Visibilidade na mídia e campo político no Brasil
Os estudos sobre a relação entre os meios de comunicação de massa e a política
tendem a se concentrar em seu impacto sobre as campanhas eleitorais. Por um
lado, o advento dos meios de massa, em especial do rádio e da televisão,
alterou as formas de contato entre candidatos e eleitores, reduzindo a
centralidade dos partidos, exigindo novas formas de apresentação pessoal e
novos recursos oratórios e conferindo preeminência a um novo tipo de consultor
político (o "marqueteiro"). Por outro lado, as representações do mundo social
veiculadas pela mídia afetam as preferências dos cidadãos e, assim, influenciam
os resultados eleitorais. A maior parte da literatura sobre mídia e política,
tanto no exterior como no Brasil, gira em torno dessas questões1.
No entanto, a influência da mídia na ação política vai muito além dos processos
eleitorais. Os meios de comunicação de massa ecoam nos discursos parlamentares,
têm impacto na formação da agenda legislativa, fazem as vezes de fórum de
discussão para as elites políticas. E - o que interessa em especial ao presente
artigo - a visibilidade midiática é um componente importante na produção do
capital político. Mais ainda, as formas dessa visibilidade contribuem para
abrir ou fechar oportunidades e, desse modo, orientam as carreiras políticas.
Possuem impacto sobre a compreensão que os cidadãos comuns têm da política e do
comportamento de atores específicos e fazem parte, também, das relações e
formas de valorização dentro de partidos políticos e em diferentes espaços e
dimensões em que essas carreiras se constroem. Por isso, a gestão da imagem
pública, que é sobretudo a gestão da visibilidade pessoal na mídia, é uma
preocupação central e permanente dos atores políticos e não se limita aos
períodos de competição eleitoral.
Entendendo-se a política como um campohierarquizado, no sentido de Pierre
Bourdieu (1986), é insuficiente postular, como fazem muitos estudos sobre
carreira política, a "ambição progressiva" (Schlesinger, 1966; Rohde, 1979)
daqueles que desejam exercer o poder. A luta pela acumulação de capital
político, isto é, pelo acesso às posições centrais no campo, não se limita à
conquista de cargos eletivos mais elevados. Dois integrantes de uma mesma casa
legislativa podem possuir capacidades de influência muito diferenciadas, isto
é, suas posições no campo político são distantes entre si. Uma derrota
eleitoral numa disputa importante pode cacifar a posição de líder da oposição,
com maior peso nas negociações políticas, mais do que a conquista de um cargo
de menor expressão. Assim, os agentes no campo político lutam pela ampliação de
seu "capital" - entendido como o reconhecimento, pelos pares, de sua relevância
naquele universo -, o que inclui a obtenção de cargos, mas não se confunde com
ela.
O representante se afirma como tal por se constituir em porta-voz de
determinados setores sociais, reconhecido pelos seus representados e pelos
outros agentes políticos - o que também não se confunde necessariamente com o
exercício de um mandato formal. A concorrência entre os agentes no campo
político é uma concorrência pelo direito de falar em nome de outros. Um
componente importante para a obtenção desse direito é a visibilidade social.
Nas sociedades contemporâneas, a mídia é o principal espaço de produção dessa
visibilidade. O fato de que as ações dos políticos sejam potencialmente
visíveis age sobre a política mesmo quando o noticiário atinge um público
restrito ou tem pouco impacto sobre as percepções do público. Por isso, é
possível dizer que a visibilidade é um elemento importante por si mesmo
(Schudson, 1995:24-25), definindo uma lógica que precede suas peculiaridades em
contextos específicos.
É a partir daqui que se pode afirmar a relevância política dos meios de
comunicação de massa. Seu diferencial, entre outras instituições que têm
impacto para a construção do mundo simbólico, é conferir uma espécie de
"certificado de importância legítima" aos temas e personagens que torna
visíveis (id., ibid.:33). Assim, gerir a difusão da própria imagem na mídia se
torna uma das preocupações permanentes dos agentes políticos, que se esforçam
tanto para garantir visibilidade para si próprios - sem a qual suas pretensões
à liderança se esfumaçam -quanto para reduzir e, se possível, suprimir os
aspectos negativos nela contidos (Miguel, 2002).
A relação entre a visibilidade na mídia e a produção do capital político -
entendido como a incorporação, pelos agentes, dos elementos de valorização e
distinção reconhecidos, legitimados e naturalizados, em uma dada estrutura do
campo - no Brasil é o objeto deste artigo. Os meios de comunicação são
percebidos ao mesmo tempo como fonte e índice de capital político. A partir de
um conjunto de normas e valores que definem o que é noticiável e quem compõe a
notícia, os meios de comunicação (especificamente o jornalismo) conferem
distinçãona medida em que tornam visíveis determinadas personagens. Ao mesmo
tempo, a visibilidade é a "constatação", pelo jornalismo, de distinções e
competências definidas com base em normas, valores e hierarquias que regem o
campo da política e que os meios de comunicação absorvem2.
A homogeneidade da cobertura nos veículos de grande circulação está relacionada
ao compartilhamento, pelos jornalistas, de compreensões comuns sobre o que é a
política, em que espaços se dá e quais são os atores relevantes. O jornalismo
apresenta padrões rotineiros no contato com os atores políticos. Estes, por sua
vez, assimilam a lógica que colabora para a distinção de temas e personagens no
cotidiano da produção jornalística. A colaboração entre jornalistas e fontes
tem uma faceta menos explícita, a do acordo tácito quanto aos valores e aos
limites da política. Os atores políticos antecipam o que é capaz de atrair os
jornalistas, enquanto estes últimos antecipam as reações das suas fontes às
histórias noticiadas, em uma dinâmica que ressalta a colaboração entre o
jornalismo e a política e favorece determinadas abordagens (Cook, 2005:91).
A relação entre a visibilidade na mídia e a posição ocupada no campo político
apresenta características específicas, se considerarmos o sexo das personagens.
Nesse caso, a relação entre a presença escassa de mulheres na política e sua
pouca visibilidade na mídia se liga à vinculação delas a temáticas que definem
os limites para sua atuação e competência. É um exemplo de como a presença nos
meios de comunicação apresenta matizes diferentes e não é, em si, um ganho na
luta por posições políticas. A política veiculada no noticiário é composta de
temas e personagens que são posicionados de modo a confirmar ou a deslocar as
hierarquias ativas no campo político. Isso está relacionado ao fato de que
existe uma interface entre as hierarquias existentes em outros campos e a
presença nos meios de comunicação, isto é, à própria existência ampliada que a
mídia permite àqueles que atuam em campos sociais diversos. Mas está
relacionado às hierarquias presentes no noticiário, que organizam as posições
daqueles que conquistam essa visibilidade. As competências e estereótipos - de
gênero, mas não só - aos quais as personagens são vinculadas têm um papel na
construção e consolidação de suas carreiras.
Com base nessas constatações, o artigo analisa o resultado de uma ampla
pesquisa sobre as representações da política nos meios de comunicação de massa.
A seleção dos temas e personagens que estão presentes no noticiário, com a
observação, em particular, das diferenças entre homens e mulheres, foi
considerada um aspecto importante das formas assumidas pela política na mídia
brasileira. Por um período de quase dez meses, distribuídos ao longo de um ano
e meio, foi realizado o acompanhamento sistemático do noticiário de três
telejornais diários e de três revistas semanais de informação. A primeira seção
do artigo explica o desenho de pesquisa. A segunda mostra o perfil do
noticiário que emerge dos dados, enfatizando continuidades e diferenças entre
períodos e entre veículos. A terceira indica quem são as personagens do
noticiário político. A quarta analisa quem tem acesso à voz, nos telejornais e
nas revistas de informação, e de que formas. A quinta seção, enfim, foca as
diferenças, nesse noticiário, na presença de mulheres e de homens. Uma breve
conclusão discute qual o significado dos dados para o entendimento do que é a
política - quem a faz, quais seus limites - no Brasil.
A PESQUISA E SEU MÉTODO
Para a pesquisa, foi realizado o acompanhamento de três telejornais noturnos de
redes nacionais e de três revistas semanais de informação durante três períodos
de três meses cada, entre o primeiro semestre de 2006 e o primeiro semestre de
2007. A opção por períodos contínuos, no lugar da adoção de ferramentas de
amostragem, como a geração de "semanas compostas" ou "meses compostos",
permitiu o acompanhamento de determinados tópicos e da construção discursiva
associada a elas. O fato de esses períodos serem três momentos diferentes - um
período "pré-eleitoral" no começo de 2006, as eleições no fim de 2006 e um
período "pós-eleitoral" em 2007, quando os eleitos já haviam sido empossados -
contribuiu para equilibrar a amostra, compensando o peso que um evento
específico, como a própria disputa eleitoral, tem na cobertura da mídia.
A televisão é a mídia dominante no Brasil, país que combina altos índices de
penetração dos meios eletrônicos com fraca escolarização, que compromete tanto
a circulação da mídia impressa quanto a utilização da internet. Dados de 2007
informam que 97,1% dos lares possuem ao menos um televisor. E a televisão,
sozinha, recebe mais da metade da verba publicitária do país. Ainda que os
chamados "formadores de opinião", em geral, e a elite política, em particular,
tendam a privilegiar outros meios informativos, uma pesquisa entre deputados
federais indicou que 62,2% deles assistem a telejornais todos os dias - e
outros 23,6% assistem-nos algumas vezes por semana (FSB Comunicações, 2008:16).
A centralidade da televisão é confirmada pela circulação restrita da mídia
impressa. Em 2008, a circulação diária média dos principais jornais era de
4.351.000 exemplares, o que corresponde a aproximadamente 2% da população
(Instituto Verificador de Circulação, 2009).
Os telejornais incluídos na pesquisa foram o Jornal Nacional,o Jornal da Bande
o SBT Brasil,todos transmitidos diariamente (exceto aos domingos), na faixa de
programação noturna de maior audiência, o chamado "horário nobre". O Jornal
Nacionalé o principal produto informativo do maior conglomerado de mídia do
Brasil, a Rede Globo de Televisão, e foi o primeiro programa a ser exibido em
rede nacional. Se, no período da pesquisa, não estava mais no auge - como nos
anos 1970, quando ultrapassava os 70 pontos de audiência -, ainda superava a
média de 30 pontos, o que corresponde a mais de 2,5 milhões de espectadores
diários só na grande São Paulo. Trata-se, ainda, do telejornal mais assistido
pela própria elite política, apontado como o preferido por 60,6% dos deputados
federais (FSB Comunicações, 2008:17).
O Jornal da Band,da Rede Bandeirantes, é o mais tradicional concorrente do
Jornal Nacional,de uma emissora menor, mas com tradição em telejornalismo, ao
passo que o SBT Brasil,do Sistema Brasileiro de Televisão, era um investimento
novo na época. Na errática condução da emissora por seu proprietário, Silvio
Santos, representava uma tentativa de obtenção de respeitabilidade, conduzida
por uma profissional que havia sido uma das estrelas do jornalismo da Rede
Globo, Ana Paula Padrão. Ambos os telejornais tinham, à época, audiência média
em torno de 6-7 pontos.
As revistas analisadas pela pesquisa foram Veja, Épocae CartaCapital.
Aprimeira, da Editora Abril, circula desde 1968 e é a principal revista de
informação brasileira, com tiragem declarada superior a um milhão de exemplares
semanais. Ela se caracteriza pelo tom fortemente opinativo de suas matérias e
uma pouco disfarçada inclinação por posições políticas à direita, com histórica
aversão ao Partido dos Trabalhadores (PT), hoje no poder. A revista
Época,surgida em 1998 como adaptação brasileira da tradicional publicação alemã
Focus,pertence à Editora Globo - braço das Organizações Globo na mídia impressa
- e tem tiragem média semanal de cerca de 400 mil exemplares. Já a
CartaCapitalé um projeto do jornalista Mino Carta, que foi criador de diversos
veículos da imprensa brasileira, dentre eles a própria Veja.Surgida em 1994,
com periodicidade mensal, tornou-se quinzenal em 1996 e semanal em 2001. Com
tiragem em torno de 65 mil exemplares por semana, busca atingir um público de
elite, combinando uma cobertura política que se quer mais aprofundada com um
extenso noticiário sobre o mercado financeiro. Diferencia-se também por uma
postura vista como mais à esquerda e pela simpatia em relação ao governo Lula.
As revistas semanais não têm público tão amplo e diversificado quanto os
telejornais, mas possuem impacto junto aos chamados "formadores de opinião" e
um papel importante no agendamento recíproco entre os veículos. Um exemplo
conhecido do papel das revistas no agendamento de campanhas e na produção da
visibilidade (positiva ou negativa) dos atores é o da promoção de Fernando
Collor de Mello nos meses prévios à campanha de 1989, seguida, mais tarde, das
denúncias de corrupção, que culminaram no seu impeachment.Depois disso, as
revistas também tiveram um papel destacado na circulação das denúncias
relacionadas à chamada "crise do mensalão". Mas sua importância, ao produzir
uma "síntese" semanal do noticiário político, voltada para segmentos
específicos da população, não se restringe aos períodos eleitorais ou a eventos
específicos. Tendem a adotar um estilo mais "opinativo" e a intenção, nada
disfarçada, de orientar a apreciação de seus leitores sobre o mundo. Entre os
deputados federais, 87,8% afirmam ler revistas todas as semanas, com ampla
vantagem para Veja(78%), seguida de IstoÉ(52,8%), Época(40,2%) e CartaCapital
(25,2%) (FSB Comunicações, 2008:22-3).
O acompanhamento foi diário, no caso dos telejornais, e semanal, no das
revistas3. Foram observadas 12 semanas, entre 6 de março e 27 de maio de 2006;
15 semanas, entre 10 de julho e 28 de outubro de 2006; e mais 12 semanas, no
primeiro semestre de 2007 - entre 5 de março e 26 de maio para os telejornais e
de janeiro a março para as revistas. O período eleitoral é maior, de maneira a
abarcar do final da Copa do Mundo até a realização do segundo turno das
eleições, gerando dados comparáveis com pesquisas realizadas sobre a cobertura
jornalística em 1998 e 2002 (Miguel, 1999; 2003; 2004). Problemas técnicos na
gravação comprometeram uma parcela significativa da amostra dos telejornais -
37,5% das edições do período pré-eleitoral, 19,9% do período eleitoral e 11,1%
do período pós-eleitoral. Ao todo, foram incluídas 77,8% das edições previstas
do Jornal Nacional,76,9% do Jornal da Bande 78,6% do SBT Brasil.Uma vez que as
falhas ocorreram de maneira aleatória, consideramos que elas não enviesaram os
resultados. A coleção das revistas estava completa.
Uma ficha de acompanhamento foi preenchida para cada matéria4, de maneira a
identificar as áreas temáticas predominantes nos telejornais e nas revistas. Em
seguida, as "personagens" das matérias de política foram identificadas - sendo
consideradas "personagens" as pessoas que, não pertencendo à equipe
jornalística, apareceram no noticiário, seja na qualidade de entrevistadas, de
fontes ou mesmo apenas citadas por algum repórter, colunista, apresentador ou
por outra personagem.
Foram determinadas, após pré-teste, 26 categorias temáticas, 11 das quais se
vinculavam à área de "política brasileira":
* Cidades (Brasil) -inclui matérias sobre trânsito, transporte coletivo,
direito do consumidor, greves em serviços públicos (exceto educação e
saúde, encaixadas em categorias próprias) etc.
* Ciência/tecnologia -novidades científicas, médicas e tecnológicas;
* Desastres -catástrofes naturais, acidentes de trânsito e ferroviários,
desastres aéreos etc.
* Ecologia/meio ambiente -espécies ameaçadas, áreas de preservação,
aquecimento global etc.
* Economia brasileira -inflação, desemprego, câmbio, dívida pública,
balança comercial e de pagamentos, reajustes salariais etc. (exceto
decisões de política econômica, que foram consideradas "política
brasileira");
* Educação -vagas no ensino público, vestibular, ação afirmativa e outras
formas de acesso ao ensino superior, distribuição de material didático,
experiências inovadoras na educação no Brasil, greves de professores etc;
* Esportes;
* Fait-divers -curiosidades, anúncios de programas da própria emissora,
fofocas sobre celebridades, eventos da indústria cultural, "mundo animal"
etc.;
* Internacional -política externa brasileira, relações exteriores, política
interna de outros países etc.;
* Lições de vida -abordagem "edificante", mostrando como indivíduos e/ou
grupos superam suas dificuldades;
* Polícia -crimes, busca de criminosos, revoltas de presidiários etc;; não
inclui políticas públicas de segurança, que possui categoria própria;
* Política brasileira: ações do Poder Executivo Federal -incluindo o
lançamento de programas, o preenchimento de cargos, a liberação de
recursos;
* Política brasileira: propostas legislativas e ações no Congresso -ações
do e no Congresso; inclui o debate e tramitação de toda e qualquer
proposta legislativa, inclusive quando de iniciativa do Poder Executivo;
* Política brasileira: judiciário -decisões judiciais, em especial das
cortes superiores, com repercussão política; inclui também ações de
órgãos com ação de tipo judicial que pertencem ao Poder Legislativo
(Tribunal de Contas) ou ao Poder Executivo (Ministério Público);
* Política brasileira: escândalos -denúncias e investigações de atos
ilícitos, improbidades e desvios de conduta em geral envolvendo
governantes, parlamentares, líderes partidários e ocupantes dos primeiros
escalões das administrações municipais, estaduais e federal;
* Política brasileira: eleições (resultado de pesquisas) -toda e qualquer
divulgação de sondagens de intenções de voto, bem como de resultados
eleitorais;
* Política brasileira: eleições (curiosidades/serviço) -informações aos
eleitores (como usar a urna, como justificar ausência etc.) e
curiosidades à margem do processo eleitoral (trabalho dos Tribunais
Regionais Eleitorais (TREs) nas fronteiras do país, eleitores idosos ou
jovens etc.);
* Política brasileira: eleições (debate eleitoral) -falas dos candidatos e
de outros líderes políticos, programas de governo, eventos de campanha
(passeatas, comícios etc.), denúncias contra candidatos;
* Política brasileira: vida partidária -conflitos internos de partidos,
escolha de líderes etc.;
* Política brasileira: movimentos sociais/sociedade civil -ação de
movimentos sociais ou de entidades da sociedade civil;
* Política brasileira: história/curiosidades -lembrança de episódios
passados da política nacional, motivadas por efemérides (como os
cinquenta anos do suicídio de Vargas) ou falecimentos (por exemplo, a
biografia de Leonel Brizola); curiosidades da política nacional;
* Política brasileira: outros/mix -reportagens de política brasileira que
mesclam várias das categorias anteriores, sem que seja possível indicar
uma predominância;
* Previsão do tempo;
* Saúde pública -epidemias, saneamento, controle de medicamentos, rede
hospitalar, greves de profissionais da saúde etc.;
* Segurança pública -políticas de segurança pública;
* Outros -categoria residual para matérias que não se encaixam em nenhuma
das anteriores; no caso das revistas, inclui cartas dos leitores, seções
de "frases da semana" e de notas variadas etc.
Ao todo, foram assistidas e fichadas 241 horas, 23 minutos e 43 segundos de
telejornais. Não foram incluídas nem as chamadas iniciais (a "escalada", em que
os apresentadores anunciam as principais notícias do dia), nem as chamadas ao
final de cada bloco. A participação dos três noticiários no corpusfoi
equilibrada, com ligeira predominância do Jornal da Band(35,4% do tempo),
seguido de SBT Brasil(32,5%) e Jornal Nacional(32,1%).
Quanto às revistas, foram lidas e fichadas 7.751 páginas, excluídas as capas e
os anúncios. Época(37% das páginas) e Veja(36,1%) contribuíram com parcelas
semelhantes do corpuse CartaCapitalcom um pouco menos (26,9%), o que reflete
seu perfil de publicação mais enxuta.
A HOMOGENEIDADE DA COBERTURA
Agrupadas, as onze categorias de "política brasileira" ficam com a maior fatia
do noticiário da televisão, totalizando 24,2% do tempo dos telejornais
pesquisados. Não causa surpresa o fato de que esse percentual seja maior no
período eleitoral, quando alcança 32,9%; e a diferença entre os outros dois
períodos se explica pelo fato de que, no primeiro semestre de 2006, o
noticiário ainda era alimentado pelos desdobramentos do escândalo do chamado
"mensalão" (o pretenso pagamento de propinas para deputados, com dinheiro
desviado de órgãos públicos, a fim de que apoiassem o governo, denunciado em
maio de 2005). Assim, o noticiário político ocupa 27,6% do tempo dos
telejornais no período pré-eleitoral, contra meros 14,5% no período pós-
eleitoral.
De fato, a subcategoria "escândalos" responde pela maior fatia das reportagens
de política na televisão, 30,4% - mais até do que o conjunto das três
subcategorias vinculadas ao processo eleitoral, que somam 24,5% das matérias de
política. E é no período pré-eleitoral que os escândalos merecem atenção,
concentrando 37,6% do noticiário político. No período pós-eleitoral, ao
contrário, talvez por conta da atenção concedida ao novo mandato presidencial,
cresce a presença de matérias sobre ações do Poder Executivo Federal.
O perfil de ocupação do espaço das revistas é diferenciado, com predomínio da
categoria fait-divers,que ocupou 31,2% das suas páginas. As categorias de
política brasileira, agrupadas, vêm em seguida, com 20,1 % do espaço. Mas a
curva é similar à dos telejornais, como mostra o Gráfico_1. Política brasileira
ocupa 21,3% das páginas das revistas no período pré-eleitoral, quase metade
delas relacionadas a escândalos, subindo para 27,5% no período eleitoral e
caindo para 10,9% no período pós-eleitoral. No corpustotal, a subcategoria
"escândalos" é, de longe, a mais importante, ocupando 29,5% das páginas do
noticiário político das revistas. Segue-se a subcategoria "outros/mix", com
18,1% do espaço dedicado à política brasileira, que reflete uma prática comum
aos três semanários analisados: produzir uma grande matéria de síntese dos
fatos políticos, em que ações do governo, manobras no Congresso, estratégias
eleitorais e escândalos podem estar mesclados.

Os dados também confirmam elementos constantes do jornalismo brasileiro dos
últimos anos, observados em pesquisas anteriores, como a fraca atenção
concedida ao noticiário internacional, que fica com 10%-12% do tempo dos
telejornais e 8%-11% do espaço das revistas, nos três períodos (e se concentra
nos Estados Unidos e no Oriente Médio). A revista CartaCapital,com média de 15%
de suas páginas voltadas ao noticiário internacional e maior diversidade nessa
cobertura, foge ao padrão e, portanto, reafirma seu perfil mais "elitizado" ou
"intelectualizado".
Já o noticiário de variedades, que além da categoria fait-diverspropriamente
dita inclui desastres, esportes, lições de vida e polícia, ocupou em média
34,2% do tempo dos telejornais - um pouco abaixo disso no período eleitoral, um
pouco acima nos outros dois. São números comparáveis aos do Jornal Nacionalem
2002 e bem diferentes daqueles apresentados pelo noticiário da Rede Globo em
1998, quando as variedades abocanhavam mais de 50% do tempo (Miguel, 2003:
298)5. Para as revistas, a média foi de 36,9% do espaço dedicado a variedades,
com a CartaCapitalapresentando uma proporção um pouco inferior à de suas
concorrentes (32,9%).
Separados os dados em função de cada telejornal analisado, observa-se que as
diferenças de perfil entre eles, embora presentes, não são de grande monta. O
Jornal da Banddedica mais tempo ao noticiário das cidades e menos ao
internacional do que seus concorrentes. O SBT Brasilconcentra-se mais no fait-
diverse no noticiário policial, e menos em esportes. As diferenças giram em
torno de 3 a 5 pontos percentuais.
Apenas na cobertura da política brasileira se registra uma disparidade maior,
alcançando 31,2% do tempo do Jornal Nacionalcontra 20,8% do Jornal da Bande
20,9% do SBT Brasil.O Jornal Nacionaldedica uma parcela maior de seu noticiário
à política brasileira em todos os três períodos, chegando a 41,5% no período
eleitoral. E todos os telejornais diminuem significativamente o tempo destinado
ao assunto no período pós-eleitoral.
Focando apenas o noticiário político, as dessemelhanças entre os três
telejornais permanecem sutis. O SBT Brasildá um pouco mais de destaque a ações
do Poder Executivo Federal, que ocupam 16,9% de seu noticiário político, contra
cerca de 13% dos outros, e também à vida partidária, com 8,1%, mais que o dobro
dos outros. Já o Jornal Nacionalcobre um pouco menos o Poder Legislativo,
totalizando 6,5% do seu tempo de noticiário político, ao passo que seus
concorrentes ficam entre 8%-10%. Mas é ao diferenciar os três períodos
examinados como faz a Tabela_1, que a análise se torna mais interessante.
Começando nossa análise pelo Jornal Nacional,percebemos a brutal queda da
atenção concedida às ações do Poder Executivo Federal durante as eleições.
Ocupando mais de um quarto do noticiário político do telejornal da Rede Globo
nos outros períodos, a categoria praticamente some entre julho e outubro de
2007, ficando com menos de 1% do tempo. Nos outros telejornais, a redução do
tempo destinado ao Poder Executivo Federal no período das eleições também é
grande, indicando que se trata de uma mudança de prioridades de pauta - e o
fato de que o candidatoLuiz Inácio Lula da Silva tendia a se sobrepor ao
presidenteLuiz Inácio Lula da Silva. No caso do Jornal Nacional,porém, o
desaparecimento do noticiário relativo às ações do Executivo Federal sugere
que, além disso, houve uma postura deliberada. Se foi assim, repete-se o quadro
de 2002, quando, buscando repelir a imagem de manipuladora da opinião pública,
fruto de sua ação em eleições anteriores, a Globo optou por um equilíbrio
estrito no tempo dedicado a cada um dos principais candidatos (Miguel, 2003).
Naquele ano, contudo, o presidente da República não era candidato à reeleição,
situação que, presente em 2006, impôs novos problemas aos órgãos de imprensa na
busca de imparcialidade ostensiva.
Há outro dado que deve ser levado em conta. No período eleitoral, a
concentração do noticiário político nas eleições - cujas três categorias somam
entre 41,5% e 48,9%, nos três telejornais - pressiona para baixo os percentuais
de todas as outras categorias, não apenas das ações do Executivo Federal. A
principal exceção é a categoria "mix", para o Jornal Nacional,que apresenta
notável acréscimo no período, passando de menos de 1% para mais de 20%. Esses
números refletem a opção editorial do telenoticiário da Rede Globo, que mesclou
a cobertura da campanha com a cobertura do governo federal, tratando de ambos
os assuntos nas mesmas matérias. Todavia, não é surpreendente a maior presença
do resultado de sondagens de intenção de voto no Jornal Nacional,uma vez que a
Rede Globo, maior e com mais recursos, contratava institutos de pesquisa que
serviam não só aos telenoticiários, mas a todos os veículos de comunicação do
conglomerado (notadamente a rádio all-newsCBN, o canal de notícias por
assinatura GloboNews,o jornal O Globo,a revista Épocae o portal de internet
G1).
O "escândalo", entendido como denúncias de atos ilícitos praticados por
funcionários públicos e as investigações delas resultantes, é um dos motores do
noticiário político. Se, por um lado, a ênfase na denúncia e no escândalo custa
aos jornalistas a acusação, frequente, de contribuir para o desgaste das
instituições republicanas6, por outro, ela seria a demonstração de que estão
sendo cumpridas as responsabilidades de "quarto poder" ou de watchdog,a quem
cabe zelar para que as leis e a moralidade pública sejam respeitadas. Num mundo
"onde poder e reputação andam de mãos dadas", o escândalo é importante porque
"afeta as fontes concretas do poder" (Thompson, 2002:23). Os três telejornais
dão destaque aos escândalos, que em geral ocupam entre um quarto e dois quintos
do tempo do noticiário político.
Os telejornais dedicam pouca atenção à vida interna dos partidos, talvez por
partilhar da percepção de que, nas condições da política brasileira, eles são
pouco relevantes. A principal exceção é o SBT Brasil,no período pré-eleitoral,
com matérias que focam as disputas internas pela escolha dos candidatos.
Movimentos sociais e sociedade civil se encontram quase ausentes do noticiário
político, o que reforça a percepção de que a política é uma atividade a parte,
fracamente conectada com outras esferas da vida social. As personagens do
noticiário político estão, assim, relacionadas a uma representação redutora da
política.
A literatura sobre "alienação política" aponta o problema da baixa integração
dos indivíduos ao sistema político, vinculada a recursos cognitivos
insuficientes e sentimento de impotência, que fazem com que se considerem
apartados do universo da política (cf. o resumo desta literatura em Aldé, 2004:
53-57). O noticiário jornalístico, ao mesmo tempo que fornece informações que
contribuiriam para reduzir a alienação, reforça, pelo insulamento da política
em instituições específicas, a impressão de "apartamento" do cidadão comum.
Por um lado, essa representação diminui a visibilidade já restrita de atores
que poderiam produzir uma tensão com os limites atuais das instituições e do
debate político, trabalhando para confirmar esses limites. De 2.134 matérias
classificadas como "política brasileira", apenas 65 apresentaram alguma
personagem vinculada a movimentos sociais e 19, a organizações não
governamentais. Especialistas ligados às universidades (presentes em 17
matérias) e representantes de religiões organizadas (em 19) estão em situação
similar. Por outro lado, essa representação redutora da política silencia o
impacto de atores que não são propriamente políticos sobre o exercício da
política pelos atores propriamente políticos. A despeito da inegável influência
do poder econômico sobre a vida política, personagens ligadas a empresas
privadas não apareceram em mais do que 74 - isto é, 3,2% - dessas matérias e
são apenas 45 (7,7%) entre as 580 personagens presentes nas matérias da
categoria "escândalo".
Entre as revistas, Vejae Épocamostram perfis similares, ao passo que
CartaCapitalé ligeiramente desviante: dedica um pouco menos de espaço à
categoria fait-divers(27,7%, contra 31 %-33% das outras), mais ao noticiário
internacional e muito mais à categoria "economia brasileira" (12,1%, contra 3%-
5% das outras). Isoladas as matérias de política, as diferenças ficam bem mais
significativas - e o quadro que põe Vejae Épocade um lado e CartaCapitaldo
outro não descreve mais a situação.
Salta aos olhos como Vejaconcentra o noticiário político nos escândalos, numa
proporção muito maior que suas concorrentes, como mostra a Tabela_2. Em
qualquer um dos três períodos sob análise, Vejadedica uma proporção maior de
suas páginas de política à cobertura dos escândalos, seguida por CartaCapitale,
bem depois, pela Época.Para qualquer uma das três revistas, o noticiário sobre
escândalos declina de período para período. Em Veja,cai de 57,2% das páginas
sobre política, no período pré-eleitoral, para 12,2% no período pós-eleitoral;
na Época,vai de 23,7% para 5,3%; e na CartaCapital,de 44,3% para 8,1%. Embora o
corpusdas revistas, no período pós-eleitoral, abranja os três primeiros meses
do ano, caracterizados por um noticiário político mais "morno", esse fato
dificilmente corresponde a toda a explicação. Tamanho foco nos escândalos
políticos no primeiro semestre de 2006 seguramente se relaciona às tentativas,
por parte dos agentes políticos relevantes - aí incluída a própria mídia -, de
moldar o cenário em que ocorreria a disputa eleitoral, meses depois.
[/img/revistas/dados/v53n3/a06tab02.jpg]
Vejatambém se distingue pela menor atenção dada às ações do Poder Executivo, ao
debate eleitoral e às movimentações internas aos partidos. Mas não se trata nem
de uma polarização, em que ela fica de um lado e Épocae CartaCapitaldo outro,
nem de um continuumreferida à posição relativa ao governo Lula, com Veja(mais
oposicionista) numa extremidade, CartaCapital(mais governista) na outra e
Épocaem posição intermediária. Isso faria crer que CartaCapitaldaria menos
espaço aos escândalos políticos e mais aos atos do Poder Executivo do que
Época,o que os dados não confirmam. A subcategoria "ações do Poder Executivo"
ganha espaço praticamente idêntico nas duas publicações e, no que se refere aos
escândalos, a proporção do noticiário político dedicada por CartaCapital,embora
bem inferior à de Veja,é mais do que o dobro da de Época.
Embora a subcategoria "escândalos" reúna uma diversidade de matérias - de
denúncias de corrupção em prefeituras municipais a nepotismo no Congresso
Nacional -, 35,2% delas envolviam o Poder Executivo Federal. O episódio que
mais repercutiu foi a acusação contra o então ministro da Fazenda, Antônio
Palocci, de ter chefiado um esquema de recebimento de dinheiro ilícito para o
PT quando era prefeito de Ribeirão Preto, importante cidade do estado de São
Paulo. Os desdobramentos da acusação, em especial a quebra ilegal do sigilo
bancário de uma testemunha-chave contra Palocci, levaram à sua queda do
ministério, em 27 de março de 2006, ou seja, no início do acompanhamento do
noticiário.
Cerca de dois terços das matérias sobre escândalos incluem personagens que
podem ser identificadas, com clareza, como porta-vozes do governo federal ou da
oposição a ele. Vejaé a única revista que apresenta mais matérias em que
aparecem apenas porta-vozes do governo -nela, em 48,4% das matérias em que tais
personagens são identificadas, há representantes do governo, mas não da
oposição, contra 13,3% em Épocae 5,4% em CartaCapital. Vejatambém possui muito
menos matérias só com porta-vozes oposicionistas: 4,4%, enquanto nas outras
revistas a proporção é de cerca de 20%. Ao que parece, há uma contradição com a
postura assumidamente contrária ao PT e ao governo Lula da revista Veja.Na
etapa quantitativa da pesquisa não é possível explicar o aparente paradoxo,
exceto por duas especulações. Primeiro, o enquadramento dado por Vejaaos
escândalos situa-os não como um momento da disputa entre governo e oposição,
mas como um embate entre acusadores "neutros" (testemunhas, procuradores e
policiais) e um réu (o próprio governo). Em segundo lugar, as explicações dadas
por integrantes ou defensores do governo são veiculadas, mas, ao mesmo tempo,
desqualificadas por meio de signos discursivos de ironia e suspeição. Esse é um
recurso corrente no noticiário das revistas semanais e tem papel importante no
noticiário de Veja.A ironia participa da produção do lugar de "guardião da
consciência moral" que o jornalismo se atribui. Permite apresentar um
julgamento moral sem que seja necessário fazer um "sermão" sobre o tema (Ettema
e Glasser, 1998:87).
Apenas como contraponto, em qualquer um dos três telejornais, nas matérias
sobre escândalos políticos em que é possível identificar porta-vozes do governo
e/ou da oposição, há uma nítida maioria da presença de ambos - entre 58,3%
{Jornal da Band)e 70% (Jornal Nacional).O SBT Brasilapresenta menos matérias em
que há só oposição (3,4%, contra aproximadamente 11% dos outros) e o Jornal
Nacional,menos matérias em que só aparecem porta-vozes do governo (17,8%,
contra cerca de 32% dos outros), mas as diferenças são bem menos notáveis do
que entre as revistas.
Assim como ocorre nos telejornais, no noticiário político das revistas há
pequena presença de personagens vinculadas a movimentos sociais (aparecem
apenas em 23 matérias, num universo de 823), organizações internacionais (em
13), forças armadas (em 15) e religiões organizadas (em 11). Há uma presença um
pouco maior de organizações não governamentais, que surgem em 69 matérias
(apenas oito delas publicadas na revista Veja),e sobretudo de empresas privadas
(em 228 matérias, ou 27,7% do total) e de acadêmicos (presentes em 114
matérias, 13,9% do total), sem que se registrem disparidades dignas de nota
entre as três publicações. Em suma, as revistas são um pouco mais abertas que
os telejornais à presença, no noticiário político, de pessoas estranhas ao
universo da política em sentido estrito, mas essa abertura se dá principalmente
por meio da incorporação de porta-vozes das empresas e de especialistas ligados
às universidades.
AS PERSONAGENS DO NOTICIÁRIO
Diante desse quadro de baixa presença de integrantes da sociedade civil, não é
surpresa que as personagens do noticiário político provenham, em sua maioria,
das instituições políticas em sentido estrito. Foram identificadas 1.724
diferentes personagens nas matérias de política dos telejornais, além de uma
quantidade de "anônimos" (em geral, fontes ou testemunhas não identificadas ou
populares entrevistados em enquetes). Entre as personagens, 27,3% pertencem ao
Poder Legislativo, seguido de perto pelo Executivo (24,5%). As personagens
populares foram 8,3% daquelas presentes nos telejornais, seguidas, então, por
integrantes do Poder Judiciário (4,1%) e técnicos (3,6%). Um terço das
personagens não é classificado em nenhuma dessas categorias.
Como esperado, o presidente da República e os outros candidatos à sua sucessão
encabeçam a lista das personagens mais presentes, como mostra a Tabela_3. E é
muito grande a pulverização da presença no noticiário dos telejornais - 68% das
personagens, já excluídas as anônimas, aparecem em uma única matéria; 87,1%
aparecem em menos de cinco. Muitas personagens aparecem eventualmente e são
substituídas de acordo com a alternância de fatos e eventos. Mas o noticiário
se concentra, de fato, em poucas personagens, que têm visibilidade continuada
de acordo com o cargo e a posição que ocupam no campo político, o que confirma
o resultado de pesquisas que definem o noticiário como institucionalista
(Gomes, 2008:11).
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Lula é, de longe, a personagem mais presente, com Geraldo Alckmin, Heloísa
Helena e Cristovam Buarque seguindo-o, na mesma ordem em que terminaram
classificados no primeiro turno das eleições presidenciais de 2006. Mesmo
candidatos de partidos pequenos e com votação insignificante, como José Maria
Eymael (0,07% dos votos válidos) e Luciano Bivar (0,06% dos votos válidos),
integram a seleta lista das personagens com aparição em mais de cinquenta
matérias dos telejornais7.
A lista reflete também a predominância do Poder Executivo no noticiário. Entre
as catorze personagens mais presentes, seis disputaram a Presidência em 2006;
outras quatro foram ministros (Palocci, Genro, Bastos e Berzoini). José Serra
foi, sucessivamente, nos três períodos da pesquisa, postulante à candidatura
presidencial pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), candidato ao
governo de São Paulo e governador de São Paulo. Anthony Garotinho tentou ser
candidato à Presidência pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB)
e boa parte de sua presença no noticiário se deve à greve de fome que iniciou
como forma de pressionar a direção de seu partido. O único integrante da
relação que deve sua presença sobretudo à atuação no Poder Legislativo é Renan
Calheiros, presidente do Senado Federal. E Luiz Antonio Vedoin, por fim, é o
único que não ocupava nem postulava mandato eletivo. Empresário, ele foi um dos
pivôs do chamado "escândalo das sanguessugas" - um esquema de corrupção na
venda de ambulâncias para o poder público -, que eclodiu em setembro de 2006.
Mas Lula é a única personagem que está muito presente nos três períodos - de
fato, lidera as aparições nos noticiários em todos eles. Palocci, o segundo
colocado no período pré-eleitoral, com 66 matérias, aparece em apenas 13 nos
dois períodos restantes reunidos. Alckmin aparece em 55 matérias no período
pré-eleitoral, já como postulante à Presidência pelo PSDB, em outras 243 no
período eleitoral e uma única vez no pós-eleitoral. Melhor sorte que Heloísa
Helena e Cristovam Buarque, que simplesmente somem do noticiário neste último
período. Os protagonistas de escândalos também tendem a ter sua presença
concentrada, sumindo do noticiário quando o caso ao qual estavam ligados sai da
pauta.
As revistas apresentam uma quantidade maior de diferentes personagens nas
matérias de política - são 2.477, além de 76 anônimos. Como nos telejornais,
Lula é, de longe, a personagem mais presente. Mas o restante da lista dos mais
presentes revela algumas discrepâncias entre os dois tipos de veículos (Tabela
4).
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Geraldo Alckmin, o principal candidato da oposição às eleições presidenciais de
2006, que disputou o segundo turno contra Lula, é o segundo nome que mais
aparece em matérias das revistas. Mas Heloísa Helena está muitas posições
abaixo e Cristovam Buarque, presente em 31 matérias, nem figura entre as 19
personagens que estão em 40 ou mais matérias. Os candidatos dos partidos
menores, então, aparecem entre uma e cinco vezes cada. O terceiro da lista das
revistas é Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República, que não
ocupou ou disputou qualquer cargo eletivo no período sob análise. Outros dois
ex-presidentes figuram na lista - Fernando Collor de Mello, que chamou atenção
por sua candidatura e eleição ao Senado, após ter recuperado os direitos
políticos; e José Sarney, que se reelegeu senador numa apertada disputa no
Amapá. Aparecem com destaque também outros parlamentares (Mercadante, Rebelo,
Gomes, Jereissati e Magalhães). E os protagonistas de escândalos - o ex-
ministro José Dirceu e o empresário Marcos Valério - ligam-se não às denúncias
mais recentes, mas ao "mensalão", que eclodira no primeiro semestre de 2005.
A maior parte das personagens anônimas está na revista Veja(55, isto é, 72,4%
dos anônimos). CartaCapitalapresenta dez personagens anônimas e Épocatraz 11. A
presença dos anônimos concentra-se, sobretudo, nas matérias da categoria
"escândalos", na qual estão mais da metade dos anônimos de Veja.Muitas das
denúncias de corrupção noticiadas nessas matérias são atribuídas a fontes não
nomeadas. Esse recurso é amplamente utilizado por Veja,fazendo parte de trinta
matérias sobre "escândalos". Está presente em frequência reduzida na
CartaCapital,em apenas cinco matérias dessa categoria, e não foi encontrado na
revista Época.
Mesmo no caso de Veja,porém, não são números discrepantes daqueles apontados em
pesquisas internacionais. Há fontes anônimas em 15,7% das matérias de política
(e 24,2%, se isoladas apenas as referentes a escândalos). Elas estariam
presentes em cerca de 15% das matérias do Timeslondrino, em 25% do New York
Timese muito acima desses patamares no jornalismo diário português (Sousa,
2002:6).
Os dados sugerem que o noticiário das revistas é menos prisioneiro dos cargos
formais do campo político - embora os ocupantes e candidatos aos principais
cargos tenham destaque, como nos telejornais, também há espaço para indivíduos
que detêm alto capital político, mas que não estão, no momento, em tais
posições. Além disso, esse noticiário também possui uma "memória" maior,
retomando acontecimentos dos meses anteriores. Aqui, há uma diferença que, sem
ser gritante, é estatisticamente significativa: Fernando Henrique Cardoso
aparece mais em CartaCapital(que responde por 66 das 151 matérias em que ele é
citado), ao passo que José Dirceu está mais presente em Veja(63 de 111
matérias). Apesar de a simples análise quantitativa não permitir chegar a
conclusões, é razoável supor que as menções ao ex-presidente lembravam aos
leitores de CartaCapitalque o governo anterior padecia das mesmas mazelas que a
oposição agora atribuía à gestão de Lula, ao mesmo tempo que concedia a ele o
papel de porta-voz do PSDB. De fato, a presença mais concentrada de Fernando
Henrique Cardoso na CartaCapitalé nas categorias "escândalos" e "vida
partidária", com 18,2% das matérias em cada uma. E o nome de Dirceu associava-
se ao "mensalão", com o qual Vejafustigava a administração do PT. Nesse caso, a
concentração na categoria "escândalos" é bem maior, com 38,1% das matérias da
revista em que Dirceu esteve presente.
O contraste entre as tabelas_3 e 4 pode levar a crer que o noticiário das
revistas é pulverizado entre mais personagens, mas trata-se de um efeito do
desenho da pesquisa. São contadas as matérias em que cada personagem aparece,
independentemente de ser uma referência exclusiva, central ou lateral. As
revistas tendem a ter matérias maiores, que apresentam, em média, 9,1
personagens, ao passo que os telejornais apresentam um número maior de
matérias, mas menores, com, em média, 2,9 personagens cada. As 612 matérias com
Lula indicam que o presidente apareceu ou foi citado em 26,2% das matérias de
televisão, mas as 451 matérias com ele nas revistas correspondem a 54,8% do
total.
Nos telejornais, há um percentual maior de personagens com posição favorável ao
governo federal (24,5%), comparativamente aos 19% de oposicionistas e aos 17,7%
que assumem posição neutra ou ambígua nas matérias. As matérias apresentam
também uma presença acentuada de personagens ligadas ao PT (26,7%, ou 1.833
personagens). Vale lembrar que Lula é responsável por um terço dessa presença.
Esses dados - tanto os de posição das personagens do governo federal quanto o
da presença do PT nas matérias - refletem a visibilidade ampla de integrantes
do governo federal no noticiário, sobretudo do presidente Lula e de seus
ministros, e não resultam, necessariamente, em matérias que apresentam posições
favoráveis ao governo. A presença de personagens favoráveis ao governo federal
em matérias de "escândalo", por exemplo, pode significar uma visibilidade
negativa para o governo federal. A maior concentração das personagens
"governistas" no noticiário político é na categoria "escândalos", com 459 ou
27,4%, contra 261 ou 19,9% das oposicionistas. A proporção se inverte quando se
observa a categoria "debate eleitoral", que apresenta a maior concentração de
"oposicionistas", com 642 ou 49% de aparições, quase o dobro da presença de
governistas nessa mesma categoria (350 ou 20,9%). A concentração das
personagens relacionadas ao PT nas matérias de "escândalo" é ainda maior, com
802 ou 43,8% da presença do partido nos telejornais.
O segundo partido com mais personagens no noticiário é o PSDB, com 673 (9,8%),
seguido pelo PMDB, com 575 (8,4%), e pelo Partido da Frente Liberal (PFL)/
Democratas (DEM), com 254 (3,7%). Como no caso de Lula, Alckmin é responsável
por boa parte da frequência de personagens do PSDB, nesse caso, pouco menos da
metade das citações. E a maior presença do PSDB entre as categorias temáticas é
no "debate eleitoral", acompanhando os dados sobre concentração de
"oposicionistas" entre os temas das matérias. O Partido Democrático Trabalhista
(PDT), o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e o Partido Trabalhista
Brasileiro (PTB) concentram, cada um, pouco mais que 2% das personagens. Não há
diferenças significativas entre os telejornais.
As revistas repetem, grosso modo, a distribuição detectada nos telejornais, mas
há uma concentração menor nas personagens favoráveis ao governo e nas
personagens ligadas ao PT, com um percentual maior de personagens ligadas ao
PSDB. O PT concentra 1.563 personagens, ou 20,9% do total, e Lula é, como nos
telejornais, responsável por pouco menos que um terço das citações. Alckmin,
por sua vez, representa um quarto das 889 (11,9%) personagens vinculadas ao
PSDB. Na sequência, vêm o PMDB, com 512 (6,8%), e o PFL/DEM, com 306 (4,1%). Os
demais partidos não ultrapassam os 2%. Mais uma vez, a maior presença das
personagens ligadas ao PT é na categoria "escândalos", em que se encontram 252,
ou 38,5% delas, mais do que o dobro do percentual de concentração das
personagens do PSDB nessa categoria, 18,1% (que equivalem a 161 personagens).
Como nos telejornais, não há diferenças significativas entre as revistas.
Outro dado relativo ao perfil das personagens presentes no noticiário é a
grande concentração em uma das unidades da Federação, São Paulo. No caso dos
telejornais, 31,3% das personagens são paulistas. O estado do Rio de Janeiro
vem na sequência, com apenas 5% das personagens, seguido por Alagoas (3,6%),
Rio Grande do Sul (2,9%) e Minas Gerais (2,7%). A concentração em São Paulo se
repete nas revistas, com 26,8% das personagens. Rio de Janeiro, com 4,3%, e
Minas Gerais, com 3,8%, vêm na sequência, mas a concentração entre os estados
atende a um mesmo padrão. Com exceção de Alagoas e Bahia, nenhum estado da
região Nordeste apresenta mais de 2% das personagens. Aqui também é possível
sustentar que os veículos analisados apresentam padrões de visibilidade que
são, em vários aspectos, homogêneos. Atendem a compreensões comuns sobre a
relevância dos temas, espaços e atores, confirmando representações da política
que transcendem as diferenças de posicionamento em relação a partidos e
disputas específicas.
AS VOZES
A concentração em dimensões da política (poder e âmbito aos quais pertencem as
personagens) e em posições e partidos políticos deve ser lida em sua relação
com um outro dado importante, o acesso à voz, um elemento fundamental de
diferenciação entre aqueles que estão presentes no noticiário. É da natureza da
política a busca pelo espaço de fala - e o líder político, o representante,
pode ser entendido como o porta-voz daqueles que lhe dão um mandato, formal ou
não (Bourdieu, 1986). Ou, como disse um deputado de ficção, personagem não dos
telejornais, mas de um romance: "A política odeia o silêncio" (Tezza, 2004:95).
Começando com os telejornais, em 57,4% dos casos, a personagem é apenas citada
por um repórter, pelo apresentador do noticiário ou, mais raramente, por outra
personagem. Os 42,6% restantes têm voz.Essas presenças "com voz" foram
diferenciadas, de acordo com o conteúdo do que era dito, em quatro categorias
"sonoras":
a) Sonora com argumento:quando o entrevistado8 afirma que é contra ou
a favor de determinado projeto (ou candidatura, ou situação etc),
acrescentando ainda, de forma taquigráfica, argumentos que sustentem
sua posição;
b) Sonora com posição:quando o entrevistado afirma que é contra ou a
favor de determinado projeto, sem aduzir argumentos em favor de sua
posição;
c) Sonora técnico-descritiva:quando o entrevistado limita-se a
explicar um processo (por exemplo, a tramitação de um projeto
legislativo), sem indicar uma posição quanto à sua substância;
d) Sonora irrelevante:quando a declaração do entrevistado tem caráter
meramente anedótico.
Foram identificadas 2.960 sonoras nas matérias de política, 50,3% das quais com
argumento, 28,4% com posição, 8,4% técnico-descritivas e 12,9% irrelevantes. As
sonoras com argumento alcançaram duração média de 14,8 segundos, um pouco maior
do que aquelas com posição (média de 12,3 segundos) ou técnico-descritivas
(12,4) e bem a frente das irrelevantes, que duraram, em média, 6,7 segundos.
Lula, o mais assíduo no noticiário, foi apenas citado por repórter ou
apresentador em 57,8% das matérias em que apareceu. Isso relativiza sua
presença. Ele aparece em mais do que o dobro de matérias em relação a Geraldo
Alckmin, mais de quatro vezes em relação a Heloísa Helena, mas suas 197 sonoras
estão bem próximas das 172 de Alckmin e não chegam a três vezes as 75 da
candidata do PSOL.
A menor presença de Lula foi no Jornal Nacional,em que fez parte de 172
matérias, enquanto participou de 232 matérias no Jornal da Bande 214 no SBT
Brasil.Nesse caso, a presença mais qualificada de Lula, que teve mais voz no
Jornal Nacional -as sonoras de Lula estão em 46,5% das reportagens com ele no
Jornal Nacional,contra 26,7% das reportagens em que esteve presente no Jornal
da Bande 25,7% no SBT Brasil -não relativiza sua baixa presença. Afinal,
Alckmin esteve presente de maneira mais homogênea entre os telejornais (110
reportagens no Jornal da Band,100 no Jornal Nacionale 96 no SBT Brasil),mas
teve também um percentual maior de sonoras no Jornal Nacional(75%, contra 52,1%
no SBT Brasile 42,7% no Jornal da Band).
Nos telejornais, as personagens que tiveram acesso à voz com maior frequência
foram os integrantes do Legislativo (29,1%) e do Executivo (20%), seguidos
pelos "populares", que representaram 17,7% das sonoras, apesar de serem apenas
8,2% das personagens. Isso se explica pelo fato de que, destinados a dar
colorido ao noticiário, mas sem contribuir efetivamente ao debate, os populares
raras vezes são citados por terceiros. Os técnicos foram 6,8% das personagens
com voz e os integrantes do judiciário 3,8%. Mas a duração média das sonoras
relativiza a presença dos populares. É a menor entre os grupos, com 7,4
segundos. A duração média da sonora das personagens do Executivo é a maior, com
17,7 segundos, acentuando ainda mais sua presença. Técnicos, integrantes do
Judiciário e do Legislativo apresentam sonoras com duração média de 11,4 a 12,3
segundos.
Para analisar a distribuição do acesso à voz entre as personagens das revistas,
elas foram divididas entre aquelas que foram apenas mencionadas nas matérias,
sem voz (74,4%), aquelas que tiveram voz direta, isto é, que tiveram palavras
suas citadas nas matérias entre aspas (20,1%) e aquelas que tiveram sua fala
presente nas matérias, porém mencionada de forma indireta pelo autor do texto
(5,5%). Assim, em apenas 25,6% dos casos as personagens presentes nas matérias
"falam".
Lula, que teve a maior presença também entre as personagens das revistas, foi
apenas citado (sem voz) em 76,1% das matérias, enquanto Alckmin em 80,9% das
matérias. De modo geral, a presença menor das personagens é acompanhada de um
decréscimo no percentual de matérias em que têm acesso à voz. Fernando Henrique
Cardoso, o terceiro em número de citações nas revistas, é apenas citado (sem
voz) em 84,1 % das entradas. José Serra, que vem na sequência, aparece sem voz
em 91,2% delas. Heloísa Helena é uma exceção. Sua presença é aproximadamente
dez vezes menor que a de Lula e cinco vezes menor que a de Alckmin, mas ela tem
voz, direta ou indireta, em 29,7% das matérias (sendo apenas citada nas outras
70,3%). Nesse caso específico, sua presença reduzida corresponde a uma
concentração no período eleitoral (quando foram publicadas 89,4% das matérias
em que apareceu), o que explica que a baixa presença não corresponde a um
decréscimo maior de voz. Outro caso, o de Marta Suplicy, mostra uma situação
diferente. Sua presença em 38 matérias, apenas nove a menos que Heloísa Helena,
foi menos concentrada, apesar de ter tido 50% de sua presença no período pós-
eleitoral, quando se discutia sua indicação como ministra do segundo governo de
Lula. Mas seu acesso à voz foi praticamente nulo: ela foi apenas citada, sem
voz, em 37 das 38 matérias em que apareceu.
Lula e Alckmin, os dois atores com maior presença no noticiário das revistas
(acompanhando, nesse caso, o que se viu nos telejornais), estão associados, de
maneira mais concentrada, a temas diferentes. Retirando-se a categoria temática
"outros/mix", em que estão presentes as matérias que tratam de diversos temas
(com 30,2% da presença de Lula e 28,8% da de Alckmin), a concentração maior de
Lula é na categoria "escândalos", com 88 entradas (19,5%). A de Alckmin, por
sua vez, é na categoria "debate eleitoral", com 60 entradas (27,4%). A
distribuição entre as revistas é desigual. Mais da metade das matérias da
categoria "escândalos" em que Lula aparece (48) foram publicadas na revista
Veja.No caso de Alckmin, diferentemente, há uma distribuição bastante similar
entre as revistas na categoria "debate eleitoral"; e, na categoria
"escândalos", em que estão trinta (13,7%) das matérias em que aparece, a
distribuição em Vejae CartaCapitalé semelhante, com 12 e 11 matérias,
respectivamente.
Entre as 1.914 personagens que tiveram voz nas revistas, a maior concentração
foi das vozes técnicas (29,5%), diferentemente do que ocorre nos telejornais.
Esse dado está relacionado ao perfil das revistas: o espaço dedicado às
matérias nas revistas semanais permite não apenas uma variedade maior de
personagens, em comparação aos telejornais, mas também o investimento em
"análises" que são respaldadas em personagens reconhecidas como detentoras de
conhecimentos específicos. Como nos telejornais, há uma hierarquia favorável ao
Executivo na presença dos três poderes que constituem o Estado: Executivo
(16,2%), Legislativo (14,7%) e Judiciário (7,7%).Os "populares", que são apenas
0,7% das personagens presentes nas revistas, representaram 1,4% das personagens
que tiveram voz nas matérias. É muito menos do que o percentual de "populares"
com voz nos telejornais. Mais uma vez, temos aqui um traço diferencial entre o
perfil do noticiário nos telejornais e nas revistas. Os "populares" aparecem,
com frequência, legitimando os ângulos assumidos pelo noticiário nos
telejornais. A baixa duração dos seus soundbitesconfirma sua posição de
testemunhas pouco qualificadas. Sua presença ampla, por outro lado, está
relacionada ao modo como o jornalismo televisivo opera com os rituais da
imparcialidade e produz vínculos entre o noticiário e seu público amplo. Nas
revistas, isso é bem mais raro. Pode-se dizer que no noticiário impresso das
revistas semanais, voltado para um público menor e menos heterogêneo do que nos
telejornais, os procedimentos de legitimação passam mais frequentemente pelo
discurso técnico e pelos rituais da imparcialidade consagrados, que dão voz
(mesmo que de maneira diferenciada) aos diferentes participantes de uma mesma
contenda.
Outro dado que confirma essas observações é a relação entre os "populares" e as
categorias temáticas no noticiário político. A maior presença nos telejornais
faz com que estejam também distribuídos de maneira menos concentrada do que nas
revistas e façam parte de uma diversidade maior de matérias. Nas revistas, a
maior concentração dos "populares" é na categoria "debate eleitoral" (44,6%).
Os "populares" são, em sua quase maioria, eleitores que opinam sobre candidatos
e temas da agenda eleitoral. Essa categoria é seguida de longe pelas"ações do
Poder Executivo" (14,3%) - vale observar que a presença dos "populares" nas
matérias sobre o Legislativo é de apenas 1,8%, o que corresponde a apenas uma
em um universo de 56 personagens. Nos telejornais, a maior concentração dos
"populares" está nas matérias que tratam de mais de uma temática ao mesmo
tempo, presentes na categoria "outros/mix" (37,8%), seguida por "movimentos
sociais/sociedade civil" (13,9%) e "ações do Poder Executivo" (12,3%).
Novamente, a concentração dos "populares" nas matérias sobre o Legislativo é
mais baixa, ainda que não seja tão pequena quanto nas revistas: são 7,6%, ou
43, em um universo de 563.
A observação das ocupações associadas às personagens confirma, novamente, a
concentração do noticiário em poucos perfis, bastante específicos. No
noticiário político de telejornais e revistas, estão presentes,
predominantemente, personagens que ocupam cargos nos altos escalões do Poder
Executivo e Legislativo. Entre as dez ocupações mais presentes no noticiário
das revistas, apenas uma, a de "cientista político", não faz parte do campo
político estrito senso (ainda que apareça em relação direta com as formas de
existência atuais do campo, em análises que legitimam e naturalizam seus
limites). No caso dos telejornais, estão entre as dez mais citadas também as
ocupações de empresário e advogado.
UM MUNDO MASCULINO
A visibilidade ampliada da política institucional reforça uma compreensão dos
limites da política - do campo político, dos debates e das personagens que são
entendidas como pertencentes a esse campo e participantes legítimas desses
debates. O noticiário de telejornais e revistas se concentra em personagens que
têm características específicas e pertencem ao campo político estrito senso.
As personagens presentes no noticiário político são predominantemente
masculinas. As mulheres são apenas 12,6% das personagens presentes nos
telejornais e 9,6% das personagens das revistas, confirmando sua posição de
subalternidade na política institucional, que é tomada amplamente como
apolítica pelos telejornais. Essa presença varia pouco entre telejornais e
revistas. Nas revistas, CartaCapitalapresenta um percentual levemente menor de
mulheres, 8,7%, pouco menos de um ponto percentual abaixo dos 10-10,1% de Vejae
Época.Mas é na CartaCapitalque as mulheres têm maior acesso à voz. São 33,2%,
ou 64, entre as 193 personagens femininas das revistas. Na Época,têm voz 50
entre as 222 personagens femininas, 22,5% delas, portanto; e na Veja,que tem o
menor percentual de personagens femininas com voz, elas são 54, isto é, 17,6%
em um universo de 307 mulheres que estiveram na revista nos quase dez meses que
constituíram nossa amostra. Entre os telejornais, o SBT Brasilapresenta um
percentual menor de personagens femininas (11,2%), pouco abaixo dos 13,4% e 13%
do Jornal da Bande do Jornal Nacional.É esse último, no entanto, que apresenta
o maior percentual de mulheres com voz, 64,2%, bastante acima do percentual
geral de 46,7% de sonoras nesse telejornal. O Jornal da Bande o SBT
Brasilapresentam, respectivamente, 58,5% e 51,7% de personagens femininas com
voz.
A presença reduzida das mulheres nos telejornais é acompanhada por maior acesso
à voz. Neles, 59,4% das mulheres presentes nas matérias tiveram voz, contra
40,5% dos homens. Vale lembrar que isso significa que 516 mulheres tiveram voz
nas matérias dos telejornais, enquanto 2.444 homens estiveram presentes com
acesso à voz - ou seja, elas permanecem como uma reduzida minoria. Parte dessa
diferença pode ser creditada ao fato de que há, entre as mulheres, uma
proporção maior de personagens "populares" (que, como visto, tendem a aparecer
falando com maior frequência). Retirados os "populares", a proporção de
personagens com voz cai para 45,1% entre as mulheres e 38,7% entre os homens.
Por outro lado, a duração média dos soundbitesdas mulheres é significativamente
menor que a dos homens, 10,2 segundos para elas e 13,4 segundos para eles. A
diferença torna-se menos expressiva com a exclusão das personagens "populares",
quando a duração média dos soundbitesdelas sobe para 13 segundos e a deles,
para 14,1 segundos.
Uma vez presentes nas revistas, homens e mulheres têm acesso semelhante à voz.
Entre os homens, 25,8% têm voz direta ou indireta, pouco acima dos 23,3% das
mulheres que têm esse mesmo tipo de presença no material - lembrando que isso
significa um total de 1.746 personagens masculinas com acesso à voz, mais de
dez vezes o número de mulheres com voz, que é de 168. A maior parte das
personagens, homens (74,2%) e mulheres (76,7%), é apenas citada.
Nesse aspecto, a pouca presença de integrantes dos movimentos sociais e seu
contraponto, a presença daqueles que possuem destaque nos partidos e nos três
poderes, sobretudo no Executivo, colabora para a marginalidade das mulheres no
noticiário político. A presença das mulheres é mais frequente nos movimentos
sociais e em espaços alternativos de ação política, como o orçamento
participativo e os conselhos gestores, do que no parlamento ou na chefia de
ministérios. Estão também relacionadas de maneira mais estreita a temáticas que
têm menor relevância no noticiário. Quando o noticiário político se volta quase
exclusivamente para o campo político estrito senso, ignorando outros espaços e
formas de fazer política, reforça também a compreensão de que as mulheres não
fazem política.
A quantidade de personagens masculinas é tão largamente superior à de
personagens femininas que, mesmo quando se observa o pertencimento a grupos
sociais nos quais seria possível esperar uma concentração maior das mulheres,
os números são ainda a explicitação da sua sub-representação na cobertura
jornalística. Entre 91 personagens integrantes de movimentos sociais que
aparecem nos telejornais, apenas oito são mulheres; de 32 porta-vozes de
organizações não governamentais (ONGs), só cinco são mulheres; e de 31
personagens vinculadas a universidades, as mulheres são seis. Nas revistas, os
números são similares: há seis mulheres entre 46 representantes de movimentos
sociais; outras seis entre 82 representantes de ONGs; e 24 num total de 194
acadêmicos. Ou seja: o noticiário político, em revistas e na televisão, deprime
a presença das mulheres mesmo quando seleciona suas personagens dentro de
organizações que já se mostram mais permeáveis a elas.
Quando se observa a distribuição de homens e mulheres entre diferentes tipos de
personagens, a maior diferença favorável a elas está entre os "populares", que
incluem justamente aquelas que não estão associadas a competências específicas
nas matérias e são, por outro lado, identificadas a posições de menor
centralidade (na política e no noticiário). Nos telejornais, isso significa uma
concentração de 28,7% das personagens femininas contra apenas 5,2% das
personagens masculinas. Mesmo assim, o número de homens continua a ser maior do
que o de mulheres: elas são 249 e eles 314 personagens populares. Nas revistas,
a diferença percentual é bem menos acentuada: são 18 mulheres, ou 2,5%, e 38
homens, ou 0,5%.
A distribuição irregular de homens e mulheres entre as categorias temáticas
indica um aspecto importante nesses dados: a convivência entre a representação
desvantajosa das mulheres na cobertura jornalística e os estereótipos de
gênero, o que reforça a posição marginal da mulher no campo político. Assim, a
pouca visibilidade é acompanhada de uma presença associada a temáticas de menor
relevância, segundo a hierarquia interna dos noticiários e do campo político.
Deslocando a análise novamente para o conjunto do noticiário - e não a
restringindo às matérias sobre política brasileira -, percebe-se a concentração
das mulheres num universo de questões que está mais próximo da esfera privada.
Desse modo, nos telejornais, elas aparecem sobretudo nas matérias de fait-
divers,que reúnem 18,6% das personagens femininas - mais do que o dobro da
concentração das personagens do sexo masculino na mesma categoria (ver Tabela
5). Seguem-se três categorias, com proporções bastante próximas, reunindo cada
uma por volta de 15% das mulheres nos telenoticiários: as matérias de polícia,
nas quais, no entanto, elas estão com mais frequência na posição de vítimas do
que de perpetradoras ou investigadoras; as matérias de cidades, em que elas
aparecem sobretudo na condição de consumidoras ou usuárias de serviços
públicos; e as matérias de política brasileira.
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As personagens masculinas, por sua vez, concentram-se no noticiário político,
seguido de polícia, esportes, internacional e, só então, fait-divers .Mas
convém lembrar que a Tabela_5 apresenta os percentuais dentro de cada sexo.
Assim, mesmo nas categorias que concentram mulheres em proporção bem maior do
que homens, eles são majoritários. Os 18,6% de mulheres emfait-diverscontra
8,8% de homens, por exemplo, significam, em números absolutos, 1.119
personagens femininas diante de 1.718 masculinas9. No caso das matérias sobre
política brasileira, categoria em que a concentração é muito maior do lado dos
homens, os dados apontam que apareceram quase sete personagens do sexo
masculino para cada uma do sexo feminino. Se as personagens "populares" são
excluídas, essa relação ultrapassa nove para uma.
Nas revistas, há uma maior concentração tanto de homens quanto de mulheres na
categoria fait-divers.Mais da metade das mulheres e de um terço dos homens que
nelas aparecem estão em matérias classificadas como variedades (Tabela_6). Para
ambos os sexos, a categoria seguinte de maior participação é "política
brasileira", mas aí a concentração relativa de homem é muito maior (25,6%, mais
do dobro do que o percentual verificado para as mulheres). O viés é ainda mais
forte do que nos telejornais: são 9,4 homens para cada mulher no noticiário
político das revistas semanais.
[/img/revistas/dados/v53n3/a06tab06.jpg]
Há um paralelo, no caso dos telejornais10, entre mulheres e negros, dois grupos
sociais sub-representados no noticiário. Os negros são apenas 9,2% das
personagens das matérias de política dos telejornais analisados. A análise do
pertencimento das personagens a grupos sociais mostra que há maior presença dos
negros entre os integrantes de movimentos sociais (são 27,5%, representando
18,3 pontos acima do percentual geral de personagens negras, uma diferença
considerada importante de acordo com os testes de significância estatística).
De modo complementar, a associação entre cor e poder mostra que a maior
concentração de negros, como no caso das mulheres, está entre os "populares".
Nos telejornais, 31,8% dos "populares" são negros (22,6 pontos acima do
percentual geral de personagens negras), enquanto só 54,2% são brancos (29,8
pontos abaixo do percentual geral de personagens brancas). Além disso, os
negros apresentam-se ainda mais sub-representados entre as personagens
vinculadas ao Poder Executivo, sendo apenas 3% delas.
CONCLUSÃO
O que é a política, vista por um telespectador de telejornais ou por um leitor
de revistas semanais? Em grande medida, ela se constitui naquilo que os meios
lhe apresentam. Se, "para a maioria das pessoas, só existem dois lugares no
mundo: o lugar onde elas vivem e a televisão", como diz uma personagem do
romance Ruído Branco(DeLillo, 1987:69), está claro que a política pertence à
segunda esfera. É um mundo de homens de gravata, diferenciado e distante da
gente comum.
Pierre Bourdieu diz que os regimes representativos contemporâneos vivem uma
permanente tensão entre o caráter formalmente democrático do sistema político e
seu funcionamento real, que é censitário. A resolução desta tensão exige que
muitos se abstenham "voluntariamente" da ação política, introjetando sua
própria atribuição de incompetência (Bourdieu, 1979:464). É possível dizer que
os meios de comunicação de massa contribuem para esse sentimento de
incompetência, ao construir a política como universo separado, de acesso
limitado a uns poucos e fracamente conectado com outras esferas sociais. No
entanto, pode-se pensar que isso aumenta a importância dos próprios meios de
comunicação, que apresentam a si mesmos como canais privilegiados de acesso a
essa esfera e como tradutores competentes daquilo que nela se dá.
Assim, a política, nos telejornais e revistas semanais, é um campo restrito,
associado às atividades e competências de determinados atores sociais. A
oposição entre profissionais - que detêm posições no campo político ou são
reconhecidos como distintos em sua competência para analisá-lo - e profanos é
acompanhada de um reforço às hierarquias internas do campo político. Isso
significa que, além de consagrar como atores políticos capazes de emitir
opinião e participar do debate midiático aqueles que já fazem parte do campo
político em sentido estrito, o jornalismo confere visibilidade justamente aos
atores que já possuem recursos para se fazer ver, de acordo com os valores e
hierarquias vigentes no campo.
O enfoque assumido pela pesquisa evidencia o fato de que, ao mesmo tempo que
podem optar por um ou outro candidato, por uma ou outra plataforma política, os
meios de comunicação de massa compartilham, em linhas gerais, uma compreensão
sobre o que é a própria política: qual seu espaço, quais seus agentes. Essa
compreensão é comum a veículos que apresentam opções político-partidárias
diferenciadas ou que interagem de maneiras distintas com os cânones da
imparcialidade jornalística. Pode permanecer enquanto os veículos modificam
suas posições, de acordo com aspectos conjunturais e relativos a determinadas
disputas.
A cobertura política confirma que tomar parte da política é possível para
aqueles que têm um perfil específico, afinado a exigências e competências que,
efetivamente, excluem a maior parte dos cidadãos. A visibilidade diferenciada
dos temas que compõem a agenda da mídia está relacionada ao entendimento do que
é politicamente relevante. E essa relevância se conecta, por sua vez, à
centralidade assumida por atores e práticas políticas específicos. Nesse
sentido, agenda e concessão de voz são dois aspectos de uma compreensão
fundamental, a de que a política democrática é feita em determinados espaços e
por determinados atores, ainda que suas práticas sejam, rotineiramente,
submetidas ao escrutínio da população em geral. Nesse caso, o que é alvo da
crítica no jornalismo não é um modo de funcionamento que concentra poder e
reproduz clivagens e hierarquias sociais (de classe, de gênero e de raça), mas
um mau funcionamento que faz com que os atores desempenhem mal seu papel de
elites dirigentes. Um exemplo disso é que as matérias de escândalos jogam luz
sobre comportamentos entendidos como desviantes, mas não sobre padrões
estruturantes das relações entre Estado e poder econômico no capitalismo.
Na mídia, os atores políticos são aqueles que já possuem cargos públicos
eletivos ou de confiança (especialmente no Executivo e no Legislativo
federais), são homens e, comprovadamente, no caso dos telejornais, e
especulativamente, no caso das revistas, são brancos. A política é, então, o
espaço habitado por esses atores e se faz das relações entre eles, com menor ou
maior grau de "aprovação" na própria cobertura. Na mídia, como nas esferas
institucionais de representação política, a universalização que caracteriza a
democracia convive com a exclusão da maior parte dos cidadãos dos espaços e
posições que lhes conferem a possibilidade de decidir, emitir opiniões e fazer
ouvir e ver suas perspectivas, isto é, seu entendimento sobre quais são as
questões para eles relevantes e como deveriam ser conduzidas. À maioria dos
cidadãos -em um nicho que inclui os próprios espectadores e leitores - cabe
acompanhar o jogo. Isso fica evidenciado de forma ainda mais clara pela
irrelevância dos depoimentos dos "populares", destinados a cumprir um papel
meramente ilustrativo, quando não folclórico, sem que se espere que produzam
qualquer colaboração pertinente ao debate que se trava entre os atores
políticos legítimos.
Existe uma correspondência entre uma compreensão restrita da política, a
concentração do noticiário em personagens com perfil específico e a
naturalização da hierarquia entre os temas e as experiências que constituem a
agenda política e a agenda midiática. Vozes diversas (e dissonantes) poderiam
impor à cobertura outras temáticas e mesmo forçar uma avaliação da hierarquia
"natural" entre os temas no noticiário político ou entre os temas políticos e
aqueles aos quais não se atribui essa rubrica. A especialização e a
concentração em atores e temas legitimados pela configuração atual da política
- e da política nos noticiários - têm, como um de seus aspectos, a confirmação
da distância entre os poucos atores e os muitos espectadores.
O público consumidor de informação se encontra em posição similar à dos
"populares", mesmo no caso das revistas, cujos leitores possuem um perfil bem
mais elitizado do que os espectadores dos telejornais. Não se espera que esse
público seja capaz de oferecer uma contribuição válida ao debate - as cartas
dos leitores ocupam um espaço ilustrativo e anedótico similar aos depoimentos
de transeuntes colhidos nas enquetes.
Não se espera nem mesmo que os consumidores de informação sejam capazes de
entender o jogo político. Seja porque os políticos, com frequência, utilizam
uma forma de expressão diferenciada, que marca sua distinção, seja porque suas
palavras e ações só guardam pleno sentido no contexto de uma teia de relações
que escapa aos profanos, a intermediação dos jornalistas se torna fundamental
para explicar ao público o que está acontecendo. Isso reforça a sensação de
afastamento.
A política, nas chamadas "democracias representativas", de fato se faz assim,
com a exclusão permanente do titular nominal da soberania, o povo. Mas a mídia
não se limita a refletir uma realidade que a cerca; ela desempenha uma função
ativa na reprodução de práticas sociais. Portanto, os telejornais e revistas
semanais brasileiros não só descrevem uma situação de fato (o monopólio da
atividade política pelos profissionais), eles a naturalizam diante de seu
público e contribuem para sua perpetuação.
NOTAS
1. A resenha mais completa dos estudos sobre mídia e política no Brasil ainda é
a de Rubim e Azevedo (1998). Uma década depois, o quadro parece basicamente
inalterado.
2. Para uma discussão mais aprofundada da moldura teórica da pesquisa, ver
Miguel e Biroli (2009; 2010).
3. As gravações dos telejornais foram disponibilizadas pela ANDI (Agência de
Noticias dos Direitos da Infância), cuja colaboração, em especial na pessoa de
Railssa Alencar, agradecemos. O acompanhamento do noticiário envolveu uma
grande equipe de estudantes da Universidade de Brasilia (UnB). Somos gratos, em
especial, às então mestrandas Helena Máximo e Janine Mello, que colaboraram com
a coordenação da coleta de dados, e aos então graduandos Andrea Azevedo Pinho,
Carla Beatriz de Paulo, Carla Bianca Caldas, Cleiton Euzébio de Oliveira,
Fernanda Feitosa, Isadora Cruxên, Janaína Moreira Figueira, Luiz Augusto
Campos, Mariana Silva Abreu, Natália Vieira, Nathália Mattos e Paula Pompeu
Fiúza Lima. As bases de dados foram uniformizadas e corrigidas por Carlos
Machado, Danusa Marques e Filipe Recch.
4. Por economia de linguagem, utilizamos o termo "matéria" para indicar todo
material não publicitário das revistas e dos telejornais, incluindo
reportagens, entrevistas, editoriais, artigos, colunas, críticas etc.
5. Longe de ser uma peculiaridade da cobertura eleitoral de 1998, o foco nas
variedades marcou o período em que Evandro Castro de Andrade dirigiu a Central
Globo de Jornalismo (1995 a 2001).
6. É frequente, por exemplo, que deputados e senadores atribuam à imprensa a
culpa pela baixa confiança da opinião pública no Poder Legislativo. Agradecemos
a Pedro Noleto por nos ter repassado a transcrição de depoimentos colhidos de
uma amostra de congressistas.
7. A candidata Ana Maria Rangel (que obteve 0,13% dos votos válidos), no
entanto, foi personagem de apenas oito matérias.
8. Usamos o termo "entrevistado" por comodidade, mas, a rigor, pode se tratar
também de um trecho de uma declaração pública, de um discurso no plenário, de
uma gravação clandestina etc.
9. A única exceção é a categoria "previsão do tempo", em que a presença de
alguma personagem é absolutamente excepcional e que contou com nove mulheres e
sete homens.
10. A presença dos negros foi quantificada pela identificação fenotípica da cor
das personagens do noticiário dos telejornais, com base nos critérios correntes
de atribuição de raça/cor no Brasil. Tal identificação foi feita pelos
estudantes que participaram desta pesquisa. Personagens apenas citadas, sem
imagem, não foram classificadas. O método é falho e foi utilizado como
aproximação possível, na ausência de outros recursos.