Competências parentais: construção de um instrumento de avaliação
Introdução
Tornar-se mãe e tornar-se pai são processos que correspondem a transições. O
nascimento de um filho é, não só, um tempo de mudança na vida de uma família,
mas, igualmente, um evento crítico caracterizado pela reorganização individual,
conjugal e social (Emmanuel, Creedy, St John, Gamble, & Brown, 2008; Meleis
et al., 2000; Mercer, 2006). As mães e os pais possuem um papel dos mais
exigentes e complexos de todos os papéis no seio da família, já que o
desempenho do papel parental é essencial para assegurar a sobrevivência, a
segurança e o crescimento e desenvolvimento da criança (Emmanuel et al., 2008;
Cardoso & Paiva e Silva, 2010; Mercer, 2006).
A parentalidade, enquanto foco de atenção, envolve quatro dimensões: (1)
assumir a responsabilidade do exercício efetivo do papel; (2) otimizar o
crescimento e o desenvolvimento da criança; (3) integrar a criança na família;
e, (4) agir de acordo com os comportamentos esperados de alguém que é mãe/pai
(International Council of Nurses, 2011). A adaptação à parentalidade, no
original childbearing, é, no âmbito daquela classificação, considerada como um
tipo de parentalidade, que aponta para as necessidades parentais relacionadas
com os comportamentos que incidem no ajustamento à gravidez e em empreender
ações para se preparar para ser mãe/pai, interiorizando as expectativas das
famílias, amigos e sociedade quanto aos comportamentos parentais adequados ou
inadequados (ICN, 2011). O período referente à adaptação à parentalidade,
envolve o período de tempo que vai desde a gravidez até aos primeiros tempos
pós-parto, incluindo tanto a preparação como o assumir os cuidados ao filho no
primeiro mês de idade enquanto processos de desenvolvimento que acarretam a
reestruturação psicológica, social e afetiva de cada mulher e de cada homem,
permitindo tornarem-se responsáveis pelo filho (Meleis et al., 2000; Mercer,
2006).
Enquadramento
Tornar-se mãe ou tornar-se pai não é um talento natural. É, antes, um processo
social e cognitivo que, mais do que intuitivo, é um processo aprendido (Mercer,
2006). As perceções, as expectativas e as necessidades de aprendizagem das mães
e dos pais são valorizadas no processo de transição, muito por força do seu
potencial efeito facilitador ou inibidor (Meleis et al., 2000).
A preparação, os conhecimentos e as habilidades são consideradas condições que
podem facilitar ou inibir a transição (Meleis et al., 2000). De facto, a
preparação antecipada para lidar com a nova situação pode constituir um fator
facilitador da transição enquanto, pelo contrário, a falta de preparação parece
constituir um fator inibidor (Meleis et al., 2000).
A mestria nas competências parentais influencia o modo como a mãe e o pai
interpretam o seu próprio comportamento e o comportamento da criança. De facto,
quanto maior é o nível de conhecimentos e de habilidades das mães e dos pais,
maior a probabilidade de criarem um ambiente adequado ao desenvolvimento
saudável e de estarem mais sensíveis às necessidades da criança (Ribas &
Bornstein, 2005). Assim, a apropriação dos conhecimentos e das habilidades
relacionados com as necessidades da criança vai potenciar a aquisição e o
desenvolvimento das competências parentais, com consequente melhoria da
confiança, da satisfação e da mestria no desempenho do papel.
O conhecimento é entendido como o foco de atenção dos enfermeiros, referindo o
conteúdo específico do pensamento, baseado na sabedoria adquirida, na
informação ou nas aptidões aprendidas, no conhecimento e no reconhecimento da
informação (ICN, 2011). O conhecimento remete tanto para a compreensão de
determinada informação como para a capacidade de mobilizar as informações
necessárias à manutenção e ao restabelecimento da saúde (Moorhead, Johnson,
& Maas, 2008). A habilidade corresponde a uma ação que tem um determinado
objetivo. A palavra competências tem origem no latim competere, resultando da
junção da palavra com, que significa conjunto, e petere, que significa esforço.
Este termo é definido como um conjunto de conhecimentos teóricos ou práticos
que uma pessoa domina, de requisitos que preenche e são necessários para um
dado fim e como uma qualidade de quem é capaz de resolver determinados
problemas ou de exercer determinadas funções. Da análise das diferentes aceções
percebe-se que há duas dimensões a considerar: competência e competências. A
competência pode ser entendida como a mobilização apropriada de múltiplos
recursos cognitivos (saberes, informações, valores, atitudes, habilidades,
inteligência, esquemas de perceção, de avaliação e de raciocínio) para
solucionar um problema, sendo reconhecida pelos outros. As competências podem
ser definidas como o conjunto de conhecimentos, habilidades e disposições
(atitudes) que permitem realizar uma ação com êxito, indicando formas de agir
ou de pensar, podendo ser melhoradas à medida que a pessoa aprende e se ajusta
ao ambiente (Fleury & Fleury, 2001).
Neste estudo, assumiu-se como conceito de competências parentais o conjunto de
conheci--mentos, de habilidades e de atitudes que facilitam e otimizam o
desempenho, com mestria, do papel parental, garantindo o potencial máximo de
crescimento e de desenvolvimento da criança. No âmbito da parentalidade, os
conhecimentos e as habilidades parentais podem ser entendidos como a
compreensão do desenvolvimento da criança e a familiaridade com as tarefas
parentais, relacionadas com as decisões em torno dos cuidados, com a capacidade
de avaliar e de interpretar os comportamentos da criança, com o desempenho das
tarefas parentais e com a interação com a criança (Ribas & Bornstein, 2005;
Ribas, Moura, & Bornstein, 2007).
Da revisão da literatura realizada emergiram vários temas relacionados com
necessidades de aprendizagem associadas ao exercício do papel parental (Baker,
Wilson, Nordstrom, & Legwand, 2007; Bowman, 2005; Nolan, 2009; Reich, 2005;
Ribas & Bornstein, 2005; Ribas et al., 2007; Sink, 2009; Senarath,
Fernando, Vimpani, & Rodrigo, 2007; Svensson, Barclay, & Cooke, 2006).
Nos estudos examinados, os instrumentos de recolha de dados foram, na maioria
dos casos, construídos expressamente para o efeito e de autopreenchimento. Em
nenhum dos estudos foi identificado um instrumento que sistematizasse a
avaliação clínica das competências parentais, durante a gravidez e nos
primeiros meses de vida da criança.
Assumindo que a missão dos enfermeiros que lidam com as mães e os pais passa
por facilitar a transição para a parentalidade, proceder ao diagnóstico das
necessidades constitui o primeiro passo para o processo de cuidados,
contribuindo-se, por essa via, para o ajustamento às novas circunstâncias e aos
novos desafios (ICN, 2011; Moorhead et al., 2008; Meleis et al., 2000; Mercer,
2006). Deste modo, a avaliação das competências parentais corresponde ao
processo de diagnóstico das necessidades de aprendizagem relacionadas com os
conhecimentos e com as habilidades para um adequado desempenho do papel
parental.
Assim, tomando por referência o conceito de competências parentais acima
descrito e a inexistência de um instrumento que organize o processo de
avaliação das competências parentais, partiu-se para a construção de um
instrumento destinado a nortear a avaliação clínica das competências parentais,
desde a gravidez até ao sexto mês de idade da criança.
Questões de investigação
O estudo envolveu duas fases. A primeira fase englobou duas etapas. Na primeira
etapa procurou--se responder à questão: Quais as competências parentais e os
respetivos indicadores para assegurar os cuidados ao filho desde a gravidez até
ao sexto mês de idade do filho? Na segunda etapa procurou--se responder à
questão: Quais as características (conteúdo, organização e quando avaliar) do
modelo do instrumento de avaliação das competências? Na segunda fase procurou-
se responder à questão: Quais as propriedades psicométricas do instrumento
construído?
Metodologia
Os estudos que visam a construção de instrumentos são considerados estudos
metodológicos, sendo indispensáveis em qualquer disciplina do
conheci-mento. A clarificação do que se pretende medir e a definição das
dimensões do constructo orientam a construção do instrumento. Desenhou-se um
estudo, envolvendo duas fases sequenciais, cujos objetivos foram: construir um
instrumento orientado para a avaliação das competências parentais e analisar a
utilidade clínica e propriedades psicométricas do instrumento.
O estudo foi autorizado pela Comissão de Ética da Unidade Local de Saúde onde
foi desenvolvido e o consentimento informado por parte dos participantes foi
assegurado.
Fase I
A definição do conteúdo do instrumento resultou da perspetiva de mães e de
pais, da região do grande Porto, e da revisão da literatura.
Para identificar as necessidades de aprendizagem percebidas pelas mães e pelos
pais realizou-se um estudo descritivo e de natureza qualitativa. A entrevista
semiestruturada foi usada como técnica de recolha de dados e a seleção dos
participantes teve por base uma amostragem não probabilística de conveniência.
Os critérios de inclusão definidos foram: ser mãe ou pai durante a gravidez ou
ter um filho com menos de seis meses de idade e aceitar participar no estudo.
As entrevistas foram realizadas entre março e agosto de 2007. Realizaram-se 51
entrevistas. Foram entrevistados 40 mães e 11 pais, uns ainda durante a
gravidez (n=27) e outros já após o filho ter nascido, mas com idade inferior a
seis meses (n=24). A idade média das mães foi de 30 anos e a dos pais de 32
anos. A escolaridade das mães e dos pais foi, em média, de 12 anos. Verificou-
se que 96% eram casados ou viviam em união de facto. Para 63% dos casos
tratava-se do primeiro filho.
Os procedimentos de análise seguiram os princí-pios das metodologias
qualitativas, tomando por referência os processos de análise descritos na
grounded analysis (Strauss & Corbin, 2008). A grounded analysis orienta a
análise no sentido da descoberta das categorias, a partir dos conceitos que
emergem dos dados (Fernandes & Maia, 2002). Estes procedimentos são
sobreponíveis aos descritos por Strauss e Corbin (2008) por micro-análise,
refletindo a combinação da codificação aberta e axial.
Às unidades de análise que representassem ideias similares foi atribuída a
mesma designação (Strauss & Corbin, 2008). Assim, ao longo do processo de
análise foram emergindo as categorias, que configuravam as competências
parentais, e as subcategorias, que configuravam os indicadores das competências
parentais, do domínio conhecimento e do domínio habilidade. Para facilitar o
manuseamento dos dados e organizar os resultados da análise, as categorias e as
subcategorias, recorreu-se ao NVivo7. Da análise de conteúdo emergiram 17
competências parentais (categorias) e 178 indicadores do conhecimento e
habilidade.
A revisão da literatura teve como principal propósito complementar as
necessidades de aprendizagem já identificadas. Para a seleção dos conteúdos a
analisar recorreu-se a duas fontes principais: as bases de dados disponíveis e
a Nursing Outcomes Classification (NOC). Procedeu-se a uma pesquisa na CINAHL e
em repositórios de estudos, dissertações e teses em português. Foram usadas
como palavras-chave, em inglês: transition to parenthood; parenting; parental
competence; maternal competence; parental learning needs; maternal learning
needs; learning needs during pregnacy; parental efficacy; mother and child
care; e em português: parentalidade, maternidade, paternidade, necessidades de
apren-dizagem da mãe/pai durante a gravidez. Da pesquisa realizada
emergiram artigos e teses que interessava analisar, já que, após leitura do
resumo/abstract, se inferiu que abordavam conteúdos relacionados com as
necessidades de aprendizagem das mães e dos pais para assumirem o papel
parental, desde a gravidez até ao sexto mês de idade da criança. Para além da
revisão dos estudos, procedeu-se à análise dos resultados (outcomes) e dos
respetivos indicadores da NOC (2008). Recorreu-se a esta classificação pelo
facto de o seu desenvolvimento e aperfeiçoamento ser produto de investigação
clínica (Moorhead et al., 2008). Identificaram-se sete resultados (outcomes),
tanto do domínio do conhecimento, como do domínio do desempenho (habilidade),
que se relacionavam com os cuidados à criança. O resultado da revisão da
literatura confirmou as competências parentais já identificadas nas
entrevistas, mas permitiu acrescentar mais 15 indicadores, perfazendo um total
de 193.
O resultado da análise das entrevistas e da revisão da literatura permitiram a
identificação de um conjunto de indicadores do domínio do conhecimento e da
habilidade relacionados com as decisões e ações parentais (Figura_1).
A segunda etapa da Fase I visou definir o modelo do instrumento de avaliação
das competências parentais. O conjunto das competências parentais e dos
respetivos indicadores constituíram o conteúdo substantivo para a construção do
instrumento. Os 193 indicadores das competências parentais foram organizados em
função dos momentos considerados relevantes para a sua avaliação ' gravidez,
1.ª/2.ª semana, 1.º/2.º mês; 3.º/4.º mês e 5.º/6.º mês.
A utilidade clínica para a orientação do processo diagnóstico foi um postulado
no desenvolvimento do instrumento. Assumiu-se, por isso, que os dados relativos
à avaliação das competências parentais constituem a matéria-prima para o
processo diagnóstico e para o diagnóstico do enfermeiro. A decisão por este
modelo de recolha de dados influenciou a estrutura do instrumento, nomeadamente
a organização dos indicadores e a lógica de aplicação, em particular na
sistematização dos critérios de diagnóstico. Os dados recolhidos com recurso ao
instrumento resultam do juízo clínico do enfermeiro. Para documentar o juízo
clínico resultante da avaliação do conhecimento e/ou habilidade das mães e/ou
dos pais foram definidos como juízos diagnósticos sim e não. Trata-se assim de
variáveis dicotómicas. O sim traduz a adequação do nível de conhecimento,
significando que o conhecimento evidenciado é o suficiente para a tomada de
decisões e/ou para a ação. Na mesma linha de pensamento, ajuizar o desempenho
de uma determinada habilidade como adequado é sinónimo de mestria ou de
potencial para melhorar o nível de mestria, na realização da tarefa. O não
traduz a identificação de uma oportunidade de desenvolvimento do conhecimento
e/ou habilidade, apontando para um nível de conhecimento insuficiente,
incorreto ou ausente para a decisão ou para a ação ou incapacidade,
dificuldade, negligência ou insatisfação na realização de determinada tarefa
parental, com consequente prejuízo para a saúde da criança e/ou para a mãe/pai
(ICN, 2011; Moorhead et al., 2008).
O instrumento construído visava guiar a avaliação das competências parentais,
desde a gravidez até ao sexto mês de idade da criança. Todavia, a organização
dos indicadores no instrumento teve por base a sua pertinência e utilidade
clínica. Assim, foi definido que a avaliação de cada indicador do domínio de
conhecimento ou de habilidade só seria realizada se adequado à situação real
(Tabela_1). Por exemplo, só se avaliaria o conhecimento sobre os cuidados a ter
com os animais domésticos, se o casal tivesse algum animal doméstico; do mesmo
modo, só seriam avaliadas as habilidades para tratar o eritema pela fralda, se
a criança tivesse eritema pela fralda presente. Na lógica de organização dos
indicadores também foi definido que alguns não seriam avaliados no pai (e.g.
habilidades para amamentar). Assim, genericamente, a versão materna inclui 193
indicadores e a versão paterna 176.
A análise da validade de conteúdo é um passo essencial no desenvolvimento de
novos instrumentos, permitindo associar conceitos abstratos a indicadores
mensuráveis e deve fazer parte da avaliação de instrumentos usados na clínica.
Pode-se considerar um instrumento válido quando ele consegue avaliar realmente
o seu objetivo.
A construção do instrumento é em si uma garantia da validade do conteúdo do
mesmo, já que o seu construto e dimensões resultaram de representantes da
população de interesse e da revisão da literatura (Alexandre & Coluci,
2011).
A avaliação do instrumento por especialistas constitui uma etapa do
procedimento de análise de validade de conteúdo. Para isso, a seleção de
peritos teve por fundamento serem profissionais detentores do maior nível de
conhecimento disciplinar e profissional na área e população em estudo. O grupo
foi constituído por doze enfermeiras, tanto da prestação de cuidados como da
docência, especialistas em Enfermagem de saúde materna e obstetrícia (nove) e
em Enfermagem em saúde infantil e pediatria (três). O objetivo do grupo de
peritos foi proceder ao julgamento qualitativo dos itens quanto à sua
pertinência, a adequação do momento recomendado para a sua avaliação e a
ordenação. A avaliação foi inicialmente feita de forma individual e
independente pelos juízes, seguida por uma discussão em grupo. Foi calculado o
Índice de Validade de Conteúdo (IVC), a partir da análise numa escala de Likert
que variou de 1= irrelevante a 4= extremamente relevante. Todos os indicadores
receberam pontuação de 3 ou de 4, tendo sido obtido um índice de 0,96,
considerado adequado para verificar a validade de novos instrumentos (Alexandre
& Coluci, 2011). Na discussão, constatou--se que os peritos confirmaram a
estrutura e o conteúdo do instrumento, concordando com o conteúdo e o momento
de avaliação identificados.
Para averiguar a aplicabilidade do instrumento procurou-se também examinar a
duração da interação, nos diferentes momentos e a aceitação por parte das mães
e dos pais. Para testar estas condições procurou--se usar o instrumento como
guia de avaliação das competências parentais em 25 mães; em três dos casos
estava presente também o pai. Procurou-se avaliar as competências parentais em
todos os momentos, tendo-se realizado um total de 15 entrevistas durante a
gravidez, quatro na 1.ª/2.ª semana, duas no 1.º/2.º mês, duas no 3.º/4.º mês e
apenas uma no 5.º/6.º mês. Ficou evidente que a avaliação das competências
parentais durante a gravidez e na 1.ª/2.ª semana constituíam os contactos mais
demorados. De facto, a observação do desempenho das tarefas parentais, como por
exemplo dar banho ou amamentar, exigiam mais tempo e disponibilidade, quer por
parte da enfermeira/investigadora e que a avaliação se realize no domicílio.
Fase II
Nesta fase pretendeu-se analisar a utilidade clínica e as propriedades métricas
do instrumento de avaliação das competências parentais (I_ACP).
Para esta fase do estudo, a amostragem foi não probabilística por conveniência,
estabelecendo como critério de inclusão serem clientes da Unidade Local de
Saúde (ULS), estivessem num período dos momentos reservados para a avaliação
das competências parentais e aceitassem participar no estudo. A recolha de
dados decorreu tanto na instituição de saúde (centros de saúde ou consulta
externa) ou no domicílio, se acordado com a mãe e/ou pai, de janeiro a julho de
2008 (estudo transversal). Participaram no total 630 mães e 214 pais, sendo
observados diferentes N de participantes nos diferentes momentos (Tabela_2).
A média de idades das mães foi de 29,5 anos e a dos pais de 32,1 anos. Quanto
ao nível de escolaridade, verificou-se que 42,0% das mães possuía formação de
nível superior, 32,7% das mães possuía formação de nível secundário e 25,3%
possuía formação de nível básico; em relação aos pais, verificou-se que 37,6%
possuía o ensino básico, 35,5% ensino secundário e 26,9% possuía formação de
nível superior. Para 71,8% correspondia ao primeiro filho.
Os dados recolhidos foram submetidos ao tratamento estatístico com recurso ao
SPSS 19. A análise da consistência interna foi obtida através do coeficiente de
Kuder-Richardson, teste adequado para instrumentos com enunciados dicotómicos
como é o caso do I_ACP (Marôco & Garcia-Marques, 2006). Determinou-se
também a consistência interna das duas subescalas do I_ACP ' a dos
conhecimentos e a das habilidades. Assim, foram criadas quatro subescalas:
conhecimentos das mães (média dos scores finais dos conhecimentos das mães nas
competências parentais); conhecimentos dos pais (média dos scores finais dos
conhecimentos dos pais nas competências parentais); habilidades das mães (média
dos scores finais das habilidades das mães nas competências parentais); e,
habilidades dos pais (média dos scores finais das habilidades dos pais nas
competências parentais).
Resultados
Os resultados do estudo envolvem os elementos relacionados com o Instrumento de
Avaliação das Competências Parentais, nomeadamente o conteúdo, a utilidade
clínica e as propriedades para medir o que pretende medir e com que precisão.
O conteúdo do I_ACP resultou da análise dos discursos das mães e dos pais e da
revisão da literatura, na procura de identificar as necessidades de
aprendizagem parentais. Do dispositivo de investigação emergiu um instrumento
que englobou um total de 17 competências parentais que agregam um total de 193
indicadores que representam conhecimentos (139) e habilidades (54) parentais.
Todavia, a versão materna ficou diferente da paterna - a versão materna inclui
193 indicadores e a versão paterna 176. A validade de conteúdo foi assegurada
pelo procedimento de desenvolvimento do instrumento e pela análise de peritos
(Alexandre & Coluci, 2011).
As competências parentais identificadas foram: alimentar a criança; amamentar;
alimentar por biberão; colocar a eructar; assegurar a higiene; tratar do coto
umbilical; vestir e despir; lidar com o choro; garantir a segurança e prevenção
de acidentes; lidar com os problemas comuns; promoção e vigilância da saúde;
criar hábitos para dormir; estimular o desenvolvimento; reconhecer o padrão de
crescimento e desenvolvimento normal; preparar a integração do novo elemento na
família; preparar a casa para receber o recém-nascido; e, preparar o enxoval.
Os indicadores foram organizados em diferentes momentos, que orientavam a sua
avaliação clínica, circunscreveram-se a um período desde a gravidez e os seis
meses de idade da criança. No I_ACP contempla a avaliação das competências
parentais em cinco momentos: gravidez; 1.ª/2.ª semana; 1.º/2.º mês; 3.º/4.º
mês; e, 5.º/6.º mês.
Tendo por base os valores de consistência interna, pode considerar-se que o
I_ACP revelou ser fiável para medir as competências parentais. O coeficiente
KR20 foi de 0,94 nas mães e de 0,87 nos pais. Também na análise da consistência
interna das subescalas obtiveram-se valores significativos (Marôco &
Garcia-Marques, 2006). Nas mães, observou-se na subescala dos conhecimentos
valor de alpha de Cronbach de 0,86 e na subescala das habilidades 0,66. Nos
pais, foi observado 0,89 na subescala dos conhecimentos e 0,76 na subescala das
habilidades.
Discussão
Proceder ao diagnóstico das necessidades em cuidados de Enfermagem constitui o
primeiro passo para qualquer ação do enfermeiro (ICN, 2011; Moorhead et al.,
2008). Avaliar as competências parentais constitui uma dimensão relevante para,
por um lado, os enfermeiros basearem as decisões em torno do plano de cuidados
para prepararem as mães e os pais para o exercício da parentalidade e, por
outro, sustentarem a monitorização da evolução e acompanharem o processo da mãe
e do pai de assumir os cuidados ao filho após o seu nascimento. Esta foi a
intencionalidade que conduziu à construção do I_ACP.
Para além disso, na literatura disponível não foi possível identificar um
instrumento construído nesta lógica e que contemplasse a avaliação dos
conhecimentos e das habilidades das mães e dos pais. A maioria dos estudos
centrava-se apenas na avaliação dos conhecimentos das mães, excluindo os pais
do estudo, constituíam questionários de autopreenchimento, ou seja, de
autoavaliação e as questões estavam dirigidas a um tema específico e não ao
conjunto organizado das competências parentais (Reich, 2005; Bowman, 2005;
Ribas & Bornstein, 2005; Svensson et al., 2006; Ribas et al., 2007; Baker
et al., 2007; Senarath et al., 2007; Nolan, 2009; Sink, 2009).
A aprendizagem das competências parentais corresponde a um processo contínuo,
que decorre ao longo do tempo. Apesar da preparação para a parentalidade ter
início de forma mais efetiva durante a gravidez, as mães e os pais continuam a
ter necessidade de integrar novos conhecimentos e novas habilidades para
assegurarem os cuidados ao filho, à medida que este cresce e se desenvolve. De
facto, as necessidades de aprendizagem das mães e dos pais não estão claramente
concentradas num período delimitado, estão, antes, distribuídas ao longo do
tempo. Por isso, também a avaliação das competências parentais deve ocorrer ao
longo do tempo, garantindo a continuidade dos cuidados e a oferta de cuidados
antecipatórios.
De acordo com o modelo de avaliação das competências parentais avançado, o
período da gravidez parece ser um tempo de aprendizagem intensiva, envolvendo
conteúdos relativos a treze competências parentais, com um total de 76
indicadores do domínio do conhecimento. Durante a gravidez as mães e os pais
preparam-se para o exercício do papel parental, mais especificamente, para
assegurarem os cuidados ao filho nos primeiros tempos após o nascimento deste.
E durante as primeiras semanas de exercício do papel parecem ser as mais
críticas, dado, por um lado, a quantidade e a qualidade de informação que é
necessário assimilar e transformar em comportamento e, por outro, a novidade
inerente ao desempenho do papel, em particular para as mães e para os pais que
o são pela primeira vez (Reich, 2005; Sink, 2009; Svensson et al., 2006).
Conclusão
As competências parentais correspondem ao con-junto de conhecimentos e de
habilidades das mães e/ou dos pais que permitem o desempenho, com mestria, do
papel parental e garantem o potencial máximo de crescimento e de
desenvolvimento da criança. O conceito de competências parentais, avançado
neste estudo, assume que a mobilização contextualizada dos conhecimentos e das
habilidades confere conteúdo e forma a essas mesmas competências. O estudo
visou construir um instrumento orientador da avaliação das competências
parentais desde a gravidez até ao sexto mês de idade do filho e analisar a sua
utilidade clínica e propriedades psicométricas. O dispositivo de investigação
permitiu desenvolver o I_ACP que revelou ser clinicamente útil para a avaliação
das competências parentais, já que os défices em conhecimentos e habilidades
eram reais, e evidencia condições de credibilidade revelando que mede o que
pretende medir e com precisão aceitável.
O modelo de avaliação das competências parentais definido (I_ACP) ' baseado nos
testemunhos de mães e de pais e na revisão da literatura ' revelou-se um
instrumento efetivo na avaliação das necessidades de aprendizagens das mães e
dos pais. De facto, não tendo sido realizada uma avaliação do mérito absoluto
deste instrumento, foi, mesmo assim, possível determinar o seu mérito relativo,
tendo-se constatado que: (1) avaliava o que pretendia avaliar, revelando bons
valores de alpha de Cronbach; (2) nos momentos em que foram avaliadas, as
necessidades de aprendizagem eram reais; (3) permitiu caracterizar as
competências parentais, nos momentos em que foram avaliadas; e, (4) permitiu
introduzir conteúdo e sistemática na avaliação das competências parentais
realizada pelos enfermeiros.