Transplante de órgãos sólidos em mulheres grávidas
Introdução
O objetivo deste estudo é analisar o impacto na grávida, recém-nascido e órgão
transplantado, resultante da presença de aloenxertos sólidos (rim, fígado,
pâncreas, coração, pulmões) durante a gravidez. Conhecer as complicações e os
cuidados necessários durante a gestação, de forma a não inter- ferir nem na
função do aloenxerto, nem no normal desenvolvimento do feto.
Métodos
Para atender ao objetivo deste trabalho, elaborei uma monografia, revendo e
compilando a informação disponível até ao momento sobre o tema em questão. A
presente monografia teve por base a lei- tura de vários artigos (incluindo
artigos de revisão prévia, artigos de investigação original, publicações
breves, casos clínicos e cartas aos editores) sobre o assunto, publicados e
disponíveis na base de dados que foi selecionada. Para a pesquisa da informação
necessária foi uti lizada a base de dados da pubmed/medline. As palavras-chave
utilizadas foram pregnancy ou fertility juntamente com um dos termos solid
organ transplant, kidney transplant, liver trans- plant, pancreas
transplant, heart transplant, lung transplant, thoracic organ
transplant. Posteriormente procedi à leitura dos vários resumos que obtive
através da minha pesquisa. Selecionei os artigos segundo os critérios de
inclusão e exclusão. Os critérios de inclusão dos artigos foram: a data de
publicação, compreendida entre 2000 e 2012; publicações em inglês e com os
textos completos disponíveis na base de dados selecionada. Como critérios de
exclusão, não foram escolhidas publicações antes do ano de 2000 e referências
que não permitissem o acesso gratuito ao texto completo pela internet. A
amostra de dados para a realização desta monografia é constituída por 21
artigos.
Transplante de órgãos sólidos em mulheres grávidas
Os transplantes de órgãos sólidos podem prolongar a sobrevida de doentes, com
doenças em fase terminal, que podem afetar vários órgãos fundamentais à vida
humana, tais como o rim, fígado, coração, pulmões e pâncreas. Algumas destas
doenças terminais afetam, entre vários outros aspetos, a fertilidade das
mulheres. Como exemplo, uma das possíveis consequências da insuficiência renal
crónica ou da disfunção hepática grave são a anovulação e a redução da
fertilidade, devido às perturbações que estas patologias podem provocar no eixo
hipotálamo-hipófise-ovário. Na maioria dos casos, o transplante melhora, para
além da sobrevida, a função reprodutora destas mulheres. Foram já reportadas
inúmeras gestações viáveis e de termo em gestantes com aloenxertos, contudo nem
todas as mulheres transplantadas têm a capacidade de engravidar sem a ajuda de
técnicas de reprodução medicamente assistida.1para além disso, este grupo de
mulheres apresenta uma maior incidência de complicações obstétricas durante a
gestação, tais como hipertensão, pré-eclâmpsia, parto pré-termo, abortos
espontâneos, baixo peso ao nascimento e restrição do crescimentofetal.2A morte
neonatal é rara. Existem alguns casos, raros, de recém-nascidos com defeitos
estruturais, bem como de alterações no desenvolvimento que apenas se manifestam
mais tardiamente, na infância, ou mesmo já na vida adulta.
A primeira gestação após transplante renal ocorreu há já 55 anos, mais
precisamente em março de 1958, reportada por murray e colaboradores, em
1963.3Apesar das preocupações com a eventualidade do útero comprimir os vasos
renais e o rim/ureter transplantado ou da gestante apresentar hipertensão/
infeção do trato urinário ou descompensação do aloenxerto, tal não se verificou
e a gestação ocorreu sem complicações. O parto foi por cesariana para evitar
lesão do rim transplantado aquando da descida do feto ao longo do canal de
parto.4desde então, os resultados cada vez mais satisfatórios dos transplantes
de órgãos sólidos realizados, aliados à evolução na terapêutica
imunossupressora, abriram a possibilidade a várias mulheres de engravidarem,
após a recuperação da função do aloenxerto. Um dos fatores que parece estar
mais relacionado com o sucesso da gestação pós-transplante é o tempo que
decorre desde o transplante até à concepção. Pensando-se que será aconselhável
que mulheres que desejam engravidar esperem no mínimo 12 meses, se não 2 anos,
após o transplante, pois após esse período de tempo o aloenxerto estará mais
estável, as doses de imunossupressores serão mantidas em valores padrão mínimos
e o risco de infeção é menor.2,5o risco de rejeição alográfica destas mulheres
é no mínimo semelhante ao da população não-grávida, sendo que em alguns casos,
como nos aloenxertos hepáticos, é maior, para o mesmo intervalo pós-
transplante. Para além disso, pacientes que apresentam ausência de disfunção do
aloenxerto e ausência de hipertensão têm maior probabilidade de evidenciarem
melhores resultados. Já as mulheres que apresentam pré-eclâmpsia apresentam
piores resultados e esta complicação surge sobretudo nas gestantes com
hipertensão prévia.5
Apesar da maioria dos casos de gravidez pós transplante serem de mulheres com
aloenxertos renais, casos de gestações bem sucedidas foram também já reportados
em outros tipos de aloenxertos, nomeadamente, hepático, hepático-renal,
pancreático, pancreático-renal, cardíaco, cardíaco pulmonar e pulmonar.3cada
tipo de órgão transplantado acarreta diferentes graus de preocupação, no que
diz respeito ao efeito que a gestação pode ter nesse aloenxerto (risco de
rejeição ou disfunção do aloenxerto durante ou logo após a gravidez). por
conseguinte, existem determinados órgãos que apresentam riscos maiores e,
eventualmente, fatais se ocorrer alguma das complicações, acima referidas,
nomeadamente nos casos de aloenxertos cardíacos, pulmonares ou hepáticos.4
John M. Davison e os seus colaboradores estabeleceram uma lista de orientações
para as mulheres submetidas a transplantes e que pretendem engravidar, e embora
formuladas para aloenxertos renais, também têm sido extrapoladas para outros
tipos de aloenxertos sólidos. Essa lista de orientações consiste no seguinte:
1) bom estado geral pelo menos nos 2 anos seguintes ao transplante; 2)
dimensões pélvicas compatíveis com o trabalho de parto; 3) ausência de
proteinúria; 4) ausência de hipertensão de relevo; 5) ausência de rejeição
renal; 6) ausência de distensão pelvicalicial em urograma excretório realizado
recentemente; 7) níveis de creatinina plasmática iguais ou inferiores a 2mg/dl;
8) terapia imunossupressora consistindo em valores de prednisona iguais ou
inferiores a 15 mg/d e azatioprina de 3 mg/kg/d ou menos.4
Contudo, apesar de haver aconselhamento para mulheres transplantadas que
desejam engravidar, a gravidez só por si é uma situação com algumas
particularidades e em mulheres com aloenxertos estas ainda se tornam mais
marcadas. Assim, é preciso ter atenção ao risco que a gestação pode ter não só
na mãe, como também no aloenxerto (risco de rejeição ou perda de função em
consequência da própria gravidez, mas também das alterações que podem ser
feitas nas doses e tipo de medicação imunossupressora) e no feto (pelo risco de
teratogenicidade dos imunossupressores).4
1) Transplante renal
Mulheres em idade reprodutiva (18-49 anos) e que apresentam doença renal
terminal sofrem de uma importante diminuição da fertilidade, para valores 10
vezes inferiores aos de mulheres da mesma faixa etária mas saudáveis, bem como
anovulação e irregularidades menstruais.6À medida que a função renal cai, as
irregularidades menstruais agravam-se e evoluem de oligomenorreia para
amenorreia. Porém, a disfunção gonadal, provocada pela insuficiência renal, é
revertida em alguns meses, em média 6 meses, após o transplante renal,
aumentando a fertilidade destas mulheres cerca de 4 vezes em comparação com
aquelas que se encontram em diálise.7Assim, a maioria das mulheres
transplantadas que eram anteriormente inférteis, passam a conseguir a
concepção. Claro que para se constatar esta melhoria na fertilidade é
importante que o aloenxerto se apresente estável assim como os níveis
plasmáticos de creatinina (<1,4 mg/dl).1Contudo, convêm salientar que uma
gravidez não planeada, neste grupo de mulheres, pode comprometer a vida da mãe
bem como a viabilidade do aloenxerto, assim como pôr em risco o feto pela
exposição a doses ou tipos de imunossupressores potencialmente teratogénicos.
Desta forma, é crucial que antes da concepção haja um planeamento e uma
interação multidisciplinar de diferentes áreas da medicina. Até 2005, era
recomendadoumperíododeespera,nomínimo2anos, entre o transplante e a concepção.
porém com as melhorias na terapêutica imunossupressora e a evidência de baixos
índices de rejeição alográfica precoce, a Ast (American society of
transplantation) reformulou este período de tempo para um ano, no mínimo.
Contudo ainda existe alguma controvérsia neste campo. Alguns estudos defendem
que, se a concepção ocorrer entre os 2 primeiros anos póstransplante, o risco
de parto pré-termo e aborto espontâneo é maior, e por outro lado, outros
estudos defendem que este risco não existe. Perante isto, talvez seja mais
sensato aconselhar as mulheres com aloenxertos a esperarem, no mínimo, um ano
até à concepção, enquanto não surgirem estudos mais aprofundados e
esclarecedores, assegurando assim uma maior estabilidade do transplante e um
menor risco de infeção.8
Relativamente, à informação atualmente disponível, no que diz respeito ao
prognóstico da gravidez em mulheres com alotransplante renal, um terço foi
obtida a partir de registos e dois terços a partir de 23 estudos de corte
retrospectivos de centros de 17 países do mundo. Dentro desses registos dos
resultados de gravidez pós-transplante, temos a NTPR (National Transplantation
Pregnancy Registry) oriunda dos Estados unidos da América, fundada em 1991; os
registos de UK (United Kingdom), fundada em 1997; e por fim o registo da
ANZDATA (The Australian and New Zeland Dialysis and Transplant Registry). Todos
estes registos foram voluntários e os resultados reportados por médicos,
coordenadoresde transplante e pelasmulheres submetidas ao transplante, de forma
eletiva.7
A NTPR reuniu informação de 1356 gestações de 857 mulheres com aloenxertos
renais da América do Norte, e os seus resultados foram em tudo semelhantes aos
de UK e da Austrália/Nova zelândia. No que diz respeito, à percentagem de
nados-vivos, esta foi bastante boa e consistente entre os dados dos três
registos: NTPR reportou valores de 76-80 % (tratadas com inibidores da
calcineurina); UK de 79 %; e ANZDATA de 76,9 % nas 577 gestações avaliadas.
tanto os dados de NTPR como de UK, reportaram que as complicações neonatais
mais comuns foram o parto pré-termo (<37 semanas) e o baixo peso ao nascimento
(< 2500g), afetando aproximadamente 50 % dos casos. A média da idade
gestacional foi de 35-36 semanas (NTPR e UK). Abortos espontâneos ocorreram em
12-24 % dos casos (NTPR) e verificaram-se raros casos de abortos terapêuticose
nados-mortos (NTPR: 1-3%; UK: 0 %). Em relação, às complicações maternas, estas
foram essencialmente hipertensão (NTPR: 53-68 %;UK:50%) e pré-eclâmpsia (NTPR:
28-31%;ANZDATA: 27 %)8
NTPR concluiu que mulheres que engravidam, após transplante renal, apresentam
uma boa probabilidade de terem gravidezes bem sucedidas (apesar de possíveis
complicações) independentemente do número de gestações anteriores. Já a
ANZDATA, reportou não existirem diferenças na sobrevida do aloenxerto renal
entre as mulheres nulíparas e multíparas, 20 anos após o transplante. Conclui-
se ainda que as gestantes com função renal e pressão arterial normais antes da
concepção, evidenciam maior probabilidade de terem gestações bem sucedidas e
sem complicações do que aquelas com má função do aloenxerto e hipertensão.
Assim, níveis de creatinina antes da concepção superiores a 1,7 mg/dl, tal como
a presença de hipertensão, estão associados a um maior risco de parto pré-
termo. As mulheres com níveis de creatinina superiores a 1,7 mg/dl, antes da
concepção, mais provavelmente sofrerão de um aumento dos níveis plasmáticos de
creatinina após o parto, em comparação com aquelas que mantiveram boa função
renal.8
Na sua maioria, os estudos retrospetivos dos centros foram bastante similares
aos indicados anteriormente, variando a percentagem de nados-vivos entre 43,2 %
e 85,7% e os casos de anormalidades congénitas e nados-mortos foram raros.
Também aqui as principais complicações da gravidez foram o parto pré-termo e o
baixo peso ao nascimento.8os problemas de baixo peso ao nascimento e parto pré-
termo não parecem estar associados com restrição do crescimento fetal nem
parecem afetar o normal desenvolvimento dos recém-nascidos no futuro. Quanto às
complicações maternas as mais frequentes foram também hipertensão e
préeclâmpsia. Embora estes estudos considerem que o único motivo causal para o
baixo peso ao nascimento é a prematuridade do parto,8outros estudos consideram
que a hipertensão, por si só, é uma co-morbilidade associada ao baixo peso ao
nascimento.4 Pré-eclâmpsia neste grupo de gestantes é 3 a 4 vezes mais comum
que nas gestantes saudáveis. Uma das possíveis causas para este fenómeno é o
facto de muitas mulheres apresentarem hipertensão e proteinúria, ou seja
disfunção renal, mesmo antes da concepção, sendo este um motivo importante de
parto prematuro por cesariana.9 os casos de rejeição do aloenxerto durante a
gestação foram raros.4,9 Dentro das pacientes submetidas a alotransplante,
aquelas com história de gravidezes parecem ter a mesma função e sobrevida do
aloenxerto que aquelas sem história de gravidez aos 1, 5 e 10 anos de
evolução.10 Acrescentando ainda, que o risco de rejeição também não parece ser
maior nas mulheres primíparas/multíparas.11 Todos estes estudos chegaram a
conclusão que as gravidezes após transplante renal apresentam uma enorme
probabilidade de serem bem sucedidas, porém com um maior risco de complicações
como pré-eclâmpsia, hipertensão, infeções do trato urinário e anemia.9,10,11
2) Transplante Hepático
Similarmente à insuficiência renal terminal, a insuficiência Hepática em fase
avançada também se faz acompanhar por uma diminuição da fertilidade e do
líbido, bem como de irregularidades dos ciclos menstruais que em cerca de
metade dessas mulheres culmina em amenorreia. Porém estas alterações podem ser
corrigidas com transplante hepático, restabelecendo, na maioria dos casos, os
ciclos menstruais em 1 ano. Vários estudos sugerem que este grupo de mulheres
consegue ter uma gravidez bem sucedida desde que o aloenxerto se encontre
estável. Para isso, os parâmetros hepáticos assim como renais devem ser
constantemente monitorizados, juntamente com um ajuste nas doses de
imunossupressores administrados. de qualquer forma, é aconselhável que estas
mulheres esperem, no mínimo 1 ano, preferencialmente 2, para engravidarem após
o transplante. Um estudo levado a cabo por NTPR, em 2006, reportou uma
percentagem de episódios de rejeição aguda durante a gravidez de 7% e de perda
do aloenxerto de 8%, nos 2 anos que se seguem ao transplante.12 Analisando
vários artigos, abordando os resultados de gravidezes em mulheres submetidas a
transplante hepático, conclui-se que a percentagem de nados-vivos se encontra
entre 72,7%-80,7%, sendo maior que a da população em geral (66,7%), mas similar
à das gestantes com aloenxertos renais (73,5%). A taxa de aborto para as
gestantes com alo enxerto hepático foi de 12,3%-19,2%, sendo menor que a taxa
da população geral (17,1%), mas similar à dos casos de transplante renal
(14,0%). Apesar destes resultados serem animadores, constatou-se que a
percentagem de complicações obstétricas e de partos pré-termo foi superior
neste grupo de mulheres em comparação à população em geral. As principais
complicações encontradas foram: préeclâmpsia (21,9%), hipertensão (27,2%) e
diabetes gestacional (5,1 %). A taxa de pré-eclâmpsia deste grupo de mulheres
foi ligeiramente inferior à encontrada para gestantes com aloenxertos renais
(21,9% versus 27,0%), p= 0,04. Também, a percentagem de hipertensão foi
significativamente menor nas gestantes pós-transplante hepático vs. pós-
transplante renal (27,2% vs. 54,2 %), p <0,001. Não se verificaram diferenças
significativas em relação à diabetes gestacional (5,1 % vs. 8,0 %), p=0,07. Em
relação, à percentagem de partos por cesariana, esta foi maior nas gestantes
com aloenxerto hepático comparativamente à população em geral (44,6% vs.
31,9%), mas significativamente menor que nas gestantes submetidas a transplante
renal (44,6% vs. 54,2%, p< 0,001). A percentagem de partos pré-termo também foi
maior nas mulheres com aloenxerto hepático do que na população em geral (39,4%
vs. 12,5%), não sendo estatisticamente significativa a diferença entre os
partos pré-termo pós-transplante hepático e renal (p= 0,07). Quanto à idade
gestacional e à média do peso à nascença, ambas foram significativamente
maiores nas gestantes pós-transplante hepático vs. Pós-transplante renal (36,5
vs. 35,6 semanas e 2866 vs. 2420 g, p< 0,001 para ambos).13
Segundo outro estudo, outras complicações possíveis da gravidez pós-transplante
hepático, para além das acima referidas, são: infeção do trato urinário (18%),
colestase (7,7%) e anemia severa (5,1%).12
Em comparação como transplante de outros órgãos sólidos, as gestantes com
aloenxertos hepáticos, apresentam uma menor incidência de complicações durante
a gravidez e menor número de perdas dos aloenxertos nos 2 anos que se seguem ao
parto. Aumento das enzimas hepáticas, sem icterícia, é comum durante a
gestação, sendo geralmente tratada com o aumento das doses de imunos
supressores e/ou administração de esteróides. Embora raro, a falência hepática
pode ocorrer, sobretudo se houver uma má adesão à terapêutica, rejeição celular
aguda, recorrência de hepatite c ou de hepatite auto-imune.3
3) Transplante de pancreático e pancreático-renal
Existem 3 tipos de transplantes de pâncreas, sendo eles: transplante simultâneo
de pâncreas e rim, sendo estes aloenxertos obtidos do mesmo dador falecido;
transplante de pâncreas após transplante renal prévio, de diferentes dadores;
transplante isolado de pâncreas em pacientes com diabetes mellitus tipo 1, que
apresentam frequente e severa hipoglicemia, mas boa função renal.14A diabetes
mellitus (DM) tipo 1 é a principal causa de insuficiência renal nos adultos.
Assim sendo, os transplantes pancreáticorenais, permitem o tratamento não só da
DM tipo 1, como também da doença renal em fase terminal. Estes transplantes têm
como vantagens não só o facto de eliminarem a necessidade de diálise e de
tratamento com insulina, mas também prevenirem e estabilizarem complicações
microvasculares e neuropáticas da DM e melhorarem a fertilidade das mulheres
envolvidas.15
Comparativamente, aos transplantes renais, os transplantes pancreático-renais
apresentam taxas semelhantes de abortos espontâneos e terapêuticos, porém taxas
maiores de parto pré-termo, baixo peso ao nascimento, hipertensão, infeção,
pré-eclâmpsia, rejeição aguda e perda de aloenxerto anos após a gravidez. o
facto de nestes transplantes combinados, haver a presença de dois órgãos dentro
da pelve é uma das causas de maior risco de complicações maternas e para o
recém-nascido e de especial atenção na realização do parto por cesariana.16
De acordo com os dados da NTPR, mulheres com aloenxertos pancreático-renais
apresentam 70,5% de nados-vivos. o risco de hipertensão é de 64,9% e de pré-
eclâmpsia de 32,7%. A taxa de rejeição dos aloenxertos durante a gestação é de
5,5%, sendo de 2,8%, a percentagem de diabetes gestacional, o que indica que a
maioria destas gestantes produz insulina suficiente para responder à
necessidade aumentada de insulina durante a gestação. Como já referido
anteriormente, o risco de infeções também se encontra aumentado em gestantes
com aloenxertos pancreático-renais, tanto devido à redução das doses de
imunossupressores como à presença de hidronefrose fisiológica, provocada pela
compressão do ureter pelo útero. É importante o seu diagnóstico precoce, pois a
pielonefrite está associada a complicações, como: sepsis materna, síndrome da
dificuldade respiratória aguda, edema pulmonar e parto pré-termo.15
Nos casos de aloenxertos pancreáticos, a percentagem de sobrevida aos 5 anos
para o aloenxerto e para a paciente é de 49% e80% respetivamente. Em
aloenxertos pancreático-renais esta percentagem é de 73,9% para o aloenxerto e
84,7% para a paciente. A gestação neste grupo de gestantes, tende a apresentar
um bom controlo metabólico, sendo que a pioria no controlo glicémico implica a
realização de exames e análises para descartar a possibilidade de rejeição.3
Resumindo, neste tipo de gestações é crucial uma interação multidisciplinar,
incluindo especialistas de Endocrinologia, Nefrologia, obstetrícia e cirurgiões
de transplantes.
4) transPlante de órgãos torácicos
Embora descritas gravidezes bem sucedidas em mulheres submetidas a transplante
cardíaco, cardíaco-pulmonar e pulmonar, a verdade é que estas gestantes
apresentam um risco superior de complicações maternas e fetais, tais como
hipertensão, pré-eclâmpsia, infeção, parto pré-termo e baixo peso ao
nascimento, bem como de rejeição ou perda do aloenxerto. Estas complicações
agravam-se no caso de o aloenxerto ser pulmonar.3,17,18,20
A gravidez está associada a uma série de modificações hemodinâmicas, tais como
um aumento do volume circulante de 40% e do débito cardíaco de 30%.17para além
disso, o coração transplantado apresenta desenervação e portanto um enfarte
agudo do miocárdio pode não se manifestar com a típica dor torácica. Apesar de
tudo, não parece haver uma maior incidência de enfarte agudo do miocárdio, bem
como de outras complicações para o aloenxerto, durante a gravidez, se este se
apresentar estável antes da concepção.3
Uma gestante com aloenxerto cardíaco, pode apresentar um risco aumentado de
complicações cardiovasculares. por conseguinte é importante uma monitorização
cardíaca apertada, com realização de electrocardiograma e ecocardiograma e, se
for necessário (em caso de instabilidade do aloenxerto) biópsias miocárdicas e
cateterização cardíaca. As biópsias são sobretudo importantes em casos de
suspeita clínica de rejeição.18
Segundo um estudo levado a cabo por Armani e colaboradores, em várias grávidas,
sendo que a média do intervalo entre o transplante cardíaco e a concepção foi
de 4, 1 anos, as percentagens das complicações observadas foram: rejeição, 21
%; infeção durante a gestação, 21%; hipertensão, 46%; pré-eclâmpsia, 10%;
abortos terapêuticos, 9%; aborto espontâneo,17%; partos prematuros
(<37semanas), 32%; e baixo peso ao nascimento (<2500g), 32%. A percentagem de
nados-vivos foi de 69% e a média da idade gestacional e do peso ao nascimento
foi de 37 semanas e 2717 g, respetivamente.19
Nas gravidezes pós-transplante pulmonar, a informação existente é limitada.
Porém, os transplantes pulmonares são os que apresentam pior sobrevida a curto
e a longo prazo, tanto para o aloenxerto como para a paciente, em comparação
com outros transplantes de órgãos sólidos. Apesar de haver registo de
gravidezes bem sucedidas, a verdade é que este grupo de gestantes parece
apresentar uma gestação de maior risco em comparação com as gestantes
submetidas a transplantes de outros órgãos sólidos. Segundo, Armenti e
colaboradores, baseados nos dados da NTPR, as complicações observadas, foram:
hipertensão, 53%; diabetes gestacional, 27%; infeção, 20%; rejeição durante a
gravidez, 27%; préeclâmpsia, 13 %; aborto terapêutico, 33%; aborto espontâneo,
13%; parto pré-termo (<37 semanas), 63%; baixo peso ao nascimento (<2500 g),
63%. A percentagemdenados-vivosfoide53%eamédiada idade gestacional e do peso ao
nascimento foi de 35 semanas e 2285 g, respetivamente. para além disso,
constatou-se que a probabilidade de perda do aloenxerto em 2 anos após a
gravidez é de 21%.18
Tal como no sistema cardiovascular, também o sistema pulmonar sofre alterações
fisiológicas durante a gravidez, devido ao aumento da progesterona. Há uma
estimulação da respiração, e a capacidade residual funcional diminui,
aproximadamente10-20%.
O volume expiratório forçado no 1º minuto (FEV1) não parece sofrer alterações
durante a gravidez, por conseguinte quando se verifica uma descida neste
parâmetro é difícil avaliar se será secundário a um simples distúrbio da função
pulmonar ou se traduz, de facto, a rejeição.20
Para terminar, se a patologia que estiver na base do transplante cardíaco ou
pulmonar for uma doença genética (miopatias mitocondriais, fibrose cística)
convêm o casal ter um acompanhamento genético pré-concepção.
5) Terapia imunossupressora durante a gravidez
Para que durante a gravidez pós-transplante não haja rejeições, é crucial que
as gestantes mantenham a terapia imunossupressora, embora, obviamente com
alguns ajustes. Devido às alterações durante a gestação, no metabolismo e
biodisponibilidade dos fármacos, as concentrações plasmáticas dos
imunossupressores podem diminuir. Por conseguinte, estas concentrações devem
ser monitorizadas com frequência, procedendo a ajustes se necessário, tendo em
atenção as necessidades da paciente transplantada, mas também o risco
teratogénico que estas doses podem ter no recém-nascido. Também é preciso,
estar atento, aos casos de gestantes com hiperemesis gravidarum, que podem
apresentar doses imunossupressoras insuficientes. A longo prazo, os recém-
nascidos deste grupo de gestantes, parecem apresentar um desenvolvimento
normal, contudo, durante o primeiro ano de vida, estes recém-nascidos podem
apresentar certas anormalidades imunológicas, sendo necessário ter isto em
conta durante a vacinação destes recém-nascidos.21
Conclusão
Na maioria dos casos, os transplantes de órgãos sólidos, melhoram a sobrevida e
a função reprodutiva das pacientes. contudo, em certos casos, mulheres
submetidas a transplantes não conseguem engravidar naturalmente, tendo de
recorrer à reprodução medicamente assistida.
Segundo a American society of transplantation consensus conference on
reproductive issues, aquando do planeamento deste tipo de gravidez, há certos
fatores que devem ser tidos em conta. sendo eles:
1. O risco de rejeição e infeção;
2. Terapia concomitante com medicação teratogénica ou tóxica;
3. Função adequada do aloenxerto.
Concluindo, gestações pós-transplante de órgãos sólidos são passíveis de
acontecer, embora seja necessário a intervenção de uma equipa multidisciplinar,
uma vez que estas mulheres apresentam certos riscos acrescidos. Dentro dos
casos reportados de gestação pós-transplante de órgãos sólidos, a maior parte é
de aloenxertos renais, sendo importante a análise de um maior número de casos,
para outro tipo de órgãos sólidos, bem como, um acompanhamento a longo prazo
destas pacientes e dos seus filhos.