Mobilidade como foco das tecnologias de vigilância
Introdução
As tecnologias de vigilância e monitoramento para a segurança, cada vez mais
recorrentes nas sociedades contemporâneas ocidentais, conectam-se a importantes
transformações sociais e a diferentes temas pesquisados nas ciências sociais. O
foco sobre a presença dessas tecnologias em espaços de circulação pública abre
diversas possibilidades analíticas, seja por sua proximidade com o campo da
sociologia da tecnologia, seja pela interface que pode ser estabelecida com
áreas como a de urbanismo e arquitetura, geografia ou temas como violência,
criminalidade e segurança. Em todos esses casos é importante ressaltar que o
olhar que parte da tecnologia não deve pressupor que exista uma determinação da
técnica sobre as transformações que se queira observar ou salientar.
Nesse sentido, o presente artigo ressalta a participação das tecnologias de
monitoramento nas transformações sociais, políticas, econômicas e culturais na
contemporaneidade. Distante de avaliar a necessidade ou a validade dessas
tecnologias para segurança, a escolha por esse ponto de partida deve-se ao
ângulo de visão que essas tecnologias proporcionam. A tecnologia formulada pelo
homem incorpora, abriga, concretiza e concentra um modo de pensamento e pode
ser um ângulo privilegiado para fazer emergir as visibilidades e
invisibilidades de uma época, ou, ainda, funcionar heuristicamente como ponto
de partida para uma investigação acerca dos dispositivos de funcionamento do
poder na atualidade.
De forma geral, esse é um campo relativamente recente de debates e pesquisas. A
maior parte das iniciativas sobre o tema voltadas para estudos da vigilância
são britânicas, canadenses e norte-americanas. Destaca-se aqui o empreendimento
de pesquisadores do Reino Unido para reunir estudiosos na Surveillance Studies
Network (http://www.surveillance-studies.net), no periódico Surveillance &
Society (http://www.surveillance-and-society.org/info.htm ) e no projeto
canadense de pesquisa Surveillance Project. Já no âmbito dos movimentos sociais
e das organizações não governamentais (Ongs), ressaltam-se: a Privacy
International Organization (www.privacyinternational.org), uma organização,
situada em Londres desde 1990, para monitorar formas de vigilância e de invasão
da privacidade realizadas por governos e corporações, e a Electronic Frontier
Foundation (http://www.eff.org/), que tem uma forma de atuação semelhante e
está situada nos Estados Unidos, também desde 1990. Paralelamente, performances
artísticas têm questionado e problematizado a presença das tecnologias de
monitoramento no cotidiano, como é o caso do Surveillance Camera Players, grupo
de Nova York que realiza desde 1996 intervenções em espaços públicos
monitorados.
Diferentemente do que vem ocorrendo no ambiente acadêmico internacional,
pesquisas brasileiras que versem de modo direto sobre a utilização de
tecnologias eletrônicas que possibilitam a vigilância e o monitoramento ainda
são bastante incipientes. Da mesma forma, é praticamente inexistente o debate
político ou a atuação de movimentos sociais no país em torno desse tema, ou de
assuntos como vigilância eletrônica.1 Por outro lado, a exemplo do que ocorre
em várias partes do mundo, multiplicam-se no país os projetos de utilização
dessas tecnologias de monitoramento, em especial para segurança em espaços de
circulação pública e, mais recentemente, projetos para utilização de
dispositivos biométricos de controle e para a incorporação da biometria em
documentos.
Como parte do projeto de pesquisa "Dispositivos biométricos no Brasil: a
expansão das novas tecnologias de segurança" (Kanashiro, 2007), que tem como um
de seus focos a biometria no passaporte brasileiro, este artigo traz um
levantamento de algumas abordagens que conectam mobilidade, tecnologias de
vigilância e circulação internacional de pessoas com novas representações e
definições de perigo e insegurança. O levantamento foi realizado sobretudo em
artigos internacionais que tematizam a questão. Para a análise desses artigos
são retomados conceitos e problematizações presentes em autores como Paul
Virilio, Michel Foucault e Gilles Deleuze.
Este texto traz inicialmente parte do levantamento de dados (realizado em 2007)
sobre a inclusão da biometria no passaporte brasileiro, em conexão com
reflexões presentes em uma pesquisa realizada entre os anos de 2002 e 2005
(Kanashiro, 2006 e 2008). Nessa ocasião, observou-se a relação das câmeras de
vigilância com o tema de revitalização urbana, antigos centros das cidades que
vêm sofrendo intervenções no sentido de tornarem-se locais de lazer, cultura e
fruição mais seguros para determinados grupos, aprofundando mecanismos de
exclusão. Concluiu-se que mais do que sobre cada indivíduo, ou para além da
abordagem foucaultiana sobre panóptico, a vigilância realiza-se focalizando a
mobilidade e os fluxos de pessoas e informações. Notou-se, nesse contexto, um
investimento de um grupo social sobre a expansão de sua própria mobilidade. Em
outras palavras, um processo de restrição da mobilidade de alguns grupos
sociais, a qual passa a ser ainda mais circunscrita às áreas precárias da
cidade, em prol da ampliação do movimento de outros grupos sociais normalmente
relacionados com os enclaves fortificados. Assim, a segunda parte deste artigo
salienta que a configuração da inserção da biometria no passaporte também está
relacionada com o controle da mobilidade, dos fluxos, e com novos significados
de perigo e risco, como vem sendo apontado na bibliografia internacional.
A intenção aqui é vislumbrar tecnologias, como as câmeras de monitoramento ou a
biometria incorporada aos passaportes, não mais vinculadas ao lugar ou tempo
adequados para a punição exemplar da sociedade disciplinar foucaultiana, mas
sim à permissão ou à recusa do acesso, o que desloca e dilui a punição para o
momento sempre imediato da mobilidade, da circulação. Associam-se a essa idéia
as características das sociedades contemporâneas e os conceitos apresentados
por Virilio e Deleuze.
Diversamente da aproximação feita sobre o tema nas cidades, que relacionam as
câmeras com o processo de revitalização ou o fenômeno de gentrificação, estudos
internacionais sobre vigilância focalizam mais as questões relativas à migração
e à representação de perigo vinculada ao tema. Alguns autores (Lyon, 2006) têm
observado um recrudescimento da questão securitária e do foco sobre mobilidades
e circulação a partir do ataque terrorista ao World Trade Center, nos Estados
Unidos, em 2001.
A biometria no passaporte brasileiro
A biometria é definida como um estudo das medidas de estruturas e órgãos de
seres vivos, associadas à sua importância funcional. Há também um ramo da
estatística vinculado à ecologia, no qual se estudam as características
biológicas quantitativas de uma população por meio da identificação dessas
medidas. Mais recentemente, no entanto, a biometria tem sido definida pela
mídia e pelo mercado de segurança como "uma ciência de identificação baseada na
medição precisa de traços biológicos".2 Em outras palavras, quando entendida
como tecnologia de segurança, a biometria é caracterizada pela coleta de dados
biológicos, que podem ser da íris, da retina, da face, da mão ou de digitais,
entre outras possibilidades, e transforma-os em algoritmos matemáticos,
armazenando-os em bancos de dados, chips ou códigos de barra. Por meio de um
leitor óptico, as características biológicas são lidas e comparadas com os
dados armazenados para identificar, negar ou permitir o acesso a determinados
lugares ou informações.
De acordo com a revistaSecurity:
[...] biometria significa literalmente medida da vida. No contexto da
segurança, biometria se refere aos métodos automatizados para
identificação de pessoas com base em suas características físicas
únicas ou aspectos comportamentais, podendo ainda combinar entre si
essas características. A biometria funciona em razão de algumas
características do ser humano serem únicas, podendo ser diferenciadas
e comparadas, pois de certa forma, são estáveis.3
A mídia e os empresários do setor de segurança vêm divulgando a nova tecnologia
como uma substituição das senhas alfanuméricas pela identificação via "senha
natural", ou seja, por meio dos dados biológicos inscritos no próprio corpo. A
mudança também é apresentada como uma facilidade oferecida pela tecnologia para
possibilitar o controle do acesso, como uma comodidade, na medida em que evita
a memorização4 de tantas senhas, e como um incremento do nível de segurança dos
sistemas. Esse panorama acaba por promover um verdadeiro investimento sobre
características biológicas que identifiquem pessoas.
Essa tecnologia já está presente no Brasil para o controle de acesso a lugares
como academias de ginástica, universidades ou escolas privadas e para o
controle da utilização de serviços, como locação de filmes em vídeo locadoras
ou consultas e exames em sistemas privados de saúde, caso da Unimed Paulistana.
Pode ainda ser utilizada nos sistemas carcerário, de saúde e bancário para
controle de ponto de trabalhadores e muitos outros usos. A tecnologia
biométrica de identificação no setor de segurança já é encontrada na prática e
está em rápida expansão em vários países, configurando um fenômeno complexo das
sociedades contemporâneas.
No Brasil, existem também exemplos da utilização dessa tecnologia em serviços
públicos, entre outros casos, a implantação do Sistema de Gerenciamento de
Formação de Condutores (Gefor), do Departamento Estadual de Trânsito (Detran)
de São Paulo, destinado ao gerenciamento, ao controle e à fiscalização de todo
o processo de habilitação, formação e reciclagem de condutores. Esse sistema
implantou a biometria, via leitura da impressão digital, para todos esses
procedimentos em várias cidades do estado.5 Outros projetos de adoção da
tecnologia biométrica no Brasil são do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que
aprovou em junho de 2005 o "Plano diretor de atualização cadastral e
aperfeiçoamento dos sistemas de votação e identificação do eleitor", e do
Ministério da Justiça que, em conjunto com outros órgãos do governo, tem se
dedicado a implementar o Projeto de Registro de Identidade Civil (RIC). Com
relação ao projeto do TSE, que prevê o recadastramento de 122 milhões de
eleitores no país, já foi iniciada uma fase de testes no segundo semestre de
2008, durante as eleições municipais em Fátima do Sul, no Mato Grosso do Sul,
São João Batista, em Santa Catarina, e Colorado d'Oeste, em Rondônia, todos com
cerca de 15 mil habitantes cada. Nesses locais foi realizado o cadastramento
biométrico dos eleitores e a votação com uso de urna biométrica nas eleições
municipais de outubro. A partir desse projeto piloto o governo deverá elaborar
o cronograma para o recadastramento nacional de eleitores, num prazo estimado
entre 5 e 10 anos. Já o projeto RIC visa à modificação das carteiras de
identidade de 150 milhões de cidadãos brasileiros, prevista na lei ainda 9.454
de 1997, que ainda não está regulamentada. A ausência de regulamentação, no
entanto, não tem sido um empecilho para a implementação e o teste do novo
sistema de identificação civil, que já está sendo iniciada na capital de
Rondônia.6
O projeto do novo passaporte brasileiro, aqui focalizado, é uma outra
iniciativa que prevê a utilização da biometria. Entre vinte itens de segurança,
o novo passaporte inclui dados biométricos do portador, os quais farão parte de
um banco de dados nacional e, de acordo com o projeto, facilitarão as consultas
em postos de fronteira. Um informativo da Polícia Federal brasileira divulgou
que a inclusão da biometria segue as exigências de mudança e as normas
internacionais de segurança estabelecidas pela Organização de Aviação Civil
Internacional (Icao, sigla em inglês), agência ligada às Nações Unidas,
responsável por normatizar assuntos relativos à aviação civil e aos vistos e
documentos de viagem.7 De acordo com esse informativo, a adequação irá,
"efetivamente, implementar um documento de viagem mais seguro, que propicie ao
cidadão brasileiro maior credibilidade internacional, além de modernizar todo o
sistema de controle do tráfego internacional no país".8
O novo passaporte brasileiro é assim apresentado pelo governo: "Segurança,
agilidade e conforto. Seguro e moderno, o novo passaporte brasileiro
proporciona agilidade, praticidade e conforto aos cidadãos brasileiros. A
tecnologia de ponta utilizada neste projeto oferece excelente proteção contra
tentativas de adulteração e/ou falsificação".9 Os novos itens de segurança
apresentados, que se somam aos anteriormente existentes, são marca d'água, fio
de segurança, linha de costura, fundo invisível, fundos especiais, imagem
latente, tinta oticamente variável, perfuração a laser, página de identificação
e laminado de segurança. É na página de identificação que há um código de
barras bidimensional,10 com dados biométricos e biográficos do titular do
documento. Ela segue as recomendações da Icao (International Civil Aviation
Organization), em especial as do DOC 9303. Este documento, publicado pela
primeira vez em 1980, intitulado como "A passport with machine readable
capability" está hoje publicado em três partes. Cada uma delas traz
recomendações técnicas para utilização da biometria nos passaportes.
Além de seguir as recomendações da Icao, as medidas para a implementação de um
novo passaporte brasileiro também ecoam a iniciativa dos países membros do G-8
(os sete países mais ricos do mundo, mais a Rússia), em 2003, para desenvolver
um novo passaporte (conhecido como e-passport ou passaporte eletrônico), que
utilizaria "alta tecnologia para auxiliar no combate contra o terrorismo".11 Os
Estados Unidos pressionavam, na ocasião, para a adoção do novo sistema pelos
países membros do Visa Waiver Program, um programa do governo norte-americano
para permitir que cidadãos de determinadas nações (atualmente são 34 e não
inclui o Brasil) possam entrar no país para atividades de turismo ou negócios
por 90 dias sem a necessidade de visto. Este programa apresenta regras de como
qualificar países que estão aptos a requerer sua participação. Entre essas
regras está a adoção da biometria nos passaportes e a capacidade nacional de
controlar a imigração e as atividades de contrabando.
Para além das conexões com as exigências internacionais, as mudanças no
passaporte brasileiro relacionam-se com um contexto importante de formulação de
novos discursos e práticas, como pode ser observado na legislação brasileira
relativa à utilização de novas tecnologias de segurança.
É importante ressaltar que observar as proposições legais ou normas
internacionais sobre o tema não significa compreender o funcionamento do poder
de forma descendente a partir das instituições, mas sim captar parte dos
discursos que circulam sobre o tema, com intuito de fazer emergir um campo de
tensões e arranjos que produzem a possibilidade do uso de novos equipamentos de
segurança. Não se trata, portanto, de analisar essas tecnologias pelas
instituições que a legitimam, nem de afirmar ou negar a necessidade e a
validade das tecnologias de vigilância para a segurança, mas de procurar
apreender quais são as produções desse processo em curso com base nos discursos
veiculados.
Desde meados da década de 1990, notam-se na legislação brasileira argumentos
para a obrigatoriedade do uso de câmeras de vigilância - representantes
iniciais dessas novas tecnologias - nos mais variados espaços, inicialmente em
locais como bancos, ampliando-se para espaços de circulação pública no decorrer
do tempo. Os discursos apresentados interagem com os interesses dos empresários
do setor de segurança privada, formulando e intensificando o caráter de
mercadoria da segurança.
É acelerado o crescimento das empresas de segurança privada no Brasil, tanto no
número de empresas e de vigilantes, de especialistas e centros de formação,
como do montante que movimentam. Caldeira (2000) e Zukin (1995) observam na
comparação entre força policial pública e vigilantes privados a formação de um
verdadeiro exército privado. Caldeira também alerta que no Brasil, em 1996, a
força policial pública e a vigilância privada tinham contingentes quase iguais.
Para Zukin, do ponto de vista da economia política, essa mudança é
característica dos processos de privatização em geral, que abrangem não apenas
a segurança, mas também a precarização do trabalho ou da saúde, entre outros
aspectos.
Durante a pesquisa realizada entre 2002 e 2005 observou-se uma conexão profunda
entre a legislação que impulsiona o mercado de segurança e legisladores, muitas
vezes ligados a empresas desse setor. Os sistemas eletrônicos de segurança
fornecidos por essas empresas tornaram-se uma possibilidade no país no jogo
entre o mercado de segurança privada, os legisladores e os interesses de
determinados grupos sociais de maior poder aquisitivo, que passaram a formular
uma idéia de segurança mais no sentido de medida de proteção pessoal, do que de
segurança pública. Tanto os legisladores como os empresários argumentam que as
câmeras e a segurança privada são uma necessidade em função da segurança
pública inadequada. A ineficiência do Estado, nesse contexto, é um argumento,
mas também acaba sendo uma meta para que essa opção privada se perpetue.
Da mesma forma, há um jogo para a circulação internacional da segurança como
mercadoria. Empresários do setor entrevistados citaram as experiências
internacionais de sistemas eletrônicos de segurança como uma espécie de exemplo
a ser seguido. Afirmaram que poucos equipamentos de segurança são desenvolvidos
ou fabricados no Brasil, sendo a maior parte importada e apenas montada no
país. A isso se liga uma idéia de saturação desse mercado em locais como Japão,
Europa e América do Norte, apontando para os mercados em expansão na atualidade
- Brasil, Índia, China e Rússia. É importante ressaltar que sistemas de
segurança sempre são comercializados em pacotes, nos quais são adquiridos
vários equipamentos que se complementam, assim como novos significados de
segurança, perigo e risco.
A medida provisória (MP) 184, de julho de 2004 (oriunda do poder Executivo), e
o projeto de lei do Senado (PLS) 168 de 2005, de autoria de Tasso Jereissati
(PSDB), inauguraram duas mudanças nos discursos até então em jogo. A MP 184,
transformada na lei 10.935, tramitou em regime de urgência para abrir crédito
extraordinário aos orçamentos fiscal e de investimento da União, em favor dos
ministérios da Justiça, do Transporte e da Defesa, visando à implantação de
novos sistemas de segurança nos portos nacionais, exigidos pelo Código de
Segurança para Portos e Embarcações (ISPS-Code, sigla em inglês) e pela
Organização Marítima Internacional (OMI), da qual o Brasil é membro. Este
exemplo aponta a transformação da utilização de dispositivos eletrônicos em
necessidade e requisito básico para o comércio internacional, para a mobilidade
de mercadorias.
Somando essa idéia aos discursos da Icao e do Visa Waiver Program, que
focalizam a mobilidade de pessoas, constata-se na legislação brasileira os
reflexos do discurso norte-americano de segurança e combate ao terrorismo. As
mudanças no passaporte brasileiro conjugam-se, então, com o acirramento de
certo ideário mundial de segurança, que ganhou força extraordinária após o
atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. O período
marcado pelo combate ao terrorismo apresenta os mecanismos de monitoramento,
vigilância e controle de acesso como imprescindíveis para a sobrevivência,
multiplicando-os e popularizandoos na mídia e nas feiras de segurança.
Já o Projeto de lei 168 também insere-se neste contexto da utilização da
biometria, na medida em que focaliza a atualização da lei inaugural do tema de
dispositivos eletrônicos de segurança no país (lei 7.102, de 1983) e detalha,
de forma inédita na legislação, a utilização das câmeras para, em seguida,
apenas citar a biometria. O projeto revela a consolidação na legislação federal
de algo (o uso de câmeras) que já era observado na prática há pelo menos quinze
anos, reservando o capítulo III para tratar especificamente do serviço de
vigilância eletrônica monitorada, destinado não mais apenas à segurança
patrimonial, mas também de pessoas. Além dessa mudança, o projeto também
detalha de forma inédita o funcionamento e alguns dos equipamentos desse
sistema, sinalizando sua ampliação. Vale ressaltar que no momento em que as
câmeras deixam de ser ocultas e são esmiuçadas numa proposição legal, elas já
são consideradas pelo mercado de segurança equipamentos complementares ao
sistema, que agora está focalizado nos controles biométricos de acesso. Estes,
por sua vez, são apenas citados e não descritos no projeto de lei, num jogo de
esconde que perpetua uma relação com o mercado de segurança.
A incorporação da biometria no passaporte brasileiro relaciona-se, então, com a
circulação de novos discursos sobre segurança, deslocando significados e
construindo saberes. Não raro encontram-se hoje técnicos na área de segurança
especializados em biometria, sendo que esse universo ainda envolve uma série de
outros especialistas que vão da computação ao reconhecimento de padrões.
Construindo perfis
Diferente dos outros exemplos brasileiros de incorporação da biometria em
documentos, a mudança nos passaportes também ocorreu fora do país, e no âmbito
internacional provocou debates de movimentos sociais em defesa da privacidade e
reflexões entre intelectuais, que tentavam problematizar a questão tanto na
América do Norte como Europa. Nos anos de 2003 e 2004, ocorreu um intensa
polêmica nos Estados Unidos em função das tentativas de implementação de um
programa que envolvia a nova tecnologia nos passaportes e o cruzamento de
informações com outros bancos de dados, inclusive comerciais.
Conhecido como CAPPS II, sigla em inglês para Sistema Informatizado de Pré-
triagem de Passageiros, o programa foi formulado pela Administração de
Segurança do Transporte (TSA) nos Estados Unidos. O debate se deu em torno do
objetivo do programa de identificar passageiros de maior risco para
procedimentos adicionais de segurança antes que eles embarcassem em aviões. A
verificação da identidade do passageiro consistia em realizar uma avaliação de
risco utilizando bancos de dados disponíveis comercialmente e informações de
inteligência. Em outras palavras, eram cruzados dados contidos nos passaportes
com outros bancos de dados com intuito de avaliar o risco que determinados
passageiros poderiam representar.
A organização Electronic Frontier Foundation, também dos Estados Unidos,
afirmou em sua tentativa de dar visibilidade para a questão:
A U. S. Transportation Security Administration anunciou planos para
implementar o CAPPS II, uma controversa forma de traçar o perfil de
passageiros e um sistema de vigilância que requer a data de
nascimento, o telefone residencial e o endereço residencial antes de
o passageiro poder embarcar em um vôo norteamericano. De acordo com o
CAPPS II, as autoridades de viagem checariam esses e outros detalhes
pessoais, confrontando a informação obtida em bancos de dados
governamentais e comerciais e, então, rotulariam a pessoa com um
código colorido indicando a gradação do nível de risco de segurança
que ela representaria. Baseado na cor designada, o passageiro seria
detido, interrogado ou sujeito a buscas adicionais. Se ele fosse
designado com uma cor/gradação equivocada, poderia ser proibido de
voar.
Curry aborda o caso do CAPPS II para sinalizar que a construção de sistema de
perfis para a identificação de viajantes potencialmente perigosos só pode
existir dentro de um amplo sistema de estereótipos e na divisão da população em
grupos, neste caso, não de atributos definidos, mas da propensão de engajar-se
em certas atividades consideradas perigosas. A utilização da biometria nos
passaportes e a maior capacidade que estes documentos têm hoje seguem o mesmo
pressuposto. Para Curry, a vigilância de mobilidades requer também uma
exploração de dados mais detalhados para construir narrativas das atividades
das pessoas. "O que ele realmente está fazendo? Ele é uma pessoa mentalmente
transtornada, desesperada para escapar dos seus problemas, para fugir do país?
Ele é um criminoso? É um cubano emigrado, agora saudoso? Ou ele é simplesmente
homem de negócios?" (Curry, 2004, p. 485).
Curry também aponta como as técnicas de pesquisa de mercado estão sendo usadas
na construção dos sistemas de perfil das companhias aéreas. O autor sustenta a
posição de que um sofisticado sistema é construído nessas conexões de dados
pessoais e comerciais a partir de narrativas que incorporam opiniões sobre uma
série de comportamentos móveis e padrões considerados aceitáveis ou suspeitos.
Ele também argumenta que esses perfis são desenhados não para identificar o
viajante "confiável", mas, ao contrário, o viajante "perigoso".
Peter Adey (2004) sinaliza por sua vez, também focalizando a vigilância da
mobilidade, que aeroportos são espaços onde ocorre a vigilância e a
classificação tanto de objetos como de pessoas; para ele, os aeroportos são
como filtros. Nestes espaços ocorre, pois, invasão de privacidade e
discriminação categórica como resultado da classificação de passageiros. Os
textos desses dois autores fazem parte da edição da revista Surveillance &
Society que trata justamente da vigilância de mobilidades. Os outros artigos da
publicação tratam de locais para onde tal vigilância se expande, ou seja, é
algo que vai além dos possíveis centros de mobilidade, como aeroportos,
chegando a qualquer lugar onde pessoas, objetos ou palavras se movam.
Inspirando-se em Paul Virilio (1996), para quem a segurança deve passar pela
imobilização dos corpos, a supressão das vontades e dos gestos, ressalta-se
aqui que mais do que sobre gestos ou trajes, as novas tecnologias de vigilância
realizam sua função focalizando a mobilidade e os fluxos não apenas quando se
trata de locais como aeroportos. Também Davis (1993) sinaliza esses fluxos
quando observa a revalorização da cidade "eclipsada por uma reestruturação
paralela do espaço eletrônico, igualmente policiado, onde o acesso pago a
'comunidades de informação', banco de dados e assinaturas de serviços por cabo
se apropriam de partes da invisível ágora". Ambos os processos, segundo esse
autor, espelham a desregulamentação da economia e a recessão de direitos não
advindos do mercado.
A pesquisa realizada entre 2002 e 2005 concluiu que observar o processo de
inserção de câmeras de monitoramento no centro da cidade levou a uma retomada
mais radical do que alguns autores observaram na proliferação de condomínios
fechados monitorados em conjunto com a nova forma de gerenciamento das cidades,
a saber, o enclausuramento de uma parcela da sociedade em enclaves fortificados
(Caldeira, 2000; Davis 1993), que reflete uma idéia de isolamento por meio de
um limite "murado". A promoção da "solução" privada de segurança e o
monitoramento eletrônico em espaços abertos de circulação pública fazem
emergir, para além desse isolamento, investimentos de um grupo social sobre a
expansão de sua própria mobilidade. Em outras palavras, um processo de
imobilização e desaparecimento de alguns grupos sociais em prol da perpetuação
de seu próprio movimento.
No caso do monitoramento do centro da cidade, as pessoas não eram
identificadas, mas fluxos eram redirecionados. Também no caso das tecnologias
de vigilância relacionadas com as possibilidades do passaporte brasileiro,
assim como a triagem de passageiros nos aeroportos, o que se torna visível para
o sistema não é o indivíduo, mas grandes perfis. O indivíduo dissolve-se num
emaranhado de dados e informações. O que passa a ser explorado é o potencial
gerado pela combinação de diferentes dados. O sistema possibilita a criação de
estereótipos, e a partir deles é que se pode negar ou permitir acesso,
autorizar ou não a circulação internacional.
Cada vez mais softwares são programados no sentido de realizar essa operação de
triagem. Já estão incorporados nele a capacidade de correlação de diferentes
bancos de dados e a geração de perfis que serão reconhecidos pelo próprio
software como suspeitos ou adequados. Virilio (1996) dá uma pista interessante
nesse sentido quando analisa a mudança de perspectiva nas sociedades
capitalistas. Ele afirma que a questão da guerra pode ser resumida na questão
da velocidade. Com a possibilidade de um ataque nuclear e a redução de seu
aviso prévio de 15 minutos, em 1962, para 10 minutos (mísseis balísticos) e 2
minutos (armas guiadas por satélite), em 1972, promove-se uma progressiva
contração do tempo, que desloca o poder de reflexão e decisão em favor de uma
automação. Nessa configuração, não é mais necessário aviso prévio de um ataque
para que se iniciem estratégias de defesa, pois a suspeita já é suficiente para
isso.
É nessa contração do tempo que a antecipação ou a prevenção surgem como formas
de atuação e funcionamento do poder, elementos que interagem com o foco sobre
mobilidades e circulação. Neste cenário em que a velocidade é a medida, Virilio
ainda esboça considerações sobre o estado de emergência em que passamos a
viver. Nele, antecipação sobrepõe-se à imaginação "até o ponto em que governar
seria apenas prever, simular, memorizar as simulações" (Virilio, 1996, p. 131).
Vale destacar ainda que as formas de atuação que enaltecem ou focalizam a
antecipação e a prevenção esvaziam as decisões de seu caráter político e
afastam possibilidades alternativas.
Automação, poder e controle
Com intuito de abordar as tecnologias de vigilância para segurança como parte
de uma tecnologia política atual é necessário distanciar a possibilidade de
compreendê-las como um aprofundamento do panóptico de Jeremy Bentham, analisado
por Michel Foucault (2000). Em alusão à análise foucaultiana, alguns autores
têm se referido aos dispositivos que compõem os circuitos fechados de televisão
- de forma geral e não especificamente sobre biometria - como "panóptico
universal" (Machado, 1990), "panóptico eletrônico" ou "superpanóptico" (Poster,
1990 apud Wood e Graham, 2002), sinalizando um aprofundamento (por uma via
tecnológica) do exercício do poder disciplinar descrito por Foucault. Os
autores que analisam as atuais câmeras de monitoramento aproximando-as do
panóptico acabam restringindo-se à questão da vigilância e ao princípio da
visibilidade obrigatória para os vigiados e invisibilidade do vigilante, como
recurso para o adestramento e sua interiorização pelos indivíduos.
Arlindo Machado, por exemplo, parte da instalação de câmeras de monitoramento,
que foi abrangendo espaços cada vez maiores, do aeroporto ao trânsito, até os
satélites, para afirmar a proliferação e a universalização da vigilância. Ele
entende os modernos sistemas de vigilância como uma atualização do panóptico de
Bentham, e a difusão crescente de dispositivos, como sua universalização.
Assim, tais sistemas realizariam
[...] na era da eletrônica e da informática, o mesmo papel paradoxal
da máquina benthamiana, produzindo os efeitos de disciplina propostos
por Foucault. Tal como o panóptico de Bentham, os dispositivos
eletrônicos de vigilância generalizam para toda a sociedade métodos
de coerção nascidos no interior de presídios ou antes apenas
localizadamente, na investigação ou repressão policial (Machado,
1990, p. 95).
Apesar de essas tecnologias terem como um de seus efeitos a sensação de
contínua visibilidade, provocando a internalização da sensação que prescinde
uma vigilância ininterrupta, e de garantirem a invisibilidade de seu
observador, elas não se aproximam de práticas e discursos fundamentais para o
exercício das disciplinas. Ao relacionarem assim as câmeras de monitoramento
com o panóptico, alguns autores instrumentalizam parte do pensamento
foucaultiano, mas distanciam-se da genealogia proposta pelo filósofo.
Aproximar-se da noção foucaultiana de poder não significa analisar os
dispositivos eletrônicos de segurança e controle como vinculados ao panóptico.
Foucault (2002) não analisa o poder em uma atuação essencialmente repressiva ou
de negação, como algo que emana do Estado, mas sim em sua produtividade ou
positividade, na produção de saberes, práticas e técnicas. Com esse foco, em
vez de partir do Estado e verificar seu prolongamento na sociedade, ele propõe
uma análise ascendente do poder, partindo de seus mecanismos infinitesimais
para verificar como são investidos, utilizados ou deslocados. Por essa via, o
autor diferencia tipos de exercício do poder, como o de soberania e o
disciplinar. Para ele, a teoria do direito e o discurso jurídico-político
organizam-se em torno da questão da soberania, estando, portanto, diretamente
relacionados com a manutenção das sociedades na Idade Média e centrados na
figura do rei.
A partir do século XVIII, uma nova mecânica de poder passa a incidir sobre os
corpos de forma diferente do que ocorria na soberania: "docilização dos corpos"
e de atitudes, denominada pelo filósofo como "poder disciplinar", o qual se
relaciona com o panóptico. Os mecanismos de poder disciplinares não supliciam
ou castigam os corpos, como era típico da soberania, mas os adestram, aprimoram
e permitem "extrair deles tempo e trabalho, mais do que bens e riqueza
(Foucault, 2000, p. 139) por meio de instituições disciplinares, como a escola,
a fábrica, o hospital, a prisão, e para além delas. Entre os recursos ou
instrumentos12 para esse adestramento está a sanção normalizadora - um modelo
de penalidade que tem como função a redução dos desvios em direção a uma
normalização.
A utilização das tecnologias de vigilância não visa à correção dos desvios por
meio de uma rotina rigorosa e repetitiva de exercícios, não há sanção
normalizadora, essencialmente corretiva e típica das sociedades disciplinares.
Assim, mesmo que a introjeção da sensação de vigilância seja permanente, ou que
a invisibilidade do observador continue garantida, o sistema de penalidades
historicamente específico da disciplina não está em andamento. As câmeras de
monitoramento, os dispositivos biométricos, os saberes e as práticas à eles
correspondentes não se vinculam mais ao lugar ou ao tempo adequados para a
punição exemplar, e sim à permissão ou à recusa do acesso, que desloca e dilui
a punição para o momento sempre imediato da mobilidade, da circulação.
Da mesma forma, em lugar do indivíduo, que era o efeito e a produção do poder
disciplinar, o que emerge com essas tecnologias é o fluxo de informações. O
foco da vigilância, portanto, não é mais o indivíduo, mas o fluxo, sua
cadência, seu movimento, suas conexões de informação, a potencialidade que
emerge da combinação de informações e sua mobilidade. Assim, apesar da
introjeção da idéia de visibilidade, somente as atitudes que se destacam no
fluxo chamam a atenção. É sobre perfis que se opera a visibilidade, sobre
figuras que se tornaram representantes de perigo ou de inadequação. No entanto,
não se trata mais de um visibilidade que individualiza, mas que sinaliza um
erro, um desvio do fluxo, que não será corrigido por uma sanção normalizadora
como na sociedade disciplinar.
Regulação da mobilidade, promoção da invisibilidade pela imersão no fluxo e da
visibilidade pela representação de inadequação são alguns dos efeitos dessas
tecnologias em conexão com outros processos em andamento. Da mesma forma,
caracterizam essa forma de funcionamento do poder a contração do tempo, a
prevenção e a automação. As tecnologias de vigilância hoje atuam por
antecipação de ações, na previsão dos próximos movimentos, operando e agindo
nos limites da variação da incerteza.
A atualidade das tecnologias de monitoramento coincide com um funcionamento do
poder que não é mais disciplinar, elas participam de uma nova racionalidade
política, compõem com novas tecnologias políticas. É importante ter em conta
que a visibilidade é formada de linhas de luz que formam figuras variáveis e
inseparáveis deste ou daquele dispositivo (Deleuze, 2000). As prisões, os
hospitais e as escolas eram instituições vinculadas ao poder disciplinar; eram
parte de dispositivos que tinham certo regime de luz e faziam nascer um objeto,
que era o próprio indivíduo. Ainda segundo Deleuze, o atual não é o que somos,
mas aquilo em que vamos nos tornando:
É necessário distinguir, em todo o dispositivo, o que somos (o que
não seremos mais), e aquilo que somos em devir: a parte da história e
a parte do atual. A história é o arquivo, é a configuração do que
somos e deixamos de ser, enquanto o atual é o esboço daquilo em que
vamos nos tornando. Sendo que a história e o arquivo são o que nos
separa ainda de nós próprios, e o atual é esse outro com o qual já
coincidimos (2000, p. 93).
Deleuze (2000) dá a direção também ao afirmar que os indivíduos, identificados
por assinatura ou por um número, tornaram-se dividuais, divisíveis,
identificáveis por cifras ou senhas, e as massas tornaram-se amostras, dados,
mercados ou bancos. Uma nova correlação de forças e novos agenciamentos
coletivos relacionam-se com a mutação do capitalismo de concentração do século
XIX, com a crise das instituições. Em consonância com este autor, a utilização
das tecnologias de vigilância aqui tratadas fazem parte de um dispositivo de
poder que funciona muito mais por meio de controle contínuo, via comunicação
imediata, num contexto capitalista de sobreprodução, em que se objetivam a
compra de ações e a venda de serviços, entre eles, os relacionados com a
segurança. Gilles Deleuze também fornece uma chave de compreensão desse
panorama ao apontar o marketing como instrumento de controle contínuo e
ilimitado.
Por outro lado, afirmar que as tecnologias de monitoramento se aproximam mais
do controle do que da disciplina não significa argumentar que não há mais
nenhum elemento das sociedades disciplinares na atualidade, mas sim sinalizar
esse "outro com o qual já coincidimos". O contexto brasileiro e as
desigualdades de nossa sociedade sinalizam elementos disciplinares e de
controle. Além disso, também não é possível afirmar que esses tipos de
sociedade, como analisadas por Foucault e Deleuze, sucedam-se numa seqüência.
De acordo com Foucault (2006, p. 23), não é possível afirmar que mecanismos de
funcionamento do poder sucedam-se de forma a provocar o desaparecimento dos
precedentes. Para este filósofo ocorre um aperfeiçoamento das técnicas e uma
mudança no sistema de correlação entre mecanismos diferentes. Nesse sentido,
uma determinada tecnologia de poder pode colocar em funcionamento dentro de sua
própria tática diferentes mecanismos, como se os atualizasse. Em suma, podem
conviver mecanismos disciplinares, de soberania ou de controle.
Didier Bietlot (2003) afirma, por sua vez, que no lugar da livre circulação, há
uma rede de colaboração policial, conexões informáticas, medidas e discursos
que edificam um "continuum securitário", o qual abrange, por transferência de
legitimidade, "do combate às drogas e ao terrorismo até a imigração e o direito
de asilo". Segundo o autor, desde o fim da Guerra Fria, o campo da segurança
interna se reconfigurou e, hoje em dia, é a imigração (em especial islâmica)
que constitui a ameaça principal e a que deve firmemente fazer face aos
dispositivos securitários.
De um lado, as práticas e os discursos neste cenário legitimam as políticas de
migração restritivas ou ditas "de imigração zero", de outro, esses dispositivos
propagam medo, angústia, sentimentos difusos de insegurança e conforto, fazendo
com que a população reclame freqüentemente por mais medidas securitárias.
Vale destacar ainda que Bietlot propõe a existência simultânea de mecanismos de
poder disciplinares e biopolíticas (Foucault) aperfeiçoadas com mecanismos de
controle (Deleuze), e ainda uma reaparição do velho poder soberano e do Estado
permanente de exceção (Agamben) em face das ameaças de insegurança. Passetti
(2004) parece percorrer caminho semelhante, sobrepondo controle, disciplina e
soberania. No entanto, em Bietlot essa proposta é denominada "sociedade
securitária", que sucederia sociedades disciplinares. Para o autor, a
desregulação neoliberal criou inevitável e voluntariamente uma situação de
insegurança e de incerteza. As desordens sociais engendradas por essa situação
fornecem as razões de ser aos seus controles e violências. Os dispositivos
securitários encarregar-seiam não somente de prevenir a desordem, mas também de
defini-la e, eventualmente, suscitá-la.
Deter-se na sobreposição e não na sucessão de formas de funcionamento do poder
pode ser um interessante caminho para as pesquisas na atualidade. A capacidade
de vigilância e controle nas sociedades contemporâneas ocidentais, a velocidade
de avanço e a obsolescência das tecnologias, os discursos e as representações,
os saberes e as práticas associados a este cenário e, mais profundamente, as
atuais mudanças no capitalismo conectam-se a importantes transformações
sociais. Nesse sentido, as novas tecnologias de segurança tratadas neste
artigo, tais como câmeras de monitoramento e dispositivos biométricos de
controle, configuram-se como um mote para uma aproximação e a análise desse
campo premente e fecundo de pesquisas.
Notas
1 Nesse contexto, vale destacar como exceção brasileira a performance artística
"Atitude suspeita", realizada em 2006, pelo grupo Esqueleto Coletivo, visando
às câmeras de vigilância instaladas no centro da cidade de São Paulo. Também é
importante ressaltar que, no Brasil, pesquisadores e artistas vinculados à área
de comunicação têm se voltado nos últimos anos para o tema da vigilância, tais
como Bruno (2004, 2006 e 2008) e Leblanc (2009). Também na área de arquitetura
e urbanismo tem surgido trabalhos que versam diretamente sobre o tema (Firmino
et al., 2009).
2 Cf. documento: "A ficção científica chega até a vida" (s.d.).
3 Cf. documento: "A biometria como processo de segurança", 2005. Revistas do
setor de segurança foram acompanhadas durante a pesquisa sobre câmeras
realizada entre os anos de 2002 e 2005 com o intuito de apreender a formulação
de saberes, o surgimento de técnicos e cursos de formação que passaram a
definir o que é segurança na atualidade e como deve ser gerida. Foram escritos
nesse período textos abordando a biometria.
4 "Uma nova tecnologia baseada na biometria deve em breve começar a dispensar a
necessidade de memorização de tantas senhas para cartões de crédito, banco e
computador, entre outras. Uma rápida verificação da íris ou impressão digital
poderá, por exemplo, autorizar uma transação bancária" (cf. documento:
"Biometria facilita a vida dos que têm que decorar muitas senhas", 2004).
5 Presente em departamentos de trânsito de vários estados brasileiros, o
sistema biométrico teve como justificativa inicial a necessidade de combate à
fraude nos procedimentos dos Detrans. Apesar de não ser objetivo deste artigo a
avaliação da eficiência desses sistemas, é importante apontar que a
persistência das fraudes é parte do debate brasileiro atual sobre biometria. O
quadro remete a uma adoção pouco refletida de soluções tecnológicas, sem a
devida participação e debate da sociedade civil, e a geração de novos, ou a
perpetuação de antigos problemas, para os quais novas soluções tecnológicas ou
equipamentos de vigilância ainda mais onerosos são alavancados (cf. documento:
"Malha fina do Detran pega 200 autoescolas e 19 mil motoristas", 2008).
6 Cf. documento "Instituto de Identificação demonstra novo sistema: Rondônia é
pioneira", 2009.
7 "O projeto do novo passaporte compreende, além da instituição da caderneta de
viagem, um completo sistema de controle a ser instalado em todos os portos,
aeroportos e postos de fronteira, além da rede consular no exterior, com
leitura mecânica desses documentos na fiscalização do tráfego internacional. O
projeto é resultado de parceria do Ministério da Justiça, por meio do
Departamento de Polícia Federal, do Ministério das Relações Exteriores, do
Serviço Federal de Processamento de Dados - Serpro e da Casa da Moeda do Brasil
- CMB" (cf. documento: "Informações sobre o novo passaporte brasileiro", s.d.
8Idem, grifos meus. Vale lembrar que as idéias de credibilidade internacional e
modernização compõem uma justificativa para a importância das mudanças no
passaporte. A esse respeito ver a atual pesquisa em curso, que também se
preocupa em investigar a funcionalidade e o papel do acionamento dessas idéias
no contexto de implementação da nova carteira de identidade (RIC).
9 Cf. documento: "Conheça o novo passaporte brasileiro: elementos do novo
passaporte brasileiro", s.d.
10 O código de barras bidimensional difere do tradicional encontrado em contas
bancárias ou produtos de supermercado. Enquanto no tradicional as informações
são armazenadas em linha e a quantidade de dados depende do comprimento, no
código bidimensional, os dados estão em formato de um quadrado composto por
vários outros quadrados menores. Neste caso, os dados são armazenados em linhas
e colunas, dando a possibilidade de armazenamento de uma maior quantidade de
informações.
11 "Um e-passaporte incorpora dados relativos à identidade de um indivíduo, as
diretrizes atuais da Icao requerem que e-passaportes incluam informações de
reconhecimento facial. Os contornos dos rostos dos indivíduos são digitalmente
mapeados e armazenados em um chipde forma que a comparação da informação facial
do portador do passaporte possa ser feita com a informação da pessoa cujo
passaporte foi emitido" (cf. documento: Visa Waiver Program, 1990, trad.
minha).
12 "O sucesso do poder disciplinar se deve sem dúvida ao uso de instrumentos
simples: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e sua combinação num
procedimento que lhe é específico, o exame" (Foucault, 2000, p. 143).