Editorial
EDITORIAL
Editorial
Manuela SantosI
IS. Neuropediatria, CH Porto, 4099-001 Porto, Portugal. E-mail:
manuela.a.santos@gmail.com
Ao longo do crescimento do ser humano vão surgindo novas etapas e novos
desafios. Pela segunda década de vida existe uma necessidade de participar em
atividades fora do núcleo familiar, passando a ser mais intensa a vida com os
pares.
É saudável que os jovens tenham amigos, saiam, se divirtam. E todos sabemos que
a diversão leva a alguns consumos e, por vezes, a excessos, estes, menos
desejáveis. Nos últimos anos temos assistido a uma mudança nos usos e abusos
por substâncias recreativas. Embora o álcool continue a ser aquele de uso mais
comum, têm vindo a proliferar uma panóplia de drogas, algumas das quais de
conhecimento escasso pelos médicos, nomeadamente por aqueles que lidam com a
faixa etária pediátrica. A atualização de conhecimentos sobre este consumo,
lícito e ilícitos, tornou-se imprescindível, de forma a reconhecer as
situações, tanto a nível de serviço de urgência como a nível de seguimento em
ambulatório.
Sintomas resultantes de consumo de drogas são variáveis, como perturbações de
sono, défice de atenção, perturbação de memória, cansaço, mialgias e alterações
do transito intestinal; mas podem ser tão graves como crises de agitação,
falência cardíaca e respiratória, coma, convulsões, síndromo serotoninégico ou
rabdomiólise. Os sintomas dependem do tipo e quantidade de droga usada, da
interação entre elas bem como à predisposição do jovem. O impacto duma droga
será completamente diferente se o jovem tiver uma perturbação cardíaca (como o
síndromo de QT longo) ou uma doença metabólica (por exemplo glicogenose) ou
genética (por exemplo, defeito gene da rianodina)
Se consultarmos o relatório das Nações Unidas UNODOC sobre o consumo de drogas
em 2013, percebemos que apesar dos esforços, o consumo não tem diminuído.
Existe uma estabilização no uso de drogas tradicionais mas há um crescimento do
mercado das novas drogas psicoativas (NPS). Houve igualmente um crescimento
no abuso de drogas de prescrição.
Existem as drogas tradicionais (como cannabis, cocaína, heroína), as drogas
prescritas (como benzodiazepinas, barbitúricos), mas existe um maior mercado
para as novas drogas psicoativas, cuja composição se vai modificando de forma a
não serem consideradas ilícitas!! Para além disso, um comprimido pode conter
substâncias diferentes; por exemplo o clássico comprimido ecstasy poderá ser
composto por 3,4 metillenedioxime-tanfetamina (MDMA) mas poderá ser outra
substância como a para-metoxianfetamina (a pílula da morte) ou uma mistura
desconhecida de várias substâncias.
O termo novas drogas psicoativas aplica-se a um largo número de substâncias de
abuso não controladas pelas leis internacionais e que tentam mimetizar os
efeitos das drogas controladas. Exemplos de NPS são os canabinoides sintéticos
contendo várias misturas de ervas, piperazinas, produtos vendidos como sais de
banho (tipo catinonas) e várias fenetilaminas. O acesso às drogas é feito
através de compra em mercado tradicional, mas pode, igualmente, ser adquirido
via Internet.
No último estudo em jovens entre 15 e 16 anos, houve uma redução ou
estabilização do uso das drogas. Contudo, o uso de múltiplas drogas continua a
ser um problema. As drogas são usadas frequentemente em combinação umas com as
outras, ou combinadas com álcool, e /ou drogas de prescrição, com potenciação
de toxicidade e quadros clínicos complexos.
Independentemente da área clínica, em idade pediátrica a que cada um se
dedique, é imprescindível o conhecimento sobre as antigas e novas drogas.