Modernidade japonesa: a primeira modernidade múltipla não ocidental
O SISTEMA POLÍTICO JAPONÊS MODERNO: UMA ANÁLISE COMPARADA
I
Neste artigo, considerando a estrutura analítica das múltiplas modernidades,
analisamos algumas características distintivas do moderno sistema político e
social japonês1.
A hipótese básica da abordagem das múltiplas modernidades é a de que as ordens
institucionais modernas de modernidade (as quais se desenvolveram com a
institucionalização das ordens culturais e políticas da modernidade) não se
desenvolveram de modo uniforme ao redor do mundo - contrariamente aos
pressupostos das teorias clássicas de modernização dos anos 1950 e até mesmo
dos clássicos mais antigos da sociologia, como Spencer e, em certa medida,
Durkheim, que predominavam mesmo na época de Weber. Antes, desenvolveram-se em
padrões múltiplos, em modelos de múltiplas modernidades continuamente
cambiantes. Isso pode ser observado já no que diz respeito à dimensão central
do programa político da modernidade - quer dizer, a propagação do protesto.
Os discursos de justiça e os mecanismos políticos de mudança de regimes diferem
entre as sociedades modernas de acordo com seus contextos culturais. A antiga
indagação de Sombart (1976), "por que não há socialismo nos Estados Unidos?",
formulada na primeira década do século XX, é talvez o primeiro reconhecimento
dessa variabilidade nos movimentos característicos de protesto em diferentes
sociedades modernas - uma variabilidade que se tornou ainda mais visível ao se
olhar para países como Japão e Índia ou para as sociedades muçulmanas. Em todas
essas sociedades, desenvolveram-se padrões ideológicos e institucionais
modernos, e movimentos de protesto que, embora compartilhassem dessas
orientações básicas, diferiam bastante do "original" europeu e um do outro.
Tudo isso comprovava a heterogeneidade dentro do projeto moderno; ou, em outras
palavras, o desenvolvimento contínuo de modernidades múltiplas e cambiantes.
II
É especialmente importante para a análise das modernidades múltiplas
continuamente cambiantes que tais padrões distintivos de modernidade,
radicalmente diferentes do "original" europeu, se cristalizaram não somente em
sociedades não ocidentais mas também em sociedades que se desenvolveram dentro
da estrutura das várias grandes civilizações - muçulmana, indiana, budista ou
confuciana - sob o impacto da expansão europeia e em seu posterior confronto
com o programa europeu da modernidade. Também evoluíram - na verdade, acima de
tudo -, dentro da estrutura da expansão ocidental, em sociedades em que
aparentemente estruturas institucionais puramente ocidentais surgiram nas
Américas. Às vezes se presumia que padrões europeus da modernidade se repetiam
nas Américas, mas agora está claro que os Estados Unidos, o Canadá e a América
Latina se desenvolveram de forma diferente desde o começo. De fato, por toda a
América podemos encontrar a cristalização de novas civilizações, e não apenas,
como sugeria Hartz (1964), "fragmentos" da Europa. Nessas estruturas
institucionais e culturais ocidentais, originadas e trazidas da Europa,
desenvolveram-se não somente variações locais do modelo, ou modelos europeus,
mas padrões institucionais e ideológicos radicalmente novos. É bem possível que
essa tenha sido a primeira cristalização de novas civilizações, desde as
"civilizações axiais", e também a última até o momento. A cristalização de
diferentes modernidades nas Américas - e é fato que Weber percebera isso em sua
análise da experiência norte-americana - atesta que, mesmo dentro da abrangente
estrutura da civilização ocidental, independentemente da forma como ela é
definida, se desenvolveu não somente um, mas múltiplos programas culturais e
padrões institucionais de modernidade2. Isso foi, obviamente, ainda mais claro
nas ordens institucionais que se desenvolveram além do Ocidente.
III
Um dos estudos de caso mais interessantes da cristalização de programas
diferentes de modernidade além do Ocidente é o Japão (Eisenstadt, 1996), não só
do ponto de vista do estudo comparativo de sociedades modernas mas também do
ponto de vista mais geral das distinções analíticas e empíricas entre as
dimensões estruturais/organizacionais e culturais da atividade humana e da
constituição da ordem moderna.
Enquanto, em termos puramente estruturais/organizacionais, a sociedade moderna
japonesa conseguiu grandes realizações e critérios universalistas, esses
critérios caminharam junto com uma orientação/ambiente fortemente imanentista e
foram inseridos (embedded) num ambiente social particularista - uma combinação
que se havia cristalizado já na Restauração Meiji.
A diferença do caso japonês vem antes do fato de que foi quase a única
sociedade asiática que, sob o impacto da expansão oriental, não só se manteve
independente - a Tailândia também -, mas se tornou um importante ator na nova
cena internacional moderna. O Japão se tornou bastante independente ao
desenvolver e promover um programa distinto de modernidade - e, ao mesmo tempo,
transformou-se muito rapidamente, de acordo com o modelo do Estado-nação
ocidental e da economia capitalista - que fez surgir algumas características
marcantes que o diferenciaram daquele modelo; algumas formas bem distintas de
lidar com o problema da relação de sua modernidade com a modernidade ocidental.
Além disso, dentro da estrutura de análise do desenvolvimento das múltiplas
modernidades, o Japão constitui talvez o paradoxo mais importante, e a essência
disso está no fato de que, embora tenha sido a primeira e, até recentemente, a
única modernização não ocidental totalmente bem-sucedida, tenha surgido de uma
civilização não axial - uma civilização que não poderia ser vista, em termos
weberianos, como uma Religião Grande ou Mundial.
A análise de Weber sobre as raízes civilizatórias do capitalismo, como é
sabido, fez parte de sua sociologia da religião comparada. Tal análise se
baseou na premissa de que, em todas as Grandes Religiões que Weber estudou,
estavam presentes as potencialidades estruturais e culturais para o
desenvolvimento do capitalismo, mas apenas no Ocidente essas potencialidades
deram fruto. Em outras Grandes Religiões ou Civilizações - mais tarde chamadas
de civilizações axiais -, essas potencialidades foram evitadas pela específica
combinação hegemônica dos componentes estruturais e culturais que se
desenvolveram nelas - sobretudo as características do confronto entre
ortodoxias e heterodoxias ou sectarismo. É verdade que Weber lidou apenas com a
emergência do primeiro e original capitalismo, e não com sua expansão. Contudo,
mesmo nessa estrutura, o paradoxo do Japão - uma civilização não axial que se
tornou a primeira sociedade não ocidental totalmente moderna - se destaca.
As explicações para esse fato paradoxal na literatura acadêmica costumam focar
algumas características estruturais da sociedade Tokugawa que, em muitos
sentidos, são bem semelhantes àquelas atribuídas à industrialização europeia,
como desenvolvimento do pluralismo estrutural e institucional; multiplicidade
de centros de poder econômico; colapso de estruturas ecológicas restritas e
segregadas; abertura da estrutura familiar, especialmente no setor rural, o que
gerou muitos novos recursos; e mais do que uma mercantilização incipiente, mas
muito extensa e atravessando várias áreas. Também tiveram importância os altos
níveis de alfabetização e de urbanização, e a extensa integração econômica3.
Além disso, as similaridades básicas entre o Japão moderno e a Europa podem ser
vistas no fato de que tanto no Japão como na Europa algum tipo de estado
moderno constitucional se desenvolveu depois de um evento ou processo
revolucionário - a Meiji Ishin, a chamada Restauração Meiji de 1868, que
inaugurou a era moderna. A cristalização desse estado se caracterizou por
muitos traços que têm sido fundamentais na formação dos estados europeus
modernos - isto é, o estabelecimento de um novo tipo de Estado-nação moderno,
um regime autocrático-constitucional aparentemente parecido com o que se
estabeleceu, por exemplo, na Alemanha Imperial, e um processo de transição
relativamente rápido para uma economia política capitalista, com o concomitante
processo de urbanização e de industrialização.
Os acontecimentos no Japão nesses períodos podiam ser, e geralmente o eram,
comparados com outros semelhantes ou paralelos em sociedades modernas
(especialmente europeias) - constitucionais, autoritários ou totalitários. Os
acontecimentos no período Taisho têm sido comparados com o estabelecimento de
regimes democráticos e liberais na Europa; o regime militar pode ser comparado
com os fascistas totalitários em países europeus; e, no período pós-Segunda
Guerra Mundial, com o estabelecimento de regimes democráticos e constitucionais
plenos em sociedades da Europa Ocidental ou dos Estados Unidos.
Dada essa semelhança estrutural nas "causas" da modernização e da
industrialização entre a Europa Ocidental e o Japão, bem como nos padrões
institucionais gerais do Estado japonês moderno, o Japão apresenta um dos casos
ou exemplos mais fortes de múltiplas modernidades - manifestando-se, acima de
tudo, no fato de que, apesar de todas essas semelhanças, mudanças contínuas e
cristalizadas em padrões de modernidade econômicos, políticos e culturais
distintos têm continuamente sido marcadamente diferentes de seu original
ocidental em relação à maioria de seus componentes centrais, como a composição
de sua identidade coletiva, as premissas de autoridade e ordem política, e a
própria concepção de modernidade e seus contornos e dinâmicas institucionais
básicos.
As raízes da modernidade distintiva que surgiu no Japão devem ser encontradas
(como foi o caso na cristalização de todas as modernidades, começando pela
europeia e passando pela americana) na combinação entre o programa cultural
distinto de modernidade, a distinta interpretação do programa cultural moderno
que tomou forma nela e as experiências históricas dessa sociedade - não só em
sua era pré-moderna mas também e, acima de tudo, em seu encontro com a
modernidade ocidental expansionista e a incorporação do Japão em sistemas
internacionais novos e emergentes em política, economia e cultura.
O PROGRAMA CULTURAL JAPONÊS DE MODERNIDADE
IV
As características distintivas das premissas básicas da ordem política japonesa
moderna e de sua consciência coletiva - que são, como foi o caso com as
Américas, o núcleo da distinção da modernidade japonesa - estão estritamente
relacionadas, na verdade, enraizadas, na concepção distinta da modernidade que
se desenvolveu no contexto do programa de modernidade que se cristalizou no
Japão, e isso o distingue de forma radical de seus correspondentes europeus e
americanos.
Dentro do programa cultural da modernidade que se cristalizou na Meiji Ishin, a
modernidade foi definida no Japão como "acompanhar os tempos", adaptar-se aos
tempos, significando o domínio da tecnologia ocidental e a busca por seu lugar
apropriado na arena internacional. "Acompanhar os tempos" foi definido como o
veredicto do movimento da história. Tal movimento, porém, não foi definido como
no Ocidente, com suas raízes cristãs, ou como em outras civilizações, em termos
de progressão histórica, como um processo histórico definido ou medido por
critérios, valores ou visões transcendentais e universalistas, isto é, em
termos considerados além da realidade mundana existente, mas sim como um ajuste
intensivo, uma apropriação até, do movimento do tempo.
Estritamente relacionada com a essência do discurso japonês da modernidade foi
a contínua dissociação entre Zweckrationalitåt (racionalidade instrumental) e
Wertrationalitåt (racionalidade orientada para valores), com uma tendência
muito forte de enaltecer realizações instrumentais e tecnológicas de forma
tecnocrática. Uma das mais recentes dessas manifestações tem sido a ênfase na
informação como o fundamento de uma nova ordem societal, a sociedade da
informação, da qual o Japão é um precursor. Também pode se desenvolver uma
negação aparentemente total dessa Zweckrationalitåt em nome de uma
espiritualidade japonesa pura ou "natural", mas com pouca discussão sobre a
relação dessa racionalidade instrumental com uma Wertrationalitåt diferente, ou
o discurso de diferentes Wertrationalitåten. Simultaneamente, desenvolveu-se,
no nível do discurso ideológico, relativamente pouca avaliação autônoma e
crítica - por grupos diferentes de intelectuais - dos acontecimentos concretos
da sociedade moderna que se desenvolveu no Japão, o que poderia nortear
programas políticos concretos.
Ao mesmo tempo, as antinomias básicas da modernidade e as contradições e
tensões internas que surgiram se desenvolveram de forma distinta no Japão.
Enquanto essas antinomias e contradições, da forma como foram formuladas pelo
discurso ocidental, foram reconhecidas e resolvidas, num nível intelectual, em
discurso intelectual ou acadêmico, esse discurso não se transformou, pelo menos
não totalmente, numa autônoma ação intelectual e político-social contínua e
combinada. Mesmo no nível intelectual, as tensões entre os diferentes
componentes gnósticos, ctônicos e universalistas do programa cultural da
modernidade foram silenciadas pelo agrupamento de seus componentes
universalistas. Acima de tudo, quase nenhuma dessas orientações intelectuais
levou à cristalização de concepções alternativas de ordem política baseada ou
enraizada em critérios fora ou além da ordem ou da realidade existente.
Isso pode ser visto no destino do regime liberal Taisho dos anos 1920, bem como
no do regime militar nos anos 1930 - especialmente na diferença entre este e os
regimes fascistas ou totalitários europeus. Por mais forte que fosse a intenção
do grupo Taisho em abrir a mais fechada e restritiva ordem Meiji - sua
ideologia não era um liberalismo baseado em princípios enraizados em visões
transcendentais de individualismo -, eles não foram capazes de superar algumas
das premissas básicas dessa ordem. Em comparação, a tendência rumo à democracia
totalitária e a ideologização do Estado-nação que se desenvolvia na Europa
eram, não em pequeno grau, enraizadas no pano de fundo específico da Europa.
Essa tendência era estritamente relacionada à prevalência, em todas as
civilizações monoteístas, de uma percepção da arena política como uma das
principais arenas de resolução das tensões ou de superação do vácuo entre as
ordens transcendental e mundana e o desenvolvimento (estritamente relacionado)
do estado como uma entidade distinta. A ausência da consciência desse vácuo ou
de tensões no Japão ajuda a explicar as diferenças entre o regime autoritário
japonês dos anos 1930 e o fascismo e o totalitarismo europeus4, bem como
aquelas entre as tendências liberais do regime Taisho e os europeus eruditos.
O PROGRAMA CULTURAL JAPONÊS DE MODERNIDADE E AS CARACTERÍSTICAS BÁSICAS DO
MODERNO ESTADO JAPONÊS E A SOCIEDADE CIVIL
V
Foi o distintivo programa cultural de modernidade - enraizada em ontologias não
axiais e imanentistas prevalecentes no Japão - que influenciou fortemente,
talvez até tenha guiado, a consciência coletiva japonesa moderna, o Estado
Meiji e, mais para a frente, o desenvolvimento da sociedade japonesa moderna.
Isso explica, pelo menos até certo ponto, as características específicas das
formações institucionais principais do Japão moderno e a estrutura e a
orientação dos movimentos de protesto que nelas se encontram.
A distinção da modernidade japonesa é claramente perceptível, em primeiro
lugar, nas premissas básicas de identidade e consciência coletiva que foram
promulgadas no Japão moderno e estritamente entrelaçadas com o modo de
legitimação do novo regime Meiji ou, para acompanhar a formulação de Davis
(1976), com a distinta ideologia ou teologia cívica ou civil promulgada pelas
principais elites desses regimes. O estabelecimento de tal ideologia ou
teologia civil buscava - como no processo paralelo na França pós-revolucionária
e, depois, na Rússia pós-revolucionária - formar uma nova consciência nacional,
converter, como na frase de Weber (1976), "camponeses em franceses" - no caso,
em japoneses. Aqui, no entanto, algumas das características específicas da
construção da moderna nação japonesa chamam a atenção.
Aparentemente, o Japão pode ser visto como o Estado-nação modelo, porque, de
uma forma ou de outra, o estado sempre se identificou com a identidade
"cultural" coletiva japonesa. Contudo, mesmo que a concepção de comunidade
nacional tenha sido grandemente influenciada por noções ocidentais de
nacionalismo, ela foi formulada na ideologia do regime Meiji de maneira
diferente dos Estados-nações ocidentais, assim como o modo específico de
identidade coletiva japonesa evidenciou diferenças significativas em relação às
premissas do Estado-nação europeu.
Ao contrário da maioria das ideologias ocidentais nacionais ou nacionalistas
modernas, a distinção da coletividade japonesa moderna não foi formulada em
relação a alguma religião ou civilização universal da qual fizesse parte, como
no caso dos movimentos nacionalistas europeus radicais, ou a que pudesse às
vezes até negar. Antes, essa distinção foi fundada nas concepções da kokutai -
essência ou comunidade nacional japonesa - desenvolvidas pelas escolas
nativistas do período Tokugawa, que estavam enraizadas em formulações mais
antigas, mesmo que fracas, que definiam a nação japonesa como um tipo único de
coletividade sagrada, natural e primordial. A constituição da consciência
coletiva japonesa foi estabelecida em termos primordiais, sagrados e naturais -
com uma ênfase restaurativa muito forte - que estavam estritamente vinculados à
figura do imperador, que se tornou uma figura meio mítica, captando a essência
do novo sistema político japonês5. Mesmo quando havia referências a "outras
civilizações" - à confuciana ou à budista no período Tokugawa; ou ao Ocidente
no período Meiji -, essas referências não significavam a participação total
na construção universal mais ampla. Ao contrário da Europa, onde a constituição
de ideologias nacionais geralmente implicava fortes tensões entre orientações
universalistas e particularistas, e entre orientações religiosas universalistas
ou primordiais, a ideologia da kokutai não desenvolveu tais tensões a
princípio. No máximo, essa ideologia enfatizou que a nação japonesa, por
virtude de suas qualidades primordiais e sacras, captava, num grau mais alto do
que qualquer outra civilização, essas mesmas virtudes que foram enaltecidas
pelas outras civilizações, a chinesa antigamente e a ocidental na era moderna.
Os principais componentes desse modo de identidade coletiva cultural, de
consciência coletiva, eram as primordialidades de princípio, combinadas com
elementos mais fracos de civilidade.
A moderna identidade coletiva nacional que se cristalizou no Japão moderno
tinha fortes raízes na experiência histórica japonesa. Dois fatos estritamente
interconectados são importantes aqui. A identidade política e nacional, ou
étnica, ou a consciência coletiva, concebida em termos sagrados e primordiais,
desenvolveu-se cedo na história japonesa - mesmo que essa consciência tenha
sido limitada e restrita por longos períodos a grupos de elite da sociedade
mais ampla - e não era um ponto de contínua contenda política ou ideológica
interna. O cerne dessa concepção de identidade coletiva se cristalizou
relativamente cedo, provavelmente no século VIII, advindo do encontro do Japão
com outras sociedades e civilizações (budismo e confucionismo) - especialmente
axiais - e suas premissas universalistas.
No entanto, o resultado do encontro japonês com civilizações axiais foi o
estabelecimento de um modo de identidade coletiva distinta da dos coreanos ou
vietnamitas, os quais também sofreram bastante pressão budista e confuciana. Ao
contrário desses últimos, considerando que as identidades "nacionais" locais se
agrupavam, pelo menos em princípio, sob ampla identidade confuciana e budista,
o Japão reagiu a esse encontro com uma recusa principista dessas orientações
universalistas e uma simultânea ênfase principista em elementos primordiais.
Mesmo que o desenvolvimento dessas orientações tenha sido fortemente
influenciado por seu encontro com a civilização budista e confuciana chinesa, a
maior parte das elites japonesas se recusou a lidar com os problemas do
relacionamento de seus símbolos "étnicos" primordiais para a condição de membro
de tais civilizações universalistas. O confronto com ideologias universalistas
foi aparentemente resolvido pela negação dessas ideologias, e não pela
tentativa de especificar sua importância relativa em comparação às primordiais.
Um padrão semelhante e estritamente relacionado se desenvolveu a respeito da
definição das relações da coletividade japonesa com outras coletividades.
Muitos intelectuais, elites ou influentes japoneses também sentiram agudamente
a necessidade de definir a relação da nação japonesa com as outras,
especialmente com a chinesa. Os conceitos de coletividade japonesa que se
desenvolveram em muitos períodos da história significaram uma orientação muito
intensiva em relação aos "outros" - China, Índia, Ocidente -, assim como uma
ciência dos outros, englobando civilizações que reivindicavam alguma validade
universal. Essa ciência constituiu o foco principal e contínuo do discurso
Tokugawa neoconfuciano (Nosco, 1984). Tais orientações, porém, não fizeram
surgir uma concepção da coletividade japonesa como parte de estruturas
civilizatórias mais amplas, estruturadas de acordo com as respectivas premissas
universalistas que prevaleciam nelas. O Japão não foi visto como um componente
(ainda que possivelmente central) de tal estrutura universalista. No máximo,
essas orientações implicavam a afirmação de que a coletividade japonesa
encarnava os valores puros declarados pelas outras civilizações e que foram
erroneamente apropriados por elas ou atribuídos a elas.
VI
Essas concepções de identidade coletiva que se desenvolveram pelo menos entre
os setores mais ativos ou hegemônicos da sociedade japonesa, em períodos
diferentes de sua história, tinham repercussões de longo alcance na
constituição de uma consciência coletiva nacional moderna no Japão.
Tal conceito de nacionalidade implicou uma tendência muito forte - que teve um
papel importante na sociedade japonesa do período Meiji ao período
contemporâneo - de definir a coletividade japonesa em termos de singularidade
"incomparável", muitas vezes concebida em termos semirraciais e genéticos ou em
termos de uma espiritualidade especial. Essa ênfase na espiritualidade oriental
ou asiática pode ser encontrada, na maioria das civilizações asiáticas, em sua
confrontação ou encontro com o Ocidente. Contudo, enquanto, na maioria dos
países asiáticos, tal espiritualidade foi definida por algum termo
universalista ("hindu", "budista" ou "confuciano"), no Japão ela foi
apresentada em termos de espiritualidade única da coletividade, ou nação
japonesa, frequentemente definida em termos altamente exclusivistas e
particularistas6.
Outro exemplo interessante da persistência desses conceitos de coletividade
japonesa pode ser encontrado na postura ante o marxismo de notáveis
intelectuais de esquerda japoneses do século XX. Em comum com vários
intelectuais chineses da mesma disposição, esses japoneses, como Kotoku Shusui
ou Kawakawi Hajime, tentaram diminuir a importância das dimensões
"materialistas" do marxismo e infundi-las com valores "espirituais", de
regeneração espiritualista. No entanto, enquanto a maioria dos intelectuais
chineses tendeu a enfatizar os temas transcendentais e universalistas do
confucionismo "clássico", os japoneses enfatizaram a kokutai, a essência
espiritual especificamente japonesa7.
Esse conceito de uma distinta particularidade japonesa forneceu o pano de fundo
para as diferentes "escolas" de singularidade japonesa que se desenvolveram no
período moderno - por exemplo, na ênfase sobre a singularidade da língua, da
raça ou da cultura japonesa no desenvolvimento posterior da literatura
Nihonjinron. Esses conceitos oscilavam entre, por um lado, uma forte ênfase na
singularidade incomparável do Japão, frequentemente no caminho do nacionalismo
radical, e, por outro, a afirmação de que a cultura ou o povo japonês
encarnavam os valores puros propostos por toda a humanidade.
Tais concepções de modernidade e de consciência coletiva também moldaram a
atitude perante os "outros" (em tempos de guerra, mas não somente nesses
tempos), sendo o núcleo fundamental o fato de ser raro conceber os outros como
participantes com o Japão numa estrutura civilizatória comum, compartilhando
dimensões distintas de identidade coletiva, além, às vezes, daquelas da
humanidade geral.
VII
A civilidade foi o segundo componente da identidade coletiva japonesa. Essa
ênfase não significou o reconhecimento da civilidade como uma dimensão
autônoma, mas considerou sua contribuição para a coletividade definida
sobretudo em termos primordiais. O foco principal da civilidade desenvolvida no
Japão era a lealdade, estritamente relacionada à legitimação da autoridade
política e à accountability dos governantes do Japão - ambas implicando uma
extensa transformação nas concepções confucianas.
As concepções confucianas "originais" de autoridade política, de sua
legitimidade e da accountability dos governantes - prevalecentes na China e
depois transferidas, embora com ênfases diferentes, à Coreia e ao Vietnã -
passaram por uma transformação de longo alcance, muito alinhada com a concepção
de realeza e de teocracia imanentista analisada anteriormente8. Um dos focos
principais dessa transformação foi o encontro dos conceitos chineses de
autoridade, especialmente o conceito de "Mandato do Céu", que se tornou um foco
de discussão ideológica e intelectual muito intensa no período Tokugawa. Esse
discurso tocou no núcleo da ideologia política, nas concepções de legitimidade,
regência e accountability dos governantes, minimizando a accountability
principista dos governantes e as dimensões ou princípios transcendentais e
universalistas de legitimação, enfatizando, em vez disso, a lealdade ao
imperador9.
Consequentemente, tal lealdade - focada no "senhor", até o imperador, e no
grupo ou na coletividade da qual os indivíduos faziam parte ou em que seus
destinos estavam enredados - não poderia ser questionada (ao contrário do caso
chinês) em termos de alguns princípios universalistas surgidos de uma
autoridade maior e transcendente, tampouco a autoridade do senhor era
legitimada por tais princípios. Os eruditos nativistas apresentavam a
possibilidade de tal questionamento como anátema ao espírito ou à cultura
japonesa10.
Na verdade, essa própria reformulação do conceito de lealdade continha fortes
possibilidades de uma larga extensão da lealdade familiar para além de
ambientes específicos, possivelmente numa direção universalista. De fato, tal
extensão sempre ocorreu no interior da coletividade japonesa, por mais extensa
que fosse. Na China, a ênfase na piedade filial geralmente não podia ser
facilmente estendida além da estrutura de parentesco; mas, com a justificativa
transcendental relativamente forte para tal piedade, especialmente no
neoconfucionismo, ela poderia parecer também uma base potencial para desafiar
estruturas de autoridade existentes. Tal possibilidade era menos plausível no
Japão - quando se desenvolveu por lá, assumiu, como é sabido, uma direção
restauradora distinta, enfocada no conceito de lealdade.
VIII
O eixo dessa nova ideologia da identidade nacional e da ordem política que se
desenvolveu no período Meiji - para acompanhar a formulação de Davis (1976),
dessa ideologia cívica, ou teologia cívica - foi a construção da nova imagem e
do simbolismo do imperador. Essa ideologia, embora reivindicasse restaurar um
sistema imperial antigo, foi basicamente uma nova construção de longo alcance
que combinou, de maneira nova, os diferentes componentes dos símbolos do
imperador que se desenvolveram na história japonesa a partir do papel antigo de
oficiante em rituais para a alma do arroz (Ohnuki-Tierney, 1991). O simbolismo
do arroz se havia mantido viável por meio de rituais folk e de cosmologia,
mesmo que o sistema imperial não houvesse recuperado o poder que tinha na era
antiga e os rituais imperiais se realizassem somente de modo intermitente.
Baseando-se nesses fundamentos antigos, a moderna ideologia Meiji fez grandes
transformações no símbolo do imperador, como mostrou Carol Gluck (1985)11.
Nessa ontologia, a noção de kokutai foi definida "[...] como a 'Câmara em
sentido amplo', com parafernália atualizada como a Constituição e,
especialmente, [...] com a adoração dos ancestrais sendo seu elemento mais
significativo" (Hirai, 1968:48). Yatsuka Hozumi, que era um dos principais
arquitetos dessa ideologia, construiu sua teoria constitucional e estatal em
torno da tese de que "o culto da adoração ancestral é o princípio básico de
nosso regime nacional, a kokutai [...]" (id., ibid.:41).
A promulgação desse programa cultural significou, de forma semelhante a
processos paralelos na constituição de outros Estados-nações modernos, um novo
conceito de homem, de família, de relações de gênero, de atitudes perante a
mulher e o corpo humano12, de mundo político e de espaço público - todos
fundamentados numa legitimação claramente moderna do estado.
Essa ideologia moderna - restauracionista - incluiu, pelo menos no começo, dois
componentes centrais. Como disse Tatsuo Najita:
Da mesma forma que seu protótipo histórico no fim do período
Tokugawa, o restauracionismo do século XX combinou duas percepções
distintas da história: o idealismo e uma visão pragmática utilitária
de política e estratégia nacional. Restauracionistas estiveram em
alguns momentos em posições diametralmente opostas, especialmente no
que se refere às discutidíssimas facções militares: a "Facção da Via
Imperial" (Kodoha), orientada para a ação, e a pragmática "Facção
Controle" (Toseiha). Contudo, eram unificados em sua crença de que os
objetivos visados na Restauração Meiji, em relação à manutenção da
integridade nacional e da autonomia expansiva (jichi, como era
chamada no fim do período Tokugawa), e da realização da justiça
social dentro do país para as pessoas oprimidas, nunca alcançaram a
maturidade dentro do governo constitucional (1974:127-128).
Essa ideologia e esse modo especial de legitimação, que eram o eixo da
sociedade japonesa moderna, e suas múltiplas derivações institucionais não
emergiram automaticamente como uma continuação natural da tradição japonesa.
Antes, a institucionalização dessa ideologia foi o resultado de uma longa
contenda em resposta aos desafios postos pelos movimentos populares, pelos
intelectuais e pelas influências externas.
Embora muitos dos traços específicos das instituições do estado e da sociedade
Meiji se desenvolvessem de forma ad hoc, seu padrão geral exibiu uma lógica
distinta. Tal lógica estava fundamentada no programa cultural geral que se
cristalizou no período e foi disseminado, sobretudo, pelas novas elites.
A institucionalização desse modo de legitimação se efetuou por meio de uma
série de medidas de controle social tomadas pelo governo, incluindo algumas
repressivas buscando a supressão, ou pelo menos o enfraquecimento, de
movimentos populares e de organizações e manifestações espontâneas da opinião
pública.
No entanto, o crucial na institucionalização dessa religião cívica não foram
somente, talvez nem principalmente, essas medidas repressivas. Um aspecto
fundamental foi a disseminação consciente da religião cívica entre setores mais
amplos da população, pela educação moral ou cívica nas escolas e pelo
estabelecimento de múltiplos rituais, desde os centrais e imperiais até os
locais, em que o simbolismo imperial era propagado por meio da apresentação
pública do imperador - como quando milhares de sacerdotes nacionais foram
mandados para apresentar o imperador a grandes contingentes da população e
criar, assim, um novo consenso nacional.
A promoção da imagem e do simbolismo imperiais, bem como da doutrina política
ligada a eles, começou já nos primeiros anos do regime Meiji (por exemplo, no
Édito Imperial sobre a Propagação do Grande Ensino), mas se cristalizou mais
plenamente no Decreto Educacional de 187913.
Concomitantemente, essas concepções do Estado japonês moderno foram promulgadas
em muitos outros editos e decretos, e também por lideranças locais,
intelectuais, jornalistas e lideranças políticas, de formas bem variadas - e
também nas escolas, com cursos de história tendo um papel muito importante na
disseminação14.
Essa ideologia ou religião cívica não emergiu imediatamente ou de forma muito
clara; tampouco, como mostra Carol Gluck (1985), houve identificação ou
comprometimento total por parte de todos os setores da população. Era também
uma ideologia relativamente frouxa em muitos sentidos. Não obstante sua
frouxidão, tornou-se a ideologia hegemônica dominante do governo e da sociedade
Meiji; e também no Japão Taisho, no qual até a maioria dos pontos de vista
oposicionistas era formulada nos mesmos termos dessa ideologia.
Mesmo em períodos posteriores, seja no Taisho ou depois da Segunda Guerra
Mundial, quando mudanças de longo alcance haviam ocorrido na sociedade japonesa
e no discurso cultural, algumas das premissas básicas dessa ideologia e
conceituação coletiva permaneceram amplamente difundidas - mesmo que fossem
formuladas de outra maneira. A ideologia da kokutai provou ser o componente
mais persistente da nova identidade coletiva japonesa, mesmo depois da perda de
seus componentes míticos após a Segunda Guerra Mundial.
Foram os dois componentes dessa ideologia, a disseminação do conhecimento
pragmático e "racional" novo, frequentemente aprendido com modelos
estrangeiros, e sua legitimação definitiva em termos restauracionistas-
nacionais que também forneciam, pelo menos no começo do período Meiji, as
principais orientações segundo as quais as elites e a burocracia "guiavam" os
processos de mobilização social, de desenvolvimento econômico e de formação do
novo homem e da nova mulher japonesa. Contudo, tensões surgiram no próprio
núcleo dessa ideologia desde o começo de sua cristalização, aumentando ao longo
do tempo. Assim, embora a construção de seu núcleo fossem as concepções míticas
ou religiosas do imperador e da comunidade nacional baseada em critérios
sociais e primordiais, ela também apresentava a autoridade do imperador como,
em certo grau, derivada do povo, mesmo que não da forma contratual "liberal"
lockeana. Essa ideologia reiterou a importância do conhecimento novo,
especialmente pragmático, e enxergava tal conhecimento como uma base importante
do novo regime - sem geralmente especificar as formas em que tal conhecimento
deveria ser relacionado com a visão restauracionista15.
IX
A diferença entre kokutai e seitai era um aspecto central da ideologia e das
tensões que se desenvolveram nela. Como diz Duus (s.d.):
O caráter "apolítico" da instituição imperial foi fortalecido por uma
distinção feita no discurso político entre kokutai (estrutura
nacional) e seitai (estrutura política) [...]. A kokutai era vista
como absoluta, imutável, eterna e essencial; a seitai, relativa,
transitória, temporária e contingente [...]. A nova estrutura
constitucional, anunciada como uma "dádiva imperial" ao povo,
fundamentava sua legitimidade na benevolência imperial. Em linguagem
jurídica moderna, a Constituição afirmava que a soberania se
localizava no imperador. Da mesma forma que na cultura política
tradicional, o imperador não era nem uma figura accountable nem
responsável; os outros eram accountable a ele. Nesse sentido, a
instituição imperial estava "acima da política". Contudo, o que isso
significava exatamente na prática provocou intenso debate entre
teóricos constitucionais [...]. O imperador ficou distante das
disputas sobre poder e políticas, e ele nunca se tornou um "monarca
em exercício", mesmo no grau limitado do imperador alemão16.
A diferença entre kokutai e seitai implicou um conceito em que, para usar a
terminologia de Rousseau, a vontade geral estava investida no, ou representada
pelo, imperador e naqueles a quem ele delegava sua autoridade, ao passo que a
vontade "de todos" era deixada aos políticos rotineiros, especialmente aos
políticos eleitos.
Essa diferença dividiu o comportamento político em duas esferas morais
distintas. Enquanto a kokutai (representada pela instituição imperial) foi
sacralizada, a seitai, a esfera do governo, ou da política, manteve-se profana
e secular. O imperador, identificado com a e simbolizado pela kokutai,
permaneceu distante dos conflitos partidários dentro da Dieta Imperial ou entre
o gabinete e a Dieta. Deixavam-se às instituições democráticas representativas
as preocupações cotidianas, profanas e mundanas. A Dieta não era um fórum para
se debater ideais ou valores últimos; antes, era um mercado político no qual
políticas e interesses eram negociados17.
Desse modo, o lugar do imperador no Meiji e no posterior sistema japonês
moderno era um tanto ambíguo. Ele estava, assim como seus predecessores, fora
da política, simbolizando a kokutai; mas também constituía o pivô dos sistemas
políticos, pois a maioria dos atores políticos respondia a ele e era ele quem
delegava posições. Esses papéis ambíguos do imperador criavam um vácuo no
processo decisório e na accountability pelas decisões - possibilitando à
burocracia e ao Exército um papel especial e crucial no processo político.
X
Essa distinta religião ou ideologia cívica, com sua forte ênfase na kokutai
simbolizada pelo imperador, em que a comunidade nacional era construída de
forma a englobar todas as áreas da vida, teve repercussões muito importantes -
e um tanto paradoxais - na estruturação da arena política e nas relações entre
estado e sociedade civil. As repercussões mais importantes dessa religião
cívica distinta e das diferenças entre kokutai e seitai foram: fusão entre
estado e sociedade civil na comunidade nacional mais ampla; quase total
eliminação ou negação do "social" como arena autônoma; desenvolvimento
concomitante de uma concepção relativamente fraca do estado como uma unidade
ontológica distinta e uma concepção ainda mais fraca de sociedade (civil);
quase total ausência de uma arena pública autônoma independente do estado; e
uma desconfiança da política.
Assim, um dos aspectos mais paradoxais dessa religião civil era o fato de que
nenhum conceito de estado - distinto da comunidade nacional encarnada na e
simbolizada pela figura do imperador - se desenvolveu completamente. Foi o
conceito de comunidade nacional, de kokutai, englobando atividades políticas e
administrativas, que predominou18. Simultaneamente, desenvolveu-se um estado
caracterizado por uma forte tendência a enfatizar a orientação em vez da
regulação direta e pela penetração da periferia pelo centro. A visão do Estado
japonês como "fraco" foi proposta por Daniel Okimoto, que também sugeriu que o
poder no Japão não é concebido como uma entidade independente a ser aplicada em
diferentes arenas da vida de acordo com critérios "objetivos". Antes, é
enraizado numa estrutura de relacionamentos interdependentes que operam na base
de ações dispersas e na coordenação para cima e para baixo de redes
hierárquicas verticais, em vez de uma base coercitiva vinda de cima. Ele se
baseia numa sintonia fina, na construção do consenso e na adaptação contínua.
Consequentemente, o governo pode ser comparado a um "regente de orquestra" e
desenvolveu-se uma tendência acentuada - para usar um termo proposto por
Koschmann (1978) - ao "governo suave" (soft rule), o governo de uma autoridade
não fundamentada em alguma visão transcendental e por isso também sem
confrontar a sociedade em termos de tal visão.
O fraco desenvolvimento da sociedade civil autônoma está estritamente
relacionado a isso, embora seja desnecessário dizer que elementos dessa
sociedade, especialmente os componentes estruturais e organizacionais (como
organizações diferentes), não têm faltado. Não foi permitido a esses numerosos
núcleos organizacionais se desenvolverem numa sociedade civil plena, com um
espaço público autônomo extenso e acesso independente ao centro político.
Espaço público e discurso público foram, em grande medida, monopolizados pelo
governo e pela burocracia como representantes da comunidade nacional legitimada
pelo imperador (Silberman e Harootunian, 1999).
Um dos corolários mais interessantes desse enraizamento da arena política e da
sociedade (civil) na comunidade geral foi a fraqueza - na verdade, ausência -,
em períodos históricos ("feudais") e modernos (no começo), de concepções de
direitos legais autônomos e instituições soberanas representativas autônomas.
Contudo, no Japão, ao contrário de muitos sistemas absolutistas ou
totalitários, a ausência dessas instituições não estava relacionada com uma
distinção simbólica forte do centro, do estado, ou com grandes esforços pelo
centro de controlar e também reestruturar e mobilizar a periferia - de acordo
com uma nova visão destrutiva dos valores prevalecentes até aquele momento na
periferia.
Tal fusão entre estado e sociedade civil foi muito indicativa da grande
desconfiança da política transparente da seitai, como potencialmente subversiva
da "vontade geral", e fez surgir a apropriação da regulação da arena política
pelo centro, o que o pôs aparentemente além da política e o legitimou em termos
do novo conhecimento "objetivo", usado para servir à comunidade19.
Por conseguinte, no Japão moderno, do período Meiji em diante, tentou-se criar
um sistema político moderno capaz de mobilizar os recursos necessários para
reivindicar seu lugar no cenário internacional, mas baseado na retirada de
qualquer ênfase em política e em participação política.
XI
É também a diferença entre kokutai e seitai - e a fusão entre estado, sociedade
civil e a comunidade nacional, e a consequente desconfiança da política - que
explica o lugar especial da burocracia no cenário político japonês, bem como o
fato de que essa burocracia tendeu a aproximar o tipo ideal de burocracia
racional-legal. Dada a desconfiança da política, a burocracia pôde, com
relativa facilidade, apropriar para si, com a legitimação do imperador, a
representação da kokutai, "a vontade geral" - sem a mácula da consideração pela
seitai. A burocracia legitimou tal apropriação acima de tudo por se retratar
como a combinação das virtudes confuciana e samurai dos verdadeiros
governantes. Como não poderia mais ser baseada em status hereditário, a
educação e o novo conhecimento passaram a ser a base. Tais conhecimento e
educação, no entanto, refinados por meio das emergentes universidades de elite,
também eram vistos como sendo de qualidade moral dinâmica, pelo fato de
representarem e servirem à vontade geral.
A estrutura da burocracia em si - que aparentemente se tornou exemplo perfeito
de uma burocracia racional-legal weberiana totalmente autônoma e livre de
considerações "políticas" - emergiu, como mostra Silberman (1993), das
contendas entre os vários grupos de liderança no começo da era Meiji. O autor
afirma que:
Disso emergiu uma estrutura burocrática que possuía todas as
características da estrutura organizacional racional-legal de Weber.
Indefinição sobre suas posições levou os líderes Meiji a, cada vez
mais, formular e perseguir estratégias que lhes dariam controle
inconteste sobre as tomadas de decisão. Nisso eles foram extremamente
bem-sucedidos [...]. A burocracia civil havia emergido até 1900 como
instrumento primário de tomada de decisões e estrutura primária de
seleção da liderança política. O desafio dos partidos continuou, mas
estes eram tão isolados e, com o passar do tempo, tão subordinados ao
poder burocrático que desapareceram aos poucos e se tornaram
fantasmas de seus progenitores Meiji (ibid.:221).
Basicamente, apenas o Exército podia competir (e de fato competiu) com os
diferentes escalões da burocracia, reivindicando uma relação direta com o
imperador e uma posição autônoma e especial na arena política.
XII
Essas premissas básicas da moderna ordem política japonesa e suas implicações
institucionais também explicam algumas das características específicas dos
movimentos de protesto que se desenvolveram no Japão: os temas básicos
anunciados por esses movimentos e a forma de sua incorporação no sistema
político; simultaneamente, as características distintas do sistema político
japonês moderno; o padrão de regimes constitucionais que lá se desenvolveram,
seus pontos de vulnerabilidade e seus modos de transformação e colapso.
Assim como o Estado-nação introduzido pela Meiji Ishin (a Restauração de 1868)
e os diferentes regimes que se desenvolveram no Japão evidenciaram uma
combinação singular de semelhanças e diferenças em relação à Europa Ocidental,
isso também pode ser dito dos movimentos de protesto que surgiram na estrutura
desses regimes.
Esses movimentos estabeleceram - com a cristalização dessa estrutura na parte
final do período Meiji, no período Taisho e no começo do período Showa -
mudanças econômicas e sociais de longo alcance na urbanização e na
industrialização ocorridas. Esses processos abriram o regime oligárquico Meiji,
originando uma deslocação crescente no campo e a emergência de um proletariado
urbano e de uma classe educada e profissional mais diversificada, bem como uma
ênfase crescente no consumismo e uma concomitante consciência crescente das
contradições internas da ideologia do Estado Meiji. Por outro lado, tudo isso
fez com que inúmeros movimentos de protesto surgissem, aparentemente muito
parecidos com aqueles que se desenvolveram na Europa, como os movimentos de
Direitos do Cidadão no começo do período Meiji, as "revoltas do arroz" e o
começo do movimento dos trabalhadores.
No período Taisho, novos movimentos sociais de protesto surgiram (a Revolta do
Parque Hibiya contra o Tratado de Portsmouth em 1905, as Revoltas do Arroz de
1918), e novas organizações econômicas e profissionais, sindicatos, além de
novos grupos intelectuais, desafiaram a estrutura hegemônica restrita das
instituições dominantes. Nesse período, pela primeira vez na história japonesa
moderna, os partidos aparentemente se tornaram a força política predominante, e
a emergência de um gabinete composto de membros desses partidos contribuiu, em
certa medida, para a culminação desses processos desafiadores. Foi também um
período em que ideais liberais e democráticos eram muito populares
internacionalmente, e parecia que o Japão estava indo numa direção um tanto
liberal-democrática, mesmo que muitas dessas mudanças na arena política
pudessem ser vistas como a continuação de acontecimentos anteriores. Todavia,
apesar desse desenvolvimento aparentemente natural ou orgânico em direção a um
regime de partidos constitucionais, tal regime não se cristalizou totalmente no
Japão durante o começo do período Showa e no período Taisho, e foi derrubado
pelo regime militar dos anos 1930.
Foi, acima de tudo, no período depois da Segunda Guerra Mundial, dada a
democratização do regime, que inúmeros movimentos de protesto realmente
emergiram plenamente de forma clara. Nesse período, os vários movimentos de
oposição - especialmente os de esquerda, os comunistas e os socialistas, que
eram ilegais nos períodos anteriores - foram plenamente legitimados e poderiam
participar abertamente do processo político. Além disso, emergiram no setor
público relações relativamente fortes entre políticos socialistas e
intelectuais e as organizações da classe trabalhadora. Também houve um aumento
de consciência de classe entre amplos setores dos trabalhadores industriais, e
movimentos políticos classistas surgiram, com alguns sindicatos desempenhando
um papel importante neles20. O desenvolvimento mais intensivo de tais
movimentos de protesto ocorreu no fim dos anos 1940 e no início dos anos 1950.
Também foi nesse período que muitos desses movimentos - especialmente os
trabalhistas - se tornaram radicais e relativamente difundidos, de forma
semelhante aos movimentos trabalhistas e socialistas da Europa. Nesse mesmo
período, os partidos trabalhistas e socialistas foram legalizados, sinalizando
pelo menos a possibilidade de uma ordem social-democrática, senão socialista,
no Japão.
Esses movimentos e partidos - os partidos marxista e socialista, e um partido
comunista um tanto radical - eram mais proeminentes do que seus correspondentes
nos Estados Unidos e, em contraste com os norte-americanos, eram capazes de
comandar durante o período pósguerra em torno de um terço dos votos (36% em
1957, 32% em 1992) (Livingston, Moore e Oldfather, 1973). Contudo, foi somente
nas eleições de 199321 que o partido socialista emergiu como uma força vigorosa
e potencialmente inovadora, aparentemente se movendo numa direção social-
democrática semelhante aos acontecimentos contemporâneos na Europa daquele
período. Em comparação, brotou no Japão um tipo especial de movimento religioso
com fortes raízes no período Tokugawa - as chamadas Novas Religiões, que
tiveram um papel mais central do que os movimentos religiosos na Europa.
Simultaneamente, durante os anos 1960 e 1970, surgiram nos cenários local e, em
certa medida, nacional muitos outros movimentos - inúmeros movimentos
ecológicos e de cidadania, movimentos feministas e vários movimentos de
oposição local. Tais movimentos continuam a brotar e têm se tornado parte
integral do cenário político japonês. Alguns eram também ligados a partidos
políticos de oposição que muitas vezes tinham força num nível local22. No fim
dos anos 1960 e no começo dos anos 1970, a onda mundial de revolta estudantil
se espalhou pelo Japão também, fazendo surgir um radicalismo estudantil
profundo23.
Entre esses movimentos se estabeleceu uma ampla gama de atividades de protesto,
muitos discursos sociais altamente críticos e atividades artísticas - por
exemplo, o novo teatro "proletário", que surgiu especialmente no período pós-
guerra, e muitos filmes "críticos". Em muitos casos, intelectuais participaram
de movimentos ou de manifestações de protesto: aquelas relacionadas ao Tratado
de Paz e, muito tempo depois, quase no fim do período Showa, com a oposição ao
fechamento da Universidade Toshiba. Outro exemplo foi o comportamento da
Universidade Meiji Gakuin por ocasião da morte do imperador Showa, quando
começou uma série de discussões e de palestras abertas sobre o sistema do
imperador e a universidade não colocou a bandeira à meia-haste24.
Em muitos desses movimentos - talvez especialmente entre os estudantes radicais
e, mais tarde, entre os grupos terroristas extremos -, surgiu uma tendência
crescente a confrontos, às vezes violentos, com as autoridades e ao litígio,
minando a imagem de uma sociedade baseada num consenso harmonioso. Tais temas
confrontacionistas geralmente se exprimiam em termos da negação da legitimidade
moral das autoridades e do abandono da confiança que lhes fora depositada.
XIII
Assim, os movimentos de protesto que se desenvolveram no Japão moderno, sob o
impacto dos vários processos de modernização, eram, na aparência, em larga
medida, muito semelhantes àqueles que se desenvolveram na Europa. Isso é
válido, particularmente, para os movimentos pelos direitos dos cidadãos, bem
como para os vários movimentos trabalhistas e socialistas, a fim de aumentar a
participação na arena política. Movimentos nacionais ou étnicos eram de menor
importância, sobretudo em virtude do sucesso relativo do Estado Meiji em
construir sobre os desenvolvimentos anteriores, da época dos Tokugawa, para
promover e institucionalizar o conceito de nação japonesa como uma coletividade
nacional, construída em termos primordiais e facilitada pela homogeneidade
étnica relativa - na verdade, apenas relativa - de amplos setores da sociedade
japonesa.
No entanto, por maiores que fossem as semelhanças entre os principais
movimentos sociais do Japão e da Europa, algumas diferenças importantes
surgiram. Tais diferenças podem ser identificadas tanto nos objetivos dos
movimentos quanto no impacto sobre a sociedade mais ampla. Ao contrário da
Europa, pelo menos em certa medida, esses movimentos não foram capazes de obter
qualquer papel de destaque no universo político em termos de reestruturação das
premissas do centro e em termos de princípios universalistas ou
transcendentais, considerando a maneira com que os movimentos socialistas na
Europa foram capazes de impregnar o centro com seus símbolos, influenciar as
políticas diretamente e participar na formulação e na implementação de
políticas. Na verdade, muitos líderes dos movimentos japoneses expuseram tais
princípios, mas não foram muito bem-sucedidos na disseminação em setores mais
amplos e independentes da sociedade.
Portanto, os movimentos socialista e comunista não foram capazes nem de formar
um governo, nem de, depois de 1955, pelo menos dele participar e, sobretudo,
influenciar as políticas. Em meados dos anos 1950, os movimentos socialista e
trabalhista se dividiram, e seu núcleo, o Partido Socialista, perdeu seu ímpeto
original e aparentemente se domesticou no sistema político japonês em evolução.
Esses movimentos - especialmente o Partido Socialista - não minaram, pelo menos
até 1993, a hegemonia do Partido Liberal Democrático (PLD); e, mesmo em 1993, o
PLD perdeu sua maioria pela deserção de muitos grupos que o compunham, e não
pelo desafio dos socialistas.
É claro que a repressão teve um papel importante na falta de sucesso. A
repressão, contudo, não era exclusividade do Estado japonês; podia ser
encontrada em todos os regimes capitalistas constitucionais modernos. O que era
mais característico do Japão era a dificuldade de muitos líderes em mobilizar
apoio para a confrontação de princípios. Tampouco foram os movimentos
socialistas no Japão capazes de mudar as formas de tomada de decisão e de
discurso político público ou de fazer surgir uma sociedade civil e uma arena
pública mais autônomas - mesmo que eles tenham alargado o âmbito do discurso
público.
No que tange às fraquezas relativas do confronto direto com o centro, a maioria
desses movimentos foi bem-sucedida não só em obter muitos de seus objetivos
mais concretos, mas, sobretudo, na criação de espaços sociais e culturais -
novos espaços para o discurso público, novos tipos de associação, de estilos de
vida (por exemplo, a presença das mulheres em muitos setores de classe média e
classe média alta). Paralelamente, foram bem-sucedidos - como ocorreu em
períodos anteriores em relação ao impacto do confucionismo e do budismo no
Japão - na construção de espaços de ação social e de criatividade cultural em
que as regras hegemônicas não predominavam e nos quais novos tipos de discurso
sofisticado e novos níveis de reflexão crítica puderam surgir. Nesses espaços
de vida, muitos dos temas aparentemente reprimidos, rebeldes e subversivos,
como igualdade e vida em comum, têm conseguido certa expressão, e muitos
estilos de vida novos e diferentes, com potencialidades inovadoras, surgiram,
embora todos esses espaços fossem segregados do centro num grau muito maior do
que em outros regimes constitucionais modernos.
Um dos exemplos mais fascinantes desse processo é o surgimento de novas
religiões. Estas brotaram a partir do final do período Tokugawa, foram, em
certa medida, suprimidas no começo do período Meiji e durante o regime militar,
e prosperaram novamente depois da Segunda Guerra Mundial. Embora muitos desses
movimentos, especialmente as Novas Religiões, evidenciassem tendências
milenaristas muito fortes, as orientações utópicas eram bastante fracas, ou
mesmo inexistentes. Mesmo quando esses movimentos se engajavam na política, a
maioria deles raramente desafiava a ordem existente. Tinham orientações
intramundanas muito fortes, mas sem elaborar orientações críticas enraizadas em
visões transcendentais e universalistas ou em princípios que transcendessem a
ordem existente.
Contudo, ao mesmo tempo, todos construíram novos espaços, nos quais novos tipos
de atividade e discursos e muitos temas potencialmente subversivos puderam se
desenvolver, permitindo a seus membros escapar das restrições da ordem
existente e desenvolver estilos de vida próprios. Por todos esses períodos,
novos tipos de discurso e de consciência social surgiram de forma contínua,
incluindo temas potencialmente subversivos proclamados em nome de uma visão
antiestatal "autônoma". Alguns desses discursos poderiam fundir com as
perspectivas românticas dos folcloristas, e outros tomaram uma direção mais
"racional" ou humanista.
Além da criação de tais espaços, esses movimentos ampliaram grandemente o
escopo da agenda política e do discurso político no Japão. Mesmo quando
acabaram os períodos de abertura - seja nas eras Meiji ou Taisho, seja em
meados dos anos 1950 - e muitos temas e demandas foram suprimidos da arena
pública de discussão, isso não significou que entraram em esquecimento total. O
destino de vários temas propagados pelos liberais Taisho fornece um bom exemplo
para nossa discussão. Esses temas não foram totalmente esquecidos, pelo
contrário. Tiveram consequência e impacto de longo alcance, como podemos ver em
Sharon Nolte (1987), em seu estudo sobre o liberalismo no Japão, e, mais
plenamente ainda, numa coleção de estudos organizada por Thomas Rimer (1990)
sobre os intelectuais Taisho. Temas como liberalismo, liberdade de imprensa,
direitos da mulher, problemas sociais e afins, e uma ênfase geral, mesmo que
difusa, em igualdade permaneceram na agenda pública de uma forma ou de outra,
não sendo removidos completamente do discurso político, literário ou ideológico
(Nolte, 1987). Antes, foram discutidos e debatidos oralmente e em publicações
especializadas nos grupos intelectuais, bem como nas publicações mais gerais.
Por meio delas, muitos espaços abrangentes de discurso novo foram gerados na
sociedade japonesa, e muitos desses temas foram incorporados na ideologia
predominante, cujos portadores diziam que haviam solucionado as questões
levantadas por esses temas na maneira japonesa "correta".
XIV
Assim, o quadro do impacto dos movimentos sociais no Japão pode ser visto como
um copo meio cheio ou meio vazio, de acordo com a perspectiva de cada um. De
certa forma, isso vale para movimentos de protesto em todas as sociedades,
especialmente as modernas, se bem que os contornos concretos da percepção
variam enormemente. Os contornos específicos que surgiram no Japão se
caracterizavam por um distinto processo duplo de desenvolvimento e pelo impacto
dos processos de mudança e dos movimentos de protesto. Esta característica
dupla - a autorrealização específica dela, o epítome desses processos - se
caracterizou, por um lado, pelo impacto de longo prazo dos processos de mudança
e abertura às novas influências em todo o cenário cultural e social. Tais
processos geraram novos tipos de discurso e fizeram surgir muitos setores
"segregados" de ação e uma reflexividade crescente, em que novos tipos de
atividade cultural e social prosperaram, e a consciência de muitas
possibilidades culturais e sociais alternativas aumentou. Os vários temas
disseminados por tais movimentos e pelas respostas públicas a eles, e
frequentemente sob o impacto de forças externas, foram em muitos casos
incorporados ao discurso público; discursos novos e mais sofisticados surgiram
e muitas demandas concretas foram aceitas, sobretudo novos espaços sociais
foram frequentemente criados, nos quais novos padrões de atividades econômicas
e sociais, tipos de criatividade cultural e padrões de discurso puderam
emergir.
Por outro lado, os movimentos não foram capazes, apesar de seu impacto de longo
alcance, de obter a institucionalização plena da maioria dos temas amplos que
disseminaram, como as demandas pelo reconhecimento do acesso totalmente
autônomo à arena política ou a generalização de suas queixas concretas em
questões mais amplas ou em temas mais gerais, para transformar radicalmente as
premissas básicas do sistema político. Por mais bem-sucedidos que fossem em
alguns de seus objetivos concretos, ou em algumas "retificações" por parte das
autoridades, e na criação de espaços para novas atividades sociais e culturais,
esses movimentos que pareciam articular alguns temas ideológicos mais amplos,
como o comunalismo ou o igualitarismo, não têm sido capazes, geralmente, de
legitimar esses temas no discurso político central ou incorporá-los aos
símbolos do centro. Esses temas continuam sendo relegados ao repertório de
orientações de protesto que nunca se institucionalizaram plenamente. Também não
conseguiram criar um espaço geral, aberto e público independente do centro e
capaz de influenciá-lo diretamente, por meio da ação política autônoma.
As várias situações de confronto em que os movimentos tiveram visibilidade não
levaram (ou levaram apenas breve e intermitentemente) à institucionalização de
novas formas de resolução de conflito - por exemplo, mais legais, formais ou
universalistas - ou à reformulação das premissas básicas da ordem social e
política, mesmo que eles tenham providenciado a reinterpretação e a
reconstrução de muitas dessas premissas. As muitas aberturas que se
desenvolveram de forma relativamente rápida nessas situações foram "fechadas" -
embora de várias maneiras - por coalizões ou contracoalizões de elites, grupos
influentes e mesmo contraelites, e reestruturadas de acordo com alguma versão e
recombinação dos símbolos e critérios primordiais e sagrados ou naturais, além
das orientações enraizadas em estruturas solidárias, as quais constrangeram
tais evoluções.
Concomitantemente, a forma de resolução de conflito que emergiu de tais
situações geralmente restabeleceu alguns dos princípios verticais hierárquicos
em novas configurações organizacionais e institucionais, ampliando o escopo
dessas redes e incorporando novos elementos aos significados ideológicos
subjacentes. Esses novos significados geralmente se impregnaram de alguns dos
muitos temas de protesto - como os temas milenaristas e comunitários que antes
apareciam em rebeliões de camponeses ou em diferentes movimentos de protesto,
como os movimentos pelos direitos dos cidadãos -, mas foram ambientados dentro
da estrutura dos contratos sociais "hegemônicos" centrais e prevalecentes. Os
contratos de mais sucesso eram eficazes em relação a muitas demandas concretas,
mas não em relação às orientações gerais baseadas em princípios.
As Novas Religiões também são de especial interesse aqui. Por um lado foram
impregnadas com temas e orientações muito comunais e, em menor medida,
igualitários; por outro, não tentaram transcender a realidade - seu
intramundanismo não se enraizava numa visão transcendental em confronto com a
realidade -, ou seja, não serviam como ponto de partida para reforma ou
transformação radical. Portanto, nessas religiões, como na maioria dos outros
movimentos, os temas mais radicalmente democráticos, igualitários ou
comunitários eram frequentemente cercados pelas estruturas "hegemônicas" e
geralmente não tinham permissão para desafiar diretamente as premissas ou os
símbolos dessas estruturas. Quando se faziam algumas tentativas, como descreve
Norma Field (1991) a respeito dos vários debates sobre o papel do imperador
Showa na Segunda Guerra Mundial, elas eram reprimidas ou desconsideradas.
Em outras palavras, esses movimentos não fizeram surgir uma sociedade civil que
promovesse seus próprios critérios de legitimação, permeasse o estado em nome
de princípios que transcendessem tanto o estado quanto a comunidade nacional e
em que diferentes grupos minoritários pudessem fundamentar suas demandas por
inclusão. O exemplo mais marcante dessa limitação e potencial - e muitas vezes
repressão - pode ser visto nas atitudes perante aqueles que estão fora dos
limites da comunidade nacional pura: os coreanos e os burakumin.
É o outro lado da criação contínua de novos espaços; o lado enfatizado por
aqueles que enxergam a sociedade japonesa moderna e contemporânea como um
sistema imobilizado, repressivo e manipulado.
AS RAÍZES HISTÓRICAS DO SISTEMA JAPONÊS MODERNO: A MEIJI ISHIN COMO UMA
REVOLUÇÃO RESTAURADORA
XV
As características específicas do sistema político japonês moderno demonstram a
habilidade dos japoneses em "domesticar" as tendências revolucionárias
transcendentais e universalistas inerentes ao programa cultural e político que
surgiu inicialmente na Europa, por meio de sua transformação em orientações
mais particularistas e imanentes.
Esses conceitos básicos de modernidade e as premissas da ordem social moderna,
o padrão de legitimação da ordem política e as concepções de consciência
coletiva analisadas anteriormente foram cristalizados na Meiji Ishin. Essa
Restauração é geralmente comparada às Grandes Revoluções, com as quais
compartilhou algumas características básicas, mas das quais se diferenciou em
alguns aspectos cruciais.
Como, em nossa análise, enfatizamos a relação estreita entre as Grandes
Revoluções, por um lado, e o programa cultural e político japonês moderno, por
outro, é de interesse examinar a relação entre o programa distinto de
modernidade e as características básicas da Meiji Ishin que as distingue das
Grandes Revoluções - apesar de grandes semelhanças entre elas.
As causas básicas, de longo alcance, que levaram à queda do regime Tokugawa
foram muito parecidas com aquelas das Grandes Revoluções. As mais importantes
foram: a desintegração do velho modelo de política econômica, por meio do
aparecimento de novas forças econômicas25, e o consequente enfraquecimento das
bases de controle dos grupos governantes; a propagação da educação e a
crescente mercantilização de amplos setores da economia - dois processos que
atravessam os diferentes domínios; a deterioração da situação econômica dos
samurais inferiores e de amplos setores do campesinato; e a melhora da situação
econômica dos comerciantes e de alguns grupos camponeses. Por último, mas não
menos importante, havia as lutas internas na elite central - em vários grupos
samurais no bakufu e nos domínios. Nas últimas décadas do regime Tokugawa,
assim como nos regimes absolutistas da Europa, surgiram novos tipos de discurso
intelectual e ideológico que puseram em questão muitas das premissas básicas
da ideologia Tokugawa. Todos esses processos constituíram um pano de fundo
muito importante para os movimentos que derrubaram os bakufu Tokugawa.
A Meiji Ishin também compartilhou algumas características importantes com as
Grandes Revoluções em termos de seus "resultados". Em comum, ela depôs um
governante "tradicional" - no caso, o shogun - e mudou totalmente a composição
da classe governante. Além disso, os efeitos institucionais da Restauração
Meiji, em termos de modernização e de mudança estrutural, são facilmente
comparáveis aos das revoluções ocidentais. No Japão, ao contrário das
revoluções americanas ou europeias iniciais, esses processos foram, em larga
medida, resultado de políticas intencionais. De várias maneiras, os processos
de modernização eram mais rápidos e intensivos do que os processos paralelos em
muitos países europeus, como também a orientação internacional era muito forte
- ou seja, uma orientação que visava alcançar uma posição independente e
possivelmente destacada na nova ordem internacional dominada por interesses
coloniais, econômicos e políticos da Europa Ocidental e dos Estados Unidos.
Semelhantemente, a Meiji Ishin introduziu uma nova forma de legitimação do
sistema político, mesmo que a tenha apresentado como a restauração de uma forma
antiga e tradicional, e a tenha legitimado numa combinação de conceitos
restauradores e de conhecimentos novos e pragmáticos. Além do mais, assim como
nas Grandes Revoluções, a Meiji Ishin introduziu não só uma nova forma de
legitimação mas também um novo - essencialmente moderno - programa cultural
geral que englobou a maioria das áreas da vida. Este constituiu, de fato, uma
mudança total na sociedade japonesa26. Era, na verdade, um programa moderno,
mesmo que de várias maneiras cruciais se tenha diferenciado do programa
cultural da modernidade no Ocidente.
Logo no começo, a Meiji Ishin diferiu em alguns aspectos cruciais das
revoluções europeia e norte-americana (e, mais para frente, russa e chinesa). A
primeira diferença se manifesta, é claro, no próprio nome; o termo "Ishin"
talvez seja mais próximo em significado de "renovação" ou inclinação para uma
nova direção do que simplesmente "Restauração", como geralmente traduzido na
literatura ocidental.
O discurso que surgiu no final do período Tokugawa, durante a Ishin e no Estado
Meiji continha vários elementos que podem ser encontrados provavelmente em
todos os programas de modernidade. Dois desses componentes (potencialmente
contraditórios) eram a orientação mais pragmática de formação do estado e os
temas "sociais" mais comuns e igualitários, temas de justiça social e de
participação. No entanto, a forma como essas tensões se desenvolveram -
ideológica e institucionalmente - era muito diferente no regime Meiji, em
comparação com os regimes pós-revolucionários em sociedades surgidas das
civilizações axiais.
Esse programa diferiu enormemente daqueles da maioria das Grandes Revoluções. O
ponto crucial da diferença estava nas raízes axiais e não axiais,
respectivamente, das Grandes Revoluções e da Meiji Ishin. A ideologia desta
era, de certo modo, o espelho invertido daquela das Grandes Revoluções - de
certa maneira, não menos radical e, em termos de políticas institucionais,
possivelmente mais radical. O novo programa cultural, bem como a cosmologia e a
ontologia nele implicadas, foi proclamado como a renovação de um sistema
arcaico que de fato nunca existira, e não como uma revolução visando mudar a
ordem social e política para reconstruir totalmente o estado e a sociedade numa
direção universalista inteiramente nova. As orientações utópicas, direcionadas
para o futuro e enraizadas numa visão universalista-transcendental, eram muito
fracas ou quase inexistentes, embora temas restauradores milenaristas fossem
proeminentes em diferentes setores dos revoltosos antes e durante a
Restauração.
Simultaneamente, na Meiji Ishin, não se estabeleceu, ao contrário das Grandes
Revoluções da Europa, dos Estados Unidos, da Rússia e da China, uma ideologia
universalista, transcendental e missionária ou quaisquer componentes dessa
ideologia de classe - esses elementos também eram muito fracos nas rebeliões
camponesas e nos movimentos de protesto do período Tokugawa. Alguns elementos
de uma missão civilizatória universal surgiram no fim do período Meiji, em
posturas diante da Coreia e da China, mas não implicaram a concepção daquelas
sociedades como parte de um universo civilizatório geral junto com a sociedade
japonesa. A Meiji Ishin se orientava para dentro, para o povo japonês; seu
objetivo era a revitalização da nação japonesa, de fazê-la capaz de conquistar
seu lugar no mundo moderno, mas não tinha a pretensão de "salvar" o mundo
inteiro - ou a humanidade - em termos de uma nova visão utópica, universalista
e orientada para o futuro. Muitos dos líderes de grupos ativos durante a
Restauração enfatizaram a importância de aprender e de espalhar o conhecimento
universal, mas bem poucos traduziram isso em princípios de ação política geral,
a fim de reconstruir a coletividade e o governo japoneses, e esses poucos logo
perderam espaço no jogo. De modo semelhante, o simbolismo social explícito -
especialmente o simbolismo de classe - estava quase totalmente ausente e
certamente não incorporado aos principais símbolos do regime novo, nem mesmo em
relação aos temas restauracionistas semiutópicos, ou "utópicos invertidos".
O programa cultural disseminado na Meiji Ishin - e mais tarde no Estado Meiji -
consistiu numa mistura de orientações pragmáticas à questão de adaptação ao
novo ambiente internacional e de fortes componentes ou orientações
restauracionistas. Era uma combinação de visão restauracionista e nativista com
o que se pode chamar de pré-requisitos funcionais da sociedade moderna, como
eficácia, realização e igualdade. Esses temas posteriores eram, de fato,
enfatizados muito fortemente, mas, sobretudo, como Sonoda (1990) mostrou, em
termos de sua contribuição funcional para a organização da sociedade moderna.
Segundo o autor,
o caráter de igualdade social expresso nessas tendências era, é
claro, bem diferente do igualitarismo europeu. "Igualdade", nesse
contexto histórico, significava que quem tivesse a habilidade de
desempenhar as obrigações especializadas do samurai poderia ter uma
chance "igual" de fazê-la. Inversamente, todo o povo japonês deveria
ter obrigações ou funções "iguais" em relação ao Estado, que antes
havia sido ocupado exclusivamente pelo estrato samurai [...].
Gostaríamos de chamar esse tipo de igualdade social "igualitarismo
funcionalista", porque se caracterizava pela exigência "igual" de
todas as pessoas em suas obrigações ou funções perante o Estado.
O igualitarismo funcionalista não era o reconhecimento de direitos humanos
"iguais", como uma ideologia política que se originou na Europa e teve papel
importante na história europeia. Antes, foi resultado não intencional da
minuciosa busca da praticidade em serviço ao Estado por parte do samurai
(ibid.:101).
Somente entre pequenos grupos de intelectuais é que se desenvolveu uma
tendência para fundamentar esses pré-requisitos funcionais em orientações
transcendentais ou metafísicas baseadas em princípios, mas não conseguiram
mudar as premissas e as orientações hegemônicas. A mensagem propagada pela
Restauração Meiji foi orientada à renovação da nação japonesa - ela
praticamente não tinha dimensões universalistas ou missionárias. Durante a
Ishin, e especialmente depois da Restauração, inúmeros acadêmicos individuais
se engajaram na busca pelo conhecimento do exterior e disseminaram várias
ideias novas no país, incluindo algumas fortemente universalistas, mas, em
última análise, era a chamada oligarquia Meiji, composta dos líderes das
diferentes facções rebeldes na Restauração, que modelou o regime Meiji.
JAPÃO, EUROPA E ESTADOS UNIDOS - ALGUMAS OBSERVAÇÕES FINAIS SOBRE A MODERNIDADE
JAPONESA E ALGUMAS INDICAÇÕES COMPARATIVAS PRELIMINARES
XVI
Foram as características da Meiji Ishin listadas anteriormente que fizeram
surgir traços distintos da ordem japonesa moderna; é especialmente a combinação
dessas características que torna a designação "Restauração revolucionária", ou
"Renovação revolucionária", a mais apropriada para descrever a Meiji Ishin. Por
buscar um novo tipo de sociedade, um novo programa cultural moderno, A Meiji
Ishin constituía verdadeiramente uma transformação revolucionária, mais do que
uma mera mudança violenta de regime ou de acontecimento político. A Meiji Ishin
forneceu uma visão totalmente nova de sociedade. Contudo, o programa cultural
que gradualmente se cristalizou na Ishin - sobretudo no regime do Estado Meiji
- a distingue das Grandes Revoluções e dos programas culturais de modernidade
que se propagaram por meio delas.
A forte tendência a fundir a comunidade nacional, o estado e a sociedade teve
várias repercussões na estruturação das regras básicas da arena política, sendo
a mais importante o estabelecimento de um conceito fraco do estado como
diferente da comunidade nacional mais ampla e geral (o nacional sendo definido
em termos sagrados, naturais e primordiais); em segundo lugar, de um estado
societário caracterizado por forte tendência a enfatizar a orientação em vez da
regulação direta e pela penetração da periferia pelo centro; em terceiro, de
uma sociedade civil autônoma fracamente estabelecida, embora seja desnecessário
dizer que elementos desta, especialmente os estruturais e organizacionais (como
as diferentes organizações), não têm faltado.
O tipo específico de sociedade civil que surgiu no Japão se mostra na
construção contínua de novos espaços sociais, que fornecem arenas semiautônomas
em que novos tipos de atividade, consciência e discursos se estabelecem, sem,
contudo, influenciar diretamente o centro. Os participantes de tais espaços não
têm acesso autônomo ao centro e certamente não são capazes de desafiar suas
premissas. Antes, as relações entre estado e sociedade se efetuam na forma do
pluralismo padronizado, de contratos sociais múltiplos e dispersos.
Estritamente relacionado a essas características da sociedade civil no Japão
moderno está o surgimento de um padrão distinto de dinâmica política,
especialmente o impacto dos movimentos de protesto sobre o centro. A
característica mais importante desse impacto está no confronto ideológico
principista relativamente fraco com o centro, sobretudo a falta de sucesso das
lideranças de tais movimentos confrontacionistas em mobilizar amplo apoio; e o
simultâneo sucesso de longo alcance em influenciar, mesmo que geralmente de
forma indireta, as políticas das autoridades e a criação de novos espaços
sociais autônomos, mas segregados, em que as atividades promovidas por esses
movimentos podiam ser implementadas. Consequentemente, mudanças no tipo de
regime político ou na relativa força de diferentes grupos não implicaram
necessariamente mudanças nos princípios de legitimação e nas premissas e regras
básicas da ordem política e social.
Todas essas características da arena política e das relações entre nação, país,
estado e sociedade estavam estritamente relacionadas às fortes concepções
ontológicas particularistas e imanentistas, cuja dinâmica prevaleceu em toda a
história japonesa. As fortes orientações universalistas inerentes ao budismo, e
mais latentes no confucionismo, foram subjugadas e "nativizadas" no Japão.
Quando o Japão foi definido como uma nação divina, isso significou uma nação
protegida pelos deuses, sendo, em certo sentido, um povo escolhido, mas não uma
nação portadora de uma missão universal de Deus. Tal transformação teve um
impacto de longo alcance em algumas das premissas e concepções básicas da ordem
social, tal como o Mandato do Céu, com suas implicações para o conceito de
autoridade e da accountability dos governantes, bem como para os conceitos de
comunidade. Ao contrário da China, onde, a princípio, o imperador, mesmo sendo
uma figura sacra, estava "sob" o Mandato do Céu, no Japão ele era sagrado e
visto como a encarnação do Sol, e não poderia ser responsabilizado perante
qualquer um. Somente o shogun e outros governantes podiam ser
responsabilizados, mas de maneira não especificada claramente.
XVII
Um dos aspectos mais importantes da ordem política japonesa moderna foi que
mudanças em regimes políticos ou na relativa força de diferentes grupos -
exemplificado pela cristalização do regime Taisho nos anos 1920 e do militar
nos anos 1930, e também, mesmo que de forma diferente, do regime constitucional
estabelecido depois da Segunda Guerra Mundial - não significaram
necessariamente mudanças em princípios de legitimação e nas premissas e regras
básicas da ordem social e política.
É a esse respeito que as diferenças mais importantes do sistema político
constitucional moderno do Japão - incluindo o democrático, que se cristalizou
depois da Segunda Guerra Mundial, como analisamos anteriormente - se destacam
em relação aos europeus. Na Europa, as demandas por mudanças "radicais", feitas
sobretudo por movimentos socialistas e nacionalistas, foram fortemente
orientadas para a reconstrução do centro em termos de seu confronto entre
igualdade e hierarquia, e/ou em termos de reconstrução dos símbolos e dos
elementos de identidade coletiva e suas respectivas sociedades. No Japão, tais
tentativas de reconstrução do centro e de seus elementos de identidade coletiva
eram muito fracas; foram promovidas sobretudo por vários grupos marginais que
não foram capazes de mobilizar apoio extenso. A orientação principal - e o
impacto dos movimentos de protesto no Japão, que superficialmente eram muito
parecidos com os da Europa - foi a criação de novos espaços sociais e culturais
em que diferentes grupos podiam desenvolver atividades e identidades coletivas
relativamente autônomas. Não significa que os vários movimentos na Europa não
tenham construído tais espaços - inclusive, em termos puramente quantitativos,
isso foi provavelmente seu maior impacto -, mas, pelo menos até recentemente,
os principais desafios aos regimes constitucionais democráticos na Europa
vieram de movimentos orientados pela reconstrução de seus respectivos centros e
identidades coletivas.
Outra importante diferença entre Europa e Japão foi, como vimos anteriormente,
que no Japão praticamente inexistiu um movimento nacional, ou até mesmo
"étnico", forte. Só recentemente é que tem havido desenvolvimentos nessa
direção - em certa medida, entre os coreanos no Japão e entre os Ainu e
burakumin, mas esses movimentos foram orientados sobretudo para a criação de
espaços legítimos para si mesmos, em que sua distinção e identidade seriam
facilmente reconhecidas sem necessariamente serem orientadas para a
reconstrução do centro ou para os conceitos gerais da identidade coletiva.
Tais diferenças se destacam tanto em relação à Europa quanto em relação aos
Estados Unidos. O Japão compartilhou com os Estados Unidos uma característica
crucial de seus respectivos movimentos de protesto: em ambas as sociedades, os
movimentos de protesto que surgiram não eram orientados para a reconstrução de
seus respectivos centros ou para as fronteiras simbólicas de suas respectivas
coletividades. Contudo, essas características se desenvolveram nas duas
sociedades por motivos um tanto opostos - motivos que, de certa forma,
constituíram imagens espelhadas uma da outra e que são de grande importância
para a compreensão das raízes da cristalização de diferentes modernidades
nessas sociedades, e que também explicam o fato de o Japão e os Estados Unidos
terem desenvolvido formas completamente diferentes de dinâmica política e de
confrontos com o centro.
Nos Estados Unidos, surgiu um sistema político baseado numa postura muito mais
complexa em relação à autoridade e às estruturas institucionais básicas,
especialmente as que foram incorporadas na Constituição americana. A forte
dimensão religiosa utópica do programa cultural e político norte-americano, bem
como o formato ideológico geral desse programa, fez surgir um dos aspectos mais
importantes do modo de vida americano: uma combinação de aceitação forte e
enfática da estrutura institucional básica, especialmente a constitucional, com
uma forte desconfiança das autoridades e do governo.
As breves observações comparativas sobre alguns aspectos da dinâmica social e
política nos Estados Unidos, no Japão e na Europa ressaltam alguns dos
problemas mais gerais das características básicas de diferentes modernidades e
de alguns dos fatores que influenciam a cristalização desses diferentes
programas de modernidade.
Tal análise indica que, entre esses fatores, duas dimensões básicas da
construção da ordem social são de grande importância: a construção da
identidade coletiva e as premissas de autoridade e ordem social. A análise
dessas dimensões de ordem social tem sido, na maior parte da literatura das
ciências sociais, negligenciada, ou suas constelações europeias específicas têm
sido tomadas como certas na investigação das sociedades modernas. Contudo,
embora essas dimensões sejam sempre estritamente entrelaçadas com as formações
econômicas e de poder enfatizadas em tais análises, elas exibem fortes
tendências à autonomia e são de crucial importância no remodelamento da
dinâmica de diferentes sociedades modernas - de fato, mais amplamente, de
qualquer padrão de interação social contínua e de ordem social27.
Um dos aspectos mais importantes na constituição de identidades coletivas é a
forma com que componentes primordiais, civis e sagrados se entrelaçam nelas.
Esses componentes eram estritamente entrelaçados em várias dimensões das
premissas de ordem social e política, especialmente nas relações entre
hierarquia e igualdade, e na relação estreita, mas não idêntica, em que a
autoridade é responsabilizada em termos transcendentais, e não puramente
imanentes. É a diferença entre essas duas dimensões que explica algumas das
diferenças entre as ordens políticas e os movimentos de protesto norte-
americanos e japoneses.
As duas formas contrastantes - embora imagens espelhadas uma da outra - de
constituir identidade coletiva e concepção de ordem social e de autoridade e a
forma de sua legitimação nos Estados Unidos e no Japão devem ser brevemente
comparadas com o que se estabeleceu na Europa. Uma das características mais
importantes da construção das identidades coletivas na experiência europeia
histórica, especialmente na moderna, foi a forma com que os elementos
primordiais, civis e universalistas continuamente se entrelaçaram em diversos
países europeus.
Em todas as sociedades europeias modernas, estabeleceu-se um confronto contínuo
entre os componentes primordiais das identidades coletivas, continuamente
reconstruído em termos modernos, tais como nacionalismo e etnicidade, e os
componentes universalistas e civis modernos. A forma de entrelaçamento desses
diferentes componentes de identidade coletiva configurou fortemente alguns dos
aspectos mais importantes da dinâmica institucional de diferentes sociedades da
Europa, especialmente o escopo do pluralismo que lá surgiu. Sociedades em que
os componentes primordiais foram subordinados com relativo sucesso aos
componentes civis e universalistas, e todos foram "pacificamente" entrelaçados
na construção de suas respectivas identidades coletivas permitiram um escopo
relativamente amplo de arranjos pluralistas.
As tendências contrárias à absolutização das principais dimensões da
experiência humana e da ordem social, bem como a simultânea exclusividade
baseada em princípios, forneceram um pano de fundo propício ao surgimento de
vários movimentos radicais com tendências jacobinas: a esquerda revolucionária
e os nacionalistas radicais. Todos esses movimentos, porém, se passaram dentro
da estrutura das premissas básicas de conceitos europeus de ordem social e
política e de identidade coletiva que divergiam enormemente das premissas
norte-americanas e japonesas.
NOTAS
1. Esse conceito foi inicialmente desenvolvido em Multiple Modernities
(Eisenstadt, 2002b) e em Die Vielfalt der Moderne (Eisenstadt, 2000). A análise
da experiência histórica japonesa é vista de forma mais completa em Eisenstadt
(1996).
2. Ver Eisenstadt (2002a) e Roniger e Sznajder (1998).
3. Ver Smith (1985), Baechler (1975; 1988) e Mutel (1988).
4. Ver Duus e Okimoto (1979); Arieli e Rotenstreich (1984), sobretudo a parte
II, intitulada "Totalitarian Democracy - Cultural Traditions and
Modernization", pp. 83-164; e Tipton (1977).
5. Ver Ohnuki-Tierney (1991), Gluck (1985), Hoston (1986), Masanori (1997) e
Fujitani (1993; 1996). Para desenvolvimentos posteriores, ver Fujitani (1992),
Mayer (1991), Sakamoto (1989) e Yoshihiko (2001).
6. Ver Hoston (1990), Notehelfer (1990), Najita (1971) e Morley (1971).
7. Ver Duus e Okimoto (1979) e Hoston (1990).
8. Ver Rozman (1991).
9. Como diz Nosco (1984:9-10): "Por exemplo, numa história japonesa inspirada
em Confúcio, o filho de Hayashi Razan (1583-1657), Hayashi Gaho (1618-1680),
projetou o leayasu Tokugawa na aparência clássica do novo destinatário ungido
do Mandato do Céu, dando-lhe condição moral e espiritual para a tarefa de
governo humano. No entanto, o oposto dessa questão - que o céu pode retirar o
mandato de qualquer regime desumano - foi, por necessidade, relegado por todos
os pensadores confucianos até o final do período Tokugawa". Ver também Hsu
(1971) e Webb (1968).
10. Watanabe (1992) faz uma observação parecida: "Esse relacionamento do
samurai com seu senhor é extremamente diferente, em qualquer fase, daquele do
acadêmico-burocrata chinês e o imperador. E é claro que difere do ideal
neoconfuciano desse relacionamento [...]. [...] Um discípulo de Zhu Xi escreveu
na biografia de seu mestre. O mestre se preocupava com as questões de Estado o
tempo todo. Quando ouvia sobre os defeitos da atual administração, ele ficava
angustiado. Quando ele falava da situação deteriorada do estado, lágrimas caíam
de seus olhos. Contudo, ele respeitava a tradição antiga, Li, de que um homem
virtuoso hesita em servir. Portanto, toda vez que lhe ofereciam um cargo
oficial, ele fazia de tudo para recusar. Dava muita importância à moda antiga,
Li, de que um vassalo não hesita em renunciar. Portanto, quando sua opinião não
coincidia com a do senhor, ele renunciava imediatamente. Não tinha coragem de
destruir o Caminho para conseguir e manter um cargo oficial. Não ousava
comprometer-se com opiniões vulgares, porque simpatizava com o povo [...].
[...] Este é um relacionamento muito racionalista. Não há apego emocional ao
senhor. Ele fugia do serviço, porque respeitava mais o princípio [...]. [...]
Podemos ver o caráter racionalista e normativo da imagem de Zhu Xi sobre o
relacionamento senhor-vassalo aqui. O contraste do relacionamento do samurai
com seu senhor é impressionante. Mesmo assim, os confucionistas japoneses
pensavam no relacionamento do samurai quando liam os ensinamentos
neoconfucianos sobre os relacionamentos do acadêmico-burocrata. Devem ter
ficado envergonhados às vezes. Eles entendiam que o tema deles era bem
diferente do tema dos filósofos chineses. [...] Então aqui estava uma grande
tarefa para os confucionistas japoneses. Parece-me que a maioria deles aceitava
ou se comprometia com a versão samurai do relacionamento leal. [...] Ao
contrário da China, no Japão a obrigação de um vassalo perante seu senhor
frequentemente era vista como anterior à sua obrigação para com seu pai, como
muitos acadêmicos têm apontado; e os confucionistas, quase de forma unânime,
aplaudiam a façanha dos samurais de Ako sem mestre, os heróis da famosa peça
Chushingura, embora houvesse algumas exceções notáveis".
11.Ver também Irokawa (1993) e Weiner (1994).
12. Ver Silberman e Harootunian (1999), Silverberg (1990) e Bernstein (1991).
13. Ver Ketelaar (1990:96-98).
14. Ver Caiger (1968:51-83).
15. Ver Irokawa (1985, esp. o cap. 8) e Takeda (1989). Para uma discussão mais
geral, ver Duus (1976) e Silberman (1993).
16. Duus (s.d.) sugere que, ao argumentar contra uma importação direta de
instituições políticas estrangeiras, Okubo Toshimichi argumentou, em 1873, que
a seitai da Rússia não era adequada para se tornar a seitai da Inglaterra, e
esta não era adequada para se tornar a dos Estados Unidos, e nenhuma delas era
adequada para se tornar a seitai do Japão: "Nossa seitai deve ser erigida de
acordo com a terra, os costumes, o sentimento popular e as tendências de nosso
próprio país".
17. Ver Duus (s.d.).
18. Como disse Hoston (1986:28), "o imperador (tenno ou mikado) ocupou a
posição central no pensamento político Meiji oficial. Ele comprimiu os
conceitos de nação e Estado em um só, e demonstrou quanto o Estado - a
organização política - tradicionalmente absorvia a nação - a comunidade ou a
sociedade política em geral - no pensamento japonês. O tenno estava no vértice
dos dois, como a cabeça patriarcal da kokutai singularmente japonesa (que só
pode ser traduzida inadequadamente como 'governo nacional', ou 'organismo
nacional'), incorporando raça, etnicidade, linhagem e espiritualidade num
conceito só; e como o governante político de um Estado (seitai) monárquico
constitucional. No contexto do sistema internacional militarista ao qual a
Restauração Meiji foi uma resposta, o tenno foi, de uma só vez: 1) um monarca
constitucional, o monarca de um Estado autoritário estabelecido pela
Constituição Meiji e outorgado pelo imperador [não reivindicado pelo povo]; 2)
o generalíssimo (daigenshi), o monarca como o ápice de autoridade de comando
supremo sobre as Forças Armadas, independentemente do controle do gabinete; e
(3) um monarca de direito divino, representando autoridade religiosa ou
espiritual no lugar da autoridade do cristianismo ocidental". Ver também
Williams (1994, esp. o cap. 9, "A Japanese Lesson: Language and Nationalism")
para o tipo específico e distinto de Estado moderno que se desenvolveu no
Japão.
19. Ver Silberman (1993) e Pyle (1969). Ver também Yamashita (1996). Para as
implicações políticas, ver Williams (1994, cap. 9).
20. Ver Scalapino (1983).
21. Em certa medida, isso foi possível pelas diferenças entre os sistemas
eleitorais das duas sociedades. Os partidos socialista e comunista não fizeram
parte da coalizão governista, exceto por um breve período de tempo.
22. Ver Bernstein (1991), especialmente os artigos "Yosano Akiko and the Taisho
Debate Over the 'New Women'", de Laurel Rasplica Dodd, pp. 175-198; "Activism
among Women in the Taisho Cotton Textile Industry", de Barbara Molony, pp. 217-
238; e "The Modern Girl as Militant", de Miriam Silverberg, pp. 239-260. Ver
também Kasza (1990) e Burkolter-Trachsel (1984).
23. Ver Krauss (1974) e Steiner, Krauss e Flanagan (1980).
24. Ver Sakamoto (1989).
25. Para uma das primeiras análises, ver Itani (1938).
26. Ver Wilson (1992, esp. o cap. 2) e Najita (1985).
27. Ver Eisenstadt (1995, esp. os caps. 1 e 13).