Ecoendoscopia digestiva na prática clínica parte IIa: utilidade na avaliação do
pâncreas
Introdução
A ecoendoscopia (EE) permite avaliar toda a espessura da parede
gastrointestinal e discriminar as suas diferentes camadas histológicas através
da respetiva correspondência ultrassonográfica, assumindo um papel único na
caracterização das lesões parietais e no estadiamento locoregional das
neoplasias gastrointestinais (Ecoendoscopia digestiva na prática clínica -
avaliação da parede gastrointestinal, GE 2011 vol.18). As outras indicações
advêm da sua capacidade de fornecer imagens de alta resolução das estruturas
adjacentes à parede digestiva, nomeadamente do pâncreas.
A possibilidade de posicionar o transdutor muito próximo da área pancreática
minimiza os efeitos de artefacto que são produzidos pela interposição de ar
luminal digestivo, que constituem uma das principais limitações da abordagem
ultrassonográfica transparietal convencional. As sondas de alta frequência
utilizadas fornecem imagens de alta resolução espacial, permitindo identificar
estruturas milimétricas.
A opção pela modalidade de abordagem linear ou radial depende das
particularidades anátomo-clínicas a avaliar, da experiência do operador e da
disponibilidade do equipamento. No entanto, é aceite que a ecoendoscopia linear
permite uma melhor caracterização de alguns detalhes anatómicos do pâncreas,
além de proporcionar a colheita de material para cito-histologia através de
punção aspirativa com agulha fina (PAAF). Desde a sua introdução, em 1992, que
a punção aspirativa com agulha fina guiada por ecoendoscopia (PAAF-EE) se tem
evidenciado como um procedimento eficaz e seguro, encontrando-se atualmente
incluída em grande parte dos algoritmos de diagnóstico e estadiamento de lesões
pancreáticas.
A EE é considerada uma técnica minimamente invasiva, apresentando uma reduzida
taxa de complicações (1-3%), associadas na maioria à realização de PAAF
(perfuração, infeção, hemorragia, pancreatite, disseminação tumoral)1,2. Tem
como principais limitações o facto de ser operador dependente e ter uma baixa
reprodutibilidade.
Lesões sólidas do pâncreas
A natureza das lesões sólidas do pâncreas é vasta. As entidades malignas
compreendem o adenocarcinoma ductal (ADC), os tumores neuroendócrinos (TNE), o
linfoma pancreático, as metástases de tumores extrapancreáticos, o carcinoma de
células acinares, a neoplasia pseudopapilar sólida e, ainda, as neoplasias
quísticas com componente sólido. As lesões benignas incluem os pseudotumores
inflamatórios, que podem ocorrer no contexto de pancreatite crónica,
pancreatite focal ou pancreatite autoimune (PAI), e as lesões quísticas
complexas.
A aplicação clínica da EE na abordagem das lesões sólidas do pâncreas tem sido
avaliada segundo a sua capacidade na deteção e diagnóstico, bem como no
estadiamento e determinação da ressecabilidade das mesmas.
Estudos comparativos datados de há 2 décadas reportam uma maior sensibilidade
da EE na deteção de lesões sólidas do pâncreas (94-99%) comparativamente com a
ultrassonografia abdominal (67%), tomografia computorizada (TC) (69-77%) e
ressonância magnética (RM) (83%), uma superioridade mais notória no caso das
lesões com menos de 3 cm (sensibilidade 93-100% para a EE, 50-89% para a TC e
67% para a RM)3-6. A EE permite detetar e puncionar lesões com menos de 1 cm7.
O seu valor preditivo negativo (VPN) aproxima-se dos 100%, sendo os falsos
negativos geralmente resultantes de aspetos infiltrativos difusos das lesões
tumorais, coexistência de pancreatite crónica ou episódio recente (< 4 semanas)
de pancreatite aguda8.
Em contraste com a elevada sensibilidade, a EE apresenta uma especificidade
diagnóstica relativamente baixa, porque as características da imagem
ultrassonográfica convencional em modo B não permitem diferenciar tumores
pancreáticos malignos de massas inflamatórias pseudotumorais. No entanto, a
realização de PAAF-EE possibilita o diagnóstico diferencial na maioria dos
casos9.
A EE pode ser utilizada no estadiamento loco-regional das lesões malignas do
pâncreas (sistema TNM, American Joint Committee on Cancer), ao permitir avaliar
a sua relação com os órgãos e as estruturas vasculares adjacentes, aspeto
crítico na determinação do estádio T e da ressecabilidade tumoral, e a
existência de linfadenopatias malignas peripancreáticas. A validade dos estudos
existentes acerca do valor da EE neste contexto é, contudo, limitada, sendo os
resultados heterogéneos. Em geral, admite-se que a EE é superior à TC no
estadiamento T e na avaliação da invasão vascular do confluente esplenoportal,
e equivalente na determinação do estadiamento N e na predição da
ressecabilidade tumoral6,10.
Na última década a disponibilidade da alta definição e a capacidade de
aquisição volumétrica da TC helicoidal multicorte revolucionou a resolução da
imagem pancreática por TC, elevando a sensibilidade global da técnica para 97-
100% e a predição de ressecabilidade para quase 100% na avaliação das lesões
sólidas11. Igualmente as novas modalidades da RM associam-se a taxas de
sensibilidade de 83-87% e especificidade de 81-100%11, emergindo como uma
alternativa à TC no estudo do pâncreas, embora mais dispendiosa. O valor da
tomografia de emissão de positrões acoplada à tomografia computorizada (PET-TC)
foi avaliado numa meta-análise recente, que reporta uma sensibilidade e
especificidade diagnósticas de 81-90% e 83- 93%, respetivamente12. Embora o seu
valor no diagnóstico diferencial dos tumores pancreáticos seja reduzido, a
PETTC com contraste (18F-fluorodeoxyglucose) apresenta uma acuidade superior a
80% na determinação da invasão local e de 94% na identificação de metástases
distantes. Além da capacidade na avaliação da resposta ao tratamento, tem uma
elevada sensibilidade no diagnóstico da recorrência pós-operatória, superior à
TC13-15. Considerando as potencialidades emergentes da PET-TC, também o seu
valor no estadiamento N tem sido avaliado, revelando uma sensibilidade de 46-
71% e uma especificidade de 63-100%16.
Na prática clínica, a TC de última geração realizada segundo protocolo
pancreático (multifásico) é o melhor método de imagem inicial em caso de
suspeita de lesão pancreática focal, por se encontrar amplamente disponível e
por permitir diagnosticar, bem como estadiar e predizer a ressecabilidade da
maioria das lesões. A RM é especialmente útil na deteção e caracterização de
massas pancreáticas que não alteram o contorno pancreático e de pequenas
metástases hepáticas, peritoneais e do epíploon17. A realização da EE deverá
ser considerada em 2 circunstâncias principais e consensuais: para confirmar a
ausência de lesões pancreáticas segundo outros métodos de imagem (TC/RM),
perante forte suspeita clínica, ou clarificar imagens equívocas e inconclusivas
por estes detetadas; e nas situações de irressecabilidade tumoral, para
obtenção de um diagnóstico cito-histológico através de PAAF-EE. Em caso de
lesões potencialmente ressecáveis (15-20%), a necessidade de diagnóstico
definitivo pré-operatório continua em debate, sobretudo no caso das massas
localizadas no corpo distal e cauda, pelo risco de disseminação peritoneal ou
implantação tumoral na parede gástrica. Este risco é, no entanto,
significativamente inferior ao da PAAF guiada por TC, estando apenas relatados
alguns casos isolados (0,5-3% )1,2,18. Quando utilizada no estadiamento loco-
regional de lesões com indicação duvidosa para resseção (borderline
ressectable), a EE pode detetar disseminação metastática previamente insuspeita
em mais de 10% dos casos, evitando assim a cirurgia19. Se o estudo inicial por
TC ou RM evidenciar metástases à distância, a EE não está formalmente indicada
e a punção lesional poderá ser realizada por via percutânea.
O papel da PAAF-EE no diagnóstico das lesões sólidas do pâncreas foi avaliado
numa meta-análise recente, que reporta uma sensibilidade, especificidade, valor
preditivo positivo (VPP) e VPN para malignidade de 85-91%, 94-98%, 98-99% e 65-
72%, respetivamente20. Este último valor significa que uma PAAF negativa para
malignidade não permite excluir em definitivo essa possibilidade, pelo que está
recomendada a sua repetição se persistir a suspeita clínica21. O diagnóstico
diferencial entre lesão maligna e pseudotumor inflamatório continua a ser uma
das grandes limitações da técnica22.
A avaliação da qualidade da amostra no local do procedimento por um
citopatologista (Rapid On-Site Cytologic Evaluation - ROSE)aumenta globalmente
a sensibilidade e a acuidade diagnóstica da PAAF-EE em 10-15% e pode diminuir o
número de passagens necessárias, embora nem todos os estudos o tenham
demonstrado23-26. Encontra-se por determinar o papel do citotécnico experiente
ou do endossonografista com treino em citopatologia, na impossibilidade da
presença do citopatologista. A seleção do calibre da agulha de PAAF depende das
características e da localização da lesão a puncionar, sendo a sua acuidade e
segurança globalmente similares. Dados recentes da literatura conferem à agulha
de 25 gauge (G) uma vantagem na qualidade da amostra menor contaminação e uma
sensibilidade superior no diagnóstico de malignidade pancreática
comparativamente com a agulha 22G (93 versus85%), no entanto, sem qualquer
diferença quanto à acuidade diagnóstica, número de passagens necessárias e
complicações27,28. Uma vantagem técnica indiscutível da agulha 25G é a sua
aplicação nas lesões sólidas do processo uncinado.
Encontram-se em avaliação as novas agulhas desenhadas para obter fragmentos de
biopsia (como as agulhas ProCoreTM 19, 22 e 25 G), desenvolvidas para
ultrapassar as limitações técnicas das agulhas tru-cut(19 G), mas os resultados
iniciais são comparáveis aos das agulhas de PAAF29,30. Além disso, o material
obtido com as agulhas de PAAF pode ser enviado para preparação citobloco
(cellblock) em complemento aos esfregaços, proporcionando uma análise
histológica e estudos de imuno-histoquímica, genética e citometria de fluxo,
particularmente úteis na suspeita de TNE, linfoma ou PAI.
A elastografia e o contraste endovenoso têm vindo a ser aplicados à EE, com o
objetivo de colmatar o VPN limitado da PAAF. A elastografia-EE permite estimar
a elasticidade dos tecidos em tempo real. A sua utilização baseia-se no
princípio de que os tecidos malignos apresentam uma maior dureza. Os primeiros
dados publicados referem-se a uma avaliação qualitativa, que utiliza uma escala
de cores para representar diferentes graus de dureza tecidual. Recentemente,
foi desenvolvida a elastografia quantitativa ou de 2.a geração que fornece um
resultado numérico comparativo, tornando a interpretação dos resultados menos
subjetiva. Estudos iniciais reportam uma acuidade superior a 85% na
diferenciação entre lesões pancreáticas malignas e benignas, comparável à PAAF-
EE, embora os valores cut-offde referência careçam de validação31,32. A
elastografia-EE pode contribuir para o diagnóstico diferencial entre ADC e
pancreatite crónica (sensibilidade 100%, especificidade 96%) e entre ADC e TNE
(sensibilidade 100%, especificidade 88%)31. Por sua vez, a administração de
contraste endovenoso (hexafluoreto de enxofre, Sonovue®) (fig._1) permite
analisar o padrão de microvascularização das lesões. O ADC tem uma aparência
hipovascular, contrariamente aos TNE e às lesões de pancreatite crónica e
autoimune, que têm aparência hiper ou isovascular33. O achado de uma massa
hipocaptante exibe uma sensibilidade de 94% e especificidade de 89% no
diagnóstico de ADC do pâncreas34. A análise quantitativa da captação de
contraste pode vir a aumentar a acuidade da técnica, particularmente no
diagnóstico diferencial entre ADC e pancreatite crónica34. Outras aplicações
possíveis dos agentes de contraste incluem a avaliação das estruturas
vasculares perilesionais, permitindo melhorar a acuidade da EE no estadiamento
T, e a deteção de lesões de pequenas dimensões não identificadas por EE em modo
B, particularmente nos doentes com pancreatite crónica ou com próteses
biliares. Embora não possam substituir a PAAFEE, estas 2 modalidades podem
contribuir para a tomada de decisões clínicas na abordagem de casos com cito-
histologia negativa para malignidade e podem ser utilizadas para guiar e
potenciar os resultados da PAAF-EE de lesões pancreáticas e de gânglios
linfáticos, permitindo selecionar as áreas suspeitas a puncionar35,36.
O ADC compreende 90% das neoplasias sólidas do pâncreas. Localiza-se mais
frequentemente na região cefálica. O aspeto ecomorfológico mais representativo
deste tumor é o de uma massa heterogénea, hipoecóica e com margens irregulares
(fig._2), tendo como achados preditivos a dilatação do ducto pancreático
principal e a presença de um halo hipoecóico periductal (sinal hipoecóico
periductal)37.
Dada a elevada sensibilidade da angio-TC na avaliação da invasão arterial, a EE
deve ter o papel de confirmar o grau de envolvimento vascular já determinado
por este método de imagem, após exclusão de metastização à distância38. Os
tumores irressecáveis ou borderline ressectablepodem ser incluídos em
protocolos de terapêutica neoadjuvante em validação e com diferentes
finalidades39. Nestes casos é mandatório o diagnóstico cito-histopatológico
prévio obtido por PAAF-EE. Igualmente, a presença de linfadenopatias malignas
pode justificar a realização de terapêutica neoadjuvante. As características
ecomorfológicas dos gânglios linfáticos associadas a malignidade são a forma
arredondada, dimensão superior a 5mm, ecotextura hipoecóica e margens bem
definidas. Quando presentes em conjunto, apresentam uma acuidade diagnóstica de
80%, o que ocorre em apenas 25% dos gânglios malignos, podendo ser necessário
recorrer à PAAF para confirmação cito-histológica37. A EE possibilita, também,
a identificação e punção de bolsas de efusões peritoneais e pleurais, lesões
nodulares hepáticas e adenopatias à distância.
Um estudo com um número limitado de doentes comparou a eficácia da EE e da TC
na determinação da ressecabilidade pós-terapêutica neoadjuvante do ADC
localmente avançado e mostrou uma acuidade idêntica (89 e 75%,
respetivamente)40.
Os TNE totalizam 3-5% das neoplasias sólidas pancreáticas. Com frequência, as
suas características ecomorfológicas são discriminativas, sendo tipicamente
homogéneos, hipoecóicos, com margens bem delimitadas e hipervasculares (fig.
3). O seu diâmetro médio é inferior a 1,5 cm, mas podem atingir grandes
dimensões, particularmente no caso dos tumores não funcionantes. Variantes
morfológicas incluem lesões isoecóicas ou hiperecóicas, com calcificações e
aspetos de degenerescência quística. Alguns achados ecomorfológicos podem
predizer malignidade, nomeadamente a existência de uma área central ecogénica e
irregular, áreas quísticas ou a dilatação obstrutiva do sistema ductal
pancreático41. O diagnóstico pode ser confirmado por PAAF-EE e estudo imuno-
histoquímico, que se caracteriza pela marcação com sinaptofisina e cromogranina
A. A análise molecular com quantificação do Ki-67tem provado utilidade na
avaliação do comportamento maligno dos TNE, sendo preditiva da sobrevida aos 5
anos42. O sistema de estadiamento é idêntico ao dos tumores pancreáticos
exócrinos.
A EE tem uma acuidade diagnóstica global de 57-89% para os TNE da área
pancreato-duodenal. A sensibilidade varia entre 80-90% para os tumores de
localização pancreática, e entre 30-50% para os tumores de localização
extrapancreática43-47. Assim, é útil na suspeita clínica de TNE cuja
localização primária não foi identificada pelos métodos de imagem convencionais
(TC), permitindo detetar a quase totalidade dos insulinomas e também dos
gastrinomas, exceto quando estes se localizam na parede duodenal, em que
apresentam geralmente dimensões mais reduzidas48. Comparativamente à
cintigrafia com 111In-Pentatreótido-OctreoscanTM, a EE tem uma sensibilidade
diagnóstica superior, além de permitir a caracterização citohistológica do
tumor primário e de eventuais metástases49. O uso de contraste para deteção do
padrão hipervascular lesional é um valioso método para localizar e diagnosticar
pequenos TNE50.
O linfoma primário do pâncreas, que corresponde geralmente a um linfoma não
Hodgkin (LNH) de grandes células B, representa 0,5% das neoplasias sólidas do
pâncreas e 3% dos casos de LNH extranodal51. O envolvimento pancreático
secundário é mais comum, ocorrendo em cerca de 1/3 dos doentes com LNH52.
Assume tipicamente a forma de uma massa homogénea e hipoecóica, bem
circunscrita, localizada na cabeça do pâncreas, regra geral sem invasão das
estruturas vasculares e sem dilatação do ducto pancreático principal53. Quando
o padrão é infiltrativo pode confundir-se com aspetos da pancreatite aguda.
Coexistem, habitualmente, múltiplas linfadenopatias peripancreáticas, que têm
uma localização caraterística inferior às veias renais54. O diagnóstico pode
ser confirmado pela PAAF-EE, mediante análise por citometria de fluxo e/ou
estudo imunohistoquímico. Em caso de suspeita clínica deverá ser enviado
material para citobloco ou ser utilizadas agulhas que permitem obter fragmentos
de biopsia.
O carcinoma de células acinares representa 1% das neoplasias sólidas do
pâncreas, atingindo tipicamente homens na 6.a ou 7.a décadas da vida.
Apresenta-se, habitualmente, como uma massa volumosa localizada no corpo ou
cauda, encapsulada e com um padrão de crescimento que pode ser acinar ou
sólido. O diagnóstico depende da presença de grânulos de zimogénio (coloração
ácido periódico Schiff [PAS]) e análise imuno-histoquímica com marcação para a
tripsina, quimiotripsina, lipase, amilase e fosfolipase A255. As células
tumorais podem produzir marcadores que mimetizam os TNE, conduzindo
frequentemente a erros diagnósticos56.
Em aproximadamente 1% dos casos, as neoplasias sólidas ressecadas correspondem
a metástases pancreáticas, mais frequentemente de tumores do rim (carcinoma de
células renais), mas também do pulmão, mama, cólon, melanoma, sarcoma e
ovário57. Estas lesões podem aparecer vários anos após o diagnóstico do tumor
primário, pelo que devem ser sempre consideradas quando há antecedentes de
neoplasia maligna. A ecomorfologia é muito variada, podendo corresponder a
lesões de natureza sólida e/ou quística, com ecogenicidade variável, muitas
vezes hipervasculares, e podem apresentar-se na forma de uma lesão única,
localizada preferencialmente no segmento da cabeça, lesões múltiplas ou com um
padrão de infiltração difusa58. A PAAF-EE contribui, geralmente, para o
diagnóstico definitivo.
Nos últimos anos, tem vindo a ser discutida a implementação de um programa de
rastreio para os indivíduos com risco familiar de carcinoma pancreático
(história familiar, síndrome de Peutz-Jeghers, Familial Atypical Multiple Mole
Melanoma Syndrome, mutações no gene BRCA2, síndrome de Lynch, pancreatite
hereditária), eventualmente baseado na EE, tendo em conta a elevada acuidade
desta técnica na avaliação do pâncreas e ao fato de não utilizar radiação
ionizante. Contudo, a evidência que suporta o rastreio e vigilância nestes
indivíduos de elevado risco é limitada a estudos observacionais, permanecendo
por determinar a efetividade desta estratégia em termos clínicos e
económicos59-61. Além disso, não há consenso quanto à idade em que se deve
iniciar a vigilância, ao intervalo ótimo entre as avaliações, bem como aos
métodos de imagem a utilizar. A abordagem das várias lesões que possam ser
identificadas (vigilância versuscirurgia) constitui, igualmente, um grande
desafio. No momento atual, o rastreio do carcinoma pancreático em indivíduos de
elevado risco só deverá ser realizado em centros especializados, sob orientação
de equipas multidisciplinares e preferencialmente no contexto de protocolos de
investigação62.
Lesões quísticas do pâncreas
As lesões quísticas do pâncreas são, muitas vezes, detetadas de forma
incidental, estimando-se uma prevalência acima de 3% nos estudos por TC e de
20% por RM63-65. Estudos baseados em autópsia reportam a existência de lesões
quísticas pancreáticas infracentimétricas em até 24% dos indivíduos66.
Correspondem a um vasto espetro de entidades, com um comportamento biológico
variável e, nalguns casos, com uma história natural pouco conhecida. Cerca de
50-60% são de natureza neoplásica67. Quatro entidades totalizam 90% destas
lesões: neoplasia quística serosa (NQS), neoplasia mucinosa papilar intraductal
(NMPI), neoplasia quística mucinosa (NQM) e neoplasia sólida pseudopapilar
(NSP). As neoplasias mucinosas (NQM/NMPI) revestem-se de particular importância
pelo seu potencial comportamento maligno68. Os restantes 10% incluem o
cistadenocarcinoma, a variante quística dos TNE e do carcinoma de células
acinares, o hamartoma quístico, o teratoma quístico ou quisto dermoide, o
quisto epidermoide/baço acessório e os quistos metastáticos. Raramente podem
ser identificados tumores não epiteliais, como o linfangioma e o sarcoma69.
Entre as lesões quísticas não neoplásicas destacam-se o pseudoquisto (PQ), mais
comum, que corresponde a uma coleção líquida inflamatória não revestida por
epitélio, e o quisto linfoepitelial, de retenção ou congénito.
A caracterização das lesões quísticas pancreáticas visa discriminar as lesões
que devem ser abordadas cirurgicamente e as lesões que requerem vigilância. Na
prática, importa identificar os quistos neoplásicos e determinar o seu
potencial de malignidade. A EE está em posição privilegiada para avaliação
destas lesões por permitir a aquisição de imagens de elevada resolução dos
quistos e do restante parênquima pancreático, e possibilitar a colheita do
conteúdo quístico por PAAF-EE, devendo ser considerada após estudo dirigido por
TC multicorte e, preferencialmente, RM com pancreato-RM.
A subdivisão das lesões quísticas pancreáticas segundo a sua dimensão contribui
para a decisão interdisciplinar da abordagem das mesmas. A EE tem um papel
particularmente importante na avaliação dos quistos com dimensões entre 1-3 cm
(questionável se < 2 cm) dado que a eventual vigilância não invasiva (TC/RM)
deve ser precedida da confirmação da natureza mucinosa da lesão por PAAF70.
Além disso, a realização de EE justifica-se sempre que a TC ou RM coloque a
possibilidade da presença de um componente sólido ou de dilatação focal ou
difusa do ducto pancreático principal.
Os detalhes ecomorfológicos das lesões quísticas pancreáticas apresentam uma
acuidade de 50-73% na determinação da sua natureza71, pelo que devem ser
conjugados com os aspetos anamnésicos e os biomarcadores obtidos por análise do
fluido quístico (citologia, marcadores tumorais, amilase, mucinas e análise do
DNA). O valor de CEA no fluido quístico pode ser útil na determinação da
etiologia mucinosa, não permitindo distinguir entre NQM e NMPI ou avaliar o
risco de malignidade72,73. Um valor de antigénio carcinoembrionário (CEA) < 5
ng/ml é indicativo da presença de NQS ou PQ com um VPP de 94% e uma acuidade de
70%, enquanto um valor de > 800 ng/ml é a favor de natureza mucinosa com um VPP
de 94% e uma acuidade de 79%39. A quantidade de fluido necessária para o seu
doseamento é de 1,0 mL, pelo que os quistos a puncionar deverão ter uma
dimensão mínima de 1 cm, e preferencialmente mais do que 2 cm. Um valor elevado
de amilase constitui um indicador de comunicação ductal, e sugere tratar-se de
um PQ ou NMPI. A presença de mutações do gene K-rasé considerada altamente
específica para a deteção de lesões mucinosas, embora com baixa sensibilidade.
A citologia tem uma sensibilidade de apenas 50% para o diagnóstico de
malignidade. A PAAF-EE das lesões quísticas pancreáticas está associada a uma
baixa taxa de complicações (2-5%), que incluem a hemorragia, mais frequente nas
NQS e TNE dada sua natureza vascular, infeção e pancreatite aguda. A infeção
intraquística é, hoje, um evento raro dada a recomendada profilaxia
antibiótica74.
O pseudoquisto é mais comum no sexo masculino. Está quase sempre associado a
história de pancreatite aguda ou crónica, consumo de álcool, traumatismo
abdominal ou sinais imagiológicos de pancreatite crónica75. O aspeto
ecomorfológico mais habitual é o de uma coleção arredondada, unilocular, sem
septos ou nódulos murais (fig._4). Em 10-20% dos casos tem uma aparência
multilocular76. A parede pode ser praticamente impercetível ou apresentar-se
uniformemente espessada, correspondendo a tecido de granulação e fibrótico não
epitelizado. Uma característica altamente específica do PQ é a presença de
detritos no seu interior, identificados por EE como material hiperecóico
mobilizável com a mudança de posição do doente. Este achado pode ser confundido
com o aspeto granular da mucina de algumas NQM. Tipicamente o PQ apresenta
comunicação com o ducto pancreático, que nem sempre é identificada pela EE38.
Através da PAAF-EE pode ser recolhido um conteúdo líquido que tem baixa
viscosidade e uma elevada concentração de amilase, excluindo-se virtualmente o
seu diagnóstico quando o este valor é < 250 UI/L39.
A neoplasia quística serosa, ou cistadenoma seroso, corresponde a 30% das
lesões quísticas neoplásicas e a 16% dos quistos neoplásicos ressecados77. O
pico de incidência ocorre na 6.a década de vida e tem maior prevalência no sexo
feminino. A sua localização pancreática não tem predileção segmentar78. É
habitualmente assintomática, exceto quando tem dimensões superiores a 4 cm, o
que pode condicionar sintomas por efeito compressivo. Embora seja considerada
uma lesão benigna, a sua transformação maligna é possível, ainda que
extremamente rara, estando publicados com alguns casos de cistadenocarcinoma78.
Tipicamente tem um padrão ecomorfológico multiquístico, com quistos menores que
2 cm. Pode existir uma área microquística constituída por um agregado de
microquistos de 2-3mm cada e em número superior a 679. Os espaços quísticos
estão separados por septos fibrosos hipervasculares, que podem coalescer numa
cicatriz estrelada central, por vezes calcificada, presente em até 30% das
lesões (fig._4). A presença desta cicatriz constitui um achado patognomónico,
mas é identificada por EE em apenas 11% dos casos80. Em 30% dos casos a NQS
assume uma aparência pseudosólida, em «favo de mel», devido a uma densa
septação que produz inúmeras interfaces entre os pequenos quistos81. A variante
oligo ou macroquística ocorre em mais de 10% dos casos e caracteriza-se por um
número reduzido de espaços quísticos e septos e ausência de componente
microquístico, pelo que se confunde facilmente com a NQM80. Os doentes com
síndrome de Von Hippel-Lindau têm frequentemente NQS múltiplas de padrão
oligoquístico. Habitualmente, a NQS tem contornos lobulados, reduzida
diferenciação com o parênquima pancreático adjacente, não tem evidência de
parede e não comunica com o ducto pancreático.
A PAAF-EE não é necessária nas lesões com detalhes ecomorfológicos
caraterísticos de NQS, devendo ser reservada para diferenciar a variante
macroquística da NQM, mediante avaliação dos biomarcadores do fluido quístico.
A punção deve ser dirigida ao compartimento de maiores dimensões. O fluido
recolhido não é viscoso e apresenta um componente celular cuboide com
citoplasma rico em glicogénio e cromatina densa. Está recomendada uma abordagem
conservadora, mas na presença de sintomas ou se existir incapacidade de excluir
o potencial de malignidade das formas macroquísticas deve ser considerada a
resseção cirúrgica.
A neoplasia quística mucinosa, ou cistadenoma mucinoso, corresponde a 25% dos
quistos neoplásicos do pâncreas ressecados77. Ocorre quase exclusivamente no
sexo feminino e tem um pico de incidência na 4.a e 5.a décadas de vida.
Localiza-se mais frequentemente no corpo e cauda do pâncreas. É considerada uma
lesão pré-maligna, apresentando uma incidência de carcinoma invasivo de 12-
29%82. São considerados fatores preditivos de malignidade a idade avançada,
dimensão quística superior a 4 cm e presença de espessamento parietal, nódulos
murais ou calcificações periféricas83. Não está descrita malignidade em NQM com
dimensões < 4 cm e sem nódulos murais.
Habitualmente, apresenta-se como uma lesão única, arredondada, unilocular, bem
definida e sem comunicação com o ducto pancreático. No entanto, pode ser
multilocular, com múltiplos macroquistos (1-2 cm cada e em número inferior a 6)
divididos por septos, dando o aspeto de «quistos em quisto». A parede pode
apresentar calcificações em «casca de ovo», características da NQM e preditivas
de malignidade, embora presentes em apenas 10-25% dos casos84. O conteúdo é
mucoide e quando é mais espesso pode condicionar alguma ecogenicidade granular
interior. O revestimento é constituído por uma camada de células epiteliais
produtoras de mucina, que podem exibir graus variáveis de atipia, de adenoma a
carcinoma invasivo, e um estroma semelhante ao ovárico85.
Dada a idade relativamente jovem da maioria dos doentes, o risco de progressão
para malignidade e a localização frequente no corpo ou cauda, está recomendada
a resseção cirúrgica, sobretudo na presença de aspetos preditivos de
malignidade86.
A neoplasia mucinosa papilar intraductal é reconhecida como uma entidade que
engloba diferentes aspetos epidemiológicos e clínicos. Pode ter origem no
epitélio do ducto pancreático principal (neoplasia mucinosa papilar intraductal
do ducto principal [NMPI-DP]), nos ductos secundários (neoplasia mucinosa
papilar intraductal dos ductos secundários [NMPI-DS]) ou em ambos (NMPI-misto
ou combinado), constituindo 3 subtipos específicos com diferente potencial de
malignidade.
A NMPI-DP ocorre mais frequentemente no sexo masculino, entre a 6.a e a 7.a
décadas de vida. A sintomatologia mais comum é a dor abdominal e a perda
ponderal, mas pode manifestar-se num contexto de pancreatite recorrente ou ser
identificada incidentalmente. Localiza-se em 2/3 dos casos na cabeça do
pâncreas, envolvendo também, com frequência, o processo uncinado87,88. A EE
identifica uma dilatação segmentar ou difusa do ducto pancreático principal (>
6 mm), sem causa obstrutiva evidente. Pode observar-se um espessamento mural
ductal e defeitos de preenchimento devido à presença de mucina, estando o
pâncreas aumentado ou atrófico. Neste caso e na presença de calcificações,
impõe-se o diagnóstico diferencial com a pancreatite crónica. A observação
endoscópica da papila duodenal deve ser realizada de forma sistemática com o
objetivo de despistar a extrusão papilar de mucina, conhecido como «papila em
olho ou boca de peixe», sinal patognomónico da NMPI-DP ou do tipo misto, embora
presente em apenas 1/3 dos casos (fig._4). A resseção é recomendada a todos os
doentes com condições para cirurgia, tendo em conta a elevada incidência de
malignidade e de carcinoma invasivo, respetivamente de 60 e 40%89.
A NMPI-DS é o tipo mais frequente de lesões quísticas neoplásicas do pâncreas
sendo, habitualmente, assintomática. Pode apresentar-se como um quisto
infracentimétrico isolado ou, mais frequentemente, como uma lesão multiquística
com uma coleção de quistos dispostos em «cacho de uvas» que comunicam com o
sistema ductal, correspondendo à dilatação de múltiplos ductos secundários
preenchidos por mucina. Caracteristicamente apresenta um aspeto «quisto a
quisto», de contorno irregular e forma não arredondada. Outras variantes
incluem a morfologia tubular digitiforme ou a dilatação clubbed-likedos ductos
secundários, determinando um aspeto pleomórfico, quando associados. A
comunicação com o sistema ductal pode não ser visível, confundindo-se com a
NQM89. Em 21-41% dos casos é multifocal, o que constitui um sinal de grande
especificidade para o diagnóstico da NMPI-DS.
A abordagem da NMPI-DS deve ter em conta a possibilidade de concomitância de
ADC e o seu potencial de malignidade, sendo que aproximadamente 25,5% destas
lesões sofrem transformação maligna, com um risco de 20% do seu desenvolvimento
num período de 10 anos. Neste contexto recomenda-se cirurgia na presença de
sintomas, quando a lesão tem um componente sólido ou nódulo mural, quando há
envolvimento do ducto principal (dilatação > 1 cm, mucina intraductal ou
espessamento parietal), ou em caso de citologia suspeita ou positiva para
malignidade89. Apesar de controverso, o critério dimensional tem vindo a ser
desvalorizado, exceto em doentes jovens, em que a cirurgia deve ser considerada
na presença de um quisto com dimensões superiores a 2-3 cm, pelo risco
cumulativo de malignidade78. A decisão deve ser, no entanto, individualizada e
dependente das condições clínicas do doente e da localização da lesão74. Em
caso de vigilância a TC deve ser preterida à pancreato-RM, que apresenta uma
maior acuidade na identificação de nódulos e comunicação ductal, sem aplicação
de radiação ionizante.
A neoplasia pseudopapilar sólida corresponde a 1-2% das lesões quísticas
neoplásicas e a 4% dos quistos neoplásicos ressecados77. Atinge tipicamente
jovens do sexo feminino na 2.a ou 3.a décadas de vida90. Pode localizar-se em
qualquer segmento pancreático, sendo mais frequente na cauda e ocorrendo apenas
ocasionalmente na cabeça. O seu crescimento indolente poderá ser responsável
pelo diagnóstico frequentemente tardio e incidental, apresentando um diâmetro
médio de 6 cm no momento do diagnóstico91. Presumivelmente tem inicialmente uma
natureza sólida e sofre degenerescência progressiva, acabando por assumir uma
aparência quística. É geralmente hipoecóica, de ecotextura heterogénea e bem
delimitada (cápsula fibrosa). É maligna em 10-15% dos casos e pode sofrer
metastização, embora o envolvimento ganglionar seja excecional92. O estudo
citopatológico por PAAF-EE é habitualmente diagnóstico, ao revelar um aspeto
papilar ramificado com estroma mixoide, havendo imunomarcação para o CD 56 e
vimentina. Está recomendada a sua resseção cirúrgica.
Pancreatite crónica
A EE tem um papel importante no diagnóstico de pancreatite crónica, sobretudo
das formas mais ligeiras da doença, que não são identificadas pelos métodos de
imagem convencionais e para as quais os testes funcionais pancreáticos
apresentam uma sensibilidade relativamente baixa, com a vantagem sobre a
colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) de ser minimamente
invasiva. A sua especificidade neste contexto é, contudo, limitada (60%)93-96.
Várias características ultrassonográficas parenquimatosas (focos hiperecóicos
com ou sem cone de sombra, faixas hiperecóicas, áreas ou lóbulos hipoecóicos,
quistos) e ductais (dilatação ou irregularidade do contorno do ducto
pancreático principal, hiperecogenicidade da parede do ducto pancreático
principal, dilatação dos ramos secundários, cálculos intraductais) são
consideradas preditivas de alterações de pancreatite crónica (tabela_1)97.
Permanece controverso o significado de outras características, como a
lobularidade das margens do parênquima e a atrofia glandular, esta última
frequentemente considerada como critério diagnóstico na TC e na RM.
Em geral, a deteção de calcificações parenquimatosas e/ou cálculos intraductais
constitui um achado muito específico de pancreatite crónica. Na sua ausência, o
diagnóstico depende do número de critérios ultrassonográficos observados
(tabela_2). O cut-offmais frequentemente utilizado é a presença de pelo menos 3
critérios para a pancreatite crónica em geral e de pelo menos 7 critérios para
a pancreatite crónica moderada a grave, de acordo com classificação de
Cambridge(VPP > 85%). A presença de 2 ou menos critérios tem um VPN > 85% para
a pancreatite crónica moderada a grave98.
Catalano et al. procuraram avaliar a importância relativa das diferentes
características ultrassonográficas no diagnóstico de pancreatite crónica e
dividiram-nas em critérios majore minor- classificação de Rosemont(tabelas_1 e
2)99. Este sistema classificativo permite uma melhor estratificação
diagnóstica, no entanto, não existem estudos que confirmem a sua superioridade
relativamente aos critérios convencionais.
Estudos de concordância intraobservador na interpretação das características
ultrassonográficas de pancreatite crónica mostraram resultados superiores aos
publicados referentes à CPRE, mas a concordância interobservador é inferior. Os
resultados são melhores se considerarmos o diagnóstico final ao invés das
características individualmente97,100,101.
A PAAF não aumenta de forma significativa a especificidade dos achados da EE e
não é realizada por rotina nos doentes com suspeita de pancreatite crónica. O
rendimento diagnóstico da biópsia tru-cuté igualmente baixo e a sua realização
não é recomendada dadas as complicações potenciais102. Por isso, nos doentes
com probabilidade diagnóstica intermédia/indeterminada deve ser tida em
consideração a existência de fatores de risco, como a ingestão alcoólica
excessiva, o tabagismo ou a história familiar, e deve ser realizado um estudo
complementar com colangiografia por ressonância magnética (CPRM), testes
funcionais pancreáticos ou CPRE. Em conjunto, a EE e a CPRM com administração
de secretina constituem a melhor combinação de acuidade e segurança,
apresentando uma sensibilidade de 98% (quando pelo menos um dos testes não é
normal) e uma especificidade de 100% (quando existem alterações em ambos os
testes) no diagnóstico de pancreatite crónica94. A deteção precoce da
pancreatite crónica permite atuar sobre as suas causas e com isso prevenir ou
pelo menos atrasar a evolução da doença, e atuar sobre a sintomatologia do
doente.
Episódios de agudização de pancreatite crónica ou fenómenos de pancreatite
focal podem resultar na formação de uma massa inflamatória pseudotumoral,
indistinguível do ADC do pâncreas nos exames de imagem. Embora seja superior à
TC e à RM, a EE apresenta uma acuidade baixa na diferenciação entre lesões
sólidas benignas e malignas, particularmente nos doentes com pancreatite
crónica avançada, devido à sobreposição dos achados ultrassonográficos nas 2
condições clínicas, ou com pancreatite crónica calcificante, uma vez que a
sombra acústica produzida pelas calcificações pode obscurecer parcialmente a
glândula. A PAAF aumenta a acuidade global da técnica, mas a sensibilidade para
malignidade é inferior nos doentes com pancreatite crónica (54-74%)
comparativamente com aqueles em que o restante parênquima pancreático é normal
(89-91%). Além disso, o número médio de passagens necessárias para estabelecer
o diagnóstico definitivo é superior no primeiro grupo de doentes103-106. A
introdução da elastografia e dos agentes de contraste aplicados à EE poderá vir
a ser particularmente importante neste contexto (fig._5)32,35.
Encontra-se atualmente em debate a indicação para vigilância regular dos
doentes com pancreatite crónica, pelo facto de esta constituir um fator de
risco para carcinoma pancreático107, não existindo até ao momento recomendações
formais para rastreio destes doentes, nem evidência de benefício clínico.
Pancreatite aguda
Os achados endossonográficos na pancreatite aguda são variáveis e
inespecíficos. O pâncreas pode ter um aspeto normal ou apresentar-se
ligeiramente aumentado e hipoecóico devido ao edema, e com áreas focais
hipoecóicas indicativas de necrose parenquimatosa. Podem coexistir aspetos de
inflamação extrapancreática, como edema da parede duodenal e coleções líquidas
peripancreáticas.
Dados preliminares sugerem um papel da EE na avaliação de fatores preditivos da
evolução da pancreatite aguda108, mas mais estudos são necessários para
confirmação deste potencial valor prognóstico.
Uma das principais aplicações da EE neste contexto é a investigação etiológica
da pancreatite aguda idiopática (10%), particularmente na suspeita de etiologia
biliar, quando a ultrassonografia abdominal e a TC não documentam a existência
de litíase. A EE é comparável à CPRM na deteção de coledocolitíase109,110, mas
é superior na deteção de microlitíase (< 3mm) e lama biliar111. Os
microcálculos apresentam-se como focos hiperecóicos flutuantes, sem cone de
sombra, e a lama biliar como conteúdo ecóico móvel no interior da vesícula ou
da via biliar. Tem vindo a ser sugerida uma abordagem baseada na EE para
seleção dos doentes candidatos a CPRE e papilotomia, com o objetivo de reduzir
o risco de complicações. No entanto, os dados que suportam a adoção desta
estratégia de triagem no contexto da pancreatite aguda são, ainda,
limitados112.
A EE apresenta, adicionalmente, uma elevada sensibilidade na identificação de
causas menos frequentes de pancreatite aguda, como tumores não visualizados por
outros métodos de imagem, sendo que 5-7% dos tumores pancreáticos apresentam-se
na forma de pancreatite aguda113, pancreas divisume pancreatite crónica. As
alterações inflamatórias presentes durante o episódio agudo podem prejudicar a
aquisição de imagens adequadas do pâncreas, pelo que se recomenda um intervalo
de pelo menos 4-6 semanas antes da realização de EE para estas indicações.
O valor da avaliação por EE após um episódio único de pancreatite aguda
idiopática permanece controverso. A EE tem um elevado rendimento diagnóstico
(30-60%) e uma baixa taxa de complicações114,115, contudo, apenas 20-50% dos
doentes desenvolvem sintomas recorrentes116 e pode ser difícil estabelecer uma
relação causal entre alguns achados anormais da EE e o episódio de pancreatite
aguda. A implementação de uma estratégia baseada na EE na avaliação destes
doentes depende, por isso, da disponibilidade da técnica e da experiência do
centro. A CPRE e a manometria do esfíncter de Oddi devem ser reservadas para os
doentes com pancreatite aguda recorrente e resultados negativos na EE,
especialmente se previamente colecistectomizados117.
Pancreatite autoimune
A PAI é uma doença inflamatória do pâncreas que tem vindo a ser reconhecida de
forma crescente118. A apresentação clínica é variável (dor abdominal,
insuficiência pancreática ou icterícia obstrutiva indolor), e pode mimetizar o
carcinoma pancreático, sendo identificada em 3-5% das peças operatórias dos
doentes submetidos a duodenopancreatectomia por suspeita tumoral119,120. O
diagnóstico requer geralmente um elevado grau de suspeição e é estabelecido com
base numa combinação de critérios clínicos, serológicos, imagiológicos e
histológicos121-124.
Existem dois tipos de PAI: o tipo 1 ou pancreatite esclerosante
linfoplasmocitária, mais comum, e o tipo 2 ou pancreatite crónica ducticêntrica
idiopática. A PAI tipo 1 atinge mais frequentemente indivíduos do sexo
masculino e com uma idade superior a 50 anos. É considerada uma manifestação
pancreática de uma doença autoimune sistémica, podendo cursar com envolvimento
de outros órgãos (colangite esclerosante, fibrose retroperitoneal, envolvimento
renal, aumento dimensional das glândulas salivares) e com a presença de
autoanticorpos séricos, que são inespecíficos. A maioria dos doentes apresenta
títulos elevados de IgG4. Contudo, elevação destes títulos pode ser observada
em doentes com outras patologias pancreáticas. Gahzaale et al. investigaram o
papel diagnóstico da IgG4 na PAI e reportaram uma sensibilidade de 76%, uma
especificidade de 93% e um VPP de 36% para um cut-offde 140 mg/dL; se o cut-
offfor 280 mg/dl a sensibilidade desce para 53%, mas a especificidade e o VPP
sobem para 99 e 75%, respetivamente125. Histopatologicamente, o pâncreas
apresenta um denso infiltrado inflamatório periductal constituído sobretudo por
linfócitos e plasmócitos IgG4-positivos, marcada fibrose intersticial, graus
variáveis de atrofia acinar e lesões de flebite obliterativa. A PAI tipo 2
atinge doentes de ambos os sexos em igual proporção e com um maior espectro de
idades. Com frequência, os níveis séricos de IgG4 são normais. Morfologicamente
caracteriza-se pela existência de lesões epiteliais granulocíticas. Está
descrita uma associação com a doença inflamatória intestinal, que está presente
em 16% dos doentes126.
Classicamente, os métodos de imagem seccionais mostram um pâncreas focal ou
difusamente aumentado e de aspeto «pseudocapsulado». O estudo por CPRM/CPRE
revela um wirsung de calibre estreito e irregular, com uma ou mais estenoses
segmentares. Características semelhantes são observadas na EE em que o pâncreas
se apresenta focal ou difusamente aumentado, hipoecóico/com margens hipoecóicas
e sem dilatação do sistema ductal127,128. Uma massa inflamatória focal
hipoecóica pode estar presente, localizada mais frequentemente na porção
cefálica e com um aspeto ultra-sonográfico indistinguível do ADC, por vezes
associada à presença de uma estenose da porção intrapancreática da via biliar e
adenopatias peripancreáticas.
A PAI deve ser incluída no diagnóstico diferencial dos doentes com uma lesão
sólida do pâncreas, por forma a evitar uma resseção cirúrgica desnecessária. A
PAAF-EE é particularmente útil para excluir malignidade129,130e pode
estabelecer o diagnóstico definitivo de PAI ao permitir obter amostras de
tamanho adequado para avaliação histopatológica e análise imuno-
histoquímica131. De outro modo, a presença de fragmentos de estroma de elevada
celularidade com um infiltrado linfocitário pode, em conjunto com os dados
clínicos e os achados radiológicos, sugerir o diagnóstico de PAI.
Nos casos em que a PAAF-EE é negativa para malignidade e em que não é possível
estabelecer o diagnóstico definitivo de PAI, a elastografia-EE e o contraste-EE
podem contribuir para alterar o algoritmo de decisão: caracteristicamente, na
PAI a elastografia mostra um padrão único de dureza homogénea de todo o órgão,
distinguindo-se do padrão de dureza homogénea circunscrito à lesão nos doentes
com ADC do pâncreas132, e o estudo com contraste revela um padrão de
hipervascularização difusa, enquanto as lesões de ADC são hipocaptantes133.
Se o conjunto dos dados clínicos e morfológicos suportarem o diagnóstico de
PAI, pode-se considerar a realização de uma prova terapêutica com
corticosteroides (0,5 mg/Kg de prednisona durante 2 semanas). No entanto, esta
conduta não é geralmente recomendada e só deve ser adotada por
pancreatologistas em doentes cuidadosamente selecionados e após uma
investigação diagnóstica negativa para malignidade que inclua a realização de
PAAF-EE122,124.
Conclusão
Apesar do contínuo desenvolvimento tecnológico dos métodos de imagem
seccionais, a EE continua a deter um papel importante na abordagem diagnóstica
da patologia pancreática benigna e maligna.
A EE está indicada na deteção de tumores pancreáticos de pequenas dimensões,
insuficientemente identificados por TC ou RM, na localização pré-operatória de
TNE pancreáticos, e na caracterização cito-histológica tumoral, quando
indicada. O valor da PAAF-EE na diferenciação entre lesões sólidas benignas e
malignas é indiscutível, mas permanece controversa a sua necessidade na
avaliação pré-operatória dos doentes com suspeita de ADC pancreático. No
momento atual, a PAAF-EE está formalmente indicada nos doentes propostos para
terapêutica paliativa ou sempre que se considere a possibilidade de realizar
terapêutica neoadjuvante. A EE como indicação para o estadiamento loco-regional
também permanece controversa, como consequência de resultados inconsistentes e
evidência contraditória, estando longe de ser consensual.
As neoplasias quísticas, cada vez mais detetadas, têm significativas diferenças
no potencial de malignidade. A EE contribui de forma significativa para a sua
diferenciação, de acordo com detalhes estruturais e com as características do
fluido quístico obtido por PAAF-EE. No entanto, continua incerta a abordagem
mais adequada dos pequenos quistos assintomáticos e incidentalmente
identificados. O desconhecimento da história natural de alguns subtipos de
lesões quísticas condicionam a prática clínica e a consensualidade dos
algoritmos de abordagem.
A EE é mais sensível que a CPRM e igualmente sensível, mas mais segura que a
CPRE na deteção de alterações subtis nas formas ligeiras de pancreatite
crónica, contribuindo de forma decisiva para o diagnóstico precoce desta
entidade, que é desafiante. Representa, além disso, a modalidade com maior
acuidade no diagnóstico de microlitíase biliar e pode ter impacto na abordagem
de doentes com pancreatite aguda idiopática, permitindo selecionar os doentes
que beneficiarão da realização de CPRE. Nos casos de suspeita de PAI a EE pode
acrescentar informação útil, ao demonstrar características morfológicas
sugestivas e um padrão elastográfico e de captação de contraste típicos da
doença, e deve ser utilizada para excluir malignidade por PAAF.
As potencialidades da EE neste âmbito poderão vir a ser ampliadas com a
aplicação da elastografia e os agentes de contraste.
Atualmente, o maior desafio na área da EE pancreática é a expansão do seu
potencial terapêutico, a ser abordado na parte III desta sequência de artigos
de revisão.