Estratificação educacional no Brasil do século XXI
INTRODUÇÃO
Estratificação educacional refere-se à relação entre as origens sociais e o
alcance educacional dos estudantes. Quanto mais mobilidade social permite uma
sociedade, mais aberta e possivelmente democrática ela é, e assim um sistema
escolar é mais aberto ou democrático quanto menor for a correlação entre a
origem social do aluno e seu desempenho durante o processo escolar (Silva,
2003).
A importância da escola como mecanismo de mobilidade é destacada pela teoria da
modernização (Parsons, 1970; Treiman, 1970), que projeta a educação como
principal mecanismo de equalização das oportunidades sociais, capaz de superar
as velhas e rígidas estruturas de transmissão direta de statusentre gerações.
Visões menos otimistas sobre o papel da escola na sociedade também têm recebido
destaque no campo de pesquisas educacionais. As principais são as teorias
reprodutivistas (Bowles e Gintes, 1976; Bourdieu e Passeron, 1977), que
percebem a educação na sociedade moderna como um instrumento de reprodução e
dominação social, usado pelas classes dominantes para transmitirem seu capital
cultural e assegurar que seus filhos atinjam ao menos posições sociais
semelhantes às suas.
Modelos analíticos variados - modelo de seletividade diferencial (Mare, 1980,
1981), hipótese da desigualdade maximamente mantida (Raftery e Hout, 1993),
hipótese da desigualdade efetivamente mantida (Lucas, 2001) etc. - instigados
pelo debate entre estas correntes, têm investigado, ao longo das últimas
décadas, e para uma variedade considerável de países, a relação entre expansão
escolar e estratificação educacional, apontando relações mais complexas do que,
a princípio, as teorias anteriores seriam capazes de explicar no mundo
contemporâneo.
Este texto apresenta, em primeiro lugar, uma síntese do processo de expansão
educacional no Brasil, para então discutir as principais abordagens e modelos
dedicados à relação entre expansão escolar e estratificação educacional em
vários países. A análise comparativa permite que as questões discutidas em cada
país tragam insightspara discussão e melhor compreensão do caso brasileiro. Em
seguida, usando dados das PNADs 2001, 2004 e 2007, serão testadas hipóteses
relativas aos efeitos das origens sociais sobre as possibilidades de alcance
educacional dos estudantes nos ensinos de segundo e terceiro graus no país,
levando-se em conta as principais abordagens teóricas e analíticas
internacionais, com especial atenção à hipótese da desigualdade efetivamente
mantida. Esta análise pretende oferecer um quadro analítico da estratificação
educacional no Brasil na primeira década do século XXI, tendo como pano de
fundo a transmissão de desigualdades no acesso aos sistemas público e privado
de educação, do ensino médio à universidade.
EXPANSÃO EDUCACIONAL NO BRASIL
A partir dos anos 1970 aprofundam-se as mudanças sociais, políticas e
demográficas que criaram as condições sociais mais favoráveis para a população
em idade escolar básica. A diminuição do número de filhos por mulher, o aumento
da densidade populacional nas cidades e mais disponibilidade de escolas
permitiram que as coortes mais jovens desfrutassem de um ambiente mais propício
para a melhoria da realização escolar (Silva e Hasenbalg, 2000).
Nesse período, o número geral de matrículas do sistema de ensino foi
multiplicado por 2, 7 vezes. A taxa de analfabetismo cai de 50, 5%, em 1950,
para 14, 7% em 1996 (Castro, 1998), e chega-se ao patamar de cerca de seis anos
de educação média no país. O ensino fundamental duplicou de tamanho, a taxa
líquida de escolarização da população de 7 a 14 anos subiu para 96% no ano
2000, praticamente atingindo a universalização do acesso a este nível do
sistema.
A expansão mais recente tem priorizado o ensino médio e o superior, o que,
segundo Silva (2003), se deve a uma conjunção de aumento da demanda, políticas
públicas, diminuição dos custos familiares e maior acessibilidade. O ensino
médio passou de um patamar de um milhão para mais de sete milhões de estudantes
matriculados. As maiores taxas de incremento neste nível são encontradas na
região Nordeste, que, somente no período entre 1997 e 2002, apresentou elevação
de 92% no número de matrículas - uma vez que concentrava maior contingente
populacional até então fora do sistema escolar.
Estimativas indicam que após o ensino primário praticamente ter atingido
cobertura universal, o ensino médio caminha na mesma direção, com cobertura de
mais de 85% da população de jovens entre 15 e 17 anos de idade em 2001 (Soares
e Alves, 2003). Contudo, a defasagem entre idade e série neste nível de ensino
émuito alta, chegandoa51% em 2002, ou seja, mais da metade dos alunos que
cursam o ensino médio foram reprovados pelo menos uma vez ao longo do ciclo
escolar. Como essa proporção era de 76% em 1970 (Silva, 2003), verifica-se
progressiva redução da defasagem - possivelmente pela implementação de
programas de ciclos e promoção automática, entre outros. No que toca à divisão
setorial, a rede privada abrangia, em 1997, 27% do total de matrículas do
ensino médio, percentual que, dois anos depois, se reduz para 19% (Cury, 2002).
Diferenças raciais e de gênero são marcantes nessa fase do sistema escolar.
Dados da PNAD 2007 apontam que mulheres apresentam maior tendência acompletar o
ensino médio, seja em escola pública-56%, contra 44% de homens - ou privada -
52%, contra 48% -, e a entrar para a universidade - 61%, contra 39% na rede
pública, 55% contra 45% na rede privada. Já sobre diferenças entre grupos
raciais, permanecem as desvantagens da população negra e parda no acesso e
realização escolar no Brasil. Hasenbalg e Silva (1990) mostram que, além da
maior proporção de crianças não brancas entre as que entram tardiamente na
escola, entre as que não têm acesso algum ao sistema escolar a população não
branca é três vezes maior que a branca. Além disso, apresentam uma trajetória
escolar mais lenta e acidentada, com desvantagens em todos os níveis de ensino,
mesmo nos níveis de maior renda familiar. Dados da PNAD 2007 mostram que
enquanto não brancos são maioria a completar o ensino médio na escola pública -
54%, contra 46% de brancos -, tornam-se minoria dos que concluem este nível na
escola privada - 36%, contra 64% de brancos. Na entrada para o nível superior,
brancos são maioria nas duas redes - 61% na pública e 74% na privada.
O nível superior também se expandiu significativamente. Segundo Schwartzman
(1988), desde os anos 70, em virtude da crescente demanda, houve um aumento
considerável de instituições privadas, abrangendo um número de alunos que em
poucos anos ultrapassou o de estudantes das universidades públicas. Criou-se um
sistema de ensino superior altamente estratificado em universidades públicas de
pesquisa concentrados na região Sudeste, universidades públicas espalhadas pelo
país com nível de qualidade menor, e instituições privadas em vários estados do
país com qualidade ainda menor.
De acordo com Martins (2000), este nível de ensino vem crescendo a uma média de
7% ao ano, considerando-se todas as modalidades e instituições, públicas ou
privadas. O número de instituições de ensino superior atinge 973 em 1998, sendo
que 79% delas são privadas, e abrangem 62% das matrículas. Em 2004, de acordo
com dados do INEP (2006), o número de matrículas no setor privado já chega a
71%, ou seja, mais de dois terços do sistema superior de ensino, sendo que em
2006 o número de instituições neste setor atinge a incrível marca de 89%.
Todavia, mesmo diante da visível expansão, o baixo rendimento interno do
sistema escolar como um todo não consegue assegurar o acesso da maior parte da
população que sai do nível primário aos níveis superiores, mostrando-se, assim,
um sistema marcado por alto grau de seletividade. Após a quase universalização
da educação primária, parte da pressão social desloca-se para a transição para
o ensino superior. A cada mil alunos que iniciam seu ciclo escolar na primeira
série do ensino primário, apenas 56 (5, 6%) tendiam a ingressar no ensino
superior na década de 1970 (MEC, 2002). Em 2007, como mostram os dados da PNAD,
essa quantidade sobe para 146 (14, 6%).
De acordo com relatório do INEP (2006), no que concerne à desigualdade de
acesso, 50% dos jovens de 18 a 24 anos, provenientes de famílias com renda
acima de cinco salários mínimos, estão matriculados em cursos de nível
superior, enquanto apenas 12% dos jovens na mesma faixa de idade em famílias
com até três salários mínimos estão matriculados neste nível. Como aponta
Castro (2006), 70% dos estudantes des-te nível de ensino vêm da camada dos 20%
mais ricos do país. Políticas públicas implementadas na última década - como o
REUNI e os programas de cotas e bônus das universidades públicas - têm ampliado
as possibilidades de acesso de estudantes de camadas mais pobres ao ensino
superior, mas o nível de acesso que proporcionam está longe de resolver o
problema crônico de estratificação educacional.
O quadro geral, neste início de século, é de, por um lado, melhoria dos
indicadores básicos, devido à melhoria social da família, mudanças estruturais
(urbanização, industrialização, mudanças no mercado de trabalho) e melhor
desempenho do sistema escolar como um todo (Silva e Hasenbalg, 2000; Silva,
2003). Por outro lado, não há indícios de redução da estratificação
educacional, ou seja, do efeito das origens sociais sobre o alcance educacional
dos indivíduos.
Boudon (1974) já havia advertido sobre a controversa relação entre expansão
escolar e estratificação educacional, apontando que a primeira não leva
necessariamente ao arrefecimento da segunda.
PRINCIPAIS ABORDAGENS TEÓRICAS
A Hipótese Meritocrática
A hipótese meritocrática postula que os processos de modernização social -
maior desenvolvimento econômico e institucional, maior urbanização das
sociedades e transição demográfica - são fatores que levam à diminuição do
efeito das origens sociais sobre o alcance educacional do indivíduo (Treiman,
1970; Hauser e Featherman, 1976). O processo de desenvolvimento econômico
ampliaria as oportunidades de educação para toda a sociedade, implicando a
superação das limitações impostas pelas características adscritas, e a
valorização das características adquiridas pelo indivíduo, principalmente
relacionados a educação, ocupação, poder e prestígio (Davis e Moore, 1945;
Lenski, 1966; Parsons, 1970; Treiman, 1970). A educação seria o principal vetor
de mobilidade social, permitindo que indivíduos, independentemente de sua
origem socioeconômica, raça ou sexo, alcançassem melhores posições do que sua
geração anterior. Ou seja, indivíduos com origem em estratos diferentes da
sociedade, homens ou mulheres, pretos ou brancos, teriam chances semelhantes de
ter acesso à educação e, consequentemente, de alcançar boas posições no mercado
de trabalho. Quanto mais moderna e industrializada uma sociedade, mais
oportunidades educacionais ela oferece, mais extensivo é o alcance do siste-ma
e maiores as chances de um indivíduo ascender socialmente através das
habilidades conquistadas por seu alcance educacional, e não mais por critérios
de origens familiares e herança de statussocial (Treiman, 1970). Nesse sentido,
o desenvolvimento econômico, ao promover a universalização da educação, levaria
a um processo de desestratificação da sociedade, equalizando as oportunidades
de mobilidade social e aquisição de status.
Os efeitos deste processo são sintetizados por Treiman (1970) em proposições
básicas, que pressupõem que: (1) a influência direta do statusocupacional do
pai sobre o do filho deve ser mais fraca em sociedades mais industrializadas;
(2) a influência direta da educação sobre o alcance ocupacional deve ser mais
forte em sociedades mais industrializadas; (3) em sociedades mais
industrializadas o statusdospaistem papel menos importante na realização
educacional1.
Embora evidências tenham apontado para uma diminuição da desigualdade
educacional ao longo do século (Hauser e Featherman, 1978), a aplicação
empírica da teoria da modernização e da hipótese meritocrática tem mostrado
resultados contraditórios, que serão discutidos a seguir.
As Teorias Reprodutivistas
Teóricos da reprodução social propõem enxergarmos o processo de expansão
educacional não como mecanismo de universalização de oportunidades, mas, sim,
como um mecanismo de reprodução das relações de dominação entre classes sociais
(Bowles e Gintis, 1976; Bourdieu e Passeron, 1977; Collins, 1979).
Para os autores da teoria da correspondência (Bowles e Gintis, 1976), a escola
deve ser entendida como uma instituição que, ao facilitar a integração de
jovens ao mercado de trabalho, serve como mecanismo de perpetuação das relações
sociais da vida econômica. O processo de escolarização funciona, assim, como
mecanismo de internalização de valores, normas e comportamentos ditados pela
classe dominante.
A teoria da violência simbólica (Bourdieu e Passeron, 1977), por sua vez,
analisa as escolas como um campo social relativamente autônomo, em que a
produção cultural torna-se instância de mediação de componentes que facilitam a
reprodução social. Esta teoria afirma que o sistema educacional assegura a
posição de grupos dominantes, enfatizando a comunicação desigual e o processo
de socialização através do desconhecimento da natureza arbitrária das normas,
resultando num tipo de instituição que mais conserva relações de desigualdades
do que propicia inovações. O sistema privilegia aqueles estudantes equipados
com mais capital cultural - bens e investimentos, materiais ou não,
transmitidos, principalmente, pela família - e elimina progressivamente aqueles
que não possuem o mesmo capital. Este mesmo sistema, através, sobretudo, da
pedagogia escolar - todas as formas de instrução, sejam elas dentro da família,
da escola, ou qualquer outro lugar -, ajuda a naturalizar as desigualdades no
alcance escolar entre indivíduos oriundos de diferentes classes sociais,
baseando-se em diferenças de mérito individuais, demonstradas através de
procedimentos de teste. Falha durante a progressão das séries é atribuída à
inadequação do indivíduo e por ele aceita como destino inexorável, passiva ou
superficialmente contestada através do envolvimento em subculturas
contraescolares. A violência simbólica reside, então, no sucesso da ação
pedagógica que torna relações arbitrárias de poder em autoridade legítima.
Desigualdades oriundas do capital cultural são, assim, a primeira razão para a
persistência da desigualdade social, de forma que a imposição de significados
implica a reprodução da estrutura de distribuição de capital cultural e,
consequentemente, da estrutura social em geral.
A Abordagem da Escolha Racional
Boudon (1974) e, posteriormente, Goldthorpe (1996), levantam críticas às teses
funcionalistas, afirmando que só é possível entender a persistência das
desigualdades no alcance educacional se se levar em conta dois tipos de
efeitos: os primários, que criam diferenciais de classe no alcance inicial e,
então, na "habilidade demonstrada" na escola; e os secundários, que operam por
meio das decisões feitas pelos estudantes e seus pais sobre as opções presentes
quando atingem determinando ponto de transição no ciclo escolar: ficar na
escola ou não? Ter cursos acadêmicos ou vocacionais? Buscar um curso superior?
Assim, o estudante e sua família têm sempre uma possibilidade de escolha, a
qual é tomada com base nos custos e benefícios de cada opção. Se a avaliação de
que a opção de prosseguir até os níveis mais altos nãoé tão favorável assim
para a melhoria do nível de vida, estudantes oriundos das classes mais baixas
optarão por encerrar os estudos mais cedo em busca de mais experiência no
mercado de trabalho. No final, a estratificação do alcance educacional e do
ocupacional resulta da avaliação que as famílias de classes sociais mais baixas
fazem a respeito das opções mais ambiciosas como sendo menos favoráveis,
reforçando os padrões de desigualdade no acesso às posições mais altas do
sistema escolar e da estrutura de ocupações em geral.
Gerber (2000) acredita que o caso da Rússia enquadra-se nesta abordagem. O
balanço entre custo e beneficio feito pelas famílias, tendo como pano de fundo
crises econômicas e institucionais, não propicia uma percepção de redução dos
custos do processo educacional, mesmo com processos de expansão e reformas. O
balanço favorece, outrossim, um menor alcance ocupacional como forma de entrar
mais rapidamente no mercado de trabalho, favorecendo a expansão de um setor
informal cada vez maior no país.
MODELOS ANALÍTICOS
O Modelo de Mobilidade Educacional
Em trabalho pioneiro, Spady (1967) analisou a mobilidade educacional em termos
de probabilidades de se completar transições educacionais nos EUA. Propôs-se a
ver o sistema educacional como um processo de seleção que separa e elimina
estudantes desprovidos de motivações, oportunidades e habilidades adequadas, em
vários pontos do ciclo escolar, nos quais atritos em larga escala afetam as
crianças das classes mais baixas nas primeiras transições do sistema.
Calculando as probabilidades gammapara cada transição encontrou que, embora os
níveis de alcance educacional tenham aumentado para todos os grupos de statusao
longo das coortes, as diferenças entre estudantes de alta e baixa origem social
no que diz respeito ao acesso à educação superior aumentaram. Por outro lado, o
efeito da educação paterna sobre as chances de o filho iniciar e completar o
ensino secundário decresceram ao longo das coortes. Quando a variável raça é
introduzida, o alcance de brancos supera o de não brancos em todos os grupos de
statuse, embora estas diferenças sejam maiores nos níveis mais baixos de
escolaridade, elas são consideráveis também nos níveis mais altos. Assim, ainda
que tenha aumentado a ênfase no treinamento e na educação, que têm como
consequência o enfraquecimento das características atribuídas por meio do
statusfamiliar, este mesmo treinamento pode aumentar a influência da origem
social na diferenciação de status, uma vez que crianças oriundas de famílias
com statusmais alto apresentam vantagens competitivas especiais, derivadas de
seu processo de socialização. Tais capacidades permitem que essas crianças
tenham chances muito maiores de manter, ou mesmo melhorar, o nível de statusem
relação ao de seus pais, em comparação com crianças provenientes de famílias
com statussocial mais baixo.
O Modelo de Seletividade Diferencial
O modelo de seletividade diferencialproposto por Mare (1980, 1981) se vale de
regressões logísticas sobre as chances de um estudante atingir determinadas
transições no ciclo escolar, levando-se em conta a evolução do efeito das
origens sociais ao longo das coortes. Ao contrário dos modelos de regressão
lineares até então utilizados (Blau e Duncan, 1967; Hauser e Featherman, 1976)
- que indicam a estabilidade do efeito das origens sociais ao longo dos anos de
escolaridade completos -, este modelo separa os efeitos marginais das
distribuições e apresenta razões de chance mais confiáveis.
Este modelo mostrou que, nos EUA, as origens sociais influem de maneira
diferenciada em cada uma das transições, cuja direção geral é o enfraquecimento
do efeito das origens ao longo das transições, ou seja, o efeito da origem
social é mais forte nas primeiras transições, para o ensino básico e
secundário. Isto se explica, na mesma direção proposta por Spady, pelo processo
de seleção social que faz com que crianças de classes sociais mais baixas
encarem barreiras seletivas severas nas primeiras transições educacionais, o
que faz com que só os estudantes mais dedicado se motivados provenientes destas
classes consigam progredir até as transições mais elevadas. Quando as taxas de
transição são altas, somente os estudantes menos motivados e dedicados das
classes baixas falharão, e quando as taxas forem baixas, somente os mais
dedicados conseguirão progredir. Nesse sentido, a correlação entre origem
socioeconômica e variáveis intervenientes - como atitudes e motivações,
geralmente não medidas nas pesquisas - que determinam o sucesso educacional é
menor quanto mais alta for a transição, fazendo comque, dessa forma, o efeito
indireto da origem, mediado pela atitude e motivação, seja reduzido ao longo
das transições.
Mare encontrou um padrão constante de efeito ao longo das coortes, ou seja, o
efeito das origens sociais não é diferente entre indivíduos de coortes mais
novas e mais velhas dentro de cada ponto de transição, batendo de frente com os
postulados da teoria da modernização.
A coletânea organizada por Shavit e Blossfeld (1993), propõe uma análise dos
sistemas de estratificação educacionais em treze países, a partir do modelo de
seletividade diferencial2. As evidências desta coletânea apontam que em
praticamente todos se verifica a diminuição do efeito das origens sociais ao
longo das transições e a estabilidade do efeito das origens sociais sobre o
alcance escolar ao longo das coortes. Embora as proporções de estudantes de
todas as classes sociais que atendem a todos os níveis educacionais tenham
aumentado, as vantagens associadas com as origens sociais mais privilegiadas
persistem em quase todos os países. As únicas exceções são a Suécia e a
Holanda, onde houve declínio do efeito das origens sociais por conta de
políticas de equalização de condições socioeconômicas. Os pesquisadores
concluem sobre a aplicabilidade das propostas do modelo de seletividade
diferencial e propõem um padrão universal de entendimento dos sistemas de
estratificação educacional: os sistemas se abrem, passo a passo, da base para
cima, de forma que as coortes vão sucessiva e lentamente avançando dentro da
hierarquia educacional, mas os maiores níveis educacionais permanecem
razoavelmente exclusivos, o que faz com que verdadeiros gargalos sejam criados
na transição para o nível superior, privilegiando o acesso daqueles oriundos de
grupos socioeconomicamente avantajados.
Treiman et alii (2003), analisando 29 países, apontam que, embora em todos
tenha havido uma enorme expansão educacional, os efeitos das origens sociais
permaneceram estáveis em pelo menos vinte países, ao passo quenos outros
verifica-se declínio do efeito da educação do pai, e em outros se verifica
aumento.
Tais modelos foram também aplicados para o Brasil. Silva et alii (1985)
analisaram tendências temporais na estratificação educacional brasileira e
encontraram uma forte estabilidade temporal do efeito das origens sociais,
principalmente da educação paterna, no alcance educacional dos filhos, ao longo
de coortes entre 1912 e 1956. Os autores concluíram que a sociedade brasileira
permaneceu com a mesma estrutura de estratificação educacional nesse período de
40 anos, apesar do reconhecido processo de desenvolvimento e modernização
socioeconômica, contrariando as proposições da tese da modernização.
Silva (2003) analisa o processo de expansão educacional entre 1981 e 1999,
valendo-se de dados das PNADs para estes dois anos, mais o ano de 1990. O
estudo revelou que a transição para a primeira série do ensi-no básico atinge a
quase universalização de acesso e que, em consonância com os achados dos
estudos anteriores, o efeito das variáveis de origem social tende a declinar
progressivamente ao longo das transições, exceto pelas variáveis renda-cujo
efeito aumenta ao longo das transições, refletindo o impacto da ampliação do
ensino privado pago - e raça, cujo efeito também cresce conforme se eleva a
transição. Os resultados indicam o deslocamento da seletividade econômica e
racial para os níveis mais elevados do ciclo escolar. No que concerne às
tendências temporais, estas indicam certa estabilidade no efeito da renda e uma
diminuição gradual do efeito da cor ao longo dos anos, indicando uma tendência
à diminuição das desigualdades de cor na realização escolar ao longo das
coortes.
Fernandes (2005) analisa dados da PNAD 1988, principalmente no que se refere ao
efeito das origens socioeconômicas, da raça e origem urbana nas transições
escolares. Encontra uma redução do efeito da educação dos pais ao longo das
coortes, mesmo padrão apresentado pelo gênero. Contudo, o efeito de raça e
origem urbana apresenta padrão oposto, pois indivíduos com origem urbana tendem
a alcançar maior realização educacional, e raça apresenta um efeito
significante e crescente ao longo das coortes. A autora conclui que o efeito da
origem socioeconômica é forte nos primeiros níveis educacionais e fraco nos
últimos, o que implica que os indivíduos que alcançam níveis educacionais
superiores são mais homogêneos em relação à herança socioeconômica e dependem
mais de habilidades e motivação para prosseguirem na sua realização educacional
do que de suas origens socioeconômicas. O efeito da raça, por outro lado,
indica que as barreiras dentro do sistema educacional são fortes e resistem à
expansão. A pesquisadora conclui que as proposições do modelo de Mare só podem
ser apoiadas parcialmente para o Brasil, pois, embora a maioria das variáveis
de origem apresente efeito decrescente da primeira à última transição (12 anos
ou mais de escolaridade), tal proposta, que diz que a diminuição dos efeitos de
origem ao longo das transições se explica pela diminuição na heterogeneidade de
origens sociais, não nos diz por que o efeito da raça é tão alto nas últimas
transições.
Por fim, Torche (2010), analisando dados da Pesquisa de Padrões de Vida 1996/
1997, mostra que houve um aumento das desigualdades de acesso às transições
para se completar o ensino médio e entrar para a universidade ao longo das
coortes no Brasil e em outros países da América Latina. Aponta que o processo
de expansão educacional no Brasil pode ser comparado ao de outros países como a
Rússia, onde o agigantamento da educação básica, e até mesmo do ensino médio,
que propiciou mais alcance educacional a todas as classes, não é acompanhado
pelo ensino superior, criando-se um verdadeiro gargalo nessa transição,
aumentando, assim, a competição por um número escasso de posições
privilegiadas.
A Abordagem do Curso de Vida
Em estudo sobre países europeus, Muller e Karle (1993) mostram que todos
apresentam o mesmo padrão nas taxas de transição, sendo o efeito das origens
sociais mais alto na primeira transição, para o ensino básico, tornando-se
menor à medida que avançam as transições. A principal explicação para esse
efeito, segundo estes pesquisadores, não reside na maior seleção social nas
primeiras transições, mas recai sobre as mudanças nas relações entre estudantes
e seus pais. Ao passar das transições, e à medida que os estudantes se tornam
mais velhos, eles ficam menos dependentes dos pais socioeconomicamente, o que,
portanto, define que o efeito das origens deve ser gradativamente menor ao
longo das transições.
A Hipótese MMI
Tendo como referências o modelo analítico da seletividade diferencial e a
abordagem da escolha racional, Raftery e Hout (1993) propuseram a hipótese da
desigualdade maximamente mantida - maximally maintained inequality (MMI) - a
partir da análise dos efeitos da expansão do sistema de ensino irlandês. Esta
hipótese propõe que a desigualdade de acesso a um determinado nível de ensino
só declinará quando houver saturação do acesso àquele nível por parte dos
estudantes oriundos das classes sociais privilegiadas e, assim, a pressão
desloca-se para as transições subsequentes do sistema escolar.
A hipótese postula que a expansão do sistema educacional não implica
necessariamente a redução das desigualdades sociais, mas, sim, que estas tendem
a permanecer estáveis, ou mesmo a se ampliarem, uma vez que os grupos já em
vantagem aproveitarão melhor as novas posições disponibilizadas. As taxas de
transição e razões de chance entre origens sociais e transições educacionais
permanecem, então, as mesmas para sucessivas coortes, a não ser que elas sejam
forçadas a mudar devido ao aumento das matrículas. Somente quando houver uma
saturação nas chances de determinados grupos em vantagem completarem uma
transição - algo próximo a 100% de acesso - é que os níveis de desigualdade
começam a cair. Segundo os propositores da tese, a MMI pode ser tomada como
parâmetro para estudos comparados de estratificação educacional, pois consegue
captar a dinâmica da expansão e diferenciação dos sistemas educacionais num
número considerável de países.
A coletânea de Shavit e Blossfeld (1993) aponta que a MMI é plausível para
vários dos países estudados, exceto para aqueles onde a queda das desigualdades
ocorreu antes da saturação da educação básica pelos grupos privilegiados
(Suécia e Holanda), ou a saturação do acesso à educação básica ocorreu sem que
necessariamente as desigualdades tivessem sido reduzidas como consequência
(Estados Unidos). Ambos os casos indicam que a MMI não consegue explicar um
modelo universal de redução dos efeitos das origens sociais, no sentido de que
ela não é capaz de prever todas as formas pelas quais a desigualdade no alcance
escolar pode ser realizada.
Sobre sua validade para o caso da expansão escolar brasileira, Silva (2003)
aponta que a quase universalização do acesso à primeira transição, a redução
dos efeitos das variáveis de origens sociais ao longo das transições, e o
consequente deslocamento da seletividade escolar para os níveis mais altos
poderiam ser tomados como indicativos da saturação no nível básico de ensino e
deslocamento das desigualdades nas chances de escolarização para os níveis mais
elevados. Por outro lado, o comportamento do efeito da variável raça, que
aumenta nas transições mais altas, mas diminui ao longo das coortes, e as
declinantes diferenças entre áreas rurais e urbanas, são destoantes e não
permitem aceitar a MMI como totalmente aplicável neste contexto.
A Hipótese EMI
Estudos recentes mostram que o modelo logístico de transições, até então
utilizado por boa parte dos trabalhos sobre estratificação educacional,
apresenta uma limitação relacionada à suposição de que indivíduos progridem ao
longo do sistema educacional numa sequência unilinear (Breen e Jonsson, 2000;
Lucas, 2001). O modelo de seletividade diferencial e a MMI, cujos pressupostos
se baseiam neste modelo, não seriam capazes de perceber os aspectos
qualitativos do processo de estratificação educacional em tempos de expansão.
Em muitos países o sistema educacional divide-se em caminhos alternativos
(tracking) nos quais os indivíduos, diferenciados tanto por suas origens
sociais quanto pelo empenho escolar, podem realizar diferentes probabilidades
de continuação escolar.
Ao ignorar tais aspectos qualitativos, o modelo logit tradicionalmente usado
tende a subestimar o efeito da origem social nas primeiras transições e
superestimar este efeito na transição para a educação superior (Breen e
Jonsson, 2000). Além disso, sofre com um problema de heterogeneidade não
mensurada, que surge como possível explicação para o declínio dos efeitos das
origens sociais ao longo das transições, o que é reconhecido por Mare (1994),
que introduz informações sobre irmãos dos estudantes para tentar corrigir esse
problema3.
Breen e Jonsson (2000) estimam, então, modelos logísticos multinomiais para
estudo do processo de estratificação educacional na Suécia. Controlam pelo
desempenho do estudante, em termos de notas, para minimizar efeitos de seleção
devido à habilidade cognitiva. Mostram que o trackescolhido pelo estudante
influencia a probabilidade de realizar transições subsequentes, e que as
probabilidades de se completar a transição para a educação superior é altamente
correlacionada com o nível educacional dos pais, o que faz com que estudantes
de classes em desvantagem, para completarem esta transição, tenham maior
suporte da escola e de seu próprio desempenho.
Nesta linha de argumentação, Lucas (2001) propõe a hipótese da desigualdade
efetivamente mantida (EMI), que afirma que atores com vantagens socioeconômicas
asseguram para si mesmos e sua família algum grau de vantagem onde quer que
seja possível, seja quantitativa ou qualitativa. Enquanto a MMI sugere que a
competição por um nível de educação que já é universal será zero, a EMI propõe
que mesmo em níveis universalizados existirá competição, a qual ocorrerá pelo
tipo, ou qualidade, da educação alcançada. Uma vez que determinado nível
educacional atinja saturação, em vez de a pressão ser necessariamente deslocada
para o nível superior, como pressupõe a MMI, desigualdades nas chances de
alcance educacional neste nível podem ser substituídas por desigualdades nas
chances de acesso aos caminhos mais seletivos e prestigiados. Filhos de pais em
vantagem socioeconômica serão alocados para posições vantajosas quantitativa e
qualitativamente no sistema escolar.
Analisando dados para o sistema escolar dos EUA, onde a expansão do sistema de
ensino foi feita à baseda diferenciação de tracks, o acadêmico e o vocacional,
no ensino secundário e superior, Lucas mostra a plausibilidade dessas
proposições, indicando que estudantes provenientes de classes sociais mais
altas, mesmo que muitas vezes apenas medianos em termos de habilidades,
apresentam mais chances de serem alocados para o caminho com mais prestígio
(trackacadêmico) do que um estudante dedicado proveniente de classes mais
baixas, o qual tem grandes chances de ser alocado para um community college,
caminho com menor prestígio. Este último caminho é atrativo para crianças
oriundas de famílias mais modestas, uma vez que fornece habilidades básicas que
facilitam o acesso mais rápido ao mercado de trabalho, mesmo que apenas para
ocupações de baixo statussocial. Os achados indicam ainda que a origem social
(educação dos pais e renda familiar), além do número de irmãos, importam mais
para a transição ao ensino superior que para se completar o ensino secundário,
o que, segundo o autor, joga por terra um dos principais pressupostos da
abordagemdocursodevida-de que o feito diminui ao longo das transições dada a
menor dependência dos estudantes em relação a seus pais à medida que estes vão
ficando mais velhos -, mas está de acordo com o pressuposto da MMI do
deslocamento da seleção social para os níveis mais altos à medida que os mais
baixos vão atingindo saturação. A expansão do ensino secundário e superior no
país não implicou, assim, a redução de desigualdades e o fim da competição,
como prevê a MMI, mas, sim, deixou mais claro que o ensino secundário é um
importante espaço de competição, no qual a origem social importa muito.
Ayalon e Shavit (2004) estimaram modelos multinomiais para a realização escolar
em Israel. Mostram que a elegibilidade para o trackacadêmico está
correlacionada com etnicidade e classe social, de forma favorável a judeus de
origens étnicas europeias, membros das classes sociais mais altas. Encontraram
que o efeito das origens sociais sobre o alcance educacional passa a declinar
ao longo das coortes, mesmo antes da saturação. Contudo, os que mais se
beneficiaram foram os grupos étnicos mais privilegiados, que asseguram mais
chances de admissão por uma universidade de prestígio. A expansão mediante a
diferenciação cria uma situação em que a educação se torna, sim, mais
acessível, mas também vem acompanhada do fato de que os grupos mais fortes
retêm hegemonia sobre o trackacadêmico, cujo retorno no mercado de trabalho é
maior do que o trackvocacional. A disponibilidade de educação vocacional
habilitou o sistema a absorver grupos em desvantagem no nível secundário sem
perturbar os interesses sociais de grupos em vantagem na estratificação
educacional.
A expansão do ensino pós-secundário nos EUA também pode ser entendida sob essa
mesma perspectiva. Achados de vários trabalhos indicam que o aumento das taxas
de matrícula de minorias na educação superior foi maior que as de brancos, mas
que, por outro lado, estas minorias étnicas estão sobrer representadas em
programas de dois anos e community colleges, enquanto o acesso às melhores
universidades é maior entre brancos (Ayalon et alii, 2001; Karen, 2002).
Hout (2006) compara a estratificação educacional em 25 países participantes do
International Social Survey Programme (ISSP) em 1999, entre eles o Brasil, a
fim de verificar a pertinência das hipóteses MMI e EMI. Mostra que a MMI
encontra suporte nas economias de mercado, mesmo naquelas em desenvolvimento,
como o Brasil, uma vez que o efeito das variáveis de origem social incluídas
nos modelos cai à medida que estes países atingem saturação nos níveis básicos
de educação. Por outro lado, a MMI não se aplica a sociedades que fizeram parte
do bloco socialista, pois entre estas o efeito da origem social sobre o alcance
educacional diminui com as coortes sem que tenha havido saturação dos níveis
básicos quando o efeito começou a diminuir e, assim, o resultado não é
consistente com a MMI, mas plausível para a EMI. Para o autor, isso é explicado
pela capacidade de os governos socialistas, antes de 1991, diminuírem
desigualdades entre classes sociais.
A Hipótese da Transformação Socialista
Pesquisas em países participantes socialistas, todavia, apontam o outro lado
dessa questão. Szelenyi e Aschaffenberg (1993), para a Hungria, Wong (1998),
para a Tchecoslováquia, Heyns e Bialeck (1993), para a Polônia, Zhou et alii
(1998), para a China, e Gerber (2000), para a Rússia, indicam a persistência,
ou mesmo o recrudescimento, das desigualdades sociais, embora seja fato que
oportunidades educacionais para as classes mais baixas foram expandidas com o
estabelecimento do regime socialista. A hipótese da transformação
socialistaargumenta que o efeito das origens sociais reemerge posteriormente a
um período de declínio e relativa equalização das oportunidades educacionais,
dado que o socialismo gera uma nova classe de burocratas similar às classes
dominantes em economias capitalistas, e que usa políticas de Estado para obter
privilégios para eles mesmos e suas famílias. As novas elites estabelecem seus
privilégios e ganham controle sobre o sistema escolar, assegurando vantagens
para seus próprios filhos.
Como aponta Gerber (2000), a Rússia apresenta uma das histórias de maior
sucesso entre países do bloco comunista. Em 1989, 94% da população urbana e 84%
da população rural haviam completado pelo menos o nível secundário. Criou-se,
aí, um gargalo, dado que o ensino superior não se expandiu na mesma proporção
que os anteriores, e, assim, a pressão por acesso foi deslocada para este
nível. As ações não foram capazes de promover a equalização geral das
oportunidades, persistindo o efeito das origens sociais e mesmo do lugar de
residência (Gerber e Hout, 1995). Crises econômicas e caos político desde o
esfacelamento do regime socialista tiveram forte impacto negativo no sistema
educacional, cuja proporção da retração não encontra similar no início dos anos
90. Como consequência, houve um aumento ainda mais significativo da magnitude
das desigualdades de acesso ao nível superior. As evidências do efeito das
origens sociais derivadas da formação de uma classe burocrática são ainda mais
destacadas. Gerber (2000) mostra que, além das variáveis clássicas de origem
socioeconômica, o fato de um dos pais ter pertencido ao Partido Comunista
exerce uma enorme influência sobre as oportunidades educacionais dos filhos em
coortes mais jovens, aumentando o alcance escolar. De acordo com Treiman et
alii (2003), a reprodução educacional apresenta-se atualmente muito forte entre
nações antes pertencentes ao bloco comunista, maior até do que em várias
economias de mercado.
HIPÓTESES
São três as principais hipóteses a serem testadas nas análises:
Hipótese 1: Baseando-se na literatura sobre os modelos de transição, testa-se
que o efeito das origens sociais não diminui ao longo das coortes - no caso
deste trabalho, ao longo da década -, ao contrário do que proporia a teoria da
modernização;
Hipótese 2: Baseando-se na hipótese da desigualdade maximamente mantida,será
testada a suposição de que o efeito das origens sociais é maior na transição
para o ensino superior que na transição para a conclusão do ensino médio;
Hipótese 3: Tendo como referência a hipótese da desigualdade efetivamente
mantida, testa-se que grupos sociais com vantagens socioeconômicas e de capital
cultural procuram resguardar para seus filhos o tipo de ensino mais prestigiado
e que traduz mais vantagens futuras.
METODOLOGIA DE ANÁLISE
Fontes de Dados
Os dados são provenientes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(PNAD), realizada pelo IBGE. A pesquisa entrevista indivíduos em todo o país,
baseando-se numa amostra de domicílios estratificada por clusters.
O estudo baseia-se em dados das PNADs 2001, 2004 e 2007. A PNAD 2007 é a última
rodada da pesquisa que está disponível para o público acadêmico, e somente a
partir de 2001 a PNAD passou a incluir uma questão sobre a rede de ensino
cursada pelo indivíduo, se pública ou privada.
São utilizadas subamostras para cada ano da pesquisa. O primeiro seleciona
apenas indivíduos cuja condição na família é filho (a), a fim de se poder
estimar o efeito da origem social (pais) sobre o alcance educacional. O segundo
corte refere-se à idade, quando são escolhidos aqueles que estejam entre 17 e
25 anos, dado que 17 é a idade regular para se completar o ensino médio, e 25 é
a idade na qual a maioria dos indivíduos já completou o seu ciclo escolar. As
subamostras resultantes são de 26. 555 indivíduos para 2001 - 15. 570 para a
transição 1, e 10. 985 para a transição 2 -, 34. 404 para 2004 - 19. 075 na
transição 1, e 15. 329 na transição 2 - e 36. 293 para 2007 - 19. 344 na
transição 1, e 16. 949 na transição 2.
A interpretação dos coeficientes dos modelos seguirá estratégia sugerida para
amostras estratificadas (Hasenbalg e Silva, 1991; Silva, 2003; Fernandes,
2005). Sugere-se que conclusões feitas a partir deste método de amostragem não
sejam interpretadas da mesma forma que as obtidas a partir de amostras
aleatórias simples, uma vez que estimações feitas a partir de amostras
estratificadas e multiestágio tendem a subestimar o erro padrão. Assim, o tde
studentmaiorque 3éaopção sugerida para se evitar a subestimação do erro.
Variáveis
As variáveis independentes incluídas nos modelos foram inspiradas no trabalho
de Silva (2003), que introduz um modelo com variáveis relacionadas tanto ao
indivíduo quanto ao domicílio e ao contexto regional. Foram acrescentados
termos interativos. Todas as variáveis são descritas a seguir.
Variáveis Dependentes
As variáveis dependentes referem-se às transições escolares:
Transição 1 (t1): dado que iniciou o ensino médio, se o completou ou não; a
variável é codificada em 0 para os que abandonaram este ciclo antes de terminá-
lo (referência), em 1 para os que o completaram em escola pública, e em 2 para
os que o completaram em escola privada.
Transição 2 (t2): dado que completou o ensino médio, se iniciou educação
superior ou não; codificada em 0 para os que concluíram o ensino médio, mas não
buscaram vaga na educação superior (referência), 1 para os que buscaram vaga em
universidades públicas e 2 para os que buscaram vaga em universidade privada.
T2 (referência: escola pública): esta variável é uma recodificação da anterior,
na qual a referência é agora a escola pública. Permitirá mensurar a diferença
direta entre completar uma transição na escola privada, em relação à escola
pública.
Variáveis Independentes
Idade: variável de controle do fluxo do indivíduo no sistema escolar. Neste
estudo, sua amplitude é dos 17 aos 25 anos. Idade ao quadrado é introduzida
para captar a medida na qual a idade passa a exercer efeito negativo sobre a
escolaridade.
Gênero: tendo em vista o maior alcance educacional feminino, esta variável
dicotômica apresenta homens com valor 0 e mulheres com valor 1.
Raça: codificada em duas variáveis indicadoras, uma para pardos (pardos = 1 e
outros = 0) e outra para brancos (brancos =1 e outros = 0), tendo como
referência a categoria pretos. Embora seja comum agregar pardos e pretos como
não brancos - ver, por exemplo, Silva e Hasenbalg (2000) e Silva (2003) -, será
analisado em que medida estas categorias sociais apresentam chances diferentes
de sucesso nas transições educacionais, sendo, por isso, separadas aqui4.
Educação do chefe: variável que representa o capital cultural da família,
codificada em anos completos de escolaridade do indivíduo caracterizado como
chefe da família. Mensura o impacto deste capital nas possibilidades de um
indivíduo completar determinada transição.
Renda familiar per capita: mede o impacto do capital econômico familiar sobre
as probabilidades de o estudante alcançar alguma das transições. Espera-se que
quanto maior a renda, maior o acesso à educação superior, e, em especial, às
universidades da rede privada; a amplitude da renda familiar é de 0 até 30
salários mínimos, no intuito de se evitar que outliersatrapalhem a análise.
Chefia feminina: assim como utilizada em Lucas (2001) e Silva (2003), é
indicadora de "família quebrada"; espera-se que em familias com chefia feminina
estudantes apresentem menor probabilidade de completar as transições, em
relação a abandonar a escola.
Número de filhos: indica o peso da composição familiar sobre as possibilidades
de alcance educacional, de forma que em famílias com maior número de filhos a
probabilidade de estes completarem as transições são menores. Também funciona
como controle da heterogeneidade não mensurada.
Área: dadas as maiores dificuldades de acesso aos ensinos médio e superior em
áreas rurais, esta variavel foi codificada em duas variáveis indicadoras: uma
para áreas metropolitanas e outra para áreas urbanas não metropolitanas, tendo
áreas rurais como referência.
Região: o Nordeste, por seu menor nível educacional geral, foi definido como
categoria de referência para três variáveis indicadoras: Sudeste, Sul e Norte/
Centro-Oeste.
Termos interativos foram estimados entre a renda familiar ou educação do chefe
e raça, chefia feminina e regiões do país.
Modelos de Análise
Tendo como referência o modelo proposto pela hipótese EMI, as análises deste
trabalho serão baseadas em modelos logísticos multinomiais.
Serão estimados três modelos para cada ano da PNAD: um para a transição 1 e
outro para a transição 2, nos quais os indivíduos que abandonam a escola são
categoria de referência, e o último também para a transição 2, mas com a escola
pública como referência. Temos então um total de nove modelos.
Limitações do Modelo
Levando-se em conta que a PNAD não é um surveyespecializado em estratificação
educacional, variáveis importantes para um estudo completo das transições
educacionais não estão presentes no banco de dados. Os modelos aqui estimados
não permitirão, como o de Lucas (2001), mensurar como o desempenho e o caminho
do estudante até determinada transição influenciam na sua alocação naquela
transição.
O problema de heterogeneidade não mensurada é reduzido dada a presença da
variável relativa ao número de filhos no domicílio, em estratégia similar à
apresentada por Mare (1994) e Lucas (2001).
Estatísticas Descritivas
A Tabela_1 indica a proporção de indivíduos em cada tipo de transição e rede
escolar, para os três anos da pesquisa analisados.

Tendências apresentadas na Tabela_1 indicam a diminuição gradual do número de
estudantes que abandonam a escola sem completar o ensino secundário, a
constância dos que completam esta transição no sistema público e aumento do
número de estudantes que completam o ensino médio no sistema privado. A rede
pública representa a maioria dos que completam esta transição.
Para a transição 2 também se verifica a diminuição gradual do número de
indivíduos que abandonam a escola antes de entrar para a universidade e,
consequentemente, o aumento dos que completam esta transição, tanto na rede
privada quanto na pública. Arede privada abrange a maioria dos que completam
esta transição, evidenciando a superioridade quantitativa da rede privada nesta
transição escolar.
As correlações entre as variáveis envolvidas nos modelos indicam que não há
problemas de colinearidade entre elas que afete a confiabilidade dos modelos5.
Resultados
As tabelas a seguir apresentam os resultados dos modelos estimados.
[/img/revistas/dados/v54n2/a06tab02.jpg]_
Tabela_2_-_Clique_para_ampliar
[/img/revistas/dados/v54n2/a06tab03.jpg]_
Tabela_3_-_Clique_para_ampliar
[/img/revistas/dados/v54n2/a06tab04.jpg]_
Tabela_4_-_Clique_para_ampliar
Destaca-se, em primeiro lugar, o ajuste dos modelos. O qui-quadrado (χ2) é o
mecanismo utilizado. Os modelos apresentam 28 graus de liberdade. Assim,
comparando-se o qui-quadrado dos modelos com o qui-quadrado de referência a 28
graus de liberdade (41, 337), todos os modelos estimados apresentam qui-
quadrados muito superiores ao de referência, mostrando-se assim bem ajustados.
Opseudo R2 (Cox e Snell) indica que as variáveis incluídas explicam de 24% a
27%, em 2001, 29% a 41%, em 2004, e 26% a 37%, em 2007, da variância6.
Comparando-se com o R2 de 27% encontrado por Ayalon e Shavit (2004) para o caso
israelense, verifica-se que os modelos explicam proporção semelhante a modelos
para outros contextos.
Nas tabelas seguintes, os coeficientes indicam a razão de chance (Expβ
) de um indivíduo, com determinada característica, completar a transição na
rede pública, ou privada, em relação aos que abandonaram a escola sem completar
a transição7. A probabilidade final é dada por: (Exp
β-1) *100. A coluna 5 diz respeito ao modelo que tem como referência a escola
pública. A coluna que indica a relação entre abandonar a escola e a escola
pública neste modelo foi suprimida, já que ela também repetiria acoluna 3.
Os coeficientes com significância estatística (t> 3) são indicados por um
asterisco. Os termos interativos, estimados separadamente, foram incluídos
nestas tabelas para aproveitamento de espaço.
A idade, como esperado, apresenta efeito positivo - e a idade ao quadrado,
negativo, o que indica que, quanto mais velho (a) o (a) estudante, entre 17 e
25 anos, maiores as chances de ter completado as transições.
O coeficiente da variável sexo é significante e positivo em todas as transições
e anos. Mulheres apresentam mais chances de completar a educação secundária e
entrar na universidade, tanto na rede privada quanto na pública, do que homens,
em relação a não completar esta transição. Essa probabilidade, todavia, é maior
em escolas privadas do que públicas. Ao longo da década, verifica-se um aumento
dessa probabilidade em escolas privadas na transição 1, e uma diminuição
progressiva na transição 2. Para as escolas públicas observa-se certa
constância do efeito. Em relação às diferenças de efeito entre as transições,
verifica-se diminuição na rede pública e aumento na rede privada, o que indica
que há diminuição do efeito de gênero na transição para a educação superior em
relação à educação secundária na rede pública, mas o contrário é válido para a
rede privada. No que concerne à probabilidade de se completar a transição 2
numa escola privada em relação a uma pública (última coluna), verifica-se que o
efeito do sexo é mais importante nas escolas privadas, rede em que mulheres
tendem a completar a transição para o ensino superior com maior vantagem,
embora esta esteja diminuindo ao longo da década. Escolas públicas, em geral,
são mais igualitárias, ou menos desiguais, no que concerne às relações de
gênero.
As variáveis indicadoras de raça, por sua vez, mostram que pardos apresentam
vantagens significativas, em relação aos pretos, de acesso ao ensino superior,
em 2004 e 2007. Em 2004, essa vantagem é maior na transição para a escola
privada, e em 2007 para a rede pública. No entanto, em ambas as redes essa
probabilidade declina da casa dos 50% para próximo de 30% no último ano da
pesquisa. Não há diferença significativa entre pardos e pretos no que diz
respeito a completar a transição 2 na rede particular em relação à rede
pública.
Há vantagens de brancos na probabilidade de completar as duas transições, em
todos os anos, em relação aos negros. No geral, o efeito é muito maior na rede
privada do que na pública, em relação a abandonar a escola. Para a transição 1,
o efeito declina ao longo dos anos para a rede pública, o que, junto com a
ausência de diferenças entre pardos e pretos, pode ser indicativo da diminuição
de desigualdades de raça no acesso e completude da educação secundária na
educação pública. Por outro lado, o efeito aumenta paulatinamente na rede
privada, indicando o recrudescimento de desigualdades raciais nesta rede de
ensino ao longo da década, em relação àqueles que não completaram a transição.
Para a transição 2, verifica-se certa constância do efeito ao longo da década
que, todavia, varia entre 90% e 100% de vantagem dos brancos em relaçãoaos
negros. Mais uma vez, o efeito é maior na rede privada. A diferença entre as
transições aponta para o aumento da desigualdade na entrada para a
universidade. Brancos, em relação a negros, não apresentam mais probabilidade
de acesso à rede particular do que em relação à rede pública neste nível,
indicando que os fatores de diferenciação no acesso às diferentes redes de
ensino superior são outros.
A educação do chefe apresenta efeito significativo positivo em todos os
caminhos analisados: cada ano a mais de escolaridade do chefe da família
implica progressivamente maiores chances de se completar o ensino secundário e
de se acessar o ensino superior, tanto na rede pública quanto privada, em
relação a abandonar o sistema escolar. Na transição 1 o efeito para a rede
privada é crescente e torna-se maior que para a rede pública, ou seja, a
educação do chefe é mais forte para se completar a transição na escola privada
que na pública. Na transição 2 o efeito é semelhante. Na diferença entre as
transições, percebe-se que o efeito na segunda é maior que na primeira,
permitindo aceitar a hipótese MMI para o caso brasileiro, no que concerne à
educação do chefe. Ao longo da década, o efeito da educação do chefe declina um
pouco para a rede pública na transição 1 - também sinal de redução de
desigualdades pela influência da transmissão de capital cultural -, mas aumenta
consideravelmente na rede privada, reforçando desigualdades construídas pela
transmissão de capital cultural. Na transição 2 encontramos o mesmo padrão que
na transição 1. No que concerne às chances de se completar a transição 2 na
escola privada em relação a completar na rede pública, a educação do chefe
também tende a não importar, apesar de em 2007 ser significativa (2, 4%).
A renda familiar, por sua vez, independentemente do clima educacional do
domicílio, apresenta efeito significativo em praticamente todos os caminhos,
exceto para a rede públicana transição 1, em todos os anos analisados. Assim, o
aumento da educação familiar não faz diferença para se completar o ensino
secundário numa escola pública, em relação a não completá-lo. Para arede
privada, por outro lado, o efeito da renda é crescente, indo de 7, 4%, em 2001,
a 51, 5%, em 2007. Na transição 2 há efeito da renda para se entrar numa
universidade pública, efeito também crescente ao longo da década, o que indica
aumento das dificuldades para estudantes pobres ingressarem nesta rede de
ensino. Todavia, o efeito é ainda maior na rede privada, e também crescente ao
longo da década, confirmando a importância da renda para acesso à educação
superior paga. Verifica-se, por fim, que a renda é mais importante para se ter
acesso à rede privada, em relação à rede pública (coluna 5).
A variável chefia feminina tem, em geral, efeito negativo sobre as chances de
se completar as transições - só não há efeito na transição 1 para a rede
pública em 2001. Comparando-se o efeito nas duas transições, verifica-se que
ele aumenta na escola pública, indicando o peso de uma família quebrada sobre
as possibilidades de se ter acesso a uma boa universidade pública, e diminui na
privada, abrindo espaço para outros fatores determinantes. Esse padrão para a
rede privada condiz com os achados de Lucas (2001) para os EUA. Ao longo da
década observa-se aumento do efeito dessa variável nas chances de se completar
as transições na rede privada, enquanto na pública esse efeito tende a ser
constante. No que diz respeito às chances de acesso à rede privada, em relação
à pública, não há efeito significativo.
O número de filhos (as) no domicilio também apresenta efeito negativo: cada
filho (a) a mais representa decréscimo nas chances de se completar uma
transição, em relação a abandonar a escola, seja na rede privada ou pública,
para todos os anos pesquisados, comprovando-se o efeito da composição
domiciliar sobre as chances de alcance educacional dos indivíduos (Silva,
2003). Na transição 1, ao longo da década o efeito se torna maior na rede
privada-com aumento gradativo -que na pública - com declínio gradativo -,
enquanto na transição 2 o efeito é constantemente maior para a rede privada. A
tendência geral é de declínio do efeito, em ambas as redes, ao longo da década.
Há diferenças significativas de probabilidade de se ter acesso à rede privada
em relação à rede pública, a qual cai de 18% para 10% a menos de chances de
acesso a cada filho a mais.
Áreas urbanas e metropolitanas apresentam efeito positivo para 2004 e 2007 -
exceto para a rede pública na transição 2 -, mas não em 2001. Tanto para a
transição 1 quanto para a 2 o efeito é maior para a rede privada que para a
pública, dada a maior disponibilidade de serviços educacionais de níveis
secundário e superior em áreas urbanas e me-tropolitanas. Há redução do efeito
ao longo das transições para a rede privada, e há diferenças significativas
entre a probabilidade de se acessar o ensino superior na rede privada em
relação à pública, em áreas urbanas ou metropolitanas, em referência a uma área
rural, diferenças que também apresentam tendência de diminuição ao longo da
década, provavelmente devido à extensão do ensino pago a distância para
pequenas localidades urbanas e áreas rurais próximas nos últimos anos.
No que toca às diferenças regionais, evidencia-se desigualdades acentuadas,
principalmente das regiões Sudeste e Sul em relação a Nordeste. O padrão é de
crescimento das desigualdades nas possibilidades de se completar as transições,
tanto em rede pública quanto em privada, ao longo da década. As diferenças são
maiores na transição 1 e na rede privada. As chances de acesso à rede privada,
em relação à rede pública, são positivas em todas as regiões em referência ao
Nordeste.
A análise dos termos interativos, por sua vez, indica que o aumento da renda
para brancos, em relação ao aumento para pretos, tem, em geral, efeito
negativo, ou seja, o aumento da renda tem maior efeito para pretos completarem
uma transição do que para brancos. Isso é mais acentuado na rede privada, em
ambas as transições. Na rede pública não há efeito significativo. Há efeito
crescente ao longo da década na rede privada, indicando aumento das chances de
se completar a transição para indivíduos de cor preta com maior renda. O
aumento da renda para brancos, em relação ao aumento para pretos, não tem
efeito significativo no que concerne ao completar a transição 2 na rede privada
em referência à rede pública. A interação cor e educação do chefe não apresenta
efeito significativo. Também aquelas para pardos (educação do chefe e renda)
não apresentam efeito significativo.
O efeito das interações da chefia feminina e a renda familiar é, em geral,
positivo - exceto para a rede pública na transição 1, que não apresenta efeito
-, o que quer dizer que o aumento da renda possui maior efeito para domicílios
que não têm chefia feminina, elevando as chances de se concluir as transições
para estudantes nestes domicílios em relação aos que têm chefia feminina.
Os termos interativos para regiões indicam que o aumento da educação do chefe
no Sudeste e no Sul, em relação ao Nordeste, apresenta efeito negativo, ouseja,
o incremento na educação do chefe implica que indivíduos tenham maior chance de
completar as transições no Nordeste que nestas regiões. O efeito do aumento da
educação do chefe nas chances de se completar a transição na rede privada, em
relação à pública, também é negativo, ou seja, o aumento da escolaridade do
chefe é mais importante para se completar as transições na rede pública do que
na privada, no Nordeste em comparação com Sudeste ou Sul.
A interação das regiões com a renda familiar apresenta tendência parecida: o
aumento da renda familiar é mais importante para se completar as transições no
Nordeste do que nas outras regiões.
DISCUSSÃO
Este estudo propõe uma discussão da estratificação educacional no Brasil, na
primeira década do século XXI. Tendo como referência várias abordagens teóricas
e modelos analíticos que têm desvelado a reprodução das desigualdades sociais
por meio da educação ao redor do mundo, propôs-se analisar a influência das
origens sociais nas transições educacionais dos estudantes brasileiros para
conclusão do ensino médio e acesso ao ensino superior, a partir de modelos que
permitissem entender o efeito das origens sociais, assim como de variáveis
familiares e espaciais, no alcance educacional de estudantes nos níveis
secundário e terciário, na rede pública e privada.
Os resultados indicam, em geral, um quadro de alta desigualdade nas chances de
se completar as transições educacionais, tanto na rede pública quanto na rede
privada. As variáveis que representam a organização familiar mostram que
famílias "quebradas" e aquelas com grande prole, prejudicam o desempenho dos
estudantes. Ser membro de uma família quebrada, durante o ensino secundário,
diminui drasticamente as chances de se completar essa transição e,
consequentemente, de entrar para a universidade.
Diferenças relacionadas ao nível de urbanização indicam que, embora existam
desigualdades consideráveis de acesso a serviços de ensino secundário e
superior, com vantagem para áreas urbanas e metropolitanas, há diminuição desse
efeito no final da década. Aexpansão dos cursos não presenciais a distância
podem estar ajudando neste processo.
Encontrou-se também a permanência das desigualdades regionais, as quais
implicam desvantagem de estudantes nordestinos nas possibilidades de se
completar as transições analisadas, independente da renda e do nível
educacional familiares. Aumentos da renda e da educação familiares são, então,
mais importantes para estudantes do Nordeste que das outras regiões em geral.
No que concerne às origens sociais, é possível verificar que a hipótese 1 não
pode ser rejeitada, ou seja, que o efeito das origens sociais não
necessariamente diminui ao longo das coortes, contrariando o que foi proposto
pela teoria da modernização. Embora o efeito da educação do chefe diminua
levemente nas transições para a escola pública, ele aumenta ou é constante nas
transições na rede privada. Na comparação direta entre as redes pública e
privada (coluna 5), também se verifica aumento do efeito da educação do chefe
na rede privada. O efeito da renda, por sua vez, aumenta marcadamente em todas
as transições no período estudado, inclusive na rede privada em relação à rede
pública.
Resultados relativos à desigualdade racial também não permitem aceitar a
hipótese meritocrática para este contexto. Primeiro, mostram que pardos detêm
vantagens em relação aos pretos para acesso à educação superior, seja na rede
pública, seja na rede privada. As desigualdades entre brancos e pretos, por sua
vez, são enormes, embora apresentem leve declínio ao longo da década. A
expansão de políticas públicas que visam à diminuição da desigualdade racial no
sistema escolar - como o REUNI e os sistemas de cotas e bônus implantados por
várias universidades públicas - podem estar ajudando no declínio das
desigualdades nessas transições. Mas a possibilidade de se completar o ensino
médio numa escola privada, pela melhor estrutura escolar que proporciona aos
estudantes, tem sido um dos mecanismos principais que asseguram vantagens na
competição por vagas no curso superior, e é cada vez mais desigual no que diz
respeito à relação entre brancos e pretos: a diferença vai de 50 a 88% num
período de seis anos. Estes resultados corroboram o argumento de Soares e Alves
(2003: 159), que apontam que as diferença entre brancos e pretos "é bem maior
do que as mudanças possíveis pela intervenção de políticas escolares".
Estes resultados, em geral, questionam a validade da hipótese meritocrática.
Como argumenta Hout (2006), desigualdades educacionais são recorrentes em
qualquer lugar do mundo, de forma que estudantes cujos pais são altamente
educados e ricos têm vantagens sobre estudantes cujos pais têm menor nível
educacional e de recursos em qualquer sociedade, seja em países desenvolvidos
ou em desenvolvimento. Dados de Silva (2003) indicam que, apesar da diminuição
do efeito da escolaridade do chefe da família ao longo das coortes, houve
aumento do efeito da renda familiar sobre o alcance educacional entre 1981 e
2006, o que não permitem aceitar a hipótese meritocrática. Fernandes (2005)
também argumenta que a hipótese meritocrática não pode ser completamente aceita
para o caso brasileiro, pois, em seu estudo, raça e origem urbana aumentam seu
efeito. Os processos de industrialização e desenvolvimento econômico não teriam
proporcionado a equalização do alcance educacional. Como argumentam Hout e
DiPrete (2006) e Goldthorpe (1996), há poucos sinais de que o crescimento
econômico, o nível de consumo e a expansão educacional, por si mesmos, tenham
conexão com maior igualdade educacional. E assim, a idéia de que as
desigualdades em todo o mundo declinariam com o tempo, à medida que as
sociedades se modernizassem e os sistemas escolares se tornassem universais,
não se concretizou, comprometendo os fundamentos básicos da teoria.
A hipótese 2 também não pode ser rejeitada. O efeito da renda familiar, de
inexistente na transição 1, torna-se altamente positivo na transição 2 para o
ensino público - embora para a rede privada essa tendência só seja encontrada
para o ano de 2002, havendo, então, diminuição do efeito entre as transições.
Assim como no estudo de Breen e Jonsson (2000) e Lucas (2001), a educação dos
pais importa mais para a transição para o curso superior que para se completar
o ensino secundário. O capital cultural familiar é decisivo no processo de
alcance, de forma que indivíduos oriundos de famílias com maior volume desse
capital tendem a conquistar maior alcance educacional. Nesse sentido, mostra-se
improvável que o efeito das origens socioeconômicas sobre o alcance educacional
diminua mesmo em termos de alto desenvolvimento econômico, já que a
desigualdade de capital é crucial para o processo de estratificação
educacional.
O padrão de expansão educacional brasileiro pode ser então entendido no âmbito
do que Shavit e Blossfeld (1993) entendem como padrão universal de políticas de
expansão educacional: os sistemas se abrem passo a passo, da base para cima.
Coortes vão sucessivamente avançando pequenos passos dentro da hierarquia
educacional. Contudo, os maiores níveis educacionais permanecem razoavelmente
exclusivos. Verdadeiros gargalos são criados na transição para o nível
superior, os quais não acompanham o crescimento dos níveis básicos de ensino, e
acabam privilegiando o acesso daqueles oriundos de grupos socioeconomicamente
bem-sucedidos. Tal padrão é coerente com as proposições da teoriadareprodução
(Bourdieu e Passeron, 1977) - a qual, embora não discuta tendências ao longo
das transições educacionais, mostra que o capital cultural é o mais importante
determinante da persistência da desigualdade escolar -, e com a
desigualdademaximamentemantida (Raftery e Hout, 1993). As proposições da
abordagem do ciclodevida, por sua vez, não encontram respaldo nos dados. Os
resultados também não correspondem aos do modelo de seletividade diferencial
(Mare, 1980, 1981), que apresenta efeito praticamente inexistente das origens
na transição para o ensino superior.
Um processo de permanente racionamento das credenciais mais altas restringe a
quantidade de candidatos às posições de privilégio na hierarquia social,
mantendo e legitimando desigualdades no alcance escolar. O caso brasileiro,
como discutiu Schwartzman (1988), apresenta sérias dificuldades no que diz
respeito à equalização das oportunidades sociais, uma vez que as questões
centrais estabelecidas pela organização da educação no Brasil, em vez de serem
aquelas relacionadas a acesso, equidade, qualidade da educação e
desenvolvimento de pesquisa, são as relacionadas a autonomia, governança e
diferenciação, questões políticas que relegam para segundo plano a diminuição
das desigualdades no alcance escolar.
Por fim, a hipótese 3 só pode ser parcialmente aceita. A hipótese da
desigualdadeefetivamentemantidaaponta a existência de caminhos alternativos,
dentro dos mesmos níveis escolares, pelos quais classes sociais procuram
reforçar suas vantagens na competição pelas posições mais privilegiadas. Os
resultados da renda na transição 1 - ausência de efeito na escola pública e
efeito significativo na rede privada - conformam o padrão da EMI, pois estudar
nesta rede no ensino médio se traduz em grandes vantagens na competição por
vagas nas universidades. Por outro lado, o efeito na transição 2, assim como o
da educação dos pais para ambas as transições, embora seja levemente superior
na rede privada, é altamente significativo para as duas redes. E como argumenta
o propositor da hipótese (Lucas, 2009), a EMI não se preocupa estritamente com
o tamanho do coeficiente de efeito das origens sociais, mas, sim, com a forma
pela qual as origens proporcionam que estudantes assegurem os caminhos mais
valorizados do sistema educacional. No caso da transição para a universidade,
os coeficientes das origens revelam que estratos socioeconômicos mais altos da
população não asseguram necessariamente um caminho específico, mas praticamente
monopolizam o acesso à educação superior, seja na rede pública-a de maior
prestígio e que proporcionará maiores retornos ocupacionais-, seja na privada.
Esta análise aponta um alto grau de desigualdade no acesso à educação superior,
mas que não necessariamente se conforma aos pressupostos da hipótese EMI.
Os resultados apresentados indicam que a rede privada é mais desigual que a
pública. Todavia, embora a escola pública seja mais democrática - o que se
comprova pelos efeitos mais baixos das origens sociais, raça, gênero e região
em relação à rede privada -, o efeito das origens sociais nesta rede é
constante, ou mesmo crescente ao longo do período analisado, apontando uma
tendência de recrudescimento da estratificação educacional na rede pública.
A estabilidade das desigualdades educacionais tem consequências para a
mobilidade social e para a estratificação da sociedade. Silva (1999) aponta
para uma "acentuada estabilidade" nos padrões de mobilidade social no Brasil,
pois, embora possa ser detectado um pequeno aumento na mobilidade total no
Brasil, liderada pelo aumento da mobilidade circular, a estrutura básica da
estratificação da sociedade permanece praticamente inalterada, com grandes
classes isoladas umas das outras. Ribeiro (2003) também aponta que, apesar da
pequena diminuição de desigualdades das condições de vida, verifica-se uma
continuidade das proporções de desigualdades de renda e educação superior na
estrutura de classes, que tem mudado muito lentamente, não havendo nenhuma
grande mudança na estrutura da estratificação social do país nas últimas
décadas.
A transmissão de desigualdades, mediada pela influência das origens sociais nas
possibilidades de alcance educacional, contraria, então, o otimismo das teorias
da modernização e industrialização. O conjunto desses resultados recentes
mostra, em certo sentido, o que Sorokin (1964) já havia percebido há quase um
século: quando desaparece ou diminui o efeito de um mecanismo de reprodução
social, em vez de um processo de equalização tem-se, outrossim, o surgimento ou
intensificação de outro mecanismo que recrudesce as desigualdades sociais.
NOTAS
1. Outras quatro proposições são estabelecidas por Treiman (1970), mas estas
fogem ao escopo deste trabalho, pois dizem respeito à associação entre origem
social, taxas de mobilidade social e renda.
2. Os treze países analisados na coletânea são Alemanha, Inglaterra e País de
Gales, Suíça, Hungria, Polônia, Israel, EUA, Itália, Taiwan, Japão e
Tchecoslováquia, Holanda e Suécia.
3. Cameron e Heckman (1998) sugerem outra solução para a questão da
heterogeneidade, rejeitando o modelo de transições por este não utilizar
variáveis que variem com o tempo. Propõem, então, um modelo de escolha discreta
ordenada com heterocedasticidade multiplicativa, cuja variável dependente volta
a ser anos completos de escolaridade, sendo introduzidas variáveis
independentes que variem com o tempo para melhor interpretar a variação do
efeito das origens ao longo transições.
4. Indivíduos que se autoclassificaram como amarelos e indígenas representam
menos de 1% da amostra, tendo sido, por isso, excluídos da analise.
5. As tabelas com as estatísticas descritivas - incluindo valores mínimo e
máximo, média e desvio-padrão - assim como aquelas com as correlações entre as
variáveis podem ser disponibilizadas pelo autor em caso de interesse.
6. Powers e Xie (2000) não recomendam o uso dos pseudo-R2 oferecidos pelos
pacotes estatísticos para análise do ajuste de modelos logísticos, tais como o
Cox & Snell e o Nagelkerke, pois estes não seriam tão precisos. Recomendam
que se use apenas o qui-quadrado como fonte de análise do ajuste. Entretanto,
optou-se aqui por introduzi-los como referência para se poder comparar os
resultados com os obtidos por outros trabalhos.
7. Razões de chance maiores que 1 indicam efeito positivo, enquanto as menores
que 1 indicam efeito negativo, e as iguais a 1 indicam ausência de efeito.