Manet: Uma revolução simbólica
OBJETIVOS DO CURSO: A REVOLUÇÃO SIMBÓLICA INAUGURADA POR MANET
Vou lhes falar este ano do que poderia ser descrito como uma revolução
simbólica bem-sucedida: a que foi inaugurada por Édouard Manet (1832-1883), com
a intenção de tornar inteligível tanto a revolução em si mesma, o que ela tem
de peculiar, como as obras que essa revolução provocou. Mais genericamente,
gostaria de tentar tornar inteligível a própria ideia de revolução simbólica.
Se as revoluções simbólicas são especialmente difíceis de entender, mais ainda
quando são exitosas, é porque o mais difícil é entender o que parece óbvio, na
medida em que a revolução simbólica produz as estruturas pelas quais a
percebemos. Em outras palavras, assim como as grandes revoluções religiosas,
uma revolução simbólica desarranja estruturas cognitivas e às vezes, em certa
medida, estruturas sociais. Quando bem-sucedida, ela impõe novas estruturas
cognitivas que pelo fato de se generalizarem, de se difundirem, de habitarem o
conjunto num universo social dos sujeitos que percebem tornam-se
imperceptíveis. Nossas categorias de percepção e apreciação, as que normalmente
empregamos para entender as representações do mundo e o próprio mundo, nasceram
dessa revolução simbólica bem-sucedida. A representação do mundo nascido dessa
revolução tornou-se, assim, evidente - tão evidente que o escândalo provocado
pelas obras de Manet é em si mesmo objeto de espanto, senão de escândalo. Em
outras palavras, assistimos a uma espécie de reviravolta.
Tentarei tornar sensível para vocês o que enuncio de maneira abstrata nesta
primeira aula, e não é tão fácil quanto parece. Essa reviravolta do "a favor"
ao "contra" impede perceber e compreender o trabalho de conversão coletiva que
foi necessário para criar o mundo novo cujo produto é nosso próprio olhar -
emprego de propósito o termo "conversão", conotado religiosamente. É claro que
quando uso a palavra "olho", é no sentido de órgão socialmente construído, como
no belíssimo livro L'Oeil du Quattrocento, em que Baxandall tenta analisar a
gênese social de um olhar histórico, de um sistema de categorias de percepção
incorporadas1. Esse trabalho de conversão, que eu gostaria de tentar analisar
aqui, só pode ser entendido à custa de uma conversão do olhar que temos de
nosso próprio olhar. Ou, mais exatamente, só pode ser compreendido graças a um
trabalho que vise desbanalizar a revolução cujo produto é nosso olhar,
desbanalizando tudo o que seu êxito banalizou, isto é, as estruturas objetivas
e incorporadas que ela impôs, a começar pelas de nossa própria visão.
Emprego de propósito o vocabulário da banalização e da desbanalização a fim de
traduzir a linguagem do estranhamento dos formalistas russos2, e de reconciliar
ao mesmo tempo duas tradições muito afastadas: a dos formalistas russos e a
weberiana - Max Weber insistindo no que chama de rotinização ou banalização do
carisma3. Uma revolução simbólica é uma revolução carismática típica. Como as
religiões dos grandes fundadores de religiões, uma revolução carismática se
impõe na forma de estruturas mentais e, por isso, tende a se rotinizar e a
banalizar o que é percebido por meio dessas categorias banalizadas, a saber, o
próprio objeto da desbanalização, o próprio objeto do ato de desbanalização. O
paradoxo do Grande Inquisidor, de Dostoiévski4, ou mais exatamente o princípio
desse paradoxo, está contido nessas análises. Não há nada de espantoso em uma
mensagem religiosa destruir-se por si mesma, destruir em especial sua força
subversiva, pelo próprio fato de ser exitosa e se tornar universal.
UMA ORDEM SIMBÓLICA REALIZADA
Para entender essa revolução simbólica sobre a qual tentei dizer - talvez de
modo um pouco abstrato já que ela é intrinsecamente difícil de entender - será
preciso tentar captar primeiro a ordem simbólica que Manet derrubou, e em que
consistia essa ordem: uma ordem simbólica realizada é uma ordem que se impõe
como evidente, uma ordem tal que seu questionamento não vem ao espírito de
ninguém. Em outras palavras, uma ordem simbólica realizada cumpre 5 [consegue]
perceber que essa ordem própria simbólica seja óbvia, seja taken for granted.
Para reconstituir essa ordem simbólica em toda a sua força é preciso levar em
conta o fato de que a experiência do "isso é óbvio" é absolutamente
extraordinária, mas que, paradoxalmente, parece ordinária: é extraordinária
porque supõe um acordo quase perfeito entre as estruturas objetivas do mundo,
daquilo que é percebido, e as estruturas cognitivas pelas quais o percebemos. E
é desse acordo imediato, sem discordância, sem dissonância, sem desacordo, que
nasce a experiência do "é assim", do "isso é óbvio", do "não pode ser
diferente".
[. . . ]
A revolução de Manet foi qualificada, erradamente penso eu, de "revolução
impressionista". Acho que ele não tem quase nada a ver com os impressionistas,
que é um erro de categoria, como diriam os filósofos, tê-lo catalogado entre
eles, quando sempre fez questão de manter distância dos impressionistas, não só
para se diferenciar, mas por desejar fazer algo totalmente diferente. A
revolução inaugurada por Manet, que no fundo é a da Arte Moderna, continua a
ser um lance histórico, que envolve debates.
ARTE DE ESTADO E ACADEMICISMO DE VANGUARDA
Esboçarei muito rapidamente essa comparação permanente à qual os convido. No
Segundo Império francês (1852-1870), quando surge Manet, a França é dotada de
uma arte de Estado. Há o Salão, o Institut de France, as Belas-Artes, os
museus, em suma, todo um sistema burocrático, por assim dizer, de gestão dos
gostos do público - voltarei mais adiante a essas instituições. Oferecem-se ao
público obras selecionadas em tais condições que está claro que as obras
expostas merecem sê-lo, e as que não são não o merecem. Portanto, há a arte
verdadeira e a arte não verdadeira - classificação que os museus continuam a
produzir. O que é uma obra de arte senão uma obra consagrada pelo fato de estar
num museu (cf. o mictório de Duchamp6)? Há uma intervenção clara do Estado na
ordem da estética, esta intervindo como instância de categorização e de
classificação: é uma instituição classificadora. Hoje temos equivalentes. Assim
como a instituição acadêmica, o Institut de France, os Salões etc. produziam
uma arte acadêmica, podemos tentar saber se hoje os museus, os conservadores de
museus, as subvenções aos artistas, as compras de quadros etc. não produzem uma
arte acadêmica, ou se não têm um efeito de academização de certa arte. É uma
pergunta que se deve fazer. Por exemplo, meu colega Marc Fumaroli coloca com
muito vigor e virulência, sem que eu concorde com ele, a questão desse
academicismo que uma arte de Estado produz7.
Tendo dito isso sobre o academicismo, [é importante] ver que se trata de um
academicismo de vanguarda. A situação de Manet era mais simples: havia uma
ruptura com a arte acadêmica, havia inovadores condenados pela instituição e
havia a instituição que os condenava. Foram precisos trinta a quarenta anos
para que se instituíssem uma nova instituição acadêmica, um academicismo de
vanguarda, ou um vanguardismo acadêmico, o que faz a questão da intervenção do
Estado na instituição artística se apresentar, e a questão da autenticidade dos
artistas consagrados pela instituição também se apresentar. Poderíamos dizer
que se trata de uma das maiores questões para os críticos de hoje, não apenas,
aliás, no campo das artes plásticas, mas também no campo da literatura. Como
distinguir entre os cínicos da falsa revolução e os revolucionários autênticos?
O critério seria a sinceridade, evocada, por exemplo, nos debates em torno de
Manet? Perguntavam se ele era um impostor ou um pretensioso cínico, se fazia
tudo aquilo para ser notado.
A FALSA REVOLUÇÃO
Por meio dessa interrogação, uma das questões fundamentais que o historiador
não pode afastar é a da intenção do artista. Os críticos da época, os Jules-
Antoine Castagnary, os Théodore Duret, os Théophile Thoré-Bürger fazem
constantemente a pergunta das intenções do artista, e não param de lembrar a
que ponto tudo depende disso. Hoje é a mesma coisa. Na época de Manet, vemos
aparecer impostores que, tendo entendido antes dos outros a revolução em
marcha, operam uma conversão pelo menos aparente e acumulam por certo tempo os
proveitos da conservação e os da conversão. Um dos mais típicos, e voltaremos a
ele, é um dos personagens de L'Oeuvre, de Émile Zola, chamado Fougerolles; na
verdade, trata-se de Jules Bastien-Lepage8, personagem ideal típico que
encontramos em todos os campos. Por exemplo, no campo da alta-costura9 temos
personagens revolucionários como Courrèges, e depois temos arranjadores como
Saint- -Laurent. Em todos os campos são pessoas que em geral vêm depois, que
compreendem o que aconteceu e sabem fazer uma versão soft da revolução hard, o
que os leva a ter muito lucro. A certa altura, até mesmo os amigos de Manet
preferiam Bastien-Lepage a Manet. Não tinha a menor graça: Manet ainda sequer
se consagrara e já seus macaqueadores, os macaqueadores do gênio, auferiam
lucros, enquanto ele continuava condenado - morreu condenado. Para quem tem a
mística do artista maldito, pode-se dizer que é bom sinal morrer condenado, mas
não creio que seja divertido viver assim.
Desde que a revolução simbólica está em marcha, há lugar para a impostura da
revolução, para o faz de conta da revolução. Tanto é que a situação atual da
arte, que apenas esbocei para que vocês a tenham em mente, apresenta analogias
consideráveis com a situação da arte no Segundo Império, com a diferença maior
de que hoje, embora seja chique dizer que não há mais vanguarda, o vanguardismo
é reconhecido e legítimo. Há um vanguardismo legítimo e há até mesmo guardas
legítimos do vanguardismo legítimo, que são os conservadores dos grandes museus
de Arte Con temporânea. E esses conservadores da vanguarda são evidentemente o
alvo maior dos conservadores da arte, conservadores artísticos que se apoderam
dos conservadores da vanguarda, ou do vanguardismo conservador, do vanguardismo
falso, para justificar a condenação do vanguardismo puro e simples.
[. . . ]
A análise do espaço da crítica na época de Manet tem uma dupla justificativa.
Primeiro, assim como em geral se pratica a crítica dos documentos, de sua
autenticidade, [indagando] se a assinatura é autêntica ou não, se o documento é
falsificado ou não, assim também se deve, parece-me, praticar uma crítica
sociológica ou histórica dos documentos. Por exemplo, quando se pega um texto
de críticos como Thoré, Duret, Castagnary etc. , não se trata apenas de saber
se é autêntico, em que data foi escrito, como foi estabelecido, onde foi
publicado; é importante saber que posição ocupava no espaço dos discursos
contemporâneos. Ou seja, qual era a posição desse discurso no espaço dos
discursos, e qual era a posição do produtor desse discurso no espaço dos
produtores desses discursos. Um documento, seja qual for e isso é verdade,
creio, para todo documento histórico, é uma tomada de posição num espaço que
tem sentido, de um lado, por referência ao espaço das tomadas de posição
homólogas, e de outro, por referência ao espaço das posições cuja expressão são
essas tomadas de posição. Portanto, é a primeira justificativa para essa
crítica, para essa preliminar da crítica da crítica.
Segunda razão que impõe ver essa crítica como objeto: eu disse ao iniciar que a
revolução operada por Manet era difícil de entender na medida em que tinha sido
bem-sucedida e que se impusera a nós, impusera as estruturas mentais que havia
construído. Na verdade, compreender a crítica e a evolução progressiva do
espaço da crítica equivale a compreender as condições em que a revolução se
realizou. Portanto, é com a condição de entender a gênese de um espaço da
crítica e as transformações desse espaço que se pode compreender a passagem de
uma crítica acadêmica a uma crítica estética, e a invenção do crítico no
sentido em que o entendemos - essa invenção fazendo parte das transformações
que a revolução de Manet produziu, e da qual ela é simultaneamente o produto.
Fala-se muito de sociologia da recepção, de teoria da recepção, mas se poderia
dizer que, no caso particular da situação de Manet, o interesse de uma análise
da crítica é servir de base a uma sociologia da recepção.
Na verdade, o cerne do que eu queria lhes mostrar rapidamente hoje é que a
revolução simbólica prejudica as categorias de percepção dos sujeitos que
percebem, desafia suas categorias de percepção. Ao agredi-los, ao questioná-
los, a revolução simbólica os obriga, de certa forma, a se revelarem. O
heresiarca, como eu disse há pouco, desbanaliza, perturba os receptores,
coloca-os em estado de indignação; escandaliza-os e, ao mesmo tempo, leva-os a
explicitar o banal, o evidente, o "isso é óbvio", o que o crítico autorizado, e
tanto mais na medida em que é mais autorizado, mais repugna dizer. Ele não tem
de se justificar sobre o que é óbvio, por exemplo, sobre o primado do antigo em
relação ao contemporâneo, não tem de se justificar a respeito do primado da
profundidade em relação à mediocridade etc. Ou seja, o escândalo artístico é
uma provocação, uma intimação pela qual as autoridades, as pessoas que se
sentem autorizadas a falar - é o caso dos críticos a respeito das obras de arte
-, são instadas não só a dizer se é bom ou se é ruim, o que fazem de bom grado,
como também a trazer à luz os considerandos mais inconscientes e os mais
ocultos de seus julgamentos. E esses considerandos, evidentemente, quase nunca
eles os dizem na forma de uma axiomática clean, na forma de propostas frias do
tipo "o antigo é melhor que o contemporâneo", "o profundo é melhor que o raso";
dizem-nos na forma de injúrias, de agressão, de violência: são submetidos a uma
forma de violência e respondem pela violência.
DO BANAL AO ESCÂNDALO
Já que agora chegamos à obra, quero expor por alto a intenção da projeção do Le
Déjeuner sur l'herbe, que vocês têm diante dos olhos. É evidente que,
projetando uma obra banal e banalizada - é possível encontrá-la em embalagens
de tortas, e é com certeza a tela mais comentada depois da Mona Lisa, ou seja,
a mais vista e portanto não vista -, tenho a intenção meio louca de permitir a
vocês que reencontrem a sensação de escândalo que essa tela banalizada
conseguiu provocar. Como uma obra para embalagem de tortas pôde provocar uma
violência inimaginável? Penso que os textos mais revolucionários de Marx ou
Durkheim não provocaram um centésimo da violência que essa obra suscitou, assim
como seu duplo, a tela Olympia (1863). Diante de uma obra como essa podemos nos
fazer muitas perguntas, mas eu queria simplesmente fazer uma analogia. Pode-se
pensar nessa obra, por analogia, como um fenômeno de aggiornamento religioso,
que é uma forma suave de revolução simbólica: é uma forma de revolução contra a
instituição realizada pela instituição. A coisa começa por um concílio, um
trabalho coletivo, censurado, silencioso, sacerdotal, episcopal, cardinalesco.
Há censuras de toda espécie que fazem a coisa não ter a violência de uma
heresia singular cometida originalmente por um agente singular. O aggiornamento
fornece, apesar dos pesares, uma analogia. Há alguns anos, escrevi um livro
chamado Ce que parler veut dire 10, no qual reproduzi documentos que havia
descoberto por acaso: passando pela rua Saint-Sulpice, caí num livro chamado Le
Livre blanc et noir de la communion solennelle 11. Evidentemente, meu olhar
sociológico despertou, comprei-o e descobri algo absolutamente extraordinário:
o autor, padre Lelong, pregador da Notre-Dame, compilara de certa forma todas
as cartas indignadas que recebera de seus fiéis a respeito da transformação da
liturgia católica provocada pelo Concílio Vaticano II. Vocês verão, se olharem
esse livro, e acredito que é muito divertido. Apresentei, na página da
esquerda, frases que enunciam experiências indignadas do escândalo, e pus entre
parênteses números que remetem ao tipo de escândalo enunciado: "(1) quer dizer
erro de agente, (2) quer dizer erro de instrumento" etc. Eis um exemplo de
erro: dá-se a comunhão, mas ela é dada numa granja ou numa cozinha. É um erro
de lugar que provoca escândalo; dá-se a comunhão, mas ela é dada por um laico,
não por alguém legitimamente mandatado por um corpo constituído detentor do
monopólio da manipulação legítima dos bens de salvação, como diz Max Weber,
isto é, por um padre; portanto, é outra causa de escândalo. Erro de
comportamento: o padre dá a comunhão tirando do bolso a hóstia [risos]. Estão
vendo? Vocês estão rindo, é o mesmo riso que Manet provocava. Ou então, em vez
de dar a hóstia na boca, dá na mão. Isso choca muito as pessoas, é um erro de
comportamento. Outros se indignam com o tamanho das hóstias, grandes demais: é
preciso cortá-las em pedaços, não é possível engoli-las de uma vez.
[. . . ] Creio que o escândalo provocado por Manet devido ao quadro Le Déjeuner
sur l'herbe é perfeitamente análogo ao aggiornamento, mas em muito mais
violento, e se lemos as críticas contemporâneas de Manet como eu li Le Livre
blanc et noir de la communion solennelle, podemos descobrir o que eu descobri,
isto é, uma análise pronta das condições do funcionamento do sistema acadêmico.
Assim como os paroquianos indignados descobriam faltas e infrações, também os
críticos indignados, tornando-se a expressão do grande público e os porta-vozes
do riso popular, descobriam as faltas do heresiarca que, ao mesmo tempo,
revelava todos os pressupostos implícitos e tácitos da ordem acadêmica. O
discurso dos críticos designa, portanto, as condições de um funcionamento
harmonioso da liturgia estética e do Salão. Assim como a crise da liturgia é
uma crise da linguagem religiosa que acompanha uma crise do corpo sacerdotal e
redobra uma crise da linguagem, também a crise provocada por Manet é
essencialmente uma crise da linguagem estética: as pessoas já não sabem como
falar daquilo. Manet faz uma coisa da qual ninguém sabe como falar, da qual não
se tem nada a dizer. Infelizmente, algo que os historiadores esquecem é que as
coisas mais importantes se expressam muitas vezes pelo silêncio. Por exemplo,
um dos problemas que os críticos levantam - é o problema levantado por todas as
lutas simbólicas - reside no fato de saber se fazemos mais mal a Manet falando
dele ou não falando. E há críticos que farão questão, até o fim, de não falar.
O crítico do Le Figaro só falará do assunto no final, quando já não será
possível deixar de falar, porque todo mundo fala e porque Manet faz um sucesso
escandaloso. Mas uma das estratégias mais eficazes, pelo menos no início, é o
silêncio. Uma das virtudes das análises sistemáticas é fazer surgirem os
silêncios. Ao passo que, se vocês pegarem os discursos dos que falaram, não
verão aqueles que nada disseram, embora os silêncios possam ser mais eloquentes
que os discursos dos que falaram.
UM QUADRO CHEIO DE INCONGRUÊNCIAS
O heresiarca que fez o quadro produz um efeito de escândalo, rompe uma ordem
simbólica, o acordo entre as estruturas cognitivas e as estruturas sociais que
existe no fundamento da experiência do mundo social como algo óbvio. As
estruturas se apresentam, na maioria das vezes, na forma de oposições binárias:
há o alto e o baixo esteticamente, que correspondem à hierarquia dos gêneros,
há a oposição masculino/feminino, a oposição burguês/povo etc. Por exemplo, o
que foi visto de imediato por certo número de críticos "populares" (isto é,
críticos escrevendo em jornais populares e preocupados em se exibir diante de
seu público, dizendo a ele o que ele tem vontade de ouvir - o fenômeno da
audiência já existia...) foi o barbarismo sexual, o fato de que houvesse homens
burgueses vestidos e uma mulher nua, supostamente uma modesta mocinha do povo.
Esse quadro é cheio de incongruências - deveria-se dizer "incongruidades" -,
isto é, é cheio de contradições do ponto de vista das categorias, dos esquemas
de percepção tacitamente inscritos nos cérebros das pessoas daquela época,
daquilo que é admitido pela maioria dos espectadores e dos artistas. Por
exemplo, observa-se que o quadro que mede 2,08 m × 2,64 m é grande demais para
seu tema. Já não temos mais no olhar as medidas, tampouco a relação entre a
hierarquia das categorias artísticas, portanto das obras, e a hierarquia dos
tamanhos dos quadros. Alguns consideram que é grande demais para uma cena de
gênero12, e notadamente para uma cena de banho, que é uma categoria muito
particular. Críticos verificam que temos uma contradição entre a
contemporaneidade e o caráter pastoral da obra: é realista demais para ser uma
cena de banho. Outra causa de escândalo que os críticos apontam é demasiado
público e oficial para ser uma imagem salaz, a qual podia ser vendida por baixo
do pano ou relegada às carteiras de notas dos cavalheiros. Aquela obra é uma
dupla transgressão de duas espécies de sagrado (ela comete um sacrilégio no
sentido durkheimiano): transgride um sagrado específico, de ordem estética,
denunciado especificamente pelos mais competentes, pelos mais devotos - que são
aqueles mais escandalizados -, e um sagrado não específico que é o sagrado
ético-sexual.
Então, a primeira transgressão que tem a ver com a relação entre a hierarquia
dos gêneros e a hierarquia dos formatos: Le Déjeuner sur l'herbe é uma tela
grande, quando os formatos comumente disponíveis se situavam entre 21,6 cm ×
7,2 cm e 94,4 cm × 129,6 cm. Havia certo número de formatos-padrão fora dos
quais era preciso fazer uma encomenda especial. Vai se colocar a questão de
saber se Manet pretendia chocar, na medida em que é certo que quis esse formato
não padrão, dissonante com o que queria pintar como tema. Portanto, o tamanho
do Le Déjeuner sur l'herbe é o que os pintores de história empregam para suas
recriações de acontecimentos nobres (na hierarquia das artes, havia as pinturas
religiosas, depois as pinturas históricas, depois as cenas de gênero e, bem
embaixo, as naturezas- -mortas). Manet escolheu pegar deliberadamente um grande
formato para uma paisagem, uma cena de gênero, que é um gênero inferior. Manet
tem uma intenção ambiciosa, tema que volta na pluma dos críticos
permanentemente: Quem ele pensa que é? Quer ser chefe de escola enquanto não
conhece nem sequer seu ofício! Eles denunciam a pretensão de Manet, denúncia
que repousa na percepção inconsciente das dissonâncias do quadro. Uma das
coisas interessantes é que a indignação fica na garganta, no peito - haveria
uma sociossomática a fazer, porque a indignação moral não encontra as palavras
para se expressar, já que o essencial se passa aquém da explicitação e da
consciência, o que não quer dizer que seja inconsciente no sentido freudiano.
Um dos problemas da indignação ética é que não há palavras para expressá-la.
O EFEITO DE COLISÃO ENTRE O NOBRE E O TRIVIAL
Segunda transgressão: as referências históricas. Primeira observação: os
críticos da época que localizam as referências históricas, isto é, os
"empréstimos" feitos aos pintores do passado, são raros (três ou quatro para
esse quadro), enquanto os críticos de hoje rivalizam em matéria de referências
históricas. É um dos vieses da iconografia, segundo Erwin Panofsky: para um
crítico experiente é questão de honra encontrar referências na pintura, na
gravura, na litogravura etc. , ao passo que os mais cultos críticos
contemporâneos de Manet (por exemplo, Thoré), salvo certas exceções, fazem
pouquíssimas referências históricas, o que é uma informação histórica sobre o
olhar histórico da crítica histórica da época. É uma crítica que está ali para
contar a história que o quadro conta, e não para contar a história da pintura
em que aquele quadro se situa. O crítico é alguém que faz um comentário escolar
e sobretudo literário (é preciso que seja muito bem escrito), e tem a pretensão
de redigir um texto que seja um quase substituto do quadro. É uma tradição que
se perpetuará, como mostrou Dario Gamboni a respeito de Odilon Redon, até o fim
do século XIX13. Joris- -Karl Huysmans rivaliza, por uma espécie de poema em
prosa, com o pintor que supostamente é o assunto da crítica14. Os pintores são
comentados por indivíduos de tendências literárias porque supostamente não
sabem se expressar por palavras. Seria preciso refletir sobre a expressão de
Duchamp: "Idiota como um pintor"15...
Portanto, há referências e citações históricas que quase nunca são vistas e
que, quando são vistas, são interrogadas para ser condenadas sobre sua
intenção: Será um plágio? Uma cópia? Ou, muito raramente, uma paródia, quando o
tema da paródia é muito importante. Certos críticos, com os quais estou de
acordo, aproximam esse quadro de Offenbach e aí enxergam a encenação de uma
cena mítica. Entre as fontes, os críticos da época não citam Giorgione16, que
será posteriormente citado pelos historiadores. Voltarei a esse ponto mais
tarde. Portanto, segundo barbarismo é o efeito de colisão entre o antigo, o
nobre, o pictórico, de um lado, e o contemporâneo, o trivial, do outro. Esses
dois barbarismos se acumulam com o efeito de colisão tamanho do quadro/gênero
pictórico. Essas duas transgressões são transgressões hierárquicas porque
antigo/contemporâneo é bem/mal, assim como grande/pequeno. Nos dois casos,
Manet perturba as hierarquias estabelecidas. Tento dar a palavra às indignações
mudas, ou melhor, que só podem se expressar por gritos, por um sentimento de
indignação. Há pessoas que querem destruir os quadros. Há um trabalho de
Gamboni sobre os iconoclastas17: a arte moderna suscita, ainda hoje,
iconoclastas que podem ser violentos ou inconscientes, como no caso daquela
exposição de uma obra contemporânea numa cidadezinha suíça, onde os lixeiros
levaram obras pensando que eram detritos18. Do ponto de vista do populismo que
evoquei há pouco, é surpreendente que alguns ainda não o tenham utilizado...
Portanto, há uma colisão, o que faz com que essa indignação diante daquele
quadro absolutamente frio pareça desproporcional. Ora, se há tamanha indignação
é porque as pessoas veem ali, confusamente, tudo o que acabo de explicitar pela
análise. Não é um teste projetivo; são estados de espírito coletivos que é
possível reconstituir historicamente.
A AFINIDADE ENTRE AS HIERARQUIAS
A outra revolução simbólica em que vocês podem pensar, Maio de 68, é
interessante do ponto de vista da intuição conservadora que encontrou uma
verdade sociológica profunda, a saber, a de que existe uma afinidade entre
todas as hierarquias: quem toca numa hierarquia toca em todas as outras
(poderíamos tocar nisso). E tememos que esses artistas irresponsáveis que
desarranjam a hierarquia entre o contemporâneo e o antigo possam tocar naquela
do burguês e do povo etc. A estratégia de Manet não é totalmente inconsciente.
Ele queria de fato provocar - republicano, muito à esquerda, enviará ao Salão
um Portrait d'Henri Rochefort (1881), um dos heróis da Comuna que foi condenado
ao exílio. Essa estratégia de colisão de todas as hierarquias é uma estratégia
de duplo golpe, de golpe a um só tempo contra a Academia e contra a burguesia.
Ainda na ordem das transgressões estéticas, reprova-se Manet por não conhecer a
composição nem a perspectiva. As pessoas de boa-fé observam que ele fez estudos
sérios nos melhores ateliês de pintura (no de Couture, que era muito famoso e
até mesmo considerado um pouco subversivo). Portanto, não é possível acusá-lo
de ser ignaro, já que faz de caso pensado e, aliás, Manet responde no próprio
quadro a seus detratores, fazendo uma natureza-morta que é uma obra-prima de
composição, como se tivesse posto num canto um sinal de sua excelência. (Eu
mesmo cito frases em latim para mostrar que poderia, se quisesse... [risos].
Não sei por que me meti nisso... [risos]. ) Portanto, ele substitui uma
perspectiva necessariamente hierárquica - quanto mais longe, menor - por uma
representação plana. Courbet, que não gostava de Manet, e vice-versa, dizia que
aquilo parecia uma dama de baralhos. Há toda uma série de coisas técnicas nesse
quadro, como a luz frontal que faz desaparecer o modelado, produz um efeito de
realismo e abole a idealização. Por exemplo, nas cenas de nus, mesmo um pouco
lúbricas, dos Alexandre Cabanel [ver O nascimento de Vênus(1863)], William
Bouguereau etc. , há sempre a eufemização pelo distanciamento histórico dos
sujeitos representados (as Vênus etc. ), mas também pela técnica, ao passo que
o realismo brutal de Olympia a faz ter um ar verdadeiro. Esse efeito de
realismo leva a pensar que se trata de um piquenique em Asnières. Se é um
piquenique, a gente se interroga sobre o modelo: Por que está nua? Será que não
estão acontecendo coisas suspeitas? Tanto mais que Manet chamara inicialmente
seu quadro de La Partie carrée [A troca de casais].
A FALSA OPOSIÇÃO "REALISMO/FORMALISMO"
Dito isso, a frontalidade da luz produz paradoxalmente um efeito de formalismo.
Há uma alternativa da tradição histórica que é funesta e opõe o realismo ao
formalismo. Manet, como Flaubert, é ao mesmo tempo realista e formalista. Zola,
para defender Manet, evocou argumentos de pura pintura: formas, cores e manchas
justapostas são compostas unicamente para criar jogos de manchas de cores e
produzir efeitos plásticos, não para comunicar um significado. É a pintura pura
em todos os sentidos do termo. Isso quer dizer, em especial, pintura
dessexualizada. Pode-se dizer que o que Manet opõe ao olhar vulgar do público é
o olhar estético puro dos ateliês. Há uma historinha em Manette Salomon, o
romance dos Goncourt. Eles tinham tomado notas sobre as conversas de ateliê e
contam a seguinte história: uma modelo posa nua, sem problema, diante de um
grupo de homens do ateliê. Quando percebe que uma pessoa externa a olha, corre
para pegar uma roupa e esconder sua nudez19. É uma história interessante por
mostrar que há dois tipos de olhar: um olhar puro, estético, dessexualizado,
neutralizado, e o olhar sexual. Manet lembra ao público que este vem ver os nus
de Cabanel por motivos confusos e inconfessáveis, lembrando a existência de um
corte entre o artista e o profano. Em Les Règles de l'art, assinalo que é na
mesma época que se inventa a oposição arte pura, amor puro versusarte venal,
amor venal20.
Assim, há transgressão estética e transgressão sexual. Manet acumula
prazerosamente todos os indícios, manifestando uma posição baixa do ponto de
vista estético (cenas de gênero, paisagens, pastiche de retratos) e uma
situação escabrosa ou potencialmente escabrosa. O que a leitura contemporânea
percebeu foi a oposição entre o alto e o baixo no sentido social do termo e a
oposição entre o masculino e o feminino. No fundo, o que é visto como
escandaloso é o encontro entre colegiais - a palavra tendo sido constantemente
empregada - ou estudantes e mocinhas modestas, isto é, mulheres do povo
suspeitas e que constituem uma ameaça à reprodução biológica (as doenças
venéreas) e à reprodução social (os maus casamentos). Essas mulheres são
descaradas - muito se insistiu no olhar, em Manet. Um dos críticos chamou a
Olympia de Manette, o que é interessante. É a personagem do romance dos
Goncourt. É a história de uma mulher, uma modelo judia e que é a perdição do
pintor, o qual se apaixona por ela. L'Oeuvre, de Zola, é a história de um
artista que certa noite acolhe uma moça que se torna aos poucos sua amante e
modelo. E a interrogação permanente é saber se sua potência criativa não se
perde por meio da perda da potência sexual. A mulher é ameaçadora no sentido de
que ameaça a ordem simbólica e a hierarquia dos gêneros sexuais; e ameaça
também a ordem social pelas ameaças que faz pesar sobre a reprodução. E sobre a
herança.
É isso. Paro aqui.
Collège de France, Curso de 6 de janeiro de 1999.
tradução de Rosa Freire d'Aguiar
[1] Baxandall, Michael. L'Oeil du Quattrocento: l'Usage de la peinture dans
l'Italie de la Renaissance. Paris: Gallimard, 1985 [1972].
[2] Ver Todorov, Tzvetan (Org.). Théorie de la littérature: textes des
formalistes russes. Apres. e trad. Tzvetan Todorov. Paris: Seuil, 2001 [1966].
(Points Essais)
[3] Weber, Max. Économie et société: les catégories de la sociologie. Paris:
Plon, 1971 [1921], cap. 3, seção 5. Ver também Bourdieu, P. Sur l'État: cours
au Collège de France (1989-1992). Paris: Seuil, 2012. p. 495. (Raisons d'Agir)
[4] "O Grande Inquisidor" é um relato dos Irmãos Karamázov (1880), romance de
Dostoiévski que encena o retorno de Jesus à Terra no momento da Inquisição
espanhola. O cardeal Grande Inquisidor manda prendê-lo e o condena à morte
porque suas ideias de liberdade e amor ao próximo, acima da força dos homens,
ameaçam a Igreja pretensamente baseada em seu ensinamento.
[5] Do latim compleo, plevi, pletum, plere, que significa preencher. Verbo
semifrancês que significa realizar, cumprir, acabar.
[6] O famoso ready-made de Marcel Duchamp, Fontaine (1917), um mictório de
porcelana deitado e assinado R. Mutt, recusado na primeira exposição da
Sociedade dos Artistas Independentes de Nova York, em 1917. Uma de suas
réplicas, de 1964, está exposta em Paris no Centre Pompidou.
[7] Ver Fumaroli, Marc. L'État culturel: essai sur une religion moderne. Paris:
De Fallois, 1991.
[8] Vindo de um meio modesto e rural, aluno da Belas-Artes, Jules Bastien-
Lepage (1848-1884) conheceu o sucesso de público e crítica por seus retratos de
artistas e de figuras da burguesia republicana, bem como por suas cenas da vida
camponesa. Várias vezes, e em especial em "Le Naturalisme au Salon", publicado
em Le Voltaire, de 18-22 de junho de 1880, Zola o coloca entre "os
impressionistas jeitosos, os da última hora, que pegaram o vento" e considera
que ele "pegou emprestado" dos "pintores impressionistas a fórmula de arte
[...] [que] está revolucionando a pintura contemporânea", aclimatando-a ao
gosto burguês. Em L'Oeuvre (1886), descrição dos meios artísticos na Paris do
Segundo Império, o personagem de Fougerolles reutiliza, tornando-as insípidas,
as inovações de Claude Lantier, cujos traços são notadamente inspirados por
Paul Cézanne e Manet.
[9] Ver Bourdieu, Pierre; Delsaut, Yvette. "Le Couturier et sa griffe:
contribution à une théorie de la magie". Actes de la Recherche en Sciences
Sociales, 1 mar. 1975. p. 7-36.
[10] Bourdieu, Pierre. Ce que parler veut dire. Paris: Fayard, 1982; retomado
em Langage et pouvoir symbolique. Paris: Seuil, 2001. (Points Essais)
[11] Lelong, R. P. Maurice. Le Livre blanc et noir de la communion solennelle.
Paris: Mame, 1972.
[12] Chama-se "cena de gênero" um tipo de obra com cenas de caráter anedótico
ou familiar. Em nível bastante baixo na hierarquia dos gêneros, era objeto de
um ensinamento à parte nas diferentes academias europeias de belas-artes.
[13] Ver Gamboni, Dario. La Plume et le pinceau: Odilon Redon et la
littérature. Paris: Minuit, 1989.
[14] "Le Nouvel album d'Odilon Redon" (1885), que celebra as litografias do
Hommage à Goya (1885), de Odilon Redon.
[15] Duchamp, Marcel. Duchamp du signe: Écrits. Paris: Flammarion, 1994 [1959].
p. 174.
[16] Le Déjeuner sur l'herbe se inspira notadamente em duas obras de mestres
antigos a quem Manet presta homenagem: Le Concert champêtre (c. 1509), por
muito tempo atribuída a Giorgione (1477?-1510), mas considerada hoje como
pintada por Ticiano (c. 1490-1576), fornece o assunto, ao passo que a
disposição do grupo central se inspira numa gravura de Marcantonio Raimondi (c.
1480-c. 1534), segundo Rafael (1483-1520): O julgamento de Páris (c. 1514-
1518).
[17] Gamboni, Dario. "Méprises et mépris: éléments pour une étude de
l'iconoclasme contemporain". Actes de Recherche en Sciences Sociales, 49, 1983.
p. 2-28.
[18] Ver Gamboni, Dario. "Le Jardinier, les organisateurs et l'artiste", op.
cit., p. 21-28.
[19] Goncourt, Edmond de; Goncourt, Jules de. Manette Salomon. Paris:
Gallimard, 1996 [1867]. p. 271 (Folio). "Um dia, no ateliê do sr. Ingres, uma
mulher posava diante de trinta alunos, trinta pares de olhos; de repente,
viram-na se precipitar da mesa de modelo, apavorada, tiritante, envergonhada
com toda sua pele, e correndo para suas roupas a fim de se cobrir bem depressa,
bem ou mal, com a primeira que encontrou: o que tinha visto? Um telhador que a
olhava do telhado vizinho, pela claraboia acima de sua cabeça."
[20] Bourdieu, Pierre. Les Règles de l'art: genèse et structure du champ
littéraire. Paris: Seuil, 1998 [1992]. p. 46-49.