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EuPTCVHe0872-81782012000300004

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National varietyEu
Year2012
SourceScielo

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Uso do infliximab na consulta de gastrenterologia pediátrica

Introdução O infliximab e um anticorpo monoclonal com afinidade elevada ao fator de necrose tumoral α (TNF-α). Esta citocina participa em múltiplas vias pro- inflamatórias e proliferativas da doença inflamatória intestinal (DII).

Dois estudos foram importantes no conhecimento desta terapêutica biológica. O primeiro foi o estudo randomizado e multicêntrico REACH para a avaliação da segurança e eficácia da terapêutica com infliximab em doentes pediátricos com doença de Crohn moderada e severa1. Este estudo levou a aprovação oficial pela FDA deste fármaco em doentes pediátricos. O segundo trabalho refere-se a um estudo randomizado e cego, SONIC, que demonstrou que o infliximab em monoterapia e a terapêutica combinada de infliximab mais azatioprina, em comparação com a azatioprina isolada, conduziram a uma taxa significativamente mais elevada de remissão clinica sem corticosteroide nos doentes com doença de Crohn moderada a grave2.

Em 2010 foi aprovada pelo Infarmed a utilização desta terapêutica biológica para o tratamento da doença de Crohn ativa, grave, em doentes com idades compreendidas entre os 6 e os 17 anos, que não apresentassem resposta a terapêutica convencional.

Embora o tratamento com infliximab nao esteja aprovado para a colite ulcerosa, a sua eficácia nesta doença foi demonstrada nos estudos ACT-1 e ACT-2 (Active ulcerative colitis trial)3.

Os autores pretendem com este estudo avaliar a resposta clinica e os efeitos adversos da terapêutica com infliximab na DII em doentes pediátricos.

Material e métodos Foram incluídos todos os doentes pediátricos com DII submetidos a tratamento com infliximab ate março de 2011. Foi realizado um estudo descritivo, analítico e transversal efetuado através da consulta dos processos clínicos dos doentes da consulta de gastrenterologia pediátrica do Hospital Garcia de Orta, que ingressaram em protocolo terapêutico com infliximab. A terapêutica monoclonal e realizada as 0, 2 e 6 semanas e posteriormente de 8/8 semanas, na dose de 5 mg/ kg por via endovenosa. Todos os doentes que ingressaram em protocolo terapêutico apresentavam doença ativa e refrataria a terapêutica convencional e a sua utilização foi aprovada pela Comissão de Ética deste hospital. O diagnostico de doença de Crohn foi estabelecido de acordo com os critérios do Porto. Nos pacientes com doença de Crohn a resposta clinica foi avaliada através da escala Pediatric Crohnˇıs Disease Activity Index (PCDAI) no início e apos 6 meses de terapêutica e classificada em 3 categorias: remissão clinica, resposta parcial e ausência de resposta. Definimos remissão clinica como PCDAI final inferior a 10. Nos casos com PCDAI final superior a 10 mas descida igual ou superior a 15 valores da avaliação inicial, consideramos a resposta como parcial. Para avaliação da resposta clinica no único doente com colite ulcerosa foi utilizada a escala Pediatric Ulcerative Colitis Activity Index (PUCAI), sendo considerada remissão clinica um PUCAI final inferior a 10. Para a analise estatística utilizou-se o SPSS v.19.0 e o nível de significância estabelecido foi de p < 0,05.

Resultados Seis doentes pediátricos (4 do sexo feminino) iniciaram terapêutica com infliximab. 5 apresentavam doença de Crohn moderada a grave (PCDAI > 30), 4 com doença penetrante do ileon e/ou colon e um com doença estenosante a nível do duodeno. Um caso apresentava colite ulcerosa grave (PUCAI de 70) com pancolite.

Todos apresentavam doença ativa, grave e refrataria a terapêutica convencional (corticoterapia e imunossupressão). A idade média de início do tratamento foi de 15,7 anos. O intervalo medio entre a data de diagnóstico e o início da instituição de terapêutica monoclonal foi de 3,5 anos. Verificou-se que quanto maior foi esse intervalo, maior repercussão existiu na altura (p = 0,032). A duração média de tratamento ate a data do estudo foi de 15,7 meses.

Verificou-se remissão clinica em 5 doentes. Um doente teve resposta clinica inicial parcial (descida PCDAI de 65 para 37,5) sendo necessário o encurtamento do esquema para de 6 em 6 semanas.

Verificou-se um aumento ponderal medio de 8 kg, assim como uma subida média de 0,58 valores no z-score de índice de massa corporal.

A data de início do tratamento 5 doentes apresentavam anemia e um padrão inflamatório com pico de _1/_2 na eletroforese de proteínas, com resolução analítica apos 6 meses de terapêutica. Em todos houve normalização da velocidade de sedimentação e da albumina.

Verificaram-se 2 reações alérgicas ligeiras e uma elevação transitória das transaminases (2 vezes os valores normais) num dos doentes, que não conduziram a interrupção da terapêutica. Não se detetaram infeções durante o tratamento.

Num dos doentes a terapêutica com infliximab foi suspensa ao fim de 2 anos pela melhoria clinica verificada, tendo no entanto sofrido uma recaída com necessidade de cirurgia para dissecção ileal ao fim de um ano. Noutro doente a terapêutica com infliximab foi substituída por adalimumab por comodidade de administração, com boa resposta clinica.

Na tabela 1 estão resumidos os resultados obtidos.

Tabela_1 Resumo dos resultados obtidos

Discussão O infliximab, sendo a primeira terapia biológica aprovada para o tratamento da doença de Crohn em doentes pediátricos, surge como uma nova opção terapêutica nesta população. Os primeiros relatos sobre a sua segurança e eficácia demonstraram que as taxas de remissão eram francamente superiores quando comparados com a terapêutica convencional4-8. E curiosamente a eficácia era superior nas crianças quando comparadas com os adultos5,6.

No entanto, ainda depende mais do julgamento clinico do que de uma abordagem baseada na evidencia, a decisão de quais os pacientes que mais beneficiam desta terapêutica, se e melhor a sua utilização isolada ou em combinação, e a altura ideal para a sua introdução no decurso da doença9.

Embora os benefícios do infliximab estejam melhor estabelecidos para a doença de Crohn, houve uma resposta clinica e laboratorial favorável no nosso doente com colite ulcerosa.

Não podemos também esquecer que existe risco associado a esta terapêutica (hipersensibilidade, aumento do risco de infeção e potencial risco de malignização) pelo que os doentes em tratamento devem ter um acompanhamento regular e adequado. Contudo, e em concordância com o descrito na literatura, na nossa população e ate a data de conclusão do estudo, a terapêutica com infliximab tem sido bem tolerada e eficaz no controlo da doença.

No entanto, realçamos que o reduzido tamanho da amostra e o curto período de seguimento levam a que o nosso estudo apresente limitações importantes.

Salientamos a necessidade de realização de futuros estudos multicêntricos para avaliar convenientemente a utilização do infliximab na DII da população pediátrica, tendo em conta o número reduzido de doentes nos diversos centros.


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