Vivência dos pais durante a hospitalização do recém-nascido prematuro
Introdução
O nascimento de um filho representa a continuidade da família sendo aguardado e
desejado pelos pais e familiares. No entanto, quando existe o nascimento
antecipado com necessidade de internamento em cuidados intensivos neonatais, os
pais sofrem muito (Centa, Moreira, & Pinto, 2004). Silva (2010) refere que
a necessidade da hospitalização dos recém-nascidos prematuros é normal para um
enfermeiro, mas para os pais e familiares é angustiante, provocando medo do
desconhecido.
Na mesma ordem de ideias, Santos, Moraes, Vasconcelos, e Araújo (2007)
consideram que o nascimento prematuro e a hospitalização imposta pelo estado
clínico do recém-nascido, leva os pais a viverem esta fase com angústia e medo.
A imagem do filho real é muito diferente da imaginada, dificultando a adaptação
à parentalidade. Também a separação e o contacto com um ambiente hospitalar
constituem constrangimentos no estabelecimento do vínculo afetivo entre pais e
recém-nascido.
É neste contexto que os enfermeiros têm um papel preponderante através das suas
práticas, proporcionando uma maior proximidade entre pais e bebé e adotando
vários procedimentos favorecedores da adaptação à parentalidade face à
prematuridade.
Sendo uma área de cuidados que nos tem preocupado, desenvolvemos o presente
estudo com os seguintes objetivos: Identificar os sentimentos vivenciados pelos
pais perante o nascimento antecipado de um filho; Demonstrar a influência da
hospitalização na adaptação à parentalidade.
A finalidade deste estudo consiste em fornecer subsídios para a reflexão e
melhoria dos procedimentos favorecedores da adaptação à parentalidade face à
prematuridade e para a melhoria da qualidade dos cuidados. O papel dos
enfermeiros passa por ajudar os pais nos processos de transição ao longo do
ciclo de vida como acontece com o nascimento de um filho prematuro.
Enquadramento
Impacto da prematuridade nos pais
Nascer prematuro é um risco intrínseco da vida e corresponde a uma saída
abrupta de um ambiente aconchegante e seguro, o útero materno, para um ambiente
agressivo e novo, o meio extrauterino (Santos et al., 2007).
Ao longo dos tempos, vários autores têm demonstrado interesse no estudo sobre a
prematuridade e como ela interfere na estrutura familiar. Nesta ótica Martins,
Silva, Aguiar, e Morais (2012) consideram que o nascimento de um bebé de risco
caracteriza-se como um momento de crise e vulnerabilidade familiar.
A imaturidade biológica e a vulnerabilidade destes bebés têm implicações nos
processos de adaptação familiar e podem interferir no processo interativo e na
vinculação. Por outro lado, a prematuridade extrema leva as famílias a
enfrentar momentos de luta desde o nascimento, não só pela busca de compreender
o diagnóstico, mas também ao depararem-se de forma inesperada com problemas de
saúde do seu filho (Arruda & Marcon, 2010).
Assim, a chegada de um filho prematuro origina uma experiência extremamente
desgastante e desafiadora às famílias, podendo alterar profundamente a dinâmica
familiar e os relacionamentos pessoais, uma vez que os pais vivenciam um
momento de luto do filho imaginado (Santos et al., 2007).
Também Silva (2010) refere que para os pais, o filho idealizado não corresponde
ao que está perante eles, um bebé pequeno, com muitos tubos, fios e luzes. A
unidade de cuidados intensivos neonatais representa um ambiente assustador, no
qual os pais deixam de ter controlo.
Carvalho, Araújo, Costa, Brito, e Souza (2009) verificaram que os pais com
filhos hospitalizados vivenciam emoções que são traduzidas por medo, angústia,
ansiedade e solidão que se alternam com a fé, a alegria e a esperança.
Na mesma linha de pensamento, Scarabel (2011) verificou que a experiência de
ser mãe perante um parto prematuro é marcada por uma ambivalência de
sentimentos, nomeadamente, o bebé nascer com vida e poder tocá-lo é bom, mas
também é pesaroso não poder estar com ele o tempo todo, nem levá-lo para casa,
necessitando de ir diariamente ao hospital e lidar com a ansiedade provocada
pela evolução clínica.
No seu estudo, Inácio (2011) procurou conhecer e compreender os significados
que os pais atribuem à hospitalização do seu filho prematuro no período
neonatal. Através de uma investigação qualitativa verificou que a categoria
central foi vivendo em incerteza, dado que os pais consideraram a
hospitalização tanto uma transição difícil como uma experiência compensatória.
O apoio dos avós e do cônjuge, a relação de confiança com a equipa, a evolução
clínica favorável e a participação nos cuidados são alguns dos aspetos
facilitadores na transição que os pais têm de enfrentar face à prematuridade de
um filho. No entanto, o facto de ter outro filho para cuidar, o ambiente físico
da unidade, a separação do filho e os sentimentos de culpa, medo e tristeza são
aspetos dificultadores dessa transição.
O impacto da prematuridade nos pais é, pois, reportado de várias formas e
dependente dos apoios de que dispõem.
Barradas (2008) aponta o apoio familiar como essencial pois pode facilitar a
permanência dos pais no hospital assumindo os seus compromissos com outros
filhos ou tarefas diárias. Dá ênfase à participação dos irmãos nos cuidados ao
bebé, através da visita acompanhada à unidade, pois promove uma oportunidade de
aproximação entre as crianças da família, permitindo uma relação afetiva
natural, espontânea e segura.
Scarabel (2011) refere que a esperança ajuda a ultrapassar o dia-a-dia, assim
como, o apoio da família, da equipa e a proximidade ao filho. Bloch, Lequien, e
Provasi (2006) asseguram que é imperativo que as enfermeiras de neonatologia
ajudem os pais a vivenciar este momento de crise e enfrentá-lo, por ser um
período de crescimento pessoal e familiar. Na opinião de Silva (2010), é da
competência dos enfermeiros que trabalham em neonatologia, ajudar os pais a
conhecer, entender e aceitar o seu filho e facultar condições para que eles se
sintam aptos para prestarem os cuidados ao filho posteriormente, estabelecendo
com eles uma parceria de cuidados. Botêlho (2011) no seu estudo, concluiu que
os profissionais de saúde necessitam de acolher melhor as mães de modo a
minimizar as dificuldades resultantes da hospitalização e orientá-las nos
cuidados ao bebé em casa. Tradicionalmente, a figura materna ainda prevalece em
alguns estudos, mas o papel do pai é hoje preponderante na vinculação e
desenvolvimento do bebé, não se dissociando do binómio mãe/pai e filho. É
reconhecido que a Enfermagem tem um papel preponderante, proporcionando uma
proximidade entre pais/bebé, contribuindo para o alívio do stresse familiar,
ajudando os pais a adaptar--se ao filho real em detrimento do filho imaginado e
amenizando o trauma causado pela hospitalização (Santos et al., 2007). Silva
(2010) dá ênfase ao papel do enfermeiro em reconhecer as necessidades de cada
recém-nascido/família, de modo a estabelecer medidas efetivas de promoção da
vinculação pais/bebé, preparar os pais para a receção da criança em casa,
planeando em conjunto com cada um deles, um plano de cuidados adequado
potencializando a continuidade de cuidados.
Questões de investigação
As questões de investigação que nortearam a nossa pesquisa foram:
' Que experiências marcaram os pais durante a hospitalização do recém-nascido
prematuro?
' Quais os sentimentos vivenciados perante o nascimento antecipado de um filho?
' Como a hospitalização do filho prematuro influenciou a adaptação à
parentalidade?
Metodologia
Tendo em conta as preocupações que nos levaram ao desenvolvimento deste estudo,
a opção metodológica enquadra-se no método de investigação qualitativa,
exploratório-descritiva, de cariz fenomenológica. Firmamos a nossa opção
metodológica em Fortin (2009) ao referir que a utilização do método de
investigação qualitativa tem por objetivo compreender de forma ampla o fenómeno
em estudo, e em Streubert e Carpenter (2002, p. 20), quando afirmam o
propósito da fenomenologia é explorar as experiências vividas pelos indivíduos
e possibilita aos investigadores o enquadramento para descobrir como é viver a
experiência. Assim sendo, centramo-nos nos depoimentos e relatos dos pais
através de entrevistas semi-estruturadas, que foram gravadas em suporte áudio e
posteriormente transcritas e analisadas.
Para a seleção dos participantes recorremos à amostragem não probabilística,
intencional, de forma a conseguir respostas às questões mais específicas e
diferenciadas. Para isso foi necessário criarmos critérios de inclusão,
nomeadamente, os participantes serem pais de recém-nascidos com idade
gestacional inferior a 34 semanas, com mais de um mês de internamento, no
período entre 2010 e 2012. Para obtermos uma amostra mais alargada, que nos
permitisse a saturação dos dados, reportamo-nos aos nascimentos ocorridos nos
últimos dois anos que antecedem este estudo, pois têm-se verificado uma baixa
de nascimentos com repercussões no decréscimo do número de internamentos. A
amostra do estudo foi constituída pelos pais que voluntariamente aceitaram
participar no estudo, sendo oito mães e quatro pais que recorreram à consulta
externa no mês de fevereiro de 2013. Foi obtida a autorização pelo Presidente
do Conselho de Administração do hospital, após parecer favorável da Comissão de
Ética. Todos os participantes firmaram o consentimento informado para
participarem no estudo, depois de explicados os objetivos e garantido o
anonimato e a confidencialidade dos dados. As entrevistas foram realizadas em
ambiente sossegado, livre de perturbações e tiveram uma duração média de 10
minutos.
Para sustentar a compreensão e significado dos dados utilizamos a técnica de
análise de conteúdo, tendo por base Amado (2000), Bardin (2009) e alguns
aspetos referidos por Streubert e Carpenter (2002). Assim, à medida que as
entrevistas foram realizadas e antes da sua transcrição, foi atribuído um
código (M1 a M8 para as mães e P1 a P4 para os pais). De seguida foi realizada
uma leitura cuidadosa do corpo de cada entrevista, seguida de uma releitura por
forma a descobrir os significados e a elaboração das categorias e subcategorias
que iam emergindo. Cada entrevista foi analisada individualmente, já que cada
uma possui uma ideia e opinião válida e sustentada. Ao mesmo tempo, foi nossa
preocupação a anotação minuciosa dos símbolos e significados expressos nas
manifestações verbais e não-verbais, nomeadamente, as citações entre aspas e
blocos de texto destacados para os discursos dos participantes e as reticências
para as pausas. Após este passo, procurou-se apreender as relações essenciais,
tendo sido elaborado um desenho representativo do fenómeno, que foi utilizado
como fio condutor na análise dos dados. Para confirmar e validar este processo,
poderiam ter sido contactados novamente os participantes do estudo e solicitado
que efetuassem a leitura das entrevistas, mas porque percebemos uma forte carga
emocional dos pais ao reviverem o nascimento e hospitalização do seu filho
prematuro e, também, porque realizamos a transcrição integral das entrevistas e
respeitamos totalmente o que os pais disseram e exprimiram, não voltamos a
envolver os pais nesta etapa.
Resultados e Discussão
Os dados obtidos assentam na vivência dos pais e nos acontecimentos que
marcaram a sua vida aquando da hospitalização do seu filho prematuro. Da
análise de conteúdo realizada às entrevistas dos pais, emergiram sete
categorias, subcategorias e indicadores, conforme podemos observar na tabela
que se segue.
Tabela_1
Análise da categoria per se:
Impacto do nascimento prematuro
A primeira categoria impacto do nascimento prematuro revela que os pais, nos
seus discursos, reconhecem que o nascimento de um filho prematuro leva a uma
reestruturação da vida familiar e constitui um marco na vida pessoal/ familiar
destas famílias. A expressão de M6 é bem elucidativa desta categoria: a minha
vida nunca mais voltou a ser igual, nem a minha nem a da minha família (...) Os
planos eram completamente diferentes. Também Fraga e Pedro (2004) referem que
com o nascimento prematuro há toda uma mudança a nível familiar, havendo uma
realidade contraditória que pode dificultar a aproximação entre pais e filhos.
Na mesma ordem de ideias, Tronchin e Tsunechiro (2005) consideram que o
nascimento de um filho traz sempre mudanças tanto a nível da vida pessoal como
da sociedade.
As características físicas do recém-nascido e o ambiente envolvente foram
enfatizadas, pois é marcado o impacto que provocam nos pais que não estavam
preparados para confrontar-se com essa realidade. (...) foi mais ver aquela
coisinha ali pequenina e eu não estava à espera que ela fosse tao pequena (M3,
M7, P2).
Santos et al. (2007) referem também que as características físicas do recém-
nascido impressionam os pais, pois não estão à espera de encontrar um bebé tão
pequeno, por não corresponder às expetativas criadas ao longo da gravidez,
prejudicando a formação do vínculo afetivo entre pais e bebé.
Sentimentos/ emoções dos pais
A expressão dos sentimentos/emoções também são notórios nos relatos dos pais e
revelam o quanto estes pais necessitam de um ambiente que normalize tanto
quanto possível o funcionamento destas famílias, num contexto em que o
enfermeiro cuida do bebé mas também dos pais. Através das suas respostas
verificamos que emergem sentimentos negativos mas também positivos. Há uma
ambivalência de sentimentos nos pais, alternando entre sentimentos negativos
tais como podemos comprovar nas seguintes expressões: cada vez que tinha de
entrar na unidade tinha sempre medo de ver o que ia acontecer (M2); no início
é aquela dúvida se vai sobreviver, se não vai (M3, M8); É uma dor, é uma dor
que passa mas é com o tempo. (M5); parece que nós é que fracassamos, parece
que a culpa foi nossa (...) a gente pensa se calhar foi por minha culpa que ele
nasceu assim (M4). Contudo, sentimentos positivos também são revelados e
podemos constatar nas seguintes expressões: alguma alegria também (M2, M4,
M6, M8, P2, P3, P4); deu um bocado de tranquilidade, fiquei mais calmo,
transmitiu-me confiança (P2). Expressões que traduzem a alegria e a esperança,
tão importantes em momentos de crise.
Centa et al. (2004) concluíram que a família que tem um recém-nascido prematuro
internado passa por momentos de angústia, tristeza e medo, fatores estes que
exigem da Enfermagem uma prática de cuidados humanitários.
Carvalho et al. (2009) verificaram também que os pais com filhos hospitalizados
vivenciam emoções que são traduzidas por medo, angústia, ansiedade, solidão que
se alternam com a fé, a alegria e a esperança.
Parentalidade face à hospitalização de um filho
Com o nascimento de um filho surgem novos papéis para o homem e mulher que
acabam de ser pais, e assumem o papel parental. Com este novo papel existe todo
um reajustamento da vida familiar e das ligações afetivas entre os elementos da
família e este novo membro, o filho, que neste caso surge antecipadamente,
alterando o planeamento dos futuros pais. Se o nascimento do bebé prematuro
exige hospitalização, a ida para casa é adiada e é compreensível o papel
parental comprometido, retratado na categoria parentalidade face à
hospitalização de um filho. Assim, verificamos que a hospitalização interfere
na adaptação à parentalidade pois constitui um impedimento à relação e
vinculação mãe/pai e filho, como evidencia esta mãe: não podíamos agarrar,
tocar, dar beijinhos, abraçar (...) não podíamos fazer o que os outros pais que
tem um bebé normal podem fazer (M1). De facto, perante um filho doente, num
ambiente estranho e exposto à observação dos outros, os pais não têm poder
sobre o cuidar do seu filho e sentem-se inseguros. Na mesma categoria os
achados obtidos reforçam o papel dos enfermeiros nesta área, nomeadamente, no
envolvimento dos pais nos cuidados e na preparação dos pais para cuidar do seu
filho em casa, ao verificarmos que os pais evidenciam os aspetos favorecedores
da vinculação/ relação e o desenvolvimento competências parentais. É relevante
o trabalho dos enfermeiros na aproximação dos pais ao filho através do
incentivo ao toque ou colocar o bebé ao colo. Neste sentido, M6 refere senti
que tinha uma relação forte com ela porque ela sentia que estava no meu colo e
notava que ela acalmava no meu colo que ela gostava do meu colo e eu gostava de
estar com ela ao colo.
A possibilidade de a mãe ficar internada e estar mais próxima do filho ajuda na
vinculação como salienta a participante M7 Se tivesse saído do hospital e ido
para casa (...) provocaria um certo afastamento, não é a mesma coisa que estar
lá e sempre que ... que sentir saudades ou sempre que me apetecer posso lá
estar.
Santos et al. (2007) também verificaram que a separação que existe entre o
recém-nascido e sua família devido ao internamento, faz com que os sentimentos
dos pais se tornem mais intensos.
O toque é outro aspeto favorecedor da vinculação referido por Schmidt, Sassá,
Veronez, Higarashi, e Marcon (2012). É considerado importante tanto para os
pais como para o recém-nascido e é essencial ensinar os pais quando e como
tocar no filho, de modo a favorecer a vivência agradável, além da segurança que
transmite, o toque pode tornar-se num estímulo positivo para a formação da
vinculação.
Acontecimentos marcantes para os pais relacionados com o recém-nascido
Pelo facto do internamento ser muitas vezes longo, na categoria acontecimentos
marcantes para os pais relacionados com o recém-nascido, estes reconhecem a
instabilidade na evolução clínica do prematuro e o que essa situação os afeta.
De facto, os pais, ao observarem as alterações hemodinâmicas, sobretudo quando
existe agravamento do quadro clínico, percebem a vulnerabilidade do seu filho e
atribuem relevo à habilidade que se deve depositar quer nas intervenções
dirigidas ao recém-nascido frágil e imaturo, mas também às habilidades na
comunicação e relações interpessoais e dever ético, aquando da transmissão de
informações sobre o prematuro.
As descrições que os pais fazem das situações consideradas significativas são
por exemplo:
(...) foi no dia a seguir que ela foi operada à cabeça (...) em que ela fez uma
baixa saturação, muito baixa até, eu pensei que ela ia morrer (...) só o facto
do estímulo já era o suficiente para ela baixar a saturação, queria tocá-la mas
ao mesmo tempo não podia (M3);
Ela estava bem, ali... normal e de repente começou a saturação e a frequência
cardíaca a baixar (...) eu a vê-la negra e depois o monitor (...) víamos a
linha da frequência cardíaca, a saturação lá para baixo e a linha da frequência
cardíaca baixava (M6);
(...) o que me marcou mais foi quando chegamos a um ponto em que ele começou a
regredir e não a progredir, portanto quando houve ali uma reviravolta na sua
situação clínica (...) (P1).
A comunicação de más notícias, que está intimamente relacionada com o
agravamento da situação clínica e diagnóstico, é o terceiro indicador mais
enumerado.
O momento do regresso a casa com o recém-nascido também é um acontecimento
marcante por ser algo muito aguardado e desejado, como refere a participante M1
o momento mais marcante é mesmo o da saída. Os acontecimentos marcantes foram
algo que também Tronchin e Tsunechiro (2005) identificaram no seu estudo. Para
eles, os momentos marcantes por vivências negativas estavam relacionadas com as
intercorrências relativas ao estado de saúde do bebé durante o internamento e
também em casa. No entanto, também obtiveram momentos marcantes por vivências
positivas como o desenvolvimento adequado do filho e o momento da alta
hospitalar.
Santos et al. (2007) no estudo que desenvolveram verificaram que o medo é
intensificado e relaciona-se com o facto de o recém-nascido se manter
internado, pelo agravamento do quadro clínico, pela presença de sinais e
sintomas de risco, tudo isto relacionado com o risco de morte e que marca
intensamente os pais.
Apoios recebidos pelos pais
Com a hospitalização do filho, os pais passam muito tempo no hospital deixando
para trás as suas vidas diárias. Esta experiência acarreta grandes alterações
no quotidiano destes pais e eles necessitam de ser apoiados. Os apoios
recebidos pelos pais é testemunhado nos discursos dos pais, sendo preponderante
o apoio recebido por parte dos profissionais. Os pais referem também de forma
positiva o apoio da família, sendo que os profissionais são muitas vezes
considerados como família pelos pais por todo o tempo que passam na unidade e
pela relação que se cria nos internamentos mais longos, tais como evidenciam as
expressões: acabamos por criar uma amizade (...) é como se fosse família (M1,
M3).
Com este apoio os participantes referem que senti--me apoiada, muito apoiada
(M2, M3, M5, M8), e salientam também que sempre explicaram com calma, com
carinho, com atenção, foi muito bom (M7, M8). É de assinalar que ficaram com
boas recordações: de uma maneira geral fomos acarinhados (...) houve
explicações, houve uma atenção, houve uma sensibilidade para aqueles momentos
mais difíceis, (...) tenho muito boas recordações (P2).
O apoio dos familiares foi destacado, o que não nos surpreendeu pois a família
é sempre muito importante nestas situações como podemos confirmar: tive a
minha irmã que me ajudou bastante (...) a minha mãe, os meus pais, o meu
marido (M1), O apoio dos meus pais foi o principal (...) deu forças para
continuar (M2).
O apoio de outros pais e amigos surge com duas enumerações, exemplo disso é
trocando ideias com os próprios pais de outros miúdos que também tiveram/estão
na mesma situação aí ajuda-nos (P1).
Gomes, Trindade, e Fidalgo (2009) referem que o cônjuge é a pessoa de quem mais
a mulher espera apoio incondicional, assim como da família mais próxima e
amigos. No entanto, pelo facto do recém--nascido estar numa unidade fechada com
restrição de visitas, os pais sentem falta do apoio da família e amigos, que
fica colmatada pelo apoio do cônjuge e dos profissionais de saúde que os mantém
informados sobre o estado do filho.
No seu estudo, Inácio (2011) verificou que há uma relação de confiança entre
pais e profissionais, ligada às competências profissionais e que esta foi--se
estabelecendo de tal modo que os pais confiam na equipa de profissionais. Uma
mãe caracteriza mesmo os profissionais como uma família, tal como verificamos
no nosso estudo.
Opinião dos pais face à hospitalização
Na categoria opinião dos pais face à hospitalização verificamos que no geral os
pais sentem-se satisfeitos com os cuidados e serviços prestados na unidade,
comparando-os com um hotel de cinco estrelas (P1). Uma das mães refere: acho
que tem tudo para ser uma boa equipa (M4).
Outra das opiniões interliga-se com as normas do serviço quanto às visitas Eu
acho que não mudava nada, acho que mantinha como está. (...) achei muito bem ao
princípio ser só o pai e a mãe e depois já pude levar outra pessoa, até acho
muito bem pois assim evita complicações (M3). Também outro dos aspectos
salientado foi o poder tirar fotografias, acho que é importante (...) uma
forma de nós também em casa estarmos mais próximos, estar a vê-lo (P2). Todos
os aspetos enunciados revelam o esforço que tem sido dirigido no cuidado
humanizado ao bebé mas também aos pais.
Aspetos institucionais a melhorar
Aspetos institucionais a melhorar é uma outra categoria que não foi descorada
pelos pais e revela a necessidade de se dar maior atenção ao ambiente físico e
recursos materiais da unidade.
Na nossa realidade e de acordo com as sugestões dos entrevistados, seria
importante poder melhorar as condições do alojamento conjunto para proporcionar
aos pais uma experiência agradável e ajudá-los na sua adaptação com o filho.
Tomemos como exemplo este excerto da entrevista: Os quartos das mães serem
mais perto (da unidade) (M7) deveria haver um quarto separado só para
prematuros (...) as próprias enfermeiras do outro serviço, acho que também não
têm essa preparação, sensibilidade para estes casos (referente ao alojamento
conjunto) (P2).
Ficou também patente a necessidade de ter uma unidade maior para criar diversos
espaços, onde os pais pudessem ficar com o filho, sem terem que sair quando
algo acontece a outro bebé que esteja na mesma sala, pela falta de espaço e
condições para manter a total privacidade. P1 refere que seria desejável ter
mais espaço para que os pais estivessem melhor acondicionados (...) o serviço é
um bocado apertadinho (...) o espaço é que eu acho um pouco minúsculo.
Os dados obtidos, na sua maioria, corroboram com outros estudos mencionados e
reforçam a importância de considerar que os pais cujos filhos nascem prematuros
vivem os primeiros dias da vida do seu pequeno filho num ambiente em que a
adaptação à parentalidade está comprometida. A tranquilidade do crescimento e
desenvolvimento do bebé nem sempre é a desejada o que leva estes pais a sentir
a necessidade e a valorizar o apoio dos profissionais e dos familiares.
Acreditamos que a parceria de cuidados é emergente, pois não só promove a
vinculação pais/filho, mas também permite capacitar os mesmos para cuidarem do
seu filho em casa.
Reconhecemos que este estudo se reporta a uma única unidade, o que leva a que
não possamos generalizar estes resultados a outras unidades neonatais. Contudo,
dado que se reporta à única unidade da Região Autónoma da Madeira, podemos
inferir que os resultados obtidos são representativos desta ilha.
Dada a riqueza do discurso dos entrevistados não foi fácil sintetizar toda a
informação recolhida e organizá--la em categorias, subcategorias e indicadores.
Dado que a investigadora integra a equipa de cuidados da unidade onde se
realizou este estudo e no sentido de minimizar algum constrangimento, decidimos
entrevistar os pais após a alta dos seus recém-nascidos. Verificamos que as
mães, comparativamente aos pais, tiveram mais facilidade em verbalizar o que
sentiram e vivenciaram, motivo pelo qual os excertos das entrevistas são
sobretudo de mães.
Conclusão
Cientes da importância de compreender como é que os pais percecionam a vivência
face ao internamento de um RN prematuro, abraçamos este estudo qualitativo que
nos ajuda a identificar os sentimentos vivenciados pelos pais face ao
nascimento antecipado de um filho e a demonstrar a influência da hospitalização
na adaptação à parentalidade.
Face às evidências podemos afirmar que o impacto da hospitalização provoca
sentimentos/emoções ambivalentes, sendo que os sentimentos negativos
predominam, o papel parental está comprometido pela hospitalização, os pais
sentem-se impotentes face às necessidades do recém-nascido, desenrolam--se
acontecimentos marcantes para a vida familiar pela experiência da
hospitalização, o que traduz a exigência de cuidados globais e individualizados
e em que os enfermeiros adoptem o modelo de parceria de cuidados. Cremos que os
cuidados que os enfermeiros oferecem a estes pais ficarão mais enriquecidos com
a partilha e reflexão em equipa dos achados desta investigação. É importante os
profissionais estarem preparados para reconhecerem estes pais como vulneráveis,
proporcionando-lhes segurança, afetividade, atendimento humanizado e
informações precisas sobre o estado de saúde do bebé.
Sentimos que os pais apreciaram esta oportunidade de se lhes dar voz e falarem
sobre as suas vivências, por outro lado, foi nosso intuito ampliar os olhares
sobre esta vivência. Face a esta problemática é possível realizar novos estudos
no sentido da descoberta de outras realidades e contextos em unidades de
cuidados intensivos neonatais do país, a fim de comparar resultados. Conhecer a
perceção dos enfermeiros sobre a vivência dos pais é também uma nova
investigação que nos parece pertinente e que contribuiria para sensibilizar os
profissionais de saúde sobre esta matéria. Seria ainda interessante a avaliação
do processo de capacitação e empoderamento dos pais de filhos prematuros, no
sentido de contribuir para potenciar e sistematizar acções, atitudes e recursos
da unidade.