Instituições fortes, moeda estável e Banco Central do Brasil autônomo
O Brasil precisava ter uma moeda estável. E para ter uma
moeda estável precisava ter pelo menos um início de
Banco Central (Otávio Gouveia de Bulhões, idealizador da
Sumoc e do Banco Central do Brasil)
Bancos centrais modernos devem afirmar sua
independência em relação aos mercados financeiros tão
vigorosamente quanto afirmam sua independência em
relação à política (Alan S. Blinder, vice-chairman Federal
Reserve Board ' 1994/1996)
INTRODUÇÃO
A concessão de autonomia aos bancos centrais em todo o mundo capitalista se
transformou, sobretudo a partir da década de 1990, em tema de acalorados
debates que passaram a mobilizar, não apenas as comunidades de policy-makers,
mas também parte significativa dos círculos acadêmicos.
O pressuposto dessa discussão é que bancos centrais independentes em relação a
seus governos são muito mais eficientes na tarefa de manter baixos índices de
inflação, uma vez que os governos, pela sua própria natureza política, temem,
sobretudo nos períodos eleitorais, adotar medidas impopulares, como, por
exemplo, aumentar as taxas de juros que afetarão o crescimento econômico
elevando o nível de desemprego.
Apesar desse recente interesse acadêmico e da presença recorrente do tema no
debate público nacional, a discussão sobre a independência do banco central não
é uma novidade na trajetória da política econômica brasileira. Desde a criação
da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc) em 1945 até o atual período
de estabilidade econômica iniciado em meados da década de 1990, o grau de
autonomia concedido à autoridade monetária mostra-se como um tema controverso.
Ao analisarmos o percurso institucional da autoridade monetária no Brasil,
podemos perceber que o grau de sua autonomia tem variado de acordo com as
preferências e prioridades de governos em relação à estratégia de
desenvolvimento econômico a ser implementada.
Com essa perspectiva, o presente artigo destina-se a discutir a autonomia do
Banco Central do Brasil (BCB) e sua tortuosa relação com a estabilidade da
moeda nacional. Para tanto, fixamos-nos em uma argumentação que se apoia em
duas hipóteses centrais, desenvolvidas ao longodotexto.
1) De acordo com a primeira hipótese, a estabilidade da moeda
nacional depende, para além do equilíbrio das contas públicas e da
autonomia do Banco Central, da estabilidade política e institucional
do próprio Banco Central. Para fins desse artigo, utilizamos para
medir tal estabilidade, não só o grau de circulação dos presidentes
do Banco Central, como também dos ministros da Fazenda1. Um segundo
indicador importante que será utilizado é o da composição do Conselho
Monetário Nacional (CMN), uma vez que no arranjo institucional
brasileiro esse órgão detém a prerrogativa de elaboração da política
monetária. Segundo nossa hipótese, a estabilidade política e
institucional da autoridade monetária é maior em situações de baixa
circulação de titulares da área econômica e de composição mais
reduzida do CMN,uma vez que torna esta instituição mais impermeável a
demandas clientelísticas (Raposo, 1997).
2) Uma segunda hipótese nos remete à autonomia concedida por
diferentes governos à Sumoc e ao BCB na execução das políticas
monetárias e creditícias do país. A trajetória brasileira mostra que,
em períodos históricos desenvolvimentistas, os governos, que
priorizaram implementar altas taxas de crescimento à economia
nacional, tenderam a submeter a autoridade monetária ao Poder
Executivo. Por outro lado, em períodos estabilizadores, com governos
preocupados em controlar desequilíbrios fiscais e altas taxas de
inflação, os mesmos tenderam a atribuir maior autonomia à autoridade
monetária. Assim, a autonomia dessas instituições dependeu das
preferências que diferentes governos ou coalizões políticas
majoritárias apresentaram, ao longo do tempo, em relação às suas
estratégias de política econômica (Raposo, 1997).
A fim de testar e refletir sobre as hipóteses acima enumeradas, realizamos uma
análise comparativa da atuação da autoridade monetária brasileira dos governos
compreendidos entre 1945 (Dutra) e 2003, final do segundo mandato de Fernando
Henrique Cardoso. Com essa perspectiva, procuramos integrar o processo de
institucionalização da autoridade monetária brasileira na trajetória mais ampla
do desenvolvimento político e econômico nacional, ressaltando os conflitos e
contradições nele presentes (Raposo, 1997; Thelen, 1999). Portanto, em uma
perspectiva mais geral, este trabalho considera as condições políticas e as
motivações econômicas como elementos indispensáveis para avaliarmos os momentos
de maior ou menor autonomia de bancos centrais ao longo do tempo (Raposo, 1997;
Quaglia, 2005; Corazza, 2006; Patrício, 2001; Santos e Patrício, 2002; Sola,
Garman e Marques, 2002).
Sobre a metodologia adotada, esse artigo se vale de dois procedimentos. Um
deles é a utilização de entrevistas realizadas com alguns dos principais
presidentes do Banco Central do Brasil que, dialogando com cenários por vezes
extremamente adversos, explicam estratégias, defendem projetos, interpretam
fatos e expõem-se como protagonistas de nossa história política e econômica
moderna. Uma história engendrada por uma lógica que envolve a ação dos atores
políticos que, a um só tempo, influenciaram e foram condicionados por
conjunturas de crises, conflitos e pelo caráter de nossas instituições
públicas. A contribuição dos depoimentos está intimamente ligada ao
reconhecimento das visões e versões dos fatos narrados como manifestações de
determinados momentos históricos da construção institucional da Sumoc e do
Banco Central do Brasil. Essas versões subjetivas e comprometidas com posições
políticas e institucionais são mais do que simples visões ideológicas e
parciais. Constituem-se, na verdade, em elementos a partir dos quais será
possível conhecer e esclarecer fatos e processos históricos aparentemente
contraditórios. Assim, essas entrevistas oferecem um material de grande valor
para o pesquisador e que, juntamente com outros documentos, possibilitam um
entendimento mais rico e consistente da formação institucional brasileira.
Um segundo procedimento é a análise comparativa dos indicadores de estabilidade
institucional, da autonomia da autoridade monetária e do comportamento da taxa
de inflação em relação às políticas econômicas adotadas por cada governo em
questão (desenvolvimentistas ou estabilizadoras). Com essa comparação,
procuramos estabelecer correlações que permitam melhor compreender os contextos
nos quais as autoridades monetárias desfrutaram de maior ou menor autonomia.
O artigo desenvolve-se em três partes. Na primeira, resumimos os principais
achados da bibliografia mais significativa sobre a autonomia dos bancos
centrais. Na segunda parte, apresentamos a trajetória do caso brasileiro, desde
a criação da Sumoc até o período recente de autonomia do Banco Central do
Brasil (Bacen) no governo Fernando Henrique Cardoso. A terceira parte procura
sintetizar a argumentação desenvolvida em um quadro comparativo dos diferentes
governos analisados. Por fim, concluímos propondo algumas questões a serem
desenvolvidas nas próximas pesquisas sobre a institucionalização da autoridade
monetária no Brasil.
O DEBATE RECENTE SOBRE AUTONOMIA DE BANCOS CENTRAIS
Nas últimas décadas, alguns trabalhos dedicaram-se a discutir não só a possível
relação existente entre autonomia dos bancos centrais e estabilidade monetária,
mas também as circunstâncias e as motivações que levaram à sua adoção por parte
dos bancos centrais, reanimando o debate sobre sua eficiência, seus limites e
suas características. Nesse contexto, a literatura sobre o tema consolidou-se
em torno de duas perguntas: 1) por que bancos centrais autônomos são benéficos
para a economia de um país? e 2)o que levaria governos a adotarem bancos
centrais autonômos, a despeito dos incentivos em contrário?
Um dos trabalhos que tenta responder à primeira questão foi formulado por Alan
Blinder, para quem autonomia significa que os bancos centrais devem dispor de
liberdade para decidir como tentar atingir seus objetivos; porém, isto não quer
dizer que o banco, por si só, pode selecionar tais objetivos. Blinder acredita
que em regimes democráticos as autoridades políticas devem indicar os objetivos
a serem atingidos pelos seus bancos centrais.
As razões técnicas para a adoção desta autonomia encontram-se bem resumidas na
sua argumentação, em que
a política monetária, por sua própria natureza, requer um horizonte
de longo prazo [...], mas políticos em países democráticos ' e até
mesmo não democráticos ' não são conhecidos nem por sua paciência,
nem por sua visão aguda de longo prazo. [...] Sabendo disso, muitos
governos sabiamente tentam despolitizar a política monetária, por
exemplo, colocando-a nas mãos de tecnocratas não eleitos com longa
experiência no governo e protegidos do agito da política. O
raciocínio é o mesmo de Ulisses: ele sabia que iria ter melhores
resultados a longo prazo se se amarrasse ao mastro, apesar de saber
que não se sentiria muito bem com isto a curto prazo! (Blinder, 1999:
76)2
Blinder nos fala, também, da independência do banco central em relação aos
mercados financeiros.
Se o banco central se esforçar demais para agradar aos mercados, é
provável que tacitamente adote os horizontes extremamente curtos dos
mercados como seus próprios. Isso pode criar um perigoso fenômeno do
tipo "cachorro perseguindo o próprio rabo", em que o mercado reage,
ou melhor, reage exageradamente, a percepções sobre o que o banco
central poderiafazer e o banco central recorre aos mercados para
orientação sobre o que deveriafazer. (Blinder, 1999:79)
Outro autor é o cientista político Arend Lijphart que chama a atenção para a
política monetária, que se tornou particularmente importante no mundo
contemporâneo a partir do ano de 1971,
quando o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, desvalorizou o
dólar america no rompendo a relação fixa do dólar com o ouro e com as
outras moedas, estabelecida no acordo de Bretton Woods, em 1944.
Nessa situação muito mais incerta de flutuação das taxas de câmbio, a
independência dos bancos centrais se transformou num instrumento
ainda mais importante na limitação da instabilidade de preços.
(Lijphart, 2003:267)
Sylvia Maxfield (1997), por sua vez, tenta entender as razões que levaram
inúmeros governos a conceder independência a suas autoridades monetárias a
partir da década de 1990. Ela nos lembra que o aumento da independência dos
bancos centrais, verificado na Europa, encontra-se, em parte, ligado ao Tratado
de Maastricht, de 1992, por ter estabelecido a independência dos bancos
centrais como condição necessária para a participação na nova moeda europeia.
Maxfield também chama a atenção para o caso específico da América Latina '
povoada por Estados nacionais com dificuldades de se financiarem de maneira não
inflacionária ', onde os bancos centrais passaram a ser olhados como
instituições estratégicas, recebendo pressões vindas de mercados financeiros
muito mais liberalizados e credores de importantes dívidas de vários de seus
países, para se tornarem independentes. No continente latino-americano, a
independência dos bancos centrais ocorreu, sobretudo, a partir dos anos de
1990, em um ambiente no qual não havia mais recursos financeiros abundantes,
como ocorria nos anos de 1970. Ao contrário, havia desconfiança por parte do
mercado e das instituições financeiras em relação aos países que vinham
demostrando dificuldades em pagar suas dívidas.
Outro caso seria a adoção, por países recém-saídos do comunismo, de bancos
centrais independentes, situação que se encontra ligada às preferências dos
mercados financeiros dos quais estes Estados, agora novos membros do mundo
capitalista, precisavam se aproximar.
Nesse ambiente ' em que os bancos centrais passaram a protagonizar parte
importante da discussão sobre o modelo institucional a ser adotado pelas
sociedades contemporâneas ' é que surge o interesse em se verificar se bancos
centrais autônomos são realmente mais adequados para controlar o processo
inflacionário.
Como já dito anteriormente, a pressuposição básica é a existência de uma tensão
estrutural entre
alógicapolíticaealógicaeconômica.Bancoscentraissubmissosagovernos
prioritariamente preocupados em promover o crescimento econômico e o aumento
dos níveis de emprego a fim de garantir votos ou aprovação popular acabam por
alimentar processos inflacionários. Ou seja, governos que pressionam seus
bancos centrais para que, através do aumento da liquidez da economia, se
vinculem a tais objetivos, produzem, em última instância, o aumento da
inflação. Ou, ainda, governos que temem os efeitos políticos negativos de
medidas recessivas ' como a elevação das taxas de juros, o desaquecimento da
economia e o aumento das taxas de desemprego ' têm poucos incentivos para
controlar processos inflacionários. De modo contrário, países com bancos
centrais independentes para perseguir a estabilidade monetária poderiam
enfrentar de modo mais eficiente tais processos (Bibow, 2004).
Tendo este cenário como pano de fundo, surgiram inúmeros trabalhos que
examinaram aspectos dos bancos centrais que poderiam colaborar para o aumento
de suas autonomias e, supostamente, para o aumento da estabilidade monetária de
seus países, considerando esta autonomia como resultante de diferentes fatores,
tais como os legais, os políticos, os econômicos e, até mesmo, a personalidade
de seus dirigentes.
No artigo "Measuring the Independence of Central Banks and its Effect on Policy
Outcomes", Cukierman, Webb e Neyapti (1992) realizam um dos mais completos
estudos sobre a mensuração de tal correlação construindo três conjuntos de
indicadores que foram aplicados a 72 países (21 industrializados e 51 em
desenvolvimento) observados a cada década, desde 1950 até 1989. O primeiro
conjunto de indicadores é relativo à independência legal dos bancos centrais; o
segundo, sobre a rotatividade dos seus presidentes; o terceiro é baseado nas
respostas de especialistas a um questionário. Com base nesses índices, os
autores demonstraram a existência de uma forte correlação entre bancos centrais
independentes e baixas taxas de inflação em países industrializados. Em relação
aos países em desenvolvimento, as correlações mostraram-se indeterminadas.
Se para a cientista política Susanne Lohman (1998:443) é verdade que a
independência dos bancos centrais só se correlaciona positivamente com
estabilidade da moeda nos países desenvolvidos, é verdade, também, que meros
estatutos legais ou instituições formalmente independentes, a despeito dessas
correlações positivas, não têm a capacidade de reverter processos
inflacionários. Para Lohman, um dos elementos que contribuiria de forma
decisiva para a autonomia de bancos centrais seria a existência de um sistema
de checks and balancescapaz de propiciar pontos de veto aos atores políticos
relevantes. Segundo a autora, em sistemas federativos, normalmente com mais
possibilidades de pontos de veto por diferentes atores políticos, a reversão da
independência de um banco central seria mais difícil. Por isso, a autora chama
a atenção para a correlação positiva entre sistemas federativos e bancos
centrais independentes. Mais uma vez, porém, essa correlação só se mostra
convincente quando olhamos para países considerados desenvolvidos, não sendo
forte em países em desenvolvimento.
Para melhor entendermos as correlações indeterminadas entre autonomia de bancos
centrais e estabilidade monetária em países em desenvolvimento, deve-se
considerar que até a década de 1980 esses países não respeitavam, de maneira
efetiva, a eventual independência legal de seus bancos centrais porque,
frequentemente, a preocupação prioritária de seus governos era a promoção do
crescimento econômico e do pleno emprego, e não a busca da estabilidade
monetária. Assim, os bancos centrais desses países tenderam a atuar mais como
bancos de fomento, fornecendo crédito para o desenvolvimento da economia a
despeito da necessidade de controlar seus processos inflacionários, tendência
esta que adquire predominância apenas a partir da crise dos anos de 1970.
Sobre o caso brasileiro, Sola, Garman e Marques (2002) mostram que a
estabilidade recente de preços precedeu à maior autonomia do Banco Central. No
mesmo sentido, Mendonça (1998) afirma não existir uma relação de causalidade
estrita entre o aumento gradual do grau de independência do Banco Central do
Brasil e a estabilidade de preços, sobre tudo no período pós-Plano Real; ao
contrário, o aumento da independência foi resultado do sucesso da estabilização
derivada deste Plano.
Francisco Rigolon (1993) assinala, igualmente, que a existência de bancos
centrais independentes não seria condição suficiente para a manutenção de
baixas taxas de inflação, sendo a autonomia recomendável como mecanismo
preventivo após processos de estabilização bem-sucedidos, e que os mesmos só se
tornam efetivos quando a sociedade chega a um consenso político que afaste a
expansão monetária como instrumento de política econômica.
Chama, ainda, a atenção para o fato de a "rotatividade dos presidentes ser um
indicador adequado para medir a independência real nos países em
desenvolvimento, mas não nos desenvolvidos" e que "a rotatividade indicou
progressiva deterioração na independência do Bacen, ao longo das décadas de
1960, 1970 e 1980". Acentua, também, que "inflação, indexação, dívida e déficit
públicos afetam negativamente a independência dos bancos centrais", e que "a
magnitude do mercado financeiro afeta positivamente [sua] independência [...]"
(Rigolon, 1993).
Apesar das contribuições trazidas por esses e outros trabalhos, gostaríamos de
ressaltar que pouca atenção foi dada a estudos de caso em que são analisadas as
condições políticas e as motivações econômicas que levam países em
desenvolvimento, como o Brasil, a concederem maior ou menor autonomia a suas
autoridades monetárias. Como Taylor (2009) sugere, é necessário entender a
construção da autoridade monetária brasileira como um processo gradual e
cumulativo. Em sua argumentação, pequenas alterações na forma de elaboração e
implementação das políticas monetária e econômica contribuíram decisivamente,
ao longo do tempo, para a consolidação da autonomia da autoridade monetária
brasileira.
Mais recentemente, após o sucesso do Plano Real e o maior insulamento
experimentado pelo Banco Central do Brasil, surgiram trabalhos que analisam os
mecanismos de prestação de contas da autoridade monetária perante o Congresso
Nacional e que discutem a legitimidade da ação da autoridade monetária
independente no contexto das sociedades democráticas (Santos e Patrício, 2002;
Patrício, 2001). A partir desses trabalhos, podemos perceber que as
prerrogativas de formulação da política monetária, no caso brasileiro,
encontram-se historicamente concentradas no Poder Executivo federal. Por
incorrer nos custos ' e colher os benefícios ' resultantes da política
monetária e pela ausência de pontos de veto institucionais expressivos,
historicamente as preferências do Poder Executivo federal ' em particular do
presidente da República ' têm sido o principal elemento a garantir a
estabilidade política da autoridade monetária e, consequentemente, de sua
autonomia para atingir os objetivos desejados.
Com essas perspectivas, passamos então a analisar a trajetória de
institucionalização da autonomia da autoridade monetária brasileira.
A SUPERINTENDÊNCIA DA MOEDA E DO CRÉDITO ' SUMOC E SEU CONSELHO
No Brasil, a ideia de criação de um banco central independente foi cogitada
inúmeras vezes. Passo importante neste sentido foi dado com a criação da Sumoc,
ainda no apagar das luzes do Estado Novo, em 19453. Por ocasião da criação da
Sumoc foi instituído o seu Conselho, que teve como função definir a política
monetária e creditícia do país e estabelecer, por conseguinte, os limites de
atuação, tanto da própria Sumoc, como do Banco do Brasil.
Se é verdade que a Sumoc e, mais nitidamente, o Banco Central transformaram-se
gradativamente em instituições dotadas de princípios técnicos, compostas de
funcionários admitidos por concurso que, para perseguirem suas metas, agiram
progressivamente com mais autonomia, é verdade também que há variações e
ponderações a serem feitas a esse respeito.
Primeiramente, foram diferentes os padrões de insulamento dessas instituições
em seus sucessivos períodos históricos. Há, também, significativas alterações
nos relacionamentos, tanto da Sumoc quanto do Banco Central, com os conselhos
aos quais se ligaram por laços de dependência e através dos quais se
relacionaram com o Poder Executivo. Estes conselhos tinham como atribuição
estabelecer as metas a serem por elas seguidas e tiveram as composições
políticas as mais diversas possíveis. Em alguns períodos, a Sumoc e
principalmente o Banco Central foram mais autônomos, relacionando-se com o
Poder Executivo através de conselhos de composição mais técnica; em outros,
perderam suas autonomias, subordinando-se a conselhos mais políticos, ou
através de suas ligações diretas com o Ministério da Fazenda e com o Banco do
Brasil, órgãos comandados pelo Poder Executivo.
Como veremos no decorrer da análise, governos que adotaram políticas
desenvolvimentistas tenderam a inchar esses Conselhos, que acabaram se
transformando em verdadeiras assembleias nas quais tinham assento, inclusive,
instituições fiscalizadas pelo próprio Conselho. Governos preocupados em
estabilizar a economia, por sua vez, tenderam a reduzir o número de membros do
Conselho Monetário como forma de insular a formulação da política monetária de
interessés particulares e corporativos.
Assim, a Sumoc, o Banco Central e, sobretudo, seus Conselhos, foram inseridos
em diferentes arranjos institucionais produzidos em épocas, governos e
contextos internacionais muito singulares, tendo feito parte de um Estado que
frequentemente promoveu parcerias políticas preferenciais e corporativas com
alguns grupos e classes, ao mesmo tempo em que excluiu e abandonou outros.
O projeto de criação da Sumoc previa que este órgão ' subordinado ao Ministério
da Fazenda ', além de exercer o controle monetário nacional, prepararia o
terreno para a constituição de um banco central autônomo. Sua criação foi, de
fato, a primeira tentativa institucional mais clara de se formular e executar
uma política monetária de maneira mais autônoma.
Porém, na verdade, a Sumoc atuava à sombra do Banco do Brasil, já que este
estava fortemente representado nos Conselhos da Sumoc, como se pode ver:
Ministério da Fazenda (presidente), presidente do Banco do Brasil (vice-
presidente), diretores das Carteiras de Câmbio e Redes-conto do Banco do
Brasil, diretor da Caixa de Mobilização e Fiscalização Bancária e, finalmente,
pelo diretor executivo da Sumoc. Isto limitava, na prática, sua capacidade de
resistir às pressões expansionistas sobre o crédito exercidas pelas operações
do Banco. O fato de não existir, à época, um processo ordenado de emissão de
papel-moeda, e de serem, em geral, muito frágeis os instrumentos de controle
das atividades bancárias, prejudicava também a autonomia operacional da Sumoc.
Outras relações que uniram o Banco do Brasil à Sumoc através de seu Conselho
também nos ajudam a esclarecer a pouca autonomia de que desfrutou a
Superintendência. Primeiramente, é preciso considerar que, na divisão de
tarefas entre essas instituições, coube ao Banco do Brasil atuar como órgão
executor das decisões do Conselho da Sumoc, como Banco dos bancos, e como
depositário das reservas internacionais, continuando, portanto, a atuar sempre
como agente financeiro do governo. Para tanto, recebia crédito do Tesouro
Nacional, arrecadava tributos ou rendas federais e realizava pagamentos e
suprimentos necessários à execução do Orçamento Geral da União.
Um efeito colateral da forte presença de diretores do Banco do Brasil no
Conselho da Sumoc foi a frequente diluição de suas atribuições técnicas quando
incorporou a seus quadros membros de formação essencialmente política, como
Ovídio Xavier de Abreu, Tancredo Neves e José Maria Alkmin, durante as décadas
de 1940 e 1950, por terem sido titulares da Carteira de Redesconto quando esta
pertencia ao Banco do Brasil.
No interior do próprio Banco do Brasil os conflitos e resistências à criação de
um Banco Central realmente autônomo vinham de longa data. Segundo Casimiro
Ribeiro, antigo funcionário do Banco do Brasil e que pertenceu ao grupo
"sumoqueano"4, "essa discussão já existia na década de 1940 e esquentou na
década de 1950. As pressões vinham dos funcionários do Banco do Brasil [...] de
funcionários que eram senadores da República, funcionários vereadores,
deputados, professores [...]"5.
O fato é que um maior controle bancário e creditício exercido por uma
instituição estatal mais impermeável aos interesses clientelísticos provocou
reações.
Octávio Gouveia de Bulhões confirma que o projeto da Sumoc, mesmo tendo sido
apenas um embrião de Banco Central, não conseguiu ser implantado em sua
totalidade, e permaneceram nas mãos do Banco do Brasil algumas de suas
atribuições legalmente estabelecidas, como o recolhimento dos depósitos
compulsórios.
Apesar de todos os avanços conseguidos, a Sumoc não conseguiu se transformar em
um Banco Central independente. A constituição de um sistema de contas das
autoridades monetárias permitiu à instituição avançar na distinção das contas
públicas, porém não adquiriu controle sobre elas (Malan, 1983).
Mesmo que a Sumoc tenha representado um importante passo na direção de mais
racionalidade na execução das políticas monetária e cambial, a mesma não obteve
autonomia em suas ações, permanecendo subordinada ao Banco do Brasil, ao
Ministério da Fazenda e a conselhos de formação frequentemente política.
O BANCO CENTRAL DO BRASIL E O CONSELHO MONETÁRIO NACIONAL
Um segundo momento importante no processo de autonomização dos instrumentos de
gestão monetária no Brasil se deu por ocasião da reforma bancária realizada
pelo governo Castelo Branco, em 1964, quando foram criados o Banco Central do
Brasil e o Conselho Monetário Nacional (Lei 4.595/64), tendo ocorrido, nessa
ocasião, um nítido fortalecimento dos instrumentos de gestão monetária e
financeira que se credenciaram política e juridicamente para exercer um
controle bastante mais incisivo, tanto sobre a receita, quanto sobre os gastos
públicos nacionais.
O então recém-criado Banco Central, subordinado ao Conselho Monetário
Nacional'órgão máximo do novo sistema financeiro ', adquire poderes claramente
superiores aos exercidos pela agora extinta Sumoc, diminuindo,
consequentemente, as atribuições do Banco do Brasil, o que não deixou de
provocar resistências6. Octávio Gouvêa de Bulhões, ministro da Fazenda do
governo Castelo Branco e patrocinador da proposta de criação do Banco Central,
apesar de seu espírito extremamente avesso a polêmicas, e com tendências a
amenizar a gravidade dos conflitos que envolveram a criação do Banco Central,
admite as reações advindas da burocracia do Banco do Brasil, pouco satisfeita
com sua perda de prerrogativas: "na época da criação do Banco Central houve um
certo mal-estar no Banco do Brasil, porque ele perderia as faculdades que tinha
como misto de banco central e banco comercial"7.
Ao mesmo tempo, porém, em que perdeu importantes atribuições com a reforma
bancária de 1964, o Banco do Brasil ligou-se ao Banco Central através de uma
conta ' conhecida como "conta-movimento" ' criada para registrar as atividades
entre as duas instituições. Segundo Pedro Malan,
Essa conta deveria ser "zerada" semanalmente com o pagamento de 1% de
juros sobre o saldo. Isto na verdade nunca aconteceu. A "conta-
movimento" ajustou-se sempre passivamente à transferência de recursos
para o Banco do Brasil, tal como requerida para que este cumprisse as
metas de empréstimos estabelecidas pelo governo através do Conselho
Monetário8.
A esse respeito, Paulo Lira, membro do grupo sumoqueano que ocupará a
Presidência do Banco Central do Brasil durante a Presidência de Ernesto Geisel,
nos explica que:
A compatibilização disso era feita através da ideia do Orçamento
Monetário, que era preparado no Banco Central, no qual se inseriam,
como uma das atividades principais, as atividades de empréstimo do
Banco do Brasil. Então você tinha que estabelecer limites à atuação,
à expansão do Banco do Brasil. Isso, realmente, sempre gerou um certo
atrito, digamos assim, permanente, entre as duas instituições, que
dependiam muito da orientação geral da política, não é? Mas o
instrumento para realizar essa compatibilização da atuação do Banco
do Brasil e da atuação do Banco Central era o orçamento monetário,
que era aprovado pelo Conselho Monetário Nacional onde o próprio
Banco do Brasil também sentava9.
O fato é que essa "conta-movimento" anulava, na prática, a autonomia do Banco
Central, que se via incapaz de promover políticas monetárias verdadeiramente
restritivas10. Esse entrelaçamento de funções foi mantido ainda por cerca de
duas décadas, terminando somente em 1986, no governo José Sarney, quando foi
encerrada a conta-movimento e retiradas do Banco do Brasil suas atribuições de
autoridade monetária.
Para além da transformação da Sumoc em Banco Central ' que, por si só,
representou importante passo no processo de autonomização e fortalecimento dos
instrumentos de gestão monetária no país ', foi concebida uma fórmula que
visava a conceder autonomia mais efetiva ao Banco Central. Para tanto, seus
dirigentes foram providos de mandatos fixos ' não podendo ser demitidos ad
nutum', cuja duração era maior que o do presidente da República. Bulhões nos
explica o princípio da autonomia do Banco Central, baseado no mandato de seus
diretores:
A independência poderia ser garantida por meio da estabilidade dos
diretores. Foi nesse sentido que se estabeleceu um esquema de
nomeações de diretores de modo que eles fossem designados pelo
governo passado, pelo governo presente e pelo governo futuro. Todos
tinham o prazo de seis anos, mas uns a começar no ano X, outros no
ano X1, outros no ano X2, e assim por diante. Assim, diferentes
governos participariam das nomeações, e nenhum deles teria maioria na
designação dos diretores11.
Quanto ao Conselho Monetário, em sua primeira fase, contava com nove membros
com direito a voto, dos quais um número considerável ' quatro ' eram diretores
do Banco Central, preocupados, portanto, com a manutenção da estabilidade
monetária. Além disso, o fato de possuírem mandatos de seis anos garantia sua
atuação, inclusive durante o governo seguinte12.
Principal instância de formulação e coordenação das políticas monetária,
creditícia, fiscal e da dívida pública interna e externa do país, o Conselho
Monetário tinha, portanto, entre suas atribuições, estabelecer os limites de
atuação tanto do Banco do Brasil, como do Banco Central ' instituições que se
restringiam a ser agentes executivos de suas deliberações.
A partir dessa primeira formulação, o Conselho sofreu tantas modificações ' não
só nas suas atribuições como também na composição de seus membros ' que sua
importância na promoção da política monetária nacional nos diferentes governos
militares e, posteriormente, nos civis foi bastante irregular, o que
consequentemente alterou não só a vocação, como também a função e o nível de
autonomia de que desfrutou o Banco Central.
A primeira modificação ocorreu já na primeira "passagem de guarda" do Regime
Militar, quando a política econômica restritiva praticada pelo governo Castelo
Branco é substituída por uma outra de crescimento acelerado, adotada pelo
governo Costa e Silva. Diante desse novo diagnóstico e desses novos desafios,
as atribuições e a importância das instituições econômicas também mudaram, o
que gerou conflito entre as duas equipes de governo, levando a que toda a
Diretoria do Banco Central nomeada por Castelo Branco pedisse demissão.
Casimiro Ribeiro, então diretor da instituição, ao ser perguntado se houve
ruptura por ocasião da passagem dos governos, respondeu, sem rodeios: "Houve um
trauma"13.
A implantação do sistema de rotatividade de diretores implantado pelo governo
Castelo Branco havia criado problemas para o recém-empossado presidente Costa e
Silva, que desejava modificar toda a equipe econômica de seu antecessor. Dênio
Nogueira, presidente do Banco Central no período Castelo Branco e, portanto,
com presença central nessa disputa, acusa a nova situação pelo fracasso em
tornar o Banco Central numa instituição autônoma. Para Nogueira, "os
inspiradores do presidente seguinte, Marechal Costa e Silva, perceberam que um
Banco Central independente poria fim à política de transferência de recursos da
sociedade para a oligarquia através dos subsídios geradores do déficit
público"14.
Em outra entrevista, continua Nogueira, "Se o Banco Central não for
independente, será, automaticamente, instrumento de poder dos políticos
eventualmente no governo em benefício de seus próprios interesses e da
oligarquia a que pertençam ou representem"15.
Casimiro Ribeiro, um dos diretores demissionários, confirma as dificuldades
nessa passagem de governo:
Em relação a nossa atitude, mandamos dizer ao Delfim que não iríamos
pedir demissão. E o Delfim, cheio de dedos porque ia ser ministro
pela primeira vez, veio falar conosco e disse: "Estou muito
constrangido, porque a decisão política é mudar todo mundo". Era
mudar. Foi o Delfim que me disse, constrangido [...]. Num período
militar o Sr. Costa e Silva entrou com uma gana em cima do governo
Castelo Branco, como se fosse um governo de oposição, dos velhos
tempos, compreendeu? Incrível. [...] Mas havia um aspecto formal,
tínhamos de preservar o princípio de que o Banco Central tem uma
administração independente, que cumpre os seus mandatos. Só
interrompe o mandato se for um processo por crime, comprovado [...].
Eles sugeriram, informalmente, que nós pedíssemos demissão. A
renúncia do cargo, porque nós não podíamos ser demitidos pela lei
[...]. Levamos nossa resistência até um certo ponto, temendo poder
até prejudicar o Banco Central como instituição16.
A esse respeito, Roberto Campos, ministro do Planejamento de Castelo Branco,
narrou, em suas memórias, um episódio que exemplifica bem a mudança de postura
em relação ao papel do Banco Central por parte do novo governo:
Dois meses antes da transmissão de poder fui, como ministro do
Planejamento, instruído por Castelo Branco para explicar ao
presidente eleito, Costa e Silva, os capítulos econômicos da nova
Constituição de 1967. Aproveitei para sugerir-lhe que pusesse termo
aos boatos de substituição do presidente do Banco Central, pois a lei
lhe dava mandato fixo, precisamente para garantir estabilidade e
continuidade na política monetária.
'O Bacen é o guardião da moeda ' acrescentei.
' O guardião da moeda sou eu ' retrucou Costa e Silva.
Foi inútil tentar persuadi-lo de que nem o Legislativo nem o
Executivo costumam portar-se heroicamente na luta anti-inflacionária,
pois ambos são sujeitos a enormes pressões de gastança, que
recrudescem nos anos eleitorais. Costa e Silva ignorou os mandatos, e
Delfim Netto, o novo ministro da Fazenda, não tinha fanatismo pela
ideia de independência do Banco Central. (Campos, 1994:669)
Finalmente, após algumas negociações, e em função das pressões vindas da nova
situação, a Diretoria do Banco Central, temendo criar um cenário de confronto
mais grave, resolveu renunciar, decisão que, segundo Casimiro Ribeiro, foi
tomada com o intuito de evitar futuras retaliações por parte do novo governo à
instituição:
Nosso receio era o de que de nossa intransigência podia vir até uma
mudança de lei. O que infelizmente foi feito, não pelo Delfim, mas
pelo Mário Henrique Simonsen. Essa resistência calou fundo em alguns
militares. O Mário Henrique assumiu em 15 de março e, no começo de
maio, ele levou um projeto de lei ao Geisel ' recebeu instruções para
isso, evidentemente ' fazendo as seguintes modificações na estrutura
legal: os diretores do Banco Central são nomeados pelo presidente da
República, sem audiência do Congresso. Não têm mandato certo e são
demissíveis ad nutum, e não têm mais quatro votos no Conselho
Monetário. Apenas o presidente tem voto17.
Voltando ao governo Costa e Silva e a esse contexto de mudança na orientação
econômica, uma quantidade enorme de atribuições foi transferida para o Conselho
Monetário, que passou a se dedicar à política econômica como um todo, perdendo
foco as atribuições relativas ao controle da inflação e perdendo autonomia o
Banco Central.
O Conselho passa, a partir de então, a ter dez membros com direito a voto (Lei
nº5.362/67) e aumenta de seis para sete o número de membros escolhidos pelo
presidente da República devido ao acréscimo de mais um diretor ao Banco
Central. Além disso, os membros escolhidos, a partir de então, não precisariam
mais da aprovação do Senado Federal, passando a ter mandatos de sete anos.
Nessa época, o Banco Central amplia mais suas atribuições, tornando-se, também,
responsável pela fiscalização do Mercado de Capitais.
A partir de dezembro de 1969, já no governo Médici, o Conselho passa a contar
com quatorze membros (Decreto nº65.769/69). Passam a compor este Conselho os
ministros do Interior e da Agricultura, sendo que os ministros do Planejamento
e da Indústria e Comércio, antes sem direito a voto, passam a tê-lo. Além
disso, os membros indicados pelo presidente tiveram seus mandatos reduzidos
para quatro anos.
Essa nova situação amplia o poder do ministro da Fazenda, que passa a
administrar a economia nacional através do Conselho, que ele preside, e do
Banco Central, que segue suas determinações.
Também foi aumentado o poder do Conselho sobre todas as instituições
financeiras que ficaram obrigadas, a partir de então, a remeter ao Banco
Central, até o dia 30 de novembro de cada ano, o orçamento de recursos e
aplicações para o exercício seguinte, devendo este enviá-lo para a devida
aprovação do Conselho. As atribuições e poderes do Conselho aumentam ainda mais
quando este se torna responsável pela política nacional de abastecimento,
transformando a Superintendência Nacional de Abastecimento (Sunab) em simples
fiscalizadora dessa política.
A partir de 1972, ainda no governo Médici, o Conselho Monetário consolida
definitivamente sua nova condição de órgão coordenador de toda a política
nacional com a inclusão, em seu quadro, dos presidentes do Banco Nacional da
Habitação (BNH) e da Caixa Econômica Federal (CEF) (Decretos nº65.769/72 e
nº71.097/72). No rol dos membros com direito a voto contam-se, agora, dezesseis
conselheiros.
Coroando essa nova arquitetura, o Banco Central passa a ter uma diretoria
composta de cinco membros, todos com direito a voto no Conselho, adquirindo,
portanto, a maioria em suas decisões. Converte-se, assim, em instituição
reguladora de toda a política econômica nacional18.
O Conselho Monetário deixou de ser, então, durante os anos do "milagre
econômico", instituição orientada essencialmente para o controle da inflação.
Estava a serviço do Poder Executivo, que passou a utilizá-lo, entre 1967 e 1973
(período Delfim Netto), não só como autoridade monetária, mas como instrumento
de promoção do crescimento da economia, tornando-se instância máxima de
coordenação de toda a atividade econômica do país.
Nesse novo cenário, o governo Geisel, ao tomar posse, promove mudanças radicais
na estrutura do Conselho, que considerava estar concentrando demasiadas
prerrogativas19. Esse "estilo" centralizador de Geisel resultou na redução dos
membros do Conselho Monetário, passando de dezesseis para dez (Lei nº6.045/74)
e, em seguida, para onze membros (Lei nº6.385/76) e, também, na perda de
mandatos protegidos dos diretores do Banco Central. Estes passam a ser, então,
nomeados diretamente pelo presidente da República, podendo ser demissíveis ad
nutum.Além disso, somente o presidente do Banco Central passou a ter voto no
Conselho.
Se, em um primeiro momento, em um cenário voltado para a estabilização da
moeda, o governo Castelo Branco cria o Banco Central e o Conselho Monetário
Nacional como instituições fortes e autônomas, em um segundo momento, durante
os governos Costa e Silva, Médici e Geisel, estas mesmas instituições submetem-
se ao governo e passam a promover uma política de crescimento econômico.
O governo Figueiredo, cuja principal missão política era realizar a transição
democrática, inaugura uma tentativa de retomada do Conselho Monetário Nacional
como instância de deliberação e coordenação da política econômica, procurando
dar maior espaço para a participação de membros da iniciativa privada. Como
visto, tanto o número de membros do Conselho com direito a voto, quanto os anos
de seus mandatos, variaram no tempo. Em seu início, durante o governo Castelo
Branco, eram 9 os seus membros e tinham seis anos de mandato. No governo
Figueiredo, último do período militar, eram 24 os seus membros com mandatos de
cinco anos (Decreto nº85.776/81).
O governo Figueiredo foi o que enfrentou os piores momentos da crise iniciada
nos anos de 1970. Ao descontrole da inflação, que se agravou vertiginosamente,
juntaram-se a crise do mercado internacional, causada pela moratória mexicana,
uma grande desarticulação das instituições públicas nacionais e, em particular,
a falta de identidade das instituições monetárias que se encontravam sem papel
definido e enfraquecidas.
Nessa circunstância, Ernane Galvêas, presidente do Banco Central dos governos
Costa e Silva e Médici, e ministro da Fazenda do governo Figueiredo, justifica
sua posição contra a autonomia do Banco Central chamando a atenção para sua
descaracterização, já que tinha se transformado em detentor de múltiplas
atribuições.
O muito que você poderia esperar é que o Banco Central tivesse duas
funções: a de Banco Central propriamente dito ' banco central puro ',
e mais a fiscalização do sistema. Mas aqui não. Ele entrou
fiscalizando o mercado de capitais, as bolsas de valores, o capital
estrangeiro, o crédito rural... Então, é uma instituição que não é um
banco central, é muito mais que um banco central. É por isso que,
quando as pessoas começam a falar em independência do Banco Central,
eu acho até um pouco engraçado. Por que dar independência a um banco
central com essas atribuições todas? [...] Não há presidente da
República, nem primeiro-ministro, nem ministro da Fazenda que vá
reunir os mesmos poderes que teria o presidente do Banco Central.
Imagina um presidente de banco central com absoluta autonomia e
independência, com esse Banco Central que está aí. Agora ainda tem a
Comissão de Valores Mobiliários, tem umas outras coisas que saem do
Banco Central [...]. Você pode dar independência e autonomia a uma
pessoa normal, mas ao Frankenstein você não dá independência nem
autonomia, ele tem que ser teleguiado. Se não, pode ser um
desastre20.
A partir dos anos 1970, os choques do petróleo e dos juros internacionais e a
redução dos fluxos financeiros foram, gradativamente, alterando as bases da bem
sucedida condução da política monetária do pós-guerra. A maioria dos países do
mundo ocidental passa por uma piora drástica no que diz respeito às condições
que então permitiam que se perseguissem o pleno emprego e o crescimento
econômico. Inicia-se um outro ciclo, inflacionário e de menor crescimento
econômico. Nesse novo contexto, a regulação das taxas de juros pelas
autoridades monetárias passou a significar uma escolha trágica entre controlar
a inflação ou manter o foco na manutenção do crescimento econômico e do pleno
emprego, situação que intensificou a discussão política sobre a concessão de
autonomia para os bancos centrais.
É necessário considerar que essas transformações ocorreram em um momento de
transição entre um mundo nacional e um outro, global, e desafortunadamente o
Brasil ingressava nessa nova etapa da economia mundial pela tortuosa porta da
hiperinflação e da dívida pública. Nesse novo mundo, os bancos centrais
passaram a desfrutar de mais importância e mais autonomia, não só econômica,
como também política, em virtude da inédita ascendência que o capital
financeiro passou a ter, tanto sobre o financiamento da iniciativa privada,
como dos próprios Estados nacionais constrangidos por crises fiscais e
políticas.
Essa situação é transferida, em sua essência, para o governo de José Sarney,
que inaugura o primeiro de uma série de planos que visaria a combater o que
havia se tornado um dos principais problemas da economia nacional: a inflação.
Nesse ambiente, o Banco Central do Brasil volta a ocupar um lugar de destaque,
participando de uma série de experimentos que culminaram (nos governos Itamar
Franco e Fernando Henrique Cardoso) em um plano vitorioso de combate à
inflação.
No período presidencial de Sarney, o Conselho Monetário sofre novos acréscimos
com a inclusão dos ministros do Trabalho, e do Desenvolvimento Urbano e Meio
Ambiente, além de mais dois membros, sendo um representante da classe
trabalhadora, todos com direito a voto. Varia seu colegiado, nesse período,
entre 26 e 27 membros21.
Em razão de uma composição ministerial realizada em meio a um delicado processo
de redemocratização política, as equipes do Ministério da Fazenda e do Banco
Central do governo Sarney tinham orientações distintas, o que criava
divergências a respeito dos procedimentos a serem adotados, situação que
reduziu consideravelmente a autonomia do Banco Central. Fernão Bracher, ao ser
perguntado se o Banco Central, que presidiu de agosto de 1985 a fevereiro de
1987, tinha autonomia, respondeu claramente que não, e que a última palavra
acabava sendo a do então ministro da Fazenda, Dilson Funaro, que "era
assessorado sobretudo pela equipe de Campinas, pelo João Manuel (Cardoso de
Melo) e pelo (Luiz Gonzaga) Belluzzo, que se guiavam por linhas totalmente
diferentes. Outras percepções. [...] Eu consegui, em determinado momento, uma
pequena desvalorização cambial e isso causou uma grande celeuma lá na equipe do
Ministério da Fazenda"22.
Nesse período, o Conselho Monetário passa a ser uma instância meramente
homologatória do Ministério da Fazenda. O Banco Central, por sua vez,
encontrava-se descaracterizado se se considerassem as funções que a reforma
bancária do governo Castelo Branco havia lhe atribuído, tendo sido transformado
em um banco voltado mais para a administração da economia nacional.
Francisco Gros, que sucedeu a Bracher na Presidência do Banco Central,
testemunha nesse sentido.
Em 1987 (Sarney) as reuniões se davam numa sala com 30, 40 pessoas.
Todos os membros com direito a voto. Só que, a rigor, com essa
composição era um instrumento homologatório das decisões do Banco
Central combinadas previamente com o Ministério da Fazenda. [...] O
governo votava em bloco. Toda essa turma seguia o voto do chefe. Ou
você acha que o presidente do Banco do Brasil iria votar diferente do
ministro da Fazenda? Todo mundo votava igual. Então, era
absolutamente homologatório. Volta e meia, os representantes da
iniciativa privada levantavam alguma coisa. Mas para ter alguma
chance de sucesso, teria que ser combinado antes. Então, nesse fórum:
zero de decisão. Hoje, não, o Conselho Monetário Nacional, com 3
membros, tem espaço para debater e discutir efetivamente. Mas um
fórum de 30, 40 pessoas, nenhuma chance. O Conselho Monetário não era
um fórum importante nessa época23.
Apesar da ambiguidade vivida pelo governo Sarney, algumas medidas
significativas foram adotadas no sentido de ampliar a autonomia do Banco
Central do Brasil, sendo a mais importante a extinção da conta-movimento, em
1986, retirando do Banco do Brasil suas atribuições de autoridade monetária24.
Com o término do governo Sarney foi eleito para a Presidência da República
Fernando Collor de Mello, em cuja administração diminuem os membros do Conselho
Monetário para 16 (Decreto nº99.207/90), aumentando posteriormente, para 17
(Lei nº8.056/90) componentes.
Collor, ao escolher Ibrahim Eris para presidir o Banco Central, a ele delegando
a incumbência de montar, sem interferência sua, a equipe com a qual iria
trabalhar, estava indicando que o Banco seria independente. Para Eris, a
autonomia do Banco Central à época em que o presidiu,
foi de 100%. Isso não quer dizer que eu nunca sentei na frente do
presidente ou da Zélia (Cardoso de Mello, ministra da Fazenda) para
dar satisfação a eles. Mas em nenhum momento foi num sentido de
cobrança. Eu tenho certeza que agi no Banco Central, posso dizer, com
total liberdade. Como em qualquer país, os bancos centrais são
agentes políticos também, eles não são 100% técnicos. Logo, eu não
estou dizendo aqui que todas as decisões foram 100% técnicas. Não,
obviamente. Você tem que considerar as condições políticas e sociais
do momento, mas eu agi com total liberdade. Eu acho que fui o
primeiro presidente do Banco Central a agir como tal, isso porque a
Zélia confiava em mim, eu acho, e o presidente também25.
Com o fracasso dos planos econômicos do governo Collor e com as adversidades
políticas a que estava sendo submetido, a equipe econômica é trocada. Vai para
o Ministério da Fazenda Marcílio Marques Moreira e, para o Banco
Central,Francisco Gros,que já havia ocupado a Presidência da instituição no
governo Sarney. Sua opinião sobre o Conselho era que o mesmo continuava, como à
sua época, a ter um caráter homologatório, talvez atenuado em 1991 e 1992, pelo
fato de o novo ministro ter convidado,
por sugestão de todos nós, gente de peso da iniciativa privada para
participar. Ele convidou setores representativos, o Roberto
Rodrigues, atualmente ministro da Agricultura; o Paulo Cunha,
empresário de peso; o Arthur Sendas, para dar uma visão do comércio;
o Alcides Tápias, para dar uma visão do setor financeiro, ou seja,
gente que tem opinião própria. Aí, pela própria natureza do Marcílio,
havia um pouco mais de espaço para debate. Eu me lembro de alguns
casos em que as pessoas traziam ponderações e dizíamos: "Tem razão,
vamos pensar em algo e mês que vem a gente traz de volta." Mais uma
vez, entretanto, pela vontade do príncipe e não pela natureza da
instituição26.
Com a renúncia de Collor e a posse de seu vice, Itamar Franco, a autonomia
reivindicada pelo Banco Central, que ressurgia com mais força, torna-se objeto
de desconfiança e de preocupação por parte do governo.Sobre o período inicial
do governo Itamar Franco é expressivo o depoimento de Francisco Gross, que foi
presidente do Banco por apenas 45 dias.
Em relação ao presidente Itamar, uma das razões que eu achei
importante sair, independentemente de qualquer outra coisa, era
exatamente o fato de que ele emitia sinais de descrença nesse modelo
de independência. Não só no nível do Banco Central, mas em relação ao
Ministério da Fazenda também. Ele tinha uma visão muito
intervencionista, marcada por intervenções pontuais. O ministro da
Fazenda com quem convivi, o Gustavo Krause, teve, por exemplo, um
problema em relação a um aumento de leite ' um procedimento altamente
rotineiro, decidido quatro escalões abaixo do ministro. O presidente
Itamar decidiu intervir e arrumou uma quizumba porque tinham
aumentado o preço do leite sem consultá-lo. Então, claramente a
sinalização era que ele não concordava com esse modelo. Eu tenho uma
visão diferente. Acho que o Banco Central tem que ter missões muito
claramente definidas e restritas. Dentro dessas missões ele deve ter
liberdade para executar a missão que lhe foi confiada pela sociedade
[...]27.
Para Francisco Gros o presidente Itamar, notoriamente, enxergava o Banco do
Central como uma caixa-preta que deveria ser administrada de perto.
Era contrário a qualquer tipo de independência ou autonomia. A visão
dele era absolutamente contrária à nossa, que entendíamos que o Banco
Central deveria ser administrado tecnicamente e longe de intervenções
políticas do presidente da República. A visão do presidente Itamar
não é diferente da de muita gente, de muitos políticos, mas era muito
diferente da nossa. Então, nós tínhamos o sentimento de estar ali com
uma bomba-relógio28.
Em razão dessa convicção, "nós todos combinamos uma estratégia de saída
escalonada onde sairia um de cada vez. Fui o primeiro, depois o Armínio
(Fraga), depois o Pedro Bodin. O Gustavo Loyola que era amigo de todos nós,
ficou na Presidência"29.
Na verdade, Loyola fica na Presidência do Banco Central por apenas quatro
meses, saindo ao mesmo tempo em que o ministro da Fazenda, Paulo Haddad, foi
substituído. É interessante notar que, na narrativa de Gros, esse mesmo dilema
relativo às relações do Banco Central com o mercado e com o Estado ressurgia na
convicção do presidente de que o Banco Central deveria ser administrado por
funcionários de carreira.
Tanto que depois de minha saída ele convidou o Gustavo Loyola. Depois
nomeou o presidente do Banco do Brasil, o (Paulo César) Ximenes, que
também era funcionário de carreira. Nomeou de novo o Gustavo Loyola e
depois nomeou o Pedro Malan ' que não era um funcionário de carreira
do Banco Central, mas era muito ligado à instituição. Enfim, ele não
se sentia muito confortável com gente vinda da iniciativa privada
nesse tipo de organização. Ele nunca me disse isso pessoalmente, mas
é uma posição histórica e conhecida dele30.
Sobre o Conselho Monetário, o número de seus participantes aumenta,
inicialmente, para vinte (Lei nº8646/93), diminuindo, posteriormente, para três
(Medida Provisória 542/94). No primeiro período, têm assento no Conselho, além
dos ministros da Fazenda, do Planejamento e do presidente do Banco Central,
vários outros ministros, cinco representantes da iniciativa privada, e mais
cinco presidentes de bancos federais que eram, contraditoriamente,
fiscalizadores e fiscalizados em suas atividades. No segundo momento, fizeram
parte do Conselho apenas os ministros da Fazenda, do Planejamento e o
presidente do Banco Central31.
Gustavo Franco, que foi diretor da área externa do Banco Central do Brasil no
período presidencial de Itamar Franco, e seu presidente durante parte do
primeiro mandato de Fernando Henrique, nos dá um testemunho eloquente sobre os
procedimentos que permitiram a reconquista da autonomia por parte do Banco
Central e do Conselho Monetário Nacional.
Nós criamos uma coisa que modestamente eu acho muito engenhosa no
sentido de proteger a área econômica da influência da área política.
[...] Nós não podíamos mexer na lei 4595 porque era uma lei
complementar. Também não podíamos mudar a competência do Conselho
Monetário. Mas podíamos mudar sua composição.
O Conselho Monetário tinha 20 pessoas. Tinha os 3 membros de hoje e
mais uma penca de ministros. 5 representantes da iniciativa privada,
5 presidentes dos bancos federais. E a Comissão de Economia do Senado
queria um representante, o Ministério Público queria um representante
e também os bancos estaduais. Então, na verdade (o Conselho) deixou
de ser técnico. Era uma assembleia e a política monetária não se
resolve em assembleia. Não apenas pelos vícios de qualquer
assembleia, mas pelo fato de que ali você tem um regulador e você tem
regulados sentados dentro do Conselho. Quer dizer, o Banco do Brasil
é uma entidade regulada, supervisionada pelo Conselho, como é que ele
está sentado ali? Que história é essa? Não pode. A iniciativa privada
(também) não erapara estar ali. Bem, oque agente fez foi reduzir o
Conselho Monetário para 3 membros o que o despolitizou praticamente
por inteiro. Ali tem o Planejamento, a Fazenda, que sempre foi uma
relação tensa, mas tem o Banco Central que desempata. Então, se criou
na verdade um mecanismo de resolução de conflito histórico entre a
Fazenda e o Planejamento muito simples32.
A implementação das Medidas Provisórias, o surgimento do Real e a desvinculação
do Conselho Monetário da Presidência da República, fazendo com que ele voltasse
a ter independência para desempenhar atribuições de combate à inflação, não
poderiam deixar de ser povoadas de tensões e conflitos. Certa ocasião, no calor
das negociações envolvendo a equipe econômica e a Presidência da República, foi
levada ao presidente Itamar Franco a proposta de um Conselho com apenas dois
membros.
O Itamar não gostou desse negócio de fazer um conselho de 2, e para
aceitar 3 fez duas exigências: a primeira foi criar uma coisa chamada
COMOC que é [...] menos comentada, mas importantíssima [...] e acabou
sendo criada quase por acidente. [...] Tudo antes de ir para o
Conselho Monetário passa pela COMOC. [...] Então era uma maneira de
você criar um anteparo, uma espécie de guarda pretoriana entre a
Diretoria do Banco, a Caixa e o Banco do Brasil. [...] A COMOC são 3
diretores do Banco Central, o presidente do CVM e 3 secretários, 2 da
Fazenda e um do Planejamento. Se reúnem, onde o COPOM também se
reúne, cada um leva sua entourage. Só técnico. Tem uma pauta, todos
os votos são contados, todo mundo recebe com antecedência33.
Sobre o Copom34(Comitê de Política Monetária), que completou a engenharia
institucional de apoio à nova moeda, o Real, "nada mais é que uma seção
especial da Diretoria do Banco Central. [...] A criação do COPOM foi uma
espécie de ato da própria Diretoria do Banco Central. [...] Nós vamos nos
reunir mensalmente só para falar de política monetária e deliberar sobre a taxa
de juros"35.
No governo Fernando Henrique Cardoso, em continuidade ao que já vigorava no
final do governo Itamar Franco, o Conselho continuou com três membros (Lei
nº9.069/95) adquirindo poder decisório e direcionando suas atividades para a
manutenção do sucesso do Plano Real. Deve ser ressaltado, no entanto, que,
apesar da autonomia de fato desfrutada pelo Banco Central nos dois mandatos de
Fernando Henrique Cardoso, por ocasião da crise cambial de 1998 é afastado do
cargo Gustavo Franco, então presidente da instituição, por discordar da
intenção do governo em adotar o câmbio flutuante ' sistema que passou avigorar
após a sua saída do Banco.
Finalmente, devem ser ressaltadas as tendências à maior concessão de autonomia
legal ao Banco Central contidas na Constituição de 1988 que, apesar de atribuir
ao presidente da República a indicação dos seus dirigentes, e dos mesmos ainda
serem demissíveis ad nutum, reserva ao Senado Federal a aprovação de tais
indicações. No entanto, a Constituição não prevê nenhum mecanismo formal de
prestação de contas do Banco Central ao Congresso Nacional (Santos e Patrício,
2002).
A Constituição, em seu artigo 164, também proíbe que o Banco Central financie o
Tesouro Nacional, ou qualquer órgão, ou entidade que não seja instituição
financeira, o que não deixa de reforçar a autonomia do Banco Central. Outras
alterações institucionais importantes, que garantem maior autonomia ao Banco
Central do Brasil, foram a criação do Copom e a adoção do sistema de metas
inflacionárias36.A partir dessas duas inovações, procurou-se formalizar a
função estabilizadora do Banco Central, confirmando sua autonomia operacional
para perseguir as metas de inflação estabelecidas pelo Conselho Monetário
Nacional.
CONCLUSÃO
Para concluir, voltemos nosso olhar para a argumentação central contida na
Introdução do presente artigo, segundo a qual a estabilidade da moeda nacional
depende, para além do equilíbrio das contas públicas e da autonomia da Sumoc e
do Banco Central, também da estabilidade política e institucional dessas
instituições. Esta estabilidade aqui se traduz por baixas taxas de circulação
dos membros da equipe econômica (ministros da Fazenda, superintendentes da
Sumoc e presidentes do Banco Central) como também pela composição de conselhos
monetários menos numerosos e, consequentemente, mais impermeáveis a demandas
clientelísticas37.
Afirmamos, também, que as autonomias tanto da Sumoc, quanto do Banco Central do
Brasil, passaram por diferentes fases, variando, sobretudo, em relação ao
aspecto cíclico da economia brasileira que, ao ter alternado políticas
desenvolvimentistas com políticas estabilizadoras, alterou, consequentemente, a
vocação e o grau de autonomia da Sumoc e do Banco Central. Assim, os períodos
desenvolvimentistas foram caracterizados por altas taxas de crescimento da
economia, por menor autonomia da Sumoc e do Banco Central, e por conselhos
monetários mais numerosos. Por sua vez, os períodos de estabilização reclamaram
bancos centrais mais autônomos e conselhos menos numerosos para enfrentar
conjunturas de desequilíbrio fiscal e de altas taxas de inflação.
Com a ajuda do Quadro_1, que resume os pontos da argumentação proposta, as
seguintes correlações podem ser feitas.
1) Quanto à Sumoc, nunca desfrutou realmente de autonomia, nem de
fato nem de direito, tendo sido subordinada, em maior ou menor grau,
ao Banco do Brasil, ao Ministério da Fazenda e ao próprio Conselho da
Sumoc, tanto em períodos desenvolvimentistas quanto estabilizadores.
2) Quanto ao Banco Central, sua autonomia variou de acordo com a
política econômica praticada pelos diferentes governos aos quais
esteve ligado. Se o governo foi desenvolvimentista sua autonomia foi
mais baixa. Este foi o caso dos governos Costa e Silva, Médici,
Geisel e Figueiredo, ou seja, 100% dos casos.
3) Contrariamente, quando o governo foi estabilizador a autonomia do
Banco Central foi mais alta. Caso dos governos Castelo Branco, Collor
de Mello e dos dois períodos presidenciais de Fernando Henrique
Cardoso, ou seja, 100% dos casos38.
4) Os governos que adotaram políticas econômicas híbridas foram João
Goulart, José Sarney e Itamar Franco.
* No curto período governamental de João Goulart a política econômica
adotada foi considerada híbrida em razão de o Plano Trienal coordenado
por Celso Furtado ter estabelecido não apenas diretrizes
desenvolvimentistas, como também monetárias, contribuição esta realizada
por Casimiro Ribeiro, funcionário da Sumoc.
* No caso do governo Sarney, tanto a política econômica quanto o grau de
autonomia do Banco Central foram considerados híbridos. Isto porque,
apesar do Bacen ter ocupado lugar de destaque no primeiro de uma série de
planos de estabilização monetária realizados no país, a equipe econômica
do Ministério da Fazenda era de orientação desenvolvimentista, o que
criou divergências a respeito dos procedimentos a serem adotados para
combater a inflação, limitando a autonomia da autoridade monetária.
* O governo Itamar Franco pode ser melhor compreendido se o mesmo for
dividido em duas fases. Na fase inicial, de 1992 a 1994, a política
econômica praticada tinha um cunho mais desenvolvimentista tendo tido o
Banco Central baixa autonomia. Na segunda fase, de 1994 em diante, a
política econômica, bem mais comprometida com o Plano Real, era
francamente estabilizadora, tendo sido alta a autonomia do Banco Central.
5) Quando houve alta circulação da equipe econômica houve, também,
viés de alta da taxa de inflação em relação ao governo anterior.
Assim sendo, dos governos com alto grau de circulação (Vargas, Café
Filho, Kubitschek, Goulart, Figueiredo, Sarney e Itamar), o viés de
alta atingiu os governos Vargas, Kubitschek, Goulart, Figueiredo,
Sarney e Itamar), ou seja, 6 dos 7 governos .
6) Porém, quando houve baixo grau de circulação da equipe econômica
(J. Quadros, Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel, Collor,
FHC1 e FHC2), não houve uma tendência expressiva de viés de baixa na
inflação, que só atingiu os governos Castelo Branco, Costa e Silva,
Médici e FHC1, ou seja, apenas 4 dos 8 governos em questão.
7) Ou seja: Quando há alta circulação da equipe econômica, há uma
correlação clara e positiva de viés de alta da inflação. Porém quando
há baixa circulação da equipe econômica não significa que haja,
necessariamente, viés de baixa na inflação.
8) As cinco exceções são expressivas e as circunstâncias onde
ocorreram podem ajudar a compreendê-las. São elas:
* Sobre o período posterior ao suicídio de Vargas, é necessário notar que
foi fortemente conturbado do ponto de vista político e institucional,
tendo havido entre agosto de 1954 e janeiro de 1956, três presidentes da
República: Café Filho, Carlos Luz e Nereu Ramos. Nessas condições, apesar
da circulação da equipe econômica ter aumentado (três ministros da
Fazenda e três superintendentes da Sumoc), a taxa de inflação diminuiu,
resultado das políticas estabilizadoras adota-das na segunda metade do
governo Vargas e durante o governo Café Filho.
* Também deve ser relembrado que o curto governo de Jânio Quadros foi
estabilizador, tendo sido realizado um início de esforço de combate à
inflação. Porém, havia um processo inflacionário em curso, herdado do
governo Kubitschek, que não pôde ser debelado por um governo que ficou
apenas um ano no poder e em meio a inúmeras crises que resultaram na
renúncia do presidente da República. Assim, apesar da circulação da
equipe econômica ter sido baixa (um ministrodaFazendaeum superintendente
da Sumoc), a inflação aumentou para 47,79%.
* No governo Geisel, apesar da circulação da equipe econômica ter sido
baixa (um ministro da Fazenda e um presidente do Banco Central), houve
elevação da taxa de inflação para 37,95% em razão do início da forte
crise econômica iniciada no mesmo ano da posse de Geisel e que chegará ao
seu auge no governo Figueiredo.
* No governo Collor, apesar da circulação da equipe econômica ter sido
baixa'2ministros da Fazendae2presidentes do BancoCentral ' a inflação
sobe dos 707,3% registrados no governo Sarney para 1.038,3%. Duas
circunstâncias colaboraram para tanto: a curta duração do governo, apenas
18 meses, e os diagnósticos e prognósticos realizados ainda precários
sobre as causas da inflação e a solução para debelá-la.
* No segundo governo FHC, apesar do baixo grau de circulação da equipe
econômica, a inflação aumentou (de 8% para 16,65%), influenciada pelas
circunstâncias econômicas internacionais, sobretudo pela crise da Rússia.
(1988).
9) É também significativo que, após a criação do Banco Central do
Brasil, os governos estabilizadores e com tendência a taxas de
inflação mais baixas tenham reduzido consideravelmente o número de
membros de seus conselhos monetários se comparados aos governos
anteriores. São os casos dos governos Castelo Branco, ItamarFranco(2ª
fase)edosdoismandatosdeFernandoHenrique Cardoso (100% dos casos).
10) Nos governos desenvolvimentistas, ao contrário, os conselhos
monetários do Bacen tiveram suas composições recorrentemente
ampliadas. São os casos dos governos Costa e Silva, Médici,
Figueiredo.
11) As duas exceções são os governos desenvolvimentista de Geisel e
estabilizador de Collor de Mello. No primeiro caso, a diminuição do
número de membros do Conselho Monetário pode ser explicada pela
criação do Conselho de Desenvolvimento Econômico ' instância que
passa a concentrar as decisões governamentais sobre políticas
públicas em geral. No governo Collor, apesar das intenções
estabilizadoras, da maior concessão de autonomia ao Banco Central e
da considerável redução no número de membros do Conselho Monetário, a
inflação aumentou, o que pode, em parte, ser atribuído aos
diagnósticos e prognósticos ainda precários sobre a inflação.
O presente artigo buscou apresentar um panorama abrangente do processo de
institucionalização da autonomia da autoridade monetária brasileira. As
correlações estabelecidas na conclusão tiveram sobretudo a preocupação de
apontar para tendências que permitissem uma leitura mais compreensiva do
processo econômico nacional. Resumidamente, o que procuramos demonstrar é que a
autonomia da autoridade monetária brasileira tem sido afetada historicamente 1)
pelas preferências de política econômica de cada governo e 2) pelo grau de
insulamento e apoio político que cada governo concedeu a sua equipe econômica.
A estabilidade monetária, por sua vez, parece resultar desse apoio político,
visto que, em sua ausência, a autoridade monetária tende a se subordinar às
orientações do governo. Desse modo, acreditamos que não é a autonomia per se
que propicia a estabilidade monetária. Em países que ainda estão consolidando
seus arranjos institucionais, como o Brasil, uma condição necessária para que
um banco central seja autônomo e que esse possa garantir a estabilidade
monetária é o apoio político garantido pelo governo. Sem esse apoio, a
autonomia, seja ela de jure ou de facto, de meios ou de fins, mostra-se
extremamente frágil.
Acreditamos, assim, que uma série de questões ainda não amplamente debatidas
sugerem novas pistas de pesquisa a serem exploradas em maior detalhe em
trabalhos futuros como, por exemplo, o processo de saneamento dos bancos
públicos estaduais ou potenciais processos de captura da autoridade monetária
por interesses particulares. Outro tema interessante para ser explorado é a
crescente participação do Banco Central do Brasil em organismos multilaterais
como o Comitê da Basileia, tornando-o uma porta de entrada para importantes
dinâmicas regulatórias do sistema financeiro global. Um outro importante
caminho a ser explorado é a ampliação do escopo de nossa análise para outros
países sul-americanos, a fim de compreendermos melhor as variáveis que
contribuem para a manutenção da estabilidade institucional de bancos centrais.
Recentes episódios na Argentina e Venezuela nos dão sinais de que a autonomia
formal da autoridade monetária não é suficiente para se manter uma autonomia de
facto. Por último,resta saber se a autonomia de fato do Banco Central do
Brasil, mantida durante o governo Lula, representa uma tendência mais perene do
sistema financeiro nacional, devido à percepção da baixa inflação como um bem
público e de grande apelo eleitoral, ou esse seria apenas mais um episódio de
nossa história moderna de alternância entre governos desenvolvimentistas e
estabilizadores.
NOTAS
1. Essa escolha se deve ao fato de as alterações dos titulares tanto do Banco
Central quanto do Ministério da Fazenda terem repercutido diretamente sobre a
ruptura das políticas monetárias e creditícias praticadas no período analisado.
Outra importante razão diz respeito às nomeações e demissões dos presidentes do
Banco Central que, apesar de serem prerrogativas do presidente da República,
normalmente eram realizadas pelos ministros da Fazenda, encontrando-se, em
alguns casos, subordinados na prática a eles.
2. "Uma razão é que o efeito da política monetária sobre a produção e a
inflação vem com longas defasagens; por isso, as pessoas responsáveis pela
tomada de decisões não veem os resultados de suas ações por um bom tempo. Mas a
outra razão, bem mais importante, é que a desinflação tem o perfil
característico de custo-benefício de uma atividade de investimento: custa algo
no início e apenas gradualmente, com o tempo, dá retornos" (Blinder, 1999:73).
3. Decreto-Lei nº 7.293, de 2 de fevereiro de 1945. Esse decreto visava a
atender às exigências impostas ao Brasil pela sua participação no tratado de
Bretton Woods.
4. Grupo de grande unidade e coerência, que possuía uma visão monetarista da
economia e era liderado por Otávio Gouveia de Bulhões, e que foi central para a
transformação da Sumoc em Banco Central. Para conhecimento mais detalhado das
ideias desse grupo, ver as teses de Eduardo Raposo em "O Estado dentro do
Estado ' Autoritarismo e Instabilidade Institucional no Regime Militar ' Banco
Central, Petrobrás e Eletrobrás" (1991) e Luiz Aranha Correia do Lago em "A
Sumoc como embrião do Banco Central e sua influência na condução da política
econômica ' 1945-1965" (1982).
5. Depoimento de Casimiro Ribeiro ao Cpdoc, em 1989.
6. Como chama a atenção Jairo Saddi (1997:73): "O Banco do Brasil era o agente
financeiro e receptador de crédito do Tesouro Nacional, arrecadador de tributos
ou rendas federais, realizador dos pagamentos e suprimentos necessários à
execução do Orçamento Geral da União. Era também o executor dos serviços
bancários de interesses do governo federal, inclusive de suas autarquias, e
também arrecadador dos depósitos voluntários das instituições (de que tratava o
inciso III do artigo 10 daquela Lei), bem como responsável pela execução dos
serviços de compensação bancária".
7. De fato, o Banco Central passou a ser titular das funções das Carteiras de
Câmbio e Redesconto e das Caixas de Mobilização Bancária e de Amortização do
Tesouro Nacional. O Banco Central fortaleceu-se, também, por passar a controlar
a emissão primária de moeda e a estimular, sob seu controle, o mercado de
títulos da dívida pública (Entrevista concedida por Otávio Gouvêa de Bulhões ao
Cpdoc em 1989).
8. Pedro Malan. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, p. 3.284.
9. Paulo Hortêncio Pereira Lira I (depoimento, 1989). Rio de Janeiro, Cpdoc/
Banco Central do Brasil, 1990, p. 16.
10. A utilização dessa conta como artifício para driblar restrições
orçamentárias mostra-se de maneira mais clara a partir da década de 1980.
Segundo Saddi (1997), o saldo dessa conta evoluiu de 1,8% do PIB brasileiro
para 16% em 1988, sendo que em alguns momentos o valor desse saldo era maior do
que a base monetária em circulação.
11. Depoimento de Otávio Gouvêa de Bulhões ao Cpdoc em 1989, p. 174.
12. Em sua fase inicial, durante o período presidencial de Castelo Branco,
faziam parte do CMN nove membros: o ministro da Fazenda (seu presidente); o
presidente do BancodoBrasil; o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico (BNDE); e mais seis membros nomeados pelo presidente da República,
após aprovação do Senado Federal, por um período de seis anos, com
possibilidade de recondução. Destes seis membros com mandato, quatro iriam
compor a diretoria do Banco Central, enquanto os dois restantes seriam
escolhidos como representantes do setor financeiro privado. Nessa arquitetura
inicial, portanto, o Conselho Monetário Nacional contou com nove membros, cuja
permanência deveria perdurar durante os dois primeiros anos do governo
seguinte. Participavam, ainda, das reuniões do Conselho, mas sem direito a
voto, os ministros da Indústria e Comércio e do Planejamento e Coordenação
Econômica. As deliberações do Conselho eram tomadas considerando-se a maioria
dos votos, presentes no mínimo seis membros, cabendo ao presidente do Conselho
(ministro da Fazenda) o voto final (Lei 4595/64).
13. Depoimento de Casimiro Ribeiro ao Cpdoc, em 1989.
14. Depoimento de Dênio Nogueira ao Cpdoc, em 1989.
15. Entrevista concedida à revista Banco Hoje, setembro de 1989.
16. Depoimento de Casimiro Ribeiro ao Cpdoc, em 1989.
17. Depoimento de Casimiro Ribeiro ao Cpdoc, 1989.
18. "Tal formato decisório será derrogado a partir de 1974, quando, ao início
do governo Geisel, nova legislação impõe sensível redução nas atribuições do
CMN, restringindo igualmente o numero de seus membros. A criação do Conselho de
Desenvolvimento Econômico transferiu para a instância executiva da Presidência
da República o núcleo das decisões fundamentais, enfraquecendo a 'representação
tecnocrática' e diminuindo as possibilidades de influência dos grupos privados"
(Guimarães e Vianna, 1987:25).
19. Apesar das condições externas adversas, Geisel dá continuidade a uma
política econômica com metas de crescimento elevadas. A utilização de
empréstimos estrangeiros como forma de financiamento para esse crescimento fica
evidente com a explosão da dívida externa nesse período.
20. Depoimento de Ernane Galvêas ao Cpdoc, 1989. Rio de Janeiro, Cpdoc/Banco
Central do Brasil, 1990, p. 32.
21. Decreto 89978/85 (26 membros), Decreto 93490/86 (27 membros), Decreto-Lei
2291/86 (26 membros) e Decreto 94303/87 (27 membros). A extinção, durante o
governo Sarney, do Banco Nacional de Habitação elimina um assento no CMN.
22. Depoimento prestado por Fernão Bracher a Eduardo Raposo, em 2006.
23. Depoimento prestado por Francisco Gros a Eduardo Raposo, em 2003.
24. Decretos 2.283 e 2.284, de 1986.
25. Depoimento prestado por Ibrahim Eris a Eduardo Raposo, em 2006.
26. Depoimento prestado por Francisco Gros a Eduardo Raposo, em 2003.
27. Depoimento prestado por Francisco Gros a Eduardo Raposo, em 2003.
28. Depoimento prestado por Francisco Gros a Eduardo Raposo, em 2003.
29. Depoimento prestado por Francisco Gros a Eduardo Raposo, em 2003.
30. Depoimento prestado por Francisco Gros a Eduardo Raposo, em 2003.
31. Segundo Maria Clara Prado, "O presidente também indicou que gostaria de ter
uma composição do Conselho Monetário Nacional (CMN) mais enxuta, diferente da
proposta da equipe econômica. Queria que o conselho ficasse restrito a três
membros: os ministros da Fazenda e do Planejamento e o presidente do Banco
Central. Não concordou que os diretores do BC fizessem parte do CMN nem com as
participações do presidente da CVM e do secretário do Tesouro Nacional, como
pretendia a equipe do Real. Itamar achava que isso desequilibraria o colegiado
em favor da autoridade monetária. [...] A implicância de Itamar, portanto, não
era com a retirada dos representantes do setor privado daquele colegiado, mas
com a perspectiva de as decisões do Conselho ficarem desequilibradas devido ao
peso excessivo de representantes do Banco Central, como queria a equipe
econômica, no que, aliás, ele tinha toda razão" (p.282).
32. Depoimento prestado por Gustavo Franco a Eduardo Raposo, em 2003.
33. Depoimento prestado por Gustavo Franco a Eduardo Raposo, em 2003.
34. O Copom foi criado pela Circular n.2698/1996 do Banco Central. É um órgão
colegiado, composto pelo presidente do Banco Central e por seus diretores, cuja
principal função é determinar a taxa de juros SELIC.
35. Depoimento prestado por Gustavo Franco a Eduardo Raposo, em 2003.
36. O sistema de metas de inflação foi adotado em 2000, logo apos a
implementação do regime de câmbio flutuante.
37. A respeito dos argumentos que nos levaram a considerar a rotatividade dos
titulares tantodoMinistérioda Fazenda quandodoBanco
CentraldoBrasilcomoindicadores de estabilidade institucional, ver nota 1.
38. Como já foi ressaltado, apesar da autonomia de fato desfrutada durante os
dois governos Fernando Henrique, por ocasião da crise cambial de 1998, Gustavo
Franco foi afastado da Presidência do Banco Central por discordar da intenção
do governo em fazer flutuar a taxa de câmbio.