Gestão de Striga asiatica em milho no Planalto Central de Angola: consociação
com plantas-armadilha leguminosas e gramíneas
Introdução
Em Angola, o milho é cultivado em grande escala nos solos ferralíticos que
ocupam cerca de metade do território angolano (45,35%) (Raposo e Franco, 1999).
Este tipo de solos estão largamente representados no Planalto Central,
designadamente os solos fracamente ferrátilicos amarelos, os mais
representativos da província do Huambo (Hb 14) e os fracamente ferrátilicos
vermelhos (Hb 32). É nestas duas subunidades que geralmente se cultiva o milho
no Planalto Central (Dias et al.,2006).
As leguminosas aumentam o teor da matéria orgânica no solo, fixam o azoto
atmosférico, protegem o solo contra a erosão e podem dificultar o
desenvolvimento de algumas infestantes, pragas e doenças. Adicionalmente
algumas leguminosas provocam a chamada germinação suicida de Striga - plantas-
armadilha - isto é, estimulam a germinação da semente da planta-parasita, mas
não lhe servem de hospedeiro (Berner et al., 1997; Abunyewa e Padi, 2003). Das
leguminosas que mais têm sido apontadas, mencionam-se a ervilha-do-Congo ou de
Angola (Cajanus cajan(L.) Mill.), crotalária (Crotalaria junceaL.),soja
[Glycine max (L.) Merr.], algumas variedades de feijão-frade ou macunde (Vigna
unguiculata(L.) Walp.), amendoim (Aracchis hypogaea L.), vielo (Vigna
subterranea L.), feijão-mucuna (Mucuna pruriens Bak.), feijão-lablab (Lablab
nigerMedik.) e, mais recentemente, espécies do género Desmodium (Desmondium
uncinatum (Jacq.) DC. e D. intortum(Mill.) Urb.).De acordo com Hooper et al.
(2009) a leguminosa Desmodium uncinatum inibe o parasitismo por Striga
hermonthica (Del.) Benth. devido à sua ação alopática na parasita. In vitroos
autores verificaram que os exsudados radiculares de Desmodiumsp. interferiam
com o desenvolvimento radicular de Striga. O algodoeiro (Gossypium hirsutumL.),
o girassol (Helianthus annus L.) e gramíneas do género Tripsacum têm também
sido referidos como interferindo nas infestações de Striga ao estimularem a
germinação da parasita (Khan et al., 2001, 2002; Alonge et al., 2005; Musambasi
et al., 2005).
Os exsudatos das raízes da ervilha-do-Congo (Cajanus cajan)podem dissolver o
fósforo contido nas rochas (rochas fosfatadas) tornando-o num nutriente
disponível para as culturas. Esta espécie constitui uma importante leguminosa
de grão seco, cultivada em sequeiro nas regiões semiáridas tropicais. As
principais regiões produtoras da ervilha-do-Congo são o subcontinente indiano,
América Central e África Austral, onde Angola está inserida, bem como a África
Oriental. A ervilha-do-Congo é um arbusto perene, geralmente cultivada como uma
cultura anual. Tem crescimento e desenvolvimento iniciais muito lentos (até 2
meses após sementeira). Com uma raiz principal profunda, é capaz de extrair
nutrientes e água das camadas inferiores do subsolo. Portanto, em consociação
dificilmente compete com as outras culturas. Uma vez estabelecida, a ervilha-
do-Congo é uma cultura melhoradora dos solos devido ao seu extenso sistema
radicular (Cook et al., 2005).
O género MucunaAdans. engloba leguminosas com grande poder regenerador dos
solos. Através do seu sistema radicular, que chega a atingir 3 metros de
profundidade, atua e explora um perfil mais profundo do terreno do que acontece
nas lavouras tradicionais. Atrai, de forma notável, a proliferação de minhocas,
e são estas, verdadeiramente, as obreiras naturais da decomposição das matérias
no solo. Algumas espécies de Mucuna têm revelado ser, entretanto, excelentes
plantas forrageiras, inócuas e muito particularmente indicadas para os rebanhos
laníferos (Cook et al., 2005). Para além da fixação do azoto atmosférico pelas
leguminosas inseridas na consociação, os resíduos resultantes da queda das
folhas servem de manta morta, com consequente proteção contra a erosão do solo
e adição de matéria orgânica.
A crotalária (C. juncea) é utilizada como cultura melhoradora dos solos e em
consociação com o milho tem apresentado efeito supressor sobre S.
asiatica,controla nematoides do solo e serve de alimentação animal, bem como
humana, em alguns países africanos (Chamuane, 2007).
Algumas espécies de Desmodium sp. produzem substâncias alelopáticas que
suprimem Strigae, quando o fósforo não está em falta no solo, em consociação
com milho pode substituir a aplicação de azoto (Kifuko-Koech et al. 2012). A
soja tem efeitos semelhantes ao Desmodium sobre Strigacom a grande vantagem de
servir para alimentação humana e com mercado cuja procura é maior que a oferta
(Odhiambo et al., 2009).
Em África, diversas espécies do género Tephrosiasão muito conhecidas, por
possuírem propriedades medicinais, insecticidas e de veneno para os peixes (de
Matos, 2011). Na agricultura, a tefrósia é utilizada como planta melhoradora
dos solos e mais recentemente para supressão de ervas daninhas, incluindo
Striga (Cook et al., 2005). Em Angola, servem para adubação verde, captura de
peixe e insecticida. Os extractos podem ser preparados a partir de sementes,
folhas, caules e raízes, sendo os secos para tratamento de grãos/celeiros e as
soluções para pulverizações de culturas (de Matos, 2011).
Entre as plantas-armadilha da família das poáceas, podem salientar-se as
espécies Tripsacum dactyloi-des (L.) L e T. laxum Scrib e Merr., com
importância económica para a agricultura (FAO, 2005). O género TripsacumL.,
engloba espécies que são na sua maioria nativas do México e Guatemala mas estão
amplamente distribuídas em todas as regiões quentes dos EUA e da América do
Sul, com algumas espécies presentes na Ásia e Africa. Resiste a pH baixo e à
presença do alumínio e é muito competitivo com diversas espécies de
infestantes, em particular do género Striga, e no controlo de nemátodes (Cook
et al., 2005). Gurney et al. (2003), em estudos com Tripsacum dactyloides e S.
hermonthica mostraram que as plantas da parasita conectadas a T. dactyloides
foram muito menos propensas a evoluir para estágios mais avançados do que
quando o hospedeiro era o milho. Embora algumas plantas de S. hermonthica
fossem capazes de penetrar no xilema de T. dactyloides, o desenvolvimento
subsequente de haustórios foi diminuto em comparação com os que estavam
conectados aos sistemas vasculares do milho. Ao fim de seis semanas de cultura
em laboratório, o peso seco total médio de haustórios de S. hermonthica por
cada planta de T. dactyloides foi mil vezes inferior ao de haustórios em milho.
Os mesmos autores referiram também que a quantidade de exsudados radiculares
necessários para estimular a germinação de sementes de S. hermonthica,era ca.
70% menor na presença exsudados de T. dactyloides, do que em relação aos
exsudatos de milho (Gurney et al., 2002; 2003). Outros estudos evidenciaram
ainda que a resistência de T. dactyloidesa plantas parasitas do género Striga
também pode ocorrer mesmo que a conexão do haustório ao sistema vascular do
hospedeiro esteja estabilizada. De acordo com Scholes e Press (2008), um dos
mecanismos consiste no bloqueio dos vasos condutores do hospedeiro por
substâncias mucilaginosas que impede o fluxo da água e nutrientes a partir do
hospedeiro para a planta parasita e na transferência de compostos tóxicos para
o sistema vascular do hospedeiro para a subsequente translocação para o
interior da parasita através dos haustórios. Gurney et al. (2003) verificaram
que, na gramínea T. dactyloidesparasitada por S. hermonthica, os haustórios da
parasita estabelecem conexões com o xilema do hospedeiro e embora não haja
nenhum bloqueio dos vasos, a planta-parasita morre. Aqueles autores sugeriram
que o composto ou compostos inibidores movem-se dentro dos haustórios do
sistema radicular da planta-parasita.
A endoderme também tem sido referida como o local de expressão da resistência
em várias espécies de culturas, incluindo sorgo em relação à S. asiatica(Maiti
et al., 1984; Haussmann et al., 2004), arroz com S. hermonthica, assim como
Tripsacum dactyloidescom S. hermonthica(Gurney et al., 2003) e uma linha
(acessão) de milho (ZD05) derivada de Zea diploperennis L. também com S.
hermonthica. Na cultivar de arroz Nipponbare', portadora de resistência a
algumas variantes de S. hermonthica, foi observado que o haustório podia
atravessar o córtex e não ser capaz de romper a endoderme, mas continuava a
crescer em todo o cilindro vascular, tendo sido sugerido que existia uma certa
deficiência na sinalização ou perceção do sinal celular que impedia a
penetração de haustórios (Gurney et al., 2003). Comportamentos semelhantes têm
sido observados com frequência noutras cultivares de arroz indicando que esta
podia ser uma forma mais ampla a utilizar como estratégia de resistência
(Yoshida e Shirasu, 2009). A gramínea T. laxum foi introduzida no Instituto de
Investigação Agronómica de Angola pelo Engº. Ilídio Lourenço em 1965,
proveniente da Colômbia, da Estação Experimental de Palmira, que fica a 10-15
km do Centro Internacional de Agricultura Tropical-CIAT (comunic. pessoal Engº
Ilídio Lourenço, aos 25-5-2013 ao Dr. Nuno de Sousa Costa).
Com base nos pressupostos atrás referidos e nos resultados obtidos por Dovala
et al.(2006) relativos ao controlo de Striga asiaticapor recurso a consociações
com leguminosas, desenvolveram-se ensaios de consociação do milho com os
táxones Tripsacum laxum, Desmodium uncinatumcv D.Silver leaf', Cajanus cajan,
Mucuna pruriens, Tephrosia sp. e Crotalariasp. com o objetivo de avaliar o
efeito na emergência da planta parasita e no rendimento de milho cv. SAM3'
Material e Métodos
O clima da região é tropical com uma temperatura média anual de 19oC e
temperaturas mínimas muito acentuadas, nos meses de cacimbo (Maio a Agosto),
com céu limpo, elevada evapotranspiração potencial e reduzido grau higrométrico
do ar durante o dia. A humidade relativa média anual é inferior a 80%. A
precipitação média anual é de 1400 mm em todo o Planalto Central e está
concentrada no período de Outubro a Abril, com intercalação dum curto período
seco, chamado pequeno cacimbo (Quadro_1).
Frequentemente, as quedas pluviométricas ocorrem com extrema violência,
provocando fenómenos erosivos bastante graves em todos os solos desnudados, em
especial nos ocupados com culturas que obrigam à tomada de medidas de defesa
contra a erosão. O verdadeiro período seco vai de Maio a Setembro. Os ensaios
de campo foram instalados em parcelas duma exploração particular situada a 3 km
a norte da Chianga, 13 km a nordeste da cidade do Huambo, capital da província
com o mesmo nome, latitude 12o44' S e longitude 15o50' E, 1 750 m de altitude.
O solo está classificado como ferralítico, é arenoso com um pH (H2O) 5,2
(análise efetuada no Laboratório de Solos do IIA).
Ensaio em estufa
Na sequência de efeitos positivos observados na emergência e morte de S.
asiatica obtidos em ensaios preliminares, em vasos, com capim-guatemala
(Tripsacum laxum) desenvolveu-se com esta gramínea um ensaio na estufa do
Laboratório de Fitopatologia do Instituto de Investigação Agronómica (IIA), com
o objetivo de avaliar a influência na emergência da planta parasita. O ensaio
consistiu em 3 blocos completamente casualizados, com cinco modalidades e duas
repetições (vaso) por bloco. Cada vaso media 50 x 50 x 20 cm de altura. As
cinco modalidades ensaiadas foram: solo infestado/milho, solo infestado/
Tripsacum laxum,solo com resíduos prováveis de imazapir (aplicado no ano
anterior)/milho, solo limpo (sem histórico da presença da parasita)/ milho e
solo limpo/Tripsacum laxum. As amostras de solo, duas por local de colheita,
foram obtidas em Novembro de 2008, nos primeiros 25 cm de solo. O solo
infestado por S. asiatica, nos últimos cinco anos, apresentou uma densidade
média da de 25 plantas por m2 de S. asiatica. O solo com imazapir foi colhido
numa das parcelas que tinha sido cultivada no ano anterior com milho resistente
ao imazapir (sementes revestidas com a imidazolinona). Uma terceira amostra '
solo limpo - foi obtido numa parcela dos campos das Estação Experimental
Agrícola da Chianga onde nunca foram observadas plantas de S. asiatica.A
sementeira do milho e a plantação do capim-guatemala foram efetuadas em 21 de
Novembro de 2008. Por vaso foram colocadas cinco sementes de milho e três
estacas de capim-guatemala. A germinação do milho decorreu entre o 5 a 8 dia
após sementeira. Procedeu-se ao desbaste 15 dias depois da sementeira, deixando
por vaso três plântulas de milho. Nos vasos com capim-guatemala todas as
estacas rebentaram e não foi feita qualquer intervenção. A contagem do número
de plantas de S. asiaticaque emergiram em cada vaso foi efetuada 4 meses após o
início do ensaio.
Ensaios de campo
Realizaram-se dois ensaios de campo e, em ambos, o delineamento consistiu em
blocos casualizados com 5 repetições. Utilizou-se a variedade de milho (Zea
maysL.) SAM3 (Sintético Amarelo Maria', 3ª geração).
No 1º ensaio (2008/2009) -consociação milho x leguminosas' as modalidades
ensaiadas foram: 1) Desmodium uncinatum(Jacq) DC. cv D.Silver leaf'; 2)
Cajanus cajan(L.) Millsp.; 3) Mucuna pruriens(L.) DC. (feijão-mucuna); 4)
Tephrosia sp. e 5) Testemunha. Cada parcela constava de cinco linhas de 5 m de
comprimento, separadas entre si por entrelinhas de 1,5 m e um compasso de 0,75
x 0,25 m (área da parcela = 18,75 m2), 40 plantas por linha, o que correspondeu
a 106 666 plantas de milho por hectare. Os blocos e as parcelas estavam
separados entre si por intervalos de 1,5 m. A sementeira foi efectuada em 8 de
Novembro de 2008 e a colheita a 2 de Maio de 2009. As observações incidiram nas
três linhas centrais, sobre o número de plantas de S. asiaticana linha e o
rendimento do milho.
No 2º ensaio (2009/2010) -consociação milho x leguminosas x gramíneas x azoto -
as modalidades ensaiadas foram: 1) Cajanus cajan(L.) Millsp.; 2)
Crotalariaspp.; 3) Tripsacum laxum(capim-guatemala); 4) Testemunha com N60 e 5)
Testemunha sem azoto. Cada parcela constava de quatro linhas de 5 m de
comprimento, separadas entre si por entrelinhas de 1,5 m e um compasso de 0,75
x 0,25 m (área da parcela = 15 m2), 40 plantas por linha, o que corresponde a
112 000 plantas de milho por hectare. A sementeira realizou-se a 15 de Outubro
de 2009. A colheita foi efetuada e 5 de Abril de 2010. As observações incidiram
nas duas linhas centrais, sobre o rendimento do milho em consociação e o número
de plantas de S. asiatica na linha do milho. Todas as modalidades azotadas
beneficiaram ainda de uma adubação de fundo com um adubo composto com 12% de
azoto, 24% de fósforo e 12% de potássio, abreviadamente NPK 12:24:12, na dose
de 300 kg/ha. A modalidade testemunha não levou nenhuma unidade de azoto para
representar a situação corrente praticada pelos agricultores.
Nos dois ensaios de campo, antes da sementeira procedeu-se a uma lavoura com
uma charrua de discos acoplada a um trator de 80 HP e duas gradagens cruzadas.
Na véspera da sementeira foi ainda realizado o destorroamento com enxadas,
assim como a limpeza de todo o raizame remanescente. A fertilização de fundo e
a sementeira foram realizados no mesmo dia, manualmente. Na fertilização de
fundo e na sementeira adotaram-se os procedimentos referidos por Abunyewa &
Padi (2003) e Mumera & Below (1993), com ligeiras alterações. O
fertilizante distribuído superficialmente na linha foi incorporado antes do
lançamento da semente. Por cada covacho foram colocadas 3 sementes de milho,
deixando-se, ao desbaste - 25 dias após a sementeira -, 2 plantas por covacho.
Os ensaios foram mantidos livres de infestantes até a colheita através de
mondas manuais. Na modalidade N60, foi aplicado sulfato de amónio a 21%, sem
incorporação, 30 dias após a sementeira.
Análise de dados
Todos os dados foram tratados estatisticamente através da análise de variância
a um fator, ANOVA, com um nível de significância de 5%. Efetuou-se a análise
dos dados recorrendo ao programa estatístico Statistix 9.
Resultados e discussão
Em estufa, quatro meses após a instalação dos ensaios, verificou-se que o
cultivo de T. laxumem solos infestados por S. asiatica duplicou a emergência da
planta parasita comparativamente à sementeira apenas de milho. Na presença da
planta-armadilha apesar de algumas, poucas, plantas atingirem a floração, a
maior parte das plantas emergidas apresentou um fraco desenvolvimento e não
floriu e consequentemente não se verificou a produção de sementes. Estes
resultados estão em sintonia com os observados por Gurney et al.(2003) com a
parasita S. hermonthica. Constatou-se ainda que a aplicação, no ano anterior,
da imidazolinona imazapir reduziu significativamente a infestação da planta-
parasita (Quadro_2). Dovala & Monteiro (2013) verificaram que o imazapir
apresenta efeito residual apenas no ano da sementeira do milho resistente ao
herbicida pois, as cultivares locais de milho (SAM3' e Branco redondo') não
germinaram sempre que foram semeadas próximo das sementes de milho revestidas
com imazapir (Milho IR). No segundo ano após a aplicação de imazapir as
referidas cultivares locais já não foram afectadas pelo herbicida.
Nos ensaios de campo realizados em 2008/2009, a consociação do milho com
leguminosas - Desmodium uncinatumcv. D. Silver leaf', Cajanus cajan, Mucuna
pruriense Tephrosia sp. - teve um efeito inibidor significativo na emergência
da parasita com implicações positivas na produtividade da cultura (Fig._1).
Todas as espécies de leguminosas utlizadas na consociação com milho tiveram
efeito inibidor altamente significativo na emergência de S.
asiaticacomparativamente à modalidade testemunha. Entre as modalidades com
leguminosas x milho não se verificaram diferenças significativas na emergência
da infestante (Fig._1). Os resultados corroboram o que foi referido por outros
autores em estudos similares quer com S. asiatica (Musambasi et al., 2005) quer
com S. hermonthica(Khan et al., 2002; Hooper et al., 2009).
O rendimento do milho foi significativamente superior nas modalidades
consociadas com Cajanus cajan, Mucuna pruriense Tephrosia, com valores médios
de 2000 kg/ha. Com a leguminosa Desmodium uncinatumobteve-se um rendimento
significativamente inferior (ca. de 1400 kg/ha) ao daquelas modalidades mas
significativamente superior ao valor registado na testemunha (ca. 200 kg/ha).
Todavia o rendimento do milho obtido com Desmodium uncinatumfoi superior ao
observado em ensaios anteriores na mesma região por Chicapa et al. (2006),
provavelmente devido à adição de fósforo no presente estudo.
No ensaio desenvolvido em 2009/2010, a consociação de milho com Cajanus cajan,
Crotalariasp., Tripsacum laxume a aplicação de 60 unidades de azoto,
comparativamente à testemunha, teve também, em todas as modalidades, um efeito
inibidor, significativo, na emergência da parasita com implicações positivas na
produtividade da cultura (Quadro_3). Os mecanismos pelos quais se atribui a
inibição pelas leguminosas da germinação de Striga asiatica são o aumento do
nível de azoto no solo e do ensombramento que proporciona à cobertura do solo
e/ou efeitos alelopáticos que inibem o desenvolvimento dos haustórios (Khan et
al., 2001).
Quanto ao rendimento do milho, todas as modalidades diferiram entre si. O
rendimento do milho foi significativamente superior na modalidade adubada (ca.
1800 kg/ha), seguida da modalidade consociada com Cajanus cajan,com valores
médios de 1000 kg/ ha. Na consociação com Crotalaria e Tripsacum laxumo
rendimento do milho foi inferior à tonelada mas significativamente superior ao
valor registado na testemunha (ca. 160 kg/ha). De registar que o rendimento do
milho na modalidade com Cajanus cajanfoi cerca de metade do registado no ensaio
anterior apesar da densidade de S. asiaticaser similar. Esta constatação remete
para outros fatores envolvidos no rendimento do milho.
A Fig._2 ilustra o efeito da presença da gramínea na emergência de S. asiatica,
com valores significativamente superiores nas entrelinhas cultivadas com T.
laxum. Estes resultados confirmam os obtidos em vasos, na estufa, realçando a
influência da gramínea Tripsacum laxumna emergência da planta parasita. Na
presença desta planta-armadilha Tripsacum laxuma germinação e emergência de S.
asiatica foi estimulada mas as plantas emergidas não se desenvolveram e
consequentemente não se verificou a produção de sementes. Gurneyet al.(2003),
em estudos com S. hermonthicae milho consociado comT. dactyloides,verificaram o
mesmo efeito referindo que a formação de haustórios secundários era inibida.
Atualmente, a consociação é vulgarmente usada em muitas regiões tropicais do
mundo, particularmente por agricultores tradicionais de pequena escala. Na
América Latina, os pequenos agricultores cultivam 70-90% de seus feijões com
milho, batata e outras culturas, enquanto o milho consociado representa 60% das
áreas de sua cultura naquela região. Outras avaliações quantitativas sugerem
que 89% de feijões-macunde em África estão em consociados (Atera et al., 2013).
Nas regiões tropicais, a consociação é geralmente associada com a produção de
grãos para alimentação, enquanto nas regiões temperadas consiste num meio de
produção eficiente de forragem (Atera et al.,2013).
Apesar da monocultura intensiva ser mais fácil para grandes agricultores, que
semeiem e colhem uma cultura no mesmo espaço de terra, usando máquinas e adubos
inorgânicos, os pequenos agricultores, que muitas vezes não têm acesso aos
mercados e produzem alimentos suficientes apenas para o seu sustento e de suas
famílias, reconhecem que a consociação é uma boa forma de garantir a
sobrevivência. A consociação é uma prática comum em muitas regiões da África
como uma parte dos sistemas agrícolas tradicionais vulgarmente implementados
devido ao declínio da fertilidade dos solos, escassez de terra arável e à
necessidade de segurança alimentar. É, sobretudo, praticada em pequenas
propriedades com capacidade de produção limitada devido à falta de capital para
aquisição de insumos. As características de um sistema de consociação podem
depender em grande parte das condições de solo, clima local, da situação
económica e preferências da comunidade local. As cultivares locais que têm sido
selecionadas ao longo dos anos para esta finalidade, são, em geral, utilizadas
na consociação.
As plantas de S. asiatica são dotadas de uma alta fecundidade e a semente é
assíncrona. Estas características fazem com que o seu controle seja difícil
(Andrianjaka et al., 2007). O grau de infestação, portanto, precisa de ser
gerido através de diferentes métodos. Presentemente, existem vários métodos
disponíveis quando se trata de gestão de Striga sp., designadamente preparação
do solo, arranque manual, sacha manual e mecânica, herbicidas, tecnologia push-
pull e consociações, cultivares resistentes, fertilização azotada, controle
biológico, estimulantes de germinação e tratamento de sementes da cultura. No
entanto, os métodos que dependem de compostos sintéticos não constituem a
melhor opção uma vez que não são sustentáveis e os pequenos agricultores
dificilmente podem custeá-los. As técnicas que incluem uma mudança dos sistemas
de culturais constituem uma solução sustentável que pode garantir um rendimento
adequado. Atualmente, os métodos de gestão mais usados contra Strigasp. em
Angola são a monda e sacha manuais. São recomendados para evitar a produção de
sementes e sua dispersão. Todavia, estes métodos têm pouco impacto para as
culturas em pleno campo e não têm um efeito positivo direto sobre o rendimento.
Apenas a melhoria do controle da planta parasita a longo prazo, devido ao
impedimento do aumento de Striga no banco de sementes do solo pode ser eficaz.
Assim, a utilização de plantas que estimulam a germinação, como Tripsacum
laxum, mas não são parasitadas, poderá ser uma prática cultural com impacto na
redução do banco de sementes da planta parasita.
A melhoria dos sistemas de pousio também pode ser uma solução onde devem ser
instaladas culturas armadilhas, designadamente Tripsacumsp.. A gestão efetiva
de Striga em sistemas de sementeira do milho ano após ano não pode ter sucesso
se dispensar os pousios melhorados (Andrianjaka et al., 2007).
Conclusões
No que concerne ao efeito na planta-parasita, verificou-se que nas parcelas
tratadas com imazapir no terceiro ano após a aplicação podem, de novo, emergir
algumas plantas, embora em número muito reduzido. Esta particularidade pode ser
aproveitada para a gestão de S. asiatica em áreas com infestações severas.
Pois, mediante sementeiras intercaladas de dois anos com variedades locais e um
com milho resistente ao imazapir pode ser possível reduzir significativamente a
adição de sementes no banco de Striga no solo. A identificação dos compostos
alelopáticos envolvidos na supressão da planta parasita nos ensaios de
consociação quer com as leguminosas quer com T. laxum, pode dar outras
oportunidades para a exploração de estratégias para consociações mais
adequadas.