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EuPTCVHe0872-81782012000400006

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variedadeEu
ano2012
fonteScielo

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Tumor de Buschke - Löwenstein: um caso em doente com coinfeção Vírus da imunodeficiência humana e Vírus papiloma humano

Introdução O tumor de Buschke-Löwenstein (TBL), também designado por condiloma acuminatumgigante, é uma variante rara de condiloma que se apresenta clinicamente como uma lesão tumoral extensa na região genital, anal e/ou perianal. Foi descrito pela primeira vez em 1896 por Buschke numa lesão do pénis1,2. Desde então, foram publicados vários casos clínicos, a maioria em localização genital. Este tumor, com alta taxa de transformação maligna, comporta-se localmente como uma neoplasia com capacidade de invasão das estruturas adjacentes, apesar de apresentar características histológicas benignas e de não ter potencial metastático3. A cirurgia é considerada a melhor opção terapêutica inicial pela maioria dos autores, mas o tumor possuiu uma alta taxa de recorrência pós-cirúrgica.

Caso clínico Doente do sexo masculino, 35 anos, caucasiano, observado em agosto de 2007 em consulta de Proctologia por vegetação perianal, proctalgia, proctorreia e incontinência anal passiva com 10 meses de evolução. Referia consumo etanólico (100 g/dia) desde os 18 anos. O doente tinha hepatite crónica C e infeção VIH- 1 diagnosticadas aos 28 anos, apresentando na altura da consulta uma contagem de 67 células CD4/_l. Estava medicado com lamivudina, estavudina e efavirence.

Ao exame proctológico apresentava uma volumosa lesão vegetante e infiltrativa ocupando a região perianal e o canal anal (fig._1). O diagnóstico histológico da lesão revelou condiloma acuminatum, sem transformação maligna (fig._2).

Efetuou uma ressonância magnética (RM) pélvica que revelou uma lesão expansiva, exofítica em relação ao canal anal, com 10×6 cm de diâmetro, contactando com o esfíncter anal externo na sua porção superior (fig._3).

Foi submetido a ressecção cirúrgica (fig._4), tendo as lesões condilomatosas residuais sido tratadas com imiquimod tópico e crioterapia. O exame anatomopatológico da peça operatória mostrou condiloma acuminatum, confirmando a ausência de transformação maligna.

Doze meses após a cirurgia encontrava-se assintomático e não apresentava lesões ao exame objetivo (fig._5). A reavaliação clínica, com ecografia endoretal e RM pélvica (fig._5) não revelaram recorrência da doença.

Discussão Apresentamos um caso raro de TBL perianal e anal, em doente jovem com hábitos etanólicos e infeção VIH, 2 fatores de risco descritos para o aparecimento desta lesão, que foi tratado cirurgicamente com sucesso.

O TBL é uma lesão genital ou perianal volumosa com características histológicas de condiloma acuminatum. Foi descrito pela primeira vez em 1896, mas foi definida como entidade nosológica, com a designação de «carcinomalike condylomata acuminata» apenas em 1925 por Buschke e Löwenstein1,2. Nessa data ficaram também estabelecidas as principais diferenças entre o TBL, o condiloma acuminatum simples e o carcinoma pavimento celular do ânus (SCC), 3 entidades com características clínicas semelhantes mas com comportamento biológico e características histológicas diferentes3,5.

O tumor localiza-se mais frequente na área genital. Afeta predominantemente a vulva e a área balanoprepucial, mas pode atingir o escroto, a bexiga ou o reto.

O envolvimento anorretal e perianal é raro e estão descritos pouco mais de 50 casos. Numa meta-análise de TBL anorretais publicados na literatura inglesa, no período de 1958 a 2000, foram encontrados apenas 51 casos. A doença foi mais frequente nos homens (ratiomasculino/ feminino 2,7:1), a idade média de diagnóstico foi de 43,9 anos4.

A sua etiologia, patogénese e história natural não estão completamente esclarecidas. evidência de que seja causado pelo vírus papiloma humano (HPV), estando implicados os tipos 6 e 11. Os fatores de risco descritos são a imunossupressão (quimioterapia, corticoterapia, diabetes mellitus e infeção VIH), a gravidez, o consumo de álcool e tabaco, a higiene local e a infeção pelo vírus Herpes simplex5,8.

Não está esclarecido se o condiloma acuminatum, o TBL e o SCC representam entidades clínicas separadas ou um espetro contínuo de evolução, promovido por cofatores carcinogénicos do condiloma acuminatumpara TBL e deste para o SCC3,5.

O comportamento biológico do TBL é intermédio entre o condiloma simples e o SCC, possuindo crescimento lento, sofre transformação maligna em 30-56% dos casos, num período médio aproximado de 5 anos, e raramente metastiza. O TBL pode ser localmente muito invasivo, estendendo-se para os órgãos pélvicos e estruturas ósseas e complicar-se de infeção, abcesso ou fistulização5-7.

A história natural do TBL no doente VIH é pouco conhecida e estão descritos poucos casos na literatura. Contudo, está estabelecido que a competência imunológica do doente desempenha um papel importante na infeção pelo HPV: as doenças anogenitais causadas pelo HPV são mais frequentes em doentes com infeção por VIH e imunodeprimidos e o risco de desenvolver carcinoma anal é maior nos doentes coinfetados com VIH e HPV8. Parece existir uma interação complexa entre o VIH, o HPV e os mecanismos imunológicos da mucosa local: o VIH aumenta a transcrição do HPV e este provoca diminuição do número de magrófagos, células de Langerhans e células CD4 na mucosa, com consequente diminuição do controlo imunológico local da infeção HPV e aumento da proliferação deste vírus8,9.

Também o efeito da terapêutica antirretroviral (TARV) no curso clínico do TBL não foi estudado sistematicamente. A TARV não inibe a replicação do HPV e pode até ter efeito paradoxal, precipitando o aparecimento de TBL em doentes com infeção prévia pelo HPV8,9. Em 2003, Moussa et al. descreveram um caso de desenvolvimento de TBL numa doente com condilomas perianais e infeção VIH, após TARV e restabelecimento da imunidade. Os autores consideram que poderá tratar- se de um síndrome de restauração imunoinflamatória, relacionada com o aumento de células imunológicas que promovem uma resposta atípica à infeção existente por HPV, com consequente desenvolvimento de uma lesão tumoral de grandes dimensões9.

O diagnóstico do TBL exige a realização de biopsia que deverá ser suficientemente grande e profunda, para permitir o diagnóstico histológico e avaliar a presença de focos de células malignas. No exame histológico, o TBL distingue-se do condiloma acuminatumsimples pela sua marcada proliferação e penetração profunda nos tecidos adjacentes e, do SCC pela ausência de invasão da membrana basal e capacidade de metastização (critérios de Buschke- Löwenstein)3-5.

O estadiamento deverá ser efetuado com TC ou RM pélvica que permitem caracterizar a extensão da lesão antes do tratamento.

O tratamento deve ser instituído o mais precocemente possível, para prevenir invasão e destruição local dos tecidos bem como para evitar a transformação maligna.

As modalidades terapêuticas existentes incluem a cirurgia, a radioterapia, a quimioterapia e a imunoterapia mas nenhum dos métodos é universalmente eficaz10-14.

Não guidelines que orientem a decisão terapêutica, mas a escolha inicial é geralmente a excisão cirúrgica. A cirurgia, para além do tratamento, permite também a obtenção de amostras amplas de toda a lesão para exame histológico e avaliação de transformação maligna. A ressecção abdominoperineal é preconizada em doentes com lesões extensas, infiltração do esfíncter anal ou pélvica e/ou transformação maligna, dada a elevada taxa de recorrência nestas situações5,10.

A radioterapia está descrita como terapêutica de recurso em doentes que recidivaram após tratamento cirúrgico, podendo também ser utilizada como terapêutica neoadjuvante na doença localmente avançada ou em doentes não candidatos a cirurgia. Este método é pouco eficaz quando utilizado isoladamente e pode complicar-se de fibrose e estenose do canal anal. Alguns estudos sugerem que pode induzir transformação anaplásica da lesão, pelo que a maioria dos autores recomenda o uso de doses elevadas de radiação, para minimizar o risco de aparecimento de novas mutações10,13,14.

A quimioterapia neoadjuvante é recomendada por alguns autores nos casos de doença localmente avançada que impeça a ressecção com margens de segurança. Têm sido utilizados a mitomicina, o 5-fluoruracilo e a bleomicina14.

A imunoterapia, utilizando o interferão clássico alfa 2b sistémico, intralesional ou tópico, baseia-se na hipótese de etiologia viral e tem em conta as ações antiproliferativa, antiviral e imunomoduladora do fármaco. A utilização intralesional tem demonstrado maior taxa de eficácia (até 45-60%), mas com elevadas taxas de recorrência (47 a 62%) e de efeitos secundários10-12.

O podofilino, o ácido tricloroacético e o imiquimod de aplicação tópica, apesar de eficazes em condilomas perianais simples e pequenos, não têm eficácia comprovada nas lesões de TBL, pelo que não devem ser utilizados5,10.

É necessário um seguimento periódico para identificar e tratar precocemente as recorrências. O risco de recorrência após a excisão é de 60-66% (tempo médio de 10 meses) e as complicações não são desprezáveis, nomeadamente infeção da ferida operatória e dificuldade de cicatrização10. A taxa de mortalidade é de 20-30%. O prognóstico é mau nos doentes não tratados, uma vez que o tumor, apesar de ter crescimento lento, é fatal por envolvimento dos órgãos adjacentes. Quando adequadamente tratado, o prognóstico é favorável4,6.

No presente caso, as características clínicas, com volumoso tumor ocupando toda a região perianal e canal anal, associadas aos achados no exame histológico de lesões de hiperqueratose, papilomatose e coilocitose, confirmam o diagnóstico de TBL. A presença de coilócitos, alterações celulares típicas da infeção pelo HPV, apoia a hipótese do papel deste vírus como agente etiológico. A imunossupressão marcada do doente (67 células CD4/_l) resultante da infeção pelo VIH terá também contribuído como fator predisponente para o aparecimento da lesão.

Neste caso, a idade de apresentação foi cerca de 10 anos inferior à idade média referida na literatura, acompanhando a tendência atual para o TBL ocorrer em idades mais precoces5. O facto de ser uma doença de curta duração (10 meses de evolução) terá contribuído para a inexistência de focos de malignidade e para a eficácia duradoura da terapêutica cirúrgica.

Este caso reforça o papel da coinfeção VIH e HPV no desenvolvimento do TBL, bem como da importância do tratamento cirúrgico no tratamento destes tumores.


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