Adaptação cultural e linguística e validação da Escala de Quedas de Morse
Introdução
A prevalência de quedas dos doentes é um indicador de segurança do doente a
nível hospitalar e um indicador sensível aos cuidados de Enfermagem. A
evidência da investigação e as estatísticas hospitalares sugerem que os doentes
hospitalizados têm um risco maior de cair do que as pessoas na comunidade
(Healey & Scobie, 2007). A queda do doente é o incidente mais comum de
segurança reportado a nível hospitalar (Healey & Scobie, 2007; Oliver et
al., 2007; Perell, Nelson, Goldman, Prieto-Lewis, & Rubenstein, 2001), as
quais têm custos a nível dos doentes, dos familiares e até dos próprios
profissionais. Em termos humanos, podem provocar no doente angústia, dor, danos
físicos, perda de confiança e perda de independência. A nível dos familiares,
podem gerar reclamações formais e processos jurídicos de litígio com o
hospital, sendo natural que fiquem insatisfeitos quando um familiar internado
sofre uma queda que cause danos, pois esperam que o hospital seja um lugar
seguro. A nível dos profissionais, apesar de se esforçarem para que os doentes
mais vulneráveis não caiam, constitui uma constante fonte de ansiedade e
desgaste sempre que um doente sofre lesões provocadas por uma queda (Healey
& Scobie, 2007; Kohn, Corrigan, & Donaldson, 2000; Oliver, Daly,
Martin, & McMurdo, 2004; Perell et al., 2001).
A avaliação do risco de queda efetua-se através de escalas de avaliação de
risco, ferramentas que atribuem valores numéricos a determinados fatores de
risco (Healey & Scobie, 2007), geralmente, somados de forma a predizerem se
o doente tem um risco baixo, médio ou elevado de cair (Morse, 2009). Num
relatório elaborado pela Inspeção Geral das Atividades em Saúde sobre as quedas
em hospitais (Soares & Almeida 2008) é referido que a Escala de Quedas de
Morse (do inglês, Morse Fall Scale - MFS) é a escala mais utilizada nos
hospitais portugueses, embora seja de realçar a sua utilização sem ter sido
validada para a população portuguesa.
São objetivos deste estudo avaliar o grau de reprodutibilidade da MFS em
contexto hospitalar e contribuir para a sua validade analisando as suas
correlações com outros instrumentos de medida.
Enquadramento
As escalas de avaliação de risco têm sido assunto de revisão sistemática na
literatura quanto à previsão do risco (Morse, 2009 Oliver, Britton, Seed,
Martin, & Hopper, 1997). No entanto, apenas duas escalas foram testadas em
diferentes grupos de doentes fora dos estudos de investigação originais (Oliver
et al., 2004), sendo uma delas a MFS. Há, no entanto, que chamar a atenção para
o facto de, mesmo as melhores escalas, poderem sub- ou hiper-predizerem o risco
de queda (Oliver, 2008). Além disto, as escalas estão desenhadas para
predizerem o risco, o que não é o mesmo que prevenir eficazmente as quedas. O
score avaliado pelas escalas, por si só, não define intervenções. O objetivo
das escalas de avaliação do risco de queda é triar de forma rápida as pessoas
com risco de forma a se implementarem estratégias que previnam danos ao doente
(Morse, 2006).
A MFS foi desenvolvida por Janice Morse em 1985, na Universidade de Alberta, no
Canadá, com base num estudo de 100 doentes com quedas e 100 doentes sem queda
selecionados de forma aleatória (Morse, 2009). Foi testada por outras
organizações e autores de forma independente e destina-se ao adulto em geral
(Morse, 2006). Esta escala consiste em seis itens que refletem os fatores de
risco de queda (Morse, 2009; Morse, Morse, & Tylko, 1989), tendo sido
demonstrada a sua validade preditiva, bem como a sua fiabilidade entre
avaliadores(Morse, 2006).
A MFS é particularmente importante no momento da admissão dos doentes,
sobretudo nas pessoas com 65 anos ou mais anos de idade, nos doentes confusos
ou com agitação psicomotora, nos doentes no pós-operatório, em doentes
medicados com fármacos associados ao risco de queda, como psicofármacos,
analgésicos estupefacientes ou anti-hipertensores (Leipzig, Cumming, &
Tinetti,1999a; Leipzig, Cumming, & Tinetti, 1999b) entre outros,
contribuindo para um adequado plano de intervenção a nível da prevenção das
quedas dos doentes em ambiente hospitalar.
Segundo a autora da escala, a grande maioria dos enfermeiros (82,9%) descreve
esta escala como rápida e fácil de usar e estima que são precisos menos de 3
minutos para avaliar um doente (Morse, 2009; Morse et al.,1987).
Os doentes podem ter características diferentes em países e hospitais
diferentes. Por isso, a explicação fornecida para cada item sobre a forma como
deve ser entendida e interpretada a escala é fundamental para que todos possam
utilizar a escala do mesmo modo. A revisão da literatura alerta para o facto de
uma escala, mesmo testada num determinado hospital, poder não predizer
adequadamente o risco de queda num hospital diferente (Morse, 2009). Portanto,
com a disponibilização da versão portuguesa da MFS devidamente validada,
poderemos avaliar o risco de queda de uma forma mais segura e ajustada à
realidade portuguesa. A utilização da MFS, pelos enfermeiros portugueses, só
será cientificamente válida quando for demonstrada a sua adaptação cultural e
linguística e revelar uma boa reprodutibilidade entre avaliadores, assim como
quando apresentar indicadores reconhecidos de validade.
Metodologia
A adaptação cultural e linguística para português da versão em língua inglesa
da MFS foi iniciada após se ter obtido a autorização formal da autora. O
processo seguido respeitou as normas da International Society for
Pharmacoeconomics and Outcomes Research (ISPOR) Task Force for Translation and
Cultural Adaptation (Wild et al., 2005), incluindo: (1) duas traduções
independentemente realizadas por dois tradutores portugueses; (2) uma primeira
versão de consenso; (3) uma retroversão realizada por uma tradutora de língua-
mãe inglesa; (4) análise comparativa entre a retroversão e a versão original;
(5) alterações resultantes desta análise comparativa; (6) revisão da primeira
versão em português.
Esta primeira versão em português foi então submetida a uma revisão por um
especialista, tendo-lhe sido solicitado que prestasse particular atenção aos
termos técnicos incluídos no questionário. Para cada item da escala, foi-lhe
apresentada a versão original assim como a tradução a que se tinha chegado, e
foi-lhe pedido que nos informasse se se sentia satisfeito com a forma como este
item estava traduzido ou, se pelo contrário, sugeria qualquer alteração. O
referido especialista concordou com a totalidade da tradução apresentada. Uma
vez que esta escala está desenhada para ser respondida por profissionais de
Enfermagem, prescindiu-se de uma avaliação cognitiva e do teste de
interpretação por parte de uma amostra de doentes. Por fim, a versão portuguesa
da MFS foi submetida a um outro perito que, lendo-a, não propôs qualquer
alteração do ponto de vista da língua e gramática portuguesa. Os itens da
versão portuguesa da Escala de Morse podem ser lidos na (Tabela_1).
A pontuação total da escala varia entre 0 e 125 pontos e os indivíduos são
descriminados em função do risco de queda em: sem risco (0-24), baixo risco
(25-50) ou alto risco (= 51).
A fiabilidade foi testada em cada serviço em que decorreu o estudo, por grupos
de três enfermeiros observadores, num total de 120, que avaliaram de forma
independente o risco de queda no mesmo doente. Cada enfermeiro efetuou cinco
avaliações. Foi dada uma explicação da escala de cerca de 15 minutos aos
enfermeiros participantes por já estarem todos familiarizados com a utilização
da escala.
A validade facial (de conteúdo) foi conferida por meio da realização de um
teste de compreensão a um painel de peritos constituídos por seis profissionais
de saúde. Procedeu-se a um teste cognitivo com o objetivo de avaliar a clareza,
a compreensão, a relevância cultural, a inclusão de todos os conceitos bem como
a redundância e ambiguidade dos itens utilizados. Os restantes testes da
validação do estudo decorreram durante o primeiro trimestre de 2011, num
hospital privado da grande Lisboa, identificado como A (dois serviços de
internamento médico-cirúrgico, um serviço de internamento de cuidados
continuados e paliativos e uma unidade de cuidados intensivos) e num centro
hospitalar igualmente de grande Lisboa, identificado como B (oito serviços de
medicina, um serviço de pneumologia, um serviço de neurologia, três serviços de
neurocirurgia, uma unidade cérebro vascular, um serviço de cirurgia
cardiotorácica, um serviço de cirurgia vascular, um serviço de cardiologia e um
serviço de cirurgia geral). A amostra foi constituída por 200 doentes e foi
obtida através de um método não-probabilístico acidental, constituído pelos
doentes que estavam acessíveis no momento do estudo, dos quais 110 (55%) são do
hospital A e 90 (45%) do centro hospitalar B. Foram considerados critérios de
inclusão uma idade do doente igual ou superior a 18 anos e o facto de os
serviços já terem introduzido no padrão de registos a MFS, para garantir uma
experiência de utilização da escala mais homogénea.
Na colheita de dados utilizou-se uma grelha de registo, em que se obtiveram a
avaliação do risco de queda e a caracterização do doente observado, sendo
mantido sempre o anonimato e a confidencialidade do doente. Seguiram-se os
procedimentos éticos recomendados em ambos os locais do estudo e obtiveram-se
as devidas autorizações. No tratamento estatístico dos dados, foi utilizado o
programa estatístico SPSS® - Statistical Package for the Social Siences, versão
18 para o Windows®. Os resultados foram analisados através de medidas de
correlação, de tendência central, de dispersão e de testes paramétricos.
A fiabilidade foi avaliada quanto à concordância dos resultados registados
pelos enfermeiros (Terwee et al., 2007). Foi utilizado o coeficiente K de
Cohen, sendo considerada uma concordância moderada o valor entre 0,41 e 0,60,
uma concordância substancial o valor entre 0,61 e 0,80, e uma concordância
quase perfeita o valor entre 0,81 e 1,00 (Kramer & Feinstein, 1981).
A validade foi testada através da validade de critério e da validade de
constructo. Na validade de critério, representando, na opinião do painel COSMIN
(Mokkink et al.,2010), o grau segundo o qual os valores de um instrumento de
medição são um reflexo adequado de um padrão-ouro, foi calculada a correlação
entre a MFS e outros instrumentos de medida utilizados nos hospitais onde
decorreu o estudo, isto é, a Escala de Coma de Glasgow e o Índice de Barthel.
No entanto, não sendo possível neste caso, como em muitos outros, obter uma
medida padrão que se sobrepusesse à MFS, fomos comparar alguns dos itens que
constituem esta medida com os valores finais ou outros itens de outras medidas
de referência. É o caso, por exemplo, da comparação do item da MFS referente ao
estado mental que comparámos com a Escala de Glasgow e dos itens da MFS
referentes ao andar e ao caminhar que relacionámos com alguns itens da Escala
de Barthel.
A validade de construto, que ainda de acordo com o painel COSMIN (Mokkink et
al., 2010) constitui o grau segundo o qual os valores de um instrumento de
medição são coerentes com hipóteses previamente definidas ou com valores de
grupos, foi testada pelo método dos grupos de contraste, ou seja, pela
comparação entre valores de grupos diferentes, como a idade, o sexo, o
historial de quedas, a agitação psicomotora e o tipo de medicação que o doente
efetua. Tanto na validade de critério como na validade de construto, recorreu-
se ao coeficiente de correlação de Spearman. Os seus valores variam de +1
(correlação positiva/direta perfeita), atravessando o 0 (sem correlação), até -
1 (correlação negativa/inversa perfeita), sendo considerado que, em valor
absoluto, até 0,33 indica relações fracas, entre 0,34 e 0,66 indica relações
moderadas e acima de 0,67 indica relações fortes (Choudhury, 2009). Nos testes
de validade de construto, foram utilizados testes paramétricos de diferenças de
médias e o teste de independência do χ2.
Resultados
Caracterização da amostra
No total efetuaram-se 600 avaliações da MFS, dado que cada registo inclui três
observações de avaliação do mesmo doente por três enfermeiros diferentes, no
mesmo turno. Através da (Tabela_2), pode verificar-se que as pessoas estavam na
sua maioria internados em serviços de internamento médico-cirúrgico (57,5%),
predominando ligeiramente o sexo masculino (52%), e tinham em média 72 anos com
um desvio padrão (DP) de 13,7. A idade mais frequente foi 72 anos e o valor da
mediana também de 72 anos com uma idade mínima de 23 anos e máxima de 98 anos.
A grande maioria das pessoas (77,5%) tinha idade superior a 65 anos. O grupo
etário com maior número de pessoas (34,0%) foi o grupo dos 75 aos 84 anos. O
principal motivo de admissão foi o internamento para intervenção cirurgia
(19,5%) e as patologias mais prevalentes que motivaram os restantes
internamentos foram doenças infecciosas (16,5%), doenças cardíacas (16,5%) e
doenças neurológicas (9,5%). Quanto ao momento da aplicação da escala, a larga
maioria foi aplicada no momento da admissão do doente (58%), mas também foram
aplicadas em momentos de reavaliação (40%) e após queda (2%).Os principais
motivos de aplicação da escala foram a política definida pelas organizações
estudadas em que está definida a aplicação da MFS, a idade do doente, a
existência de quedas anteriores e, por fim, a agitação psicomotora. Constatou-
se que os doentes estavam medicados com classes de fármacos associadas ao risco
de queda, sendo as classes de fármacos mais prescritas os anti-hipertensores
(38,1%), os psicófarmacos (25,5%) e os analgésicos estupefacientes (11,9%).
Constatou-se também que 30% (60) dos doentes estavam medicados com dois
fármacos associados ao risco de queda, 27,5% (55) com um fármaco e 13,5% (27)
com três fármacos. A média de fármacos por doente associado ao risco de queda
foi de 1,6 com um DP de 1,2.
De acordo com a pontuação de risco, constatou-se através da pontuação obtida,
que 278 (46,3%) observações foram avaliadas com alto risco de queda, 224
(37,3%) com baixo risco e 98 (16,3%) não apresentavam risco, sendo a média da
pontuação de risco das 600 avaliações de 50,2 pontos com um DP de 24,2.
A média do tempo de preenchimento do registo da escala foi de 5 minutos e não
se registaram quaisquer problemas com a aplicação da escala.
A 71 (35,5%) das pessoas foram aplicadas, como referido atrás, outras escalas,
sendo as mais utilizadas a Escala de Coma de Glasgow e o Índice de Barthel. A
(Tabela_3) apresenta a distribuição das pontuações referentes a estes dois
indicadores. Como se pode observar no quadro referido, o índice médio de
gravidade da nossa amostra, medido pela Escala de Coma de Glasgow é muito baixo
e o grau de dependência das pessoas, medida pelo Índice de Barthel, pode ser
considerado moderado.
Fiabilidade/Reprodutividade
Na análise da fiabilidade, de uma forma geral, a análise da distribuição das
frequências por indicador revelou uma grande concordância entre os enfermeiros
(Tabela_4). As maiores divergências verificaram-se no item postura no andar e
na transferência, entre o avaliador 2 e 3 no indicador debilitado, com uma
frequência de 58 (29%) versus 47 (23,5%) e entre o avaliador 1 e 2, com uma
frequência de 49 (24,5%) versus 58 (29%). No mesmo item, no indicador normal/
acamado/imóvel, verifica-se entre o avaliador 1 e 2 uma frequência de 94 (47%)
versus 85 (42,5%).
Na (Tabela_5), analisa-se o nível de concordância entre os observadores que
variou entre 0,615 no item diagnóstico secundário e 0,964 no item história de
quedas. A análise da média do coeficiente K demonstrou que o item ajuda para
caminhar apresenta o nível de concordância mais baixo (0,619) e o item história
de quedas apresenta o nível de concordância mais elevado (0,927). Nesta
análise, verificou-se que os itens história de quedas, terapia intravenosa e
estado mental apresentaram uma concordância quase perfeita. Os itens
diagnóstico secundário, ajuda para caminhar e postura no andar e na
transferência apresentaram um nível significativo de concordância.
O coeficiente de correlação intraclasse entre as avaliações dos três
enfermeiros de cada doente revela um valor de concordância de 0,838, associado
a um intervalo de confiança a 95% de ]0,800; 0,870[, existindo uma elevada
concordância, da qual se pode inferir boa reprodutibilidade (Kramer &
Feinstein, 1981;Terwee et al.,2007).
Validade de critério
Para testar a validade de critério, analisou-se a relação entre a escala MFS
versão portuguesa (média dos valores atribuídos pelos três observadores a cada
doente), com a Escala de Coma de Glasgow e o índice de Barthel. Seria, por
exemplo, de esperar que a pergunta 6 da MFS (estado mental') estivesse
significativamente relacionada com o índice total da Escala de Coma de Glasgow
e, eventualmente a alguma das suas dimensões (Tabela_6).
Verifica-se assim uma diferença significativa da pontuação da Escala de Glasgow
para diferentes níveis de estado mental indicados pela MFS. Isto é, os
indivíduos conscientes das suas capacidades obtêm maiores valores na Escala de
Glasgow.
Por outro lado, as perguntas 8 (transferir-se'), 9 (deambular') e 10
(escadas') do índice total de Barthel deveriam estar correlacionadas com as
perguntas 3 (apoio para caminhar') e 5 (postura no andar e na transferência')
da MFS; deveriam também estar correlacionadas, por serem associadas ao conceito
de mobilidade e às atividades da vida diária. De facto, os indivíduos
conscientes das suas capacidades (MFS6=0) obtiveram uma resposta verbal mais
orientada e um índice total de Glasgow significativamente mais elevado.
Relacionando agora com o Índice de Barthel, o item 8 da transferência
(independente ou não) apresentou-se relacionado com a pergunta 3 (necessitar
ou não de apoio para caminhar') da MFS (χ2=9,1;gl=1;p<0,005). Obtiveram-se
semelhantes resultados com o item 9 de independência em deambular
(χ2=9,8;gl=1;p<0,005) e com o item 10 em utilizar as escadas
(χ2=3,6;gl=1;p<0,05). Já a postura no andar e na transferência medida pela
pergunta 5 da MFS não se mostrou relacionada nem com a independência do doente
ao transferir-se nem em deambular nem mesmo em utilizar as escadas.
Validade de construto
Para testar a validade de construto, relacionou-se as pontuações médias da MFS
com variáveis como o sexo, a idade, a existência de quedas anteriores e de
agitação psicomotora, esperando-se alterações significativas das pontuações
conforme o grupo analisado. Analisou-se também a sua relação com as três
classes de fármacos mais prescritos aos doentes. Segundo experiência anterior,
seria de esperar que os homens tivessem maior risco de quedas (porque, de
facto, têm uma frequência maior de quedas), o mesmo acontecendo com os doentes
mais idosos. Quedas anteriores e uma maior agitação psicomotora deveriam também
estar associadas a um maior risco de queda avaliado pela MFS. Indivíduos
aparentemente mais sedados deveriam, por fim, estar mais associados com um
risco maior de queda. Apesar do risco de queda apresentado pelos homens ser, em
média, superior ao das mulheres (50,82 ± 24,33 vs. 48,54 ± 23,69; p<0,001),
esta diferença é ligeira mas não significativa. Já em relação à idade, os
doentes menos idosos apresentam um risco médio de quedas francamente mais baixo
do que os mais idosos (34,67 ± 22,97 vs. 54,09 ± 22,53; p<0,001), o mesmo
acontecendo com os que não tiveram historial de quedas no mesmo internamento ou
episodio de urgência ou nos últimos três meses (45,81 ± 22,69 vs. 68,82 ±
21,04; p<0,001), e com os que não apresentaram agitação psicomotora (47,14 ±
23,39 vs. 66,29 ± 21,37; p<0,001).
A (figura_1) representa graficamente estas diferenças.
Por fim, em relação às três classes de fármacos, mais prescritas ao doente de
entre os sedativos (analgésicos estupefacientes, antiepilépticos e
anticonvulsivantes, psicofármacos) e os sem poder sedativo (anti-hipertensores,
digitálicos, insulinas e antidiabéticos orais), os doentes sedados apresentaram
um maior risco de queda do que os não sedados (45,61 ± 23,50 vs. 53,76 ± 23,90;
p <0,05).
Discussão
A utilização de escalas de avaliação do risco de queda, de rápido
preenchimento, fiáveis, válidas, com nível significativo de concordância,
desenvolvidas em contextos semelhantes ao estudado, que permitam identificar
doentes com risco e estabelecer intervenções, são importantes para qualquer
organização de saúde (Healy & Scobie, 2007; Morse, 2009; Oliver et al.,
2004; Perell et al., 2001), como parte integrante da sua política de garantia
da qualidade dos cuidados prestados. A escala não-validada utilizada nos
serviços onde decorreu o estudo, aproxima-se significativamente da versão agora
validada.
Os internamentos onde a escala foi mais aplicada foram: internamentos médico-
cirúrgicos, serviços também mais prevalentes em termos de aplicação da escala
no estudo original de Morse (2009). Dos doentes que integraram este estudo,
77,5% tinham uma idade superior a 65 anos, idade a partir da qual ocorrem cerca
de 75% das quedas, (Morse, 2009), tendo estas pessoas mais risco (Almeida,
Abreu, & Mendes, 2010) o que está relacionado com o facto de 46,3% dos
doentes terem sido pontuados com alto risco de queda. O motivo de internamento
pelo qual maior número de pessoas foi internado foi a intervenção cirúrgica.
Estas pessoas têm mais risco de queda no seu pós-operatório devido a ficarem em
algumas situações com um andar dependente de ajuda (Morse, 2009) e a tomarem
fármacos para o controlo da dor, com efeito sedativo, tornando a pessoa mais
vulnerável a uma queda.
As maiores divergências na avaliação dos doentes foram no item postura no andar
e na transferência, sendo por isso importante que a escala seja sempre
acompanhada de uma interpretação da pontuação em cada item por forma a
uniformizar critérios de avaliação do doente (Morse, 2009). Neste item, as
dúvidas surgem sobretudo relacionadas com as pessoas que utilizam cadeira de
rodas para se movimentarem, sendo neste caso a pessoa avaliada em função da
forma como efetua o processo de transferência entre a cadeira de rodas e a
cama, podendo ter considerado para efeitos de pontuação como normal, se efetuar
o processo sem dificuldades (Morse, 2009).
O tempo médio de utilização da escala para avaliação do risco esteve em
conformidade com o que está descrito pela autora (Morse et al., 1989; Morse,
2009), considerando os enfermeiros que participaram no estudo que é de fácil
preenchimento.
Neste artigo, apresentou-se o processo seguido para adaptar culturalmente para
a língua portuguesa a MFS para avaliação do risco de quedas. Mostrou-se também
evidência da sua fiabilidade, da sua validade e da sua concordância entre
avaliadores, e da sua relação com outros instrumentos de medida. Apesar de ser
uma escala há muito tempo frequentemente utilizada nas organizações de
prestação de cuidados em Portugal, (Soares & Almeida, 2008) pelo que
sabemos, esta foi a primeira vez que foi validada em português.
A fiabilidade foi testada através do grau de concordância das pontuações
fornecidas por três enfermeiros, independentemente uns dos outros. Este grau de
concordância variou de 0,615 a 0,964 e o correspondente coeficiente de
correlação interclasse foi de 0,838, pelo que podemos afirmar que existe uma
boa concordância entre os avaliadores na utilização da escala (Kramer &
Feinstein, 1981;Terwee et al., 2007).
A revisão clínica foi realizada por um perito em Enfermagem e a validade facial
garantida por um painel de peritos. A validade de critério foi demonstrada por
correlações importantes entre as respostas às perguntas relevantes da MFS em
comparação com as da Escala de Coma de Gasglow e o Índice de Barthel. A
pergunta referente ao estado mental de consciência da MFS foi sensível à
dimensão resposta verbal e ao índice total de Glasgow. Por outro lado, as
perguntas do MFS relacionadas com o conceito de mobilidade e com as atividades
da vida diária apresentaram-se relacionadas com os itens semelhantes do Índice
de Barthel.
A validade de construto foi também confirmada com a evidência de maior risco de
queda associado a idades mais avançadas, ao historial de quedas (Oliver et al.,
2004), à agitação psicomotora (Perell et al., 2001) e à prescrição de fármacos
com efeitos sedativos (Leipzig et al.,1999a; Leipzig et al.,1999b). O sexo
masculino, com evidência de uma maior frequência de quedas, em outros estudos
(Almeida et al., 2010) não apresentou, no presente estudo, qualquer influência
na avaliação do risco de queda, o que nos faz levantar a hipótese de, com todas
as restantes variáveis controladas, estes dois indicadores significarem
conceitos distintos.
Questões éticas fazem, no entanto, com que alguns tipos de validação não possam
ser efetuados. Por exemplo, há presentemente uma tendência, perfeitamente
justificada, para eliminar ao máximo o risco de quedas dos doentes nas
organizações de saúde (Oliver et al., 2007). Isto faz com que os níveis de
risco a partir dos quais há que iniciar ações tendentes a prevenir quedas sejam
definidos e usados de uma forma cada vez mais conservadora (Morse, 2009)
impedindo, de certo modo, a determinação da sensibilidade e da especificidade
das escalas utilizadas. Fica, assim, beneficiado o doente, pois o pior que, em
geral, pode acontecer, é a prestação de cuidados levar a cabo iniciativas de
prevenção eventualmente desnecessárias.
Conclusão
Em conclusão, com base na metodologia seguida e de acordo com os nossos
resultados, a versão portuguesa da MFS é semanticamente equivalente à versão
original, conduzindo a bons níveis de fiabilidade e a níveis aceitáveis de
validade. A sua utilização é assim recomendada na prestação de cuidados
hospitalares em Portugal, podendo ser obtida através da consulta do Repositório
de Instrumentos de Medição e Avaliação em Saúde (RIMAS) no endereço http://
www.uc.pt/org/ceisuc/RIMAS/Lista/Instrumentos/MFS.