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EuPTCVHe0872-81782014000400001

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variedadeEu
ano2014
fonteScielo

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Sépsis em gastrenterologia: uma oportunidade para melhorar a nossa prática clínica EDITORIAL

Sépsis em gastrenterologia - uma oportunidade para melhorar a nossa prática clínica Sepsis in Gastroenterology - an opportunity to improve our clinical practices

Isabelle Cremers Serviço de Gastrenterologia, Centro Hospitalar de Setúbal, EPE, Hospital de São Bernardo, Setúbal, Portugal Correio eletrónico: cremers.tavares@gmail.com, cremers_tavares@hotmail.com

Sépsis é uma resposta inflamatória sistémica a uma infeção que pode levar à sépsis grave (disfunção aguda de órgão secundária a infeção documentada ou suspeitada) e ao choque séptico (sépsis grave associada a hipotensão não reversível com reanimação com fluidos)1.

A sépsis é bem conhecida de todos os clínicos como uma entidade grave, devendo ser tratada de forma urgente e com os meios adequados. De facto, um estudo multicêntrico da Surviving Sepsis Campaign mostrou uma mortalidade de 34,8% em 15.022 doentes, sendo que esta mortalidade desceu de 37 para 30% nos hospitais que participaram neste estudo, em consequência de uma melhor adesão às recomendações internacionais sobre sépsis2.

A elevada mortalidade desta entidade levou um grupo de peritos internacionais a elaborar guidelines designadas como Surviving Sepsis Campaing, publicadas em 20043, atualizadas em 20084 e em 20121. Estas guidelines pressupõem o diagnóstico de sépsis, que se baseia na presença ou suspeita de infeção associada à presença de síndrome de resposta inflamatória sistémica, ou seja, à presença de 2 ou mais dos seguintes dados: temperatura> 38 ◦C ou < 36 ◦C, frequência cardíaca > 90, frequência respiratória > 20 ou PaCO2< 32 e leucocitose > 12.000 ou leucopenia < 4.000. A sépsis grave consiste na sépsis com disfunção de ≥2 órgãos, ou seja, hipoperfusão com acidose láctica (lactato ≥4 mmol/L, alteração do estado de consciência, falência hepática, respiratória, renal ou cardíaca agudas e coagulopatia ou trombocitopenia «de novo»). O choque séptico define-se como sépsis com pressão arterial média (MAP) < 65 ou pressão arterial sistólica < 90, que não responde a um bolus de cristaloide na dose de 20-40 mL/kg ev5.

Quando na presença de sépsis, devem ser seguidos protocolos rigorosos, que incluem, nas primeiras 3 horas, o doseamento de lactato, hemoculturas antes da administração de antibióticos, prescrição de antibióticos de largo espectro e a administração de 30 mL/kg de cristaloide, se houver hipotensão ou lactato ≥4 mmol/L. Nas primeiras 6 horas devem ser efetuados os seguintes passos: administração de vasopressores, medição da pressão venosa central, medição da saturação venosa central de oxigénio e reavaliação dos níveis de lactato6.

Do acima descrito depreende-se que, para tratar estes doentes, é necessário um diagnóstico rápido, seguido de uma atuação igualmente célere, organizada e monitorizada, a fim de ser eficaz.

É nestes aspetos que se foca o estudo publicado por Liliana Eliseu et al.7 neste número do GE. Trata-se de um estudo retrospetivo, que identifica todos os doentes internados num serviço de gastrenterologia e que apresentaram sinais de sépsis na admissão hospitalar, no período de um ano. Os autores concluem que, na sua série, a sépsis foi raramente reconhecida e nem sempre abordada de forma adequada. De facto, registou-se uma deficiente avaliação dos sinais de gravidade, sendo de salientar a ausência de avaliação/registo da gasometria arterial com lactatos, assim como o défice de algaliação e de registo do débito urinário, num número elevado de casos. Também se verificou o número reduzido de colocação de cateteres centrais, que permitiriam a avaliação da pressão e saturação venosas centrais e a administração adequada de fluidos e vasopressores. Por outro lado, a colheita de sangue para hemoculturas e outros exames, que devem ser feitas nas primeiras 3 horas, não foram efetuadas em muitos doentes. Verificou-se, ainda, um atraso no início da antibioterapia, considerada como um passo crítico no tratamento destes doentes. Os autores também referem a baixa percentagem de internamentos em unidade de cuidados intensivos (UCIGH), apesar de existir no próprio serviço uma unidade com 4 camas.

Algumas medidas acima apontadas, que não respeitaram as guidelines no que concerne ao diagnóstico e tratamento da sépsis, estão relacionadas com a estrutura hospitalar e a abordagem ao doente na urgência, com passagem pela triagem de Manchester, transferência tardia para o serviço, levando ao atraso da implementação das medidas consideradas críticas. A sobrecarga de trabalho no serviço de urgência é outro fator apontado pelos autores como potencialmente responsável pelo atraso na avaliação e tratamento destes doentes. A correção deste atraso, no futuro, passará pela formação dos profissionais que trabalham no serviço de urgência e pela implementação do protocolo de avaliação dos doentes a fim de serem reconhecidos precocemente os casos de sépsis, que deverão ser encaminhados para uma equipa que os oriente de forma eficaz. A correção de fatores como a sobrecarga de trabalho e a organização do serviço de urgência são da responsabilidade das direções dos hospitais.

Os autores referem, ainda, que o registo clínico e a codificação de sépsis foram reduzidos. Este dado é interessante, que demonstra a subvalorização desta entidade, assim como o desconhecimento de que a codificação adequada dos doentes, ao aumentar o índice de case-mix, leva a uma valorização do serviço e do financiamento do hospital.

Deve ser realçado que este estudo foi realizado na sequência da implementação, no respetivo hospital, das recomendações internacionais para o tratamento da sépsis e da Via Verde de Sépsis. É de esperar que o cumprimento destas recomendações, aliado à avaliação dos dados deste e doutros estudos, venha a diminuir a mortalidade que os autores encontraram nesta série, que foi de 30%, semelhante ao referido noutras séries publicadas.

A importância deste estudo reside, principalmente, na avaliação crítica da prática clínica neste grupo de doentes e na reflexão sobre as medidas a tomar, quer na formação dos profissionais quer no registo e monitorização dos doentes, no seu estudo e tratamento adequados e atempados.


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