualidade espacial formada pelo cortiço e pela casa do Miranda,
observada do ponto estruturalista por Affonso Romano de Sant'Anna23, acaba
expressando o efeito de previsibilidade comparativa do romance, com resultado
semelhante ao obtido por Zola nos contos reunidos em Como se nasce, como se
morre24. As festas de um lado são antecipações das festas do outro, e a própria
construção do muro que separa os dois espaços acaba sendo apenas uma divisão
temporária, fadada a ser superada; na verdade, é o preâmbulo do casamento,
porque desde o início Romão rejeita aceitar as "fronteiras" impostas pelo
vizinho comerciante. Miranda recebe o título de barão que será invejado por
Romão: como esse deseja superar o vizinho, planeja se tornar visconde. A
"previsão" se estende para fora do livro: no último capítulo, quando é selada
finalmente a aliança entre Miranda e Romão, numa confeitaria da Rua do Ouvidor,
ou seja, no centro do Rio, e não mais no Botafogo, o narrador chama Romão de
"ex-taverneiro e futuro visconde" - não sabemos aqui se ele fala em nome da
personagem, em discurso indireto, refletindo o que pensa Romão, ou se está
abrindo a última entrada do romance, que permitiria uma das sequências
planejadas e nunca executadas por Aluísio.
O cortiço acaba, assim, com saldo positivo. O romance prenuncia um futuro que
pode ser imaginado pelo leitor, treinado nessa chave ao longo da obra. E como
os ambientes são espaços de exploração econômica que esse leitor (que, como
regra, participa da vida do capitalismo) pode reconhecer e no qual pode, em
alguma medida, se reconhecer, O cortiço passa a fazer parte, direta ou
indiretamente, da sua "contabilidade pessoal". O futuro de João Romão, vale
dizer, da sociedade capitalista "nascida" no romance, não está mais contido
pelo cortiço. Suas atividades comerciais, culturais e financeiras facultam ao
leitor imaginar-se interagindo, se não diretamente com ele, com um sistema em
que capitalistas como ele atuam.
Romão não é um vilão clássico: ao fim e ao cabo, ele é o responsável pela
modernização do cortiço e, por extensão, do país. Mas o romance, nessa medida,
é dialético: sem deixar de mostrar esse seu papel "progressista", expõe a
violência que se esconde sob a lenda do capitalista que enriquece "com o suor
do próprio rosto". Mais que as cenas fortes de sexo, parece-nos que é
justamente a possibilidade de dar a conhecer o que está por trás dessa lenda
capitalista que fez, e ainda faz, de O cortiço um romance popular. Ao mostrar
como nele "apagam-se, assim, os traços do passado, eliminando da história os
assassinatos, as traições, a perversidade utilizada para alcançar o poder",
além de permitir que os que enriquecem apaguem as relações de "mestiçagem
original" - e no caso de O cortiço, essa mestiçagem é menos racial, porque
Romão e Bertoleza não têm filhos, do que cultural e econômica -, o romance de
Aluísio revela como a elite brasileira construiu-se, por meio de falsificações
e violências, "branca, honesta, religiosa e com bons costumes; além, é claro,
de culturalmente preparada para assumir o comando"25.
Num artigo relativamente recente, que discute O cortiço como microcosmo racial
da república brasileira e o avalia como um romance fundacional, o autor comenta
que, "ironicamente, num romance em que o autor busca enaltecer o homem branco,
é a mulher negra que merece a reverência do leitor"26. A avaliação de que é
Bertoleza a personagem com a qual o leitor cria empatia é precisa, mas talvez
não haja tanta ironia assim: num país tão perturbado pelas questões raciais,
Aluísio construiu uma anti-heroína negra, que aceita as regras do jogo e se dá
mal. O que a inferioriza na prática não é a raça como fator biológico, mas as
relações de poder da sociedade ainda escravista e, em breve, pós-escravista.
[1] Ramos, Graciliano. "O fator econômico no romance brasileiro", em. In:
Linhas tortas. Rio de Janeiro/São Paulo: Record/Livraria Martins Editora, 1976. O texto completo, datado de 15 de julho de 1945, de onde
retiramos as citações para este artigo, ocupa as páginas 253 a 259.
[2] É possível, claro, enxergar uma influência do darwinismo social nesse
processo, baseado na ideia de que João Romão seria mais "apto" e, portanto,
sobreviveria, dominando os demais moradores. O componente que permite essa
"vitória" de Romão, no entanto, não se explica racial ou geneticamente, mas
pela habilidade de explorar e acumular. Assim, podemos dizer que, se há
ciências que explicam seu sucesso, elas são, além da economia, a psicologia e a
sociologia, não a biologia.
[3] Azevedo, Aluísio. O cortiço. As citações neste artigo foram retiradas de
Ficção completa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, vol. 2, pp. 439-633.
[4] A apresentação "econômica" das personagens se mantém mesmo no caso de Rita
Baiana: sua vida "malandra" não é suficiente para deixá-la sem profissão. Assim
que as lavadeiras dão por sua falta, uma delas, Augusta, nos informa do que
deveria viver Rita, que se mete na "pândega sem dar conta da roupa que lhe
entregaram".
[5] Marx, Karl. O capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, livro
1, vol 2, p. 827.
[6] Ibidem, p. 715.
[7] Ibidem, p. 851.
[8] Candido, Antonio. "De Cortiço a Cortiço". In: O discurso e a cidade. São
Paulo/Rio de Janeiro: Duas Cidades/Ouro Sobre Azul, 2004, p. 108. O texto teve uma versão preliminar publicada na revista Novos Estudos
Cebrap, São Paulo, n-º 30, 1991.
[9] A renda de 70 mil réis mensais é significativa no romance: ela marca a
possibilidade de viver a vida proletária com algum conforto: além de Jerônimo,
Firmo sonha com um emprego público que lhe garanta esse ordenado, e Augusta
Carne-Mole, uma lavadeira, ganhou esse valor como ama de leite. É para
conseguir a mesma posição que Leocádia, mulher de Bruno, tenta engravidar de
Henrique, o jovem estudante que vive na casa dos Miranda.
[10] O geógrafo David Harvey cunhou recentemente o conceito de "acumulação via
espoliação" - sustentando-se em Marx, mas também nas observações de Hannah
Arendt sobre as crises dos anos 1860 e 1870 na Inglaterra. Harvey, que discute
as privatizações neoliberais dos anos 1990 como uma retomada em grau elevado
dos grandes processos de acumulação primitiva, diz considerar "estranho
qualificar de 'primitivo' ou 'original' um processo em andamento". Segundo ele,
a acumulação via espoliação "pode ocorrer de uma variedade de maneiras, havendo
em seu modus operandi muitos aspectos fortuitos e casuais", o que permitiria
associá-la aos métodos de Romão depois que ele já explora novos modos de
produção e vive de rendas geradas pelos aluguéis. Harvey, no entanto, acaba por
diferenciar essa "acumulação primitiva" renovada das acumulações primitivas
originais: a acumulação via espoliação não abre espaço para processos de
acumulação ampliada, apenas "faz ruir e destrói um caminho já aberto". Cf. O
novo imperialismo. São Paulo: Edições Loyola, 2004, especialmente o capítulo "A
acumulação via espoliação", pp. 115-48.
[11] Silva Pinto, Luiz Maria da. Diccionario de lingua brasileira. Ouro Preto:
Typographia de Silva, 1832, p. 295.
[12] Para uma história das comparações entre as sociedades das abelhas e as
sociedades humanas, cf. Wilson, Bee. The hive: the story of the honeybee and
us. Londres: John Murray Publishers, 2005.
[13] A versão cinematográfica dirigida, em 1978, por Francisco Ramalho Jr. faz
outra leitura, levando a trama até 1889, com Rita Baiana comemorando no chão a
Proclamação da República e Romão a observando da sacada do sobrado.
[14] Segundo Jean-Yves Mérian. Aluísio Azevedo - Vida e obra (1857-1913). Rio
de Janeiro: Espaço e Tempo/INL, 1988, p. 578.
[15] Bosi, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 3-ª ed. São
Paulo: Cultrix, 1979, p. 213.
[16] Não é, na verdade, a primeira vez que Romão usa sua condição de
proprietário para mobilizar o poder do Estado: quando Marciana enlouquece, após
ser despejada, ele recorre a um policial que entrou na venda para tomar um gole
de parati. Sem informar o detalhe de que ele, Romão, acabara de despejar uma
inquilina, afirma que ela não tem domicílio, e uma hora depois sua ex-inquilina
é levada para a delegacia.
[17] De acordo com Orlando Patterson, em seu estudo sobre a escravidão,
Escravidão e morte social. São Paulo: Edusp, 2008, p. 410.
[18] Machado de Assis, Joaquim Maria. Memórias póstumas de Brás Cubas. São
Paulo/Rio de Janeiro/Porto Alegre: W.M. Jackson, 1944, p. 215.
[19] Dubois, Jacques. "Introduction". In: L'Assomoir. Paris: Le Livre de Poche,
1996, p. 18.
[20] Em O cortiço, romance em que não faltam cenas sexuais explícitas (entre
Miranda e Estela, Estela e Henrique, Léonie e Pombinha, Rita Baiana e
Jerônimo), não há nenhum "flagrante" de Romão e/ou Bertoleza fazendo sexo.
[21] Candido, op. cit., p. 98.
[22] A construção com "entradas" e "saídas" se aplica também a outras
personagens, como Pombinha e Rita Baiana. Ela é igualmente visível em
episódios, como a presença da polícia no cortiço. Descrevo-as em O Brasil na
internacional naturalista - adequação da estética, do método e da temática
naturalistas no romance brasileiro do século 19. São Paulo: tese de doutorado,
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2012. Disponível em:
<www.teses.usp.br/teses/>. Acesso em: 1º jul. 2013.
[23] Sant'anna, Affonso Romano de. Análise estrutural de romances brasileiros.
7-ª ed. São Paulo: Ática, 1990, p. 88-106.
[24] Zola, Émile. Como se casa, como se morre. Trad. Duda Machado. São Paulo:
Ed. 34, 1999.
[25] Dalcastagné, Regina, "Da senzala ao cortiço - História e literatura em
Aluísio Azevedo e João Ubaldo Ribeiro". Revista Brasileira de História, vol.
21, n-º 42, 2001, p. 484.
[26] Price, Brian L. "(Miscege)nación en O cortiço". TRANS-[en ligne], Paris,
n-º 5, 2008, p. 6. Disponível em: <http://trans.revues.org/239>. Acesso em: 17
mar. 2012.