Adaptação do Habitual Physical Activity Questionnaire (Baecke), versão
modificada, para a população portuguesa
Introdução
A atividade física é considerada importante para a saúde e estudos meta-
analíticos comprovam os benefícios da atividade física na prevenção das doenças
crónicas (Kruk, 2007), na redução do risco de doenças cardiovasculares (Li
& Siegrist, 2012), na prevenção e tratamento da hipertensão arterial
(Barengo, Gang, & Tuomilehto, 2007) e é um fator protetor da demência
vascular (Aarsland, Sardahaee, Anderssen, & Ballard, 2010).
A baixa prevalência da atividade física foi reportada em 2008 no estudo
realizado pela Organização Mundial de Saúde com 51 países (Guthold, Ono,
Strong, Chatterji, & Morabia, 2008) e no estudo internacional de
prevalência da atividade física contemplando 20 países (Bauman et al., 2009). E
há evidência de diferenças no nível de atividade física em função do género
(Bauman et al., 2009; Hirsch et al., 2010; Palacios-Ceña et al., 2011), do
estado marital (Palacios-Ceña et al., 2011; Sobal & Hanson, 2010; Yu et
al., 2011) e do nível educacional (Baecke, Burema, & Frijters, 1982; Yu et
al., 2011).
Já em 1995, o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e o American
College of Sports Medicine (ACSM), apresentaram as recomendações nacionais
relativas ao tipo e quantidade de atividade física (Haskell et al., 2007), no
entanto, o interesse crescente pela promoção da atividade física foi
despoletado essencialmente com a proposta da Word Health Organization: Global
Strategy on Diet, Physical Activity and Health (WHO, 2004), que transmite a
necessidade de englobar a promoção da atividade física na vida diária e
atravessando os diversos locais onde esta se realiza (por exemplo, casa,
trabalho, escola, comunidade), como principal estratégia para diminuir o risco
das doenças crónicas não transmissíveis.
Enquadramento
A atividade física é um comportamento multidi-mensional em que intervêm
diversas variáveis, e é um comportamento complexo e de difícil avaliação
(Aarsland et al., 2010). Embora a atividade física e o exercício físico sejam
usados frequentemente com o mesmo significado, a sua definição é
conceptualmente diferente. A atividade física é definida como qualquer
movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que implica gasto
energético acima do nível basal, e inclui todas as atividades da vida diária,
como aquelas realizadas no trabalho, desporto, tarefas domésticas ou de lazer
(Caspersen, Powell, & Christenson, 1985). O exercício físico é um tipo de
atividade física mais específico, podendo ser considerado uma subcategoria
desta, porque compreende uma atividade planeada e realizada de forma repetitiva
e estruturada, da qual se espera uma melhoria da condição física (Caspersen et
al., 1985).
O desporto é outro termo associado frequentemente à atividade física e ao
exercício físico, e que carece de uma definição consensual. Reconhecendo a
dificuldade que se coloca em termos de conceptualização, mas que ultrapassa o
âmbito deste trabalho, consideramos, neste estudo, que o desporto pode incluir
uma atividade mais organizada e regulamentada, orientada ou não para a
competição e, ainda, atividades desportivas de cariz mais informal, realizadas
de forma programada e regular. Procuramos assim, abarcar uma faceta mais global
do desporto, enquanto atividade humana que pode ser realizada pela população em
geral e não restringir o desporto a uma área da atividade social
institucionalizada e orientada para a competição.
Para a avaliação da atividade física vários métodos são referidos na
literatura, no entanto, em estudos epidemiológicos ou com elevado número de
participantes, o método de eleição são os questionários (Hertogh, Monninkhof,
Schouten, Peeters, & Schuit, 2008). Apesar das limitações em relação a este
método, os questionários implicam menores custos e maior facilidade de
utilização (Ono et al., 2007), e a sua adaptação linguística e cultural permite
a comparação entre diferentes populações.
Entre vários questionários o Habitual Physical Activity Questionnaire (Baecke,
Burema, & Frijters, 1982), frequentemente designado por Baecke
Questionnaire ou Questionário de Baecke, é um instrumento curto e de fácil
utilização (Ono et al., 2007), que nos permite diferenciar os participantes em
termos de atividade física e, simultaneamente, identificar comportamentos
passíveis de serem alterados no sentido de aumentar o nível de atividade
física, razão da escolha deste instrumento no presente estudo.
O Habitual Physical Activity Questionnaire (HPAQ) tem sido utilizado com
diferentes populações, sendo reconhecidas as suas qualidades psicométricas para
proceder à avaliação da atividade física habitual, em homens adultos (Florindo
& Latorre, 2003), em idosos (Hertogh et al., 2008) e em mulheres com
problemas osteoarticulares da anca (Ono et al., 2007). Em Portugal não existe
uma versão do questionário publicada em revista científica, que relate o
processo de adaptação do instrumento para a população portuguesa, razão que
justifica a realização deste estudo, de forma a facilitar e uniformizar a
utilização deste instrumento a nível nacional. Procuramos desta forma
contribuir para o desenvolvimento de futuros trabalhos de investigação e de
intervenção, no âmbito da atividade física e sua promoção.
A finalidade do estudo foi proceder à adaptação do HPAQ (subescalas desporto e
atividade física no tempo de lazer) para a população portuguesa, recorrendo a
uma amostra de adultos da comunidade. Foram objetivos do estudo: descrever o
processo de tradução e adaptação linguística do questionário e analisar as
propriedades psicométricas do questionário. Procuramos ainda, avaliar o nível
de atividade física e analisar as relações entre as variáveis sociodemográficas
e o nível de atividade física.
Metodologia
Estudo exploratório, descritivo e transversal.
Amostra
Amostra de conveniência constituída por 339 adultos da comunidade,
profissionais de saúde e professores, residentes na região do Porto, e no
concelho de Santa Maria da Feira e de Oliveira de Azeméis, do distrito de
Aveiro. Os participantes apresentavam idades compreendidas entre os 23 e os 60
anos (M = 35,92; DP = 8,39) e como habilitações literárias a licenciatura.
Relativamente ao estado civil consideramos apenas duas categorias: não casados
(incluindo os participantes solteiros, viúvos e divorciados/separados) e
casados (incluindo os participantes casados ou em união de facto). Na Tabela_1
é apresentada a caracterização sociodemográfica da amostra.
Instrumentos de recolha de dados
Os participantes responderam à versão portuguesa em estudo do HPAQ,
desenvolvido por Baecke, Burema, e Frijters (1982) e a um questionário
sociodemográfico.
O HPAQ é uma escala de autopreenchimento, constituída por 16 itens, que procura
avaliar a atividade física habitual em três domínios: atividade física no
trabalho, desporto em tempo de lazer e atividade física em tempo de lazer
excluindo o desporto, reportando-se aos últimos 12 meses. Atendendo que os três
domínios podem ser avaliados separadamente, no nosso estudo apenas incluímos o
desporto nas horas de lazer (AF-desporto) e a atividade física nas horas de
lazer que não o desporto (AF-lazer). A razão de não incluir a atividade física
no trabalho foi porque iria aumentar o número de itens, tornando o questionário
final longo. E porque este trabalho se insere num estudo mais alargado sobre
motivação e comportamentos de saúde, pretendemos um questionário curto, que
permita diferenciar os participantes e, simultaneamente identificar
comportamentos passíveis de serem alterados no sentido de promover a atividade
física. Por outro lado, a amostra deste estudo é constituída por pessoas cuja
atividade física ocupacional é muito similar.
O questionário utilizado é constituído por 8 itens, agrupados em duas
dimensões:
1 ' AF-desporto (4 itens) ' procura avaliar a atividade física realizada no
desporto ou exercício físico programado praticado nas horas de lazer.
2 ' AF-lazer (4 itens) ' procura avaliar a atividade física em outras
atividades que não o desporto, praticada nas horas de lazer (por exemplo, andar
a pé, andar de bicicleta).
Todas as respostas são pontuadas numa escala de cinco pontos, com exceção da
questão sobre a prática de desporto. Quanto maior a pontuação de cada item,
maior o nível de atividade física. Para cada um dos dois grupos ou dimensões de
atividade física resulta um índice parcial, sendo a atividade física total
calculada pela soma dos dois valores parciais.
No estudo original a AF-desporto era subdividida em três níveis de intensidade,
de acordo com a modalidade praticada: nível ligeiro, para atividades como
bilhar, velejar, bowling e golf (gasto energético de 0,76 MJ/h); nível médio,
para atividades como badmington, ciclismo, dança, natação e ténis (gasto
energético de 1,26 MJ/h); nível elevado, para atividades como boxe,
basquetebol, futebol, rugby e remo (gasto energético de 1,76 MJ/h) (Baecke et
al., 1982).
Neste trabalho, a intensidade da modalidade desportiva é determinada de acordo
com o compêndio de atividades físicas de Ainsworth et al. (2000) com base no
gasto energético e expresso em MET (metabolic equivalent), à semelhança do
estudo de validação do mesmo questionário, para a população brasileira,
realizado por Florindo e Latorre (2003). São considerados três níveis de
intensidade: intensidade ligeira (MET <3), intensidade moderada (3 a 6 METs) e
intensidade vigorosa (> 6 METs). O índice da AF-desporto, tal como no estudo
original, é calculado a partir da combinação da intensidade do desporto
praticado, do tempo gasto por semana e da proporção de prática regular durante
o ano.
A versão final do questionário, após o processo de adaptação linguística, bem
como as fórmulas para calcular o índice parcial das duas dimensões e o índice
total de atividade física, são apresentados na Figura_1.
Procedimentos
Após receber a autorização dos autores para utilizar o questionário, procedemos
à tradução da versão inglesa para a língua portuguesa por dois tradutores
independentes, e à retroversão para a língua original, por um terceiro
tradutor.
De seguida, dois investigadores (doutorados da área das ciências da saúde) e um
profissional de saúde (enfermeiro especialista duma Unidade de Cuidados à
Comunidade) procederam à comparação e análise das diferenças entre as versões,
e elaboraram uma primeira versão do questionário.
Esta primeira versão foi aplicada num estudo piloto, a pessoas da comunidade,
para avaliar a clareza das instruções/questões e identificar eventuais
dificuldades na resposta. Selecionamos uma amostra heterogénea relativamente ao
sexo, nível de escolaridade e profissão, de forma a adequar a aplicação do
questionário à população geral, independentemente do seu nível socioeconómico e
educacional. A amostra do estudo piloto foi constituída por 10 participantes de
ambos os sexos, com diferentes níveis de escolaridade e com idades
compreendidas entre os 24 e os 56 anos.
Alguns dos participantes atribuíram à palavra desporto o significado de
competição e/ou treino supervisionado, excluindo atividades como caminhadas,
jogging ou outro tipo de exercício físico programado e regular, realizado
individualmente ou em grupo, mas sem supervisão. Daqui emergiu a necessidade de
melhor clarificar o significado, optando-se por usar no questionário a
expressão desporto ou exercício físico programado, porque se torna mais
abrangente e adequada à nossa realidade linguística e cultural. Em relação à
palavra lazer, alguns participantes apontaram como de mais fácil interpretação
o uso do termo tempos livres. O questionário foi de seguida submetido a nova
revisão por dois investigadores, resultando um modelo final de consenso.
Formalizamos o pedido para proceder à recolha de dados numa instituição de
ensino superior (de Enfermagem) do Porto e em dois agrupamento de escolas (do
ensino pré-escolar ao ensino secundário) do concelho de Santa Maria da Feira e
de Oliveira de Azeméis, do distrito de Aveiro. Contactamos ainda, a título
individual, profissionais de saúde com atividade profissional em diferentes
instituições dessas mesmas localidades.
Considerações ético-legais
Após autorização das instituições e aceitação voluntária de participação,
apresentamos aos par-ti-ci-pantes o objetivo do estudo garantindo a
confidencialidade das declarações. Respeitamos o código de conduta da
Declaração de Helsínquia, assim como, os aspetos éticos subjacentes à prática
científica da Universidade do Porto.
Resultados
Procedemos à análise dos dados através do programa Statistical Package for
Social Sciences (SPSS 19.0): análise da estrutura fatorial, análise da
consistência interna e análise da validade convergente dos itens da escala,
procedemos ainda à avaliação do nível de atividade física total, atividade
desportiva e atividade física no lazer que não o desporto, e comparação de
grupos. Optamos pelos testes estatísticos paramétricos porque são mais robustos
e dada a dimensão da amostra, esta aproxima-se da distribuição normal,
requisito essencial para a sua utilização.
Análise da estrutura fatorial
Submetemos os 8 itens do questionário à análise de componentes principais
(ACP), utilizando o método de rotação quartimax, seguindo o mesmo procedimento
dos autores do questionário original, para facilitar a comparação dos
resultados.
A inspeção da matriz de correlações entre os itens revelou a presença de vários
coeficientes com valores iguais ou superiores a 0,30. O valor de K-M-O foi de
0,83 e a significância estatística do teste de esfericidade de Bartlett foi de
p = 0,000. A ACP, utilizando o método de rotação quartimax e valores de carga
componencial superior ou igual a 0,50, revelou a presença de dois componentes
com valores próprios superiores a 1, explicando 56,58% da variância total. Os
valores de carga componencial encontrados no estudo atual e no estudo original
(com uma amostra de 306 participantes holandeses e idades compreendidas entre
os 20 e os 32 anos) são semelhantes em alguns itens. Os resultados dos dois
estudos são apresentados na Tabela_2.
Comparando os dois estudos, as diferenças são acentuadas para o item 8 (Nos
tempos livres, com que frequência costuma andar de bicicleta) que no estudo
atual pontua abaixo do valor do estudo original (menos 0,28) e o item 3 (Por
dia, quantos minutos costuma andar a pé ou de bicicleta ) que no nosso estudo
pontua acima do valor do estudo original (mais 0,15). O valor da variância
explicada não é comparável uma vez que no estudo original são consideradas as
três subescalas e no nosso estudo apenas duas subescalas (AF-desporto e AF-
lazer).
Análise da Fidelidade
Calculamos a consistência interna através do alpha de Cronbach. Os valores
obtidos foram de 0,78 para a AF-total, de 0,83 para a subescala AF-desporto e
de 0,54 para a subescala AF-lazer. Não nos é possível comparar os valores
encontrados com o estudo original uma vez que os autores não apresentaram esses
resultados.
Para a subescala AF-lazer o valor foi baixo, pelo que calculamos a correlação
inter-item, obtendo valores muito baixos para o item 6 (entre 0,07 a 0,12),
quanto às correlações entre os outros itens variam entre 0,26 e 0,41. Caso
fosse retirado o item 6 (Nos tempos livres, com que frequência costuma ver
televisão), a consistência interna melhorava (alpha = 0,61).
Análise da validade convergente dos itens da escala
A correlação de cada item com a sua subescala foi sempre superior à do valor de
correlação com a subescala a que não pertence, os resultados são apresentados
na Tabela_3. Todos os itens apresentam uma correlação com a sua subescala e com
a escala total superior a 0,40, exceto o item 6 (valor de correlação com a
escala total 0,25) que já na análise da consistência interna apresentava
fragilidades.
Análise descritiva e comparação de grupos
Calculamos os índices para a atividade física no desporto (M = 2,62; DP = 0,81;
Min. = 1,00; Máx. = 4,75), atividade física nos tempos livres ou de lazer (M =
2,68; DP =0,62; Min. = 1,50; Máx. = 5,00) e atividade física total (M = 5,29;
DP =1,23; Min. = 2,75; Máx. = 9,25). Os resultados sugerem que os participantes
apresentam valores da média moderadamente baixos, tendo presente os valores
máximos indicados. Todos os valores da média se encontram abaixo do ponto médio
das diferentes subescalas.
O valor da média de atividade física no desporto para a amostra global foi
moderadamente baixo, com resultados do teste t para uma amostra a indicar que
tem significado estatístico (t (338) = -8,65, p = 0,000). O valor da média para
a atividade física em horas de lazer que não o desporto, também foi
moderadamente baixo, com resultado de teste t para uma amostra a indicar que
tem significado estatístico (t (336) = -9,40, p = 0,000).
Procuramos analisar possíveis diferenças entre grupos de acordo com as
variáveis sociodemográficas, aplicando o teste t student para amostras
independentes. Na Tabela_4 são apresentadas as medidas descritivas de acordo
com o sexo, estado civil e profissão. Para a variável sexo os resultados
apontam diferenças significativas para a AF-desporto (t (337) = 6,13; p =
0,000) e AF-total (t (335) = 4,85; p = 0,000), sendo que os homens apresentam
maiores níveis de atividade física. Para a AF-lazer não se verificam diferenças
significativas. Relativamente ao estado civil, os resultados apontam diferenças
significativas entre os dois grupos, para a AF-desporto (t (337) = 3,76; p =
0,000) e AF-lazer (t (335) = 2,77; p = 0,006), os participantes não casados
apresentam médias significativamente mais elevadas do que os participantes
casados.
Para a variável profissão não se verificam diferenças estatisticamente
significativas no nível de atividade física entre os profissionais de saúde e
os professores.
Discussão
No processo de tradução e adaptação linguística do questionário, procuramos
seguir as diretivas relativas à tradução/retroversão dos itens, e aplicamos o
questionário num estudo piloto, com revisão por profissionais e investigadores
das ciências da saúde, a fim de melhor clarificar a linguagem e adequar à
realidade sociocultural.
Após a recolha de dados estudamos as propriedades psicométricas do
questionário. Pela Análise de Componentes Principais, encontramos dois
componentes distintos em termos de atividade física habitual, tal como o estudo
original. O primeiro componente relacionado com a prática de desporto nas horas
de lazer inclui os itens 1, 2, 4 e 5. O segundo componente relacionado com
atividade física realizada nas horas de lazer que não o desporto inclui os
itens 3, 6, 7 e 8. Os valores por nós encontrados para a consistência interna e
validade são aceitáveis, atendendo ao número de itens. De salientar, no
entanto, a fragilidade revelada pelo item 6 (ver televisão nos tempos livres).
Uma vez que este item se refere a um comportamento sedentário e não à prática
de atividade física, parece-nos pouco coerente em termos teóricos a sua
inclusão. No entanto, como nenhum dos estudos consultados refere esse dado,
optamos por manter o item no questionário.
A atividade física dos participantes do nosso estudo é moderadamente baixa.
Este resultado vai ao encontro dos baixos níveis de atividade física
referenciados em outros estudos (Guthold et al., 2008; Kruk, 2007) traduzindo
um problema global, para o qual as entidades com responsabilidades no campo da
saúde, nos diferentes países e a nível mundial, procuram soluções.
Quando comparamos as médias apresentadas nas duas subescalas de atividade
física, do estudo realizado por Baecke, Burema, e Frijters (1982), com o estudo
atual, os resultados são similares, embora os grupos sejam distintos em termos
de idade. À partida esperaríamos encontrar níveis de atividade física mais
baixos na nossa amostra, uma vez que a literatura aponta uma diminuição da
atividade física no tempo de lazer com o avançar da idade (Hirsch et al., 2010)
e a idade dos participantes do estudo de Baecke et al. (1982), varia entre os
20 e os 30 anos, enquanto os participantes do nosso estudo apresentam idades
compreendidas entre os 23 e os 60 anos.
No estudo de validação do questionário, realizado no Brasil por Florindo e
Latorre (2003), as médias de atividade física são manifestamente superiores em
todos os domínios, comparativamente com o nosso estudo. No entanto, as amostras
não são comparáveis em termos de sexo, idade e contexto cultural, uma vez que a
amostra deste estudo inclui apenas indivíduos do sexo masculino, com idades
entre os 27 e 37 anos (M = 32,6).
No nosso estudo os homens apresentam maior nível de atividade física do que as
mulheres, o mesmo resultado foi encontrado em 17 de 20 países, num estudo
internacional de prevalência da atividade física (Bauman et al., 2009) e outros
estudos com pessoas idosas (Hirsch et al., 2010; Palacios-Ceña et al., 2011).
No estudo de Baecke et al. (1982) os homens apresentam níveis
significativamente mais elevados de atividade física do que as mulheres apenas
no desporto. O maior nível de atividade física apresentada pelos homens pode
estar relacionado com o tempo disponível e com os papéis e estereótipos em
torno do género. Há evidência de uma distribuição desigual das
responsabilidades familiares e distribuição das tarefas domésticas que deixam
as mulheres com menos tempo livre (Poeschl, 2010).
Relativamente aos valores mais elevados de atividade física para os
participantes não casados, comparativamente com os casados, o mesmo resultado
foi referido no estudo de Palacios-Ceña et al. (2011), e de Sobal e Hanson
(2010). De acordo com Sobal e Hanson (2010), a quantidade e o tipo de atividade
física no tempo de lazer pode estar relacionada com as exigências dos papéis
conjugais e também com as normas implícitas sobre o tipo de atividade em função
da identidade conjugal. Mas nem sempre se verifica esta associação entre o
estado marital e a atividade física (Yu et al., 2011), de salientar, que a
forma como as relações maritais se associam ou não à atividade física ainda
está pouco esclarecida e um aspeto importante a considerar é o tipo de
atividade avaliada (Sobal & Hanson, 2010).
Relativamente ao nível de escolaridade os estudos apontam a associação entre a
atividade física e o maior nível educacional (Baecke et al., 1982; Yu et al.,
2011) aspeto que não nos foi possível comparar uma vez que, na nossa amostra,
todos os participantes são licenciados.
Consideramos que a homogeneidade da amostra, em relação ao nível de
escolaridade e da profissão, constitui uma limitação do nosso estudo, em
estudos futuros seria oportuno a utilização de amostras mais heterogéneas.
O nível elevado de escolaridade dos participantes poderia comprometer a
aplicação do questionário, em novos estudos, a pessoas de diferentes níveis
socioeconómicos e educacionais. No entanto, o estudo piloto com a versão
inicial do questionário, contemplando 10 participantes com diferentes níveis de
escolaridade, permitiu a discussão e aferição de termos de forma a facilitar o
uso do instrumento na população geral.
Conclusão
Na avaliação da atividade física contemplamos apenas a atividade no tempo de
lazer, integrando atividades desportivas ou outras, e não avaliamos a atividade
ocupacional. Fizemos esta opção porque acreditamos que o potencial para a
mudança de comportamentos se relaciona essencialmente com as atividades nos
tempos livres e não tanto com as atividades laborais.
Consideramos ter atingido os objetivos propostos para a realização deste
trabalho, nomeadamente, descre-vemos o processo de tradução e adaptação
linguística do questionário, procedemos ao estudo das propriedades
psicométricas do questionário e avaliamos o nível de atividade física dos
participantes, comparando grupos em função das variáveis sociodemográficas.
Após o processo de tradução/adaptação do HPAQ, a versão utilizada mostrou ser
um instrumento curto, de fácil compreensão e bem aceite pelos participantes. O
questionário apresenta uma estrutura fatorial, consistência interna e validade
convergente, aceitáveis.
Relativamente às diferenças entre grupos, verificamos diferenças significativas
para a variável sexo e estado civil, com os homens e os participantes não
casados a apresentarem níveis mais elevados de atividade física.
Após este primeiro processo de adaptação, a aplicação do questionário a uma
amostra mais alargada e heterogénea, poderá ser mais esclarecedora, no sentido
de aprimorar a sua utilização e contribuir para a identificação de estratégias
de intervenção promotoras da mudança de comportamentos no âmbito da atividade
física.