Preservação da privacidade em hemodiálise: perceção dos enfermeiros
Introdução
A evidência demonstra que os enfermeiros se encontram, inevitavelmente, numa
posição que pode influenciar a preservação da privacidade, pelo que esta deve
ser uma componente imprescindível do seu agir profissional. Este facto sustenta
a pertinência de atuar para que a privacidade seja preservada, constituindo-se
assim, como um valor ético no cenário das unidades de hemodiálise, dependente
do esforço e dedicação dos enfermeiros aquando da prestação de cuidados (Soares
& Dall´Agnol, 2011).
Estudos efetuados recentemente salientam que o cuidado prestado em unidades de
hemodiálise é direcionado essencialmente para aspetos de carácter físico,
orgânico e biológico, como o controle e manutenção das funções vitais, com
ênfase na utilização de tecnologias e aplicação de conhecimento técnico-
científico, visando a manutenção da vida. Apesar da equipa de Enfermagem ter a
atenção voltada para o doente e para o seu tratamento hemodialítico, sendo a
responsável, quase que exclusivamente, por todos os procedimentos técnicos,
muitas vezes ignora a outra vertente, humana e relacional, das pessoas que
vivenciam a sua condição de doente, particularmente na sua privacidade (Baggio,
Pomatti, Bettinelli, & Erdmann, 2011; Frazão, Ramos, & Lira, 2011;
Moura, 2006).
Nesta sequência desenvolveu-se um estudo que objetivou descrever a perceção dos
enfermeiros sobre a preservação da privacidade do doente durante o tratamento
hemodialítico e analisar as diferenças tendo em conta as variáveis
sociodemográficas e o tempo de serviço.
Enquadramento
A preocupação com a privacidade dos utentes tem sido objeto de estudo,
discussão e reflexão ao longo da história. Os relatos históricos apontam
Hipócrates como um dos pioneiros na formulação de princípios e leis que visavam
a protecção dos direitos de privacidade dos utentes pelos profissionais de
saúde. A ética de Hipócrates destaca-se no Juramento Hipocrático, considerado
como fundamento para a origem da ética dos profissionais de saúde (Soares &
Dall´Agnol, 2011).
Tendo em conta que a privacidade, enquanto direito universal do Homem, no campo
legal é considerada uma propriedade intangível protegida pela lei, a sua
invasão é considerada um tipo de delito semi-intencional que implica a violação
do direito da pessoa à mesma (Martins, 2009).
Enquanto direito individual, a privacidade contempla a proteção da intimidade,
respeito à dignidade, limitação de acesso ao corpo, aos objetos íntimos e aos
relacionamentos familiares e sociais.
Muito embora a vida privada ou a privacidade da pessoa esteja consignada na
Constituição da República Portuguesa nos artigos 26.º e 64.º, no Código
Deontológico, nos Direitos do Homem e na Carta dos Direitos dos Doentes
Internados, é facilmente assaltada por uma diversidade de flagelos.
Segundo o International Council of Nurses, relativamente ao respeito pelos
direitos humanos e à manutenção da dignidade, são definidos objetivos éticos da
relação enfermeiro/doente, sem discriminação de raça, idade, religião, doença
ou incapacidade, género ou estatuto político, social ou económico (Lin &
Tsai, 2010).
A evidência científica, no que concerne aos contextos de atendimento à saúde,
foi objeto de estudo de vários autores, os quais apontam preocupações
relacionadas com a dimensão ética do cuidado, com a possibilidade de violação
da intimidade dos sujeitos, bem como com a violação de segredos e confidências
obtidas na relação enfermeiro/doente (Baggio et al., 2011; Maia & Silva,
2009; Soares & Dall`Agnol, 2011).
Os doentes são pessoas com o seu próprio estilo de vida, atribuindo um valor
muito próprio à privacidade, daí a necessidade do enfermeiro compreender o
doente na sua globalidade. De facto, os enfermeiros são aqueles que, sob as
mais variadas formas, têm o privilégio da aproximação e contacto com os
doentes, tendo grande responsabilidade na preservação da privacidade nos
cuidados.
Apesar do empenho dos profissionais no sentido de suavizar este cuidado, por
vezes constitui-se como uma tarefa difícil de se alcançar nesse ambiente,
requerendo atitudes em que sejam respeitadas a privacidade, a individualidade e
a dignidade dos doentes (Ribeiro, 2008).
Neste sentido, cuidar passa por respeitar a privacidade do outro, por não
invadir o seu território íntimo e por aceitar todas as formas de vivenciar o
seu pudor. Sendo assim, é importante que a compreensão, a aceitação, o
estímulo, o carinho e o respeito estejam presentes em todos os atos. Cuidar
requer que as pessoas se envolvam com atitude de respeito pela individualidade
de cada um, aliada à humanização e comunicação, enquanto ideias morais dos
enfermeiros (Morais, 2009), procurando proteger, melhorar e preservar a
dignidade humana (Watson, 2002).
Ninguém duvida adjetivar como cuidado de qualidade aquele que tem as premissas
orientadoras de ser integral, universal, equitativo e humanizado. De uma forma
recorrente, as investigações efetuadas por enfermeiros definem humanismo como
ação solidária e atitude de ajuda ao outro, ou seja, usar da nossa humanidade
para cuidar da humanidade do outro (Corbani, Brêtas, & Matheus, 2009).
O conceito de humanização conta com um acúmulo de representações no campo da
saúde e enfoca entre vários aspetos, as dimensões éticas do cuidado e a
importância da comunicação no processo terapêutico comprometido com a vida e os
direitos dos doentes (Deslandes & Mitre, 2009). Segundo o mesmo autor,
destes consideráveis desafios, destacamos o de ordem comunicacional, como um
processo muito mais amplo que nos constitui como seres humanos, como seres
sociais de linguagem, capazes de denotar/conotar, explicar/confundir,
autorizar/desautorizar e consentir/proibir.
Ao falarmos do processo comunicacional no contexto das unidades de hemodiálise,
referimo-nos à expansão de uma competência comunicativa que constitui a base de
um cuidado e gestão emancipadores, onde os diferentes atores se reconhecem e se
implicam.
Além disso, o tempo continuado que o doente permanece nas unidades de
hemodiálise, devido ao tratamento instituído três a quatro vezes por semana,
durante quatro horas, favorece a criação do processo comunicativo, mais próximo
devido à sua situação de doença crónica.
A comunicação converte-se, desta forma, como um dos eixos centrais, que deve
ser considerado não só como um ato humanizador, mas também como um fator
decisivo para a prestação de cuidados de Enfermagem de excelência nas unidades
de hemodiálise (Londoño, 2009).
Questões de Investigação
Qual a perceção dos enfermeiros sobre a preservação da privacidade do doente
durante o tratamento hemodialítico?
Qual a influência das variáveis sociodemográficas e tempo de serviço na
preservação da privacidade?
Metodologia
No sentido de se alcançarem os objetivos, optámos por um estudo quantitativo,
descritivo e exploratório.
A população sobre a qual incide este estudo é de aproximadamente 1200
enfermeiros a desempenharem funções nas clínicas privadas de hemodiálise de
Portugal. A amostra foi constituída por 452 enfermeiros, tendo sido definidos
os seguintes critérios de inclusão: ser profissional de saúde (enfermeiro) a
exercer funções em unidades de hemodiálise e aceitar de livre vontade
participar no estudo.
Deste modo, para a realização deste estudo foi utilizada uma amostragem não
probabilística, intencional, no sentido de homogeneizar os cuidados de
Enfermagem, tendo em conta a privacidade do doente.
Os dados do estudo foram colhidos através da aplicação da Escala de preservação
da privacidade no cuidar em hemodiálise (EPPCH), validada pelas autoras,
constituída por três partes. Na primeira, incluem-se as características
socioprofissionais dos inquiridos das quais constam as variáveis: sexo, estado
civil, anos de serviço em Enfermagem, anos de experiência no atual serviço e
categoria profissional. A segunda parte contempla duas subescalas constituídas
por 24 itens em que a primeira pretende avaliar o grau de importância atribuída
pelos inquiridos, na preservação da privacidade dos doentes durante a prestação
de cuidados em hemodiálise, através de uma escala tipo likert de 1 a 7, em que
1 corresponde ao «menos importante» e 7 corresponde ao «mais importante»; a
segunda escala (EFPPCH) avalia a frequência em que os itens são colocados em
prática pelos inquiridos na preservação da privacidade dos doentes durante a
prestação de cuidados em hemodiálise, através de uma escala de likert de 1 a 5,
em que 1 corresponde a «nunca» e 5 corresponde a «sempre». Em cada uma das
subescalas são consideradas as dimensões: i) espaço físico (α=0,762); ii)
exposição corporal (α=0,807); iii) humanização dos cuidados (α=0,765); iv)
comunicação (α=0,814); e v) a caraterização sócio-demográfica (sexo; idade;
estado civil; habilitações académicas; profissão; e tempo de serviço).
Os dados do estudo foram colhidos entre março e abril de 2013.
Antes de iniciar a colheita de dados, foi solicitada a autorização às direções
das clínicas privadas de hemodiálise, bem como o consentimento informado e
esclarecido aos enfermeiros.
A análise estatística dos dados foi realizada através do programa Statistical
Package for the Social Sciences, versão 17.0, para Windows. Para realçar e
sistematizar a informação fornecida pelos dados, recorremos a técnicas de
estatística descritiva através de medidas de tendência central e de dispersão,
assim como à análise percentual. Na análise inferencial empregou-se o teste de
Student e a correlação de Pearson para a comparação dos resultados por sexo e
verificação da relação entre itens, respetivamente (Marôco, 2010).
Resultados
Participaram no estudo 452 enfermeiros, com uma idade média de 36,2 anos ± 9,3
anos (mínimo=22; máximo=61), sendo 64,8% (n=293) do sexo feminino. A mediana
indica-nos que pelo menos 51,1% (n=231) da amostra tem menos de 34 anos e a
idade mais frequente é de 27 anos. A maioria dos inquiridos é casada ou vive em
união de facto (57,5%; n=260) e o equivalente a 33,8% (n=153) é solteiro.
Constata-se que a preservação da privacidade do doente na prestação de cuidados
em hemodiálise é considerada, no geral, muito importante, dado que a média de
todos os itens é superior a 6. Destaca-se que a comunicação é a dimensão mais
valorizada entre profissional de saúde e o doente (m=6,6; dp=0,5) e a média
mais baixa corresponde à exposição corporal do doente (média de 6,2 ± 0,6).
Na comparação das dimensões da preservação da privacidade, entre os sexos,
observa-se que as mulheres apresentam valores superiores no total desta
subescala (t=2,194; p=0,045) sobretudo nas dimensões da humanização dos
cuidados (t=2,342; p=0,020) e comunicação (t=3,436; p=0,001), com diferenças
estatisticamente significativas (Tabela_1).
Relativamente à comparação da subescala da frequência da preservação da
privacidade do doente (Tabela_2) observa-se que o sexo feminino apresenta
valores significativamente superiores na dimensão da comunicação (t=2,477;
p=0,014).
Na Tabela_3, apresentam-se os dados relativos à correlação de Pearson quanto à
importância da preservação da privacidade, verifica-se que o tempo de serviço e
o tempo de experiência em hemodiálise não apresentam relação significativa com
as dimensões em estudo. Por outro lado, a idade dos participantes apresenta uma
associação negativa e significativa com a humanização dos cuidados e com a
comunicação (r=-0,289; p=0,019 e r=-0,269; p=0,025).
No estudo da associação entre estas variáveis e a frequência da preservação da
privacidade do doente (Tabela_4) constata-se que o seu valor total se associa
positivamente com a idade (r=0,209; p=0,044), indicando que o aumento da idade
corresponde a maior frequência de preservação da privacidade.
Os anos de serviço na profissão correlaciona-se significativamente com a
dimensão da exposição corporal (r=0,251; p=0,026). Paralelamente, os anos de
experiência no serviço de hemodiálise associa-se à dimensão exposição corporal
(r=0,356; p=0,007) e ao total da subescala (r=0,199; p=0,035) sugerindo que,
consoante aumenta a experiência no serviço de hemodiálise, maior a frequência
da preservação da privacidade do doente, em particular da exposição corporal.
Discussão
Do estudo da perceção da preservação da privacidade do cuidar em hemodiálise
constata-se que as mulheres valorizam frequentemente a comunicação, atribuindo
mais importância à humanização, o que parece estar relacionado com o legado
histórico atribuído à mulher enquanto promotora do cuidar (Queirós, 2005).
Desde sempre a mulher assumiu o cuidar de todos os aspetos da vida quotidiana,
mulher - mãe, mulher - religiosa, mulher - enfermeira, assegurando um conjunto
de cuidados que pressupõem, não só a garantia das funções vitais, bem como ao
nível de outros domínios do ser enquanto pessoa.
A humanização deve ser perspetivada como um fim em si mesma, constituindo um
meio de excelência para se evidenciar o bem cuidar (Corbani et al., 2009).
Segundo o mesmo autor, esta corresponde à essência humana, dotando-o de
dignidade e conferindo-lhe uma visão ontológica.
De salientar ainda a existência de uma estreita relação entre a promoção da
privacidade e a comunicação assertiva, na medida em que a comunicação tanto é
um veículo para o estabelecimento de uma relação terapêutica, como um meio que
permite influenciar o comportamento do outro (Ruiz, Martins, & Borrego,
2014). Neste âmbito, para se fomentar a privacidade no cuidar, reveste-se de
grande importância a promoção de uma comunicação efetiva como instrumento
básico no processo do cuidar em Enfermagem (Morais, 2009).
Com o aumento da idade, os enfermeiros tendem a reduzir a importância atribuída
a estas dimensões, o que parece estar associado à relativização dos cuidados,
ou mesmo à não otimização da experiência acumulada (Benner, 2005; Queirós,
2005). Paralelamente, o aumento dos anos de serviço na profissão associa-se a
uma maior frequência de preservação do doente, em particular da exposição
corporal (r=0,251; p=0,026).
Face à crescente exigência do atual contexto socio-económico, denota-se que os
profissionais tendem a focar o sucesso das suas intervenções no tecnicismo e
sua eficiência (Delbrouck, 2006). Atendendo a que as pessoas são sempre o
elemento que faz a diferença, devemos apostar num cuidar personalizado,
honrando a ética profissional que prese a dignidade, tendo em conta o
consagrado nos direitos e deveres dos doentes, da legislação em vigor
(nomeadamente da Constituição da República Portuguesa, nos artigos 26.º e 64.º
e no Plano Nacional de Saúde).
Além da preocupação de várias entidades e organismos em torno da humanização
dos cuidados, impõe-se uma maior mobilização estratégica de ações individuais
que se repercutam a nível de políticas. Como limitações deste estudo, refere-se
o facto de os nossos dados se reportarem à perceção dos enfermeiros,
justificando-se o desenvolvimento de mais investigação para que a compreensão
deste fenómeno possa contribuir, de forma significativa, para a disciplina de
Enfermagem. Sendo de referir ainda o facto de se utilizar uma amostra não
probabilística, intencional, que limita a generalização dos dados, embora a
dispersão dos participantes justificasse este método. Por último, apontamos que
as perspetivas estão relacionadas com uma área de Enfermagem específica,
sujeitas a influências sociais internas e externas perante a conjuntura atual.
Conclusão
De acordo com os nossos resultados observa-se que todas as variáveis se
relacionam significativamente entre si e que têm uma associação positiva entre
elas. De uma forma geral, o sexo feminino atribui maior importância à
humanização dos cuidados e à comunicação, valorizando frequentemente esta
última dimensão. Com o aumento da idade, os enfermeiros tendem a reduzir a
importância atribuída a estas dimensões existindo, no entanto, maior frequência
de preservação da privacidade.
O aumento dos anos de serviço, bem como a experiência no serviço de
hemodiálise, associa-se a maior frequência da preservação da privacidade do
doente, em particular da exposição corporal.
Reconhecida a importância da avaliação da privacidade do cuidar em hemodiálise,
como um indicador de excelência dos cuidados de saúde, a divulgação destes
resultados possibilitará a mudança de atitudes e consequente melhoria das
competências dos enfermeiros de hemodiálise.