Perfis do professorado da rede pública de São Paulo: a interação entre espaço,
regras institucionais e escolhas individuais no resultado de uma política
pública
INTRODUÇÃO
As principais análises contemporâneas da área de políticas públicas buscam
compreender como as regras institucionais condicionam as ações dos agentes
responsáveis por sua formulação e que impacto essa dinâmica acarreta no
resultado dessas políticas (Immergut, 1998; Peters, 2005). Mais raramente, as
escolhas dos agentes encarregados da implementação direta das políticas
públicas - médicos, professores, policiais etc. - também são consideradas.
Uma exceção importante é dada pela literatura relativamente secundária da área
de implementação de políticas públicas. Por exemplo, Lipsky (1983) e Weiss
(1998) argumentam que os resultados das políticas públicas são afetados também
pela discricionariedade desses funcionários que trabalham em contato com os
usuários dos serviços públicos, também denominados "burocratas do nível da
rua"1. Assumindo essa perspectiva, pretendemos argumentar, neste artigo, que as
escolhas dos profissionais de educação - condicionadas por aspectos
institucionais e pela organização socioespacial da cidade - influenciam
significativamente a alocação de docentes nas escolas públicas de São Paulo,
com possíveis impactos distributivos.
Estudos recentes ressaltam a complexidade analítica envolvida na interpretação
dos resultados de políticas educacionais, dada a presença de diversos fatores
que atuam simultaneamente no processo de implementação (Honig, 2006). Tal
política se realiza na interação de diversos atores (professores, diretores,
coordenadores, gestores públicos etc.) com as diversas instâncias
institucionais (escolas, delegacias de ensino, secretarias municipais,
secretarias estaduais etc.), que, ao longo do processo de implementação, tendem
a transformar a intenção original dos formuladores da política em algo diverso
do planejado originalmente. Nesse sentido, uma política desse tipo não pode ser
entendida como "uma única realidade", isto é, um processo implementado
homogeneamente em todas as escolas e em todas as regiões de uma cidade ou de um
país. Embora a formulação e o desenho dessa política explicitem regras
universais, passíveis de serem aplicadas regularmente em todas as escolas,
observam-se frequentemente dinâmicas não esperadas, e até mesmo perversas, não
necessariamente previsíveis durante o processo de formulação.
Quase sempre sem dialogar com a literatura de implementação de políticas, a
literatura internacional da área de educação destaca com frequência o papel do
professor no desempenho escolar dos alunos (Hanusheck, 1999), ressaltando
aspectos relativamente inesperados, uma vez que nem sempre os professores com
melhor formação acadêmica são os que produzem maior impacto educacional. Na
literatura latino-americana, temas como o salário dos professores (Menezes
Filho e Pazello, 2007), o nível de motivação dos professores (Soares, 2005), os
modelos e as imagens que os professores constroem a respeito dos alunos pobres
(Román, 2003) e suas escolhas quanto ao local de trabalho (Torres et alii,
2008) são considerados, analiticamente, fatores intervenientes mais ou menos
relevantes2.
Entre os fatores mais discutidos na literatura, encontram-se o salário do
professor, o grau de motivação, a experiência de ensino, o nível de
escolaridade e a estabilidade no cargo. Por exemplo, em estudo recente sobre o
ensino no Brasil, Menezes Filho e Pazello (2007) sugerem que a estabilidade e o
tempo de carreira (mais de 15 anos) teriam impactos negativos na motivação ou
no estímulo desses profissionais para dar aulas. Torres et alii (2008)
identificam, por outro lado, efeitos perversos da "instabilidade" dos
professores em regiões com alta concentração de pobreza na cidade de São Paulo
em função da alta rotatividade dos quadros profissionais, comprometendo a
continuação do projeto pedagógico dessas escolas. Portanto, não há um consenso
absoluto sobre qual perfil de profissional tende a estar associado a um melhor
desempenho educacional dos alunos, ainda que atributos como o nível e a
qualidade da formação profissional e o grau de motivação apareçam como
elementos importantes nos estudos desse tipo.
Neste artigo, o objetivo é identificar como os diferentes grupos de
profissionais de ensino (anos iniciais do ensino fundamental) se distribuem do
ponto de vista espacial e como tal distribuição é influenciada pelas regras
institucionais existentes e pelas escolhas individuais dos professores. Vale
notar que este estudo se baseia, em parte, na análise realizada por Figueiredo
et alii (2005) para o município de São Paulo, que indicava que fatores
institucionais induziam um acesso desigual a serviços públicos por parte da
população com rendimentos mais baixos. Em relação aos serviços educacionais, os
resultados evidenciaram, por exemplo, que o tempo de permanência da criança na
escola era influenciado por fatores institucionais como tipo de dependência
administrativa das escolas (estadual e municipal). Torres et alii (2008), por
outro lado, observaram que regras de contratação e de alocação de professores
influenciavam a oferta de serviços educacionais em distintos espaços da mesma
cidade.
Pretendemos mostrar que os diversos tipos de professores não são igualmente
distribuídos nas diferentes áreas da cidade e que isso tem consequências para
as políticas educacionais. Levando em consideração o resultado de pesquisas
anteriores, sobretudo no que diz respeito à possibilidade de encontrar padrões
de oferta de serviços educacionais diferenciados segundo o tipo de rede, esta
análise foi viabilizada a partir de um survey com 802 professores de escolas
públicas de 1ª a 4ª série do ensino fundamental das redes municipal e estadual,
realizado pelo Centro de Estudos da Metrópole, do Centro Brasileiro de Análise
e Planejamento (CEM-Cebrap), em 2007.
Esta pesquisa foi elaborada a partir de uma amostra estratificada de
professores de escolas públicas de 1ª a 4ª série do ensino público, segundo uma
estratificação que considerou o tipo de rede (estadual/municipal), o rendimento
escolar dos alunos por escola (baixa e alta pontuação no índice de rendimento
da escola elaborado a partir do Saresp 2005 - Sistema de Avaliação de
Rendimento Escolar do Estado de São Paulo - e da Prova Brasil 2004) e a
localização espacial da escola. Foram entrevistados apenas dois professores por
escola, distribuídos por turnos, sendo que critérios foram adotados para evitar
a influência da direção da escola sobre a entrevista. A amostra final
apresentou maior proporção de professores de escolas municipais em virtude da
maior dificuldade de implementar a pesquisa na rede de ensino estadual, que
mostrou mais resistência para outorgar o acesso dos pesquisadores às escolas. O
questionário foi desenvolvido a partir de entrevistas em profundidade de grupos
focais, realizados em etapas anteriores do projeto.
Além de uma análise univariada de dados desse survey, recorre-se aqui ao método
grade of membership (GoM), que permite construir tipologias de professores com
base nos atributos (autodeclarados) desse profissional. Consideramos também, na
modelagem, dimensões institucionais relacionadas à lógica de operação do
sistema de ensino. Finalmente, os perfis identificados foram espacializados a
fim de observarmos até que ponto o professorado pode ser considerado homogêneo
ou não em todos os locais da cidade de São Paulo.
Nossos resultados mostram que, a despeito das regras "racionais-legais"
adotadas pelo sistema educacional, tais como a impessoalidade e o caráter
técnico da seleção (válidas de forma universal para todos os professores), é
possível observar uma variação considerável no perfil dos professores que
lecionam nas diferentes regiões da cidade e, simultaneamente, revelam um quadro
bastante complexo do sistema educacional.
Em um estudo baseado em métodos qualitativos, Torres et alii (2008) propunham o
argumento de que as regras institucionais acabavam por gerar, ainda que de
forma não intencional, incentivos para que uma parte significativa dos
professores optasse por atuar em escolas mais centrais ao longo da evolução de
sua carreira. Um dos discursos mais frequentes desses profissionais era que, em
algumas escolas localizadas em áreas com alta concentração de pobreza, a
rotatividade do corpo docente e dos cargos de direção era mais frequente do que
em escolas localizadas nas áreas mais centrais e ricas da cidade. Os fatores
explicativos associados a tal comportamento eram a distância e o tempo para
chegar à escola, o menor grau de organização da comunidade local e o perfil dos
alunos (menor escolaridade dos pais ou "famílias desestruturadas", nas palavras
de alguns profissionais). Como consequência, parte considerável dos
entrevistados declarava ter como meta mudar para escolas mais centrais ao longo
da carreira. A presente análise retoma esses argumentos a partir de dados
quantitativos, buscando também mostrar que parte dos professores que trabalham
em escolas localizadas em áreas com alta concentração de pobreza da cidade
tende a estar menos preparada ou menos motivada com o trabalho e mudaria dessas
escolas se tivesse oportunidade.
O artigo está dividido em três partes, além desta introdução e da conclusão. Na
primeira parte, discutimos a heterogeneidade de resultados da política
educacional e sua relação com o processo de implementação. Na segunda,
realizamos uma análise da distribuição espacial da oferta de serviços do ensino
fundamental das redes estadual e municipal. Finalmente, apresentamos uma
tipologia de professores da rede de ensino público municipal e estadual, e
discutimos o significado da distribuição desses perfis segundo a localização
das escolas em que tais professores lecionam.
DEBATE SOBRE DESIGUALDADE, ESPAÇO E IMPLEMENTAÇÃO DE POLÍTICAS EDUCACIONAIS
Apesar do forte aumento da oferta de serviços educacionais no Brasil e do
avanço no sentido de sua universalização nas principais regiões metropolitanas,
persistem importantes desigualdades educacionais no interior dos sistemas
públicos brasileiro e paulistano (Barros et alii, 2001; Torres, Gomes e
Ferreira, 2005)3. Vale notar que a desigualdade na oferta de serviços entre
áreas com alta concentração de pobres e áreas tipicamente de renda média ou
alta, caracterizada, por exemplo, a partir de indicadores como os relacionados
à qualidade dos equipamentos educacionais e ao perfil do corpo docente, é
altamente perturbadora para uma política universal que busca, em última
instância, contribuir para a redução das desigualdades sociais a longo prazo.
Diferentes estudos sobre áreas metropolitanas sugerem que a chamada segregação
residencial acarreta consequências do ponto de vista da reprodução da pobreza e
da desigualdade até mesmo no interior da escola (Durlauf, 2001; Wilson, 2008).
É mais raro observar, porém, na área educacional, análises que investiguem a
natureza dos serviços públicos efetivamente presentes nas áreas com alta
concentração de pobres e políticas que condicionem a oferta desses serviços. A
rigor, não pretendemos tratar aqui a segregação como uma variável explicativa
da desigualdade educacional. Ao contrário, buscamos observar a heterogeneidade
espacial que se forma no interior de um sistema educacional que deveria, em
tese, ser homogêneo espacialmente. Nesse sentido, queremos observar até que
ponto o próprio sistema educacional, dadas suas características, contribuiria
ou não para a reprodução e a perpetuação de desigualdades já existentes.
Entendemos que os processos de implementação de políticas - por meio das
escolhas dos profissionais que as executam localmente ou por meio das
estratégias espaciais eventualmente existentes por parte dos gestores das
políticas - podem contribuir para a diferenciação territorial da oferta das
políticas sociais criando, reforçando ou combatendo processos de segregação.
Vale lembrar que qualquer política social, quando implementada no espaço
metropolitano, implica, por parte dos gestores públicos, decisões mais ou menos
arbitrárias sobre onde investir, onde implementar equipamentos sociais, que
profissionais alocar em cada área etc. Tais decisões podem ter, em muitos
casos, consequências distributivas, sobretudo quando a distribuição dos grupos
sociais no espaço for muito heterogênea4.
A presente análise destaca, assim, o caráter não determinístico da política
educacional, isto é, entendendo o resultado dessa política não apenas como
fruto da lógica dos formuladores mas também como condicionada pelo contexto em
que é implementada e pelas escolhas dos profissionais do "nível da rua" (Hill,
1982; Barret, 2004). Em outras palavras, acreditamos que os resultados das
ações públicas são também afetados pelas interações entre os diferentes níveis
governamentais e administrativos, bem como pela escolha discricionária de
quadros técnicos e de trabalhadores de linha de frente e/ou burocratas, que
implementam tal política no dia a dia.
Em síntese, como consequência dos processos de formulação e implementação, a
configuração espacial de uma dada política pública pode assumir diferentes
formatos, seja no que tange à distribuição de investimentos em infraestrutura e
equipamentos, seja no que diz respeito a decisões sobre a alocação e a
disponibilização de serviços e de recursos humanos. Todos esses elementos podem
ter consequências distributivas e induzem a variações na qualidade e na
diversidade de serviços oferecidos em nível local.
EVIDÊNCIAS SOBRE A POLÍTICA DE ENSINO FUNDAMENTAL EM SÃO PAULO
Uma primeira evidência importante a respeito da heterogeneidade da distribuição
dos docentes diz respeito à disposição espacial dos professores efetivos e não
efetivos da rede estadual nas diferentes diretorias de ensino (Mapa_1). Podemos
observar a marcante presença de profissionais não efetivos nas diretorias de
ensino mais distantes do centro e do vetor centro/sul da cidade de São Paulo,
como as diretorias Sul 2 e 3, e Leste 2 e 3. Os profissionais não efetivos são
aqueles contratados em regime precário, sendo que parte deles fez concurso
público e não foi aprovada. Como o Estado de São Paulo passou um longo período
sem concurso, os professores concursados tendem a migrar paulatinamente para as
"melhores escolas" - boa parte delas localizada em áreas centrais, que também
são áreas com baixa concentração de pobreza, enquanto novos professores
temporários são alocados em escolas mais distantes do centro. Vale notar que as
escolas das áreas periféricas, e também mais pobres, têm os alunos com o pior
acesso à pré-escola, além daqueles oriundos de famílias de menor nível
educacional.
Os dados obtidos a partir do survey de professores da rede de ensino pública de
São Paulo, em 2007, indicam também maior presença de professores temporários em
escolas estaduais do que em escolas municipais (Tabela_1). Podemos observar que
boa parte dos professores da rede estadual declara não fazer parte do quadro
permanente da escola. Como vimos no Mapa_1, a proporção de não efetivos é mais
significativa em áreas de alta concentração de pobreza, na periferia urbana. No
caso das escolas municipais, porém, a proporção de não efetivos é muito menor.
Trata-se provavelmente de um sistema que faz concursos com muito mais
frequência, tornando a categoria "não efetivos" um fenômeno relativamente
residual.
Não temos elementos suficientes para interpretar o significado da elevadíssima
proporção de não efetivos em escolas estaduais. É provável que tal fenômeno
esteja relacionado aos custos de manutenção dos professores concursados,
inclusive em função dos impactos previdenciários associados. Outra hipótese diz
respeito a uma estratégia não explícita dos governos estaduais de
enfraquecimento das organizações sindicais, que são muito atuantes nessa
categoria. Em qualquer hipótese, a grande presença de professores em situação
funcional mais instável e sua maior concentração em áreas pobres (como indicado
no Mapa_1) sugerem claramente que o sistema estadual é heterogêneo do ponto de
vista espacial. Quando considerados outros elementos, como o tempo de
permanência na escola, a formação acadêmica dos professores, o absenteísmo
destes e o tempo de deslocamento do professor até a escola, podemos observar
que existem diferenciais declarados entre áreas pobres e não pobres presentes
para todas as variáveis consideradas em escolas estaduais e municipais (Tabela
2). As distinções entre áreas pobres e não pobres foram definidas aqui a partir
de uma análise do tipo Moran Local para a escolaridade média dos chefes de
domicílio dos setores censitários do Censo de 20005.
De fato, os professores que trabalham em áreas com alta concentração de pobreza
declaram ministrar em média menos de quatro horas de aula por dia (o que é
quase universal nas escolas municipais), possuir uma qualificação mais baixa,
faltar com mais frequência e investir mais tempo no deslocamento até a escola.
Embora alguns desses dados possam estar subestimados em função da
autodeclaração (sobretudo no que diz respeito à informação sobre faltas e à
classificação no último concurso para professor), podemos observar que as
escolas de áreas mais pobres se encontram em situação menos favorável para
todos os indicadores selecionados.
A rigor, mesmo que alguns dos diferenciais observados pareçam relativamente
baixos, observa-se aqui uma espécie de efeito cumulativo: a existência de
escolas e de áreas que reúnem um número maior de professores que agregam,
simultaneamente, muitos atributos "negativos" do ponto de vista educacional e,
ao mesmo tempo, localizadas em regiões mais pobres, isto é, recebendo maior
frequência de alunos oriundos de famílias menos escolarizadas. Em outras
palavras, as áreas mais pobres recebem as escolas com maior proporção de
professores com características desfavoráveis. Certamente, parece se tratar de
uma forma não planejada de discriminação negativa.
Quando associamos tais dados aos da oferta de equipamentos educacionais
(conforme declarados pelos professores), as escolas de áreas pobres se
sobressaem novamente de modo negativo (Tabela_3). Vale notar que, mesmo quando
os equipamentos existem, não necessariamente são usados pelos professores ou
pelos alunos para fins educacionais. Como verificamos no relato de professoras
e de diretoras entrevistadas em pesquisa qualitativa, esses equipamentos muitas
vezes ficam trancados por questão de segurança, restringindo, com isso, o uso
por parte dos alunos. Mais uma vez, embora os diferenciais não sejam muito
altos, as escolas de áreas mais pobres são mais mal classificadas, segundo
todos os indicadores considerados.
Assim, o conjunto de dados apresentados aqui sugere que a distribuição de
professores não efetivos, a ocorrência de professores com características
desfavoráveis e a ausência de equipamentos educacionais em uso efetivo são
desproporcionalmente concentradas nas escolas localizadas nas regiões mais
pobres da cidade. Tais carências se somam às desvantagens individuais derivadas
da pior condição socioeconômica, como a escolaridade da mãe, a cor da pele, os
problemas do local de moradia etc. Tudo isso contribui, provavelmente, para
tornar as desigualdades sociais existentes em São Paulo mais persistentes ao
longo do tempo (Tilly, 1999).
Contudo, vale notar que tais resultados são derivados de uma análise
univariada. A fim de avançar na compreensão sobre como esses aspectos se
combinam na realidade, criamos tipologias de professores da rede pública com
base em modelos multivariados, buscando identificar melhor um universo que é
provavelmente muito mais complexo e diversificado do que o apresentado até o
momento. Detalhamos os resultados na seção seguinte.
ESPAÇO E PERFIL DO PROFESSOR DA REDE PÚBLICA
Em função do constatado na seção anterior, isto é, de que existem variações
importantes no tipo de profissional de ensino segundo o tipo da região em que
se localiza a escola, buscamos agora construir uma tipologia de profissionais
do ensino público fundamental. A análise está baseada na metodologia de grau de
associação, ou GoM (grade of membership). Tal metodologia é da família de
modelos estatísticos fuzzy, que é utilizada na interpretação de dados
heterogêneos, vagos ou difusos. Essa abordagem é particularmente apropriada
para representar contínuos, propiciando melhores resultados do que os modelos
que trabalham com categorias discretas e marcadamente distintas, como é o caso
de regressões lineares ou logísticas. Estatísticas fuzzy são também
recomendadas para situações em que as características definidoras do objeto de
análise têm várias dimensões e são, portanto, representadas por diversas
variáveis (Sydenstricker-Neto, 2004).
O GoM foi desenvolvido por Woodbury e Manton (1982) e originalmente aplicado a
análises de sistemas de diagnóstico médico (Manton, Woodbury e Tolley, 1994;
Woodbury, Clive e Garson Jr., 1978; Woodbury e Manton, 1982). Com o decorrer
dos anos, sua aplicação atingiu outras áreas do conhecimento, como a
psicologia, a demografia e o sensoriamento remoto (Berkman, Singer e Manton,
1989; Davidson et alii, 1988; Lamb, 1996; Piccinelli et alii, 1999; Portrait,
Lindeboom e Deeg, 2001; Talbot et alii, 1999). No Brasil, tem sido utilizado na
demografia e na sociologia para, por exemplo, estudos sobre o mercado de
trabalho (Guimarães e Melo, 2008). Para mais detalhes sobre a metodologia, ver
o Anexo_1.
As variáveis consideradas na análise foram agrupadas em três grupos principais:
1) atributos sociodemográficos: escolaridade, renda, cor/raça, faixa
etária e estado civil;
2) atributos profissionais gerais: carga horária semanal em todos os
trabalhos, trabalho adicional em outra escola, envolvimento com o
Sindicato dos Professores, tempo de trabalho como professor da rede
pública, tipo de vínculo de trabalho e classificação no último
concurso público para professor;
3) atributos profissionais relacionados à escola pesquisada: tempo de
trabalho na atual escola, tempo de permanência em sala de aula,
motivação quanto ao trabalho na atual escola, desejo de transferência
para outra escola, número de faltas em 2006, tempo de deslocamento
até a escola, principal meio de transporte utilizado para ir ao
trabalho e tipo de sistema escolar.
Os resultados encontrados nos permitem identificar três perfis puros de
professores6. Em primeiro lugar, destaca-se o perfil 1 (Quadro_1). Trata-se de
um professor com um nível de formação mais baixo do que os demais e um vínculo
empregatício mais fluido (não concursado). Apesar de a maioria desses
profissionais ter curso superior completo, é maior a presença de professores
que concluíram apenas o ensino médio, com ou sem magistério. São profissionais
que não fizeram concursos para o magistério ou que, quando o fizeram,
alcançaram baixa pontuação. A maioria está em início de carreira, trabalha há
até cinco anos como professor da rede pública e, dados o grau de instabilidade
funcional e a baixa pontuação em concursos e provas, possivelmente apresenta
alta rotatividade nas escolas em que atua: a maior parte estava, no máximo,
havia dois anos na escola atual.
Em termos de características socioeconômicas, esse grupo de professores vive
com uma renda familiar baixa, é jovem e apresenta maior proporção de solteiros
e de pessoas que se classificam como parda, preta ou indígena. Com relação ao
trabalho, tendem a permanecer em sala de aula mais de 4 horas e meia por
classe, cumprem carga horária semanal de até 39 horas em todos os trabalhos e
tendem a não trabalhar em outra escola. Trata-se provavelmente de profissionais
iniciantes, não plenamente formados e que, portanto, entram no sistema
educacional como professores contratados ou eventuais. Esse tipo de
profissional é mais facilmente encontrado na rede estadual de educação. Em
termos quantitativos, o perfil 1 soma cerca de 17% dos professores da rede
pública.
Em segundo lugar, chama também a atenção os professores pertencentes ao perfil
2. Têm como características predominantes alta qualificação profissional,
jornada de trabalho bastante intensa e participação nas atividades promovidas
pelo sindicato da categoria. Diferentemente do perfil 1, quase a totalidade dos
professores do perfil 2 era concursada e mais da metade declarou ter tido uma
pontuação alta ou muito alta no último concurso. Nesse perfil, estão os
professores de mais alta qualificação profissional entre todos os perfis puros
observados: praticamente todos têm o curso superior completo e cerca de um
quarto possui pós-graduação. São profissionais com algum tempo na carreira do
magistério (mais de 5 a 15 anos como professor da rede pública) e apresentando
mais tempo de permanência na escola em que atuam (entre mais de 2 e 10 anos).
Em termos de características socioeconômicas, o perfil 2 mostra um profissional
que vive com uma renda familiar intermediária (de mais de R$ 3.000 a R$ 5.000)
e com idade intermediária (com forte presença de pessoas entre 30 e 40 anos,
mas também com jovens com mais de 21 anos). Em termos de jornada de trabalho, a
principal característica que diferencia os professores desse perfil é a
quantidade de horas trabalhadas na semana: mais de 90% deles trabalhavam 50
horas ou mais, sendo que, na maior parte dos casos, essa jornada adicional era
realizada em uma segunda escola (87%). Com relação ao tempo de deslocamento de
casa para a escola, boa parte dos professores desse perfil leva de mais de 15 a
30 minutos. Contudo, o meio de transporte mais utilizado, no caso desse perfil,
é o automóvel (próprio ou carona), sugerindo que esses professores tendem a
residir longe do local de trabalho.
A combinação da longa jornada de trabalho semanal com o elevado tempo de
deslocamento de casa para o trabalho pode explicar a presença considerável de
professores nesse perfil que se declaram desmotivados. É também provável que a
elevada carga de trabalho e os problemas de deslocamento para a escola induzam
ao maior absenteísmo observado nesse grupo. Existe também a possibilidade de
que parte deles se considere sobrequalificada (over-qualified) para a posição
que ocupam, induzindo problemas de adaptação.
Com relação à rede de ensino em que esses profissionais atuam, mais de 75%
estão na rede municipal. Associado a esse ponto, esses profissionais estão mais
presentes em escolas localizadas em áreas da cidade com alta concentração de
pobreza (cerca de 73%), já que há maior presença de escolas municipais nessas
regiões. O curioso desse resultado é que, ao contrário do apresentado na
análise univariada, há profissionais do magistério altamente qualificados
atuando em escolas localizadas em áreas com alta concentração de pobreza, ainda
que isso seja em boa parte explicado pela maior presença de escolas municipais
nessas áreas. Isso não quer dizer que as escolas localizadas em áreas de alta
concentração de pobreza tenham sempre professores mais qualificados e estáveis,
como a análise univariada evidenciou. Em termos quantitativos, o perfil puro 2
correspondia a aproximadamente 14% do professorado da rede pública.
Os professores de perfil 3 têm como principais características uma longa
carreira como professor concursado da rede pública (mais de 96% trabalhavam
havia pelo menos 15 anos) e, como esperado, uma idade mais elevada. A maioria
tem mais de 40 anos de idade. Cerca de 95% tinha o superior completo, ou seja,
uma boa qualificação, porém a presença de profissionais com pós-graduação nesse
perfil é baixa em comparação aos professores do perfil 2.
Com relação às características socioeconômicas, esse grupo tem, em média, a
renda familiar mais alta entre todos os perfis (acima de R$ 5.000), concentra
uma proporção elevada de pessoas separadas, divorciadas e viúvas e de
indivíduos que se classificam como brancos ou amarelos. Com relação à jornada
de trabalho, esse perfil de professores tende a trabalhar entre 40 e 49 horas
semanais, estando mais frequentemente fixado em uma única escola.
Os professores desse perfil também passam mais tempo em sala de aula com os
alunos: mais de 4 horas e meia por dia. Assim como os professores de perfil 1,
esses profissionais também se caracterizam por não participar das atividades do
sindicato ou por não acompanhá-las. Em termos de tempo de deslocamento, os
professores de perfil 3 são os que levam menos tempo de casa para a escola onde
atuam: no máximo 15 minutos. Além disso, o principal meio de transporte é o
automóvel ou a pé, sugerindo que boa parte desses profissionais reside bem
próximo às escolas em que lecionam. Talvez essa seja uma importante razão que
explique por que apenas 2% dos professores desse perfil trocariam de escola se
tivessem a oportunidade de fazê-lo.
É possível que boa parte desses professores tenha se localizado no início de
suas carreiras em escolas de áreas com maior concentração de pobreza. Além
disso, é possível que, ao longo da progressão da carreira desse professor, ele
tenha tendido a se transferir para as áreas não pobres. Se tomarmos como
elemento adicional o fato de esse profissional ter tido uma elevada
classificação no último concurso, aliado às regras de transferência e de
escolha de escolas - que permitem aos mais bem classificados escolher primeiro
as escolas onde vão lecionar -, podemos notar que esses profissionais, os mais
experientes do ponto de vista de anos na carreira, acabam tendo incentivos para
atuar em escolas de áreas mais ricas, localizadas nas áreas centrais. As razões
para isso não se restringem apenas às próprias regras de incentivo do sistema
de classificação dos professores, mas também ao menor tempo de deslocamento até
suas residências. Com relação à rede de ensino predominante nesse perfil do
professorado, novamente aparece a rede municipal: cerca de 91%. Em termos
quantitativos, o perfil puro 3 corresponde a cerca de 9% do total do
professorado da rede pública.
Esses três tipos puros abrangem apenas 41% do universo dos profissionais
entrevistados. Para os 59% dos professores entrevistados, a técnica empregada
constrói combinações dos tipos puros identificados inicialmente, permitindo,
então, a construção de intermediários ou mistos, isto é, que apresentam
elementos combinados de dois ou três tipos puros7.
Para melhor compreender tal tipologia, apresentamos, no Gráfico 1 a seguir, a
distribuição de todos os tipos observados segundo o sistema educacional
(estadual ou municipal) e a localização da escola em que o tipo de professor em
questão leciona no espaço urbano (área com concentração de pobreza ou áreas
intermediárias e ricas).
Podemos observar uma clara distinção entre os perfis em termos espaciais e em
termos de tipo de sistema de ensino (estadual ou municipal). O perfil puro 1 e
as combinações nas quais predominam esse perfil (misto 1 com 2 e misto 1 com
3)8 são quase inteiramente constituídos de escolas estaduais. Isso é de se
esperar, uma vez que o principal atributo dos profissionais de tipo 1 é a maior
instabilidade quanto ao vínculo empregatício, isto é, não são professores
efetivos. Como quase todos os não efetivos pesquisados estão na rede estadual,
é natural que esse grupo se concentre nesse sistema. Em termos espaciais, o
tipo puro 1 e suas combinações se concentram um pouco mais fortemente nas áreas
com concentração de pobres, embora exista uma parcela importante de professores
com esse perfil em áreas intermediárias e ricas, conforme a análise univariada
já indicava.
O perfil puro 2 e as combinações em que predominam o perfil 2 ocorrem com mais
frequência em escolas municipais, exceto pelo grupo misto de 2 com 19. Trata-se
daquele grupo de professores que tem como principais características a melhor
qualificação, o excesso de carga horária e maior participação em atividades
sindicais. Em termos espaciais, eles tendem a estar mais concentrados em áreas
pobres, embora estejam também presentes, em alguma proporção, em áreas mais
ricas.
Em outras palavras, as áreas pobres parecem agrupar predominantemente dois
grandes perfis de profissionais, que merecem ser tratados distintamente,
conforme o tipo de sistema educacional:
a) Nas escolas estaduais de áreas mais pobres, é comum a presença do
perfil puro 1 e dos tipos com predominância do perfil 1. Isso ocorre
porque, como se trata de um sistema que ficou muitos anos sem
realizar concurso público, o processo de substituição de
profissionais e de ampliação territorial da rede se dá pela
incorporação de professores não efetivos e em caráter mais precário.
Decorre daí a maior frequência de professores mais jovens, com menor
escolaridade e pior pontuação nos concursos públicos (quando os
fizeram) que trabalham sobretudo em escolas em áreas de alta
concentração de pobreza.
b) Nas escolas municipais de áreas mais pobres, é mais comum a
presença de profissionais do perfil 2 e dos tipos mistos com
predominância do perfil 2. Trata-se de um sistema que realizou
concursos públicos com frequência nos últimos anos. Decorrem daí a
menor presença de não efetivos e a maior presença de profissionais
com melhor qualificação. Contudo, surpreendentemente, são também
aqueles agentes com carga horária mais elevada, maior tempo de
deslocamento para o trabalho e maior proporção de pessoas
desmotivadas.
Não temos dados objetivos para avaliar qual desses tipos de condição
educacional nas áreas mais pobres acarreta melhor ou pior nível de desempenho
escolar. Cada condição, a seu modo, revela problemas graves, não
necessariamente solucionáveis pelo recurso ao concurso público. No sistema
estadual, a ausência de concurso implica a concentração, sobretudo nas áreas
mais pobres, de uma elevada proporção de profissionais menos qualificados. No
sistema municipal, os profissionais de áreas com alta concentração de pobreza,
embora mais qualificados, são aqueles que parecem estar mais estressados em
consequência do excesso de jornada de trabalho, do tempo de deslocamento até a
escola e, possivelmente, por causa das dificuldades associadas ao ensino nessas
regiões, embora não tenhamos aqui elementos relevantes para avaliar esse último
aspecto.
Embora exista uma parcela expressiva dos perfis 1 e 2 e dos tipos mistos
associados a esses perfis em áreas não pobres (intermediárias ou ricas), essa
presença não caracteriza o principal elemento distintivo desses locais. Os
únicos grupos predominantemente concentrados em áreas não pobres são os perfis
puro 3 e misto 3 com 110. Vale notar que o perfil puro 3 tem como principais
atributos a presença de professores concursados, com carga horária
intermediária, idade mais elevada, boa classificação em concursos e renda mais
elevada. Claramente, trata-se dos profissionais mais experientes, que, por
motivos institucionais, tiveram condições de serem locados ou de migrarem para
as escolas das áreas com maior renda. Enquanto o perfil puro 3 reúne uma maior
proporção de professores da rede municipal, o perfil misto 3 com 1 apresenta
uma proporção considerável de professores da rede estadual. As demais
características são análogas.
Em síntese, a tipologia oferecida pelo modelo GoM, quando associada a aspectos
espaciais e institucionais da política educacional, parece oferecer elementos
de grande relevância para o entendimento do processo de implementação das
políticas educacionais em São Paulo. Destacam-se, sobretudo, os aspectos que
dizem respeito à política de recursos humanos das organizações responsáveis
pela implementação da política de ensino fundamental (secretarias Estadual e
Municipal de Educação). A seguir, na conclusão, buscamos extrair algumas das
principais consequências da análise realizada neste artigo.
CONCLUSÃO
Os resultados observados até aqui mostram alguns aspectos importantes do
processo de implementação da política educacional, aspectos muitas vezes
negligenciados pela literatura e pelos formuladores de políticas públicas. Os
principais elementos a serem destacados são, em primeiro lugar, as escolhas dos
profissionais que efetivamente implementam as políticas de educação11. Essas
escolhas aparecem em nossos resultados como bastante importantes para o
processo de implementação da política, como sugere o argumento original de
Lipski (1983). A rigor, do ponto de vista de uma perspectiva puramente
individual, é relativamente natural esperar que os profissionais de educação
não queiram ensinar nas escolas mais distantes, sobretudo no caso daqueles
profissionais com jornadas de trabalho maiores. Soma-se a isso o fato de que
essas escolas reúnem, muitas vezes, alunos que apresentam acúmulos de
desvantagens sociais e econômicas.
Embora existam políticas que tentam enfrentar esse dilema - tal como o chamado
adicional por local de exercício existente em escolas estaduais e municipais -,
até agora o sistema educacional não foi capaz de produzir incentivos
suficientes para reverter tal efeito, como os dados apresentados neste artigo
demonstram. Vale notar que, mesmo que essas escolhas sejam legítimas do ponto
de vista individual, elas podem acarretar resultados agregados indesejáveis do
ponto de vista da política mais geral.
Em segundo lugar, os arranjos institucionais das políticas públicas e, em
particular, os sistemas de incentivo associados influenciam as escolhas dos
profissionais de educação. Os resultados observados sugerem que os sistemas de
incentivo presentemente existentes contribuem para alocar mais frequentemente
em áreas com alta concentração de pobreza os profissionais mais descontentes
(no sistema municipal) ou os profissionais menos qualificados (no sistema
estadual). De fato, a longa ausência de concurso público no sistema estadual
contribui para a maior presença de profissionais menos qualificados e com menor
experiência profissional, localizados notadamente em escolas de áreas mais
pobres. Por outro lado, as regras impessoais de alocação e de promoção de
professores concursados contribuem para a maior concentração de profissionais
mais experientes e mais bem classificados em escolas de áreas mais ricas da
cidade, tanto no sistema municipal quanto no estadual.
Em terceiro lugar, parece claro que a dimensão espacial tende também a
condicionar as escolhas dos profissionais de educação e, de forma menos nítida,
no caso observado, o próprio processo de implementação. As grandes dificuldades
de deslocamento na cidade de São Paulo e, provavelmente, as dificuldades
explicitadas por professores nas entrevistas qualitativas de ensinar em escolas
localizadas em áreas, por exemplo, com altos índices de violência (Torres et
alii, 2008) tendem a impor "custos" monetários e não monetários aos
profissionais de educação que têm de se deslocar para lecionar nessas áreas.
Esse efeito pode ser mais bem observado entre os profissionais concursados,
pois eles têm alguma autonomia na escolha do local de ensino, autonomia
proporcionada pelo arranjo institucional da política.
Em outras palavras, na perspectiva apresentada neste artigo, o espaço importa
porque tal dimensão se articula às escolhas dos profissionais de educação e à
lógica de implementação da política. Trata-se, a rigor, de uma abordagem
bastante distinta de vários estudos contemporâneos da área de segregação que
enfatizam o impacto dos fenômenos denominados efeitos de vizinhança (Durlauf,
2001) - isto é, o impacto do processo de influência recíproca entre os alunos
(peer group effect) ou a influência dos adultos sobre os mais jovens (role
model effect) - como fatores decisivos na explicação de por que as variáveis
espaciais acarretam efeitos12.
Vale notar, porém, que não é trivial construir um sistema de incentivos
adequado, que permita contrabalançar as escolhas dos profissionais de educação
quanto aos locais de ensino. Tais dificuldades são significativas sobretudo
quando consideramos a rigidez da legislação que rege o magistério. Por exemplo,
a implementação de remuneração diferenciada para o exercício profissional em
locais "mais indesejáveis" do ponto de vista do professor esbarra em
dificuldades de toda ordem relacionadas ao problema da isonomia, à legislação
sobre direitos adquiridos e à própria dificuldade de identificar adequadamente
esses locais.
Em suma, produzir políticas educacionais homogêneas, em espaços urbanos tão
heterogêneos como os existentes no Brasil, é tarefa institucional de grande
importância e de grande dificuldade. Tais políticas demandam, provavelmente, a
adoção de mudanças significativas na estrutura de incentivos dos profissionais
de ensino e, a exemplo do caso uruguaio (Rematoso e Kaztman, 2008), a
implementação de escolas diferenciadas nos locais onde o sistema educacional
tem mais dificuldade de produzir resultados. Esperamos que este artigo possa
contribuir para esse debate.
NOTAS
1. No original, "street level bureaucracy" (Lipsky, 1983).
2. Menezes Filho e Pazello (2007) sugerem que os salários dos professores não
são fatores explicativos relevantes do desempenho escolar, mas não negam a
proposição de Hanusheck (1999), de que os professores são importantes no
processo educacional.
3. Tais elementos são amplamente evidenciados pelos resultados mais recentes
derivados do sistema público de avaliação escolar, como o Ideb (Índice de
Desenvolvimento da Educação Básica) e a Prova Brasil.
4. Por estratégias espaciais entendemos a possibilidade de determinado gestor
público priorizar, de forma explícita ou implícita, determinadas áreas urbanas.
Neste artigo, não aprofundamos a discussão desse tipo de estratégia.
5. A propósito dessa técnica, ver Anselin (1995). O mapa em questão não será
aqui apresentado em virtude do espaço. Foi utilizado o método de classificação
denominado queen contiguity de primeira ordem.
6. O GoM identifica inicialmente os chamados perfis puros, que são aqueles que
mais diferenciam as variáveis em questão. A seguir, destaca os chamados grupos
mistos, que agrupam combinações de grupos puros. O número de grupos puros
selecionados é de escolha do analista.
7. Os professores pertencentes aos perfis mistos compartilham características
de perfis extremos diferentes. De acordo com o critério utilizado neste estudo,
os perfis mistos têm predominância de características de um determinado perfil
extremo, combinadas, secundariamente, com um conjunto relevante de
características de outro perfil extremo (ver Anexo_1).
8. Em relação ao perfil puro 1, o professor com perfil misto 1 com 3 apresenta
uma carga horária de trabalho maior (de 40 a 49 horas), tem mais tempo
exercendo a profissão (mais de 15 anos), é motivado, não pediria transferência
da escola em que trabalha e leva mais tempo para se deslocar até a escola (mais
de 15 a 30 minutos). Em termos demográficos, é branco, encontra-se em uma faixa
etária mais elevada (mais de 40 a 50 anos) e é casado. Por outro lado, o
professor com perfil misto 1 com 2 apresenta uma carga horária de trabalho
maior (de 50 horas ou mais), leva mais tempo para se deslocar até a escola em
que trabalha (mais de 15 a 30 minutos), tem um rendimento inferior (mais de R$
2.000 a R$ 3.000) e trabalha em mais de uma escola.
9. Em comparação ao perfil puro 2, o professor com perfil misto 2 com 3
apresenta uma pontuação no concurso discriminante (sendo a pontuação muito
elevada ou elevada), tem um rendimento inferior (mais de R$ 2.000 a R$ 4.000) e
distingue-se também por aspectos demográficos: o professor desse perfil tem cor
da pele branca, amarela e preta. É interessante notar que, nesse caso, a
variável motivação não se mostrou discriminante; já no perfil puro 1, o
professor apresenta um alto grau de desmotivação. O professor com perfil misto
2 com 1 permanece mais tempo na escola em que trabalha, a variável pontuação no
concurso mostrou-se discriminante (sendo a pontuação muito elevada ou elevada),
apresenta uma remuneração ligeiramente inferior (mais de R$ 3.000 a R$ 4.000) e
leva menos tempo para se deslocar até a escola em que trabalha.
10. Em relação ao perfil puro 3, o professor com perfil misto 3 com 2 apresenta
tempo de permanência ligeiramente inferior (até 4 horas), tem maior número de
faltas (10 ou mais), é casado e participa do sindicato (é membro da diretoria
ou participa ativamente). O professor com perfil misto 3 com 1 apresenta duas
diferenças importantes: é da rede estadual e é motivado (sendo que a variável
motivação não se mostrou discriminante para o perfil puro). Além disso, possui
uma carga horária semanal inferior (até 39 horas), a pontuação no concurso foi
intermediária (portanto, inferior à do perfil 3, que se encontra na categoria
muito elevada ou elevada), é casado, tem uma remuneração inferior (mais de R$
4.000 a R$ 5.000) e a variável tipo de vínculo não se mostrou discriminante.
11. A literatura de política é, em geral, rica em análises que buscam
compreender as escolhas dos formuladores de políticas públicas, mas muito mais
pobre no entendimento das escolhas dos profissionais do nível da rua que
efetivamente implementam tais políticas.
12. Não negamos a existência de tais efeitos, mas ressaltamos a importância dos
elementos institucionais.