O Selénio e a Tiróide
INTRODUÇÃO
O selénio é um oligoelemento, descrito pela primeira vez pelo químico sueco
Jöns Jacob Berzelius em 18171, e só quase duzentos anos após essa data a
ciência médica está a explorar em pleno a importância deste micronutriente na
saúde humana.
Presente em quantidades variáveis no solo, a sua incorporação pelos vegetais,
em particular grãos e sementes, constitui a principal fonte de selénio nos
animais2,3. No entanto, para o ser humano, não é de ignorar o contributo da
ingestão de peixe, marisco e carne na dieta ocidental, dada a elevada ingestão
deste tipo de produtos e o alto teor em selénio no tecido muscular,
particularmente em áreas que possuam elevadas concentrações deste elemento no
solo. A dose diária recomendada foi estabelecida em 55 µg/dia nos E.U.A., sendo
no Reino Unido - um país com menor quantidade de selénio no solo - recomendada
a dose de 65 a 75 µg/dia, para mulheres e homens, respectivamente. No entanto,
a ingestão diária de selénio nos E.U.A. e Reino Unido ultrapassa em média este
valor, aproximando-se dos 100 a 200 µg/dia e tornando improvável a deficiência
grave nestas áreas, excepto em situações de desnutrição, alimentação
parentérica total, patologia dermatológica ou alcoolismo crónico. No entanto,
já foi descrita deficiência ligeira de selénio em regiões da Europa4 com pobre
conteúdo deste elemento no solo, assim como em áreas da China, Rússia e
continente africano onde a deficiência, clinicamente relevante, é relativamente
frequente porque os alimentos consumidos são produzidos localmente.
A importância do selénio em animais foi inicialmente identificada em
experiências com ratos nos quais foi induzida deficiência de vitamina E, tendo-
se demonstrado que a lesão hepática resultante podia ser prevenida pela
suplementação com selénio5. A importância do selénio na saúde humana foi
reconhecida pela primeira vez aquando da associação entre a doença de Keshan '
uma cardiopatia endémica que afecta crianças e mulheres em idade fértil - e a
sua prevalência em áreas com solos deficientes em selénio na China, problema
que se revelou prevenido com a sua suplementação6. Nos anos 60, investigadores
belgas na África Central observaram uma forte associação entre a deficiência
combinada em selénio e iodo e a ocorrência de cretinismo mixedematoso endémico.
Neste caso em particular, a suplementação de selénio antes da reposição de iodo
resulta em elevação marcada dos níveis de T3 e T4, mas também de TSH, revelando
um papel complexo do selénio na função tiroideia7,8.
FUNÇÕES NO SER HUMANO
O selénio não é utilizado na sua forma elementar, sendo incorporado em vários
péptidos, ditos selenoproteínas, sob a forma de selenocisteína ou
selenometionina9. Há vinte e cinco famílias de selenoproteínas no ser humano,
das quais as peroxidase do glutatião (GPx), a reductase da tioredoxina (TRxR) e
desiodinase 2 da iodotironina (DIO) são as mais extensamente caracterizadas,
exercendo funções nas reacções de oxidação-redução. Em concentrações nano a
micromolares, as selenoproteínas têm um comportamento anti-oxidante mas, em
níveis superiores ao necessário para a sua máxima actividade, poderão ter um
efeito pro-oxidante.
Uma série de reacções necessárias para o normal funcionamento do organismo
humano depende diretamente da presença das selenoproteínas, particularmente do
grupo selénio, para ocorrerem adequadamente, incluindo a síntese de ADN. A
deficiência de selénio foi associada, de forma algo controversa, a uma miríade
de patologias, sendo de referir a associação com o aumento do risco de cancro -
incluindo da tiróide - infecções e estados de imunodepressão, infertilidade
masculina, diabetes, doenças de Alzheimer e Parkinson, perturbações do humor,
para além das já referidas doença de Keshan e cretinismo mixedematoso
endémico1,2,4,10,11,12,13,14. A carência grave de selénio associa-se a
disfunção muscular e cardiomiopatia, macrocitose e branqueamento do leito
ungueal4,13,14. O papel da deficiência de selénio na patogénese destas doenças
poderá estar relacionado com o resultante aumento do stress oxidativo, mas os
seus mecanismos não estão ainda elucidados. Foi já documentado o aumento da
actividade da GPx após suplementação com selénio, sendo os seus efeitos a nível
da obtenção do estado eutiroideu ainda controversos15,16,17. A disparidade de
resultados entre estudos poderá estar relacionada com a disponibilidade de
selénio na dieta local conforme a região onde foram efectuados, condicionando
suficiência ou deficiência nutricional. É de referir, no entanto, que a
suplementação com selénio foi também associada a um aumento do risco de
diabetes18,19.
Relativamente à metodologia utilizada para avaliar o status de selénio nos
vários estudos já realizados, várias medidas foram utilizadas, com resultados
variáveis: excreção urinária, concentração sérica, quantificação capilar e
níveis séricos de selenoproteína P. Esta última é a forma de selénio mais
presente no plasma sanguíneo e tem um papel no seu transporte20. A concentração
sérica de selénio está na dependência directa da ingestão de selénio, pelo que
se correlaciona, indirectamente, com a sua disponibilidade. Vários factores
podem alterar a concentração do selénio, nomeadamente a idade, o estado
fisiológico e o estilo de vida.
No que diz respeito à sua interacção com a função tiroideia, é de referir que a
glândula tiróide é o tecido com maior concentração de selénio no corpo humano1.
Este elemento integra a estrutura de várias enzimas necessárias à obtenção de
um estado eutiroideu, tanto por remoção do excesso de peróxido de hidrogénio
(H2O2) gerado durante a síntese de hormona tiroideia - papel desempenhado pelas
GPx e TRxR, e, em níveis mais elevados de radicais de oxigénio, pela catalase -
mas também pela obtenção de um equilíbrio fisiológico entre a activação e a
inactivação da hormona tiroideia, a cargo das DIO1, DIO2 e DIO3. A renovação
dos sistemas da GPx e da catalase, efectuada pelo anti-oxidante específico do
tiól (TSA thiol-specific antioxidant), é controlada pela TSH14. Relativamente à
actividade das DIOs, qualquer perturbação ao nível da expressão relativa destas
enzimas pode resultar em alterações dos níveis de T3 e T4 livres ou totais, e a
deficiência de iodo ou selénio induz variação das suas concentrações consoante
a necessidade específica de cada orgão (ex. cérebro, periferia, tiróide).
No cretinismo mixedematoso endémico, a deficiência de iodo contribui para a
indução de um estado hipotiroideu, com aumento dos níveis de TSH, o que aumenta
a formação de radicais livres de oxigénio no tecido tiroideu. Esta elevação da
TSH deveria acompanhar-se de aumento da produção de enzimas GPx e
selenoproteínas, mas uma vez estabelecida a deficiência conjunta de selénio, a
expressão destas enzimas é diminuída e a lesão oxidativa predomina21,22. O
tiocianato, presente na dieta de algumas regiões africanas, foi já identificado
como potencial agravante deste mecanismo em animais e humanos, em sinergia com
a deficiência dos oligoelementos referidos7,21. Sendo assim, a lesão tiroideia
é multifactorial: as deficiências de iodo e selénio estão associadas à
acumulação de H2O2; a deficiência de selénio está associada ao atingimento da
imunidade celular e a fibrose; o excesso de tiocianato está associado a necrose
das células foliculares21,23. A elevada prevalência de bócio na África estará
associada à elevada prevalência destes distúrbios nutricionais, isolada ou
conjuntamente. Esta molécula também é um produto de metabolismo em fumadores, o
que poderá estar relacionado com as alterações da função tiroideia observadas
nesta população.
Quanto ao seu papel na auto-imunidade, o distúrbio das enzimas de oxidação-
redução envolvidas no metabolismo tiroideu contribui para a lesão oxidativa e
necrose do tireócito, assim como para o desenvolvimento de fibrose e
hipofunção. A deficiência de selénio, mesmo que ligeira, pode constituir um dos
factores ambientais que inicia ou mantém a actividade auto-imune tiroideia em
indivíduos geneticamente susceptíveis22,24.
SELÉNIO E AUTO-IMUNIDADE
As selenoproteínas GPx e TRxR estão envolvidas em reacções essenciais para o
normal funcionamento do sistema imunitário. Ambas têm funções de protecção
celular quando os níveis intracelulares de H2O2 nos neutrófilos aumentam
durante o fenómeno do estouro respiratório, com a finalidade de eliminar micro-
organismos sujeitos a endocitose. A TRxR foi ainda identificada como um factor
de crescimento linfocítico. Relativamente a estas funções, a expressão da GPx é
regulada pela concentração de selénio e a de TRxR é regulada pela 1,25-(OH)2-
vitamina D325. A perturbação da actividade destas enzimas poderá, portanto,
resultar em distúrbios do funcionamento do sistema imunitário, tanto em termos
de combate às infecções como do desenvolvimento de patologia auto-imune. Já foi
verificada a influência dos níveis de selénio na reacção imunológica contra
infecções víricas12, tendo sido observado maior risco de infecção grave
associado a alterações na expressão de citocinas e quimiocinas envolvidas na
resposta pró-inflamatória, assim como do padrão de infiltrado leucocitário no
local de infecção.
Os fenómenos de auto-imunidade estão relacionados com uma série de factores,
tanto genéticos como ambientais, sendo a tiróide um órgão extremamente
vulnerável ao surgimento de doenças auto-imunes26. Dos vários factores
ambientais identificados, é de referir a ingestão excessiva de iodo, agentes
poluentes, doenças infecciosas, drogas e medicamentos, assim como a deficiência
em selénio. É possível que este último factor esteja associado ao
desenvolvimento de doença auto-imune tiroideia tanto no aumento da duração
quanto na exacerbação da actividade da doença26. Sendo assim, a exposição a
diferentes factores ambientais vai contribuir para o desenvolvimento das várias
formas de patologia auto-imune tiroideia, no contexto de uma herança genética
comum entre estas, como já foi teorizado para a tiroidite de Hashimoto e a
doença de Graves27.
Já foi colocada a hipótese de outras patologias auto-imunes estarem também
relacionadas com o selénio, nomeadamente a doença celíaca, onde o aumento da
prevalência da tiroidite auto-imune poderá estar parcialmente relacionada com
má absorção de selénio pela mucosa intestinal danificada.
SELÉNIO E TIROIDITE AUTO-IMUNE
Derumeaux28 verificou uma relação inversa entre níveis de selénio e volume
tiroideu, risco de bócio e hipoecogenicidade do parênquima tiroideu numa
amostra de mulheres com deficiência ligeira de iodo. Dado que a
hipoecogenicidade tiroideia está habitualmente associada à ocorrência de
tiroidite auto-imune, estando inclusivamente correlacionada com o título de
anticorpos anti-receptor de TSH na doença de Graves, interpretou-se este facto
como uma possível evidência da influência do selénio na actividade imunitária
tiroideia. Esta constatação foi confirmada por Gårtner29 e Duntas30, que, para
além de documentarem a melhoria da alteração imagiológica já referida, mostram
também redução do título de anticorpos anti-TPO em mulheres com tiroidite auto-
imune sujeitas a suplementação com selénio. Em ambos os trabalhos, a
suplementação envolveu a administração de 200 µg/dia de selénio durante 3
meses, tendo-se obtido reduções médias do título de anticorpos anti-TPO de
36.4% e 46% vs 12% e 21% no grupo placebo29,30. A diferença observada entre
grupos era mais marcada nos indivíduos com título de anticorpos inicial mais
elevado (>1200 UI/mL)29. O segundo estudo30 estendeu a suplementação por mais
três meses, tendo-se verificado persistência da diminuição do título de
anticorpos anti-TPO. Não ocorreu redução dos níveis de anticorpos
antitiroglobulina e não se verificou, no final do estudo, correlação entre os
níveis de selénio e das hormonas tiroideias. No entanto, em ambos os estudos,
os doentes referiram melhoria do estado de humor, o que poderá estar
relacionado com o metabolismo da dopamina e/ou serotonina no sistema nervoso
central, de acordo com os resultados de trabalhos anteriores, realizados em
modelos animais31.
SELÉNIO, GRAVIDEZ E TIROIDITE PÓS-PARTO
Dada a reconhecida relação entre hipotiroidismo e complicações gestacionais32 e
a elevada prevalência de patologia tiroideia no período gestacional e no pós-
parto, procurou-se esclarecer a eventual influência do selénio neste contexto.
Os resultados foram surpreendentes: no estudo de Al-Kunani33, as mulheres que
sofreram abortamento espontâneo apresentavam menores níveis capilares de
selénio que o grupo com gestação de termo. Esta constatação poderá ser
particularmente interessante para as mulheres com tiroidite auto-imune que
pretendam engravidar, uma vez que também estas têm um risco aumentado de
abortamento e parto pré-termo, provavelmente associada à ligeira disfunção
tiroideia que apresentam, ou à própria presença de anticorpos anti-tiroideus34.
Nesse sentido, já se estabeleceu uma relação entre a presença de anticorpos
anti-tiroideus e níveis discretamente mais elevados de TSH, o que poderá
indiciar menor reserva tiroideia, com maior risco de desenvolver hipotiroidismo
e as suas complicações durante a gravidez. A tiroidite pós-parto resulta de
exacerbação de actividade auto-imune latente após o período de imunossupressão
induzido pela gestação e aumenta o risco destas mulheres desenvolverem
posteriormente hipotiroidismo permanente, que pode atingir até 30% dos
indivíduos deste grupo. Relativamente à relevância do hipotiroidismo subclínico
neste contexto, é de referir que, segundo os achados de Casey, o risco relativo
de placenta abrupta e parto pré-termo no grupo com hipotiroidismo subclínico
era de 3,0 e 1,8, respectivamente35. A prescrição de levotiroxina em mulheres
grávidas com hipotiroidismo clínico ou subclínico é prática corrente, mas mesmo
em mulheres grávidas com tiroidite auto-imune eutiroideias a suplementação com
levotiroxina parece reduzir o risco das complicações gestacionais associadas a
disfunção tiroideia36. Dada a evidência disponível relativamente ao efeito do
selénio na redução do título de anticorpos anti-tiroideus29,30, Negro37aplicou
estes princípios no seu estudo em mulheres grávidas com tiroidite auto-imune,
obtendo redução significativa do título de anticorpos anti-TPO e melhoria
significativa do padrão ecográfico de tiroidite no grupo sob suplementação com
selénio. As alterações analíticas e imagiológicas acompanharam-se da redução
significativa da incidência de disfunção tiroideia pós-parto e hipotiroidismo
permanente. A ingestão deficiente e excessiva de selénio está associada a
níveis diminuídos e aumentados de T3, respectivamente. No entanto, é de referir
que este trabalho foi efectuado numa amostra pertencente a uma população com
ingestão adequada de selénio, razão pela qual não há disfunção da actividade
das DIO nem alteração significativa dos níveis de T3, sem prejuízo para a sua
actividade anti-inflamatória.
SELÉNIO E DOENÇA DE GRAVES
À semelhança dos estados de deficiência de selénio, a doença de Graves está
associada a um estado de estresse oxidativo, pelo menos parcialmente reversível
com a administração de tiamidas ou anti-oxidantes38,39. À semelhança da
tiroidite de Hashimoto, a doença de Graves está associada à deficiência
relativa de selénio16, tendo sido confirmada uma correlação entre níveis
séricos elevados de selénio e a tendência para obter remissão da doença40,
assim como a relação entre a doença de Graves e a gravidade da orbitopatia
associada com níveis diminuídos de selenoproteína P41. Foi também constatada
uma correlação inversa entre os níveis de selénio e o título de anticorpos
antirreceptor de TSH40. Vrca e colaboradores16 estudaram a eficiência da
suplementação com anti-oxidantes (selénio, beta-caroteno e vitaminas C e E)
para além da prescrição de antitiroideus na obtenção de um estado eutiroideu na
doença de Graves. Os doentes com acesso a suplementação obtiveram normalização
da função tiroideia mais rapidamente que o grupo tratado apenas com metimazol,
em associação a um aumento dos níveis séricos de selénio e da actividade de
GPx. Não é de excluir uma acção sinérgica dos anti-oxidantes citados na
obtenção do resultado. Marcocci42 estudou a evolução clínica da orbitopatia de
Graves ligeira durante suplementação com selénio e verificou melhorias
significativas em termos de qualidade de vida, envolvimento ocular e progressão
da doença neste grupo em comparação com placebo.
CONCLUSÃO
O selénio é um oligoelemento com um papel significativo em múltiplas reacções,
particularmente nas que dizem respeito à manutenção do equilíbrio oxirredução.
A deficiência em selénio, por via da indução de um estado de estresse
oxidativo, poderá estar relacionada com a patogénese de múltiplas doenças, por
mecanismos ainda pouco esclarecidos. A interferência do selénio na regulação da
imunidade poderá também contribuir para a relação entre este elemento e a
génese da patologia auto-imune. É de referir a relação especial que o selénio
tem com a fisiologia tiroideia, tanto ao nível do seu normal funcionamento como
com as sequências de eventos que conduzem à formação do bócio, neoplasia da
tiróide ou patologia tiroideia auto-imune. Os ensaios clínicos que envolvem a
suplementação de selénio em indivíduos com tiroidite auto-imune e doença de
Graves revelaram benefício significativo a nível analítico, imagiológico e, em
menor grau clínico, após 6 meses. Estes estudos poderão estar enviesados pela
área de residência da amostra, onde é prevalente um estado de deficiência
ligeira de selénio proveniente da dieta (ex. Alemanha, Grécia). A suplementação
com selénio será particularmente vantajosa em mulheres com tiroidite auto-imune
que pretendam engravidar, independentemente de pertencerem a uma população com
ingestão adequada de selénio, com provável diminuição do risco de disfunção
tiroideia durante esse período. São, porém, necessários ensaios clínicos
controlados para confirmar esta hipótese.