Via rara de metastização de tumor laríngeo
INSTANTÂNEO ENDOSCÓPICO
Via rara de metastização de tumor laríngeo
Unusual route of metastization of laryngeal tumor
Joana Saiote∗, Mariana Costa, Diana Carvalho, Milela Mendes e Isabel Redondo
Serviço de Gastrenterologia, Hospital Santo António dos Capuchos, Centro
Hospitalar de Lisboa Central, EPE, Lisboa, Portugal
*Autor para correspondência
Via rara de metastização de tumor laríngeo
Doente do sexo masculino, 75 anos, com o diagnóstico de carcinoma pavimento-
cecular da corda vocal esquerda (T2N2M0), foi submetido a radioterapia,
desenvolvendo edema faringolaríngeo 6 meses após terapêutica. Foi realizada
traqueostomia e colocação de sonda de gastrostomia percutânea transendoscópica
(PEG), pelo método de Ponski-Gauderer (pull method). O exame endoscópico
efetuado durante o procedimento não revelou lesões na mucosa gástrica (fig._1).
Três meses mais tarde, o doente recorreu ao serviço de urgência por presença de
conteúdo hemático na sonda de gastrostomia. Foi realizada endoscopia digestiva
alta, que revelou múltiplas lesões vegetantes na parede anterior do estômago,
adjacentes ao botão interno da PEG, algumas das quais ulceradas (figs._2 e 3).
O exame histológico das biopsias efetuadas mostrou tratar-se de um carcinoma
pouco diferenciado, sendo a análise imuno-histoquímica consistente com
metastização de carcinoma da laringe, com elevada expressão de citoqueratina
CK34B12 e baixa expressão de citoqueratinas CK8/18.
Em neoplasias do trato aerodigestivo superior, a gastrostomia percutânea
endoscópica é frequentemente utilizada para suporte nutricional. O método de
Ponski-Gauderer (pull method) foi inicialmente descrito para a colocação da PEG
e é o mais amplamente utilizado. Neste método, a sonda de gastrostomia passa
através da boca, faringe e esófago antes de atingir a parede abdominal.
A disseminação tumoral ou metástases no local da PEG é uma complicação rara com
o pull method (0,7 a 2%)1. Existe uma grande variedade de teorias acerca do
mecanismo de propagação, sendo o mais provável a sementeira direta durante a
passagem do dispositivo, pelo cisalhamento de células tumorais2,3.
Em 2007, uma revisão dos casos publicados tentou identificar os fatores de
risco associados à disseminação tumoral e desenvolver estratégias para
minimizá-lo4. Os fatores patológicos identificados incluíram: localização
faringoesofágica da neoplasia primitiva, fatores relacionados com a histologia
da lesão (tipo pavimento-celular e pouco ou moderadamente diferenciado),
estadio patológico avançado e lesão primária de grandes dimensões ao
diagnóstico. No que diz respeito a fatores de risco relacionados com a
terapêutica, estes incluíram: colocação de PEG por via endoscópica, utilização
do pull method, tumor primário não tratado e intervalo superior a 3 meses após
colocação inserção da PEG.
Embora o risco metastização pelo trato de PEG seja pequeno, devem ser tomadas
precauções especiais durante o procedimento. A opção por métodos de inserção do
tubo de gastrostomia que não necessitem da sua passagem através da faringe,
minimizando o contacto direto com as células tumorais, deverá ser tomada em
consideração. Os métodos alternativos de colocação de PEG incluem opções com
apoio endoscópico, radiológico (guiado por ecografia ou fluoroscopia) ou
cirúrgico (mini-laparotomia ou laparoscopia).
Embora a complexidade técnica do método endoscópico descrito por Russel
(técnica «push-through» ou «com introdutor» com ou sem gastropexia)5 seja maior
e tenha sido descrito inicialmente maior número de complicações do que com o
pull method, o facto de não requerer passagem do tubo de gastrostomia pela
orofaringe faz com que seja cada vez mais sugerido como método preferencial
nestes doentes.