A Protecção das plantas numa encruzilhada
INTRODUÇÃO
A agricultura é uma actividade humana onde as culturas que se praticam e o modo
como são cultivadas são decisões humanas, dependendo também da utilidade dos
produtos, custos de produção e risco envolvido, tendo como objectivo principal
a produção de alimentos e fibra (Loomis e Connor, 1992).
Vale a pena darmo-nos conta de que a palavra decisão encerra um procedimento
que pode ser decomposto em quatro passos sequenciais: observação, avaliação,
escolha e acção. Na medida em que existe uma escolha, a decisão está, por isso,
intimamente ligada ao conceito de incerteza. Para que as decisões sejam
adequadas é preciso procurar reduzir a margem de incerteza, objectivo que é
atingido com mais conhecimento.
Ora este conhecimento, que apoia a decisão em agricultura, é resultado de
análises ecológicas, baseadas em princípios biológicos, físicos e químicos
sobre a capacidade das plantas e animais num determinado ambiente assegurarem a
produção de materiais orgânicos. Criação e sistematização de conhecimento é a
definição de ciência. O domínio destas análises é aquilo a que chamamos
Agronomia, uma ciência aplicada.
O NASCIMENTO E CRESCIMENTO DE UMA DISCIPLINA CIENTÍFICA
Embora a Agricultura seja tão velha como a História, o estudo sistemático dos
processos envolvidos na produção agrícola é relativamente recente.
O Quadro_1 apresenta uma amostra de uma cronologia de acontecimentos
aparentemente não relacionados uns com os outros. O seu propósito principal é
estabelecer o cenário em que a Agronomia teve origem e deu os seus primeiros
passos como uma ciência integradora.
De facto, a Agronomia consolida-se como uma ciência aplicada que resulta de
progressos no conhecimento científico, na solução de problemas tecnológicos e
na sistematização de conteúdos programáticos nas inúmeras escolas de ensino
agrícola que nascem ao longo de todo o século XIX.
No Quadro_2 apresenta-se um quadro semelhante, agora restrito à Protecção de
Plantas e já no século XX.
Porém, o enorme progresso científico e tecnológico alcançado foi conseguido
usando a lógica da identificação de um factor limitante, seguida da procura da
solução do problema ou questão associados.
Quer a Agronomia quer em particular a área da Protecção de Plantas resultam da
reunião de várias ciências (Física, Química, Biologia, Economia, etc.) (Figuras
1 e 2) cada uma das quais traz a sua contribuição para a solução das questões
levantadas pela aplicação da lei do mínimo (Loomis, 1969). Porém, é esta mesma
lógica que tem conduzido cada uma das ciências de base numa rota aparentemente
centrífuga; embora sejam todas necessárias à consolidação da Agronomia como
ciência integradora, a lógica que segue o princípio do factor limitante tende a
fazer com que cada área científica aborde a sua questão isoladamente,
perdendo a visão da totalidade.
Ora, é de totalidade que é composta a realidade. Uma cultura é afectada por
pragas que podem ser combatidas usando meios de luta de muito diversas
naturezas e que vão desde a rotação de culturas, a algumas práticas culturais e
à aplicação de insecticidas.
A encruzilhada em que nos encontramos na Agronomia e na Protecção de Plantas em
particular, exige um ponto de reflexão.
Se a Agronomia nasce como ciência na integração de disciplinas é na integração
que deve procurar o seu caminho (Pinto, 2007). Se a aproximação que parte do
factor limitante foi muito bem sucedida na selecção e controlo isolado de
factores externos (fertilizantes, pesticidas, água de rega) também teve como
resultado trazer-nos a esta encruzilhada onde parece que já não há mais
factores a aplicar e onde as várias áreas disciplinares têm dificuldade em se
compreender.
Assim, o aumento da sustentabilidade dos sistemas de agricultura não depende
apenas da redução ou melhoria da eficiência no emprego de factores externos,
mas sobretudo, de uma melhor compreensão do modo como os principais componentes
interactuam.
A lista que segue é reconhecidamente incompleta e ocasionalmente especulativa
(Loomis e Connor, 1992):
• Adubos influenciam o crescimento das culturas e das infestantes
• Adubos podem aumentar a incidência de doenças e ataques de pragas
• A matéria orgânica (MO) pode diminuir a incidência de doenças pelo aumento
da diversidade de espécies
• MO pode adsorver e inactivar pesticidas
• MO pode fornecer alimentação alternativa para pragas marginais
• As mobilizações podem aumentar ou diminuir a incidência de pragas, doenças
ou infestantes
• As mobilizações afectam a quantidade de fertilizante necessário
• As mobilizações estabelecem o contacto entre a praga ou doença e o
pesticida.
Então, o que se trata realmente é de compreender as interacções para além dos
efeitos principais.
O passo a dar é procurar compreender o funcionamento do ecossistema agrícola
in loco seguindo o exemplo do avanço que permitiu à Ecologia passar da
autoecologia para a sinecologia, introduzindo o conceito de ecossistema.
A análise de sistemas é o instrumento metodológico que melhor permite a
compreensão de relações entre componentes de um sistema (Pinto, 2000).
Na perspectiva do ensino da Protecção de Plantas o que me parece mais
fundamental na preparação das novas gerações, até porque o ambiente que nos
rodeia a prejudica fortemente, é a capacidade de observação.
Alexis Carrell (1873-1944), prémio Nobel da Medicina em 1912, dizia que muito
raciocínio e pouca observação conduzem ao erro e muita observação e pouco
raciocínio conduzem à verdade, confirmando a imponência dos factos sobre as
conjecturas na linha de Mark Twain (1835-1910) que observava com o seu
característico humor que os factos são teimosos, mas as estatísticas são mais
maleáveis. Também Louis Pasteur (1822-1895) acrescenta um ingrediente que
ajuda a entender de que tipo de competência se trata: No domínio da
observação, o acaso só favorece a mente preparada, confirmando que a
descoberta científica só é resposta á pergunta que foi previamente feita.
REALISMO
A primeira condição desta orientação, um conhecimento mais solidamente baseado
na observação, é o realismo, isto é, reconhecer a necessidade de olhar para
realidade procurando ver e aprender com ela.
Esta aprendizagem exige atenção e paciência, outras duas características que
actualmente passam por tempos de crise.
É obrigatório, também, em qualquer circunstância, ser leal com a realidade,
isto é, nunca comprometer, no sentido de negociar, aquilo que é com aquilo que
gostaríamos que fosse.
Finalmente, a realidade é totalidade, mas a nossa capacidade de observar é
limitada e, portanto, parcial; isto recomenda, portanto, abordagens
multidisciplinares que consigam romper com a compartimentação com que a táctica
do factor limitante dividiu exageradamente o conhecimento.
RAZOABILIDADE
Não basta saber observar. É necessário usar a razão para retirar daí
conclusões, para ajuizar.
Esta é outra área das competências dos tempos de hoje que também está em crise.
É mais fácil seguir uma maioria do que arriscar pensar e ajuizar. Mas, se não
formos capazes de estimular esta urgência nos nossos alunos, brevemente seremos
substituíveis por outros fornecedores de conteúdos, certamente com mais
informação, mas seguramente menos razoáveis.
É que a razão é esta característica da nossa humanidade que nos permite olhar
para a realidade na totalidade dos seus factores. É isto que torna
imprescindível o professor.
É que ajuizar é um processo complexo e em etapas que começa na observação para
depois poder fazer a comparação usando um critério que permite fazer um juízo
comparativo (muito, pouco, grande, pequeno, etc.). Sobretudo quando a realidade
é complexa, é aqui que se exige a integração e, tantas vezes, a avaliação
multi-critério.
É o juízo que permite tomar a decisão, isto é, tornar operativo o conhecimento,
passar, como gostam os nossos alunos, da teoria à prática, mas com a diferença
fundamental de que é a teoria que estabelece o critério que suporta a prática
da decisão.
De outro modo, a decisão, tem a aparência de o ser, mas não passa de um plágio,
da cópia da decisão de outro.