Conceitos disciplinares em uso por estudantes de licenciatura e de mestrado em
Enfermagem
Introdução
As disciplinas têm uma linguagem própria, uma estrutura de comunicação dos seus
fenómenos de interesse e da sua interpretação do real que se expressa por
termos e conceitos. Alguns conceitos pelo seu poder interpretativo, explicativo
e simbólico adquirem centralidade no âmbito da disciplina; e tornam-se
elementos de precisão do núcleo de interesse, da perspetiva peculiar,
essenciais para a identificação da matriz disciplinar.
Uma disciplina científica é determinada por uma organização mental. É aquilo a
que se chama, em filosofia das ciências, uma matriz disciplinar ou um
paradigma, ou seja, uma estrutura mental, consciente ou não, que serve para
classificar o mundo a fim de poder abordá-lo (Fourez, 2008, p. 111). É neste
entendimento que, enquanto linguagem trabalhada, sintetizada, reconhecida e com
significado num universo específico, comunidade científica, permitindo leituras
narradas da realidade e a sua sistematização, dão corpo a uma série de
pressupostos, de normas, de instrumentos, de maneiras de ver, dão a sua
fisionomia ao saber que essa disciplina estrutura (Fourez, 2008, p. 111).
Hoje, tem-se uma ideia dinâmica dos conceitos, que devem reportar-se ao seu uso
específico mas contextualizado. Os teóricos agora entendem que o significado
conceitual é criado pelos estudiosos para auxiliar a transmitir seu significado
aos leitores (McEwen & Wills, 2009, p. 76). A apropriação de conceitos e a
utilização da linguagem disciplinar faz parte do processo pelo qual os
neófitos, estudantes ou profissionais, se integram na comunidade científica,
criando e recriando conhecimento em ação, tendo por base uma racionalidade
prático-reflexiva (Medina, 1999).
Propomo-nos neste estudo, junto de estudantes de licenciatura e a iniciar o
mestrado em enfermagem, identificar os termos usados para a definição de
enfermagem; enumerar os conceitos que apontam como específicos ou com
significado específico na enfermagem; ter uma visão de conjunto dos termos e
conceitos que usam; descrever os termos e conceitos que estão em alinhamento
com os conceitos centrais e os padrões de conhecimento em enfermagem definidos
na literatura de enfermagem.
Enquadramento
Os conceitos desempenham um papel estruturante nas disciplinas. É através dos
conceitos que se definem os núcleos centrais, se cria e enriquece a linguagem
disciplinar. Os conceitos comportam uma dupla função, focalizar aquilo que é o
objetivo de determinado corpo de saberes, a perspetiva própria sobre
determinado real, e proporcionar narrativas construídas no âmbito dessa
singular interpretação. As narrativas ligadas ao conceito dão às pessoas
"palavras para dizê-lo". As palavras para dizer a sua experiência
(Fourez, 2008, p. 276).
Os conceitos, sendo formulações mentais ou ideias usadas para representar as
experiências, são formulados em palavras que possibilitam que as pessoas
comuniquem o significado das realidades no mundo e assim explicam a matéria
das teorias de uma disciplina (McEwen & Wills, 2009, p. 76).
A ciência é o estabelecimento de uma linguagem com vista a uma economia de
pensamento e de comunicação, uma gigantesca operação de estandartização de
saberes, de grelhas de leitura, de noções, de procedimentos, de valores, etc.
As matrizes disciplinares podem ser vistas com este tipo de normalização
(Fourez, 2008, p. 127). Os conceitos podem ser próprios, emergindo da
disciplina, mas também se propagam' de uma disciplina para outra,
fortalecendo pontos de vista novos (Fourez, 2008, p. 119).
Yura e Torres de forma pioneira em 1975 propuseram para conceitos focais na
disciplina, a enfermagem, a pessoa (man), a sociedade, e a saúde. McEwen e
Wills (2009, p.67) referem que Fawcett escreveu, pela primeira vez, sobre os
conceitos centrais de enfermagem em 1978 e formalizou-os como metaparadigma de
enfermagem em 1984. Fawcett em 2005 mantém os conceitos: enfermagem, saúde,
ambiente (que anteriormente já tinha derivado de sociedade) e o ser humano (que
evoluiu do conceito pessoa). O Conselho de Enfermagem da Ordem dos Enfermeiros,
em 2002, utiliza os conceitos saúde, pessoas, ambiente e cuidados de
enfermagem, para o enquadramento concetual dos cuidados de enfermagem.
A aceitação de indivíduo, saúde, ambiente, enfermagem como um metaparadigma de
enfermagem não reúne consenso (McEwen & Willis, 2009). Newman, em 1983,
apontou como principais componentes da disciplina enfermagem (como uma ação),
cliente (ser humano), meio ambiente (do cliente e do enfermeiro-cliente), e a
saúde (p.389). E Kim (2010) identificou uma tipologia e estrutura organizadora
com quatro domínios: paciente, paciente-enfermeiro, prática e ambiente. Em
1994, Meleis e Trangenstein, ao afirmarem que a enfermagem consiste na
facilitação dos processos de transição, no sentido de se alcançar uma maior
sensação de bem-estar transportam, a nosso ver, para uma centralidade concetual
os termos facilitação, transição e bem-estar. Meleis (2012) sintetiza como sete
conceitos centrais: interação, paciente de enfermagem, transições, processo de
enfermagem, ambiente, terapêutica de enfermagem e saúde.
A enfermagem como possuí características das ciências sociais e
comportamentais, bem como das ciências biológicas, deve contar com múltiplas
formas de conhecimento (McEwen & Wills, 2009), ou seja, diversificados
padrões de conhecimento. A epistemologia da enfermagem preocupa-se com o
estudo das origens do conhecimento de enfermagem, as suas estruturas e os seus
métodos, os padrões de conhecimento dos seus membros e os critérios para a
validação das afirmações do conhecimento (Schultz & Meleis, 1988, p.21).
A partir do trabalho seminal de Carper (2006) identificando os padrões
empírico, estético, pessoal e ético, como fundamentais para o conhecimento em
enfermagem, vários autores, com similitudes e dessemelhanças, propõem
acrescentos e outras formulações. É o caso dos padrões clínico e conceitual
(Schultz & Meleis, 1988); experimental, interpessoal e intuitivo
(Moch,1990); contexto (White, 2006); processual, relacional, cultural e tácito
(Abreu, 2008). A enfermagem é dotada tanto do conhecimento científico como do
conhecimento que pode ser denominado sabedoria convencional (aquele que não é
empiricamente testado) (McEwen & Wills, 2009, p. 37). Ou, como afirma Kim
(2010), conhecimento público e conhecimento privado. O padrão do
conhecimento empírico dá forma ao conhecimento público; outros padrões de
conhecimento como estético, ético, pessoal, clínico, conceitual, interpessoal,
intuitivo, contextual, processual, relacional, cultural e tácito, estruturam-se
na forma de conhecimento privado. Ambas as formas, identitárias do conhecer em
enfermagem, articulam-se em espiral, num movimento de constante translação,
entre investigação/teorização e ação na prática clínica. Construindo
conhecimento a partir da reflexão sobre as suas práticas como profissionais
prático-reflexivos cuja ação se baseia num conhecimento prático e tácito que
se ativa durante a ação e no qual podem, sob o ponto de vista heurístico,
distinguir-se três componentes: conhecimento em ação, reflexão em ação e
reflexão sobre a reflexão em ação (Moya, 2005, p.487-490). Sendo, como refere
Waldow (2009), a enfermagem uma actividade essencialmente prática, o processo
de cuidar prevê no momento de cuidar a reflexão na ação.
Metodologia
Estudo qualitativo, de natureza descritiva, com análise de conteúdo inspirada
em Bardin (1995), em que se analisaram respostas a perguntas simples e diretas,
provenientes de duas amostras de conveniência, respondendo à pergunta de
investigação como definem enfermagem e quais os conceitos e termos usados?. O
processo de codificação das respostas seguiu a técnica de recorte com registo
de unidades base (de registo) com análise de unidades repetidas, similares,
ambíguas e de grupo, de enumeração com a determinação de frequências relativas
e absolutas, e a agregação em categorias (sem a existência de categorias a
priori).
A um grupo de estudantes a iniciar a unidade curricular de Teoria de Enfermagem
do curso de mestrado em Enfermagem Médico-Cirúrgica, no ano letivo 2012-2013,
de uma escola superior de enfermagem, solicitou-se que respondessem à seguinte
questão: O que é a enfermagem?. Na mesma escola, a estudantes do 4º ano da
licenciatura em Enfermagem, a iniciar a frequência da unidade curricular de
opção Gestão do Autocuidado Terapêutico, pediu-se, num primeiro momento, que
respondessem à mesma pergunta, e em sessão posterior, convidou-se a enumerar os
conceitos que entendam como específicos ou com significado específico na
enfermagem. Do conjunto destas duas amostras de informantes (grupo I e II)
resultaram três séries de dados, identificadas respetivamente neste estudo por
I A, II B e II C (as duas primeiras relativas aos termos extraídos das
definições de enfermagem em cada grupo, e a última referente aos conceitos
entendidos como específicos ou com significado específico apontados pelo grupo
II). As definições produzidas nas séries A e B foram analisadas, com extração
dos termos utilizados para a definição do que é a enfermagem e agrupados por
ordem decrescente de frequência. Na série C procedeu-se de igual forma em
relação aos conceitos evocados pelos estudantes. Efetuou-se ainda uma análise
conjunta das três séries e a enumeração por ordem decrescente de frequência. Em
todas as séries determinaram-se índices de referência. Por fim, procedeu-se à
identificação dos termos e conceitos referidos nas séries com os conceitos
centrais e com os padrões de conhecimento em enfermagem da literatura. Todos os
participantes foram informados dos objetivos deste estudo e a todos foi pedida
autorização para a utilização dos dados, mantendo o anonimato. O grupo de
estudantes a iniciar o Mestrado é constituído por 26 enfermeiros, com um média
de idades de 30,65 anos, num intervalo entre 22 e 42, média de 8,27 anos de
serviço. O grupo de estudantes da licenciatura é constituído por 24 indivíduos
com idades entre os 21 e 39, com uma média de 22,5 anos. Neste estudo, para o
material (palavras) extraído das definições de enfermagem utilizaremos a
designação de termo e reservamos a designação de conceito para o material
sintetizado da pergunta concreta sobre conceitos entendidos como específicos ou
com significado específico.
Resultados
Os enfermeiros a iniciar o Mestrado (grupo I) produziram definições de
enfermagem das quais foram extraídos 66 termos com um total de 221 referências
(Tabela_1).
Não deixa de ser expressiva a escolha destes termos para definir a enfermagem,
sendo de realçar também a relativa dispersão dos mesmos. Encontrámos 32 termos,
quase metade, referidos apenas com uma referência, e sete termos com duas
referências.
As frequências revelam como termos mais usados: cuidar (15); científico (14);
pessoa (12); saúde (12); profissão (10); disciplina (9); promover (9); arte
(8); doença (8); ciclo de vida (7); técnico/tecnologia (7) (Figura_1).
Os estudantes do 4º ano do Curso de Licenciatura em Enfermagem a frequentar a
unidade curricular de opção Gestão do Autocuidado Terapêutico (amostra II série
B) definiram enfermagem utilizando 100 termos, num total de 309 referências. Os
estudantes desta amostra definem a enfermagem com uma maior dispersão
terminológica (309/24=12,87) do que os da amostra anterior (221/26=8,5). Os
termos cimeiros, com frequências mais altas, são: saúde (17); cuidar (16);
doente (16); pessoa (16); ciência (14); objetivo (13); humano (10); transição
(8); bem-estar (7); promover (7). Outros termos, como sejam: arte, ajuda e
processos apresentam 6 referências; autocuidado e profissão 5; ciclo vital e
facilitar 4; cultura, disciplina e indivíduo 3; ação e contexto 2. A lista
termina em grande dispersão, 51 termos com apenas uma referência (Tabela_2).
A ordenação dos termos por ordem decrescente de referências permite percecionar
que a enfermagem é definida com recurso aos termos saúde, cuidar, doente,
pessoa, ciência, objetivo, humano, transição, bem-estar, promover, ajuda, arte,
(Figura_2).
Os estudantes do 4º ano (amostra II, série C) identificaram 75 conceitos
definidores de enfermagem, específicos ou com significado específico na
disciplina, para um total de 248 conceitos expressos. O índice de conceitos
248/24 (10,33) é inferior ao índice dos termos extraídos nas definições de
enfermagem 309/24 (12,87), nesse sentido as definições produzidas comportam
maior riqueza conceptual que os conceitos evocados, estes por natureza mais
sintéticos.
Os conceitos com frequências mais elevadas são: bem-estar (24); autocuidado
(19); promoção (15); cuidar (11); prevenção (11); autonomia (9); conhecimento
(9); independência/dependência (8); pessoa (7); relação/relação de ajuda (7);
transição (7). Seguem-se os conceitos ciência, necessidades, saúde, com uma
frequência de 6; educação com 5; referidos por 4 estudantes os conceitos
adaptação, emoções/sentimentos, holístico; e com uma frequência de 3, assistir,
bio-psico-social, capacidade, comunicação, escutar (Figura_3).
Outros conceitos que reuniram duas referências são: adesão terapêutica; arte;
atividades da vida diária; cuidados continuados; cuidados paliativos;
diagnósticos; doença; empatia; ensinos; família; formação; funcionalidade;
intervenções; investigação; motivação; potencialização; salutogénese;
transculturalidade; vontade.
Os conceitos referenciados uma vez foram: ajuda; avaliação; comportamento;
continuidade; criatividade; disciplina; equipa; facilitar; fenómeno; filosofia;
foco; gestão; humanização; igualdade; monitorização; pensamento crítico; plano
de cuidados; prescrever; pró-ativo; processo; profissão; reabilitação;
recuperação; reflexão; responsabilidade; satisfação; tomada de decisão;
transação; treinar.
A sequência dos termos mais utilizados pelos estudantes de Mestrado (I A) na
definição de enfermagem foi: cuidar, científico/ciência, pessoas, saúde,
profissão, disciplina, promover, arte, doença. A sequência dos estudantes da
licenciatura (II B) fica ordenada da seguinte forma: saúde, cuidar, doente,
pessoa, ciência, objetivo, humano, transição, bem-estar, promover. Em comum e a
ocupar os primeiros lugares temos: cuidar, científico/ciência, pessoa, saúde.
Os termos autonomia, transição e autocuidado não são referidos pelos estudantes
de Mestrado. Todos os outros quinze termos são referenciados pelos estudantes
de Mestrado e de Licenciatura.
Quando se junta à comparação os conceitos com especificidade ou significado
próprio na disciplina, evocados pelos estudantes da licenciatura, verificamos
que apenas não é referido o termo objetivo.
Os conceitos mais referidos (II C) são: bem-estar, autocuidado, promover,
prevenção e cuidar. Em relação aos quatro primeiros lugares de termos mais
referidos, são comuns nas séries I A e II B: cuidar, científico/ciência, pessoa
e saúde. Mas destes só o cuidar é referido, nos primeiros lugares, como
conceito específico (em II C). Os outros descem para sétimo e oitavo lugar de
referência. Em sentido inverso, os conceitos de bem-estar, autocuidado, que
ocupam os dois primeiros lugares na série II C, são apenas referidos em
posições inferiores nas outras duas séries: o bem-estar 10º lugar na I A e 7ª
na II B, e o autocuidado em 9º lugar na série II B (Tabela_3).
O somatório das referências das três séries, para os 18 termos e conceitos mais
referidos, revela-nos a seguinte sequência de ordenação decrescente: cuidar;
pessoa; saúde, científico/ciência; bem-estar; promover; doença; autocuidado;
prevenção; profissão; arte; independência/dependência; conhecimento; objetivos;
transição; humano; disciplina; autonomia (Figura_4).
Os termos e conceitos que emergiram neste estudo foram comparados com os
conceitos considerados como conceitos centrais pela literatura de enfermagem,
considerando os estudos de Yura e Torres (1975); Fawcett (2005); Newman (1983);
Kim (2010); Ordem dos Enfermeiros. Conselho de Enfermagem, (2002); Schumacher e
Meleis (1994); Meleis e Trangenstein (1994); Meleis (2012). Com esta comparação
constatamos que os conceitos sociedade, enfermagem, paciente, paciente-
enfermeiro, terapêuticas de enfermagem, não tiveram correspondência nos termos
e conceitos nas três séries de dados deste estudo. O conceito cuidados de
enfermagem/cuidar reuniu um total de 42 referências ocupando o primeiro lugar,
seguido pelos conceitos pessoa e saúde ambos com um total de 35 referências. Em
terceiro lugar, e não distanciado dos anteriores, o conceito de bem-estar com
34 referências. As transições surgem em quarto lugar, já com uma quebra
significativa, 15 referências. De seguida e com menor expressão: quinto lugar,
processo de enfermagem, com 7 referências; sexto lugar, prática, com 6
referências; sétimo lugar, facilitação, com 5 referências; e em oitavo lugar
ambiente e interação com uma referência cada (Tabela_4).
O somatório dos termos e conceitos referenciados neste estudo (séries A B C)
perfaz um total de 778. O total dos termos e conceitos que foi possível
identificar com as propostas da literatura é de 171 (soma dos totais das séries
A B C na (Tabela_4) o que dá uma percentagem de identificação de 21,97. Pudemos
comparar com os 9,67%, valor percentual de conceitos identificados na série II
C (24) com o total referido na mesma série (248). O que permite realçar a
riqueza terminológica, ainda que relativa, de alguns termos usados para definir
enfermagem em comparação com os conceitos significativos evocados pelos
informantes.
Para o conjunto destas duas amostras e três séries de dados, os conceitos com
centralidade (Figura_5) surgem por ordem decrescente da sequência: cuidados de
enfermagem/cuidar, pessoa, saúde, bem-estar, com frequências altas; transição,
com frequências intermédia; processo de enfermagem, prática, facilitação,
ambiente, interação, com frequências mais baixas.
Interessou-nos ainda saber em que medida os termos das definições de enfermagem
e os conceitos significativos se identificavam e alinhavam com os padrões de
conhecimento que a literatura em enfermagem nos revela. Considerámos para o
efeito dos padrões de conhecimento da literatura os trabalhos de Carper (2006);
Shultz e Meleis (1988); Moch (1990); White (2006); e Abreu (2008). Verificámos
que 36 termos e conceitos se identificavam com o padrão de conhecimento
empírico (ciência, científico, investigação); 16 com o padrão estético; 11 com
o relacional; 7 com o processual; 5 com o cultural; 3 com o conceitual
(teórico); e 2 com o contexto. Não encontrámos identidades para os padrões:
conhecimento pessoal, ético, clínico, experimental, interpessoal, intuitivo e
tácito. Embora se possa encontrar, numa análise menos taxativa, algumas
similitudes entre alguns conceitos, nomeadamente, conhecimento pessoal com o
conceito de si (II B), interpessoal com interação (I A) e mesmo para alguns
conceitos como clínico e experimental (Tabela_5).
Discussão
Os estudantes da licenciatura em enfermagem utilizam mais termos para definir a
enfermagem do que os estudantes do mestrado e mais termos para definir
enfermagem do que conceitos com significado específico. Ainda assim existe, em
ambos os grupos, uma forte dispersão de termos e conceitos reveladora de alguma
dificuldade de precisão e objetividade na definição de enfermagem.
Na análise de conjunto, os termos e conceitos cuidar, pessoa, saúde e ciência
são os mais utilizados e referidos. O termo cuidar é de facto o mais utilizado
(1º lugar na série I A; 2º na série II B; 4º na série II C; e 1º na análise de
conjunto). É ainda o que tem maior alinhamento, neste estudo, com os conceitos
centrais definidos na literatura (42 referências).
O termo transição não é referido pelos estudantes que estão a iniciar o
mestrado. Em relação aos alunos da licenciatura é utilizado oito vezes na
definição de enfermagem (um modesto 6º lugar), sendo ainda menos referido como
conceito com significado (7º lugar, 7 referências), e no conjunto das três
séries situa-se em 15º lugar. Constatamos que não há uma apropriação do termo e
do conceito como seria expectável para o estado da arte.
O termo bem-estar nos estudantes a iniciar o mestrado ainda se encontra mais
distanciado dos lugares cimeiros do que o termo transição, no entanto é já
apontado como primeiro conceito pelos estudantes da licenciatura. No conjunto
das três séries, o bem-estar, encontra-se em 5º lugar. O pensamento de Meleis e
Trangenstein (1994) expresso no objetivo formulado para a enfermagem como a
facilitação dos processos de transição tendo em vista o bem-estar, surge sem
ser apropriado pelos estudantes a iniciar o mestrado. Mais nítida a não-
apropriação no que toca ao bem-estar, existindo já algumas referências ao termo
transição. Os estudantes da licenciatura, de forma diferente, colocam o bem-
estar como primeiro conceito, já não acontecendo o mesmo com o conceito
transição. Dos sete conceitos sugeridos por Meleis (2012) como centrais, só os
conceitos paciente de enfermagem e terapêutica de enfermagem não são utilizados
pelos estudantes. Estes privilegiam outros conceitos próximos desses como sejam
pessoa e cuidar/cuidados.
Comparando os conceitos da literatura com os termos e conceitos utilizados
pelos nossos informantes, está em primeiro lugar o cuidar, segue-se a pessoa, a
saúde e o bem-estar. O ambiente e a sociedade são conceitos da literatura que
não estão em linha com os conceitos e termos utilizados pelos estudantes. De
referir que apenas 21,97% das referências estão em consonância com os conceitos
da literatura, se restringimos a análise aos conceitos com significado (II C) a
percentagem cai para 9,67%, o que nos leva a concluir uma deficiente
apropriação dos conceitos existentes na literatura de teoria de enfermagem.
O padrão de conhecimento empírico reúne a maior frequência de termos e
conceitos referidos, o que está em linha com a utilização do termo ciência (4º
lugar no conjunto, 2ª e 3ª referência nas definições de enfermagem).
O padrão de conhecimento estético fica em segunda posição distanciada, menos de
metade, do empírico, logo seguido do padrão relacional. O padrão ético não teve
colagens, eventualmente por ser assumido de forma tão interiorizada que não
houve necessidade dos estudantes o teorizarem. Pode ainda ter acontecido por
outras razões, como as apresentadas no estudo de Correia e Costa (2012) com
estudantes em final de curso, onde a dimensão imperativo moral ou ideal surge
como a menos valorizada no significado atribuído ao cuidar.
Também não há a apropriação de termos e conceitos que revelem diretamente
padrões de conhecimento pessoal, intuitivo e tácito. O termo e conceito de arte
afastam-se dos primeiros lugares: 8º lugar estudantes de mestrado, 12º lugar
para os estudantes da licenciatura, apenas com duas referências como conceito.
Os estudantes facilmente percecionam e definem a enfermagem como ciência e
menos como arte.
O termo saúde surge em 1º lugar na licenciatura, 4º lugar no mestrado, e com
seis referências nos conceitos. Este termo tem ainda um bom alinhamento com os
conceitos da literatura (trinta e cinco termos em alinhamento), apresentando-se
em todas as séries mais central do que o conceito de bem-estar. O termo doença
ocupa o 6º lugar nos termos do mestrado, mas 2º na licenciatura e 12º nos
conceitos.
O termo autocuidado surge como segundo conceito (II C) e apenas com cinco
referências como termo definidor de enfermagem entre os estudantes da
licenciatura, mas não é utilizado pelos estudantes a iniciar o mestrado. O
termo autocuidado, comportando uma riqueza conceptual indiscutível sob o ponto
de vista teórico, encontra expressão na licenciatura mas não no mestrado. Isto
leva-nos a pensar em menos apropriação de teorias e conceitos centrais nos
estudantes a iniciar o mestrado e afastados do ensino formal há mais tempo.
Conclusão
Em síntese constatamos grande dispersão de termos e conceitos que revelam
dificuldade dos estudantes na definição objetiva e precisa de enfermagem. O
cuidar é o termo e conceito mais utilizado com maior apropriação; o pensamento
de Meleis acerca da enfermagem, sobretudo em torno dos conceitos de transição e
bem-estar não está apropriado pelos estudantes a iniciar o mestrado; os
estudantes da licenciatura não dão centralidade ao termo transições mas
valorizam com relevância o bem-estar. De uma forma geral, existe uma deficiente
apropriação dos conceitos disciplinares de enfermagem disponibilizados pela
literatura. Os estudantes da licenciatura e do mestrado facilmente percecionam
e definem a enfermagem como ciência, valorizando o padrão empírico de
conhecimento, e menos como arte, subalternizando outros padrões. Os estudantes
a iniciar o mestrado, por afastados do ensino formal há mais tempo, apresentam
uma menor apropriação de termos e conceitos disciplinares propostos pela teoria
de enfermagem. Torna-se assim relevante que a formação inicial, pós-graduada e
a contínua, em espaço formal ou em contexto de trabalho contribua e beneficie
da sistematização da teoria produzida e seja expressa em linguagem disciplinar
específica.