Desigualdade racial de saúde e contexto de classe no Brasil
A sociedade brasileira é profundamente atravessada por desigualdades duráveis
geradas por fatores ou princípios que ordenam a vida social. Estas divisões
sociais representam formas estruturadas de controle de recursos e de interação
social que estabelecem assimetrias de poder social e de oportunidades de vida
(Payne, 2000). As divisões raciais como são conhecidas hoje emergiram como um
produto histórico da expansão da sociedade capitalista moderna. Marcante
princípio de organização social, o status racial atribuído aos grupos sociais,
entre outras consequências importantes, influencia a distribuição assimétrica
da saúde, do adoecimento e do risco fatal. As desigualdades raciais em saúde,
no entanto, têm sido pouco estudadas no país (Chor e Lima, 2005). Este trabalho
investiga os padrões sociais, as mediações socioeconômicas e as relações
condicionais que caracterizam as discrepâncias raciais de saúde no Brasil.
Nesta parte introdutória descreve-se a organização geral do texto e são
apontadas as questões centrais do trabalho. Na preparação do quadro teórico da
investigação o trabalho situa a noção de raça que informa o estudo e demarca
analiticamente tanto a sua especificidade quanto o nexo tipicamente forte entre
raça e classe. Apresenta-se no tópico "Raça e Desigualdade de Saúde" uma
revisão sistemática do estado da arte particularmente da literatura sociológica
que serve para embasar as questões centrais da pesquisa. Destaca-se a
importância de clarificar os componentes dos arranjos raciais que se traduzem
em discrepâncias de saúde entre os grupos, pois não existe nenhum elo essencial
entre raça e saúde. As evidências estabelecidas na literatura servem para
enfatizar o papel fundamental dos fatores socioeconômicos na constituição da
desigualdade racial de saúde. A força da dimensão socioeconômica na associação
entre raça e saúde tem como corolário a elevada desigualdade racial de acesso
aos recursos socialmente valiosos e às posições na estrutura social. De outro
lado, pondera-se que a mediação socioeconômica não responde integralmente pelas
diferenças de saúde entre os grupos raciais. As divisões raciais geram efeitos
adicionais na saúde que independem das diferenças socioeconômicas entre os
grupos. Além disso, enfatiza-se o papel da conjunção de ambas divisões sociais
na geração de relações condicionais e efeitos interativos na saúde. São
mencionadas, concluindo este tópico, as evidências colhidas nos poucos estudos
prévios aproximadamente similares no Brasil.
A investigação conduzida visa caracterizar e aprofundar o conhecimento da
desigualdade de saúde associada à constituição de categoriais raciais no
Brasil. O eixo de análise do trabalho é introduzido preliminarmente com a
apresentação das distribuições percentuais e comparativas do estado de saúde
nas interseções de classe e raça. Na parte principal do estudo examina-se
primeiramente o papel de raça como uma condição pré-fundamental na associação
que se estabelece entre a posição socioeconômica e o estado de saúde. Estima-se
depois a distância total nas chances raciais relativas de apresentar um estado
de saúde negativo. A partir daí, investiga-se o papel mediador de classe social
e outros componentes socioeconômicos no estabelecimento das manifestações da
desigualdade racial de saúde. Por fim, são exploradas as interações entre
classe social e raça objetivando aferir a interferência do contexto de classe
na modulação do efeito de raça nas chances de saúde.
As divisões sociais são teoricamente entendidas como ordenamentos geradores de
efeitos que exercem poderes causais sobre as capacidades e as chances de vida
das pessoas, isto é, sobre os conjuntos viáveis de escolhas e as possibilidades
reais de alcançar estados de existência valorizados. As divisões sociais
representam os fundamentos dos processos de constituição das desigualdades
sociais, ou seja, os fatores estruturais (meios, direitos, riscos e
oportunidades), as redes interpessoais (processos de encontro, imposição,
negociação e transferência) e os fatores culturais (identidades, conhecimentos,
valores e normas) cujas operações condicionam o poder social e o estado de
existência dos membros dessas categorias sociais (Therborn, 1999; Tilly, 1998;
Sen, 2001).
As divisões de raça constituem grupos sociais tipicamente definidos pelos
"outros" como distintos em virtude de características físicas supostamente
inerentes e consideradas comuns aos seus membros. Estas demarcações entre
categorias tornam-se socialmente relevantes ao serem usadas para interpretar
experiências, formar relações sociais, e organizar a ação individual e
coletiva. Os grupos brancos têm exercido dominantemente o poder de fazer
designações raciais, organizar a vida social em termos raciais, e associar um
valor "inferior" às demais categorias. As divisões raciais assim constituídas
quase sempre envolvem relações de poder entre os grupos num sentido mais
material (Cornell e Hartamann, 1998:15-38). As divisões raciais quase sempre
estão vinculadas às formas de injustiça econômica e desigualdade social, embora
em termos lógicos as classificações raciais impliquem apenas o reconhecimento
de diferenças. Ao instituírem assimetrias de poder e bem-estar social, as
divisões raciais podem ser sinteticamente definidas como formas de ordenamentos
sociais vinculadas à ascendência biológica, caracterizadas tipicamente por
determinadas marcas físicas, em que uma categoria é estigmatizada como inferior
e submetida a alguma modalidade de exclusão social. Os elos geralmente
estreitos entre classe social e raça emergem do fato de ambas as divisões
sociais envolverem processos de exclusão do controle de recursos econômicos
relevantes. Constitui-se a partir deste componente comum o vínculo entre as
exclusões centradas em classe, enraizadas em direitos de propriedade, e as
exclusões racializadas, vinculadas à ascendência biológica. As classificações
raciais, de modo diferente das classificações étnicas ou de identidade
cultural, tornam-se particularmente salientes na vida das pessoas na medida em
que estão ligadas às formas de opressão socioeconômica (Wright, 2009; Wright e
Rogers, 2010).
RAÇA E DESIGUALDADE DE SAÚDE: FUNDAMENTOS, MEDIAÇÕES E INTERAÇÕES
As desvantagens socioeconômicas e raciais afetam amplamente a distribuição das
formas existentes de doença, assim como se associam aos fatores de risco
comportamentais, sociopsicológicos e ambientais que produzem estas doenças
(House e Williams, 2000:116). Sabe-se que as doenças e condições crônicas, que
constituem o regime dominante de adoecimento nas sociedades contemporâneas, são
clinicamente reconhecidas no geral quando se ingressa na idade madura. O
desenvolvimento muitas vezes desapercebido do adoecimento é afetado pelas
circunstâncias de toda a vida que estão relacionadas tanto ao status
socioeconômico quanto à raça (Grimmins, Hayward e Seeman, 2004:315).
Entretanto, os traços biológicos supostamente inerentes aos grupos definidos
pelas categorias raciais representam marcadores imprecisos de exposição e
vulnerabilidade a doenças. As características fenotípicas usadas para definir
raça não estão fortemente relacionadas aos traços genotípicos. Além disso, os
genes que determinam os atributos físicos usados para definir raça não estão
sistematicamente ligados àqueles que podem determinar variações no estado de
saúde. É necessário ter um entendimento sociológico do que as categorias
raciais capturam para identificar os fatores de exposição e vulnerabilidade que
podem conduzir determinados grupos raciais à saúde ruim (Williams, 1997:323 e
331). Não existe nada de inevitável, ou inerente, em ser negro, etc, e em estar
em maior risco de mortalidade e saúde. Por sinal, marcadores biológicos de
risco e fatores comportamentais são consideravelmente menos importantes do que
a posição socioeconômica para explicar os diferenciais de mortalidade entre
negros e brancos. Estudos etiológicos convencionais carregam um grande
potencial ou risco de racializar as desigualdades de saúde ao dirigirem a
atenção para os marcadores biológicos de risco e para os fatores
comportamentais de ordem cultural (Nazroo e Williams, 2005; Nazroo, 2003). Raça
em si não pode ser invocada como uma explicação autoevidente de padrões de
saúde. Raça denota relações entre categorias de pessoas e não qualidades
essenciais possuídas pelos indivíduos. As divisões raciais constituem esquemas
ou modelos de experiência incorporada nos atores que demarcam processos sutis
de identificação e podem criar fronteiras duras entre categorias. Formam-se
então arranjos raciais extremamente complicados, em termos potenciais, de
fatores materiais, sociais e psicológicos que se distribuem, quando não
covariam, entre grupos racialmente definidos (Smaje, 2000:115-116).
A saúde está socialmente incorporada nas condições mais amplas em que as
pessoas e os grupos vivem e trabalham. Raça representa um status principal
(master status), ou seja, um determinante central tanto do acesso a recursos e
recompensas quanto de obrigações e regras sociais. Apresenta-se nesta condição
como uma categoria sociológica importante para entender as variações de saúde.
Como uma categoria criada por forças e instituições sociais de larga escala,
raça reflete a confluência de fatores biológicos, origens geográficas, cultura,
fatores econômicos, políticos e legais, assim como racismo. Categorias raciais
têm historicamente articulado a dominância dos brancos sobre os grupos
definidos como não brancos. Categorias de status social envolvem assimetrias de
recursos e exposições diferenciadas a fatores de risco que afetam a saúde
através de caminhos biológicos (Williams, 1997:325-327). Raça representa um
conjunto de relações sociais que forma um subconjunto da estrutura de um
sistema social. A associação entre raça e saúde traduz a exposição cumulativa à
discriminação econômica, ideologia racial e exclusão política. A organização de
relações de classe racializadas é parte fundamental da trajetória causal pela
qual raça afeta a saúde (Muntaner, 1999; Oliver e Muntaner, 2005). Etnia
enquanto identidade não parece estar relacionada à saúde, ao passo que etnia
como estrutura, em termos de racialização e experiência de classe, está
fortemente associada à saúde nas minorias étnicas da Inglaterra (Kalsen e
Nazroo, 2002). Nos Estados Unidos a influência social da categorização racial
não se deve propriamente às diferenças de práticas e crenças de ordem cultural,
mas aos processos impostos socialmente de estigmatização e marginalização que
possuem consequências para todos os aspectos da vida (Williams et alii, 2010:
70).
Estudos conduzidos nos Estados Unidos e na Inglaterra, no geral, mostram que a
posição e a circunstância socioeconômicas são importantes razões subjacentes às
diferenças raciais e étnicas constadas nas estatísticas de saúde. Além disso,
as diferenças de saúde entre grupos raciais e étnicos não seriam tão claras e
consistentes como as diferenças socioeconômicas. As desigualdades raciais em
saúde podem ser entendidas melhor dentro de um modelo de desigualdade
socioeconômica, ou seja, em que membros de diferentes grupos são situados
dentro das estruturas sociais, em vez de representarem basicamente diferenças
culturais e biológicas (Bartley, 2004:149-163). Embora as diferentes variáveis
socioeconômicas tenham efeitos independentes na saúde, elas tendem a se agrupar
e a reforçarem-se umas às outras. Este padrão convergente mais amplo das
desigualdades socioeconômicas responde pelo seu impacto fundamental nas
desigualdades de saúde (Annandale e Field, 2007:57). Diferenças socioeconômicas
entre as raças respondem por muito das diferenças raciais em saúde. Quando as
disparidades raciais em saúde são ajustadas estatisticamente por status
socioeconômico estas diferenças sempre se reduzem substancialmente quando não
são eliminadas em determinados casos (Williams e Collins, 1995:364). As
diferenças de saúde mental entre grupos raciais são igualmente reduzidas e às
vezes eliminadas ao serem controladas as discrepâncias de status
socioeconômico. Este fator também prevê variações de saúde mental dentro dos
grupos raciais (Williams e Harris-Reid, 2006:309). As diferenças entre grupos
étnico-culturais no Canadá, por exemplo, são ao menos em parte atribuíveis aos
componentes estruturais e comportamentais, mas a extensão em que isso ocorre
varia entre e dentro dos grupos (Kobayashi, Prus e Lin, 2008). As desigualdades
sociais mais amplas formam as causas básicas das discrepâncias raciais, cuja
influência vai além dos mecanismos intervenientes específicos que predominam
num momento. Além disso, existe uma clara padronização socioeconômica da saúde
dentro dos grupos étnicos e raciais nos países industrializados. Um grupo
racial subordinado não está, por isso, uniformemente em desvantagem em termos
de saúde, pois aqueles em melhor posição socioeconômica têm melhor saúde
(Nazroo e Williams, 2005; Nazroo, 2003).
A posição socioeconômica é parte da trajetória causal através da qual raça
afeta a saúde. Num certo sentido, raça precede a posição socioeconômica no
encadeamento causal, sendo que esta atua como um fator interveniente ou
mediador do efeito de raça. As diferenças socioeconômicas entre os grupos
raciais refletem, em parte, o impacto da exclusão ou subordinação
socioeconômica produzida por estruturas sociais de larga escala (Williams,
1997:229). As diferenças socioeconômicas entre os grupos étnicos e raciais não
devem ser vistas como algo autônomo, pois as divisões raciais e o racismo são
forças sociais que jogam papel central na estruturação das desvantagens
enfrentadas por estes grupos (Nazroo, 2003:282). Como todos os indicadores
socioeconômicos são fortemente padronizados por raça, não deveria surpreender o
fato de uma grande parte da disparidade racial em saúde ser explicada em termos
de desvantagem socioeconômica (House e Williams, 2000; Williams et alii, 2010:
74). Raça contribui para moldar o modo como as pessoas são vinculadas à
estrutura de classe. Ela afeta a distribuição das pessoas às posições de
classe, através do acesso aos recursos relevantes, ao acionar processos de
discriminação alocativa, quando não gera exclusões diretas. Além disso, raça
condiciona vários vínculos indiretos das pessoas às posições de classe, via
relações de parentesco, família e comunidade (Figueiredo Santos, 2005a).
Estudos que tratam variáveis endógenas à padronização da desigualdade como se
fossem exógenas consagram e alimentam uma prática teórica e empiricamente pouco
consistente. Determinados indicadores sociais e econômicos devem ser tratados
tanto como resultados quanto como causas da desigualdade racial. Eles estão
inextricavelmente associados ao papel que raça tem tido e continua a ter como
um princípio fundamental de organização da vida social (Reskin e Charles, 1999:
389-393).
Classe social, educação e renda, no entanto, não parecem dar uma resposta
global para as diferenças de saúde constatadas entre os grupos raciais e
étnicos. As desigualdades raciais e étnicas em saúde aparecem em diferentes
lugares por diferentes razões na história, razões que estão vinculadas às
forças econômicas e políticas, por isso, as experiências desses grupos não
podem ser inteiramente capturadas em termos de diferenças de renda, classe
social e condições de vida em um ponto singular no tempo (Bartley, 2004:149-
163). Raça tem efeitos na saúde que são independentes das diferenças
socioeconômicas entre os grupos raciais. Os negros exibem piores resultados em
saúde mesmo quando comparados a brancos com níveis estatisticamente
equivalentes de posição socioeconômica. Os latinos nos Estados Unidos têm
melhor status de saúde que os negros dentro dos níveis diferenciados de status
socioeconômico (House e Williams, 2000:88 e 98; LaVeist, 2005:177). Diferenças
raciais frequentemente persistem após ajustamento por posição socioeconômica;
além disso, para alguns indicadores de status de saúde, as diferenças raciais
aumentam com o aumento da posição (Williams, 1997:329).
Raça e status socioeconômico são sistemas de desigualdade relacionados, porém
não intercambiáveis. Embora exista uma considerável sobreposição entre raça e
posição socioeconômica, um entendimento pleno das diferenças raciais em saúde
exige a incorporação do papel do racismo e da discriminação institucional na
sociedade e na saúde. O efeito mais pernicioso do racismo no status econômico
dos negros não seria tanto através dos comportamentos dos indivíduos, mas
devido a processos institucionais de ampla escala que muitas vezes não são
reconhecidos ou são negligenciados. Além dos efeitos indiretos na saúde,
através da posição socioeconômica, as exposições à discriminação e ao racismo
podem também afetar diretamente a saúde através do ambiente social e do acúmulo
de adversidades em múltiplos domínios e aspectos, tais como residência em
bairros pobres, viés racial no serviço de saúde, estresse advindo de
experiências de discriminação ou do estigma social geral de inferioridade. As
experiências de discriminação podem ser parte importante do estresse
experimentado subjetivamente, que é capaz de afetar adversamente a saúde (House
e Williams, 2000; Williams, 1997, 1999, 2001, 2004 e 2005). O estresse
associado ao pertencimento a um grupo racialmente desvantajoso tem um efeito
separado e adicional na saúde além daquele estresse derivado da condição
socioeconômica (Barr, 2008:161).
Problemas de conceituação e mensuração complicam a investigação da relação
entre raça e posição socioeconômica na produção de resultados de saúde. Pode
existir uma não-equivalência entre os grupos raciais das medidas de posição
socioeconômica; persiste uma conceituação insuficiente da relação entre raça e
posição estrutural; a posição socioeconômica pode não estar sendo caracterizada
adequadamente; por fim, existe a contribuição de formas não econômicas de
discriminação racial (Williams, 1997:329). Embora a renda domiciliar seja um
importante preditor geral de saúde autoavaliada, a renda apenas moderadamente
ajuda a explicar as disparidades de gênero e raça de saúde (Cummings e Jackson,
2008:155). Além disso, como os diferentes domínios da posição socioeconômica
têm efeitos independentes, não basta controlar por uma única medida, pois
componentes residuais podem ser inadvertidamente interpretados como efeitos
diretos de raça (Adler e Rehkopf, 2008:239). Os indicadores socioeconômicos
disponíveis podem não ser marcadores adequados das circunstâncias sociais. O
uso de um único indicador agrava o problema de resíduo de efeito não capturado
devido a este problema de mensuração. Além disso, estes indicadores têm
correspondências e alcances diferentes entre os grupos raciais. Em determinado
nível de renda, posição ocupacional e escolaridade, os negros estão em
desvantagem em outros domínios em comparação aos brancos (Smith, 2000:1695-
1696). A riqueza varia fortemente entre os grupos raciais, mais do que a renda,
e varia mesmo entre grupos com níveis semelhantes de renda. Altos níveis de
riqueza estão consistentemente associados com mortalidade decrescente e,
geralmente, embora não invariavelmente, com melhor autoavaliação de saúde,
saúde funcional e menos doenças crônicas. A desconsideração da variável riqueza
pode subestimar a contribuição do status socioeconômico para a saúde, ao se
estudar a origem das disparidades raciais ou étnicas de saúde (Pollack et alii,
2007). Argumenta-se que no limite seria impossível separar estatisticamente os
efeitos de raça e socioeconômicos porque eles estão muito entrelaçados. Além
disso, educação, renda e riqueza podem não ser representações adequadas de
todos os aspectos do status socioeconômico. Os valores médios desses
indicadores também variam consideravelmente por raça. Entretanto, como as
distribuições geralmente se sobrepõem, alguns dos efeitos de raça e status
socioeconômico podem ser separados através da abordagem de controle estatístico
(Grimmins, Hayward e Seeman, 2004:326-327).
Cresce na literatura sociológica a defesa de uma agenda de pesquisa que aborde
os efeitos específicos e conjuntos de classe e raça na saúde. O entendimento da
desigualdade em saúde não pode se limitar à definição da importância relativa
de raça ou classe, mas passa pela consideração de como raça e classe operam,
tanto como efeitos principais quanto condicionalmente. Muito da literatura
sobre diferenças raciais no status de saúde não utiliza a abordagem de
interação para examinar efeitos condicionais. Tem sido documentado que pessoas
negras experimentam retornos decrescentes sobre os recursos que obtêm, como a
educação (Farley, 1984). Aplicada à saúde a hipótese dos retornos decrescentes
especifica que as diferenças entre negros e brancos são maiores nos níveis
superiores de status socioeconômico. A análise da interação entre posição
socioeconômica e raça mostra que, na medida em que se eleva a posição
socioeconômica, os negros não experimentam a mesma melhoria de autoavaliação de
saúde que os brancos (Farmer e Ferraro, 2005:192 e 201). A focalização estanque
das disparidades entre as categorias sociais, sem considerar a sua interação
com classe social, gera perdas de referência para o entendimento de como as
estruturas econômicas, sociais, políticas e culturais moldam diferencialmente
os padrões raciais de saúde (Carpiano, Link e Phelan, 2008:256). Diferenças
raciais em saúde autoavaliada são mais pronunciadas em níveis mais elevados de
educação. Constata-se por outro lado que a educação é um recurso protetor de
saúde muito mais importante para o homem negro do que para outros grupos
(Cummings e Jackson, 2008:155). Estudo sobre saúde mental mostra também que a
relação entre raça e status socioeconômico não é simples nem direta, pois há
uma robusta interação entre os dois fatores. Além disso, a associação entre
estes fatores varia de modo importante por gênero (Williams e Harris-Reid,
2006:309). A análise da desigualdade racial em saúde deve contemplar o
entendimento da vulnerabilidade múltipla e as consequências que advêm da
combinação aditiva e interativa de raça com outras categorias de status social
(Williams, 1997). Os pesquisadores estão cada vez mais buscando entender como o
status socioeconômico e raça funcionam conjuntamente e independentemente para
afetar a saúde (Adler e Rehkopf, 2008:239).
Estudos Prévios no Brasil. Tendo em vista os objetivos da presente
investigação, focaliza-se aqui apenas uma revisão seletiva de estudos
populacionais de abrangência nacional que tratam dos determinantes raciais da
distribuição da morbidade em geral, com ênfase na autoavaliação do estado de
saúde, e não de doenças específicas. Estatísticas demográficas disponíveis
apontam que no Brasil os não brancos têm uma esperança de vida
significativamente menor e taxas de mortalidades maiores que os brancos em um
amplo conjunto de doenças (Brasil-Funasa, 2005:24-25). O tratamento de dados de
registros oficiais demonstra que as categorias raciais estão associadas a
variações na distribuição da mortalidade no Brasil. Evidências procedentes de
estudos de grupos e problemas específicos sugerem que as diferenças
socioeconômicas são as principais responsáveis pelas desigualdades raciais de
saúde no país. O estudo das inter-relações entre classe social e raça é
apontado na área de epidemiologia como um "caminho mais promissor" (ou seja, a
ser explorado) para a investigação e intervenção nas desigualdades de saúde no
Brasil (Chor e Lima, 2005).
Estudo da desigualdade de saúde entre a população adulta brasileira, conforme a
cor, utiliza dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de
1998 para demonstrar a existência de diferenças marcantes no estado geral de
saúde autoavaliada entre brancos e não brancos. Considerável parte das
diferenças raciais de saúde mostra-se mediada pelo status socioeconômico, como
medido pelos critérios de renda familiar e escolaridade. Além disso, o estudo
constata que as diferenças entre os grupos de cor diminuem com a idade e
aumentam com o nível socioeconômico. As diferenças raciais ficam mais
pronunciadas entre indivíduos com melhor escolaridade e renda familiar (Barata
et alii, 2007). Entretanto, na consideração deste último resultado, o trabalho
demonstra uma insuficiente consciência teórica e estatística de estar olhando
para evidências de efeitos interativos entre raça e posição socioeconômica. Em
vez de qualificar a influência do contexto socioeconômico, ou chamar a atenção
para a variabilidade do efeito de raça, sugere genericamente que o fenômeno
observado reflete "as consequências da discriminação existente na sociedade
brasileira".
PROPOSIÇÕES DA INVESTIGAÇÃO E MÉTODOS DE ANÁLISE
Proposições da investigação. Num primeiro momento será investigado o papel de
raça como uma variável antecedente na relação entre as posições de classe
social e o estado de saúde. Raça afeta o modo como os indivíduos são
distribuídos ou alocados na estrutura social e têm acesso a recursos valiosos
(Figueiredo Santos, 2005a). Neste sentido pode atuar como uma condição pré-
fundamental na associação que se estabelece entre a posição socioeconômica e o
resultado de saúde. Esta proposição pode ser testada examinando mudanças na
força do efeito da posição socioeconômica nas chances de saúde quando a
variável potencialmente antecedente é introduzida no modelo estimado (Buse,
2009:28). Pretende-se, num segundo momento, testar a hipótese de que as
diferenças de classe entre os grupos raciais explicam uma parte substancial das
disparidades observadas em saúde associadas à raça, mas que persiste, ainda
assim, um ponderável efeito direto de raça, não mediado por classe e outros
fatores socioeconômicos. Por fim, mas não menos importante, será investigada a
proposição de que os efeitos de classe social e de raça, na produção de
disparidades em saúde, não são meramente aditivos, de modo que o efeito de raça
varia conforme o contexto de classe ou, simetricamente, o efeito de classe
varia a depender do grupo racial.
Base de dados e ajuste ao desenho complexo da amostra. O estudo utiliza os
microdados da PNAD, do ano de 2008, cujo suplemento especial investigou as
características de saúde dos moradores dos domicílios brasileiros. A análise de
levantamento de dados (survey) é conduzida muitas vezes como se todas as
observações da amostra fossem independentemente selecionadas com iguais
probabilidades. Entretanto, na prática, a seleção amostral desvia-se desses
pressupostos. Qualquer levantamento de dados que se distancie da amostragem
aleatória simples com reposição possui um desenho complexo, e requer
considerações analíticas especiais. O desenho complexo da amostra afeta as
estimativas dos erros padrões e, portanto, deve ser incorporado à análise (Lee
e Forthofer, 2006). A PNAD adota um plano amostral estratificado e conglomerado
com um, dois ou três estágios de seleção, a depender do estrato. Incorpora
todos os elementos que definem um plano amostral complexo: estratificação,
conglomeração, probabilidades desiguais de seleção e ajustes dos pesos
amostrais. Os dados gerados não podem ser tratados como se fossem observações
independentes e identicamente distribuídas (Silva, Pessoa e Lila, 2002). Os
modelos estatísticos foram implementados usando as capacidades especiais do
programa Stata, versão 11, para a análise de levantamentos de dados complexos,
incorporadas no comando syv.
Variável dependente. O estudo focaliza a existência de discrepâncias raciais na
distribuição da autoavaliação do estado de saúde da pessoa. Tal indicador
possui a vantagem de capturar a saúde média da população, em vez da prevalência
de condições específicas ou de alto risco. Além do mais, mostra-se associado a
múltiplos fatores sociais de risco à saúde e é útil para as necessidades de
avaliação e intervenção de saúde pública (Borrell et alii, 2004:1872). A
autoavaliação do estado de saúde é provavelmente a medida de estado de saúde
mais acessível, abrangente e informativa em estudos populacionais, que captura
dimensões da saúde que não são apreendidas por questões mais detalhadas e
dirigidas (Jylha, 2009:313).
A análise da desigualdade de saúde baseada na autoavaliação de saúde apresenta
problemas de validade de conteúdo e de validade de critério. Vários estudos
mostram que esta medida está associada com indicadores objetivos de morbidade e
mortalidade. A literatura internacional considera este um indicador poderoso de
saúde. Existe uma consistência entre diversos estudos que lhe atribuem a
qualidade de relevante fator de predição de risco de mortalidade,
particularmente para o homem (Idler e Benyamini, 1997; Payne, 2006:69-75).
Entretanto, cabe também considerar se as categorias de julgamento especificadas
envolvem uma avaliação de dimensões semelhantes de saúde para diferentes grupos
raciais e étnicos. A associação da autoavaliação com medidas de morbidade é um
modo de investigar o significado da medida subjetiva. Uma investigação baseada
em dados ingleses sugere que a associação entre saúde autoavaliada e medidas de
morbidade não diferem significativamente de um grupo étnico para outro. Os
resultados validam o uso de uma medida única de saúde para avaliar
discrepâncias no estado de saúde entre diferentes grupos étnicos (Chandola e
Jenkinson, 2000). Supõe-se que a aplicação desta medida aos dados nacionais se
beneficie de uma validade de critério ainda maior tendo em vista que as
categorias raciais no Brasil não envolvem distinções culturais relevantes, ao
contrário dos grupos étnicos ingleses, como negros caribenhos, indianos,
paquistaneses etc.
A variável dependente foi tratada como uma variável binária com o objetivo de
lidar com a distribuição assimétrica das respostas de autoavaliação do estado
de saúde (Miech e Hauser, 2001:79). Além disso, a partição realizada na saúde
"não boa" demarca melhor o grupo que tem mais probabilidade de experimentar
problemas de saúde ou mesmo morte nos anos que se seguem a esta avaliação
(Chandola e Jenkinson, 2000:158). Por fim, existem evidências de subestimação
das respostas mais negativas sobre autoavaliação do estado de saúde na PNAD, o
que pode ter relação com a ordem em que esta questão aparece no questionário. A
pergunta sobre autoavaliação do estado de saúde abre a parte sobre
características de saúde dos moradores, antes das pessoas serem inquiridas
sobre os seus problemas de saúde específicos. O Inquérito Mundial de Saúde
realizado em 2003 no Brasil, que colocou uma questão similar numa ordem diversa
da PNAD, registrou 9% de pessoas com autoavaliação do estado de saúde ruim ou
muito ruim, contra apenas 4,3% da PNAD do mesmo ano, para aqueles que têm 14
anos ou mais de idade (Dachs e Santos, 2006:893). Apesar desses alertas, a PNAD
de 2008 manteve a questão no mesmo lugar tradicional. A opção pela forma
binária da variável dependente, com recorte na saúde "não boa", permite
contornar este problema de mensuração1.
Variável independente focal. As divisões raciais estão sendo mensuradas
conforme a opção de "cor ou raça" do informante em relação às cinco categorias
admitidas pelo IBGE, quais sejam, branco, preto, amarelo, pardo e indígena. A
desigualdade racial é analisada em termos do contraste entre "não branco"
(pardo e preto), que forma a categoria designada código 1, e branco, que compõe
a categoria de referência código 0, em todos os modelos estimados. As
discrepâncias na autoavaliação de saúde entre pardos e pretos mostraram-se
estatisticamente não significativas num modelo logístico com os controles de
gênero, idade, informante e região2. Além disso, como o estudo está interessado
em analisar a dimensão socioeconômica da desigualdade racial de saúde, esta
escolha se ajusta melhor ao fato do recorte entre branco e não branco retratar
o eixo da divisão racial de recompensas no Brasil (Figueiredo Santos, 2005b). A
exclusão das categorias amarelo e indígena evita que as características
específicas destes grupos interfiram na análise do divisor fundamental da
desigualdade racial no país. Os dois grupos abarcam apenas 0,9% dos casos para
os quais existem informações socioeconômicas plenas. Grupos muito pequenos
podem gerar dados esparsos em certos cruzamentos entre as variáveis
independentes e comprometer em particular as estimativas dos efeitos
interativos.
Variáveis independentes de controle. A variável idade foi mensurada ao nível
intervalar e varia de 18 a 64 anos na amostra, com média 36,6 e desvio padrão
12,0 anos. Gênero foi incluído da forma usual. Criou-se uma variável binária
para controlar o uso pela PNAD de respondente substituto para informar o estado
de saúde da pessoa3. A variável macrorregião diferencia Sudeste, Sul, Nordeste,
Centro-Oeste e Norte.
Na classificação socioeconômica utilizada, a noção de classe é definida e
mensurada basicamente em termos de relações de propriedade, ou seja, direitos e
poderes sobre vários tipos de ativos produtivos (Figueiredo Santos, 2005b). As
variáveis binárias construídas para a análise especificam as categorias de
classe de capitalista, pequeno empregador, especialista autônomo, autônomo com
ativos, autônomo agrícola, empregado especialista, gerente, empregado
qualificado, supervisor, trabalhador típico, autônomo precário, empregado
doméstico e trabalhador elementar.
As variáveis independentes de natureza socioeconômica e educacional foram
mensuradas usando o mesmo número de categorias (dez), com o objetivo de
minimizar o impacto da existência de diferentes escalas e unidades de
mensuração nas estimativas ajustadas. Educação foi mensurada em termos de
categorias de anos de estudo completos, em vez de variável contínua,
considerando a existência de uma relação não linear entre educação e saúde,
pois determinados pontos da distribuição educacional, como a aquisição de
escolaridade superior, contribuem mais para as diferenças de saúde (Herd,
Goesling e House, 2007:229-230; Backlund, Sorlie e Johnson, 1999). Dez
categorias foram criadas para representar transições importantes na aquisição
de credenciais educacionais no Brasil: não sabe ler e escrever, nenhum ano de
estudo completo, porém sabe ler e escrever, um a três anos, quatro anos, cinco
a sete anos, oito anos, nove a dez anos, onze anos, educação superior
incompleta e educação superior completa.
Baseados nos décimos da renda familiar per capita foram construídos dez grupos
de renda relativa. Medidas de renda sob a forma categórica são consideradas
mais apropriadas, pois refletem a relação não linear entre renda e saúde, em
que a maior parte da relação está concentrada na base inferior da distribuição
da renda (Herd, Goesling e House, 2007:229-230; Backlund, Sorlie e Johnson,
1999). Foi construído um indicador de riqueza computando os bens disponíveis no
domicílio. O indicador mensura a presença ou ausência da propriedade do
domicílio, carro, água encanada (proxy de padrão inferior de moradia), telefone
fixo, geladeira, geladeira de duas portas, freezer, computador, telefone
celular e máquina de lavar. Foi atribuído um peso a cada item baseado no
complemento da sua frequência relativa apurada em toda a amostra, de modo a
aumentar o peso dos itens mais escassos (Szwarcwald et alii, 2005:S55-S56). O
índice de bens varia na amostra de zero a 4,7, com média 1,9 e desvio padrão
1,3, e foi transformado em 10 categorias baseadas nos décimos da sua
distribuição por motivo de ajuste com os outros indicadores socioeconômicos.
Tratamento dos efeitos interativos. Diferentemente do coeficiente de X em um
modelo linear aditivo, os efeitos de X em Y não são constantes em um modelo
interativo; variam dependendo dos coeficientes de X e XZ, assim como do valor
de Z. No modelo interativo, o efeito de X fornece o efeito estimado da mudança
em uma unidade de X, mantendo a variável Z fixa em 0. Quando são construídos
termos interativos entre variáveis binárias, como classe social e raça, a
interpretação dos coeficientes estimados exige menos trabalho, pois o efeito
condicional ao valor 0 refere-se naturalmente à categoria de referência
(omitida) da outra variável que compõe o termo interativo (Kam e Franzese,
2007:18-27). Na perspectiva da presente investigação, raça representa a
variável independente focal qualitativa; classe, a variável moderadora
qualitativa. A análise das variações das chances relativas do grupo racial, a
depender das categorias de classe, utilizará a estratégia de "recodificação das
variáveis binárias", em que são realizados sucessivos recálculos da equação de
regressão e produzidas as estatísticas relevantes, após a especificação de cada
categoria de referência de interesse (o efeito condicional ao valor 0) (Jaccard
e Turrisi, 2003:55-60).
Estratégia de Análise. Modelos de regressão logística múltipla são estimados
para determinar a relação entre a categoria racial e o estado de saúde "não
bom". Estima-se como padrão de referência um modelo inicial ou básico, cujos
controles estão em todos os modelos subsequentes, que ajusta os efeitos de raça
por idade, gênero e informante do estado da saúde (pessoa ou outra). O modelo
inclui macrorregião de residência na análise de raça como variável antecedente
e quando são considerados os efeitos interativos entre classe e raça. Os
efeitos de raça são apresentados na forma de chances relativas (odds ratio)
ajustadas. Devido à facilidade de interpretação as chances relativas (odds
ratio) são o parâmetro de interesse na regressão logística. Esta medida
equivale ao número pelo qual se multiplica a chance da variável dependente
ocorrer (ter saúde não boa) para cada aumento de uma unidade da variável
independente. Em se tratando de variáveis binárias, o aumento de uma unidade
corresponde à mudança de 0 (zero) a 1 (um) e equivale a ser membro da categoria
designada, codificada como 1 (um). Na análise das chances relativas (odds
ratio) a ocorrência do valor multiplicativo 1 (um) representa ausência de
associação estatística. Valores maiores que 1 (um) expressam associação
positiva e menores que 1 (um) associação negativa. Nas variáveis binárias a
associação positiva tem o sentido de multiplicar a chance em relação à
categoria de referência. Como saúde não boa é um estado indesejável, a
associação positiva aqui expressa naturalmente uma desvantagem de saúde. Todas
as variáveis socioeconômicas deste estudo, por razão tanto substantiva quanto
estatística, estão sendo mensuradas como categorias. Todos os coeficientes nas
tabelas foram expressos em termos de mudanças percentuais nas chances relativas
(Odds Ratio - 1 * 100). Como estratégia de comparação entre os modelos estima-
se a percentagem de mudança (redução) nos percentuais decorrentes dos
acréscimos dos novos controles, quando as chances estimadas pelo modelo
ampliado decrescem (Aneshensel, 2002:180). A redução nos efeitos estimados foi
calculada conforme a expressão: (modelo básico - modelo ampliado) / modelo
básico * 100). O coeficiente original (odds ratio) equivale a um termo
multiplicativo que varia entre zero e 1 (um) quando a associação é negativa,
pois o valor 1 (um) equivale a zero na forma não multiplicativa, e varia de 1
(um) a mais infinito quando a associação é positiva. O cálculo adequado do
montante da mudança (redução) do efeito original deve ser feito com os
coeficientes já convertidos em termos de mudança percentual, pois o uso do
coeficiente na forma original multiplicativa distorceria a aferição do montante
de redução (Figueiredo Santos, 2011a).
ANÁLISE DE CLASSE DA DESIGUALDADE RACIAL DE SAÚDE
A consideração da distribuição da saúde não boa nos dois grupos raciais, por
categoria de classe, permite fazer uma primeira aproximação do problema da
pesquisa (Tabela_1). O grupo não branco mostra um pior estado de saúde, como
pode ser visto na última linha, com 25% declarando saúde não boa, o que perfaz
uma diferença relativa de 43% face ao grupo branco. A força do ordenamento de
classe do estado de saúde prevalece dentro de ambos os grupos raciais. Entre os
não brancos, assim como entre os brancos, as ocorrências de estados negativos
de saúde são minimizadas entre as posições privilegiadas de classe. No sentido
oposto, as desvantagens relativas de saúde se associam com forte ênfase às
situações de exclusão do controle de recursos econômicos. Entretanto, o
controle de ativos de capital, em uma escalar menor, parece não proteger tanto
a saúde do não branco, como ocorre com o branco, pois o pequeno empregador
mostra um padrão de saúde semelhante ao trabalhador típico, o que pode ter
relação com a distribuição regional (Nordeste) e setorial (agrícola) que
desfavorece a saúde do pequeno empregador não branco.

Os dados mostram que o grupo não branco está em desvantagem em todos os
contextos de classe, o que já sinaliza a relevância do efeito independente de
raça, nos limites ainda de um ajuste dos dados apenas por idade. A existência
desta discrepância racial direta, não mediada pela dimensão socioeconômica,
precisa ser confirmada pela inclusão de outros indicadores que retratem mais
plenamente as diferenças socioeconômicas entre os grupos. Por fim, os contextos
de classe se associam com variações muito marcantes nas discrepâncias raciais
de saúde, que vão de 3,7% no trabalhador de subsistência a 77,4% no
capitalista. Percebe-se então que classe social estaria moderando (aumentando
ou diminuindo) o efeito relativo de raça na saúde. A constatação e análise
destes padrões, no entanto, precisa ser testada e aprofundada com a
consideração de outras variáveis relevantes que afetam a saúde.
Tendo em vista a existência de uma forte interseção entre raça e classe, que
joga papel decisivo na constituição das desigualdades raciais de saúde, a
estimativa das discrepâncias de classe de saúde existentes dentro dos grupos
raciais acrescenta uma informação adicional relevante. A técnica de regressão
logística múltipla, que permite ajustar as estimativas por diversas
covariáveis, vai ser aplicada na descrição e no comentário desta questão,
completando o quadro esboçado. Na Tabela_2 o trabalhador típico foi escolhido
como categoria de referência da variável classe social. As chances relativas
das outras categorias são estimadas em relação a esta categoria de referência.
Por se tratar de um coeficiente multiplicativo, os efeitos positivos são
maiores que 1 (um) e os negativos ficam entre zero e 1 (um). Os coeficientes
devem ser colocados numa forma canônica para tornar comparável a magnitude
relativa dos valores positivos e negativos. Tomando o inverso dos coeficientes
quando as chances relativas são menores que 1 (um), todos os coeficientes ficam
assim expressos em valores maiores ou iguais a 1 (um) (Menard, 2009:94). Este
dado adicional está colocado entre parênteses naturalmente apenas quando o
coeficiente original é menor que 1 (um). Feito este ajuste, quando maior o
coeficiente maior é o seu impacto na variável dependente. Na última coluna está
registrada a diferença entre as estimativas, quando os dois coeficientes forem
estatisticamente significativos. Tanto as estimativas das discrepâncias de
classe social quanto o cálculo do montante da mudança (redução) do efeito
original foram feitos com os coeficientes já convertidos em termos de mudança
percentual. Percebe-se claramente que o mesmo ordenamento de classe se mantém
dentro de ambos os universos raciais. As posições de classe privilegiadas
possuem chances relativas menores do que o trabalhador típico de ter saúde não
boa. Este padrão tem como exceção marcante o pequeno empregador não branco,
pois a diferença em relação ao trabalhador típico se torna estatisticamente não
significativa. As posições de classe de empregado qualificado e supervisor
revelam igualmente uma situação menos desfavorável de saúde em ambos os grupos
raciais. Por outro lado, a diferenciação racial não altera o fato de todas as
posições destituídas de classe apresentarem uma pior situação de saúde do que o
trabalhador típico. Tanto entre os brancos quanto entre os não brancos a
condição relativa de saúde do trabalhador típico está bem mais distante das
posições privilegiadas do que das destituídas. Ao olhar para as interseções
entre estas duas divisões sociais, o efeito de raça se manifesta na existência
de uma menor discrepância de classe na saúde entre os não brancos. Neste grupo
racial as posições privilegiadas têm menos vantagens de saúde, em comparação ao
trabalhador típico, e as posições destituídas, por sua vez, têm um montante
menor de desvantagens de saúde. Esta "aproximação" das distâncias relativas de
saúde no universo não branco, entre o trabalhador típico e as demais posições
de classe, na comparação com o grupo branco, se dá mais com o autônomo
agrícola, o especialista autônomo, o trabalhador elementar, de forte composição
agrícola, o trabalhador de subsistência e o capitalista, conforme mostra a
última coluna com a redução percentual entre os dois grupos raciais. Deve ser
enfatizado, no entanto, que a desigualdade de classe em matéria de saúde é bem
maior, dentro do próprio grupo não branco, do que a sua desvantagem racial, que
equivale a uma chance 39% maior de ter saúde não boa, em um modelo com os
controles básicos de idade, gênero, informante e região. Entre os extremos da
estrutura social a desigualdade de classe, mesmo com o controle adicional de
raça, excede sempre os 300%, como mostra a Tabela_3.
[/img/revistas/dados/v54n1/01t02.jpg]
[/img/revistas/dados/v54n1/01t03.jpg]
A técnica de regressão logística múltipla serve agora para investigar o papel
de raça como variável antecedente na cadeia causal que leva à desigualdade
socioeconômica de saúde. Na literatura sociológica as condições socioeconômicas
são consideradas como "causas fundamentais" da saúde e da doença, pois
determinam o acesso a importantes recursos que podem ser usados para evitar
riscos ou minimizar as consequências das doenças, afetam múltiplos resultados
de saúde através de diversos mecanismos e geram vantagens flexíveis que se
transpõem para novas circunstâncias (Link e Phelan, 1995, 2000 e 2010;
Figueiredo Santos, 2011a e 2011b). As divisões raciais geram uma desigualdade
de alocação ou acesso à estrutura de classes e esta, por sua vez, condiciona os
padrões de saúde e doença da população. Na condição de variável antecedente,
raça pode ser pensada como tendo um papel "pré-fundamental" na constituição da
desigualdade socioeconômica de saúde. Não quer dizer, com isso, que raça tenha
um papel relevante apenas como variável antecedente na trajetória que vai dos
fatores socioeconômicos aos resultados de saúde. Na análise deste problema
estima-se o efeito de classe social nas chances relativas de revelar uma saúde
"não boa", no "Modelo Classe", que foi ajustado por idade, informante, gênero,
região e classe social. Em um segundo modelo, mantendo-se os controles
anteriores, a variável raça é adicionada. A categoria de referência da variável
classe social é o capitalista. As chances relativas das outras categorias são
estimadas em relação a esta categoria de referência.
Os resultados traduzidos na Tabela_3 mostram uma redução do efeito original de
classe, que varia de 2,8 % a 10,2%. Sabe-se que o não branco tem uma
desvantagem de acesso à estrutura de classe. Estes resultados confirmam a
proposição de que no Brasil raça tem uma parcela de contribuição, como variável
antecedente, no elo que se estabelece entre as condições socioeconômicas e a
saúde da população. Por outro lado, a força dos fatores socioeconômicos como
causas fundamentais da saúde revela-se na persistência em larga escala dos
efeitos originais das categorias de classe.
Em um segundo momento na investigação, modelos de regressão logística múltipla
são estimados para testar a natureza intrínseca ou não espúria da relação entre
a categoria racial e a saúde "não boa", assim como para trazer à tona
determinados fatores subjacentes relevantes que mediam esta relação. A partir
do modelo inicial o estudo gera uma série de "experimentos estatísticos" ao
incorporar classe social e outros indicadores socioeconômicos como variáveis
independentes de controle com o objetivo de especificar a sua contribuição para
a formação do elo entre a condição racial e os resultados de saúde. Na Tabela_4
estão sendo incluídas informações sobre o intervalo de confiança das chances
relativas (odds ratio) já convertidas em diferenças percentuais.
[/img/revistas/dados/v54n1/01t04.jpg]
Estima-se como ponto de partida a desvantagem racial total, ajustada apenas por
fatores que podem confundir a relação, como gênero e idade, pois estas
variáveis têm relação importante com o estado de saúde e se distribuem de forma
não equivalente entre os grupos raciais. Constata-se no modelo 1 a existência
de uma elevada discrepância relativa de saúde que desfavorece o não branco, que
tem uma chance 56% maior do que o branco de apresentar saúde não boa. O modelo
inicial não controla por região, pois esta diferenciação espacial tem uma
fortíssima dimensão socioeconômica que afeta a saúde.
O modelo 2 controla por classe social, no duplo significado que o controle
estatístico possui, ou seja, "removendo" da relação original a variação
decorrente da distribuição ou composição diferenciada das categorias de classe
entre os grupos raciais e a variabilidade devida à potência causal do efeito de
classe na saúde. Classe social revela-se como um fator mediador importante da
desigualdade racial de saúde, pois o efeito original de raça é reduzido em 36%.
O modelo 3 adiciona como controle as grandes regiões em que se divide o país. O
desenvolvimento desigual do capitalismo gera um desequilíbrio ou variação
regional na distribuição da riqueza, da renda e da infraestrutura social e de
serviços promovidos pelo Estado. Sabe-se que parte relevante da desigualdade
racial de renda no Brasil é mediada pela distribuição particularmente da grande
população parda em regiões que possuem renda média menor, como o Nordeste
(Figueiredo Santos, 2005a). Além disso, os enfoques neomaterialistas da
desigualdade de saúde chamam a atenção para a importância da provisão pública
de serviços que, ao afetarem os padrões de vida das pessoas, repercutem na
saúde da população (Bartley, 2004:101-102). O fator regional mostra a sua
força, como mediador da desigualdade racial de saúde, ao promover uma redução
adicional elevada (23,8%). Cabe destacar que o modelo anterior já tinha
possivelmente captado algum componente de variação regional na distribuição
diferenciada das posições de classe e nas distâncias de recompensas entre estas
posições.
A literatura sociológica e de epidemiologia social alerta que os indicadores
socioeconômicos podem não ser equivalentes ou não captar estritamente os mesmos
efeitos entre os grupos raciais. O uso de diversos indicadores representa então
uma forma de minimizar este problema. Esta questão se torna ainda mais
relevante num trabalho que pretende investigar justamente a contribuição dos
fatores socioeconômicos para a desigualdade racial de saúde no Brasil. Por este
motivo a partir do modelo 4 são introduzidos adicionalmente três outros
importantes indicadores usuais de posição socioeconômica.
O controle da renda familiar per capita no modelo 4 incorpora dados novos
interessantes. Serve para expressar o contexto socioeconômico familiar, o que é
uma informação adicional relevante, pois o indicador de classe social utilizado
toma o indivíduo como unidade de análise. Embora as categorias de classe sejam
determinantes da renda, parece importante igualmente levar em conta os próprios
resultados distributivos, em particular porque as categorias de classe não
mensuram toda a fonte de variação desses resultados que contribuem para gerar
desigualdades adicionais de saúde. Além disso, uma análise de classe plena deve
ser sensível à desigualdade distributiva de condições de vida, quando não
porque a renda tem um efeito de feedback nas circunstâncias de classe
(Westergaard, 1995:29-30). Os controles de classe e região realizados antes já
abarcaram partes decisivas das discrepâncias raciais de renda, mas a renda
familiar relativa gera ainda assim uma forte redução adicional (14,6%),
mostrando a força da desigualdade de circunstância socioeconômica familiar.
O modelo 5 afere o impacto na relação entre raça e saúde de um indicador de
recursos do domicílio. Este tipo de índice revelou-se superior à mensuração
direta do valor econômico da moradia, quando não devido ao montante de ausência
de informação que esta última questão gera, embora não seja um indicador
estrito de riqueza (Figueiredo Santos, 2011a). Enquanto a renda corrente mostra
a disponibilidade imediata de poder aquisitivo, o índice mede a capacidade de
acumulação de recursos do passado ao presente, através de dez itens que somados
retratam diferenças nas circunstâncias socioeconômicas dos domicílios,
particularmente a posição relativa da base destituída da estrutura social, que
são relevantes para entender a desigualdade de saúde. A redução adicional
introduzida em relação ao modelo anterior mostra-se menor (5,6%), mas isso deve
ser entendido considerando a diversidade e o peso dos três fatores
socioeconômicos já controlados.
O modelo 6, com a introdução do controle da educação, foi estimado naturalmente
com a finalidade de contemplar este poderoso preditor de desigualdade de saúde.
O impacto menor gerado pela variável educação, que produz uma redução
suplementar de 3,9% do efeito de raça, reflete basicamente o fato de ter sido
introduzida ao final de uma sequência de controles. Além de ajudar a cobrir o
espectro abrangente da dimensão socioeconômica, a educação envolve conteúdos
informativos, cognitivos e culturais que, mobilizados em conjunto com os
recursos materiais, afetam a desigualdade de saúde.
Constata-se ao final que todos os controles socioeconômicos respondem por 84%
da desigualdade racial de saúde. Isso significa que num grau muito elevado a
desvantagem racial é mediada por estes fatores materiais ou que estes fatores
enfeixam decisivamente os elos, mesmo quando não materiais, que se estabelecem
entre a divisão racial e o estado de saúde. Este bloco abrangente de variáveis
de controle, por sinal, minimiza os problemas de mensuração do mecanismo
socioeconômico subjacente que cada variável em separado possivelmente
apresenta. Entretanto, ainda assim, uma parte importante (16%) da desigualdade
racial se faz de modo totalmente independente das variáveis socioeconômicas
controladas.
Procede-se a partir daqui à análise da influência conjunta de classe e raça na
geração de variações da penalidade de saúde do não branco, com base nos
resultados estampados na Tabela_5. Na estimativa dos efeitos interativos os
empregadores foram diferenciados de um modo diferente com a finalidade de
evitar as consequências estatísticas indesejáveis da presença de "dados
esparsos"4. São estimadas as discrepâncias raciais de saúde, em cada contexto
de classe, depois de terem sido controladas a desigualdade racial de acesso à
estrutura de classe, a distribuição racial regional e os efeitos de região na
saúde, gênero, idade e tipo de informante do estado de saúde. O estudo das
relações condicionais, ou efeitos interativos entre classe e raça, objetiva
investigar em que medida as vantagens ou desvantagens sociais subjacentes às
posições de classe são diferencialmente convertidas pelos grupos raciais em
vantagens ou desvantagens adicionais de saúde. Efeitos condicionais ou
interativos expressam essencialmente como um efeito muda, ou seja, equivalem a
um efeito sobre um efeito (Kam e Franzese, 2007). Estima-se então como o efeito
de classe social muda o efeito de raça ou, simetricamente, como o efeito de
raça muda o efeito de classe social. O controle no modelo interativo da
desigualdade regional, que tem um impacto importante na distribuição racial da
saúde, visa demarcar claramente a força do efeito conjunto na discrepância
racial de saúde, removendo da estimativa, por exemplo, as diferenças que
existem entre ser gerente no Sudeste e no Nordeste. O segundo modelo estimado
com o controle de educação remove da relação focal entre raça e saúde a
heterogeneidade educacional interna das categorias de classe e naturalmente o
efeito independente da educação na saúde. A desigualdade racial de saúde fica
estatisticamente reduzida, pois classe, região e educação são fatores
mediadores-chave desta desigualdade. Este procedimento visa estritamente
separar o efeito contextual de pertencer a uma categoria como algo que
independe totalmente da desigualdade racial de acesso à estrutura de classe,
região e credenciais educacionais. Estima-se então de um modo mais puramente
estrutural a influência do contexto de classe na relação entre raça e saúde ou,
simetricamente, a influência de raça na relação entre classe social e saúde.
[/img/revistas/dados/v54n1/01t05.jpg]
Constata-se que as circunstâncias de classe social introduzem uma clara
variação no efeito de raça na saúde. No modelo "Classe-Região" todas as
posições privilegiadas de classe social mostram uma discrepância racial de
saúde bem mais elevada, quando comparadas ao efeito médio estimado pelo modelo
sem interações (ver última linha da Tabela_5). Cabe não esquecer que estão
sendo estimadas diferenças raciais relativas dentro dos contextos de classe. O
especialista autônomo não branco, por exemplo, tem vantagens de classe que
geram vantagens adicionais de saúde em relação ao não branco situado na base
destituída da estrutura social, conforme mostra a Tabela_1. Entretanto, na
posição de classe privilegiada, o grupo em desvantagem racial não converte do
mesmo modo as vantagens de classe em benefícios de saúde, o que aumenta a
distância racial relativa. Os empregadores que possuem mais empregados mostram
um patamar muito elevado de discrepância racial de saúde5. Entre os possuidores
de conhecimento perito, o controle da educação não altera a elevada
discrepância racial, em especial entre os especialistas autônomos. De um lado,
porque a distribuição da escolaridade é bem menos desigual dentro dessas
categorias. Por outro lado, este resultado mostra que estas posições de classe
captam muito mais do que o simples efeito da escolaridade na saúde, já que este
efeito está sendo controlado. A elevada intensificação das discrepâncias
raciais relativas dentro destas categorias indica que o não branco usufrui bem
menos das vantagens de saúde que estas posições dão ao grupo branco, de modo
independente dos atributos individuais de escolaridade, o que caracteriza a
ocorrência de retornos de saúde relativamente decrescentes. Deve ser ponderado,
no entanto, que nas categorias de empregador (maior) e de especialista autônomo
as estimativas das discrepâncias raciais estão sujeitas a consideráveis
flutuações aleatórias, resultando em amplos intervalos de confiança de 95%.
Entre os gerentes a elevada discrepância racial de saúde estimada no primeiro
modelo decresce bastante após o controle da educação e, ao mesmo tempo, torna-
se estatisticamente não significativa. Além disso, ambos os modelos apontam uma
diferença racial não significativa na categoria de supervisor, que se
caracteriza também por exercer autoridade6. Note que são feitas colocações
sobre mecanismos e não sobre pessoas. O gerente não branco, ao ter em média
menos escolaridade, tem uma saúde pior, mas isso não se deve ao impacto da
posição de autoridade na saúde. Talvez se esteja neste caso diante da difícil
escolha entre afirmar algo que não existe ou deixar de considerar o que existe.
Embora em termos de política de saúde pública seja pior deixar de considerar o
que existe, não pode ser descartada a possibilidade de que as vantagens de
classe associadas ao exercício de autoridade de fato não geram retornos
decrescentes de saúde para o grupo não branco7. Já o controle de ativos de
capital, porém com menos empregados ou sem empregados, associa-se a uma
elevação da heterogeneidade racial na distribuição do estado de saúde dentro
dessas categorias.
Em todos os estratos agrícolas de não empregadores, assim como no trabalhador
elementar, que tem forte componente agrícola, desaparece estatisticamente a
diferença racial. Este resultado independe de diferenças regionais na
distribuição de raça e da atividade agrícola, pois o modelo controla por
região. Isso significa que todos os não empregadores inseridos em atividade
agrícola, controladores ou destituídos de terra têm desvantagens de tal ordem,
com repercussão na saúde, que o status racial não gera consequências
adicionais.
No grande conjunto social da classe trabalhadora ampliada, o trabalhador típico
e o empregado qualificado mostram um padrão semelhante e significativo de
discrepância racial de saúde. A discrepância racial fica num patamar similar no
supervisor, porém não é estatisticamente significativa. A intensificação do
efeito de raça na saúde no trabalhador típico, posição de classe explorada de
grande densidade social, sinaliza que alguma heterogeneidade interna
(possivelmente ocupacional) pode estar favorecendo dentro da categoria a
diferenciação racial de saúde. Quando comparadas às posições privilegiadas de
classe, no entanto, existe entre estes trabalhadores menor espaço para a
intensificação das diferenças relativas de saúde devido à demarcação racial.
Em três das cinco posições destituídas de classe persiste uma desvantagem
racial, porém de forma mais restringida. Nas duas categorias agrícolas ou com
elevada presença agrícola a relação não se mostra estatisticamente
significativa. Supõe-se então que as circunstâncias de destituição impõem
limites de variação no impacto da divisão racial na saúde. No trabalhador
excedente, sem o controle da educação o fator racial opera um tanto menos
constrangido, mas ao serem controladas as diferenças educacionais as
discrepâncias raciais tornam-se estatisticamente não significativas, mostrando
como aumenta a importância de um recurso (educação), quando não se tem outro
(emprego). No geral, existe entre os trabalhadores destituídos e os
trabalhadores tipicamente explorados, porém não destituídos, uma clara
diferença de inclinação nos coeficientes das chances relativas que medem os
efeitos conjuntos de classe e raça na saúde.
De um lado, a caracterização e o entendimento adequados da desigualdade racial
de saúde no Brasil demanda a consideração da desigualdade de classe e de outras
dimensões socioeconômicas correlatas. O impacto desses fatores na saúde é tão
forte que a antecedência do fator racial no acesso desigual à estrutura de
classe responde por uma parcela restrita da trajetória causal. A mediação
socioeconômica cobre um montante muito elevado (84%) do efeito total da
desigualdade racial de saúde. A desigualdade racial na distribuição da saúde
depende fortemente das assimetrias de recursos, poderes e contextos valiosos.
Pode-se concluir que os mecanismos transmissores da desigualdade racial de
saúde, quaisquer que sejam eles, estão associados fundamentalmente às
assimetrias de contextos e recursos socioeconômicos. Ao associar-se e
assemelhar-se aos determinantes socioeconômicos, a desigualdade racial mostra-
se suscetível à mesma dinâmica (diagnosticada pela teoria dos determinantes
fundamentais da saúde) que governa a relação persistente e profunda entre
"status socioeconômico" e distribuição da saúde (Link e Phelan, 1995, 2000 e
2010). Ela envolve o controle de recursos de natureza flexível e aplicável a
múltiplos fins, capazes por isso mesmo de afetar múltiplos resultados de saúde
por meio de diversos mecanismos ou trajetórias causais, de modo a incrementar o
bem-estar e a saúde dos seus detentores (Figueiredo Santos, 2011a e 2011b).
De outro lado, a persistência de um efeito direto de raça (16%) mostra que nem
tudo no efeito desta divisão está estritamente enlaçado à dimensão
socioeconômica. Importantes categorias de classe social, particularmente quando
privilegiadas, porém mesmo quando explorada (trabalhador típico) experimentam
intensificações das discrepâncias de saúde entre os grupos raciais. Os ativos
de capital e de conhecimento perito, sem dúvida os mais valiosos, mostram-se
como aqueles mais afetados, em decorrência talvez do seu próprio enorme
potencial de gerar vantagens de saúde, pelas assimetrias de capacidades,
poderes, direitos, identidades, valor, status e reconhecimento sociais que se
estabelecem entre os grupos raciais. Em um contexto de privilégio de classe, no
qual se encontram inegavelmente o capitalista e o especialista autônomo, a
discrepância racial relativa manifesta-se mais forte, pois os recursos
controlados não são convertidos no mesmo patamar em vantagens de saúde para o
grupo não branco. Além disso, em algum nível, os recursos destas categorias de
classe (ou o modo como foram mensurados) podem não ser estritamente
equivalentes entre os grupos raciais. Como postula a teoria das causas
fundamentais, as vantagens de saúde não são primariamente um efeito secundário
e involuntário associado à "boa vida", mas a consequência de processos que
envolvem o uso deliberado de recursos por indivíduos e grupos. A mobilização
adequada e a conversão plena de recursos para a obtenção de proteções ou ganhos
de saúde se fazem no contexto de uma sociedade racialmente desigual. As "marcas
raciais" estão inscritas nas várias dimensões da vida social - nas
instituições, interações, disposições e crenças - tornando-se uma espécie de
"status principal", inclusivo e abrangente, ao lado de classe social e gênero.
Os princípios estruturantes das divisões raciais afetam as capacidades e as
oportunidades efetivas dos atores de realizar fins mobilizando os meios de que
dispõem.
NOTAS
1. Uma fundamentação mais detalhada desta escolha de uma variável dependente
binária com o recorte na saúde não boa, que trata de aspectos metodológicos e
de validação empírica, pode ser encontrada no estudo anterior do autor sobre
classe social e desigualdade de saúde no Brasil (Figueiredo Santos, 2011a).
2. Este resultado é bastante robusto. Não representa um artifício estatístico
devido ao fato de os pretos serem um grupo percentualmente menor. Na amostra os
pretos que foram classificados numa categoria de classe correspondem a 11.787
casos e, entre esses, 3.861 pretos declararam saúde não boa (variável
dependente binária do estudo). Na verdade, deve-se ao controle estatístico de
região, em que o grupo pardo possui uma desvantagem com repercussão na saúde,
por estar mais no Nordeste e em regiões rurais, o efeito de tornar
estatisticamente não significativa uma pequena diferença a favor do grupo
preto, que apresenta antes do controle de região uma chance 7% menor de ter
saúde não boa em relação ao pardo. Este controle teve que ser introduzido para
isolar o efeito independente de raça.
3. Estudo realizado para a população idosa, cabe observar, mostrou que o uso de
respondente substituto nas PNADs de 1998 e 2003 não modifica a distribuição da
percepção da saúde, assim como os fatores associados à mesma (Lima-Costa et
alii, 2007).
4. Na classificação original os capitalistas são formados basicamente por
empregadores com 11 empregados ou mais. Nesta solução os empregadores foram
divididos entre aqueles que empregam seis ou mais empregados (maior) e os que
possuem cinco ou menos empregados (menor). Integra também a categoria (maior)
os empregadores agrícolas que possuem mais de 500 hectares de terra
independentemente da quantidade de empregados. O número muito reduzido de casos
de não brancos com um estado de saúde não bom entre os capitalistas estava
comprometendo a significância estatística do efeito interativo.
5. Como o grupo não branco (pardo) está comparativamente mais presente na área
rural, foi estimado um modelo alternativo com o controle adicional deste fator.
A diferença racial de saúde dentro da categoria se mantém elevada e
estatisticamente significativa. O controle de região possivelmente já tinha
abarcado este efeito.
6. Um modelo logístico alternativo sem ajuste ao desenho complexo da amostra
apresenta uma estimativa estatisticamente significativa do supervisor não
branco ter uma chance relativa 29% maior de manifestar saúde não boa.
Entretanto, com o controle da educação, a diferença cai para 16% e torna-se
estatisticamente não significativa.
7. Este estudo ajusta as estimativas dos erros padrões ao plano complexo da
amostra da PNAD. No método de cálculo de variâncias adotado pelo IBGE a
aproximação obtida é a favor da segurança, de modo que as estimativas de
variâncias tendem a ser maiores que os valores reais (Silva, Pessoa e Lila,
2002). Um modelo logístico alternativo com o controle de educação, mas sem
fazer o ajuste ao desenho complexo da amostra, mostra uma estimativa
estatisticamente significativa do gerente não branco ter uma chance relativa
24% maior de manifestar saúde não boa. A delimitação separada do mecanismo de
exercício de autoridade, realizada nesta tipologia, mas ausente em outros
esquemas e nos indicadores convencionais de posição social, como renda e
educação, permite captar esta possível especificidade do gerente na relação
entre raça e saúde entre as posições privilegiadas.