Maquiavel e o conceito de liberdade em três vertentes do novo republicanismo
Introdução
Não é nova a interpretação que apresenta o pensamento político de Maquiavel
como o mais notável exemplar do ressurgimento da concepção republicana de
liberdade. Já em meados do século XVI, poucas décadas depois da morte de
Maquiavel, Giovani Busini, um republicano opositor dos Médici, retratava-o como
"o mais extraordinário amante da liberdade" (apudBaron, 1961, p. 217). Um
século mais tarde, escritores como James Harrington e John Milton chamavam a
atenção para as preferências republicanas do autor dos Discorsi, ao mesmo tempo
em que se inspiravam em suas lições para a justificação das pretensões do
parlamento contra a coroa no contexto revolucionário inglês. No século das
luzes, poucos anos antes da eclosão da Revolução Francesa, Rousseau dava ainda
mais ênfase à integridade republicana de Maquiavel, afirmando que mesmo em O
Príncipe, sua obra aparentemente mais pró-monárquica, o autor, "fingindo dar
lições aos reis, deu-as ele, e grandes, aos povos" (Rousseau, s/d, p. 78).1
Contudo, ao longo de quase cinco séculos, a interpretação republicana do
pensamento político de Maquiavel jamais foi forte o bastante para se sobrepor
ao retrato convencional, que chega a apresentar o florentino como um dos mais
inescrupulosos conselheiros de tiranos de todos os tempos. Tal visão do sentido
moral e político das idéias de Maquiavel enraizou-se firmemente no solo do
senso comum, e no contexto acadêmico de meados do século XX pôde contar com o
endosso enfático de influentes teóricos. Para Leo Strauss, por exemplo, a
imagem mais correta do "blasfemo" Maquiavel seria mesmo a de um "professor do
mal" (Strauss, 1958, p. 9).
Foi somente a partir da segunda metade do século passado que (ao menos nos
meios acadêmicos) o "filósofo da liberdade" começou a ganhar reconhecimento em
detrimento do "conselheiro de tiranos". Impulsionada inicialmente pela
publicação de estudos no campo da história do pensamento político, a
interpretação republicana de Maquiavel passou a insinuar-se também no campo da
teoria política normativa. Vertentes influentes do atual republican revivalna
teoria política vêm reivindicando a herança de Maquiavel, ao mesmo tempo em que
vêm oferecendo novos elementos para a releitura dos seus textos.2 Outra
hierarquia vem sendo reivindicada para o conjunto da obra maquiaveliana. O
Príncipejá não aparece mais como a visão autorizada dos ideais políticos do
autor, e obras outrora menos freqüentadas e valorizadas, como a História de
Florençae, sobretudo, os Discorsi, vêm passando para o primeiro plano das
exegeses.
Observado de longa distância, o Maquiavel republicano parece íntegro o bastante
para começar a se sobrepor ao Maquiavel das vilanias principescas. Porém, visto
mais de perto, o novo Maquiavel perde foco e nitidez. Se há acordo entre os
neo-republicanos sobre o fato de que o pensamento de Maquiavel se orienta pela
defesa do ideal da liberdade, há, contudo, inúmeras discordâncias sobre o
significado do próprio conceito de liberdade por ele adotado, bem como sobre a
natureza das formas institucionais que constituem e asseguram a liberdade numa
república. Em que consiste, afinal, o núcleo do republicanismo maquiaveliano?
Neste artigo, examinaremos três tipos de respostas para esta questão.
Primeiramente, examinaremos a interpretação que advoga que o núcleo do
republicanismo de Maquiavel consiste no alinhamento do autor com uma concepção
positiva de liberdade, um modo de conceituar a liberdade inspirado em
Aristóteles e em seus "seguidores" romanos, como Cícero e Salústio. Intérpretes
como Hans Baron e John Pocock contribuíram decisivamente para essa maneira de
conceber o princípio constitutivo do republicanismo de Maquiavel.
Em seguida será examinada a interpretação que parte do princípio de que
Maquiavel era, na verdade, mais cético acerca da disposição dos cidadãos para o
comportamento virtuoso do que as interpretações de Baron e Pocock nos fazem
supor. Autores como Quentin Skinner, Maurizio Viroli e Philip Pettit detêm-se
na demonstração de que a idéia de liberdade adotada por Maquiavel, longe de
equivaler à concepção positiva dos neo-atenienses, representava uma modalidade
de liberdade negativa, inspirada na herança constitucional da antiga Roma.
Porém, em contraste com as vertentes dominantes da tradição liberal, a
concepção de liberdade negativa dos republicanos "neo-romanos" não aceita a
oposição entre liberdade e lei. Pelo contrário, afirmam que as boas leis são
imprescindíveis para a constituição e a manutenção da liberdade, e que esta
teria sido a crença fundamental do republicanismo maquiaveliano.
Por fim, investigaremos um tipo de resposta à nossa questão que procura
radicalizar o elemento democrático (popular) do republicanismo de Maquiavel. Em
uma série de estudos recentes, John McCormick vem argumentando que mais do que
uma teoria da república como o império da lei, há, em Maquiavel, uma "teoria da
democracia" apropriada para restabelecer a accountabilitynas repúblicas
democráticas contemporâneas; uma teoria da democracia equipada para superar as
limitações das teorias dominantes, tanto nas versões liberais e minimalistas,
como nas versões participativistas e comunitaristas.
Examinaremos mais detalhadamente essas três leituras de Maquiavel, partindo da
hipótese de que a comparação entre elas, além de revelar evidências textuais e
contextuais enriquecedoras de nossa compreensão histórica das idéias de um
autor clássico, representa um procedimento que nos remete inevitavelmente a
debates centrais na teoria política contemporânea. Em que pese nossa convicção
sobre as vantagens do casamento entre a história intelectual e a teoria
política, diríamos, em benefício da precisão, que a orientação aqui subjacente
não é a do historiador das idéias, que se perguntaria o que Maquiavel "estava
fazendo" ao escrever seus textos (cf. Skinner, 1988). A orientação é outra,
embora, em certo sentido, a pergunta seja a mesma: O que os historiadores e
teóricos do neo-republicanos estão fazendo ao interpretarem a herança de
Maquiavel?
A virtude dos cidadãos
De modo geral, o Maquiavel "conselheiro de tiranos" aparece em interpretações
que tomam as máximas contidas em O Príncipecomo foco de atenção. Por outro
lado, o Maquiavel republicano é quase sempre aquele que os intérpretes
encontram nos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio- os Discorsi. Não
por acaso, uma das estratégias dos intérpretes republicanos de Maquiavel
consiste em minimizar a importância do livro de espelho para príncipes e
salientar a importância do livro dedicado ao estudo das repúblicas. Não se
trata de uma estratégia de simples execução, uma vez que a celebridade de
Maquiavel deve-se, incomparavelmente, mais à recepção de O Príncipedo que à
recepção de qualquer outra de suas obras. Tal estratégia argumentativa envolve
um esforço de contextualização que se reflete até mesmo em disputas acerca da
correta datação dos textos maquiavelianos.
As interpretações que atribuem uma identidade monarquista - e mesmo tirânica -
às idéias de Maquiavel costumam referir-se aos Discorsià sombra de O Príncipe,
obscurecendo diferenças essenciais entre as duas obras e apresentando ambas
como frutos de uma mesma intenção ou doutrina. Mesmo quando são reconhecidas as
distinções, tentase demonstrar que a composição dos Discorsi(ou de parte deles)
antecede cronologicamente a de O Príncipe. Chabod, por exemplo, em livro
originalmente publicado em 1922, sugere que "se pode tomar como certo que, à
época em que Maquiavel começou a trabalhar em O Príncipe, o primeiro livro dos
Discorsijá estava, em grande medida, finalizado (Chabod, 1958, p. 31).
Maquiavel teria começado a escrever o livro sobre as repúblicas no verão de
1513, interrompendo a redação quando novas experiências lhe revelaram a
inutilidade da manutenção de fortes compromissos republicanos no contexto de
corrupção e decadência em que se encontrava Florença. A interrupção da redação
dos Discorsiteria sido imediatamente seguida da composição de O Príncipe,
ocorrida no segundo semestre do mesmo ano de 1513.
Esses meses - de julho a dezembro - testemunham o nascimento do
tratado De Principatibus, por nós conhecido como O Príncipe. As notas
marginais sobre Lívio são deixadas de lado. Na última delas,
incidentalmente, já podemos discernir uma atitude mental pouco usual.
Encontramos dois ou três capítulos inteiros em que o povo, que
constitui o espírito vivo dos Discorsi, é substituído pelo indivíduo
solitário, enquanto o heróico conflito de classes e de partidos se
transforma no conflito interno de um homem cujos pensamentos ninguém
pode conhecer (Idem, p. 12).
Somente alguns anos mais tarde, Maquiavel retomaria a redação do livro sobre as
repúblicas, num tom bem menos exaltado do que aquele que marcou a escritura dos
primeiros capítulos. A conclusão que se depreende da hipótese de Chabod é a de
que O Príncipeé a obra que representa o momento mais desenvolvido e maduro do
pensamento político de Maquiavel, ao passo que os Discorsiseriam o resultado de
um conjunto de "notas marginais", escritas em diferentes épocas e sob o impulso
de diferentes motivações. Quando confrontado com a realidade e as exigências de
sua própria época, Maquiavel interrompe o elogio do passado de grandeza e
liberdade da Roma antiga e volta-se para a busca de soluções mais "realistas".
Deve-se a Hans Baron a contestação mais convincente da influente tese de Chabod
para o estabelecimento das datas de composição das duas principais obras de
Maquiavel. Não há dúvida, segundo Baron, sobre o fato de O Príncipeter sido
escrito no ano de 1513. Mas não passaria de uma suposição equivocada, ainda que
engenhosa, a sugestão de Chabod de que parte dos Discorsifora escrita antes
disso. O fato de Maquiavel fazer referência a uma obra sobre repúblicas no
segundo capítulo da edição de O Príncipenão significa necessariamente que os
Discorsi- ou parte deles - estivessem prontos em 1513. Baron procura reunir
evidências e fundamentar conjecturas que nos levam a crer que a famosa passagem
na qual Maquiavel ressalta que não tratará das repúblicas, uma vez que já
teria, "em outra ocasião", discorrido "longamente sobre o assunto" (Maquiavel,
1998, p. 5), foi inserida em O Príncipeentre 1515 e 1518, e não no ato de
composição original da obra, em 1513. O objetivo de Baron é demonstrar que, ao
contrário do que supõem os intérpretes que tomam Maquiavel como um conselheiro
de príncipes, a versão mais desenvolvida e madura das idéias políticas do autor
aparece não no livro sobre os principados, mas nos Discorsi, uma vez que "no
caminho de O Príncipeaté os Discorsi, novas experiências fizeram parte de sua
vida [...], o horizonte de sua mente se expandiu com os anos, como a de todo
pensador grande e criativo". Desse modo, "se aceitarmos que todos os três
livros dos Discorsiforam subseqüentes a O Príncipe, o realismo político do
panfleto, muito longe de ser o segundo passo, ou mesmo o clímax no
desenvolvimento de Maquiavel, em verdade, representa uma fase anterior"(Baron,
1961, p. 250).
A disputa pelo estabelecimento das datas de composição das obras de Maquiavel
não é mera minudência de uma historiografia de antiquário. Ela é parte
importante da disputa mais ampla pelo estabelecimento da identidade do
pensamento político do autor. Conselheiro de príncipes ou republicano? Cada uma
dessas interpretações contrastantes propõe sua própria hierarquização da obra,
destacando determinados livros em detrimento de outros, ou determinadas partes
de um mesmo livro em detrimento de outras. Ao sugerir que é nos primeiros
capítulos de cada um dos três livros dos Discorsique se encontra a visão mais
acabada do pensamento político de Maquiavel, Hans Baron procura fornecer
elementos para a interpretação republicana. Nesses capítulos encontrar-se-ia a
forma mais decantada das lições tiradas dos estudos de Maquiavel depois da
redação de O Príncipe. De acordo com Baron, o exílio a que Maquiavel se viu
forçado após a queda do governo republicano ofereceu-lhe a oportunidade de uma
dedicação plena à investigação dos grandes clássicos da antiguidade, bem como
dos humanistas do renascimento italiano, especialmente os do século XV. O
contato sistemático com essas fontes teria fornecido ao autor dos Discorsios
instrumentos intelectuais para formular, em mais elevado nível, seu ideal
político, um ideal que se alimentava da reflexão sobre sua própria experiência
pregressa de funcionário da república florentina. Mas também um ideal que,
recorrendo ao passado, projetava-se para o futuro.
Baron interpreta Maquiavel não apenas como um partidário do republicanismo, mas
também como um autor plenamente imerso na cultura do humanismo cívico italiano.
O panorama retratado pelo historiador alemão fornece uma visão essencialmente
política do Renascimento. O humanismo cívicoé situado no centro da cultura que
passa a se expandir desde o século XIV, intensificando-se e ganhando contornos
mais nítidos quando se inicia, principalmente em Florença, a luta contra a
expansão de principados tirânicos. Sendo o palco do ressurgimento de um
conjunto de valores clássicos associados ao republicanismo, a Florença da
virada do século XIV para o século XV viu surgir uma nova vaga de interesse em
clássicos como Aristóteles e, principalmente, Cícero, cuja influência no
movimento intelectual do renascimento é enfatizada por Baron. O principal
legado desses clássicos da antiguidade para os humanistas do renascimento
italiano teria sido a lição de que a plena realização da humanidade dos
indivíduos só seria possível mediante a participação desses indivíduos -
quacidadãos - nos assuntos públicos. Desse modo, "sem mentes que se mostrassem
em acordo quanto aos valores e ideais da vita activa et politicados cidadãos
Gregos e Romanos, o humanismo cívico não poderia ter surgido" (Baron, 1966, p.
112). Se ao longo do século XIV o humanismo cívico aparecia ainda com
ambigüidades e limitações em textos de pensadores como Petrarca e Salutati, no
século seguinte ele assumiria uma forma bem mais desenvolvida e consistente nos
textos de Leonardo Bruni. Para Baron, é no republicanismo do século XV, e
especialmente na obra de Bruni, que o ideal da vida ativa assume clara
predominância em relação ao ideal da vida contemplativa, professada pela
escolástica medieval e problematicamente assumida por muitos humanistas do
século XIV.
Embora Leonardo Bruni seja o grande protagonista da narrativa de Baron, este
pressentiu que, sem Maquiavel, a história do humanismo cívico perderia muito de
seu potencial interesse para a atualidade. Assim, Baron advoga que "o que se
alcançara" por volta de meados do século XV "reemergeria e, em algum momento,
remodelaria a conduta e o pensamento dos cidadãos Florentinos, quando, no tempo
de Savonarola, Maquiavel, Francesco Guicciardini e Donato, a República fosse
restaurada" (Baron, 1966, p. 439).
Mas o Maquiavel que emerge da interpretação de Baron é talvez próximo demais da
tradição do humanismo cívico. É aquele que procura a fonte do poder político
"na criação de uma tessitura social e constitucional que permitisse o
desenvolvimento de energias cívicas, e de um espírito de devoção e sacrifício
político, em todas as classes do povo" (1961, p. 249). Conforme observou com
acuidade John Najemy (1996), o esforço de Baron para trazer Maquiavel para o
leito do humanismo cívico apoiou-se na pressuposição da "pureza ética" de um
pensador confiante no espírito de "devoção e sacrifício" de seus concidadãos.
Assim, Baron acabou negligenciando aquelas dimensões do pensamento de Maquiavel
que revelam seu afastamento da tradição do humanismo cívico. De modo mais
relevante, fica de fora da interpretação de Baron a análise do autor dos
Discorsiacerca da natureza do conflito social e de suas conseqüências
institucionais. Além disso, Baron negligencia a contundente crítica de
Maquiavel à aristocracia florentina, bem como suas idéias sobre temas como a
manipulação da religião e a corrupção da ordem institucional e dos costumes na
república. O fato é que a avaliação maquiaveliana da República Florentina do
século XV era demasiadamente crítica para adequar-se ao tom laudatório do
republicanismo de Bruni e de outros humanistas cívicos, alvos das atenções de
Baron. Não é por acaso que jamais escreveu mais do que poucas frases sobre a
História de Florença, obra na qual Maquiavel critica abertamente o tratamento
dispensado pelos "excelentes historiadores" Leonardo Bruni e Poggio Bracciolini
ao que teria sucedido com Florença até o ano de 1434. Conforme as palavras de
Maquiavel,
[...] depois de ler diligentemente seus escritos [...], percebi que
foram muitíssimo diligentes na descrição das guerras travadas pelos
florentinos contra os príncipes e povos estrangeiros, mas que, no que
se refere às discórdias civis e às inimizades internas, bem como aos
seus efeitos, eles calaram de todo uma parte e descreveram a outra
com tanta brevidade que nela os leitores não podem encontrar
utilidade nem prazer algum (2007b, p. 7).
Apesar dos excessos de Baron em sua tentativa de enquadrar as idéias do autor
dos Discorsina tradição do humanismo cívico, as pesquisas desse autor abriram
as portas para investigações mais matizadas. Aptas a reconhecerem as inovações
de Maquiavel em relação a seus predecessores humanistas, tais investigações não
deixam, porém, de enfatizar o profundo enraizamento do republicanismo
maquiaveliano na tradição clássica (aristotélica) do governo misto cumcidadania
ativa. Vejamos o exemplo de J. G. A. Pocock.3
Se Baron renovou o interesse no republicanismo ao demonstrar a centralidade do
humanismo cívico na cultura do Renascimento, Pocock procura realizar um intento
ainda mais ambicioso, reconstruindo a tradição republicana desde sua re-
emergência no Renascimento italiano até suas ulteriores manifestações no mundo
moderno. Na narrativa de Pocock, após ressurgir com os humanistas cívicos, o
republicanismo manifestou-se no século XVII nas elaborações de pensadores
comprometidos com a causa da liberdade no processo da revolução inglesa; e
esses discípulos anglófonos de Maquiavel - James Harrington à frente - serviram
como fonte de inspiração, um século depois e do outro lado do Atlântico, para o
amplo movimento de idéias associado à revolução norte-americana. O "momento
maquiaveliano" isolado por Pocock vem contribuindo para minar as bases da
narrativa dominante sobre as origens ideológicas do modelo constitucional
norte-americano, narrativa que advoga uma inspiração "liberal" do movimento
revolucionário.4 Essa contribuição explica a grande repercussão do estudo de
Pocock na historiografia norte-americana (Rodgers, 1992).
O que Pocock chamou de "momento maquiaveliano" não é algo que se refira
exclusivamente às idéias e ao contexto de Maquiavel. De Aristóteles a Petrarca,
de Bruni a Guicciardini e Donato Giannotti, de Harrington a Madison, a gama de
pensadores que aparecem associados ao referido "momento" é numerosa. Conforme
esclarece Pocock, "o 'momento maquiaveliano' é uma expressão que deve ser
interpretada de duas maneiras. Em primeiro lugar, ela denota o momento, e a
maneira, em que o pensamento Maquiaveliano fez sua aparição". Em segundo lugar,
[...] é um nome para o momento, num tempo conceitualizado, em que a
república era vista em confronto com sua própria finitude temporal,
como tentando permanecer moral e politicamente estável num fluxo de
eventos irracionais concebidos como essencialmente destrutivos de
todos os sistemas de estabilidade secular. Na linguagem que fora
desenvolvida para esse propósito, se falava disso como o confronto da
"virtude" com a "fortuna" e a "corrupção" (1975, pp. vii-viii).
Mas na interpretação de Maquiavel promovida por Pocock é a idéia de virtude que
ocupa o lugar mais proeminente. Se a fortuna representa a contingência dos
fenômenos políticos e a corrupção o resultado inevitável - embora mais ou menos
acelerado - da ação do tempo sobre a ordem política, a virtude é concebida como
a capacidade humana de operar de modo criativo sobre os dados da fortuna.
Contudo, diferentemente da tradição medieval, que concebeu a virtude como a
capacidade pela qual "o homem bom impunha forma sobre sua fortuna", o humanismo
cívico, "ao identificar o homem bom com o cidadão, politizou a virtude e
tornou-a dependente da virtude dos outros" (Pocock, 1975, p. 157).
Pocock é enfático ao afirmar a inspiração aristotélica do conceito de virtude
cívica do humanismo renascentista. Sua leitura da Políticade Aristóteles
fornece-lhe o princípio constitutivo do "momento maquiaveliano".5 A virtude
cívica é definida como a capacidade de cada cidadão agir em conformidade com o
interesse público, ainda que em detrimento de seu interesse particular. "A
república, ou a comunidade política, era [...] uma estrutura virtuosa: era uma
estrutura em que a capacidade de cada cidadão de colocar o bem comum antes do
seu próprio bem era a precondição de todos os outros" (Idem, p. 184). É claro
que a constituição de tal "estrutura de virtude" não é nada trivial. É verdade
que agindo em conformidade com o bem público, os cidadãos realizam sua essência
universal: "A cidadania era uma atividade universal, a polisuma comunidade
universal". Mas os cidadãos não eram idênticos como seres particulares, uma vez
que "cada um tinha suas próprias prioridades no que tange aos bens particulares
que poderia escolher perseguir, e cada um deles encontrava-se ligado por
categorias particulares com aqueles que compartilhavam uma, algumas, ou todas
de suas prioridades"(Idem, p. 68). A questão que se põe do ponto de vista
constitucional é a de como fazer com que essa diversidade de concepções
particulares de bem se harmonize com o bem comum.
Segundo Pocock, Aristóteles não acreditava que a atividade do cidadão pudesse
ser concebida isenta de relações com a atividade dos indivíduos particulares.
Não é possível separar o cidadão do indivíduo particular do mesmo modo que não
é possível separar quem governa de quem é governado. A condição que tipifica a
cidadania é justamente aquela em que governante e governando se encontram no
mesmo indivíduo: "o universal e o particular encontraram-se no mesmo homem"
(Idem, ibidem); e se os cidadãos inevitavelmente assumem uma personalidade
social ao perseguirem seus fins particulares, isso deve modificar sua
capacidade para participar "na atividade universal de se tomar decisões
voltadas para a distribuição do bem comum". Em vista disso, Pocock conclui que,
na teoria política de Aristóteles, "o problema a confrontar a polistornou-se o
de distribuir o exercício particular dessa função universal de maneira tal que
se relacionasse com a diversidade de personalidades sociais que os cidadãos
exibiam como resultado de suas prioridades guiadas por valores individuais"
(Idem, ibidem).
Tal problema poderia ser resolvido atribuindose a cada segmento de elite dos
diferentes setores sociais, inclusive à elite da não-elite, funções específicas
no processo global de tomada de decisões na cidade, funções designadas de
acordo com a capacidade e a aptidão específicas de cada setor. O fundamental é
a garantia de que nenhum dos setores sociais se encontre em condição de impor
suas prioridades particulares sobre o universal, pois no modelo aristotélico,
conforme Pocock, "qualquer forma de governo em que o bem de um grupo particular
fosse tratado como idêntico ao bem do todo era despótico, mesmo se o bem
particular pudesse ser, ao menos inicialmente, um bem real em si" (Idem, p.
73). Somente uma estrutura institucional mista, concebida para gerar o
equilíbrio entre as diferentes preferências dos diversos setores, poderia
assegurar a manutenção da "estrutura de virtude" da república.
Pocock preocupa-se em discutir a idéia de virtude nos dois principais livros de
Maquiavel, mas esclarece que em O Príncipeele lida com o problema das virtudes
requeridas pelo "príncipe novo" para dar forma a uma ordem política ainda
inexistente ou já corrompida. No entanto, a virtùrequerida do príncipe novo não
é do mesmo tipo daquela requerida dos cidadãos ordinários que já vivem em
liberdade sob uma ordem republicana. Mesmo assim, é preciso ter claro que, para
Maquiavel, o êxito do príncipe em sua empreitada fundadora não pode prescindir
de certo tipo de virtude da parte do povo. Maquiavel é pródigo em expressar seu
profundo desprezo pelas tropas mercenárias. O príncipe novo estaria sempre mais
bem guarnecido se pudesse confiar a guarda do statoao próprio povo armado. O
príncipe novo seria alguém de grande virtude militar. No limite, seu sucesso em
fundar e manter o Estado estaria vinculado à sua capacidade de inspirar este
mesmo tipo de virtude no povo. É verdade que a virtude militar não se
identifica com a virtude cívica, mas, conforme sustenta Pocock, uma não
subsiste sem a outra na mente de Maquiavel.
Embora a idéia de virtude cívica esteja de certo modo implícita na reflexão
levada a efeito em O Príncipe, é nos Discorsique a compreensão de Maquiavel
sobre o conceito é elaborada em sua plenitude. Referindo-se a duas dimensões do
conceito de virtude, Pocock assinala que:
Por meio da institucionalização da virtude cívica, a república, ou
polis, sustenta sua própria estabilidade ao longo do tempo e
desenvolve o material humano bruto que a compõe na direção daquela
vida política que é a finalidade da humanidade. Por meio do exercício
de uma virtùparcialmente não-moral, o inovador impõe a forma sobre a
fortuna: isto é, sobre a seqüência de acontecimentos desordenada por
seu próprio ato ao longo do tempo. Nos Discorside Maquiavel [...],
ambos os conceitos convergem (Idem, pp. 183-184).
Nos Discorsiestariam evidentes as relações entre a virtude cívica e a virtude
militar.6 O ponto central da análise maquiaveliana, de acordo com Pocock,
reside na idéia de que a virtude militar seria o veículo para se passar da
massa popular a uma comunidade de cidadãos ativos, alimentando o sentimento
cívico necessário ao florescimento da liberdade e da grandeza da república. É
nesta chave que Pocock interpreta a célebre declaração de Maquiavel de que em
uma república expansiva deve-se confiar ao povo a "guarda da liberdade"
(Maquiavel, 2007a, p. 24). Maquiavel teria em mente a disposição do povo para
lutar em exércitos pela defesa da pátria. A guerra em defesa da pátria seria a
arena privilegiada de realização do tipo de virtude que a república demandaria
do cidadão comum.7
Os conflitos e as leis
Os estudos de Baron e Pocock abriram uma ampla avenida de investigação sobre a
tradição do humanismo cívico. Além disso, contribuíram para o estabelecimento
de uma identidade republicana para Maquiavel, não apenas por meio de
declarações ocasionais, como ocorreu muitas vezes no passado, mas pela
mobilização de intenso esforço de pesquisa e contextualização das idéias do
pensador florentino. É impossível não reconhecer que os desenvolvimentos
recentes no estudo do republicanismo de Maquiavel sofreram forte influência de
seus achados.
Não obstante a força de tal influência, as interpretações do republicanismo que
se beneficiaram dos trabalhos desses autores seguiram suas próprias
trajetórias. Dentre tais interpretações, destaca-se aquela desenvolvida por
estudiosos do republicanismo que vêm trabalhando sob a liderança de Quentin
Skinner. Este, ao lado do próprio Pocock, é um dos expoentes do referencial
metodológico para o estudo da história do pensamento político associado à
chamada "Escola de Cambridge".8
Skinner vem recuperando a tradição republicana em moldes distintos daqueles
propostos por Baron e Pocock, apresentando o pensamento de Maquiavel como
extensivo à sua interpretação. Para Skinner, o renascimento do republicanismo
nos primórdios da modernidade deveu-se mais à recuperação de moralistas
romanos, como Cícero e Salústio, do que à retomada da concepção aristotélica
das virtudes cívicas. É certo que nos estudos de Baron e Pocock os referidos
pensadores romanos aparecem recorrentemente. Contudo, eles aparecem como
seguidores da concepção aristotélica de cidadania. O que Skinner sustenta é que
o republicanismo romano, embora não alheio à concepção grega de cidadania, deve
ser pensado como uma tradição intelectual e política independente. Se na
interpretação cívico-humanista o centro das atenções era a noção de virtude
cívica, na interpretação "neo-romana" de Skinner o foco da análise deslocase
para a arquitetura institucional do Estado.
Esse deslocamento do foco analítico foi acompanhado de um esforço de
investigação sobre a história do conceito de liberdade. Sustentar a
independência do republicanismo "neo-romano" em relação à tradição aristotélica
requer uma concepção de liberdade distinta daquela presente no modelo
ateniense, com o qual opera Pocock, que não esconde a influência de Hannah
Arendt em seu próprio esforço de reconstituição da tradição republicana
(Pocock, 1975, p. 550). Ressalte-se que poucos autores do século XX fizeram
tanto quanto Arendt para restabelecer os laços entre participação política e
liberdade, atualizando a perspectiva aristotélica. Para Arendt, "o sentido da
política é a liberdade" (1999, p. 38), e a liberdade de uma pessoa consiste
exatamente no exercícioda sua participação na comunidade política. A liberdade
reside na ação, no ato de iniciar algo novo.
Skinner parece não se sentir muito confortável com as conseqüências
"comunitaristas" do modelo neo-ateniense, organizado em torno de uma visão
enfaticamente "positiva" de liberdade. Prefere assumir uma posição polêmica,
caracterizando a liberdade republicana à laMaquiavel como um tipo de "liberdade
negativa", uma liberdade desfrutada tanto por indivíduos como por coletividades
para perseguirem os fins por eles próprios escolhidos. "Estar de posse da
própria liberdade é ser livre no sentido 'negativo' ordinário de não se estar
constrangido por outros agentes. Portanto, ser livre é - como Maquiavel
acrescenta com referência a agentes coletivos - agir 'de acordo com a própria
vontade e segundo o próprio juízo" (Skinner, 2002a, p. 197). O autor ressalva
que as implicações dessa visão da "liberdade negativa" são muito diferentes das
encontradas na concepção liberal atomista.9 Skinner não admite o fato de que a
liberdade dos particulares possa realizar-se em um contexto de uma comunidade
não-livre. Ou seja, sem liberdade política, não pode haver, de modo duradouro,
liberdade individual. Daí a necessidade de os indivíduos participarem da vida
política da república. Desse modo, Skinner afirma, contra o liberalismo, que a
postulação de uma completa desvinculação entre liberdade individual e liberdade
política representa uma grave "falha de racionalidade" (Skinner, 1984, p. 217).
Seria como desejar os fins sem recorrer aos meios. Por outro lado, contra o
comunitarismo, Skinner afirma que a participação política é precisamente um
meio, um instrumentoda liberdade, não a própria liberdade. Em relação à
liberdade, a participação política seria um valor instrumental, não um valor
intrínseco, como quer o modelo neo-ateniense.
Não há dúvida de que, em seu momento inicial, a motivação central de Skinner
era invectivar contra a teoria dominante da liberdade, organizada em torno do
conceito de "liberdade negativa" tal como definido por Isaiah Berlin.10
Todavia, já naquele momento, Skinner mobilizava as idéias de Maquiavel também
como alternativa à vertente que conecta o republicanismo à concepção "positiva"
de liberdade. Para isso, o primeiro passo do autor foi questionar a tese de que
a concepção republicana da liberdade teria sido retomada no Renascimento a
partir da recuperação de Aristóteles. Skinner critica a tese de Baron de que o
republicanismo teria emergido somente a partir do início do século XV, e que a
ideologia da forma eletiva e participativa de governo teria surgido como uma
resposta de Florença ao avanço das pretensões autocráticas e imperialistas do
regime de Milão. Subjacente à tese de Baron, encontrar-se-ia a suposição de que
o republicanismo moderno não teria sido possível sem o retorno aos antigos,
especialmente a Aristóteles, cuja obra se tornara amplamente acessível em
decorrência de traduções realizadas na virada do século XIV para o século XV na
Itália. Já em As fundações do pensamento político moderno, publicado em 1978,
Skinner chama a atenção para o fato de que muito antes de Aristóteles se tornar
amplamente disponível para os humanistas dos séculos XIV e XV, os "pré-
humanistas" já haviam descoberto uma maneira de defender as pretensões das
cidades-repúblicas contra as tiranias. Assim, o historiador inglês antecipa em
pelo menos dois séculos - de fins do século XIV, como queria Baron, para fins
do século XII - a emergência do republicanismo no Regnum italicum. A
justificação do regime eletivo e da participação cívica teria dispensado, no
momento de sua emergência, o conhecimento da filosofia moral de Aristóteles.
Embora não deixasse de se inspirar em fontes da antiguidade, era em Roma, não
na Grécia, que se encontrava a fonte de inspiração do republicanismo das
cidades italianas.
Tito Lívio, Salústio e, principalmente, Cícero teriam servido de modelos para
os republicanos pré-humanistas. Skinner sustenta que "foi dessas humildes
origens, muito mais do que devido ao impacto do aristotelismo, que o
republicanismo clássico de Maquiavel, Guicciardini, e de seus contemporâneos,
descendeu originalmente". Assim, "a teoria política da Renascença, em todas as
fases de sua história, deve muito mais profundamente a Roma do que a Grécia"
(2002a, p. 92). E não há dúvida de que subjacente a essa conclusão encontra-se
a crença de Skinner de que a tradição romana tem uma vida própria, que não pode
ser reduzida à herança dos gregos.11
É no contexto da tradição romana que o republicanismo de Maquiavel é
interpretado por Skinner. Para Maquiavel, assim como para os moralistas romanos
e os humanistas cívicos, os mais elevados fins visados por uma cidade seriam a
glória e a grandeza cívica. Maquiavel associar-se-ia também à tradição
republicana clássica ao assumir que somente por meio de um modo de vida livre e
participativo os referidos fins poderiam ser alcançados. Maquiavel "mostra-se
satisfeito em adequar suas idéias a uma estrutura tradicional, uma estrutura
que se baseia em associar os conceitos de liberdade, bem comum e grandeza
cívica de uma maneira amplamente familiar" (Skinner, 1990a, p. 137). Mas o
fato, argumenta Skinner, é que Maquiavel compartilha dos ideais do
republicanismo clássico introduzindo um conjunto de importantes inovações em
tal tradição.12
Há dois pontos centrais em que o afastamento de Maquiavel da tradição humanista
fica mais evidente. Na visão de Cícero, seguida fielmente pelos humanistas
cívicos, as virtudes cardinais necessárias à realização do bem comum são a
prudência, a coragem, a temperança e a justiça. Conforme esclarece Skinner, "a
análise de Maquiavel difere da de Cícero num ponto imensamente importante.
[...] Ele apaga a qualidade da justiça, a qualidade que Cícero, em seu De
officiis, descrevera como o esplendor triunfal da virtude" (2002a, p. 207).
Essa alteração aparece de modo mais explícito em O Príncipe, embora também seja
perceptível nos Discorsi. Na análise de Cícero, a justiça consiste em evitar a
fraude e a crueldade. Maquiavel não discorda dessa análise no que diz respeito
ao conteúdo do conceito de justiça. O que ele nega é que o uso de expedientes
fraudulentos ou cruéis seja sempre incompatível com a realização do bem comum.
Pelo contrário, há determinadas ocasiões em que tais expedientes são deveras
eficazes para a defesa da cidade. Na guerra, por exemplo, a fraude é um método
corriqueiro de combate, e em situações em que a liberdade da cidade se encontra
ameaçada ou a estabilidade do Estado esteja em risco, a crueldade não pode ser
descartada como método de ação.
Outro ponto - ainda mais importante do que o anterior - a marcar o
distanciamento de Maquiavel da tradição do republicanismo clássico refere-se ao
papel dos conflitos sociais na ordem republicana. Tanto os clássicos romanos
quanto os humanistas tendiam a considerar os "tumultos" e os conflitos internos
à cidade como graves ameaças à liberdade e à ordem pública. Ainda que esses
autores considerassem muitas vezes a necessidade da guerra para proteger a
cidade de ameaças externas, a manutenção da paz interna era vista como condição
sine qua nonda manutenção da liberdade e da persecução do bem comum. Porém,
como revela claramente a análise maquiaveliana das causas da liberdade
desfrutada pela República romana, não somente os conflitos sociais internos não
causaram prejuízos à ordem republicana, como consistiram na principal causa do
aperfeiçoamento de suas instituições. É com essa convicção em mente que
Maquiavel vai "contra a opinião de muitos de que Roma foi uma república
tumultuária e tão cheia de confusão que, se a boa fortuna e a virtùmilitar não
tivessem suprido a seus defeitos, ela teria sido inferior a qualquer outra
república". Segue-se então a surpreendente tese segundo a qual "quem condena os
tumultos entre os nobres e a plebe parece censurar as coisas que foram a causa
primeira da liberdade de Roma". Para Maquiavel, não apenas em Roma, mas "em
toda república há dois humores diferentes, o do povo, e o dos grandes", e
"todas as leis que se fazem em favor da liberdade nascem da desunião deles"
(Maquiavel, 2007a, p. 21).
As passagens acima são plenas de conseqüências para a interpretação skinneriana
de Maquiavel e do republicanismo. Nelas aparece de modo muito nítido a natureza
das relações entre conflito social, lei e liberdade: as boas leis são
resultados dos conflitos, e a liberdade é resultado das boas leis. Na análise
dos conflitos causadores da liberdade, Maquiavel distingue entre os humores do
povo e os das elites, afirmando que estas desejam sempre dominar e expandir seu
domínio, enquanto aquele deseja tão-somente a segurança de não ser dominado. De
acordo com Skinner, na análise maquiaveliana, tanto as predisposições do povo
como as das elites pode levar à corrupção.
Há duas maneiras contrastantes, prossegue Maquiavel, em que essa
ameaça da corruzione, essa negação da virtù, tende a surgir. O
conjunto ordinário dos cidadãos tende a ser ozioso, preguiçoso ou
inativo; como resultado disso, não conseguem, de modo algum, devotar
nenhuma energia a suas obrigações cívicas. Ainda mais perigosa para a
liberdade, contudo, é a tendência de cidadãos líderes serem guiados
pela ambizione- ambição pessoal. Isso os incita a perverter as
instituições livres de suas comunidades de tal modo a favorecer suas
próprias famílias e grupos sociais, ao passo que devem, como cidadãos
virtuosi, defender os interesses da comunidade como um todo (Skinner,
2002a, p. 164).
Skinner interpreta a análise maquiaveliana sobre os conflitos como um
testemunho a favor da organização de uma estrutura institucional destinada a
conter a tendência à corrupção inerente às diferentes classes de cidadãos.
Tendo em vista o "pessimismo" que o autor detecta em Maquiavel acerca da
possibilidade de mudança da natureza corruptível dos indivíduos e dos setores
sociais em que estes se agrupam, a única via restante para minorar o problema
da corrupção da ordem pública seria a criação de um mecanismo capaz de conter a
corrupção ou, pelo menos, neutralizar seus efeitos mais danosos. Tal mecanismo
deveria materializarse num determinado conjunto de leis, um sistema
constitucional voltado para produzir o tipo de virtude necessária à manutenção
da liberdade, virtude que de modo algum brota naturalmente do comportamento dos
indivíduos. "O papel indispensável das leis é, portanto, deter-nos da
corruzionee impor sobre nós a necessidade de nos comportarmos como cidadãos
virtuosi, ao tornar menos tentador seguirmos nossa tendência natural de
persecução de nossos próprios interesses às expensas do bem comum" (Idem, p.
174).
O sistema constitucional republicano cumpre dupla função, atuando tanto no
sentido negativo, como no sentido positivo, ou seja, tanto na contenção do
comportamento corrupto, como na indução do comportamento virtuoso. De um lado,
as leis republicanas bloqueiam a tendência à corrupção dos setores sociais
mediante a promoção do equilíbrio de poder entre tais setores. Na medida em que
o povo e as elites, com seus diferentes humores, estejam adequadamente
representados nas instituições do Estado republicano, cada um desses setores
tenderá a exercer sua vigilância sobre o outro. A vigilância mútua serviria
como uma espécie de antídoto à ociosidade do povo e à arrogância das elites. De
outro lado, a lei teria também a função de "canalizar" o comportamento dos
cidadãos para atividades conducentes à realização do bem comum. Num certo
sentido, recupera-se aqui a tese de Rousseau de que os cidadãos devem ser
"forçados a ser livres". Skinner destaca uma passagem em que Maquiavel "resume
[...], em termos que nos rememoram da admiração profunda de Rousseau pelos
Discorsi", a tese de que o povo "'deve ser acorrentado às leis' se um modo de
vida livre há de durar por algum período de tempo" (Idem, p. 174).
Até aqui, é possível concordar com um dos críticos de Skinner (Shaw, 2003), que
observa certa ambigüidade na concepção skinneriana de lei. De um lado, ecoando
a contragosto a visão positiva de liberdade, Skinner apresenta a lei como uma
"agência liberadora", capaz de transformar a tendência à corrupção em
comportamento virtuoso (Skinner, 1983, p. 13). De outro, o aparato legal
assumiria a função de uma "mão invisível", apenas constrangendo a livre fruição
do egoísmo constitutivo da espécie humana, sem qualquer possibilidade de
alterar essa condição.13
Essa tensão interna a uma concepção de lei que remete ora à noção de liberdade
positiva ora à noção de liberdade negativa encontra-se, de fato, presente na
interpretação skinneriana de Maquiavel. Todavia, a partir do momento em que
Skinner desvia o foco de Maquiavel e do Renascimento italiano, e passa a
focalizar os desdobramentos da história da concepção republicana de liberdade
no contexto inglês do século XVII, a idéia da lei como um aparato institucional
gerador de equilíbrio de poder assume preponderância sobre a idéia de lei como
agência emancipatória. Isso ajuda a explicar a inflexão de Skinner em direção a
uma visão mais jurídica do republicanismo.14
Nos artigos sobre Maquiavel, Skinner desejava mostrar que a liberdade
republicana é um tipo de liberdade negativa. Com isso ele pretendia afastarse
das inclinações comunitaristas que julgava presentes em autores como Pocock - a
quem, diga-se de passagem, Skinner tem como exemplo de historiador intelectual.
Mas Skinner também não podia simplesmente assumir a concepção liberal clássica
de liberdade negativa. Vale lembrar que é exatamente contra o domínio desta
concepção que o historiador justifica seu interesse na recuperação da concepção
republicana de liberdade. A dimensão institucional da "concepção puramente
negativa" (Skinner, 2008) de liberdade é considerada insuficiente para acomodar
o ideal republicano. A idéia de que a liberdade consiste unicamente na ausência
de coerção beneficiaria uma ordem jurídica fundada exclusivamente na noção de
"direitos", sejam estes individuais sejam coletivos. Mas uma república não
poderia prescindir de um aguçado senso de "dever" entre seus cidadãos, uma vez
que "a menos que coloquemos nossos deveres antes de nossos direitos, temos de
esperar que nossos direitos, eles mesmos, sejam debilitados" (Skinner, 1990b,
p. 309). É em face desse desejo de se distanciar do liberalismo que Skinner
acaba apelando a uma função positiva do papel da lei.
Já em A liberdade antes do liberalismo(1999), Skinner se debruça sobre
pensadores ingleses do século XVII, tais como Harrington, Milton e Sidney,
herdeiros do republicanismo neo-romano de Maquiavel. A partir desse livro, o
conceito de liberdade passa a assumir uma conotação mais claramente jurídica,
na medida em que é associado ao statusde determinado indivíduo na relação com
outros indivíduos, com grupos ou com a coletividade. Skinner argumenta que o
que caracteriza a tradição neo-romana do republicanismo é a idéia - presente no
Digestodas leis romanas - de que um indivíduo pode ser qualificado como livre
na medida em que ele não esteja sob a tutela, a dependência ou a vontade
arbitrária de outrem. Nas leis romanas, o paradigma da ausência de liberdade é
o escravo, aquele que se encontra "sob o poder de outra pessoa" - in aliena
potestate sunt.
Na década de 1990, ao mesmo tempo em que Skinner voltou-se para o tema da
liberdade na tradição republicana anglófona, ele passou a contar com a
colaboração de autores que, sob sua influência, vêm elaborando, na forma de uma
teoria política normativa, uma justificação mais direta da relevância do
republicanismo para as sociedades contemporâneas. Dentre tais autores,
destacam-se o irlandês Philip Pettit e o italiano Maurizio Viroli. Pettit,
principalmente, vem se dedicando ao refinamento analítico do ideal republicano
de liberdade, compreendido, como gostaria Skinner, como um conceito negativo.
Para o teórico irlandês, ao definir-se pela ausênciae não pela presençade algo,
a concepção republicana de liberdade associa-se à preocupação liberal de evitar
as conseqüências potencialmente ameaçadoras à liberdade individual derivadas da
noção de liberdade positiva dos teóricos comunitaristas. Contudo, o que deve
estar ausente não é a mesma coisa para o republicanismo e para o liberalismo.
Enquanto o liberalismo de Berlin enfatiza a ausência de qualquer tipo de
interferência intencional de terceiros como o critério da liberdade individual,
Pettit destaca que não é qualquer forma de interferência intencional que se
revela incompatível com a liberdade republicana, mas exclusivamente aquelas
formas de interferência que podem ser qualificadas como arbitrárias. E
interferência arbitrária, para o autor, é sinônimo de dominação. Daí a fórmula
sintética da liberdade como ausência de dominação, ou, simplesmente, liberdade
como não-dominação. Pettit não chegou a tratar com exclusividade o pensamento
de Maquiavel, preferindo apoiar-se na contribuição de Skinner.15 Contudo,
também para o filósofo irlandês, a mobilização da autoridade do florentino é
central para a plausibilidade da sua teoria da liberdade como não-dominação:
Maquiavel encontrava-se impregnado de um amor pela Roma antiga e
endossou entusiasticamente as idéias de que a liberdade era
equivalente a não ser dominado; que a não-dominação somente podia ser
alcançada por meio do pertencimento a uma comunidade política em que
a res publicaou o bem comum ditava o que acontecia na vida pública; e
que tal comunidade política seria caracterizada pelas instituições
Romanas, tais como o império da lei, a dispersão do poder e a
representação de diferentes classes (Pettit, 1999, pp. 284-285).
O italiano Maurizio Viroli, escrevendo também sob a influência de Skinner, a
quem dedica um de seus livros (Viroli, 1992), é atualmente colega de Pettit no
departamento de política da Universidade de Princeton. Se Pettit não chegou a
se dedicar com exclusividade ao estudo da obra de Maquiavel - talvez devido à
predominância dos temas do republicanismo anglófono em sua teoria,
especialmente marcada pela experiência constitucional dos Estados Unidos -,
Viroli, autor imerso na cultura política do republicanismo italiano, escreveu
estudos exaustivos sobre as idéias e as experiências do secretário florentino,
adotando com renovado entusiasmo a tese do Maquiavel republicano (Viroli, 1990,
1998, 2003). Seguindo o que já havia sido estabelecido por Baron, Pocock e
Skinner, Viroli afirma que Maquiavel não pode ser compreendido fora da tradição
republicana do humanismo cívico, reconhecendo também a grande inovação do
florentino no âmbito da tradição em que ele se inseria, uma inovação manifesta
na reavaliação do "valor da concórdia versuso necessário alargamento da base
social da cidade" (Viroli, 1990, p. 152). Viroli enfatiza a tese de que, para
Maquiavel, a inevitabilidade dos conflitos decorrentes da natureza inclusiva da
república romana traria resultados benéficos, desde que tais conflitos fossem
devidamente processados no âmbito do acervo institucional do Estado misto. Vê-
se, aí, uma vez mais, a centralidade do papel da lei na teoria republicana da
liberdade. Para Viroli, aqueles que afirmam que o republicanismo de Maquiavel
assenta-se nas virtudes cívicas, em contraposição às leis, estariam perdendo de
vista um aspecto central da própria concepção maquiaveliana de virtude
cívica.16 Conforme argumenta o autor,
[...] o sentido genuíno do tratamento de Maquiavel acerca da virtude
política somente pode ser capturado se o lermos vinculando-o ao
comprometimento global com o princípio do império da lei do pensador
florentino. A virtude política que ele invoca e tenta revitalizar é a
energia, a coragem e a habilidade que servem para instituir ou
restaurar o império da lei e a vida cívica. Em sua teoria da ação
política, o império da lei e a virtude dos fundadores e dos
redentores não são mutuamente exclusivos, mas estão integrados um com
o outro. A virtude de grandes indivíduos é necessária quando o
império da lei ainda está por ser instituído, ou precisa ser
restaurado, enquanto a virtude de um povo como um todo é necessária
para preservar esse império, se já estiver em vigor. Por esse motivo,
interpretar a teoria da virtude política de Maquiavel sem associá-la
ao império da lei ignora tanto o sentido de sua interpretação da
virtude política, como de seu republicanismo (Viroli, 1998, p. 5).
Em suma, para autores como Skinner, Pettit e Viroli, o republicanismo de
Maquiavel define-se primordialmente pela concepção de um marco institucional-
legal destinado a gerar equilíbrio e estabilidade na república. Sob esta ótica,
o que constitui uma república bem ordenada é antes de tudo a natureza e a
eficácia das leis que emanam dos conflitos sociais, e que a eles se interpõem
de modo a canalizá-los em benefício da liberdade e do bem comum.
A guarda da liberdade
Numa série de ensaios recentes, o teórico norte-americano John McCormick vem
desenvolvendo uma interpretação do "republicanismo" maquiaveliano que se
apresenta como alternativa à interpretação protagonizada pela escola de
Cambridge, tanto na versão de Pocock, como na de Skinner e de seus seguidores
(McCormick, 1993, 2001, 2003, 2006, 2007). McCormick acusa esses intérpretes de
mal compreenderem a sociologia dos conflitos de Maquiavel, mal compreendendo
também as implicações constitucionais da concepção maquiaveliana de liberdade.
O resultado disso seria uma interpretação tendencialmente "aristocrática" do
republicanismo, a qual não faria justiça à natureza essencialmente democrática
das idéias do secretário florentino. Mas o autor afirma também que esse viés
aristocrático não é uma peculiaridade do republicanismo da escola de Cambridge,
visto que esse traço seria uma constante da tradição republicana como tal.
McCormick chega mesmo a lançar dúvidas sobre o valor do "retorno ao
republicanismo" como corretivo para as insuficiências da teoria democrática
contemporânea. Conforme polemiza: "Estou convencido de que o republicanismo, a
menos que seja reconstruído quase que a ponto de desfigurá-lo, só é capaz de
reforçar o que há de pior na democracia liberal contemporânea: o poder
ilimitado que as elites políticas e socioeconômicas desfrutam às expensas da
população em geral" (McCormick, 2003, p. 617). O problema dos intérpretes
vinculados à escola de Cambridge não estaria em sua análise da tradição
republicana clássica, mas em sua tendência "em mal interpretar Maquiavel por
vias que enfatizam artificialmente sua conformidade com o republicanismo
convencional" (Idem, p. 636). Este erro de interpretação resultaria em um amplo
conjunto de pontos cegos na visão dos neo-republicanos sobre a obra de
Maquiavel. Vale transcrever o sumário desses pontos cegos, uma vez que ele
revela, por contraste, o modo como o próprio McCormick compreende o pensamento
político de Maquiavel. Os neo-republicanos associados à escola de Cambridge
[...] não especificam suficientemente o papel do conflito de classes
na teoria de Maquiavel, com o resultado de que ignoram os meios
institucionais pelos quais o povo tornava as elites responsivas e
responsáveis por seus atos; os estudiosos de Cambridge associam a
ativa participação popular no pensamento de Maquiavel primeiramente
com conquistas militares, em contraste com a política doméstica; eles
igualam, inapropriadamente, sua críticas à nobreza com aquelas do
povo, debilitando, por conseqüência, o papel proeminente que
Maquiavel atribui ao povo como "guardiões da liberdade"; eles enfocam
suas definições abstratas de liberdade às expensas de suas
recomendações relativas a políticas específicas sobre como mantê-la;
os estudiosos de Cambridge usam Maquiavel para formular uma definição
de liberdade que se opõe à opressão política de vários tipos, mas que
é, em verdade, fraca com respeito à dominação social; e permanecem
amplamente em silêncio sobre o tipo de dominação doméstica do povo
pelas elites, algo plenamente consoante à teoria republicana e muito
freqüentemente perpetrada na prática republicana (McCormick, 2003, p.
636).
McCormick sugere que a recuperação do pensamento político de Maquiavel teria
mais utilidade para a superação dos dilemas da teoria democrática contemporânea
do que para reviver a tradição republicana. Ele prefere dar ênfase às
tendências pró-plebéias do florentino, realizando um esforço para trazê-lo para
o leito do radicalismo democrático contemporâneo. Mas cabe aqui a pergunta:
seria esse Maquiavel democrático um "Maquiavel contra o republicanismo", como
chega a sugerir McCormick? Não creio. O fato é que, descontado o tom polêmico
da maneira de o autor colocar o problema, pode-se dizer que sua interpretação
de Maquiavel é compatível com o ideal de uma república com intensa participação
popular, uma república em que o ideal do civismo, aristocrático por definição,
não se sobreponha ao ideal do plebeísmo, calcado na idéia de extensão da
cidadania.17 Afinal, como o próprio McCormick acaba por reconhecer, ao menos
para os padrões de sua época, "Maquiavel defende uma república, sem qualquer
ambigüidade, dominada pelo povo" (McCormick, 2001, p. 311, grifo meu).
Em que consistiria a contribuição da "democracia maquiaveliana" para a teoria
democrática contemporânea? Para McCormick, Maquiavel reúne num só modelo os
pontos fortes dos dois principais pólos do debate teórico atual. "Assim como
nas abordagens formal ou minimalista, ele especifica e justifica mecanismos
eleitorais para o controle da elite; e de modo similar a abordagens de cultura
cívica e participatória recentes, ele encoraja modos mais diretos e robustos de
engajamento popular com a política". Ainda mais importante: "ao combinar os
pontos fortes de cada abordagem, Maquiavel supera suas respectivas debilidades"
(Idem, p. 297). O grande problema das democracias contemporâneas estaria na
dificuldade de o povo soberano manter sob algum controle os representantes
encastelados nos postos de governo. Nesse sentido, a democracia maquiaveliana
poderia ser considerada uma teoria da accountability, uma vez que ela
estabelece os argumentos e indica os mecanismos para um sensível incremento do
grau de controle popular sobre as elites responsáveis pelas decisões públicas.
Diferentemente da miopia sociológica da maior parte das teorias da democracia
em voga, Maquiavel concebe a operação das instituições políticas republicanas
em estreita associação com sua visão da inevitabilidade das divisões e dos
conflitos de classe. Desse modo, o povo como categoria sociopolítica não se
desvincula do povo como categoria socioeconômica, diversamente do que se
encontra nos "arquitetos constitucionais modernos", os quais "claramente se
recusaram a projetar instituições que reconhecessem, atendessem, ou refletissem
distinções socioeconômicas" (McCormick, 2006, p. 159). Maquiavel claramente
exclui os cidadãos ricos e poderosos da categoria de povo porque os desejos e
os interesses que estes perseguem são não apenas diferentes, mas também opostos
aos desejos e interesses dos cidadãos comuns. Os primeiros desejam dominar e
expandir o seu domínio; os segundos desejam não ser dominados. Em Maquiavel, a
clivagem entre ricos e pobres traduz-se, em termos sociopolíticos, na clivagem
entre a nobreza e o povo e, em termos institucionais, na clivagem entre os
senadores e os tribunos. Em vez de perseguir formas institucionais destinadas a
neutralizar a visibilidade da divisão entre ricos e pobres, Maquiavel projeta
instituições que tornam ainda mais nítida tal divisão. Para McCormick, uma das
mais profundas lições de Maquiavel "é a de que as inevitáveis disparidades de
poder entre grandie popolodentro das repúblicas deveriam ser institucionalmente
arranjadas de modo a tornar este mais, e não menos, cônscio disso, e, talvez,
motivá-lo a tentar ativamente minimizar tais disparidades"(Idem, ibidem).
Para McCormick, os neo-republicanos não se descuidam de chamar a atenção para a
teoria maquiaveliana da diferença dos "humores" dos "grandes" e do povo.
Todavia, na análise do conceito de liberdade, eles permanecem a meio-caminho
das conclusões do próprio Maquiavel. Embora atentem para o fato de que
Maquiavel considerava as divisões sociais a principal causa da liberdade da
república romana, eles tendem a nivelar os interesses e valores das duas
classes de cidadãos como se suas respectivas contribuições para a manutenção da
liberdade fossem equivalentes. Suficiente atenção é dada por eles ao capítulo 4
do primeiro livro dos Discorsi, mas o que Maquiavel escreve no capítulo
seguinte, ainda mais importante para a compreensão de sua concepção de
liberdade, é apenas tangencialmente abordado pelos neo-republicanos. Se no
capítulo 4 Maquiavel desenvolve a tese do conflito como causa da liberdade, no
capítulo 5 ele desenvolve a tese do povo como o "guardião da liberdade"
(Maquiavel, 2007a, pp. 23-26).
De fato, tem razão McCormick ao afirmar que os neo-republicanos subestimam esse
componente fundamental do conceito de liberdade em Maquiavel. Como vimos,
Pocock interpretou a idéia do povo como "guardião da liberdade" com a
disposição do cidadão-soldado para lutar em defesa da pátria, componente a que
Skinner e seus seguidores não chegam a dar um significado especial. Este é sem
dúvida um grande trunfo de índole textual no esquema interpretativo de
McCormick, uma vez que é impossível não reconhecer o lugar de destaque deste
ponto na lógica da argumentação de Maquiavel. A idéia do povo como guardião da
liberdade consiste numa espécie de coroamento das passagens mais abstratas de
Maquiavel sobre o tema. A fonte do dinamismo da liberdade está nos conflitos; a
forma institucional da liberdade está nas leis que configuram o governo misto;
mas a garantia final, o último recurso para a manutenção da liberdade está no
desejo do povo de não ser dominado.
Cabe aqui chamar a atenção para um aspecto inusitado do debate em questão,
importante para matizar o grau de inovação da interpretação de McCormick em
relação à interpretação de Skinner, Pettit e Viroli sobre a concepção
maquiaveliana de liberdade. Da mesma forma que esses autores, o teórico norte-
americano observa que o núcleo da liberdade maquiaveliana é a noção de não-
dominação. Pettit, mais do que qualquer outro, esforçou-se para dar corpo a tal
concepção de liberdade, indicando seus princípios teóricos e suas dimensões
institucionais. No entanto, a idéia de liberdade como não-dominação, que em
Maquiavel se encontra claramente relacionada com um desejo do povo, assume, em
Pettit, uma forma mais difusa, aplicando-se a diferentes estruturas de
dominação, não necessariamente vinculadas à dominação de classe. A despeito do
que provavelmente pensaria McCormick sobre sua própria originalidade, podemos
dizer que o conceito de liberdade que ele atribui a Maquiavel pode ser
compreendido no conceito de não-dominação refinado por Pettit. A importante
diferença consiste no fato de que McCormick, justamente por seguir mais adiante
na análise do próprio Maquiavel, vê a idéia de não-dominação com maior grau de
especificidade, evitando a argumentação muitas vezes excessivamente abstrata do
filósofo irlandês sobre o tema. O que é específico na idéia de nãodominação é
que ela é relativa ao desejo do povo de ser livre, de não ser dominado.
A crença maquiaveliana de que reside no povo a "guarda da liberdade" não deve
ser interpretada em termos românticos, como se o povo fosse o repositório das
boas intenções da humanidade. McCormick está atento à explicação de Maquiavel
de que a maior disposição dos cidadãos comuns para proteger a liberdade reside
no fato de que "não podendo eles mesmos apoderar-se dela, não permitem que
outros se apoderem" (Maquiavel, 2007a, p. 24).
A esta altura, a questão que se coloca não é tanto sobre como definir a idéia
de liberdade, mas sim a de saber quais as formas institucionais favoráveis à
sua preservação e expansão. A "democracia maquiaveliana", forma institucional
derivada da idéia de liberdade como não-dominação, não pode prescindir de uma
variedade de mecanismos mediante os quais o povo mantém sob estrito controle os
movimentos da elite, sempre inclinada à expansão de seu próprio domínio.
Nos textos de Maquiavel, especialmente nos Discorsi, um amplo leque de opções
institucionais abre-se para exemplificar os modos pelos quais o povo pode
controlar as elites, elevando assim os níveis de accountabilityno sistema
político. McCormick destaca três estratégias institucionais para viabilizar a
"democracia maquiaveliana": a combinação de sorteios com os mecanismos
eleitorais para a escolha de magistrados; a criação de instituições
representativas dos cidadãos comuns inacessíveis aos cidadãos ricos ou aos seus
agentes; a instituição de "julgamentos políticos", em que os juízes são todos
os cidadãos.
O autor assinala a distância que separa o modelo republicano idealizado por
Maquiavel dos modelos constitucionais das repúblicas modernas e contemporâneas.
Estas últimas procuram assegurar a responsividade de representantes e
governantes de três diferentes formas: pela via do processo de punição e
recompensa eleitoral; por meio do mecanismo institucional de separação e
contraposição de poderes; e, em casos extremos, pela ameaça de remoção de
elites políticas corrompidas, mediante processo de impeachmentconduzido por
membros da própria elite. McCormick assinala que Maquiavel ou qualquer outro
representante pré-moderno do governo popular veria esse arranjo institucional
como "estranho, injusto e perigoso" (McCormick, 2006, p. 148), uma vez que
[...] se cidadãos abastados forem livres para se apresentarem como
candidatos a todas as magistraturas, se puderem participar de todos
os conselhos públicos, e se eleições não qualificadas forem o único
expediente que determine a ocupação de um cargo ou a presença em
assembléias, os ricos manteriam vantagens políticas distintas e
persistentes sobre os cidadãos mais pobres (Idem, ibidem).
Não é preciso uma pesquisa sociológica muito aprofundada para verificarmos a
enorme susceptibilidade dos processos eleitorais contemporâneos aos desígnios
do poder econômico. Os cidadãos ricos têm, comparativamente, mais recursos para
fazer valer seus interesses, candidatando-se eles próprios aos postos de
comando político-institucional ou financiando a campanha de seus agentes. Para
evitar tal "efeito aristocrático" das eleições, as repúblicas democráticas pré-
modernas introduziram a escolha de magistrados por sorteios, não da forma
exclusiva (ou quase) das democracias antigas, mas em combinação com a escolha
eleitoral. A escolha por sorteio, envolvendo todos os cidadãos, servia como
garantia de que as chances dos ricos de serem os escolhidos pela fortuna não
seriam maiores do que sua participação percentual na cidadania, assegurando que
a distribuição de cargos ocorreria aleatoriamente entre todas as classes de
cidadãos. O mecanismo de sorteio, aliado ao "revezamento regular e freqüente
dos cargos oficiais", evitaria que os setores mais ricos pudessem usar seus
recursos quer "para aninharem-se eles mesmos num cargo", quer "para influenciar
ou determinar a nomeação de sucessores de opiniões semelhantes ou interesses
similares" (Idem, p.149).
Uma estratégia adicional das repúblicas democráticas pré-modernas para
assegurar o controle popular sobre as elites governantes consistia no
estabelecimento de instituições representativas voltadas exclusivamente para os
setores populares. De tais instituições, os setores aristocráticos estavam
excluídos por princípio, sendo inelegíveis seus representantes. O exemplo mais
notável de uma instituição dessa natureza é o Tribunato da Roma republicana. Em
sua narrativa da evolução de Roma para o governo misto, Maquiavel mostra como a
plebe romana emprestou seu auxílio à aristocracia para a expulsão dos reis.
Porém, tão logo começou a sofrer os abusos dos aristocratas, a plebe retirou-se
em massa de Roma, deixando os nobres, que temiam o retorno da realeza, numa
situação de fragilidade. A aristocracia solicitou o retorno da plebe, mas esta
só atendeu essa solicitação quando lhe foi concedida uma instituição com
prerrogativas reais de poder para abrigar seus representantes. Os tribunos, na
qualidade de representantes exclusivos do povo, exerciam a função essencial de
conter a arrogância dos ricos e poderosos. Suas prerrogativas ante os cônsules
e senadores da república lhes permitiam isso. McCormick observa que "na
condição de portadores do veto, e de agentes de acusação principais, os
tribunos possuíam os meios para bloquear propostas e sanções de ações dos
cônsules ou senadores" (2001, p. 300).18
Por fim, o povo pôde exercer seu controle sobre o comportamento das elites
mediante o recurso a amplos "julgamentos políticos", nos quais toda a cidadania
podia interferir. McCormick dedica um ensaio inteiro para tratar desse ponto no
pensamento de Maquiavel (McCormick, 2007). Em seu exame das instituições e dos
costumes romanos, Maquiavel observou com admiração o direito de todo e qualquer
cidadão romano acusar de corrupção qualquer magistrado da república. "Tal
acusação incitaria uma audiência numa concione, uma assembléia deliberativa
informal, ou um julgamento numa das assembléias de voto oficiais (um comitiaou
o concilium plebis) que decidia se os acusados deveriam, por exemplo, reter
seus cargos, pagar uma multa, ou sofrer exílio" (Idem, p. 387). Não obstante a
predileção de Maquiavel por amplos mecanismos de acusação, ele também julgava
fundamental que a república se acautelasse contra os caluniadores. Se o povo,
reunido nos conciones e nos concillium plebis, concluísse que a acusação era
falsa, o caluniador deveria sofrer a mesma pena que sofreria o acusado caso a
denúncia fosse verdadeira. Nesse aspecto, a admiração de Maquiavel por Roma era
seguida por sua frustração com Florença. "De acordo com Maquiavel, a ausência
de acusação, julgamento e procedimentos de apelação legalmente estabelecidos e
amplamente populares em Florença foi uma das causas principais da instabilidade
da república" (Idem, p. 408). As acusações públicas e os julgamentos políticos
são essenciais numa república porque são mecanismos que "fornecem um escape
para o desabafo ordinário dos 'humores' sociais que são gerados pelo
antagonismo de classe". Desse modo, tais mecanismos institucionais "previnem a
escalada da violência facciosa". Aqui, uma vez mais, ainda que sem o
reconhecer, McCormick aproxima-se do cerne da visão de Skinner, Pettit e Viroli
acerca da importância do marco institucional-legal no republicanismo de
Maquiavel. Conforme conclui o teórico norte-americano, "uma república será
arruinada se o inevitável conflito entre os grandi- que desejam, acima de tudo,
oprimir os outros - e o povo - que deseja, prioritariamente, não ser dominado -
manifestar-se extraordinariamente, isto é, extra-institucionalmente ou
ilegalmente (Idem, p. 388).
Considerações finais
O principal objetivo deste artigo foi realizar um exame das distinções entre
três vertentes teóricas no âmbito do recente republican revivalna teoria
política contemporânea. De um modo geral, a atenção dos críticos tem se
dirigido para as distinções entre republicanismo e liberalismo. Isso faz muito
sentido, na medida em que todos os autores aqui examinados apresentam suas
visões da política como alternativas à hegemonia do pensamento liberal.
Todavia, decorridas já algumas décadas da emergência da vaga republicana, é
tempo de darmos mais atenção à heterogeneidade desse movimento de idéias. A
simples oposição do republicanismo ao liberalismo faz as próprias alternativas
"republicanas" parecerem mais similares do que elas realmente são.
O objetivo mais específico do artigo foi examinar as distinções no interior do
movimento intelectual republicano a partir dos diferentes modos de apropriação
da obra de Maquiavel. Todos os estudiosos aqui examinados apóiam-se na herança
e na autoridade de Maquiavel para dar forma a suas próprias idéias políticas.
Nesse sentido, interessounos mais a obra de Maquiavel como um campo de disputas
entre concepções rivais de república e democracia do que como um repositório de
evidências textuais e contextuais indicativas da intenção do pensador
florentino.
As interpretações "neo-aristotélica" e "neoromana" do republicanismo de
Maquiavel diferem em aspectos cruciais. A primeira apresenta a virtude cívica
(traduzida em termos de virtude militar do povo) como a idéia-força do
pensamento político maquiaveliano, ao passo que a segunda enfatiza o
funcionamento da estrutura institucional republicana, organizada em torno dos
princípios da constituição mista e da contraposição e equilíbrio de poderes.
Uma interpretação opera com o conceito de liberdade positiva, enquanto a outra
opera com um conceito especial de liberdade negativa. Essa distinção ficou
evidente nas interpretações contrastantes de Pocock e Skinner.19 Para Pocock,
Maquiavel estaria em grande sintonia com o humanismo renascentista de sua
época. Como muitos de seus contemporâneos, vinculava a sorte das repúblicas e a
existência da liberdade à participação efetiva de cidadãos virtuosos nos
negócios públicos. Já para Skinner, a participação seria um dos meios para a
liberdade, mas não o único. De nada valeria a participação intensa dos cidadãos
se não houvesse boas leis para canalizar toda essa atividade. Subjacente a essa
tese, há a idéia de que o corpo social se encontra irrevogavelmente cindido em
interesses e valores conflitantes, e que os homens, embora não naturalmente
corruptos, tendem à corrupção, e realizarão tal tendência sempre que
encontrarem circunstâncias favoráveis corroboradas pelo silêncio da lei. As
leis republicanas serviriam para canalizar e equilibrar o conflito social e
político, bem como para antepor obstáculos à realização do potencial de
corrupção latente em todos os cidadãos, sejam eles ricos ou pobres, nobres ou
plebeus.
A terceira interpretação dos textos maquiavelianos aqui examinada prefere
compreender o secretário florentino mais no âmbito da tradição democrática
moderna do que no âmbito do republicanismo clássico. Contudo, parece-nos mais
apropriado compreender a posição do próprio McCormick como uma espécie de
radicalização da idéia de liberdade como não-dominação, central na formulação
do republicanismo de Pettit e Skinner. Abrandada a polêmica, observa-se que
esta mesma concepção de liberdade orienta a interpretação de McCormick sobre
Maquiavel. Não obstante, ao insistir nas condições sociológicas do ideal da
não-dominação e ao descrever com maior grau de detalhamento as instituições
políticas que visam dar suporte a tal ideal, McCormick enfatiza a dimensão
"plebeísta" deste ideal de liberdade. Para McCormick, a leitura de Maquiavel
promovida pelos intérpretes da escola de Cambridge passa ao largo de um ponto
fundamental da teoria da liberdade do pensador florentino. Embora Maquiavel
realmente defendesse que a constituição do Estado misto representava um meio de
evitar que qualquer um dos dois setores sociais fundamentais (o povo e as
elites) realizasse sua tendência à corrupção, ele não situava as paixões e os
interesses (os humores) desses setores no mesmo patamar de ameaça à liberdade.
Enquanto o desejo das elites consiste em dominar e expandir seu domínio, o
desejo do povo consiste basicamente em não ser dominado, sendo este desejo não
somente compatível com a liberdade, mas idêntico a ela. É por essa razão que no
núcleo do sistema constitucional idealizado por Maquiavel há inúmeros
mecanismos destinados a facilitar o controle das elites dirigentes pelo cidadão
comum. É tal especificidade institucional das repúblicas democráticas que
permite ao povo o exercício de sua mais importante missão constitucional: a
"guarda da liberdade".
Com o objetivo de responder a questão formulada no final da seção introdutória
deste artigo, procuramos mostrar que os historiadores e teóricos do neo-
republicanismo estão assumindo, por intermédio dos textos e da autoridade de
Maquiavel, distintas posições normativas nas disputas correntes entre os
diversos modelos de organização das instituições políticas nas sociedades
democráticas de nossos dias. De um lado, em uníssono, os neo-republicanos
posicionam-se como alternativa ao pensamento liberal dominante, que insiste na
defesa da "liberdade negativa", um modo de definir a liberdade como a ausência
de toda forma de interferência externa nas escolhas e nas ações dos agentes
individuais. Contudo, de outro lado, parece-nos evidente que o consenso
negativo que une os neo-republicanos contra o pensamento liberal dominante se
revela frágil tão logo é transcendido o momento da crítica do modelo liberal e
se inicia o momento da afirmação do modelo republicano. Observando os
diferentes enquadramentos que os neo-republicanos dão a conceitos centrais,
como o próprio conceito de liberdade, bem como seus desacordos quanto à
natureza do acervo institucional adequado a uma república bem ordenada, o
analista é levado à conclusão de que está tratando de uma disputa entre
diferentes fórmulas políticas que recorrem à longa e multifacetada tradição
republicana. No caso em apreço, essa disputa pela tradição desenrola-se de um
modo ainda mais interessante, uma vez que as diferentes vertentes neo-
republicanas aqui evocadas se apóiam na obra do mesmo autor. Nesse sentido, a
obra de Maquiavel foi aqui compreendida mais como um campo de disputas
ideológicas, com recursos que podem servir a interpretações rivais, do que como
um repositório de fatos e evidências textuais e contextuais à espera do
historiador desinteressado.
Notas
1 Uma recente retomada desta linha de argumentação, num registro ainda mais
radical, encontra-se em Dietz (1986). A autora argumenta que a arte do
"embuste" (deception) era um componente central da política de Maquiavel, e que
ele usara tal arte para induzir Lorenzo de Médici ao fracasso, com vistas a
tornar viável a restauração da república. Uma crítica ao modo como Dietz
caracteriza a intenção de Maquiavel encontra-se em Langton (1987).
2 Surgida nos contextos acadêmicos anglófonos há três ou quatro décadas, a vaga
neo-republicana vem, desde então, se difundindo rapidamente para outras
regiões. Valiosas amostras da recepção do movimento de "retorno ao
republicanismo" no contexto acadêmico brasileiro encontram-se nas coletâneas
organizadas por Bignotto (2000) e Cardoso (2004).
3 Na introdução de seu mais aclamado livro, Pocock escreve: "quando busco
nomear aqueles estudiosos cujas obras têm um significado maior para mim na
escrita deste estudo, a presença de Hans Baron vem à tona de modo sublime,
ainda que controverso, (e inteiramente sem seu conhecimento prévio) por todo o
cenário" (Pocock, 1975, p. ix).
4 No contexto acadêmico de meados do século XX, a narrativa que entroniza John
Locke como o grande pai espiritual da revolução norte-americana foi conduzida
ao mais elevado nível de refinamento na obra de Louis Hartz (1955). Quando
Pocock publicou seu The machiavellian moment, já haviam sido publicadas pelos
menos duas obras de certa repercussão destinadas tanto à crítica da narrativa
hartziana como à promoção de uma abordagem "republicana" para explicar as
origens e a identidade da revolução norte-americana (ver Baylin, 1967, e Wood,
1969). Pocock beneficiouse destes estudos, mas foi muito além dos resultados de
Baylin e Wood, uma vez que não limitou sua investigação ao contexto norte-
americano. Para a historiografia da revolução norte-americana, a contribuição
de Pocock consistiu em situar as idéias revolucionárias no âmbito de uma
tradição mais ampla, cuja expressão conceitual seria o "momento maquiaveliano".
5 Para uma crítica da leitura que Pocock faz do pensamento político de
Aristóteles, ver Nadon (1996).
6 Alguns críticos de Pocock argumentam que "ao consignar o pensamento de
Maquiavel a um contexto definido por seu foco num tipo de republicanismo que
exalta a participação política a serviço do bem comum, Pocock entorpece os
aspectos mais perspicazes da análise política de Maquiavel" (Sullivan, 1992, p.
315).
7 A interpretação pocockiana de Maquiavel e do humanismo cívico tem sido alvo
de constantes ataques. No posfácio da segunda edição de The machiavellian
moment, Pocock registra, num tom que lhe é pouco habitual, seu incômodo com as
atitudes dos historiadores em relação à noção de virtude cívica. Conforme suas
palavras: "Percebo na profissão dos historiadores em geral, e entre os
historiadores do pensamento político em particular, um baixo nível de
tolerância, mesmo após trinta anos, em relação à noção de que a virtude cívica,
tal como estudada em 'The Machiavellian Moment', goza de uma história própria;
há um desejo razoavelmente constante de diminuí-la ou de diminuir sua presença"
(Pocock, 2003a, p. 562).
8 Sobre o debate metodológico desencadeado pelas contribuições de Skinner, ver
a coletânea organizada por Tully (1988). Vale ponderar que, de modo geral, os
críticos e comentadores da Escola de Cambridge tendem a homogeneizar as
concepções sobre o método historiográfico de Skinner e Pocock. Embora ambos
mostrem-se muito à vontade sempre que apresentados como membros de uma mesma
abordagem metodológica, distinções nada desprezíveis sobre suas respectivas
maneiras de apresentar a metodologia adequada à história das idéias não devem
ser postas de lado. Sobre tais distinções, ver Bevir (2008, capítulo 2).
9 Na literatura recente, o debate entre republicanismo e liberalismo tem
recebido considerável atenção. Ver, por exemplo, Patten (1996), Maynor (2002),
Larmore (2003), Brennan e Lomaski (2006).
10 Indubitavelmente, nenhum pensador liberal do século XX exerceu tanta
influência no debate sobre o conceito de liberdade quanto Isaiah Berlin. Berlin
consolida a dicotomia entre liberdade positiva e liberdade negativa advogando
que somente a última seria compatível com a natureza pluralista das sociedades
modernas, sociedades nas quais nenhuma concepção particular de bem reúne
condições para sobrepor-se às demais. A dicotomia sofisticada por Berlin
atualiza a dicotomia entre liberdade dos antigos e liberdade dos modernos,
apresentada por Benjamin Constant no começo do século XIX (Constant, 1985).
Skinner toma como ponto de partida a formulação de Berlin, procurando, contudo,
demonstrar que a definição dada pelo teórico liberal ao conceito de liberdade
negativa conta com uma história ainda mais antiga, remontando a meados do
século XVII. Segundo o historiador de Cambridge, o grande teórico moderno a
definir a liberdade em termos de ausência de impedimento externo à ação
individual foi Thomas Hobbes. "Hobbes vê dois elementos essenciais no conceito
de liberdade humana. Um é a idéia de se possuir um poder ou capacidade
subjacente para agir [...]. O outro é a idéia de se estar desimpedido no
exercício de tais poderes" (Skinner, 2002b, p. 211). Parece claro que esses
dois elementos também estão no núcleo da definição de Berlin do conceito de
liberdade negativa. Não é aqui o lugar para questionar a interpretação de
Skinner sobre as teses de Berlin. Contudo, vale ressaltar que tem razão Nadia
Urbinati quando afirma que Skinner está muito longe de aplicar o rigor
contextualista que prescreve em sua metodologia histórica no exame da teoria de
Berlin (Urbinati, 2005).
11 Alguns críticos têm questionado a suposição de Skinner de que os autores
romanos cultivaram um pensamento independente dos gregos. William Walker, por
exemplo, argumenta que "Salústio tem muito mais em comum com Aristóteles do que
reivindica Skinner". Segundo ele, "Assim como Aristóteles, Salústio vê o valor
das liberdades particulares como derivando do fato de que são precondições para
a realização de nossos fins naturais. Assim como Aristóteles, Salústio também
vê a lei e a virtude civis como precondições básicas para a existência da
liberdade civil. Embora haja diferenças importantes entre Aristóteles e
Salústio no que se refere à liberdade civil, há também, pois, similaridades
importantes, as quais emprestam apoio considerável à visão de ser de
Aristóteles, uma figura fundacional do pensamento político republicano"
(Walker, 2006, pp. 240 e 257).
12 Embora os valores e os objetivos sejam idênticos, os meios propostos por
Maquiavel para a realização dos fins republicanos são tão estranhos ao
republicanismo clássico que não seria exagero ver na obra do secretário
florentino uma "máquina de guerra contra o humanismo cívico" (Bignotto, 1991,
p. 231).
13 Conforme Skinner, em relação ao cidadão de uma república, "a lei opera com o
fim de canalizar seu comportamento de tal modo que, embora as motivações para a
sua ação permaneçam auto-interessadas, suas ações têm conseqüências que, apesar
de não intencionadas, são de tal ordem que promovem o interesse público e, por
conseqüência, sua própria liberdade individual" (Skinner, 1983, p. 10).
14 Kari Palonen, um dos mais aplicados estudiosos da obra de Skinner, considera
um retrocesso o fato de Skinner ter se voltado, sob a influência de Philip
Pettit, para os teóricos da commonwealthinglesa do século XVII, abandonando sua
abordagem do conceito de liberdade a partir de Maquiavel. Segundo Palonen, ao
contrário do que Skinner passou a sugerir mais tarde, Maquiavel não sofria
qualquer influência da abordagem jurídica de liberdade, tal como esta aparecia
no Digestodas leis romanas. Sua fonte de inspiração teria sido a tradição
retórica humanista (Palonen, 1998, pp. 246-247).
15 Sobre as trocas e as influências recíprocas entre a história intelectual de
Skinner e a teoria política normativa de Pettit, ver Silva (2008). Embora
Skinner tenha começado a se preocupar com a teoria republicana da liberdade
pelo menos uma década antes de Pettit, é possível encontrar em seus textos mais
recentes inúmeras passagens em que o historiador reconhece o impacto das
formulações do filósofo irlandês no redirecionamento de seus estudos sobre o
tema. Conforme escreveu recentemente, em análise retrospectiva de sua obra,
"embora tenha escrito sobre dependenzae servitù, foi somente com o auxílio da
obra pioneira de Philip Pettit que finalmente consegui aclarar, para minha
própria satisfação, as características definidoras da teoria que esbocei"
(Skinner, 2006, p. 257). Em Liberdade antes do liberalismo, Skinner revê sua
crença anterior de que a diferença principal entre a concepção republicana e a
concepção liberal de liberdade encontrava-se simplesmente nas condições que
deveriam ser cumpridas para a manutenção da liberdade. "Philip Pettit
convenceume de que as duas escolas de pensamento de fato discordam sobre (entre
outras coisas) o próprio significado de liberdade" (Skinner, 1999, p. 62).
Ainda mais recentemente, Skinner (2008) faz outro movimento a favor da
convergência de suas formulações com as de Pettit. Em Liberdade antes do
liberalismoele havia sustentado que os pensadores clássicos do republicanismo
inglês do século XVII concebiam a liberdade individual tanto como ausência de
dependência da vontade arbitrária de terceiros, quanto como ausência de
interferência efetiva nas escolhas que um agente está apto a realizar. Pettit
já havia solicitado a Skinner um esforço de simplificação do conceito de
liberdade republicana (Pettit, 2002), sugerindo-lhe manter como núcleo
definidor do conceito somente a primeira condição. A solicitação foi atendida
por Skinner, com a justificativa de que, "como Pettit corretamente observa, a
capacidade para engajar-se em interferência arbitrária depende da posse prévia
de poder arbitrário". E é "esta presença subjacente de tal poder que constitui
a afronta fundamental à liberdade" (Skinner, 2008).
16 Pocock, com efeito, é um desses autores. Seu caso contra a concepção
jurídica da liberdade vem sendo substanciado em inúmeros ensaios recentes. Para
Pocock, a "lei [...] é antes do império do que da república" (Pocock, 2003b, p.
86). O tipo de liberdade que o cidadão desfruta conforme a linguagem da
jurisprudência "não é suficiente para fazer dele um cidadão no sentido grego,
um cidadão que governa e é governado". Pocock retoma a célebre dicotomia entre
liberdade negativa e liberdade positiva para afirmar que a "apresentação
jurídica da liberdade era [...] negativa", e que o "vocabulário republicano
empregado por dictatores, retóricos e humanistas articulava a concepção
positiva de liberdade: sustentava que o homo, o animale politicum, era
constituído de tal forma que sua natureza só se completava em uma vita activa,
praticada em um vivere civile" (Pocock, 2003b, p. 87).
17 Para uma análise das distinções entre o "civismo" e o "plebeísmo" como
ideais normativos dos Estados democráticos, ver Araújo (2000).
18 McCormick propõe a inclusão, na constituição dos Estados Unidos, de uma
instituição semelhante ao tribunato romano, mas com funções mais adaptadas aos
dias de hoje. Seus 51 ocupantes seriam escolhidos por sorteio para um mandato
não renovável de um ano. Eles seriam escolhidos entre os cidadãos maiores de 25
anos, cuja renda familiar anual não fosse superior a U$ 345.000 (McCormick,
2006, p. 160).
19 As distinções entre a visão de Pocock e a de Skinner passaram a ser
apontadas recentemente por alguns críticos (por exemplo Geuna, 2006, p. 54, e
Castiglione, 2005, p. 458). Nos últimos anos, é possível observar nos textos
dos próprios autores da escola de Cambridge manifestações cada vez mais
enfáticas sobre as diferenças relevantes entre suas respectivas interpretações
da tradição republicana. Ver Pocock (2003a, pp. 556-557; 2006, pp. 41ss.) e
Skinner (2006, p. 257).