Trânsito do cólon e diabetes
Trânsito do cólon e diabetes
Colonic transit and diabetes
Miguel Mascarenhas Saraiva
Gastrenterologista coordenador, ManopH, Instituto CUF, Porto, Portugal
Docente Externo - Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Porto,
Portugal
Correio eletrónico: miguelms@manoph.pt
O trânsito gastrointestinalé a principal função resultante da motilidade
digestiva. Como tal, a sua medida vai permitir uma melhor análise
fisiopatológica das perturbações funcionais gastrointestinais, particularmente
a obstipação, e uma avaliação mais objetiva dos efeitos de determinadas
terapêuticas.
O estudo do tempo de trânsito do cólon
A medida do tempo de trânsito intestinal por adição de um marcador ao bolo
alimentar natural permite uma avaliação global da motilidade cólica. Esta
avaliação, especialmente nos casos de obstipação, constitui um método com
objetividade superior à frequência de defecações relatada pelo doente.
Os marcadores utilizados para os estudos do tempo de trânsito intestinal devem:
ser facilmente notificados e quantificáveis, estar isentos de absorção no
intestino, seguir corretamente o bolo alimentar e os resíduos não absorvíveis e
ser isentos da capacidade de modificar a motilidade intestinal.
Vários marcadores têm sido propostos, cada um com as suas vantagens e
desvantagens1: De todos eles, os pequenos marcadores radiopacos («pellets»)são
os que possuem maiores vantagens, pois o seu número pode ser determinado com
precisão em radiografias simples do abdómen ou das fezes, têm a mesma gravidade
do conteúdo intestinal e seguem corretamente a sua progressão.
No indivíduo normal, mais de 80% dos marcadores são eliminados nos 5 d que se
seguem à ingestão2. Várias técnicas foram propostas para estudar o tempo de
trânsito do cólon (TTC) com marcadores radiopacos, permitindo determinar o
tempo de trânsito global e o tempo de trânsito segmentar3-6. Foi demonstrada a
repetibilidade dos tempos de trânsito, sem diferenças quando a administração
dos marcadores foi feita durante ou fora das refeições4. Representa uma técnica
fiável e aplicável como exame de primeira linha no estudo de doentes com
obstipação crónica.
O TTC é inferido a partir da apreciação da sua distribuição e do seu
desaparecimento na radiografia abdominal simples seriada. Assenta em 2
princípios: 1) O tempo de trânsito estômago-intestino delgado é mais ou menos
constante e sempre inferior a 24 h; 2) A disposição anatómica do quadro cólico
permite a referenciação dos diferentes segmentos na radiografia do abdómen sem
preparação3.
Em doentes com obstipação crónica, a realização do TTC ajuda a planear o seu
tratamento. O estudo pode demonstrar um TTC normal, o que dá uma indicação de
que não existe uma perturbação grave da motilidade cólica. Quando o TTC global
está aumentado, a medição dos TTC segmentares permite distinguir 3 tipos de
situações1: inércia cólica - caracterizada por uma estase dos marcadores no
conjunto do cólon; hindgut dysfunction- caracterizada por estase dos marcadores
no cólon esquerdo; obstipação terminal- quando os marcadores se retêm no
sigmoide e reto.
As alterações da função gastrointestinal na diabetes mellitus
As alterações da função gastrointestinal motora e sensorial ocorrem com
frequência na diabetes tipo 1 e tipo 2 e podem associar-se a sequelas clínicas
significativas. Os estudos epidemiológicos confirmam a elevada prevalência de
sintomas gastrointestinais na população diabética e que estes se associam a
deterioração da qualidade de vida.
Na diabetes mellitus, é muito frequente (em cerca de 62% dos casos7) o
aparecimento de sintomas gastrointestinais provocados por dismotilidade,
especialmente nos doentes com neuropatia autónoma e/ou periférica.
A causa desta dismotilidade é geralmente atribuída ao envolvimento do sistema
nervoso autónomo. De facto, vários estudos confirmam o envolvimento de vários
troncos nervosos nesta doença, quer no vago, quer nos troncos simpáticos, e
gânglios do sistema nervoso autónomo. No sistema nervoso entérico, não parece
haver alterações morfológicas8-10.
Outros fatores poderão estar implicados na dismotilidade que caracteriza esta
doença, tais como alterações degenerativas do músculo liso8,10. A hiperglicemia
pode também afetar a motilidade digestiva, quer por efeitos diretos, quer por
interferência na atividade eferente do nervo vago, dum modo agudo, ou pelo
estabelecimento das lesões crónicas que caracterizam a neuropatia diabética.
Poderão também existir alterações das hormonas digestivas e dos vários
neurotransmissores e neuromediadores presentes na parede do tubo digestivo.
Apesar da elevada incidência de obstipação na diabetes, a função motora do
cólon nesta doença não tem sido alvo de muitas investigações, nomeadamente
estudos dirigidos à medição do TTC.
Tempo de trânsito do cólon em doentes diabéticos
Neste número do GE, João Xavier Jorge et al. apresentam um interessante estudo
do TTC com marcadores radiopacos, efetuado em 68 doentes com diabetes mellitus
tipo 211. O objetivo deste trabalho foi estudar a influência da idade, sexo,
duração da doença e controlo glicémico sobre o trânsito digestivo, nos
diabéticos. Recorreram a uma técnica simplificada do estudo do TTC: 2
radiografias abdominais, 24 e 72 h após a ingestão de 25 partículas radiopacas.
Analisaram a relação entre o número de partículas no cólon direito, esquerdo,
sigmoide - reto e cólon total com a idade, o género, a duração da doença e a
hemoglobina glicosilada (HbA1c). A principal diferença que encontraram nas
radiografias das 24 h foi um maior número de partículas no cólon dos doentes
com HbA1c≤7%. Nas radiografias das 72 h, não encontraram diferenças no número
de marcadores presentes nas análises dirigidas ao sexo, género e valores da
HbA1c. No entanto, ao analisar os resultados de acordo com a duração da doença,
constataram que os doentes diabéticos há > 10 anos tiveram um maior número de
partículas presentes no cólon (ou seja, um trânsito cólico global
significativamente mais lento), sendo, na análise por segmentos, esta diferença
significativa apenas no cólon esquerdo e cólon sigmoide e reto, achados que são
semelhantes aos que reportaram recentemente aquando duma análise comparativa do
TTC entre diabéticos e controlos12. E estão de acordo com o que tem sido
reportado noutros estudos efetuados com marcadores radiopacos, que encontraram
diferenças significativas no trânsito no cólon distal em doentes diabéticos com
evidência de neuropatia autonómica cardiovascular, contrastando com os doentes
sem neuropatia autonómica13,14, ou de que o TTC é mais lento nos diabéticos com
maior duração da doença.
Os doentes incluídos neste estudo não tinham sinais eletrocardiográficos de
neuropatia autónoma, caracterizada pelo quociente dos intervalos R-R no ECG. O
facto de terem encontrado alterações no TTC nos diabéticos com maior tempo de
doença, mas ainda sem evidência de neuropatia autonómica cardiovascular, sugere
que estes doentes poderão já apresentar uma disfunção autonómica, afetando a
função digestiva, precedendo a cardiovascular. E apoia a hipótese, sugerida por
anteriores trabalhos, de que os estudos da motilidade digestiva poderão ser
úteis na deteção de disfunção autónoma na diabetes. Um estudo comparativo dos
testes cardiovasculares com alguns estudos da motilidade digestiva
(esvaziamento gástrico com marcadores radiopacos, tempo de transito orocecal e
TTC) mostrou que não existia correlação entre a deteção de alterações nos
testes digestivos e a presença de alterações cardiovasculares15. Também não foi
demonstrada correlação entre alterações da sensibilidade retal e as anomalias
nos testes cardiovasculares da função autónoma.
Deste modo, a caracterização de uma dismotilidade digestiva em doentes com
diabetes poderá ajudar a detetar precocemente a neuropatia autónoma que
acompanha esta doença. Provavelmente, o estudo do TTC será um dos exames a
efetuar.