Tiroidite pós-parto
Introdução
A gravidez está associada a alterações relevantes, mas reversíveis da função
tiroideia1. durante este período, as mulheres estão expostas a aloantigénios
fetais e estabelecem tolerância imunológica para prevenir a rejeição do feto2,
levando a alterações do sistema imune3. Pensa-se que as doenças autoimunes,
como as da tiroide, atenuam durante a gravidez e sofrem uma exacerbação após o
parto4,5.
De entre as disfunções tiroideias que ocorrem no pós-parto, a TPP (Tiroidite
Pós-Parto) é a mais comum6e a mais bem caracterizada7. Foi Robertson quem pela
primeira vez em 1948 descreveu a disfunção transitória da tiroide no período
pós-parto, através da ocorrência de cansaço, intolerância ao frio e cabelo
quebradiço num grupo de mulheres da Nova Zelândia, que responderam ao
tratamento empírico com extrato de tiroide8. Em 1963, Cooke foi o primeiro a
referir o doseamento de anticorpos antitiroideus nas mulheres afetadas9. Em
1976, foi descrita a ocorrência de hipotiroidismo e um ano mais tarde a fase
tirotóxica2, tendo-se reconhecido também a sua natureza autoimune.
Desde então, é aceite a ocorrência de disfunção tiroideia no primeiro ano pós-
parto, habitualmente transitória, a que se chamou TPP10e que tem sido objeto de
vários estudos originais e de revisão.
O presente artigo pretende sistematizar a principal disfunção tiroideia do pós-
parto, a TPP, com destaque para as indicações mais recentes relativas à
abordagem desta patologia.
Métodos
A pesquisa bibliográfica foi realizada na base de dados PubMed com os
descritores postpartum thyroiditis' OR post-partum thyroiditis'. Foram
incluídos artigos entre 1980 e 2012, escritos em Português e Inglês.
Desta pesquisa resultaram 356 artigos, cujos resumos foram lidos integralmente.
Após leitura dos títulos e resumos, foram selecionados 210 artigos, cujos
textos integrais foram pesquisados. Foram obtidos 81 artigos e após leitura dos
mesmos foram selecionados 66. Adicionalmente foram incluídos 18 artigos através
de referências bibliográficas de artigos de revisão, obtendo-se um total de 84
artigos. Dos artigos obtidos a partir de referências bibliográficas, dois são
anteriores a 1980.
Foi ainda referenciado um livro de texto de Endocrinologia (Williams Textbook
of Endocrinology) e uma norma clínica da DGS (Direção-Geral da Saúde).
1. Tiroidite pós-parto
1.1. Definição
A TPP, também chamada de tiroidite autoimune pós-parto ou tiroidite indolor
pós-parto11 é uma disfunção tiroideia que ocorre no primeiro ano
pósparto3,7,10, em mulheres eutiroideias previamente à gravidez12,
manifestando-se por tirotoxicose e/ou hipotiroidismo 10,13,14. Há quem
considere que se trata de uma variante da tiroidite de Hashimoto 11,15. Estão
também descritos casos de tiroidite pós-abortamento, entre a 5ª e a 20ª semanas
de gestação 16.
1.2. Epidemiologia
A TPP é a causa mais comum de disfunção tiroideia pós-parto6. A prevalência
varia de 5,2% a 16,7%17-20e a incidência de 3,9% a 8%21,22. Estas diferenças
podem ser explicadas pela variabilidade nos critérios diagnósticos usados10,13e
por fatores genéticos ou ambientais13. Quanto à tiroidite pós-abortamento não
existem dados epidemiológicos23.
Shahbazian e colaboradores não verificaram qualquer relação com a idade, sexo
do filho, aleitamento materno, paridade, história pessoal ou familiar de
doenças da tiroide20, embora num estudo de Stagnaro-Green e colaboradores, as
mulheres com história familiar de doença autoimune da tiroide, sinais ou
sintomas de disfunção tiroideia, história pessoal de doença autoimune,
irradiação do pescoço, parto pré-termo ou abortamento anterior tenham
apresentado uma incidência 6 vezes superior22. A percentagem de mulheres com
TPP que apresentam história familiar de doença autoimune da tiroide pode ir até
50%24.
Pensa-se que os anticorpos anti-TPO (antiperoxidase) no 1º trimestre de
gravidez constituem o melhor fator preditivo de TPP e que as mulheres com anti-
TPO positivos apresentam um risco superior a 37% de desenvolver a doença22.
Lazarus e colaboradores mostraram que 50% das mulheres com positividade anti-
TPO às 16 semanas de gestação desenvolveram TPP25. A positividade para
anticorpos anti-TPO durante a gestação nos estudos analisados varia de 6,5 a
14,1%17,26-29.
Jiskra e colaboradores mostraram que cerca de 50% das mulheres grávidas com
positividade para anticorpos anti-TPO não apresentavam um padrão de destruição
auto imune na ecografia tiroideia, apesar de não ter sido esclarecido se tal se
deve à baixa sensibilidade diagnóstica da ecografia nos estadios precoces da
tiroidite autoimune ou à baixa especificidade do doseamento de anticorpos anti-
TPO na gravidez29.
Há quem considere que níveis elevados tanto de anticorpos anti-TPO como anti-Tg
(antitiroglobulina), durante a gravidez, estão associados à ocorrência de
disfunção tiroideia no pós-parto30.
A hipoecogenicidade tiroideia ao ultrassom e a tiroglobulina sérica elevada aos
3 meses pós-parto também podem ser preditivas de TPP, assim como a ausência de
diminuição fisiológica da molécula de CD (Cluster of Differentiation) 4
solúvel, produto dos linfócitos t CD4+, no terceiro trimestre de gravidez se
mostrou preditiva nas mulheres com um episódio prévio de TPP13.
As mulheres com DM1 (Diabetes Mellitus tipo 1) apresentam um risco aumentado de
desenvolver TPP31,32, verificando-se num trabalho de Gonzalez-Jimenez e
colaboradores uma prevalência elevada de anticorpos anti-TPO durante o primeiro
trimestre de gravidez que são mantidos ao longo da gestação e uma diferença na
prevalência de disfunção tiroideia no pós-parto (26% nas diabéticas tipo 1 e 4%
nas mulheres saudáveis)32. Num estudo de Gerstein e colaboradores em diabéticas
tipo 1, foi encontrada uma incidência de TPP, aos 6 meses pós-parto, de
22,5%31.
1.3. Etiopatogenia
Um estudo antigo sugere que as alterações imunológicas no período pós-parto
normal são comparáveis às das doentes com TPP e que a reposta imune exacerbada
deverá ser uma condição necessária, mas não um fator causal direto, havendo
contribuição de fatores genéticos, infeções víricas, ingestão de iodo, entre
outros33. Outro estudo de Jansson e colaboradores verificou uma elevação da Ig
(Imunoglobulina) g total entre o 2º e o 5º mês após o parto tanto em mulheres
com TPP como nas saudáveis, na mesma magnitude (15%), podendo dever-se a uma
estimulação seletiva de certos clones de células B, que possivelmente estiveram
suprimidos durante a gravidez e são dirigidos contra antigénios próprios e
fetais apresentados ao sistema imune34.
Atualmente, o mecanismo que leva à TPP ainda não é claro. Pensa-se que se
desenvolve como resultado da suspensão do estado de tolerância imunológica da
gravidez7, estando envolvidas tanto a imunidade humoral como a celular4.
O microquimerismo é uma explicação possível, pois as células imunes fetais que
durante a gravidez atravessam a placenta e se alojam na tiroide podem ser
ativadas após o parto 3,35 e iniciar ou modular uma resposta imune materna numa
reação enxerto versus hospedeiro 35. Foi demonstrada uma diferença
significativa no número de células fetais na circulação materna das mulheres
com tiroidite de hashimoto ou dg (doença de graves), comparativamente às
mulheres saudáveis, mostrando uma associação clara entre o microquimerismo
fetal as doenças autoimunes da tiroide 36.
Para além disto, durante o período pós-parto há uma diminuição abrupta dos
níveis de glicocorticóides, estrogénios e progesterona, permitindo o retorno da
resposta imune Th (T Helper) 2 para Th1 e consequente desvio da diferenciação
de células Th2 para células Th1, favorecendo a ocorrência de doenças Th1
mediadas, como a TPP 37. No entanto, Kokandi e colaboradores não verificaram
uma alteração clara no perfil das citocinas Th1 ou Th2, apesar de se ter
verificado uma queda mais rápida na secreção de IL (Interleucina) - 4 nas
mulheres com TPP, sugerindo que o desvio para o fenótipo Th1 do pós-parto está
acelerado 38. Foi também sugerido o envolvimento da leptina, pois verificou-se
que as mulheres com TPP apresentam níveis superiores, que são mantidos nos 6
meses pós-parto. Pensa-se que a leptina desempenha um papel importante no
desenvolvimento de doenças autoimunes Th1 mediadas 39. Um outro mecanismo
proposto é a presença de prolactina em altas concentrações, em consequência da
amamentação. Esta hormona parece ser produzida pelas células imunitárias e agir
localmente, estimulando, por exemplo, as células B a produzir IgG 40.
As células B e T contêm recetores para a prolactina e os anticorpos
antiprolactina podem inibir a proliferação dos linfócitos, pensando-se que a
prolactina possa desempenhar um papel no caráter transitório da patologia 41.
No entanto, existem estudos prospetivos que não mostram relação entre a
amamentação e a tPP40. As células T são cruciais na patogénese da tiroidite
autoimune 7. As células Th2, CD4+, produzem as citocinas IL-4 e IL-
5 estimuladoras da produção de anticorpos pelas células B. As células Th1,
também CD4+, estimulam a citotoxicidade e a atividade citolítica do sistema
imune mediado por células, através, por exemplo, da ativação de macrófagos e
células NK (Natural Killer) via IFN? (Intracellular gamma-interferon). As
células T CD8+ são células citotóxicas que reconhecem autoantigénios
diretamente nas células-alvo, através de moléculas MGC (Major
Hhistocompatibility Complex) classe I e causam a sua morte via perforina ou
outras moléculas citotóxicas7.
As mulheres que desenvolvem TPP apresentam uma relação de células CD4+/
CD8+aumentada no sangue periférico e na tiroide3,23. Shi e colaboradores
verificaram que, no período pós-parto precoce, ocorre uma redução da
percentagem de células T reguladoras (que podem proteger as mulheres da
exacerbação imunológica do pós-parto), um aumento relativo das células T
supressoras, uma percentagem significativamente aumentada de células T
ativadas, especialmente naquelas que apresentam anticorpos antitiroideus
positivos, indicando que o defeito das células T reguladoras e o
comprometimento da produção de citocinas participam no desenvolvimento da
patologia42. Kokandi e colaboradores sugeriram que a patogénese da TPP começa
no final da gestação com maior estimulação imune de natureza generalizada e com
perda da imunossupressão da gravidez, que pode acontecer devido aos baixos
níveis de cortisol plasmático nesta fase, nas mulheres destinadas a desenvolver
TPP38.
Verifica-se uma infiltração linfocítica da tiroide e síntese de anticorpos
anti-TPO43, particularmente Igg-1, ativadores do complemento44, estando a
gravidade da infiltração linfocítica associada, na maior parte das vezes, com
níveis mais elevados de anticorpos antitiroideus circulantes43. Apesar de não
existir consenso quanto às classes de IgG ativadas, parece claro que os
anticorpos anti-TPO associados à IgG-4, incapazes de ativar o complemento,
permanecem inalterados7,44. Jansson e colaboradores mostraram que os níveis de
IgM, IgA e IgE mantêm-se constantes34. O mecanismo envolvido na destruição da
tiroide não é claro44e o desenvolvimento de disfunção tiroideia pode não ser
uma consequência inevitável da infiltração linfocítica da glândula tiroideia43e
da síntese de anticorpos anti-TPO ativadores do complemento43,45, pois um
número significativo de casos permanece eutiroideu apesar destas alterações43.
Pode haver expressão de proteínas inibitórias no soro ou pode falhar a
interação entre o antigénio TPO e o anticorpo anti-TPO necessária para ativar a
cascata do complemento45. A ativação do complemento, um mecanismo importante de
lise celular7, pode não ser determinante na patogénese da tPP45, apesar de
haver quem considere que o grau de ativação do complemento se relaciona com a
extensão e progressão da lesão tiroideia46. A presença exclusiva de anticorpos
anti-Tg é rara e estes não conseguem fixar o complemento7.
As células NK têm capacidade de destruir células sem necessidade de
sensibilização prévia e de segregar citocinas como IFN?, que promove a
imunidade celular e recruta células T. Quando as células-alvo expressam
abundantemente moléculas MHC classe I, as células NK não são capazes de
destruir estas células. Há alterações no número e na atividade das células NK
na TPP, embora o seu papel permaneça por esclarecer7.
Verificou-se uma diminuição do TGFß (Transforming Growth Factor ß) 1 total e um
aumento do TGFß1 ativado na fase tirotóxica da TPP, sugerindo que, durante a
inflamação ativa, o TGFß1 é consumido no local da inflamação. No final do 1º
ano pós-parto verificou-se um aumento do TGFß1 total para níveis semelhantes
aos da gravidez. Pensa-se que um aumento da concentração sérica de TGFß1
ativado pode contribuir para um mecanismo anti inflamatório endógeno, com o
objetivo de proteger a glândula tiroide de lesão imunológica permanente durante
o primeiro ano pós-parto47.
Genética
A TPP foi descrita mais frequentemente em mulheres com HLA (Human Leukocyte
Antigen) -DR3, DR4 e DR5, de forma semelhante à tiroidite de hashimoto13,23,48.
Pensa-se que estas moléculas MHC e as moléculas DQ associadas possuem uma
capacidade aumentada de apresentar os antigénios TPO e Tg às células T7. Um
estudo antigo, no entanto, sugere que o HLA DR3 está confinado às doentes que
apresentam tirotoxicose e o DR4 às que apresentam hipotiroidismo49.
Alguns autores não confirmam a associação entre a TPP e os polimorfismos do
gene CTLA-4 (Cytotoxic T-Lymphocyte Antigen 4), gene que codifica um recetor de
células T para a família de ligandos B750. A suscetibilidade genética dos
polimorfismos 49A/g e CT60 do gene CTLA-4 parece desempenhar um papel minor no
desenvolvimento da resposta citotóxica (mediada por células), estando
relacionada com a autoimunidade humoral (na G)51. No entanto, Zaletel e
colaboradores demonstraram uma forte contribuição do polimorfismo CT60 do gene
CTLA-4 para a produção de anticorpos antitiroideus, verificando-se um aumento
significativo na produção de anticorpos anti-TPO e maior tendência a
desenvolver a fase de hipotiroidismo da TPP52.
Iodo
Othman e colaboradores verificaram um aumento da excreção urinária de iodo
entre as 8 e as 16 semanas pós-parto nas diferentes apresentações clínicas da
tPP19, embora Shahbazian e colaboradores não tenham verificado diferença na
excreção urinária nas mulheres que desenvolveram TPP em relação aos
controlos20. Uma baixa concentração urinária de iodo foi significativamente
associada a TPP com manifestação de hipotiroidismo aos 6 meses pós-parto,
sugerindo uma tiroidite destrutiva pronunciada nos primeiros meses, com grande
depleção das reservas de iodo intratiroideias. Não foi estabelecida relação com
o aporte de iodo da dieta53.
Não está ainda esclarecido se uma ingestão elevada de iodo na gravidez e no
pós-parto é segura, mesmo em mulheres com positividade para anticorpos anti-
TPO, ou se está associada com um risco aumentado de desenvolver tPP54. Apesar
de não haver evidência de citotoxicidade induzida pelo iodo, nas mulheres
suscetíveis este pode acumularse na tiroide, induzir a síntese de citocinas,
estimular as células T supressoras com atividade citolítica e, por isso, levar
a citotoxicidade com destruição utorreativa. Um conteúdo elevado de iodo na
tiroide aquando da lesão inicial pode levar a uma destruição mais pronunciada
e, consequentemente, a uma fase tirotóxica mais marcada49.
Tabaco
Apesar da escassa informação nesta área, Galanti e colaboradores sugeriram que
o consumo tabágico aumenta o risco de TPP e influencia a expressão clínica de
tiroidites autoimunes geneticamente determinadas55. Há quem sugira que um
consumo tabágico superior a 20 cigarros/dia está significativamente relacionado
com o desenvolvimento de TPP18, mas não com o desenvolvimento de hipotiroidismo
permanente7.
Stresse
Existe pouca investigação sobre a relação entre o stresse e a TPP. A informação
existente indica que o stresse não é um fator desencadeante, mas a recuperação
de uma situação de stresse, pode favorecer o desenvolvimento de tiroidites
autoimunes56.
1.4. Apresentação clínica
A TPP pode apresentar-se apenas com tirotoxicose, apenas com hipotiroidismo ou
ter uma apresentação trifásica de tirotoxicose, hipotiroidismo e eutiroidismo
(Figura_1)57. Num estudo de Shahbazian e colaboradores, 35% das mulheres
apresentaram apenas tirotoxicose, 57% apenas hipotiroidismo e 8% tirotoxicose
seguida de hipotiroidismo20, enquanto noutro de Lazarus e colaboradores as
percentagens foram 19%,49% e 32%, respetivamente25. Noutro estudo de Stagnaro-
Green e colaboradores, 82% das doentes passaram por uma fase de hipotiroidismo
e 32% por uma fase de tirotoxicose22. Os mecanismos de destruição da tiroide e
excreção de iodo poderão ser os mesmos nas doentes que desenvolvem tirotoxicose
seguida de hipotiroidismo e nas que desenvolvem apenas hipotiroidismo, podendo
ter passado por uma fase tirotóxica de curta duração que não foi detetada19.
A fase de tirotoxicose ocorre entre o 2º e o 10º mês pós-parto23, em média na
12ª semana45e resolve-se espontaneamente dentro de 2-3 meses. Os sintomas são
muitas vezes subtis23e ignorados, pois são frequentes nas mulheres neste
período5,18, sendo os mais importantes astenia e irritabilidade. Outros
sintomas podem ser perda de peso, hipersudorese, mãos trémulas, palpitações e
intolerância ao calor25.
A fase de hipotiroidismo ocorre entre o 2º e o 12º mês pós-parto23, em média na
20ª semana45, e pode durar até 6 meses5. Manifesta-se por astenia, pele seca,
intolerância ao frio, mialgias e alterações da memória25.
Os sintomas de tirotoxicose ou de hipotiroidismo podem ocorrer previamente às
alterações bioquímicas e a recuperação sintomática não é completa, mesmo quando
a função tiroideia volta ao basal. As doentes com anticorpos positivos são mais
sintomáticas e os sintomas podem ocorrer antes, durante e após a disfunção
tiroideia25.
Um bócio ligeiro indolor está presente em50%dos casos24,58. No entanto, existem
casos descritos na literatura de TPP dolorosa e disfagia, provavelmente devido
à distensão capsular por aumento rápido da tiroide59. Está também descrita na
literatura a apresentação da TPP através de um nódulo único transitório60.
1.5. Abordagem diagnóstica
Os sintomas são muitas vezes ligeiros e inespecíficos, podendo dificultar o
diagnóstico6.
Os anticorpos anti-TPO estão geralmente aumentados5,61,embora há quem considere
que os níveis de anticorpos no pós-parto não permitem fazer a distinção entre
as mulheres que desenvolveram TPP e as saudáveis45. Outros autores verificaram
uma correlação negativa entre os anticorpos anti-TPO e os níveis séricos de t3
(triiodotironina) e de t4 (tiroxina)33.
Quando se suspeita de TPP deve ser efetuado um doseamento da TSH (Thyroid
Stimulating Hormone) e da T4livre62. A fase de tirotoxicose é diagnosticada por
uma TSH suprimida e aumento da t4livre e/ou da t3livre14. Após a fase de
tirotoxicose estar resolvida, deve proceder-se ao doseamento da TSH a cada 2
meses até 1 ano pós-parto, a fim de detetar a fase de hipotiroidismo (Tabela
1)12. Esta fase é definida por elevações séricas da TSH, podendo a t4livre
estar diminuída (hipotiroidismo clínico) ou normal (hipotiroidismo
subclínico)63.
A velocidade de sedimentação24,48e a contagem de leucócitos estão,
habitualmente, dentro dos limites de referência24.
A ecografia da tiroide mostra ecogenicidade difusa ou multifocal, refletindo a
morfologia anormal e a infiltração linfocítica14, mas geralmente não é um exame
de grande utilidade5. O ecodoppler pode ajudar no diagnóstico diferencial entre
a dg e a fase tirotóxica das tiroidites destrutivas, verificando-se um fluxo
sanguíneo superior nos doentes com DG64.
O exame citológico obtido por punção aspirativa com agulha fina mostra uma
infiltração linfocítica marcada65, mas não costuma ser solicitado para
diagnóstico de tPP13,57, por não ajudar habitualmente no diagnóstico
diferencial das tiroidites. Na cintigrafia da tiroide com iodo radioativo
verifica-se uma marcada redução da captação dentro da glândula65.
A TPP pode ocorrer em doentes com antecedentes de dg, sendo importante fazer o
diagnóstico diferencial entre as duas patologias. A fase de tirotoxicose da TPP
é habitualmente observada até aos 6 meses, enquanto a exacerbação da DG é
frequente após o parto, mas pode ocorrer mais tardiamente. A relação t3livre/
t4livre elevada é a favor de DG e o título de anticorpos TRAb (Thyroid
Stimulating Hormone Recetor Antibody) permite, geralmente, confirmar o
diagnóstico de DG. Contudo, pode ocorrer elevação transitória dos anticorpos
TRAb alguns meses após a tirotoxicose em certos casos de TPP, devido à
exposição do antigénio do recetor da TSH na corrente sanguínea após a
destruição tiroideia66. Os sintomas são mais evidentes na dg14e a presença de
oftalmopatia sugere este diagnóstico5. Na cintigrafia, realizada se a mulher
não estiver a amamentar41, a curva de captação do radiofármaco encontra-se
elevada na DG18,41,estando muito diminuída na fase tirotóxica da TPP24,61,67.
A TPP pode também ocorrer em doentes com hipotiroidismo pré-existente, podendo
levar a alterações das necessidades de levotiroxina durante o primeiro ano pós-
parto68.
1.6. Abordagem terapêutica
Na fase de tirotoxicose, as diretrizes da AtA (American Thyroid Association)
consideram a intervenção com bloqueadores beta nas mulheres sintomáticas, sendo
o de escolha o propranolol. A dose inicial é habitualmente 10-20 mg, 4 vezes
por dia, e o tratamento geralmente é necessário por poucos meses12. O uso de
propranolol durante a amamentação é aceite pela FDA (Foodand Drug
Administration)23. Os fármacos antitiroideus não estão indicados15,24,69porque
os sintomas são causados pela libertação de t3e t4pré-formadas da glândula
destruída, não havendo aumento da síntese15,24. O iodo radioativo também não
está recomendado69. Nas mulheres assintomáticas não está indicado tratamento,
devendo repetir-se o doseamento da TSH 4-6 semanas depois ou no caso de se
tornarem sintomáticas12.
Na fase de hipotiroidismo e de acordo com a Endocrine Society, as mulheres com
TSH acima do valor de referência, mas inferior a 10 muI/L, assintomáticas e que
não planeiam engravidar, não necessitam obrigatoriamente de tratamento; se não
forem medicadas, devem ser reavaliadas dentro de 4-8 semanas. Se o valor da TSH
permanecer acima do valor de referência, devem receber tratamento com
levotiroxina. As mulheres com TSH superior ao valor de referência e inferior a
10 muI/L, que são sintomáticas ou planeiam engravidar devem ser tratadas com
levotiroxina63. Segundo a ATA, as mulheres sintomáticas na fase de
hipotiroidismo podem ser avaliadas novamente passadas 4-8 semanas ou iniciar
tratamento imediatamente, se houver sintomas acentuados ou planeamento de nova
gravidez; as mulheres assintomáticas não devem receber tratamento e ser
avaliadas 4-8 semanas depois12. A dose inicial de levotiroxina é, geralmente,
50 µg/ dia, sendo feito o ajuste com base nos sintomas e no nível de TSH23.
Entre 6 a 12 meses após o início do tratamento, a levotiroxina deve ser
suspensa e deve verificar-se se a função tiroideia normalizou. Deve evitar-se a
suspensão em mulheres que planeiam engravidar, que estão grávidas ou a
amamentar12.
1.7. Evolução a longo Prazo
A TPP é, na maioria das vezes, transitória, apesar de algumas mulheres poderem
desenvolver hipotiroidismo permanente (8%-54%)20,22,70, pois uma percentagem
significativa continua a ter lesão autoimune e declínio na função tiroideia,
apesar de se encontrar eutiroideia no final do primeiro ano pós-parto71. Mesmo
as formas subclínicas de TPP podem levar a disfunção tiroideia permanente72.
Num estudo de Sarvghadi e colaboradores, a gravidade da fase de hipotiroidismo
(baseada na TSH) e os níveis de anticorpos antitiroideus durante o período de
TPP foram fatores preditivos para a ocorrência de hipotiroidismo permanente,
verificando-se que as mulheres que apresentavam hipotiroidismo ao fim de 5 anos
de seguimento, haviam tido níveis de TSH e níveis de anticorpos superiores
durante a fase de tPP70. Noutro estudo de stagnaro-green e colaboradores, a
gravidade da fase de hipotiroidismo aos 6 meses mostrou-se preditiva da
ocorrência de hipotiroidismo permanente, o mesmo não acontecendo com o nível de
anticorpos anti-TPO no 1º trimestre de gravidez22.
Um estudo prospetivo de Premawardhana e colaboradores concluiu que a
manifestação da TPP sob a forma de hipotiroidismo e o nível de TSH superior a
20muI/L são marcadores preditivos para a disfunção tiroideia a longo prazo, não
tendo sido possível concluir quanto ao valor preditivo do nível de anticorpos
anti-TPO71.
A baixa concentração urinária de iodo aos 6 meses pós-parto constituiu um fator
preditivo de hipotiroidismo a longo prazo, independente da TSH e dos
anticorpos, sendo um marcador de tiroidite destrutiva extensa na fase precoce
da TPP53.
Deste modo, recomenda-se seguimento a longo prazo de todas as mulheres com TPP
para diagnóstico precoce e tratamento do hipotiroidismo permanente70,71, com
doseamento anual da TSH12,63.
As mulheres que desenvolvem TPP têm um risco de desenvolver TPP numa próxima
gravidez que vai de 25%58a 69%73. Não se encontrou relação entre o nível de
anticorpos ou o aumento do título após a gravidez e o desenvolvimento de TPP
numa gravidez subsequente73.
As mulheres que desenvolvem TPP também podem apresentar um risco aumentado de
desenvolver outras doenças tiroideias67, podendo vir a apresentar
posteriormente dg74.
Há quem considere que possam apresentar maior risco de desenvolver cancro da
tiroide75.
1.8. Doenças associadas
A prevalência de TPP nas mulheres com DM1, DG em remissão e hepatite vírica
crónica é superior à da população geral63. Pode também existir associação entre
a TPP e outras doenças autoimunes, como gastrite10, lúpus eritematoso
sistémico76, artrite reumatoide15e síndrome de sjögren10.
A evidência atual é insuficiente para mostrar uma associação entre a depressão
pós-parto e a tPP63. Pensa-se que o hipotiroidismo influencia alguns
neurotransmissores, como a 5-hidroxitriptamina e que a libertação de citocinas
como a IL-1 e a IL-6 também pode interferir com a neurotransmissão central,
levando à depressão41. No entanto, num estudo de Lucas e colaboradores não se
verificou aumento da incidência de depressão nas mulheres com TPP, nem relação
entre o surgimento e a evolução das duas patologias21. Kuijpens e colaboradores
verificaram uma relação entre a presença de anticorpos anti-TPO durante a
gravidez e um risco 3 vezes aumentado de desenvolver depressão no período pós-
parto, podendo constituir um fator de risco independente para a sua
ocorrência28. Não se verificou relação entre a função tiroideia e a recorrência
de depressão pós-parto numa gravidez subsequente73. Uma vez que o
hipotiroidismo constitui uma causa reversível de depressão63, as mulheres com
depressão pós-parto devem ter uma avaliação da função tiroideia12,63.
Há autores que defendem que a TPP pode causar psicose pós-parto e défice
cognitivo, através dos efeitos tóxicos diretos das hormonas tiroideias nos
recetores tiroideus no cérebro, de uma resposta generalizada de stresse nas
mulheres suscetíveis ou através de intermediários, como aminas biogénicas e
citocinas. No entanto, a associação entre TPP e psicose pós-parto não é
consensual77.
Os anticorpos anti-hipofisários tendem a aparecer no período pós-parto, com uma
prevalência 5 vezes superior nas mulheres que desenvolvem TPP em relação às
saudáveis. Pensa-se que a autoimunidade tiroideia e a gravidez possam ter um
efeito sinérgico na libertação destes anticorpos, mas não ficou esclarecido se
a autoimunidade hipofisária nas doentes com TPP está associada a alteração da
função hipofisária78. Está descrito o desenvolvimento de TPP em doentes com
síndrome de Sheehan, que consiste em hipopituitarismo pós-parto devido a
necrose hipofisária causada pela hipoperfusão secundária a hemorragia massiva
durante ou após o parto. No passado, pensou-se que a TPP surgia no contexto do
hipopituitarismo do síndrome de Sheehan. A suspensão do estado de tolerância
imunológica da gravidez ou as alterações imunológicas induzidas pelo
hipoadrenalismo, ou combinação dos dois, pode ser responsável pelo
desenvolvimento de tiroidite em alguns casos de síndrome de sheehan11.
1.9. Prevenção
No sentido de prevenir a ocorrência de TPP, administrou-se 100 µg/dia de
levotiroxina ou 150 µg/dia de iodo durante as 40 primeiras semanas pós-parto
nas mulheres com anticorpos anti-TPO positivos, mas nenhum dos tratamentos se
mostrou eficaz13.
A tiroide é um dos órgãos com mais alto conteúdo de selénio e o efeito benéfico
deste nas doenças autoimunes da tiroide parece promissor, apesar de ainda não
existirem dados que sustentem a sua aplicação clínica79. A suplementação com
selénio parece melhorar a atividade inflamatória na tiroidite autoimune,
diminuindo o título de anticorpos anti-TPO80,81, sem interferir no metabolismo
das hormonas tiroideias em populações com ingestão adequada de iodo e
selénio81. Negro e colaboradores verificaram que, nas doentes com anticorpos
anti-TPO positivos, a administração de 200µg/dia de selenometionina, durante a
gravidez e no período pós-parto, exerce um efeito anti-inflamatório, reduzindo
os títulos de anticorpos anti-TPO, melhorando a ecogenicidade tiroideia ao
ultrassom e reduzindo a incidência de TPP e de hipotiroidismo. Desconhece-se se
os efeitos benéficos do selénio são revertidos após parar a suplementação ou se
podem ser mantidos a longo prazo82.
1.10. Rastreio
Segundo as diretrizes da Endocrine society, não está recomendada a triagem
universal para a presença de anticorpos anti-TPO antes ou durante a gravidez.
No entanto, se a positividade para anticorpos anti-TPO for conhecida, tais
mulheres devem ser rastreadas para alterações séricas da TSH antes da gravidez,
bem como durante os 1ºe2º trimestres de gestação63.
O rastreio da TPP é um assunto controverso83. A Endocrine society recomenda que
as mulheres com positividade para anticorpos anti-TPO devem ter uma avaliação
da TSH entre as 6 e as 12 semanas de gestação e aos 6 meses pós-parto, ou caso
seja clinicamente indicado. Nas mulheres com DM1, DG em remissão e hepatite
vírica crónica, o rastreio está recomendado aos 3 e aos 6 meses pós-parto63.
Nas diretrizes da ATA não é indicada esta recomendação12. O rastreio universal
da TPP não está recomendado12,63, uma vez que os anticorpos anti-TPO possuem um
valor preditivo positivo limitado; há mulheres com anticorpos negativos que
desenvolvem TPP e a eficácia da levotiroxina não está comprovada na prevenção
de depressão pós-parto nem do hipotiroidismo a longo prazo83. Contudo, todas as
mulheres devem ser alertadas pelo seu médico quanto à possível presença de
sintomas de TPP, como, por exemplo, astenia e irritabilidade, e não os
atribuírem ao estado do pós-parto83.
1.11. Complicações
Há quem considere que a presença de anticorpos anti TPO e anti-tg, sem
evidência de disfunção tiroideia, constitui um fator de risco para abortamento,
sugerindo o envolvimento de rejeição imunológica84. No entanto, um estudo
prospetivo de Muller e colaboradores não mostrou associação entre a presença de
anticorpos anti-TPO antes da gravidez e a ocorrência de abortamento
espontâneo85. Foi também sugerida a associação entre a positividade para
anticorpos anti-TPO e a ocorrência de parto pré-termo, cuja frequência parece
estar mais relacionada com a presença de um padrão autoimune na ecografia do
que com o título de anticorpos anti-TPO, por si só. Deste modo, a ecografia
tiroideia pode ser útil na identificação de mulheres com anticorpos anti-TPO
positivos que correm maior risco de parto pré-termo29.
Tem sido demonstrado que condições que resultam em hipotiroxinemia materna no
1º trimestre de gravidez prejudicam o desenvolvimento neurológico do feto86.
Conclusões
Com a realização desta revisão concluiu-se que a TPP resulta da suspensão do
estado de tolerância imunológica da gravidez, com vários mecanismos
imunológicos e alterações hormonais envolvidos. Apesar dos vários estudos, a
patogénese, bem como os mecanismos responsáveis pelo seu caráter transitório
ainda não estão totalmente esclarecidos,sendo necessária mais investigação
nesta área.
Trata-se de uma doença com uma prevalência considerável e muitas vezes
subdiagnosticada, para a qual os profissionais de saúde devem estar atentos,
sendo importante o diagnóstico diferencial com outras patologias, nomeadamente
a DG.
Apesar de, habitualmente, apresentar um caráter transitório, algumas mulheres
podem desenvolver hipotiroidismo permanente, estando descrita uma percentagem
que pode ir até 54%22, pelo que está recomendado o seguimento a longo prazo de
todas as mulheres com TPP.
As diretrizes publicadas pela Endocrine Society (2012)63e pela ATA (2011)12dão
indicações mais precisas da abordagem das doenças da tiroide na gravidez e no
pós-parto, embora não sejam consensuais em todas as recomendações.
A Endocrine Society recomenda que as mulheres com positividade para anticorpos
anti-TPO devem ter uma avaliação da TSH às 6-12 semanas de gestação e aos 6
meses pós-parto. Nas mulheres com DM1, dg em remissão e hepatite vírica
crónica,
O rastreio está recomendado aos 3 e aos 6 meses pós-parto63. O rastreio
universal não está indicado, embora as mulheres devam ser alertadas para a
possível presença de sintomas de tirotoxicose e/ou hipotiroidismo.
Atualmente não está comprovado que alguma terapêutica exerça efeitos
preventivos, embora possa ser uma área a investigar no futuro, pois já existem
estudos que parecem apresentar resultados promissores, nomeadamente a
administração de selenometionina81,82.