Parasitismo oófago de Traça-do-Tomateiro por Trichograma Evanescens
(Hymenoptera: Trichogrammatidae)
INTRODUÇÃO
A traça-do-tomateiro, Tuta absoluta (Meyrick) (Lepidoptera: Gelechiidae), é uma
praga que causa importantes prejuízos em solanáceas em vários países da América
Latina (Torres et al., 2001; EPPO, 2005; Lietti et al., 2005). De origem
Neotropical, foi detectada na Europa, pela primeira vez, em Castellón,
Valência, em 2006 (Urbaneja et al., 2007) e tem vindo a dispersar-se por toda a
bacia do Mediterrâneo, Europa e Médio Oriente (Desneux et al., 2010, 2011). Em
Portugal, a traça-do-tomateiro foi assinalada no Montijo, em Abril de 2009
(Matos, 2011), no Algarve, em estufas na campina de Faro, em Maio de 2009 e, em
Julho de 2009, na região Oeste, em estufas na zona da Silveira e A-dos-Cunhados
(Anónimo, 2009; Serra et al., 2009; Figueiredo et al., 2010). No final do Verão
de 2009 foi detectada em armadilhas iscadas com feromona sexual, na Lezíria do
Ribatejo em tomate de indústria e, no Outono, verificou-se a presença em
estufas do Entre-Douro e Minho (Figueiredo, dados não public.).
As larvas da traça-do-tomateiro minam as folhas e perfuram caules, gomo apical
e frutos verdes e maduros (Lietti et al., 2005; Monserrat, 2009). O tomate é o
principal hospedeiro de T. absoluta, mas também ataca outras solanáceas,
nomeadamente beringela, tabaco e batata, bem como espécies de solanáceas
adventícias como Solanum nigrumL.,Solanum elaeagnifoliumCav.,Solanum
valdiviense Dunal, Datura stramoniumL.,Nicotiana glaucaGraham eDatura ferox L.
(EPPO, 2005). A espécie Chenopodium murale L. também pode servir de alimento
para as larvas (Payer e Figueiredo, dados não public.). Em Itália, foi
recentemente identificado o feijão-verde, Phaseolus vulgaris L. (Fabaceae) como
hospedeiro (EPPO, 2009).
Tuta absoluta apresenta 9 a 12 gerações/ano na Bacia do Mediterrâneo (EPPO,
2005; Monserrat, 2009).
Os prejuízos causados por esta praga têm sido importantes, quer em tomate
protegido quer em tomate de indústria, dado o seu potencial biótico, o ciclo de
vida curto, a sobreposição de gerações e não apresentar diapausa (EPPO, 2005),
podendo perder-se 80-100% da produção na ausência de medidas de protecção
(Desneux et al., 2010). Para limitar as populações de T. absoluta é necessária
uma estratégia de integração de vários meios de protecção, culturais,
biológicos, biotécnicos e químicos (Monserrat, 2009). Aliás, a utilização
repetida das substâncias activas homologadas, além dos problemas toxicológicos
e ecotoxicológicos decorrentes, e da incompatibilidade da protecção química com
as cada vez maiores exigências do mercado relativamente à ausência de resíduos
de pesticidas, têm provocado desenvolvimento de resistências da traça-do-
tomateiro a várias substâncias activas (e.g. Pratissoli e Parra, 2000; Lietti
et al., 2005; Silva et al., 2011).
Considerando estes aspectos, é importante estudar os agentes de protecção
biológica que poderão ser usados na Bacia Mediterrânica. Os inimigos indígenas
que possam adaptar-se a esta nova presa/hospedeiro devem ser privilegiados
(Ehler, 2000; van Lenteren et al., 2006). Parasitóides oófagos do género
Trichogramma (Hymenoptera: Trichogrammatidae) foram já experimentados, com
sucesso, na protecção contra traça-do-tomateiro, em laboratório e no campo, no
Brasil e, em laboratório, em Espanha, respectivamente, T. pretiosum Riley (e.g.
Miranda et al.,1998; Pratissoli e Parra, 2001; Medeiros et al., 2009) e T.
achaeae Nagaraja e Nagarkatti (Cabello et al., 2009 e 2010). O facto destes
parasitóides oófagos poderem ser facilmente produzidos em hospedeiros
alternativos e a preços compatíveis com largadas inundativas, mesmo em culturas
de ar livre, como tomate de indústria, torna-os bastante interessantes como
agentes de protecção biológica. Trichogramma evanescens Westwood é uma espécie
que existe espontaneamente no Ribatejo e que limita naturalmente noctuídeos em
searas de tomate de indústria (Silva et al., 1999; Gonçalves et al., 2006a e
b), sendo o parasitóide oófago mais frequente no complexo de parasitóides da
lagarta do tomate, Helicoverpa armigera (Hbn.) (Lepidoptera: Noctuidae), outra
praga-chave de tomate de indústria, nestas searas (Gonçalves et al., 2006b),
além de ser usado como agente de protecção biológica em tratamentos biológicos
contra várias espécies de lepidópteros (Hassan, 1993; Schöller et al., 1996;
Smith, 1996).
Neste trabalho, verificou-se a adequação de T. absoluta como hospedeiro de T.
evanescens e avaliaram-se as taxas de parasitismo e de viabilidade do
desenvolvimento até adulto, com vista a futura utilização deste parasitóide
oófago indígena em tratamento biológico contra a traça-do-tomateiro.
MATERIAL E MÉTODOS
A traça-do-tomateiro foi criada e mantida em gaiolas de acrílico (30x30x40 cm3)
à temperatura de 25 ± 2ºC, 60 ± 10% HR e um fotoperíodo de 16 h, em plântulas
de diversas variedades de tomateiro provenientes de viveiros situados na região
Oeste. Para dar início à criação de T. absoluta, recolheram-se larvas, pupas e
adultos nas estufas da Silveira (Torres Vedras). As larvas e pupas provenientes
do campo foram condicionadas em caixas pequenas de plástico e mantidas até a
emergência dos adultos, sendo, posteriormente, introduzidos nas gaiolas de
acrílico. Os adultos foram alimentados com uma solução de mel diluído em água a
50%.
Trichogramma evanescens foi fornecido pela empresa Andermatt Biocontrol, sob a
forma de ovos de Ephestia kuehniella Zeller parasitados. A empresa comercializa
esta espécie para utilização como agente de protecção biológica em produtos
armazenados.
Com o objectivo de verificar se T. evanescens é capaz de parasitar ovos de
traça-do-tomateiro, procedeu-se a marcação de alguns ovos de T. absoluta com
diversas idades sobre as plântulas de duas gaiolas e colocou-se o cartão
contendo pupas de T. evanescens (em ovos de E. kuehniella) em cada uma das
gaiolas, bem como cartões contendo solução de 50% de mel em água, para a
alimentação dos adultos do parasitóide.
Para avaliação das taxas de parasitismo e de viabilidade de desenvolvimento até
adulto, adaptou-se a metodologia de Pratissoli e Parra (2000). No primeiro
ensaio, Ensaio I, retiraram-se os ovos de T. absoluta das folhas do tomateiro
com um pincel humedecido em água. Em seguida, isolaram-se 10 ovos para um
cartão que se colocou num tubo de vidro de 13 cm de comprimento por 0,9 cm de
diâmetro selado com Parafilm®, onde se tinha previamente introduzido cartão
contendo gotas de mel puro para a alimentação dos adultos de T. evanescens.
Colocaram-se, em cada tubo, duas fêmeas com o auxílio de um pincel, tendo o
cuidado de lhes causar o mínimo de danos mecânicos. Realizaram-se oito
repetições. Os tubos foram colocados em câmaras climatizadas às temperaturas de
22,0 ± 1ºC, 24,0 ± 1ºC, 25,5 ± 1ºC, sendo a HR de 70 ± 10 % e o fotoperíodo de
14h. Realizaram-se observações diárias para retirar ovos em que se estivessem a
desenvolver larvas e após 10 dias contabilizou-se o número de ovos de T.
absoluta parasitados bem como o número de ovos inviáveis em cada um dos tubos.
No Ensaio II, procedeu-se de igual forma, à excepção de ter sido colocada
apenas uma fêmea por tubo, para evitar eventual superparasitismo e os
tricogramas foram atraídos para o cartão com uma gota de mel e, de seguida,
inseridos nos tubos. Neste ensaio foram efectuadas 10 repetições.
Para determinar o tempo de desenvolvimento de T. evanescensemT. absoluta,
procedeu-se como no Ensaio II. Foram usados 30 tubos. Estes foram colocados em
câmara climatizada regulada a 24,0ºC, durante 6 h. Passado este período,
retiraram-se as fêmeas e sujeitou-se cada conjunto de 10 tubos a diferentes
temperaturas: 22,0 ± 1ºC, 24,0 ± 1ºC, 25,5 ± 1ºC. A humidade relativa (HR) foi
de 70 ± 10 % em qualquer das câmaras e o fotoperíodo de 14 h. Realizaram-se
observações diárias, sempre no mesmo horário, cerca das 11h, para verificar a
emergência dos adultos.
A percentagem de parasitismo e a percentagem de ovos com orifício de emergência
foram calculadas como número de ovos parasitados e número de ovos com orifício
de emergência, respectivamente, sobre o número de ovos viáveis. A viabilidade
do desenvolvimento até adulto foi calculada através do número de ovos com
emergência sobre o número de ovos parasitados.
A comparação das taxas de parasitismo obtidas sob as temperaturas referidas foi
efectuada através de análise de variância não paramétrica utilizando o teste de
Kruskal-Wallis, dado que a normalidade dos dados foi rejeitada mesmo após
transformação angular (arcsen Öx) das variáveis. Adoptou-se 0,05 como nível de
significância. Recorreu-se ao programa SPSS (Statistical Package for the Social
Sciences) Versão 17.0.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
No ensaio preliminar, largando T. evanescens na gaiola, foi possível verificar
que este parasitóidenão só parasitou ovos de T. absoluta, mas também conseguiu
completar o seu ciclo de desenvolvimento (Figura_1). No entanto, os resultados
revelaram baixo parasitismo (com o máximo de 34%). Possíveis causas deste baixo
parasitismo são: as diferentes idades dos ovos marcados, sendo alguns
provavelmente demasiado velhos para serem parasitados; e/ou baixa qualidade do
parasitóide. De facto, verificou-se que a quantidade de ovos de Ephestia
kuehniella parasitados no cartão fornecido pelo produtor de tricogramas, usado
no ensaio, não era muito superior à de ovos não parasitados. A taxa de
parasitismo no cartão com pupas de E. kuehniella foi de 51%, sendo bastante
baixa em relação ao que é expectável (C. Gonçalves, com. pes.). Gonçalves et
al.(2005) verificaram taxas mais elevadas de T. evanescens sobre E.
kuehniella.Tratando-se de um produto procedente de uma biofábrica, este valor
indica a baixa performance do parasitóide ou reduzido número de fêmeas usadas
no parasitismo. É necessário frisar que estes insectos são sensíveis a
variações bruscas de temperatura e que esta influencia aspectos biológicos
inerentes ao normal desenvolvimento do parasitóide (Pratissoli e Parra, 2000;
Torres, 2005). Na altura da aquisição destes insectos a temperatura média do ar
sofreu uma subida brusca e parte dos adultos de T. evanescens já haviam
emergido quando a encomenda foi recebida. Foi pedido um novo cartão de T.
evanescens para repetir este ensaio mas, desta vez, dos ovos parasitados nem
chegaram a emergir adultos. Gonçalves et al. (2006b) referem taxas elevadas de
parasitismo por T. evanescens, sobre outras espécies de lepidópteros; as baixas
taxas obtidas nestes ensaios podem, também, dever-se a estar a usar-se uma raça
diferente. Tabone et al. (in press) referem maior diferença na eficácia de
parasitismo entre raças de Trichogramma spp. do que entre espécies.
No Ensaio I, verificou-se que a percentagem de parasitismo, a proporção de ovos
com orifício de emergência e a de viabilidade do parasitóide foram mais
elevadas a 24,0ºC, do que a 22,0ºC e 25,5ºC, embora com valores bastante baixos
(Quadro_1). É de notar que a variância associada a cada um destes valores foi
elevada. Contudo, o facto de, no Ensaio I, se terem colocado duas fêmeas em
cada tubo, pode ter conduzido a superparasitismo e, consequentemente, dada a
dimensão reduzida do ovo da traça-do-tomateiro, a baixa percentagem de ovos em
que houve desenvolvimento até ao estado adulto, expressa em baixa percentagem
de ovos com orifício de emergência. Por outro lado, no Ensaio I, observou-se
baixo número de ovos viáveis em alguns tubos. Este facto pode ter sido causado
por estes ovos terrem sofrido danos mecânicos pela manipulação, especialmente
pela dificuldade em retirá-los de folhas que, na variedade de tomateiro
utilizada neste Ensaio, apresentavam demasiado indumento.
No Ensaio II, obtiveram-se maiores taxas de parasitismo do que no Ensaio I,
sobretudo a 22,0ºC (Quadro_2), mas os valores foram ainda relativamente baixos
para as restantes temperaturas. Esta diferença entre os dois ensaios pode
dever-se ao aperfeiçoamento da metodologia laboratorial, como, por exemplo, à
colocação de fêmeas nos tubos, atraindo-as para os cartões contendo mel, em vez
de as seleccionar com um pincel. No Ensaio II, verificou-se que a taxa de
parasitismo e a proporção de ovos com orifício de emergência foram mais
elevadas à temperatura de 22,0ºC (Quadro_2). No entanto, a 24,0ºC, a
percentagem de viabilidade foi mais elevada e próxima de 100%.
Na análise conjunta dos dados dos Ensaios I e II (Quadro_3), a taxa de
parasitismo por T. evanescensdecresceu com a temperatura, de 50,8 % a 22,0ºC,
para 28,1% a 25,5ºC. Entre os ovos parasitados, verifica-se que o número de
ovos que deram origem a adultos foi maior a 24,0ºC. Este menor parasitismo, a
temperaturas mais elevadas, pode derivar de má adaptação desta estirpe a estas
temperaturas dado que foi desenvolvida para utilização para cereais
armazenados.
A análise de variância não revelou diferenças significativas nas variáveis
estudadas em função da temperatura, excepto no Ensaio II. Neste último caso, em
que a metodologia estava mais afinada, verificou-se a existência de diferenças
estatisticamente significativas para a proporção de ovos com orifício de
emergência (c2=6,324; g.l.=2; p=0,042) e viabilidade de desenvolvimento do
parasitóide (c2=6,376; g.l.=2; p=0,041) mas, apenas, tendência no caso da taxa
de parasitismo (c2=4,719; g.l.=2; p=0,094).
As primeiras emergências ocorreram 10, 11 e 12 dias após o parasitismo,
respectivamente, para as temperaturas de 25,5ºC, 24,0ºC e 22,0ºC.
CONCLUSÕES
Trichogramma evanescens parasita e consegue completar o ciclo de
desenvolvimento em ovos de Tuta absoluta. As taxas de parasitismo observadas
não foram muito elevadas, sobretudo para temperaturas acima de 22,0ºC. Contudo,
a estirpe usada nos ensaios, comercializada para protecção biológica em
produtos armazenados, pode não estar adaptada a temperaturas mais elevadas,
como as que ocorrem nas estufas ou nas searas de tomate em Portugal. Este
estudo deverá ser repetido com estirpes recolhidas nas searas de tomate do
Ribatejo, onde esta espécie é frequente.