Doença de Crohn: Caso Problema
Doença de Crohn ' Caso Problema
Unidade de Gastrenterologia Pediátrica e Serviço de Cirurgia Pediátrica,
Hospital S. João
INTRODUÇÃO
Dr. Jorge Amil Dias (JAD):Este caso clínico, que provavelmente já terão lido na
documentação prévia desta sessão, consiste num jovem com Doença de Crohn, com
vários anos de evolução. Quando andei na Faculdade aprendi que a Doença de
Crohn e a colite ulcerosa, eram doenças do adulto jovem, mas hoje um 1/3 a ¼ de
todos os novos doentes com doença inflamatória intestinal tem menos de 20 anos
e isto ocorre em todo o mundo ocidental.Por isso é muito importante que todos
os médicos tenham sensibilidade para identificar estes doentes, ainda que o
caso de hoje falar seja um pouco atípico na sua gravidade como vão ver. Reparem
que a DII é actualmente um problema também do âmbito da assistência pediátrica;
é necessário estabelecer diagnóstico atempado e correcto para influenciar e
melhorar a evolução clínica. Antes de iniciar a discussão agradeço ao Prof.
Júlio Leite o favor de ter acedido a participar nesta sessão e comentar alguns
aspectos do nosso doente. Todos os outros são participantes da casa, e agradeço
a todos os colegas que vão intervir o empenho que puseram e o tempo que
dedicaram a estudar a preparar este caso clínico. Convido a Drª Eunice Trindade
de Gastrenterologia Pediátrica a fazer a apresentação clínica, que depois
iremos complementar com comentários ou questões que queiram colocar.
Drª Eunice Trindade (ET): A história que hoje vos trazemos refere-se a um jovem
que tem agora 18 anos de idade do sexo masculino, cujos antecedentes pessoais
patológicos são de mononucleose infecciosa aos 3 anos de idade, meningite
vírica aos 6 anos e púrpura Henoch-Schonlein aos 8 anos. Estas entidades são
relativamente frequentes em idade pediátrica; a mononucleose é relativamente
frequente: na idade adulta cerca de 95% das pessoas já tiveram contacto com o
vírus Epstein-Barr, a clínica pode ser variável e muitos casos são
assintomáticos. A meningite vírica também é relativamente frequente em
pediatria e o agente habitualmente implicado é Enterovirus: são meningites com
curso absolutamente benigno sem sequelas. A púrpura de Henoch-Schonlein é uma
vasculite sistémica em que há depósito de IgA e C3 ao nível dos tecidos e
vasos; habitualmente cursa com bom prognóstico, ainda que uma pequena
percentagem destes doentes (até 5%) tenha sequelas renais. Este doente não teve
repercussão subsequente de nenhuma destas doenças. Nos antecedentes familiares
não havia história familiar da doença inflamatória intestinal, que envolve
algum risco familiar acrescido. A doença actual deste rapaz começa aos 13 anos:
foi diagnosticada Doença de Crohn, no Hospital local, com base num abcesso
escrotal e investigação subsequente. Terá sido instituída terapêutica com
mesalazina e azatioprina nessa altura. A mesalazina é um anti-inflamatório
tópico de mucosa e constitui em muitos caos a 1ª linha de tratamento. A
azatioprina é um imunomodulador, usada também em idade pediátrica, no sentido
de tentar obter remissão mais prolongada da doença. Apesar disso a evolução não
foi favorável e aos 15 anos foi internado várias vezes por agudização da doença
luminal, diarreia com sangue, dor abdominal e febre; e terá feito vários cursos
de corticoterapia e antibióticos. Ainda assim, também não foi conseguido
controlo da doença e cerca dos 16 anos iniciou terapêutica com infliximab, um
anticorpo monoclonal que é já um passo terapêutico mais avançado: com este
fármaco pretende-se obter remissão rápida da doença e cicatrização da mucosa
intestinal. Apesar desta terapêutica a doença manteve-se activa e aos 17 anos
foi mudado para um outro anticorpo monoclonal, adalimumab, e fez mais do que um
ciclo de corticoterapia. Apesar de tudo houve progressão da doença,
nomeadamente da doença perianal que se tornou incontrolável. Por esse motivo
foi proposta protocolectomia. Foi então enviado a outro hospital mas dado o
estado de caquexia foi então referenciado à nossa Unidade, no sentido de se
tentar recuperação nutricional e tratamento subsequente.
Prof. Sobrinho Simões (SS): Estes anticorpos monoclonais são contra o quê?
ET:São antiTNF-alfa.
SS: Ambos?
ET:Ambos, sim.
Nós conhecemos este jovem em Novembro de 2010 na admissão no nosso hospital;
ele estava profundamente sintomático, com vómitos, diarreia e febre, era
incapaz de ter marcha autónoma e no exame objectivo era notório o aspecto muito
emagrecido, tinha um índice de massa corporal de 12! Para terem a noção da
gravidade e fazerem paralismo, a anorexia nervosa define-se com o índice de
massa corporal de cerca de 17, portanto percebe-se como estava profundamente
desnutrido. Observava-se um dreno colocado através da nádega direita com
drenagem sero-hemática. Na avaliação analítica inicial era notório um
desequilíbrio metabólico e sinais de inflamação importantes, nomeadamente
trombocitose, PCR e VS bastante elevadas e os vários iões sanguíneos estavam
também diminuídos. Os exames culturais sanguíneos e de fezes viriam a ser
negativos. Portanto tínhamos um jovem de 17 anos, com doença de Crohn luminal e
perianal não controlada, e desnutrição severa.
A nossa preocupação imediata foi promover a recuperação nutricional: foi
iniciada alimentação parentérica de forma progressiva com muito cuidado no
sentido de se evitar o síndrome de renutrição. Na desnutrição severa, ser
demasiado ambicioso logo na fase inicial pode levar a desequilíbrios
metabólicos importantes, nomeadamente insuficiência cardíaca, arritmias e que
podem ser fatais. No sentido de efectuar a avaliação da extensão e gravidade da
doença foram programados outros exames, nomeadamente a Ressonância Magnética
(RM).
JAD: Vale a pena explicar que a RM faz parte do protocolo de avaliação da
doença inflamatória intestinal, particularmente da Doença de Crohn, porque
permite avaliar a extensão e a gravidade dos trajectos fistulosos perianais,
mas também a extensão da doença no Intestino Delgado, que condiciona as opções
terapêuticas e prognóstico dos doentes.
Há alguma questão?
SS: Vou colocar uma aos nossos alunos ' Que diferença é que há entre este nome
infliximab e o do outro anticorpo que se chama adalimumab? Então? O mab final
indica monoclonal antibody, um é ximab e o outro é mumab; donde vem o u
em vez de i? De humanizado, claro.
JAD: O infliximab é um anticorpo monoclonal quimérico desenvolvido com uma
percentagem ainda que muito pequena, menos de 5% de proteína de ratinho e como
tal, sendo eficaz no controlo da doença é em si um estímulo antigénico que leva
a que alguns doentes desenvolvam, com o tempo, anticorpos que vão inactivar o
medicamento; quando isso acontece opta-se então por uma versão semelhante do
fármaco, mas totalmente humanizado e que consegue recapturar efeito em doentes
que deixaram de responder ao infliximab.
Plateia: O adalimumab é usado só em 2ª linha quando o doente deixa de responder
ao infliximab?
JAD: Habitualmente é possível voltar a obter controlo da doença com essa
estratégia. Mas, particularmente em adultos, há quem inicie o tratamento
biológico com adalimumab. A vantagem maior deste fármaco é o conforto para o
doente, porque é administrado por via subcutânea, com uma caneta semelhante à
de insulina e os doentes podem fazer isso em casa, sem precisar de vir ao
Hospital, enquanto o infliximab é feito em perfusão. Contudo vale a pena
iniciar por aquilo que é eficaz e que nos deixa ainda uma reserva terapêutica
em caso de falência.
JAD: O TNF-alfa é um mediador inflamatório que se demonstrou estar aumentado na
doença inflamatória, nas fezes em períodos de agravamento da doença, que traduz
produção e acção local na mucosa intestinal. Por isso, inibindo este mediador
pode controlar-se a actividade da inflamação. Isso não cura a doença, mas
permite controlar de forma razoavelmente eficaz o processo inflamatório
intestinal.
Dr. Pedro Abreu (PA): O etarnecpt também é usado para o tratamento?
Prof. Fernando Magro (FM): O etarnecept não foi eficaz na Doença de Crohn, não
tem o mesmo conceito farmacológico que tem o infliximab e o adalimumab. É uma
proteína de fusão que tem um receptor e não induz apoptose das células e pensa-
se que é por isso que não foi eficaz na Doença de Crohn, embora não se tenha a
certeza quanto a este facto. Há um outro anticorpo, natalizumab, que a
Neurologia também utiliza, que é um anticorpo contra uma proteína ou alfa4 que
impede as células de ir para os tecidos, que foi aprovado pela FDA mas não pela
EMEA por estar associado a leucoencefalopatia em 1/1000 doentes tratados. Por
isso não está autorizado na Europa para tratamento da doença inflamatória,
doença de Crohn, embora seja eficaz.
Há quem diga que há um efeito de classe entre os anti-TNFs que são todos
iguais. Eu tenho algumas dúvidas O infliximab é um anticorpo quimérico,
utilizado por via endovenosa; o adalimumab por via subcutânea. Em termos de
farmacocinética, a área debaixo da curva dos 2 fármacos não é a mesma e por
isso tenho dúvidas quanto à sua eficácia ser completamente sobreponível: o
infliximab está aprovado na Europa para tratamento da Doença de Crohn e colite
ulcerosa, e o adalimumab até agora só para a Doença de Crohn e ainda não
demonstrou eficácia muito acentuada na colite ulcerosa.
Plateia:O etarnecept tem sido muito utilizado em Reumatologia. Claro que são
doenças diferentes, mas em termos biológicos a acção do TNF provavelmente é
diferente no Crohn ou na artrite reumatóide...
FM: Pensa-se que a grande diferença é a capacidade de induzir apoptose: na
doença inflamatória é quase obrigatório os induzir apoptose para ter alguma
eficácia em termos de terapêutica e biológica.
SS: Induzir apoptose de quê e porquê?
FM:Induzir a apoptose dos linfócitos das células mononucleares porque na Doença
de Crohn há uma resposta exagerada no modo e no tempo das células
mononucleares: no modo porque há um excesso de produção de TNF-alfa, interferão
gama e interleucina 12; no tempo porque perante o mesmo estímulo antigénico as
células respondem de forma diferente e desadequada durante muito tempo. É,
pois, importante ter mecanismos controladores das células biológicas de
frenação deste mecanismo imunológico e a apoptose é um desses mecanismos.
Dr. Luís Guimarães (LG): O esfíncter anal interno está em continuidade com a
camada circular da musculatura do recto. Visto desta outra forma nós vemos o
esfíncter anal externo em continuidade com o diafragma pélvico, o esfíncter
anal interno em continuidade com a camada circular da musculatura da parede do
recto, e há umas fibras longitudinais que são a continuação da camada
longitudinal muscular do recto. Visto em secção, em corte axial, que é assim
que nós geralmente vemos estas imagens de Ressonância Magnética, de facto temos
aqui a mucosa do ânus, à volta uma camada muscular que corresponde ao esfíncter
anal interno e o esfíncter anal externo a continuar-se com o diafragma pélvico.
Posto isto ao lado de uma imagem de RM, vemos o esfíncter anal interno, e
depois o esfíncter anal externo a continuar-se com o diafragma pélvico.
No doente em discussão existem muitos trajectos fistulosos que distorcem a
anatomia desta zona. Temos aqui duas imagens ponderadas em T2 (Fig._2). Neste
tipo de ponderação, tudo o que seja inflamação ou edema aparece brilhante,
aparece muito branco. Contudo, há um problema nesta imagem (Fig._2a): é que
também a gordura aparece a branco e isso reduz a conspicuidade dos processos
patológicos. Por isso usamos uma técnica em que damos um pulso de
radiofrequência que satura toda a gordura, a qual passa a aparecer a preto.
Assim, nesta figura (Fig._2b) tudo que vêm a branco é de facto um processo
patológico, que fica muito mais conspícuo com esta sequência, que é na mesma
ponderada em T2, mas com saturação da gordura. Agora penso que conseguem
reconhecer o esfíncter anal interno e é possível ver aqui um traço muito branco
que, de facto, não devia existir aqui; o esfíncter anal interno devia ser uma
estrutura contínua, como vos mostrei na figura anterior (Fig._1c). Isto é,
pois, um trajecto fistuloso que intercepta não só o esfíncter anal interno como
o esfíncter anal externo. Este trajecto fistuloso tem origem no canal anal
sensivelmente às 6 horas. Os radiologistas e os cirurgiões costumam imaginar um
relógio a nível do esfíncter anal interno em que as 12 horas estão na parede
anterior e assim entendemo-nos quanto à localização das lesões nos exames de
imagem.
Há um trajecto fistuloso que sai no ânus sensivelmente às 6 horas e depois tem
3 ramificações, uma para o lado esquerdo, outro trajecto que continua para cima
e que vai originar uma fístula de grandes dimensões (há quem chame a isto uma
pequena colecção, há quem chame a isto uma fístula de grandes dimensões) ' Fig.
3a - localizada na fossa isquioanal à direita e depois este trajecto, esta
fístula transfinctérica, que intercepta o esfíncter anal interno e externo,
continua-se também para um trajecto que desce até sair e drenar na nádega
direita (Fig._3b) e num segundo local a nível do sulco internadegueiro na
nádega esquerda. Nesta imagem vê-se um espessamento da parede do cólon sigmoide
(Fig._4). Esta imagem, obtida após administração de produto de contraste
endovenoso, mostra uma linha branca a delinear internamente a parede do cólon
sigmoide e do recto, que não é habitual ver-se com esta conspicuidade e traduz
híper-captação, hiperemia da mucosa e é o sinal mais importante que confirma
doença activa. Os trajectos fistulosos, que descrevi há pouco, captam também
activamente o produto de contraste, por isso aparecem a branco e vemos as
paredes a captar; o interior é muito preto, neste caso provavelmente por
presença de algumas bolhas de gás. Há uma classificação (score de Van Assche)
que nos indica a gravidade e severidade do atingimento da doença perianal nos
doentes de Crohn. Os parâmetros que entram nesse índice têm a ver com a
complexidade dos trajetos fistulosos, a localização, etc. Este doente tem de
facto um score altíssimo, porque tem múltiplos trajectos fistulosos, uma
fístula transfinctérica e extensão que chega ao andar supra-elevador, portanto
acima do diafragma pélvico, e tem hipersinal em T2 muito marcado; tem ainda o
abcesso na fossa ísquio-anal direita e envolvimento na parede rectal com
hipercaptação da mucosa e espessamento parietal.
JAD: Obrigado. Temos pois um jovem com Doença de Crohn de início precoce, com
uma forma que responde mal ao tratamento, doença penetrante muito agressiva,
indícios de supuração que dificultam também a opção por medicamentos que são em
si imunossupressores e desnutrição muito grave. O quadro estava traçado como
situação particularmente agressiva.
ET: Perante esta informação da ressonância foi programada exploração cirúrgica
da região perianal sob anestesia. A sedação profunda ou anestesia é essencial
para facilitar a observação e tratamento sem agravar o desconforto do doente.
Foram então colocados drenos nos trajectos fistulosos para drenagem eficaz das
colecções purulentas.
No mesmo tempo anestésico procedeu-se a avaliação endoscópica da actividade da
doença no tracto digestivo alto que não mostrou alterações. A observação
endoscópica do segmento distal do colon mostrou mucosa muito friável com
úlceras e fibrina abundante que impedia quase a observação de mucosa
subjacente.
JAD: E o que nos mostra a análise do material obtido em biópsias?
Drª Joanne Lopes (JoL): No Serviço de Anatomia Patológica, recebemos produtos
de biópsia de Endoscopia Alta: duodeno, estômago e esófago. A mucosa duodenal
apresentava características normais (vilosidades alongadas, digitiformes, sem
alterações inflamatórias). (Fig._1A) Na mucosa gástrica do antro observam-se
lesões de gastrite crónica focalmente activa e presença de pequeno granuloma
epitelióide, sem células gigantes ou necrose (Fig._1B). No esófago observou-se
alongamento das papilas sub-epiteliais, com infiltrado inflamatório polimórfico
e exocitose de células inflamatórias na espessura do epitélio esofágico (Fig.
1C). Em resumo, no tracto digestivo superior observam-se lesões de gastrite
focalmente activa com granuloma e esofagite com actividade (sem granuloma).
JAD: Aqui podem perguntar, mas afinal se a doença afectava o intestino distal,
porque fomos fazer a endoscopia alta? E a resposta é rápida: são
internacionalmente aceites os critérios de avaliação de Doença Inflamatória
Intestinal publicados e descritos como os critérios do Porto que consistem em
avaliação da extensão da doença em todos os doentes com DII e muito
particularmente na situação da Doença de Crohn porque sabemos que pode envolver
todo o tubo digestivo. Por isso a endoscopia alta com biópsias faz parte do
protocolo diagnóstico. Já tivemos casos em que a identificação de granuloma
numa biópsia gástrica conduziu ao diagnóstico, pelo que fazemos biopsias de
todos os segmentos.
ET: Após esta avaliação inicial da actividade da doença, continuámos a investir
na recuperação nutricional, com alimentação parentérica por cateter venoso
central, e fomos conseguindo alguma autonomia digestiva o que permitiu iniciar
dieta polimérica e houve recuperação ponderal significativa. No sentido de
controlar a actividade da doença, sabendo que não havia abcessos intra-
abdominais nem perianais, foi instituída terapêutica com prednisolona,
infliximab e mantivemos antibioterapia que parece ser eficaz no encerramento
dessas fístulas. Promoveu-se também a recuperação funcional e iniciou um
programa de fisioterapia, para melhorar a mobilidade e força muscular. Cerca de
1 mês mais tarde foi repetida a ressonância que mostrava trajectos
sobreponíveis e aumento do hipersinal em T2 indiciando persistência da
actividade inflamatória.
LG: Esta é a 1ª ressonância do doente e vamos agora ver a 2ª: nota-se que os
trajectos fistulosos são exactamente os mesmos. Há ainda a fístula
transfinctérica com derivação para a esquerda, trajecto fistuloso de grandes
dimensões para a fossa ísquio-anal direita e um trajecto na nádega direita que
acaba por drenar na pele em dois sítios. Os trajectos fistulosos são os mesmos
mas há uma diferença entre as duas que tem a ver com o maior brilho, ou seja, é
mais branco, isto é, há aumento do hipersinal em T2, o que tem tradução
fisiopatológica: significa maior grau de inflamação (Fig._5). Havia, pois,
agravamento dos achados perianais, apesar dos aspectos fistulosos serem os
mesmos.
ET: Em Dezembro de 2010 tínhamos já efectuado duas perfusões de infliximab do
esquema de indução, continuava com corticoterapia e mantinha terapêutica
antibiótica. Do ponto de vista bioquímico, estávamos contentes com a evolução,
pois havia normalização dos parâmetros que habitualmente utilizamos (VS normal
e PCR negativa). Do ponto de vista nutricional também o doente continuava a
recuperar e com bom estado geral, já capaz de deambular sozinho. No entanto em
Janeiro de 2011 ocorreu novo reagravamento, em que a doença perianal tinha
aumento da supuração. Por isso foi decidido proceder a colostomia de derivação
no sentido de poupar a região perianal e tentar controlar melhor esta doença
muito agressiva.
JoL: A peça de colostomia era constituída por um segmento cólico com 3 cm de
comprimento. No revestimento mucoso há alternância de áreas de mucosa
preservada e outras constituídas por tecido de granulação, a traduzir ulceração
(Fig._2 O processo inflamatório envolve toda a espessura da parede, com
constituição de agregados linfóides.
ET: Cerca de 15 dias depois da colostomia temos novo agravamento clínico, desta
vez com perda ponderal, um humor depressivo e um dado novo que foi o
aparecimento de dores nos membros inferiores e região lombar com alterações da
sensibilidade com hiperstesias. Nesta altura fazemos nova avaliação da
atividade da doença, colonoscopia efectuada pelo topo da colostomia mostrava
apenas um discreto eritema do cólon descendente e uma mucosa algo friável e na
colonoscopia que foi efectuada pelo ânus apresentava-se a mucosa revestida por
muco e com área de eritema, do ponto de vista macroscópico a endoscopia era
difícil dizer se se tratava de doença ativa ou se correspondia de facto a uma
situação de disfuncionalização deste segmento.
JAD:Nestafase da evolução peço Prof Júlio Leite para comentar a perspectiva
cirúrgica perante a evolução agressiva deste doente.
Prof. Júlio Leite (JL): É um caso complicado. A terapêutica médica por vezes,
como neste caso, não estava a ser eficaz, revelando doença refractária ao
tratamento. O processo supurativo era grande a nível pélvico, e o que a equipe
médico-cirurgica decidiu foi desviar as fezes nessa área tentando reduzir o
processo inflamatório sem ainda tomar ainda a decisão de extracção cirúrgica.
Estávamos numa fase intermédia em que a decisão foi desfuncionalizar: com o
sigmóide colocado à pele, por colostomia, as fezes deixam de passar pelo recto
e pode admitir-se que haja redução do processo inflamatório. A cirurgia que foi
feita antes consistiu na colocação de drenos.Não era previsivel que só com isso
curasse porque havia uma solução de continuidade a nível do canal anal. A
doença de Crohn ocorre porque a mucosa começa a estar alterada e há solução de
continuidade que é foco da entrada da infecção e começa a drenar por vários
sítios. Com tratamento médico tudo pode voltar ao normal, mas neste caso não
estava a acontecer.
JAD: O doente já tinha sido anteriormente tratado com fármacos biológicos '
infliximab e adlimumab ' e havia algum risco de hipersensibilidade ao reiniciar
esse tratamento. Contudo, com a agressividade da doença, uma vez controlado o
componente séptico fazia sentido tentar recuperar o efeito do biológico.
Aproveitando a menção do Prof. Júlio Leite à desfuncionalização de um segmento
intestinal, trata-se de técnica usada muito antes dos novos fármacos. Ao
eliminar o contacto antigénico nutricional com a mucosa há melhoria.
Particularmente em Pediatria temos experiência de que a 1ª linha de tratamento
da Doença de Crohn é um tratamento nutricional, que consiste em alimentação
polimérica, eliminando grande parte da estimulação antigénica e por modificação
do microbioma intestinal, conseguimos controlar a inflamação. Portanto,
desfuncionalizar um determinado segmento e tirá-lo do contacto com a
estimulação luminal poderia conduzir a melhoria sintomática do doente e a
diminuição da actividade inflamatória do segmento distal deixando em aberto
outras opções de reanastomosar ou não este doente conforme a evolução
subsequente.
O Dr. Miguel Campos, cirurgião, operou o doente e poderá comentar o
procedimento.
MC: A decisão de realizar a colostomia foi tomada em grupo e estávamos
conscientes de que neste tipo de doença o sucesso é variável. As várias séries
apresentam taxas de sucesso que variam dos 30 aos 80%. Mas não esqueçam que
estamos perante um jovem de 17 anos e que estamos no início de um processo,
pelo que a opção é sempre a menos invasiva possível. Isso foi proposto e
explicado ao doente e à família que a probabilidade de sucesso é variável.
JoL: A peça de colostomia era constituída por um segmento cólico com 3 cm de
comprimento. No revestimento mucoso há alternância de áreas de mucosa
preservada e outras constituídas por tecido de granulação, a traduzir ulceração
(Fig._2). O processo inflamatório envolve toda a espessura da parede, com
constituição de agregados linfóides.
ET: Prosseguindo a avaliação, repetimos a ressonância magnética pélvica, que
mostrava ainda as fistulas conhecidas com dreno e comprovava-se mais uma vez o
espessamento inflamatório do colon distal, nomeadamente do sigmóide e do recto.
O doente estava sob imunossupressão pesada com infliximab, corticoterapia e por
isso a presença de coleções abcedadas é contra-indicação absoluta ao uso destes
fármacos.
LG: Voltamos a ter um nível de hipersinal em T2 nos trajectos fistulosos
equivalente aos da primeira ressonância. Portanto houve melhoria nesse sentido,
provavelmente devido à colostomia e também ao tratamento médico efectuado. E
houve também melhoria das paredes do cólon sigmóide, um bocadinho menos
espessada. O edema que circundava a parede do cólon sigmóide e a parede do
sigmoide tinha desaparecido nesta 3ª ressonância.
JL: Eu fiquei com a impressão de que a doença mais activa fosse no recto,
espessadíssimo. Tem a certeza de que não há mais soluções de continuidade? Será
só aquela a nível do canal anal? Poderia haver uma solução de continuidade mais
alta que justificasse o abcesso supra elevador.
LG: Nas ressonâncias o abcesso era adjacente ao elevador do ânus, mas infra
elevador e havia espessamento de todo o recto e cólon sigmoide. Numa das
últimas ressonâncias começamos a ver um bocadinho de espessamento parietal no
íleo terminal, mas mesmo do ponto vista endoscópio, já havia sinais da doença
que não existiam inicialmente. Não havia mais doença a não ser no recto e cólon
sigmoide; havia um outro trajecto fistuloso que tinha origem sensivelmente às
12 horas e se dirigia para o escroto, para a vertente esquerda do escroto e que
foi a apresentação do doente: abcesso escrotal, que provinha da mesma zona, com
dois orifícios, portanto não era uma fistula em ferradura, era um orifício de
fistula transfinctérica às 6 horas e outra às 12 horas, uma com direção
posterior que depois ramificava e outra com direção antero-lateral esquerda.
MC: O seton é um material que nós usamos nesta situação, mas pode ser material
diferente, que se passa através do trajecto fistuloso para não o deixar
encerrar e não formar o abcesso. Não queremos que se forme um abcesso. O doente
teve 2 setons.
ET: Cerca de 2 meses após a admissão tínhamos o doente já com 3 perfusões de
infliximab, ainda sob corticoterapia, metronidazol, ciprofloxacina e foi
adicionada azatioprina na tentativa de obter um melhor controlo da doença. Como
vos disse nesta última recaída, havia um achado novo - dores nos membros
inferiores, atrofia muscular acentuada de ambas as pernas e marcha com
características neuropáticas. Foi então realizada electromiografia que mostrou
polineuropatia motora e sensitiva primariamente axonal de gravidade moderada.
Foi considerada a possibilidade de toxicidade pelo infliximab, ou pelo
metronidazol, e não podíamos excluir complicações da desnutrição severa por que
o doente tinha passado e causar polineuropatias axonais. Perante a melhoria
clínica que que se esboçava decidimos manter a estratégica terapêutica, com a
4ª perfusão de infliximab e cerca de 2 semanas depois, repetimos a
electromiografia e que mostrava agravamento da polineuropatia agora também com
características desmielinizantes. Decidimos então suspender o infliximab
repensar a estratégica, e foi iniciado metotrexato. O doente tinha dor muito
incapacitante, e pedimos apoio à consulta da Dor. Para controlar o desconforto
do doente, foi necessário recorrer a amitriptilina, gabapentina, tramadol e
diazepam. Não se lhe podia tocar nos pés, que despertava dor intensa e não era
capaz de andar.
JAD: Peço ao Dr. Pedro Abreu do Serviço de Neurologia que nos comente os
achados e a probabilidade da relação iatrogénica destas alterações.
Dr. Pedro Abreu (PA): Não me parece que fosse uma neuropatia só devida ao
infliximab; provavelmente seria multifactorial. O infliximab e os outros
inibidores do TNF-alfa têm um mecanismo de acção quase pleiotrópico. Os efeitos
secundários serão devidos a ataque auto-imune, mediado por células T, e
factores humorais contra a mielina e daí darem neuropatias desmielinizantes.
Podem haver também mecanismo vasculítico, ou seja há interrupção do vaso, vasa
nervorum com isquemia e o nervo entra em sofrimento e tem desmielinização. Pode
ainda ocorrer um mecanismo mais complexo, por inibição de sinalização das
proteínas de suporte axonal e também estes inibidores do TNF-alfa poderem
causar neuropatias axonais. No entanto, a maior parte os efeitos secundários
descritos na literatura são sobre o sistema nervoso central, causam
desmielinização, agravamento de lesões de esclerose múltipla porque já são
lesões desmielinizantes. Estão descritos assim mesmo muitos quadros, agudos de
neuropatias e axonais, desmielinizantes (as neuropatias agudas tipo Sindrome
Guillian-Barré). Estão também descritas polineuropatias axonais e
desmielinizantes crónicas, neuropatias motoras multifocais com bloqueios de
condução, neuropatias sensitivas motoras desmielinizantes adquiridas,
neuropatia múltipla por um processo mais de vasculite, polineuropatias
sensitivo-motoras axonais distais e ainda raramente miopatias. A associação com
metronidazol pode também ocasionar doença intersticial pulmonar. O tratamento
destas polineuropatias causadas pelos inibidores do TNF-alfa passa pela
suspensão do fármaco, a recuperação é quase universal na maior parte dos
doentes e normalmente ao fim de um ano estão completamente recuperados. Estas
complicações surgem em média ± 9,5 meses depois de ter iniciado o fármaco, mas
estão casos descritos após 2ª toma ou 12 meses demais de terem tomado o
fármaco. Há um caso publicado em que o doente teve polineuropatia aguda
desmielinizante com infliximab, mudou-se para adalimumab e o doente está bem
sem alteração polineuropática, Noutros casos insistiu-se com infliximab e os
doentes não tiveram alteração autoimune, portanto não se percebe muito bem
porque acontece. É, por vezes, complicado encontrar nexos de casualidade
JAD: Mas neste doente há um 2º culpado potencial?
PA:. Temos o metronidazol também. O uso crónico também dá neuropatias; 85% dos
doentes têm neuropatia crónica e sub-aguda ao fim de 1 ano de tratamento com
metronidazol, sobretudo quando tomam doses totais superiores a 30gr. O
metronidazol causa neuropatia sensitiva axonal distal simétrica. A recuperação
normalmente ocorre 6 a 12 meses depois de terminar o fármaco. Mas estão
reportados casos em que não houve recuperação e houve até agravamento da
polineuropatia. Temos outro 3º culpado provável que é a desnutrição terrível
que este doente teve. O défice de vitamina B12, causa atingimento do sistema
nervoso central: há degenerescência combinada, alterações cognitivas, ataxia da
marcha, isto também pelo processo de desmielinização. Do ponto de vista
neuromuscular dá neuropatia sensitiva de predomínio axonal, neuropatia motora,
mais tardia. As as neuropatias são mais sensitivas o que é parecido com este
caso, ou seja, os doentes queixam-se inicialmente da sensibilidade, dor
neuropática com alodínia: qualquer estímulo não doloroso provoca a dor com
distesias, parestesias, etc. Pode ainda ocasionar neuropatia autonómica e
hipotensão postural. O tratamento passa pela ministração de vitamina B12. Do
ponto de vista clínico se os níveis de vitamina B12 estão próximos de 200 µg/ml
e temos dúvida se há défice é importante dosear o ácido metilmalónico e
homocisteína porque isso nos indica se há défice de vitamina B12. A vitamina E
por si só também causa neuropatia sensitiva de predomínio axonal distal, como é
este caso, e afecta grandes fibras causando também ataxia sensitiva. Também
défices de cobre, magnésio e vitamina D podem causar neuropatia. Temos pois
vários factores para a polineuropatia. A interrupção do fármaco poderá revelar
o nexo de causalidade.
JAD: A opção nessa altura foi suspensão dos fármacos. Este jovem deixou de
andar e passou a deslocar-se em cadeira de rodas. Tinha pois atingimento grave.
Eunice diga-nos como correu depois
ET: Em Março de 2011 surgiu um novo abcesso na nádega direita no local onde
teve um dreno que foi progressivamente retirado para promover o encerramento do
trajecto fistuloso. Em Maio de 2011 apareceu um abcesso na região umbilical na
zona onde tinha sido inserido um trocar aquando da colostomia, que teve
drenagem espontânea. Curiosamente do ponto de vista geral foi entre Março e
Junho de 2011 que teve a melhor fase em termos gerais: retomou a escola, repôs
o peso normal e passou a ter marcha autónoma. Em Junho de 2011 tivemos novo
agravamento, com diarreia e perda ponderal, a colonoscopia mostrou então
atingimento descontínuo da mucosa com úlceras, fibrina, com atingimento mais
exuberante no cego e no descendente.
JoL: Nos fragmentos de biopsia obtidos por endoscopia alta não se observaram
alterações relevantes. Nos fragmentos obtidos por endoscopia baixa salientava-
se a existência de ulceração no cego (Fig._5A) e alterações inflamatórias com
actividade, sem distorção arquitectural, no ascendente, transverso e
descendente, com metaplasia de células de Paneth, tal como acontece na doença
de Crohn (Fig._5B).
ET: Tínhamos novamente agudização da doença luminal, fistulizante evolutiva e à
qual se associou iatrogenia. Optou-se por aumentar a dose de metrotexato tendo
em conta a recuperação ponderal, e um ciclo de corticoterapia a que
correspondeu melhoria clínica e analítica.
Em Setembro de 2011, teve uveíte unilateral que acabou por se resolver com
terapêutica, e controlo oftalmológico normal.
Em Dezembro de 2011, ocorreu novo agravamento desta vez com doença perianal
destrutiva e reabertura da fístula escrotal que se tinha manifestado no
diagnóstico aos 13 anos. A imagem (fig ) mostra a pele ulcerada do ânus ao
escroto.
Iniciou-se aplicação tópica de pomada de tacrolimus que promoveu considerável
melhoria (fig ). Cerca de um mês e meio depois cicatrizou completamente
cicatrizado.
Em Fevereiro, já deste ano, aparece o que nos pareceu uma lesão metastática no
prepúcio e na glande, com exsudado que se mantinha cronicamente. Foi efetuada
biópsia.
JoL: Nos fragmentos de biopsia obtidos por endoscopia alta não se observaram
alterações relevantes. Nos fragmentos obtidos por endoscopia baixa salientava-
se a existência de ulceração no cego (Fig._5A) e alterações inflamatórias com
actividade, sem distorção arquitectural, no ascendente, transverso e
descendente, com metaplasia de células de Paneth, tal como acontece na doença
de Crohn (Fig._5B).
ET: Em resumo, temos uma doença de Crohn com 5 anos de evolução, num jovem de
18 anos, com atingimento perianal agressivo, agudizações frequentes da doença
luminal, com manifestação extra intestinal de uveíte e provável lesão
metastática no prepúcio, em quem foi efectuado uma escalada terapêutica sem
nunca verdadeiramente termos conseguido um controlo eficaz e prolongado da
doença, sobretudo perianal. Durante este processo terapêutico ocorreu ainda
iatrogenia. A discussão é agora qual a estratégia futura.
JAD: Peço ao Prof. Júlio Leite o seu ponto de vista perante esta grave
situação.
JL: É um caso difícil e tem de ser acompanhado. Não sei como é que está o
períneo neste momento: supurando? Cicatrizado? Mantém-se em actividade? está
digamos praticamente sem nenhum processo supurativo? 2ª questão: como é que
está o recto? Não tivemos fotografias da endoscopia para mostrar. O recto está
desfuncionalizado, mas pode ser um recto que está tão fibrótico, colapsado, não
sei se vem a ter capacidade de distensibilidade e do doente utilizar, numa
perspectiva futura. Há uma doença perianal grave que se acompanha de uma
proctite, inflamação grave do recto; é um prognóstico mau, e se não
conseguirmos controlar a doença, teremos necessidade mesmo de tirar o recto,
para tentar solucionar o problema. Qual tem sido a evolução clínica?
FM: Neste momento o doente não tem seton, tem o períneo completamente
cicatrizado e as fístulas estão cicatrizadas. Não tem drenagem nenhuma. Temos
neste momento a doença anal clinicamente controlada
MC: Deixa-me fazer um comentário. Têm sido apresentados aqui os episódios de
agudização, mas nos intervalos tem fases de melhoria em que não supura nada;
tem supuração vestigial e quando a supuração aumenta ou aparece uma colecção de
novo é que são as agudizações. O caso é complexo, mas a apresentação baseia-se
nos episódios de agravamento e durante este ano e alguns meses e ele tem
episódios em que anda francamente bem. Esta é a primeira fase em que
provavelmente não há nem sequer um orifício fistuloso visível, mas houve fases
sem drenagem e com encerramento de trajectos e depois reabertura.
LG: Eu queria fazer um comentário, porque este tema tem sido extensamente
estudado na literatura radiológica e gastroenterológica recente. Inicialmente
utilizava-se a existência ou não de drenagem dos trajectos fistulosos na pele
como critério de resposta ou de remissão clínica. Começou depois a reparar-se
que, apesar de às vezes os doentes entrarem em remissão clínica sem terem
trajectos fistulosos a drenar, a ressonância revelava um ou mais trajectos que
mostravam actividade, ou seja o tal hipersinal nas sequências ponderadas em T2
e a captação do produto de contraste. Num doente sem iatrogenia cada vez mais o
objectivo terapêutico não deve ser a remissão clínica (ausência de drenagem das
fistulas), mas sim a remissão radiológica. Na ressonância, podemos ter fístulas
mas sem hipersinal em T2 nem captação, isto é, fístulas ou trajectos fistulosos
crónicos. A última ressonância mostra os trajectos fistulosos exatamente iguais
à 1ª, com os mesmos sinais de actividade. Mesmo que neste momento não tenha
trajetos a drenar estou convencido de que uma nova ressonância voltaria a
revelar númerosos trajetos e doença em actividade.
FM: Trata-se duma doença de Crohn com inicio aos 13 anos. Sabemos hoje que o
inicio antes dos 16 anos ou antes dos 40 anos é factor de mau prognóstico.
Antigamente estratificava-se a doença em ligeira, moderada ou grave e
instituía-se a terapêutica de acordo com essa estratificação. Atualmente
reconhecem-se grupos de risco e deve actuar-se com essa estratificação. Neste
caso há doença antes dos 16 anos, envolvimento do recto, que é outro factor de
risco de mau prognóstico, e do tracto digestivo superior porque tem um
granuloma, que é outro factor de mau prognóstico e doença anal. Tem 4 dos
factores de mau prognóstico e provavelmente emagrecimento superior a 5Kg no
diagnóstico. Perante um doente assim a terapêutica exigida hoje inclui
imunossupressores, para tentarmos alterar a história natural da doença. Houve
um conceito clássico de abordar a doença de Crohn. Actualmente temos uma
abordagem diferente. No protocolo actual utilizamos azatioprina desde o
tratamento inicial. Na 1ª recidiva da doença luminal ou anal, recomenda-se
introdução de fármaco biológico anti-TNF alfa. Como disse o Sr. Prof. Júlio
Leite ocorreu destruição sucessiva da estrutura anatómica e funcional anal.
Também tenho dúvidas que este recto mesmo sem ulceração venha a ser funcional.
Tendo sido refractário ao infliximab é lícito reintroduzi-lo? O Anti-TNF mais
eficaz na doença anal é o infliximab e a estratégia mais eficaz é infliximab
mais azatioprina. Estamos a correr riscos de linfoma neste doente, mas temos
que os assumir claramente perante nós e perante o doente ou não conseguimos
alterar a evolução. Temos doença anal não controlada e enquanto não a
controlarmos medicamente, como disse o Prof. Júlio Leite, não conseguimos
resolver as fístulas nem os abcessos. Portanto o objectivo actual é resolver a
doença medicamente e a estratégia combinada que se adoptou foi de infliximab
mais metotrexato que hoje se admite ser o mais eficaz para este tipo de doença
ou infliximab mais azatioprina como ele tinha feito. Em grupo assumimos uma
estratégia possível que é assumir o risco de reintrodução de biológico,
maximizar o metotrexato e suspender o corticoide.
JAD: Vale a pena aqui abrir um parêntese para quem não está muito familiarizado
com o tratamento de doença inflamatória intestinal. Em gastrenterologia de
adultos sobre o tratamento da doença de Crohn discute-se muito a abordagem
step up, isto é corticoide, imunomodelador e biológicos ou top down, ou
seja, começar com biológicos e depois ir decrescendo a medicação. Em Pediatria
este protocolo top down não provou ainda ser igualmente eficaz e não há
evidência que o justifique em doentes pediátricos. Contudo em Pediatria fazemos
outra coisa, o rapid step up, isto é, se os doente têm factores de gravidade,
como o Prof Fernando Magro mencionou, iniciamos não só o corticoide mas também
o imunomodelador (azatioprina) em simultâneo. Sabemos que a azatioprina leva
pelo menos 3 meses a ser farmacologicamente eficaz e por isso há que a iniciar
precocemente para podermos reduzir os corticoides e manter o efeito
terapêutico. Havendo factores de risco progredimos mais rapidamente, e
avançamos para os biológicos. À luz da experiência actual poderia iniciar mais
precocemente biológicos por todos os factores de gravidade que tinha.
SS: Gostaria de saber se foi doseada a vitamina B12.
ET: Isso foi feito inicialmente e não havia défice, com valor de cerca de 450
pg/ml.
JAD: O doente esteve durante meses com alimentação parentérica, com
suplementação adequada dos vários oligoelementos, pelo que era improvável que
ocorresse, a não ser por acidente técnico de preparação.
PA: Nos casos publicados com polineuropatia ocasionadas pelos inibidores do
TNF-alfa, alguns autores não reiniciaram, provavelmente porque a doença era
menos grave do que este. Em dois casos ocorreu síndrome de Guillan-Barré e foi
necessário ministrar imunoglobulinas recuperar da poliradiculo-nevrite aguda
desmielinizante. Sugiro que se realize electromiografia 4 semanas após
reiniciar o infliximab. No nosso doente pode surgir polineuropatia aguda ou
crónica e vários tipos de polineuropatias, bloqueios de condução etc, pelo que
vai necessitar de vigilância clínica sobretudo neurológica e perante qualquer
suspeita de parestesias, disestesias ou alteração polineuropática vai
necessitar de electromiografia. Como vimos não há relação obrigatória com a
dose: alguns só tiveram reagravamento neurológico ao fim de 12 meses, e vamos
pois avaliar o ponto de vista clínico do doente e estar atento a qualquer
alteração neuropática e repetir a electromiografia perante qualquer suspeita
mínima. Eu gostava de perguntar se há hipótese de dosear dos anticorpos contra
o fármaco.
FM: É possível fazer o doseamento do fármaco e anticorpos, mas nós utilizamos
mais em termos farmacocinéticos a quantificação do fármaco. Se o fármaco
estiver em níveis adequados depois já não fazemos o doseamento de anticorpos,
mas isso está mais provado de certa forma para a doença luminal, não para a
anal.
JAD: Perante todo este cenário e dificuldades, a situação foi discutida com o
doente e com a família. A nossa proposta foi reiniciar o infliximab,
conscientes de que havia algum risco de poder surgir efeito lateral, mas com
vigilância e precocemente suspender, se necessário. Havia um claro risco de
recidiva da doença sem este tratamento. Como foi dito, os trajectos fistulosos
estão aparentemente encerrados depois de retomar o infliximab. Eles aceitaram
conscientemente o risco do tratamento. Realizou-se a 1ª infusão e esta semana
tem melhoria substancial. Uma das angústias desta família é se a evolução teria
sido diferente numa instituição diferente da inicial. Não é garantido que assim
seja; este doente tem uma evolução particularmente agressiva que é pouco
frequente neste grupo etário. Seria muito interessante avaliar factores
genéticos, saber se tem mutações do NOD2. Como sabem há factores genéticos que
predispõem para um risco acrescido de doença de Crohn, mas não são exclusivos
nem suficientes para a ocorrência da doença. Os doentes que tem uma ou duas
mutações no NOD2/CARD15 têm risco de doença mais agressiva. Temos aqui uma
doença particularmente grave, com decisões terapêuticas muito delicadas, e é
muito evidente a necessidade de informarmos os doentes e serem parte
interessada nas decisões que é preciso tomar. E agora o que pensam os
cirurgiões em termos de futuro desta colostomia e deste intestino distal. O que
acham que se pode prever?
JL: Nós temos verificado nos adultos que tratamos com doenças graves de Crohn é
que realmente conseguimos diminuir o processo inflamatório. Neste doente se
estiver assim tudo suavemente, sem processo inflamatório e existir ainda um
trajecto que vá supurando ligeiramenteC e deixar cicatrizada aquela zona. O que
nos interessa é que tudo cicatrize e depois, é possível que possa vir a tentar
fechar a colostomia. Com o que vimos daquele recto, acho que vale a pena fazer
um clássico clister com gastrografina, pois temos convicção de que o recto só
funciona se for distensível; se estamos na presença de um recto que não se
distende o próprio doente tem dificuldade em segurar as fezes. A capacidade da
continência depende da distensibilidade do recto e do tamanho esfíncter, que já
está um pouco comprometido pelas lesões. Se associadamente a isso o doente tem
tendência para diarreia, pode ter incontinência e aí então o resultado clínico
não é bom. Estamos pois perante uma certa dificuldade de dizer o que vai
acontecer.
Plateia: No início da apresentação disseram que o doente veio para cá com
proposta de protocolectomia total certo? Tendo em conta que a doença é tão
grave, não põe esta hipótese cirúrgica porquê ou em que casos é que o fariam?
JL: Tem toda a razão. Se verificarmos que é uma doença refractária, se a
terapêutica médica que hoje em dia sabemos que é eficaz, não puder ser
realizada pela polineuropatia ou se continuar a reactivar, poderemos chegar à
tal situação de ter que tirar a doença,que parecia mais localizada ao recto e
sigmoide. Mas agora já verificamos que também estava no cólon direito. Mas essa
hipótese mantém-se e tenho vários doentes relativamente jovens tratados com
essa terapêutica.
SS: Neste caso as pessoas procuraram proteger o doente no sentido de não
avançar para a cirurgia, porque é muito mutilante.
JAD: A protocolectomia condena inevitavelmente este doente a colostomia para o
resto da vida. O que temos tentado fazer é controlar a doença e ir aguentando,
ver se é possível algures no futuro repor o transito, embora com consciência
destas duvidas e que é pouco provável que isso possa ser feito.
FM: A nossa decisão foi motivada por achamos que a terapêutica médica não tinha
sido ainda esgotada e era preciso maximizá-la para ficarmos tranquilos em
relação ao futuro do doente, e porque o cirurgião não gosta de operar doença
anal, particularmente rectal, quando não conseguimos medicamente controlá-la.
Achámos que em termos médicos podíamos ainda oferecer mais coisas ao doente e
que pode submeter-se a cirurgia num segundo tempo com a doença mais controlada.
Plateia: Imaginemos que conseguimos controlar a doença até os trajectos
fistulosos. Como vamos saber se o recto está funcional ou não? Vamos arriscar a
restituição do trânsito?
JL: Clinicamente temos capacidade pelo exame anal e toque rectal, de ter ideia
da capacidade funcional. A própria endoscopia permite ver se dilata com a
insuflação de ar. Nas imagens estáticas que pode nem ser tão evidente esta
situação de rigidez que nos pareceu. Por vezes operamos doentes em que
temporariamente deixamos uma ostomia por um cano, e fazemos um clister com
gastrografina para ver se há fístula e vemos um tubo muito fino e apesar de
tudo o doente consegue ter uma aceitável continência. Embora tenha expressado
esta dúvida tenho confiança que ainda se vai conseguir encerrar a colostomia.
JAD: Este doente coloca ainda uma outra dimensão preocupante: é a transição
para a consulta de adultos. Nós entregamos aos colegas de adultos doentes que
são verdadeiros presentes envenenados. Quando eles diagnosticam um doente de
Crohn aos 30 anos ou 40 começam a tratá-los desde o principio e vão subindo
esta escalada terapêutica de que fomos falando, mas quando entregamos os nossos
doentes já os recebem no fim da escalada, isto é já correram tudo aquilo que há
disponível e ainda vão ter mais 50 ou 60 anos de doença, o que cria problemas
graves. Por isso é necessário que esta transição se faça de forma muito
harmoniosa para que não haja interrupção de cuidados, para que haja continuação
e acordo nos protocolos terapêuticos de forma a minimizar o risco de
complicações e de agravamento. O Hospital S. João tem sido pioneiro em termos
nacionais na organização desta transição de cuidados e agradeço ao Prof.
Fernando Magro a colaboração que tem dado neste processo.
Plateia: Isto é o fim da linha em termos de terapêutica médica de doença de
Crohn? Se falharem os inibidores TNF, há possibilidade de usar outros
imunossupressores mais potentes?
JAD: Há vários fármacos em investigação e é previsível que em 5 ou 10 anos
outros fármacos sejam usados, actuando noutros pontos da cascata inflamatória.
Plateia: Temos verificado que alguns doentes com patologia autoimune melhoram
quando fazem autotransplante de células progenitoras hematopoéticas na
sequência de mielomas ou linfomas que provavelmente aparecem também na
sequência de patologia autoimune. Qual a sua aplicabilidade na doença de Crohn?
FM: Podemos utilizar o ustequimumab, anti IL12 e IL23, de que começa a haver
estudos na doença de Crohn, e o natalizumab não foi aprovado na Europa, mas
pode utilizar-se off label na doença de Crohn. Há já mais de 40 doentes com
doença de Crohn refratária a todas as terapêuticas convencionais que foram
submetidos a autotransplante com resultados favoráveis de 60 a 70%.
JAD: Há também grupos espanhóis a investigar o implante de células estaminais
no encerramento de trajectos fistulosos, mas tudo isso, está ainda no domínio
da investigação clínica.
Plateia: Eu gostava de perceber melhor o que é e em que consiste a alimentação
polimérica e se foi uma coisa só momentânea naquela agudização? Há alguma
relação directa entre a alimentação e as agudizações da doença?
JAD: Há mais de 20 anos, em crianças com formas graves de Crohn perianal os
cirurgiões faziam derivações do transito intestinal, com colostomia, como forma
de curar ou melhorar a doença perianal.Verificava-se que eliminar o contacto da
mucosa com os nutrientes servia para melhorar a inflamação da mucosa. Daí
surgiu a ideia de eventualmente tratar os doentes com alimentação mono
antigénica elementar. Fizeram-se então ensaios com dieta elementar, isto é,
formulas à base de aminoácidos e conseguiram-se resultados semelhantes aos dos
corticóides. Mas adiante, essas dietas são de paladar muito desagradável,
difíceis de aceitar, e ensaiou-se então tratamento com dietas poliméricas e
hoje está claramente documentado em várias metanálises que a alimentação
polimérica durante 6 a 8 semanas na doença de Crohn pediátrica tem resultados
equivalentes ao dos corticóides, mas com claro benefício nutricional e sem os
inconvenientes da corticoterapia. Na doença de Crohn dos adultos esse benefício
é menos evidente, mas na doença de Crohn pediátrica hoje é cada vez mais
generalizada a utilização da dieta polimérica como alimentação exclusiva
durante 6 a 8 semanas na indução da remissão. Um polímero é um conjunto de
moléculas e neste caso usa cadeia proteica. Em vez de aminoácidos simples usam-
se proteínas, que conferem uma monotonia antigénica e consegue-se com esse tipo
de alimentação (em frascos semelhantes a iogurte líquido), nutrir os doentes e
diminuir marcadamente a actividade inflamatória do intestino. Temos alguns
doentes que, quando entram em recaída, preferem voltar à dieta em vez de
corticoides.
Plateia: Uma questão, relacionado com o microbioma, em relação a probióticos ou
antibióticos: não há nada descrito que seja benéfico na doença de Crohn?
JAD: Tem havido imensa investigação sobre isso. Durante dezenas de anos achava-
se que havia um agente infeccioso que causaria a doença de Crohn. Como sabem é
uma doença granulomatosa e por semelhança com outras doenças granulomatosas
como a tuberculose achava-se que provavelmente havia um agente específico que
causava a infecção. Não se idnetificou, contudo um agente único sabemos que a
doença decorre da interacção com a flora bacteriana intestinal, o microbioma.
Factores genéticos, mas também ambientais, como o tipo de gorduras, açúcares,
etc, terão papel importante. Há 20 anos verificou-se que indianos que emigram
para Inglaterra tinham uma baixa prevalência de doença inflamatória intestinal,
mas os seus filhos com o mesmo património genético já tinham uma prevalência
igual ao da população inglesa, o que revela a importância dos factores
ambientais.
Contudo, o uso de agentes vivos, como os probióticos, não revelou resultado
sconsistentes na prevenção ou no tratamento da Doença de Crohn. Num outro
contexto, na colite ulcerosa, especialmente em doente ssubmetidos a cirurgia,
parece haver benefício no seu uso.
Prof. Sobrinho Simões e o Dr. Jorge Amil Dias agradeceram a colaboração de
todos os participantes e da audiência.