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EuPTCVHe0872-07542014000100004

EuPTCVHe0872-07542014000100004

variedadeEu
ano2014
fonteScielo

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Parotidite recorrente idiopática na criança

INTRODUÇÃO A parotidite recorrente idiopática (PRI) consiste na inflamação recorrente e autolimitada da glândula parótida, geralmente associada ao aparecimento de dilatações (sialectasias) não obstrutivas dos canais glandulares(1,2). Atinge preferencialmente crianças dos três aos seis anos de idade e é mais frequente no sexo masculino(3,5).

Em Portugal, após a introdução da vacinação contra o Paramixovírus no Programa Nacional de Vacinação em 1987, a parotidite epidémica é praticamente inexistente, excetuando-se surtos pontuais. Assim, apesar de se tratar de uma condição rara(3,4), a PRI passou a ser a causa mais frequente de tumefação parotídea(2,6) (Quadro_I).

CLÍNICA A clínica da PRI consiste em episódios súbitos e autolimitados de tumefação e dor parotídea, que se podem acompanhar por sintomatologia sistémica ligeira como febre e mal-estar(5,7-9). Habitualmente, o atingimento é unilateral, podendo, no entanto, ser bilateral, com um dos lados mais proeminentemente afetado(2,4,8). À palpação, a parótida apresenta-se duro-elástica e de limites bem definidos. O edema condiciona frequentemente apagamento do ângulo da mandíbula e elevação do lóbulo da orelha(4). Pode ocorrer descarga purulenta a partir do canal de Stensen(3,4,9).

Os episódios têm uma duração média de dois a 14 dias(4,9). A recorrência habitual ronda os três a quatro episódios por ano(3,4,8), mas pode ser muito variável com descrições na literatura até 18 episódios por ano(4,9).

DIAGNÓSTICO O diagnóstico é essencialmente clínico(7,9). No primeiro episódio, é importante confirmar a vacinação prévia contra a parotidite epidémica. A repetição dos episódios, autolimitados, sugere o diagnóstico. O diagnóstico diferencial faz- se com outras causas de tumefação parotídea, cujas principais características clínicas se apresentam no Quadro_II.

O presente trabalho tem como objetivo fazer uma revisão bibliográfica atual sobre a etiologia, apresentação clínica, diagnóstico e tratamento da PRI.

ETIOLOGIA E HISTOLOGIA A etiologia da PRI é multifatorial e, até hoje, pouco esclarecida(5-9). No entanto, as hipóteses que reúnem maior consenso defendem a diminuição do fluxo salivar devido à combinação de malformações canaliculares e infeções ascendentes a partir da cavidade oral(8,9). A inflamação glandular resultante conduz à formação de sialectasias, metaplasia ductal, aumento da secreção mucosa e, consequentemente, diminuição do fluxo salivar, predispondo à inflamação recorrente(8). Desta forma, as sialectasias parecem ser causa e resultado da inflamação recorrente da glândula(5,8). Num estudo por sialoendoscopia verificou-se existir pobreza vascular primária a nível canalicular, a qual poderá interferir com o funcionamento do esfíncter papilar e favorecer a obstrução e inflamação glandular(2).

Histologicamente, podem encontrar-se sialectasias dos ductos periféricos e infiltração linfocitária periductal(2).

EXAMES COMPLEMENTARES A ecografia é o exame complementar de eleição, tanto para corroborar o diagnóstico como para seguimento(5,8). Na fase aguda, pode ser útil para excluir complicações (obstrução por cálculos, abcesso), malformações e/ou no diagnóstico diferencial com outras patologias (celulite da face, adenopatia pré-auricular ou cervical, neoplasia)(10,11). Na PRI, a ecografia revela, tipicamente, um parênquima heterogéneo com múltiplas pequenas áreas nodulares hipoecogénicas, que correspondem a áreas de inflamação glandular e sialectasia (2,8). A identificação de lesões sólidas obriga ao seu esclarecimento por tomografia axial computorizada ou ressonância magnética nuclear (RMN)(5,7,12).

A sialografia, pouco cómoda porque exige a injeção de um produto de contraste no canal parotídeo, é hoje considerada um exame de segunda linha. É sobretudo utilizada quando a ecografia revela a presença de cálculos, a fim de excluir obstrução(4). A imagem típica consiste na presença de sialectasias que correspondem a dilatações acinares e/ou canaliculares e que surgem como imagens saculares preenchidas por produto de contraste(4,5,7). A sialografia pode, contudo, assumir uma função terapêutica verificando-se por vezes diminuição das recorrências ou mesmo resolução da doença após a sua execução(4,7,8).

Mais recentemente, a sialoendoscopia e a ressonância magnética nuclear, apesar de pouco disponíveis, têm-se destacado em alguns trabalhos(2,6,12). A sialoendoscopia assume-se como uma nova modalidade de diagnóstico e tratamento.

Sob visualização direta, permite dilatar e irrigar as estruturas canaliculares com solução salina e injetar medicamentos(2,6). A RMN oferece um estudo mais detalhado tanto do parênquima como do sistema canalicular e é capaz de diferenciar processos de inflamação aguda e crónica(12). É um meio de diagnóstico não invasivo e que utiliza radiação não ionizante, contudo acarreta custos elevados e requer sedação nas crianças mais pequenas(6,12).

A realização de exames analíticos deve ser criteriosa e individualizada. Deverá ser ponderada, fora da fase aguda, quando as crises se iniciam a partir dos seis anos, em especial se bilaterais(13-15), quando existe clínica sugestiva de doença crónica subjacente (síndrome de Sjögren, lúpus eritematoso sistémico, infeção por vírus da Imunodeficiência Adquirida-VIH) ou perante episódios muito frequentes e graves(4). O estudo analítico poderá incluir hemograma, velocidade de sedimentação, doseamento de imunoglobulinas, estudo de autoimunidade (ANA e ENA) e serologia para VIH(4,7,8).

TRATAMENTO Dada a incerteza etiológica, não existe nenhum método preventivo ou tratamento específico, pelo que o tratamento da PRI assenta em medidas conservadoras (2,4,5,7). Preconiza-se o recurso a fármacos anti-inflamatórios e analgésicos, a aplicação de calor e massagem local e o reforço da hidratação(2,5,14). A utilização de agentes que aumentem o fluxo salivar (ex: pastilhas elásticas) também poderá ter alguma utilidade(2,5,7).

A utilização de antibióticos também é contemplada, sobretudo quando as medidas acima referidas não são suficientes ou quando o atingimento sistémico é significativo. Na prática, o seu uso parece associar-se a episódios mais curtos e menos graves(4), no entanto questiona-se o seu real efeito no curso natural da doença(3,5). Tendo em conta os agentes bacterianos mais provavelmente envolvidos (S. pneumoniae, H. influenzae Streptococcus viridans(16)), a associação amoxicilina + ácido clavulânico será a mais adequada.

A terapêutica cirúrgica, raramente utilizada, está reservada para as situações mais graves e que persistem na vida adulta(3,5). As crianças com episódios muito frequentes deverão ser encaminhadas para uma consulta de referência(4).

PROGNÓSTICO O prognóstico é favorável, sendo habitual a remissão a partir da puberdade, podendo no entanto persistir até à vida adulta em 10-20% dos casos(3,5).

Desconhece-se a razão desta evolução, existindo autores que defendem a hipótese da atrofia glandular, e outros a teoria regenerativa(2,8,17).

CONCLUSÕES A PRI é uma entidade benigna e autolimitada cujo diagnóstico é essencialmente clínico. Contudo, a parotidite recorrente poderá ser uma manifestação de doenças subjacentes, em especial quando os episódios se iniciam a partir dos seis anos de idade e o atingimento é bilateral.


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