Representações sociais de adolescentes sobre o consumo de drogas
Introdução
A adolescência é um período propício à experimentação e/ou consumo ocasional de
drogas1-2, cuja eventual trajetória para o consumo regular ainda não é clara,
mas constitui uma das mais complexas e problemáticas questões sociais,
económicas e de saúde pública que as sociedades contemporâneas enfrentam. De
acordo com o mais recente relatório anual sobre a evolução do fenómeno da droga
na europa, publicado em 2012 pelo Observatório europeu da droga e da
toxicodependência, Portugal registou uma baixa prevalência do consumo de
anfetaminas e ecstasyao longo da vida na população entre os 15 e os 34 anos
(1,3% e 2,6%, respetivamente); ainda que a prevalência do consumo de cannabis
ao longo da vida seja baixa entre a população escolar, em 2011 esta foi nove
pontos percentuais mais elevada em comparação com o primeiro inquérito da
década de 903.
Globalmente, a frequência do consumo de drogas na adolescência tende a ser mais
elevada do que na juventude e idade adulta4. Esta situação pode ser explicada
com base nas seguintes características associadas à adolescência:
vulnerabilidade e instabilidade; ocorrência de um conjunto de mudanças rápidas
e acentuadas sem paralelo noutra fase da vida; e construção da identidade
pessoal a partir da emancipação face à família e da importância do grupo de
pares. Os determinantes do consumo de drogas na adolescência podem ser
agrupados em dois conjuntos inter-relacionados: os fatores individuais, como a
personalidade, existência de psicopatologia subjacente, sintomas de mal-estar
psicológico e predisposições genéticas ou hereditárias; e fatores sociais e
ambientais, designadamente as características da estrutura familiar, tipo de
relacionamento com os pares, atitudes relacionadas com as drogas e
disponibilidade e acessibilidade das mesmas5-6.
Salientam-se como fatores de risco para o consumo de drogas a disponibilidade e
fácil acesso a tais substâncias; normas, valores e atitudes da comunidade
favoráveis a comportamentos de risco; a existência de laços de vizinhança
fracos e desorganização da comunidade vicinal; elevada taxa de criminalidade e
violência; elevado índice de mobilidade da população que integra a comunidade;
e privação económica e social extrema, como pobreza e falta de condições
sanitárias7. Também o fenómeno da «procura de sensações», ou seja, a eventual
necessidade de experienciar um conjunto de sensações novas, variadas e
intensas, assim como o prazer, diversão e curiosidade têm sido perspetivados
como fortes preditores positivos do envolvimento dos adolescentes no consumo de
drogas8-9. Por outro lado, fatores como um forte suporte afetivo e uma boa
supervisão e comunicação entre pais e filhos parecem constituir alguns dos
elementos de proteção no seio familiar, ao favorecer um bom ajustamento ao
nível das diferentes áreas de vida do adolescente e, consequentemente, diminuir
o risco do consumo de drogas10.
A multidimensionalidade dos fatores individuais e sociais, internos e externos,
que estão associados à iniciação no consumo de drogas durante a adolescência,
assim como entendimentos contraditórios acerca do papel do livre arbítrio dos
indivíduos que têm comportamentos não problemáticos de consumo de drogas11,
contribuem para a coexistência de várias propostas que visam compreender e
explicar o consumo de drogas. Esta diversidade reclama a conceção e
implementação de estratégias de prevenção do consumo de drogas e de redução de
riscos e minimização de danos adaptadas às características locais e nacionais
dos padrões e períodos de consumo, tornando indispensável identificar os
conhecimentos e representações sociais dos adolescentes sobre o consumo de
drogas.
Este estudo tem como objetivo geral analisar as representações sociais de
adolescentes sobre o consumo de drogas. Mais especificamente, identificar as
drogas que os adolescentes conhecem, assim como as suas perceções dos
determinantes do início do consumo de drogas e dos motivos que justificam o seu
consumo regular. A idade de 13/14 anos foi escolhida porque nesta faixa etária
o comportamento de consumo regular de drogas ainda não está estabelecido,
permitindo que as informações fornecidas pelos adolescentes reflictam um
estádio de grande potencial para prevenção deste comportamento. A opção por uma
metodologia de cariz qualitativo teve por finalidade a obtenção de um
conhecimento aprofundado sobre a perspetiva dos adolescentes quanto às causas
e/ou motivações do consumo de drogas, assumindo a centralidade e utilidade do
mesmo ao nível do desenvolvimento de campanhas de educação para a saúde mais
eficazes na prevenção do consumo de drogas junto desta população.
Métodos
A informação foi recolhida no âmbito de um estudo de base populacional,
designado EpiTeen, uma coorte constituída por adolescentes nascidos em 1990 e
que no ano letivo 2003/2004 estavam inscritos nas escolas públicas e privadas
da cidade do Porto. O desenho desse estudo e os procedimentos de recrutamento e
seleção dos participantes, assim como de recolha dos dados, foram já
descritos12. O estudo foi aprovado pela comissão de Ética do hospital de S.
João. A colaboração dos participantes formalizou-se através da assinatura de um
consentimento informado pelos adolescentes e respetivos pais ou tutores legais.
A avaliação inicial envolveu a recolha de informações sobre características
sociais, demográficas e comportamentais, assim como sobre as histórias pessoal
e familiar de doença, utilizando dois questionários estruturados autoaplicados
(um preenchido em casa pelo adolescente e o seu responsável, e o outro
respondido pelo adolescente na escola) e um exame físico realizado na escola.
Os adolescentes que não estiveram na escola no dia agendado para esta avaliação
foram convidados a deslocar-se ao serviço de higiene e epidemiologia
(atualmente departamento de epidemiologia clínica, medicina Preditiva e saúde
Pública) da Faculdade de medicina da universidade do Porto, acompanhados de
pelo menos um dos progenitores. Dos adolescentes avaliados no departamento, 30
foram convidados a participar numa entrevista qualitativa semiestruturada.
Na constituição desta amostra intencional procurou-se assegurar que os
entrevistados partilhavam um perfil semelhante ao da totalidade da coorte no
que respeita às seguintes características: inscrição numa escola pública ou
privada e nível de escolaridade dos pais. Nenhum adolescente convidado recusou
a participação na entrevista.
Com uma duração média de 20 minutos, as entrevistas de correram no segundo
semestre de 2004 em salas privadas, sem a presença do/a acompanhante do/
a adolescente. No decurso da entrevista procurou-se assegurar um ambiente de
mútua confiança, em que os entrevistados se sentissem relaxados e confortáveis.
O estudo foi apresentado como uma pesquisa sobre os comportamentos de saúde dos
adolescentes e as duas entrevistadoras realçaram a importância de conhecer a
opinião dos entrevistados num contexto em que não havia respostas certas ou
erradas.
O guião de entrevista incluía questões sobre conhecimentos, práticas e atitudes
em torno dos seguintes temas: alimentação; higiene; atividade física;
comportamento sexual; doenças; violência; e consumo de álcool, tabaco e drogas.
Neste artigo utilizar-se-á apenas a informação obtida em relação ao consumo de
drogas. Foram colocadas quatro questões principais: 1. Conheces algum tipo de
droga? Se sim, qual/quais?; 2. Na tua opinião, porque é que as pessoas procuram
as drogas?; 3. Pode deixar-se facilmente as drogas?; 4. O que achas que se
poderia fazer para as pessoas não se drogarem? O seguimento flexível do guião
previamente concebido foi fundamental na condução das entrevistas de acordo com
as direções definidas por cada um dos entrevistados, favorecendo o
aprofundamento dos tópicos perspetivados como mais relevantes.
Todas as entrevistas foram gravadas com a autorização dos participantes e
integralmente transcritas pelas entrevistadoras. Com base nos tópicos
previamente estabelecidos no guião das entrevistas, os dados recolhidos foram
sistematicamente codificados e sintetizados por categorias e, dentro destas,
por dimensões, registando-se a respetiva frequência e selecionando-se as
expressões mais ilustrativas das representações sociais dos adolescentes sobre
o consumo de drogas. Os dados foram analisados independentemente por duas
investigadoras e os conflitos foram resolvidos por discussão conjunta, obtendo-
se um nível de concordância quase perfeito (ou seja, superior a 90%)13. Para
cada categoria apresenta-se o número de adolescentes com respostas semelhantes
e, quando adequado, citam-se os excertos mais ilustrativos e representativos de
todas as entrevistas. A análise de conteúdo das entrevistas e a discussão dos
resultados basearam-se numa abordagem eminentemente qualitativa, tentando
associar a análise substantiva à elaboração teórica14.
Resultados
Participaram neste estudo 30 adolescentes - 15 do sexo masculino e 15 do sexo
feminino - de 13/14 anos de idade, dos quais 24 estavam inscritos em escolas
públicas. Nas secções seguintes descrevem-se os resultados obtidos de acordo
com o sexo e a natureza da escola frequentada pelos entrevistados, organizados
segundo os três temas que emergiram da análise das entrevistas: a) drogas
conhecidas; b) fatores associados ao início do consumo de drogas; c) perceção
dos motivos que justificam o consumo regular de drogas.
Drogas conhecidas
Os dados apresentados na Tabela_1
mostram que a quase totalidade dos entrevistados (n=29) afirmou conhecer algum
tipo de droga, dos quais uma minoria (n=3), do sexo feminino e a frequentar
escolas públicas, referiu apenas uma droga. Dos 26 entrevistados que
identificaram mais do que uma droga, 13 nomearam duas drogas. Um número
comparativamente mais elevado de rapazes reconheceu mais do que duas drogas
(n=8 vs. 5 raparigas). A cocaína (n=20), o ecstasy(n=12) e o haxixe (n=11)
foram as drogas mais referenciadas, seguidas pela ganza (n=9), cannabis(n=7),
marijuana (n=6) e heroína (n=5). Dois adolescentes mencionaram o tabaco como
uma droga, um dos quais também referiu o álcool. A cocaína foi a droga mais
frequentemente identificada pelos adolescentes inscritos em escolas públicas
(n=17), lugar ocupado pelo ecstasy no caso dos entrevistados que frequentavam
uma escola privada (n=5), os quais nunca referiram a ganza como uma droga.
Fatores associados ao início do consumo de drogas
Quando questionados sobre os fatores que explicam o consumo inicial de drogas,
os adolescentes entrevistados expuseram quatro categorias (Tabela_2
): a existência de problemas pessoais (n=12); o consumo pelos pares (n=11); a
curiosidade (n=11); e a escolha individual (n=4). Se os adolescentes inscritos
em escolas privadas se referiram mais frequentemente à curiosidade, aqueles que
frequentavam escolas públicas salientaram os problemas pessoais e o consumo
pelos pares. Dois dos entrevistados afirmaram não saber as razões que levam
ao início do consumo de drogas.
No que concerne aos problemas pessoais, os entrevistados realçaram as emoções
negativas (n=5), como estar em baixo, triste ou não se sentirem bem
consigo próprios; a existência de problemas familiarese discussões com o
pai e com a mãe (n=3); os desgostos amorosos (n=2); e o stress e a
ansiedade(n=2). Os problemas familiares foram identificados apenas por
rapazes e o stresse a ansiedade apenas por raparigas, em ambos os casos
inscritos em escolas públicas. Os entrevistados que frequentavam escolas
privadas só mencionaram as emoções negativas.
Na perspetiva dos entrevistados, sobretudo daqueles que estudavam em escolas
públicas, a influência dos pares e a experimentação da droga em grupo
proporcionam a entrada na trajetória de consumo de drogas por parte dos
adolescentes. Estes juntam se aos grupos e fazem isso na desportiva,
sobretudo porque são influenciados pelos outros que dizem que aquilo é bom, e
por amigos [que] dizem: Anda lá, experimenta! E depois eles vão com os
amigos..
De acordo com os entrevistados, a tentação de experimentar drogas (n=5) e a
curiosidade em conhecer os seus alegados efeitos positivos (n=6), como
sentirem-se bem, pensar que se divertem mais, por prazer, para ter
energia ou porque é muito fixe, também facilitam o primeiro contato com o
consumo de drogas. Uma minoria dos adolescentes entrevistados referiu-se à
escolha individual como uma razão para começar a consumir drogas. Alguns
rapazes afirmaram que as pessoas drogam-se porque querem ou por vício,
enquanto uma adolescente o justificou com o facto de se acharem uns heróis.
Referiram-se às seguintes categorias principais (Tabela_3
): ausência de medidas de prevenção e combate ao consumo de drogas (n=21);
dependência da substância (n=17); e ausência de procura de tratamento (n=4).
Os adolescentes entrevistados do sexo masculino realçaram a necessidade de
controlar a produção de drogas (n=5 vs. 2 raparigas), enquanto as entrevistadas
enfatisaram um maior investimento em campanhas de informação e vigilância nas
escolas (n=4 vs. 2 rapazes). Sete adolescentes defenderam a proibição da
circulação de drogas (4 rapazes e 3 raparigas).
De acordo com as opiniões dos entrevistados, as escolas deveriam ter mais
seguranças à volta e polícia a vigiar, para além de proporcionarem
oportunidades para falar ( ) que isso [o consumo de drogas] faz mal, prejudica
a saúde. Apenas uma adolescente inscrita numa escola pública se referiu ao
incentivo ao emprego como uma medida com potencial para terminar com as
trajetórias de vida na droga.
O consumo de drogas foi frequentemente descrito como um vício (n=11),
sobretudo pelos adolescentes inscritos em escolas públicas, sendo equiparado ao
consumo de tabaco e álcool por dois entrevistados. Esta ideia associou-se à
ausência de autocontrolo, em particular naqueles que frequentavam escolas
privadas, ou seja, a habituação à substância faz com que os consumidores de
drogas não as consigam deixar, largar ou parar de consumir. Na
perspetivados adolescentes entrevistados, a ausência de procura de tratamento
dificulta o abandono do consumo de drogas, sobretudo porque uma pessoa drogada
não tem maturidade para saber como que há-de deixar a droga e ir para coisos
de desintoxicação[só acontece] se a pessoa tiver vontade.
Discussão
Os adolescentes entrevistados tendem a não incluir o tabaco e o álcool na
categoria drogas, referindo apenas as seguintes drogas ilícitas -cocaína,
esctasy, haxixe, cannabis, marijuana e heroína. existem ainda nove referências
à ganza exclusivamente nas narrativas de adolescentes inscritos em escolas
públicas, designação genérica associada a qualquer substância capaz de provocar
o estado de ganzado, cuja relevância pode ser explicada pela escassez de
conhecimento sobre a designação adequada das poucas drogas que afirmaram
conhecer.
Na totalidade da coorte EpiTeen verificou-se que a maior parte dos adolescentes
conhecem drogas ilícitas, sendo a menos conhecida o LSD (49,3%) e as mais
conhecidas a cocaína (92,2%), heroína (91,8%), haxixe (90,0%), ecstasy(88,4%) e
marijuana (86,8%)15. As principais drogas ilícitas identificadas pelos
adolescentes que participaram no estudo qualitativo coincidem com as drogas
mais conhecidas pela totalidade da coorte e, em ambos os casos, os resultados
vão de encontro aos valores obtidos no inquérito escolar europeu sobre o
consumo de Álcool e outras drogas (ESPAD) publicado em 2003 para Portugal e
para o global europeu16.
Apesar de a cannabisser atualmente a droga ilícita mais consumida pelos
europeus com idades compreendidas entre os 15 e os 34 anos de idade3, esta
surge como a quinta droga mais referida pelos adolescentes que participaram no
estudo, quer a abordagem seja quantitativa quer seja qualitativa. Dois fatores
poderão explicar a menor visibilidade da cannabisnas representações sociais dos
participantes neste estudo, por comparação com as drogas identificadas com mais
frequência: primeiro, a perceção de que a gravidade e as consequências do seu
consumo serão menores do que as habitualmente encontradas noutras drogas
ilícitas muito faladas por representarem os maiores danos em termos económicos
e pessoais, como a cocaína e a heroína3; segundo, a normalização do consumo de
cannabis entre adolescentes17. Apesar de a perceção do risco das diferentes
drogas identificadas pelos entrevistados não ter sido avaliada no âmbito deste
estudo, esta afigura-se como uma possível justificação para que o ecstasytenha
sido referenciado mais vezes do que a cannabis. De facto, dados de 2003
provenientes do estudo sobre o consumo de Álcool, tabaco e droga (ECATD), em
alunos do ensino público em Portugal continental, mostram que o ecstasy e a
cannabis são perspetivados como drogas relativamente baratas e de fácil acesso,
mas cujo consumo envolve níveis de risco diferenciados'entre 4 e 5,4% dos
adolescentes entende que o consumo regular de cannabisenvolve pouco ou nenhum
risco, mas apenas entre 1,3 e 3,1% partilha desta perceção no caso do
ecstasy18.
Relativamente aos fatores associados ao início do consumo de drogas, este
estudo revela que os adolescentes se referem tanto aos problemas pessoais como
à curiosidade e ao consumo pelos pares. A importância dos pares na disseminação
de conhecimento sobre o consumo de drogas, já demonstrada noutros
trabalhos9,19,20, poderá justificar o facto de os rapazes afirmarem mais
frequentemente conhecer alguma droga e identificarem espontaneamente mais
drogas do que as raparigas, atendendo a que vários estudos mostram que eles
experimentam e consomem drogas com mais frequência3,9,10,15.
Nenhum dos entrevistados se referiu explicitamente a fatores de natureza
biológica e genética como causa de início do consumo de drogas, antes
enfatizando elementos de cariz sociocultural e psicológico, excetuando-se a
indicação do vício por dois adolescentes do sexo masculino inscritos em
escolas públicas. No entanto, realça-se a ausência de referências ao insucesso
escolar, ao baixo ajustamento escolar e às baixas aspirações académicas como
fatores de risco para o consumo de drogas, apesar de a evidência o
mostrar5,6,21.
Em termos gerais, as visões dos adolescentes entrevistados refletem uma
interpretação restritiva da abordagem atual no âmbito das teorias da adição,
segundo a qual as dimensões contextuais/ambientais são fundamentais na
compreensão dos comportamentos aditivos, inscrevendo a relação substância/
indivíduo num contexto sociocultural onde intervêm variáveis como o estatuto
social, o nível de escolaridade, os grupos de pares, as estruturas familiares,
o grupo social de pertença e os valores, crenças e atitudes que enformam os
comportamentos de consumo dos indivíduos9,10,22. As expectativas, positivas e
negativas, relativas aos efeitos do consumo de drogas parecem desempenhar um
papel importante na experimentação das mesmas. Estas expectativas são
construídas ao longo do processo de socialização e resultam de modelos oriundos
da família, do grupo de pares, dos meios de comunicação social e da experiência
de vida individual23. Ainda que a cultura de grupo e consequente partilha de
normas, valores e atitudes com os pares contribua para o envolvimento dos
adolescentes no consumo de drogas21, esta dimensão carece de uma análise
articulada com as atitudes parentais, bem como as redes vicinais e os conflitos
familiares10, sobretudo quando associados a comunidades com taxas elevadas de
criminalidade e violência, altos índices de mobilidade geográfica, laboral e
escolar e situações de privação económica e sanitária7. Destacam-se ainda dois
fatores que permitem compreender o consumo de drogas por adolescentes: a
sobrevalorização dos efeitos positivos do consumo de drogas a curto prazo,
nomeadamente o prazer causado pelo uso da substância e pelo risco de a
experimentar e a aceitação pelo grupo4; e a identificação de consequências
negativas apenas a longo prazo e nos casos de consumo regular e prolongado24.
Se as drogas que provocam dependência têm um efeito inicial comum -o aumento da
concentração de dopamina no cérebro libertada através de projeções
mesocorticolombicas, produzindo sensações de prazer ou satisfação que
contribuem para a repetição de comportamentos aditivos25, literatura
proveniente das ciências sociais tem mostrado que, independentemente do nível
de alterações neurobiológicas verificadas em indivíduos dependentes, os
comportamentos aditivos podem ser compreendidos como orientados para
determinados fins e passíveis de significação para quem os patrocina26,27.
Apesar de conhecida a pouca eficácia da estratégia proibicionista na regulação
socio-legal do consumo de drogas28, tal política parece ser bem acolhida pelos
adolescentes entrevistados. neste contexto, realça-se a necessidade de educar
os adolescentes sobre, e para, o consumo de drogas, disseminando em meio
escolar informações sobre os problemas gerados pelas políticas proibicionistas
a nível sanitário, social e jurídico11e sobre os proveitos que a redução de
riscos e minimização de potenciais danos dos consumos de drogas podem ter na
saúde pública e dos consumidores29. As medidas de prevenção e de educação para
a saúde poderão, nesta perspetiva, promover uma maior reflexividade nos
adolescentes quanto às intervenções nos domínios do tratamento, reintegração
social e redução de danos3.
As comunidades e os grupos sociais onde os adolescentes vivem e interagem são
parceiros essenciais na implementação de estratégias de prevenção do consumo de
drogas, afigurando-se as escolas como um dos espaços privilegiados para esse
efeito ao potenciar o estabelecimento de redes de cooperação entre todos os
elementos da sociedade, individuais e coletivos30. Também neste estudo os
adolescentes propõem medidas de prevenção do consumo de drogas que passam pelo
investimento no reforço da informação e da vigilância sobre o consumo de drogas
em meio escolar, o que poderá traduzir uma incorporação do investimento feito
em Portugal no desenvolvimento de ambientes escolares protetores pelo aumento
da segurança nas escolas através da presença de polícia nas proximidades3.
A Organização mundial de saúde lançou em 2011 a campanha escolas promotoras de
saúde, atualmente integrada nas políticas europeias e australiana, com o
objetivo de tornar a escola um agente ativo de promoção de saúde entre os
adolescentes através do estabelecimento de planos curriculares e práticas de
ensino-aprendizagem que visem a melhoria do bem-estar físico, mental e social
dos adolescentes31. Ainda que sejam atribuídas às escolas competências e
responsabilidades fundamentais na promoção da saúde e na educação para a saúde,
o papel das comunidades também é essencial na prevenção do consumo de drogas,
sendo desejável a cooperação entre todas as instituições para que os
adolescentes possam fazer melhores escolhas e saibam utilizar os recursos que a
sociedade lhes proporciona. Os esforços preventivos devem direcionar-se no
sentido de atuar simultaneamente sobre variáveis individuais e sociais, como as
atitudes, crenças, valores, autoimagem, autoestima, tomada de decisão,
processos de aprendizagem e de pressão social32-33.
Atendendo às representações sobre o consumo de drogas veiculadas pelos
adolescentes que participaram neste estudo, reduzir os riscos e minimizar os
potenciais danos dos consumos de drogas passam por estratégias de promoção de
saúde que promovam as competências psicossociais e a literacia em saúde junto
desta população. Do ponto de vista do planeamento de medidas preventivas seria
interessante conhecer as perceções dos adolescentes quanto aos motivos que
podem justificar a ausência de experimentação e/ou de consumo de drogas, assim
como avaliar a compreensão dos riscos associados ao consumo ocasional e regular
de determinadas drogas. Importa, ao mesmo tempo, mapear as reconfigurações no
mercado de droga, ao nível da oferta e da procura, estudando a prevalência de
padrões de consumo de novas drogas e monitorizando a disponibilidade das mesmas
na internet3.