O contexto internacional e a retomada do debate sobre desenvolvimento no Brasil
contemporâneo (2000/2010)
INTRODUÇÃO
Este artigo pretende avaliar a articulação dos fatores externos e internos que,
na presente década, propiciaram um contexto favorável à retomada do debate
sobre estratégias alternativas de desenvolvimento na América Latina em geral e
no Brasil em particular. No que se refere à primeira ordem de fatores, serão
destacadas as mudanças de natureza econômica e política, focalizando-se
principalmente a forte inflexão no debate acadêmico internacional, bem como o
impacto da crise mundial de 2008-2009 na reconfiguração do capitalismo na
América Latina. Considerando-se os fatores internos, a ênfase se desloca para o
papel das elites governantes nacionais, suas escolhas políticas, apoiadas por
novas coalizões eleitorais, que originaram alternância do poder em vários
países da região. No Brasil, tal alternância verificou-se nas eleições de 2002,
com a ascensão de um governo de centro-esquerda tendo em vista sua posição no
leque multipartidário que caracteriza a política brasileira. Dar-se-á atenção
especial à influência do ambiente intelectual, ao embate entre valores, ideias
e concepções quanto aos novos caminhos abertos ao desenvolvimento capitalista
no Brasil. O exame dos matizes que adquirem as diferentes visões acerca das
estratégias alternativas de desenvolvimento que se apresentam para o país, no
período pós-reformas orientadas para o mercado, constitui, portanto, o cerne da
segunda parte do presente artigo1.
Por último, tomando como ponto de partida o esgotamento da agenda das reformas
estruturais que, no Brasil, adquirem hegemonia na década de 19902, indaga-se
sobre a possibilidade de identificar um núcleo básico de consenso em torno de
um novo modelo de desenvolvimento para o país. Em que medida é possível
identificar novas formulações sobre estratégias desenvolvimentistas adequadas
ao novo contexto do capitalismo globalizado, quais seriam seus aspectos-chave,
seus principais elementos propulsores e, sobretudo, a coalizão que daria
suporte à viabilização de uma nova rota. Eis as perguntas centrais a que se
procura responder.
CAPITALISMO INDUSTRIAL E AS METAMORFOSES DO MODELO NACIONAL-DESENVOLVIMENTISTA,
IDEIAS E PACTOS DE SUSTENTAÇÃO: UMA BREVE REVISÃO HISTÓRICA
As raízes do desenvolvimentismo brasileiro situam-se na chamada Era Vargas
(1930/1945). Nesse período, se deu a transição da economia agroexportadora para
a ordem urbano-industrial. Definiram-se as bases da industrialização por
substituição de importações (ISI), sob a égide de um regime político fortemente
autoritário. O suporte doutrinário-ideológico do capitalismo industrial em
formação expressou a confluência de quatro vertentes: o pensamento autoritário,
a doutrina corporativa, o pensamento industrialista e a concepção do papel de
um Estado forte e intervencionista para viabilizar a ruptura com o modelo
oligárquico da República Velha. Sob a liderança do presidente Vargas,
articulou-se uma nova coalizão de sustentação política, de caráter heterogêneo,
incorporando à estrutura de poder, ao lado das elites tradicionais (ligadas ao
setor agroexportador), os setores urbanos emergentes, notadamente o
empresariado industrial e os trabalhadores urbanos. Mediante sua incorporação
na estrutura corporativa de intermediação de interesses, os novos atores são
inseridos no sistema político de maneira assimétrica. Por um lado, os
empresários industriais preservaram suas associações civis nacionais, criadas
desde os primórdios do processo de industrialização, ao lado da representação
corporativa, dando origem à estrutura dual de representação de interesses. Por
outro lado, aos trabalhadores urbanos impôs-se a integração exclusiva pela via
da estrutura corporativa, observando-se a destruição de suas antigas
organizações legadas pelo movimento anarquista. Integrando a nova arquitetura
político-institucional, ganharam vulto os inúmeros conselhos e comissões
econômicas inseridos no aparato burocrático-estatal. A célebre polêmica entre
Eugênio Gudin e o líder industrial Roberto Simonsen (FIESP-CIESP), no interior
da Comissão de Planejamento Econômico e do Conselho Nacional de Política
Industrial e Comercial, em 1945, simboliza a essência do debate intelectual e
ideológico entre liberais, por um lado, e adeptos do intervencionismo estatal,
por outro3.
O segundo momento desenvolve-se entre 1946 e 1964 e está marcado pela
consolidação do chamado nacional-desenvolvimentismo, que evolui em estreita
conexão com o regime democrático que se instaura no pós-guerra. O suporte
doutrinário-ideológico dessa fase baseia-se nas teorizações da CEPAL(Comissão
Econômica para a América Latina) para o conjunto dos países latino-americanos
e, no caso do Brasil, tem o respaldo do pensamento do ISEB (Instituto Superior
de Estudos Brasileiros). O predomínio da visão nacionalista, ainda que se
admitisse a participação do capital estrangeiro, industrialização, modernização
e intervencionismo estatal combinam-se para produzir um ambiente intelectual
que vê na construção de um país industrial a chave do progresso nacional4.
Articulou-se o chamado pacto nacional-desenvolvimentista, que teve um amplo
suporte social, incluindo as forças políticas de centro-esquerda, os
sindicalistas, os militares nacionalistas, um expressivo segmento do
empresariado industrial e setores da intelectualidade brasileira. À burguesia
nacional atribuiu-se um papel relevante na rede de alianças para o
fortalecimento do capitalismo industrial no país. Segundo a visão então
dominante, a aliança com setores do empresariado industrial nacional seria pré-
requisito para romper a hegemonia das oligarquias agrárias. Nessa fase, o
Brasil experimentou altas taxas de crescimento econômico, cerca de 7% ao ano. O
auge deste processo se deu sob o governo Juscelino Kubitschek (1956-1961), com
a execução do Plano de Metas e o desenvolvimento da indústria automobilística,
carro-chefe do modelo industrial que se implantou. A burocracia estatal, agora
integrada pelos Grupos Executivos, ilhas de excelência criadas para fortalecer
o núcleo tecnocrático do governo, continuou exercendo papel central na execução
da estratégia desenvolvimentista.
Entre 1961 e 1964, sob o impacto da Guerra Fria, no plano externo, da
polarização das forças políticas de esquerda e direita, internamente rompe-se a
coalizão nacional-desenvolvimentista, gerando-se um clima de forte
instabilidade política que culminou com a eclosão do golpe militar de 1964.
Implanta-se o mais longo período autoritário da história política do país.
Tem início o segundo ciclo do desenvolvimentismo (1964-1980), agora sob o
domínio dos governos militares. Pela segunda vez, na história recente do país,
observa-se a associação entre estratégia desenvolvimentista e regime
autoritário. Implanta-se o modelo do tripé que tem por base: a empresa
nacional, a empresa de capital estrangeiro e um forte setor estatal. Articula-
se o pacto autoritário integrado pelos militares com o apoio de diferentes
setores do empresariado, incluindo o segmento industrial representado, entre
outras organizações, pela Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP) e a
Confederação Nacional da Indústria (CNI) (Diniz, 2010). O suporte doutrinário-
ideológico do desenvolvimentismo militarista tem por fundamento as formulações
da Escola Superior de Guerra, a doutrina da Segurança Nacional, com ênfase na
ideologia Brasil Grande Potência, cuja máxima enfatiza o binômio ordem-
crescimento econômico. Tais diretrizes se expressam pelos Planos Nacionais de
Desenvolvimento. Do ponto de vista institucional, observou-se a expansão dos
conselhos econômicos de estilo corporativista no interior do aparelho estatal,
propiciando a diversificação dos canais de interlocução entre o setor público e
o setor privado. O auge desta estratégia foi o Milagre Econômico (1968-1974),
sob o governo do general Médici, quando o país cresceu a uma taxa anual de
10,1% ao ano, tendo a indústria alcançado o ritmo de crescimento de 12,2% ao
ano5. O forte desempenho da economia coexistiria com alta concentração da
renda, forte endividamento externo e altas taxas de inflação. Por outro lado,
entre 1930 e início dos anos 1980, o Brasil havia realizado a construção de um
parque industrial complexo e altamente diversificado, sendo o porte da
industrialização um importante diferencial da economia brasileira em relação
aos demais países latino-americanos. Ademais, entre 1960 e 1980, como salienta
Barros de Castro (1993; 2011), a despeito da persistência da desigualdade na
distribuição de renda, observou-se expressiva redução da incidência da pobreza
no país. Sob tais aspectos, não se pode subestimar o legado da industrialização
substitutiva conduzida pelo Estado desenvolvimentista no Brasil6.
Entre 1975-1980, após as duas crises do petróleo (1973 e 1979) e do colapso do
modelo de Bretton Woods, o modelo nacional-desenvolvimentista entra em
declínio. Observa-se a erosão do pacto autoritário e o esgarçamento da aliança
empresários-governos militares. Paralelamente, observa-se o avanço do movimento
pela restauração da democracia, desencadeia-se, com o apoio dos empresários, a
campanha contra a estatização da economia, ganhando espaço a ideologia
privatista de forte conteúdo antiestatista.
Entre 1985-1989, apoiado por ampla coalizão política, o governo Sarney conclui
a transição para a democracia. Assume o primeiro plano a configuração de uma
agenda marcada por prioridades de natureza política: a elaboração da
Constituição de 1988 e a instauração do Estado de Direito com ênfase nos
direitos políticos e sociais. Evolui-se para um modelo de democracia
competitiva e pluralista com alto grau de liberdade de organização e
funcionamento dos partidos políticos.
Do ponto de vista econômico, entretanto, o governo fracassa em seus dois
principais objetivos: conter a inflação e equacionar o problema da dívida
externa. No que se refere ao modelo de capitalismo, observa-se a sobrevivência
do ideário nacional-desenvolvimentista. Não se formara ainda um consenso acerca
do esgotamento do antigo padrão de desenvolvimento e da necessidade de se
articular um novo pacto em prol de uma estratégia mais afinada com os
parâmetros de uma ordem mundial globalizada.
As décadas de 1980 e 1990 do século passado configuram o que Ricardo
Bielschowsky e Mussi designaram por Era Pós-desenvolvimentista, cuja marca
seria a instabilidade macroeconômica inibidora. Os autores ressaltam as
circunstâncias que tomaram conta do debate brasileiro a partir do início dos
anos oitenta, "quando se inicia a era da instabilidade macroeconômica que
travou o crescimento e inibiu a reflexão sobre desenvolvimento econômico. Em
seu lugar, prosperou a reflexão sobre as restrições ao crescimento"
(Bielschowsky e Mussi, 2005:48). A sessão a seguir ilustra a reversão das
diretrizes dominantes nas etapas anteriores e a introdução de novas prioridades
na agenda pública brasileira.
A DÉCADA DE 1990: GLOBALIZAÇÃO E REDEFINIÇÃO DA AGENDA PÚBLICA
Como ressaltei em outros trabalhos7, os anos 1990 representaram um corte na
trajetória do capitalismo brasileiro, cujo cerne seria a ruptura com o
nacional-desenvolvimentismo. Tal ruptura, iniciada no início dos anos 1990 sob
o governo Collor, radicalizou-se sob a Presidência de Fernando Henrique
Cardoso. Este, sustentado por ampla coalizão de centro-direita, executa uma
drástica redefinição da agenda pública, atribuindo prioridade absoluta ao
binômio estabilização econômica e reformas estruturais. Programas como as
privatizações, a abertura comercial, a liberalização dos fluxos financeiros, a
disciplina fiscal, o refluxo do Estado são alçados ao primeiro plano8.
Inspirando-se na matriz teórica da economia neoclássica e apoiando-se na
hegemonia do neoliberalismo em escala mundial, o governo redireciona o país de
forma a introduzir uma nova ordem centrada no primado do mercado. No que tange
ao controle da inflação, em 1994, na qualidade de ministro da Fazenda do
presidente Itamar Franco, Fernando Henrique, mediante a bem-sucedida execução
do Plano Real, conseguiu neutralizar a alta inflação inercial, que desde os
governos militares fragilizava a economia brasileira. A estabilidade econômica
foi consolidada ao longo de seus dois mandatos presidenciais (1995-2003),
tornando-se um valor incorporado ao ideário político de grande parte da
população, indo além das divisões ideológicas.
Por outro lado, considerando-se o desempenho da economia em seu conjunto, os
resultados foram medíocres: o período teve como característica o estancamento
econômico, baixas taxas de crescimento (média de 2,7 a.a.), alto desemprego,
queda da produção industrial e ampla desnacionalização da economia. No plano
das ideias, predominou a reflexão sobre as restrições ao desenvolvimento,
enfatizando-se, em contrapartida, as metas de disciplina fiscal e saneamento
financeiro. Em consequência, a partir de final dos anos de 1990, surgem claros
indícios de corrosão da coalizão neoliberal, observando-se uma insatisfação
crescente com a incapacidade do governo de gerar o prometido dinamismo da
economia e retomar o caminho do desenvolvimento9.
APRIMEIRA DÉCADA DO NOVO MILÊNIO:O CONTEXTO INTERNACIONAL E OS PRINCIPAIS
PONTOS DE INFLEXÃO
O período 2002-2008 notabilizou-se pelo fortalecimento do pensamento crítico e
pela procura de uma redefinição de rumos no que se refere às prioridades da
agenda pública. Não por acaso, à luz da literatura acadêmica internacional,
este novo momento passou a ser designado como o Pós-Consenso de Washington,
dado o volume dos trabalhos e a notoriedade dos intelectuais que assumiram uma
postura de questionamento da ortodoxia convencional. Ao mesmo tempo, em vários
países latino-americanos, em especial no Brasil, a perspectiva pró-
desenvolvimentista ganha progressivamente espaço e consistência teórico-
metodológica.
Nesta linha de reflexão, no plano internacional, entre os economistas que
assumiram papel de liderança, podemos destacar Ha-Joon Chang. Em seu já famoso
livro, Kicking away the Ladder (2002), traduzido para o português pela editora
Unesp, em 2003, Chang refuta um a um os argumentos, diagnósticos e
recomendações que os países desenvolvidos e as instituições financeiras
internacionais (IFIs) preconizaram, ao longo das décadas de 1980 e 1990, como
fórmula indubitável para a adaptação dos países em desenvolvimento à nova ordem
mundial10. Em trabalhos subsequentes, Chang retoma a crítica à perspectiva
ortodoxa e à sua suposta eficácia como saída para os problemas experimentados
pelos países menos desenvolvidos da América Latina e da África, em contraste
com a estratégia independente adotada pelos países asiáticos dinâmicos, que não
se submeteram ao receituário neoliberal11.
No período acima referido, o pensamento hegemônico consagraria a estratégia
neoliberal como via por excelência para se alcançar a modernidade e superar a
crise econômico-financeira que atingira, com particular intensidade, os países
da periferia do mundo capitalista. Estes sofreriam uma grande pressão para
aderir às novas prioridades da agenda pública e para adotar uma série de "boas
políticas" e "boas instituições" destinadas a promover o desenvolvimento
econômico. Segundo essa óptica, "boas" seriam as políticas prescritas pelo
chamado Consenso de Washington (Williamson, 1990), figurando, entre elas, as
políticas macroeconômicas restritivas, a liberalização comercial e financeira,
a privatização e a desregulamentação. Já as "boas instituições", nas palavras
de Chang, seriam aquelas inspiradas no modelo anglo-saxão, tais como uma
burocracia moderna, obedecendo ao padrão gerencial, "uma governança empresarial
transparente e orientada para o mercado, assim como um banco central
politicamente independente" (Chang, 2003:12). Analisando, a partir de uma
perspectiva histórica, as estratégias de desenvolvimento adotadas pelos países
avançados, o autor conclui que estes não seriam o que são hoje se tivessem
adotado as políticas e as instituições que recomendam agora às nações em
desenvolvimento. Por outro lado, os países que aplicaram o receituário indicado
pelo saber dominante não alcançaram os resultados propalados (Chang, 2003:230).
Cabe notar que, nos primeiros anos do novo milênio, este tipo de crítica não
surge como voz isolada. Ao contrário, o debate internacional enriqueceu-se
substancialmente com novas contribuições, ao longo dos últimos dez anos. A era
das chamadas reformas orientadas para o mercado deixou de ser considerada
inquestionável e a reflexão internacional alcançou um novo patamar, abandonando
a uniformidade anterior e abrindo-se ao confronto de ideias e paradigmas. A
agenda que se tornara hegemônica nos anos 1990 passou a ser objeto de crítica
acirrada e consistente, transcendendo os limites doutrinários e ideológicos do
pensamento de esquerda para alcançar projeção internacional através de uma
produção volumosa de artigos e livros de autores de diferentes tendências,
incluindo alguns intelectuais ligados ao mainstream econômico12. Crítica
similar já vinha sendo feita por intelectuais, políticos, sindicalistas e
movimentos sociais dos países submetidos ao receituário neoliberal nos anos
1980 e 1990. Porém agora o questionamento ganha maior visibilidade política e
ideológica. Teóricos de grande projeção internacional, ligados aos principais
centros de produção mundial do conhecimento, como, entre outras, as
universidades de Colúmbia, Cambridge e Harvard, colocam em xeque a visão da
eficácia do mercado na alocação de recursos e na promoção do bem-estar coletivo
dos países laboratórios das experiências neoliberais.
Este foi o caso de Joseph Stiglitz, economista-chefe e vice-presidente sênior
do Banco Mundial (1997-2000), cujas conferências pronunciadas entre 1998 e 2000
foram compiladas por Chang em livro publicado em 2001, Joseph Stiglitz and the
World Bank. The Rebel Within,destacan-do-se, além do tom crítico em relação à
ortodoxia convencional, a ideia de que se há um consenso atualmente sobre que
estratégias seriam as mais favoráveis para promover o desenvolvimento dos
países mais pobres, é que não há consenso, exceto quanto à conclusão de que o
Consenso de Washington não tem a resposta13.
Em outras palavras, não existe apenas um caminho e, por mais estreitas que
sejam as margens de manobra, há sempre espaço para a criatividade na busca de
alternativas próprias. Aos países em desenvolvimento cabe a responsabilidade de
realizar suas escolhas, consultando seus interesses e respeitando suas
especificidades históricas e culturais.
No âmbito deste debate, o livro de Stiglitz, Globalization and its Discontents,
publicado nos Estados Unidos em 2002, foi também um fato marcante. Nele, o
autor faz uma contundente crítica da forma de atuação das agências
multilaterais na propagação das receitas liberais - ao longo das décadas de
1980 e 1990 - e da incorporação passiva deste receituário por parte de inúmeros
países em desenvolvimento, destacando as consequências desastrosas de grande
parte de tais experiências14.
Segundo esta diretriz, é exatamente o reconhecimento do teor multidimensional
do processo de globalização, incluindo seus aspectos políticos, bem como a
rejeição da visão determinista, economicista e idealizada predominante no
passado recente, o que caracteriza a atual geração de interpretações sobre a
globalização e seus impactos nas economias periféricas. Não menos relevantes
são os aspectos ligados à geopolítica internacional e à governança global. Em
contraposição, ao omitir, em nome de um conceito naturalizado de
interdependência, a autonomia da dimensão política, os enfoques hegemônicos nas
décadas de 80 e 90 do século passado trataram políticas de teor contraditório
em seus efeitos, tais como a liberalização comercial e financeira, como
aspectos consensuais de uma agenda supostamente inquestionável. Em seu livro
mais recente, Stiglitz retoma o argumento dos efeitos perversos da falta de
regulação dos mercados, ao analisar os impactos da crise mundial de 2008
(Stiglitz, 2010).
A primeira década do novo milênio apresenta-se, portanto, como um divisor de
águas, produzindo um ambiente marcado pela controvérsia e pelo debate. Nesse
sentido, comporta o conflito de paradigmas, em detrimento da aparente calmaria
de certezas inabaláveis mais afinadas com o mundo dos dogmas do que com o
terreno mais flexível e aberto à dúvida, característica da produção científica.
Desta forma, o dissenso assume o primeiro plano e sobrepõe-se à platitude de
ideias e convicções das décadas anteriores. É neste sentido que se pode falar
no advento de uma fissura na comunidade epistêmica internacional, rede
transnacional de conexões, envolvendo atores externos e internos, entre os
quais se destacam elites econômicas, tecnocráticas, intelectuais e acadêmicas,
que desempenham papel decisivo na difusão de conhecimentos em diferentes áreas
do saber (Haas, 1997). Estamos, portanto, diante de um momento propício à
reflexão e à busca de novas formulações. Neste contexto, não deve ser motivo de
estranhamento que se tenha estabelecido, entre os países emergentes, o
acirramento do debate em torno de estratégias nacionais de desenvolvimento e de
formas alternativas de inserção na ordem global. A interlocução acadêmica
alcança maior alcance e profundidade, assumindo novos matizes e, sobretudo,
maior força política15.
Em segundo lugar, para além da dimensão intelectual, as condições histórico-
políticas revelaram-se igualmente favoráveis a posturas menos ortodoxas e mais
receptivas à inovação. A partir do início do novo milênio, o cenário político
latino-americano mudou substancialmente mediante um movimento de inflexão à
esquerda por via eleitoral. Este fato, que fazia parte da experiência europeia
desde fins do século XIX, constituía um dado novo nos marcos de um continente
pouco afeito ao princípio da alternância do poder, caracterizado que foi por um
processo histórico de instabilidade política e de recurso à intervenção militar
para enfrentar eventuais crises de governabilidade. A ascensão de governos de
esquerda e de centro-esquerda em países como Brasil, Argentina, Venezuela,
Bolívia, Uruguai e Chile, não foi fruto do acaso, senão que o reflexo da
frustração generalizada diante dos fracos resultados da execução da agenda
neoliberal. A despeito de sua heterogeneidade e de suas especificidades
históricas e culturais, a emergência de tais governos expressou uma aspiração
por mudança em busca de estratégias menos excludentes e mais igualitárias.
Embora a grande imprensa, e mesmo diversos autores da área acadêmica insistam
na utilização da já tão desgastada categoria de populismo para classificar os
líderes desses movimentos, é inegável que a emergência dos novos governos
deflagrou um debate em torno da necessidade de redefinição de prioridades da
agenda pública para além da estabilização e da rigidez fiscal. Ascendem ao
primeiro plano temas antes relativamente relegados. Entre tais temas, cabe
destacar: a redução da exclusão social, o inconformismo diante de uma posição
periférica na ordem internacional, a aspiração por transformações na
geopolítica mundial, pela busca de autonomia e pelo reforço da integração
regional, pela diversificação de parcerias e alianças, pela revitalização do
debate sobre as reformas sociais, ou, ainda, pela defesa de novas formas de
inserção no mercado internacional.
Fazendo um balanço das principais consequências teóricas do debate acima
referido, cabe destacar seus impactos quanto à interpretação da globalização,
que podem se resumidos nos seis pontos abaixo enumerados:
1 - O fortalecimento da terceira geração de interpretações do processo de
globalização com o advento da crítica ao determinismo economicista e a ênfase
na visão contemporânea da natureza multidimensional daquele processo, com
destaque para suas dimensões políticas, ideológicas e institucionais.
2 - A crítica da chamada perspectiva globalista, segundo a qual a
interdependência financeira e produtiva dos países em escala internacional
seria determinante do esvaziamento do papel dos Estados nacionais (Bresser-
Pereira, 2010:80-81)16, levando, no limite, ao eclipse do Estado (Evans, 1997).
3 - O questionamento do pressuposto de que a implementação das reformas
orientadas para o mercado conduziria à convergência das agendas públicas
nacionais; ao contrário, o que se verificou foi a diversidade. Nessa linha de
reflexão, observa-se a revalorização da literatura sobre variedades de
capitalismo (Hall e Soskice, 2001; Amable, 2003). Esta refuta o argumento da
uniformidade, oferecendo uma abordagem teórica alternativa à perspectiva da
homogeneização na direção do modelo neoliberal. À luz dessa vertente, não há
razão para se esperar a convergência em direção a sociedades, cuja economia
seria regida pelas leis de mercado e seu funcionamento garantido pelo modelo
institucional anglo-saxão.
4 - Ganha realce a visão de que não há um caminho único e inquestionável para
definir as prioridades das agendas nacionais.
5 - Por mais estreitas que sejam as margens de manobra, há sempre espaço para a
busca de alternativas próprias e para a execução das estratégias mais
convenientes para os objetivos nacionais (Stiglitz, 2002; Rodrik, 2002a; 2002b;
Chang, 2001; 2003; Bresser-Pereira, 2010).
6 - Invertendo o argumento de Margaret Thatcher hegemônico nos anos 1980, a
chave do êxito das economias nacionais residiria não na busca de uniformidade,
a partir de uma receita universal, mas no exercício da autonomia dos governos
domésticos na consecução de seus objetivos.
Repensando o Desenvolvimento
A argumentação acima desenvolvida não pode desconsiderar um segundo ponto de
inflexão no debate internacional. Trata-se da reflexão acadêmica que levaria à
redefinição do conceito de desenvolvimento.
Sob esse aspecto, vale lembrar a contribuição de Armatya Sen em dois de seus
mais conhecidos livros: Sobre Ética e Economia (1999) e Desenvolvimento como
Liberdade, (2002). Nesses dois livros, o autor rompe com uma visão
unidimensional da economia, ao enfatizar a dimensão ética e política de
problemas econômicos prementes de nosso tempo, colocando em xeque a concepção
convencional de desenvolvimento. As visões mais restritas de desenvolvimento -
como crescimento do PIB, aprofundamento da industrialização ou expansão das
exportações - passam ao largo da importante concepção de que liberdades
substantivas, como a liberdade de participação política, a oportunidade de
receber educação básica ou assistência médica, estão entre os elementos
constitutivos do desenvolvimento. Segundo Sen, desenvolvimento deve ser
interpretado como um processo de expansão das liberdades reais de que desfrutam
os cidadãos de um país. Como tal requer, antes de tudo, que se removam as
principais fontes de privação de liberdade, tais como a tirania e a pobreza, a
carência de oportunidades econômicas, a destituição social sistemática, a
negligência de oferta de serviços públicos essenciais e a insegurança
econômica, política e social. O crescimento econômico é, sim, um componente
importante, pois contribui não só elevando rendas privadas, mas também
possibilitando ao Estado financiar a seguridade social e a intervenção
governamental ativa. Entretanto, é condição necessária, mas não suficiente.
Desta forma, a contribuição do crescimento econômico tem que ser avaliada não
apenas pelo aumento da renda, mas também pela expansão dos serviços sociais que
o crescimento pode viabilizar (Sen, 1999, especialmente Cap. 2). Trata-se,
portanto, de utilizar a dimensão do crescimento a serviço da consecução de
metas coletivas, tarefa que, por sua vez, transcende o livre jogo das forças do
mercado17. Nessa perspectiva, o objetivo do desenvolvimento é, antes de tudo, a
construção do bem-estar coletivo, o que implica compatibilizar as metas da
satisfação individual e a da justiça coletiva.
Os desafios éticos, sobretudo aqueles ligados à equidade, passam, portanto,
para o centro do debate sobre o desenvolvimento. Este tipo de concepção
abrangente do desenvolvimento refletiu-se na adoção pela ONU do Índice de
Desenvolvimento Humano (IDH) para medir o grau de avanço alcançado pelos
diferentes países do mundo18.
A estas dimensões incorpora-se, posteriormente, a não menos importante questão
da sustentabilidade. A ação dos movimentos ambientalistas em âmbito mundial e o
êxito da Cúpula Mundial de Desenvolvimento Sustentável, realizada em
Johanesburgo em agosto de 2002, foram certamente fundamentais para incluir essa
nova dimensão no conceito de desenvolvimento.
Cabe finalmente ressaltar que a noção contemporânea implica considerar os
diferentes componentes da visão abrangente aqui enfatizada como aspectos
indissociáveis da nova concepção de desenvolvimento, o que requer uma nova
agenda de políticas públicas voltada para a consecução desse conjunto de metas
coletivas. Tais metas, por sua vez, necessitam de um aparato institucional
adequado e de mecanismos de governança capazes de fortalecer as capacidades de
implementação e de coordenação do Estado.
Reformulando a Visão do Estado
Estas considerações nos remetem ao terceiro ponto de inflexão na produção
acadêmica internacional que diz respeito ao resgate da relevância do papel do
Estado no atual estágio da globalização. Sob esse aspecto, sobressai a
contribuição de autores como Weiss (1998; 2003), Evans (1995; 2002; 2007) e
Schmidt (2006; 2009). A partir de um balanço desta literatura é possível
destacar alguns pontos importantes para nossa reflexão.
Em primeiro lugar, deve-se ressaltar a crítica do pressuposto da ineficiência
intrínseca do Estado. Refiro-me à visão tipicamente liberal de que o Estado
intervencionista tenderia necessariamente a estimular a prática do rent
seeking, gerando corrupção e dilapidação dos recursos públicos. Nesse sentido,
o Estado se transformaria em campo propício para a apropriação do público pelo
privado, solo fértil, enfim, para a difusão das práticas de instrumentalizar o
Estado para a busca de rendas, em que sobressai a figura do burocrata típico -
maximizador do interesse próprio. Segundo esta perspectiva, o antídoto seria
naturalmente o Estado mínimo, meta da visão liberal ortodoxa.
Em segundo lugar, deve-se mencionar a reafirmação e o revigoramento da vertente
analítica das variedades de capitalismo, numa linha que resgata a relevância do
Estado associada à dimensão externa relativa à inserção das economias nacionais
no mercado mundial (Schmidt, 2006). Sob essa ótica, faz sentido falar em
estratégias diferenciadas de desenvolvimento, descartada pela perspectiva
globalista. A ênfase se desloca para a importância da coordenação estatal para
administrar de maneira equilibrada o aumento do crescimento e da
competitividade das economias nacionais no contexto atual do capitalismo
crescentemente globalizado. Trata-se de utilizar a abordagem das variedades de
capitalismos como recurso heurístico para entender o ambiente institucional
mais amplo no qual se dá a interação entre os atores fundamentais da ordem
capitalista, produzindo a diversidade de rotas para alcançar o desenvolvimento.
Ou ainda para avaliar os fundamentos institucionais das diferenças nacionais no
interior do sistema capitalista. Tais considerações nos levam à rejeição da
monocultura institucional nos termos salientados por Evans (2003). E mais
ainda, as relações Estado-sociedade não podem permanecer restritas às relações
com as elites capitalistas. É preciso efetivamente democratizar o acesso aos
centros de poder e deixar de lado a visão minimalista da política a qual
acompanhou a visão minimalista do Estado, no auge da primazia do pensamento
neoliberal (Evans, 2002).
Em terceiro lugar, considerando a dimensão política, cabe estabelecer a
distinção de fronteiras teóricas entre regime político (democracia, regime
autoritário), por um lado, e natureza do Estado, por outro. Essa linha de
pensamento permite realizar a crítica ao pressuposto de que quanto mais sólida
a democracia, maior a capacidade do Estado. Trata-se de processos interligados,
porém distintos. Em outros termos, a democracia não se traduz automaticamente
em maior capacidade do Estado. Pode haver e ocorre com frequência um
descompasso entre, por um lado, o robustecimento da democracia e, por outro, a
debilidade do Estado como instituição pública capaz de prover e universalizar o
acesso a bens públicos essenciais, nas áreas de segurança, saúde, educação e
saneamento básico, traduzindo-se em baixo poder infraestrutural do Estado no
sentido de Michael Mann (1986)19.Em seu percurso histórico, o Estado brasileiro
apresenta um déficit em termos de seu poder infraestrutural, traço que se
agravou durante a primazia da agenda neoliberal nos anos 1990. Segundo Mann,
poder infraestrutural é a capacidade do Estado de penetrar na sociedade e
implementar logisticamente suas decisões, abarcando, em seu âmbito de ação,
todo o território nacional e os diferentes segmentos de sua população. Requer
que os Estados tenham infraestruturas que penetrem universalmente toda a
sociedade civil, de modo a que as elites políticas possam extrair recursos e
fornecer serviços para todos os indivíduos. Logística significa para Mann a
existência de técnicas e recursos que permitam ao Estado penetrar na sociedade
e exercer o seu poder, reforçando a capacidade de formulação e implementação de
políticas. Traduz-se, enfim, pelo alcance territorial da ação do Estado.
Portanto, pode-se dizer que modernizar o Estado implica o aumento de seu poder
infraestrutural20, o que é indispensável para viabilizar a concepção
multidimensional do desenvolvimento, indo além dos indicadores econômicos e
abarcando de forma interligada as dimensões da equidade, ética e
sustentabilidade.
De uma perspectiva histórica, importante lacuna manifestou-se ainda na
dificuldade revelada pelo aparato estatal em garantir a eficácia de seus
ordenamentos legais. Deste ponto de vista, ganha realce, no contexto latino-
americano, a questão da baixa efetividade da lei. Esta se estende de forma
bastante irregular sobre o conjunto do território nacional e sobre os
diferentes segmentos da população, resultando um amplo contingente que se situa
fora da cobertura legal e jurídica proporcionada pelo Estado (O'Donnell, 1993;
1998; 1999 e 2002). Aqui o que há é omissão do poder público. Regiões inteiras
escapam do controle do Estado, situando-se fora de seu raio de ação, gerando-se
de fato uma situação de hobbesianismo social (Santos, 1992 e 1993; Reis, 2001).
Sob esse aspecto, cabe insistir, não há excesso de Estado, senão que uma grande
lacuna a ser preenchida21.
Segue, portanto, tendo atualidade a discussão sobre o papel do Estado. Porém,
esse debate para ser eficaz deve concentrar-se não mais na questão do grau de
intervenção do Estado, senão que no tipo equalidade da intervenção. Tal
perspectiva se contrapõe às análises de primeira e segunda geração relativas à
globalização, as quais a concebiam como um processo inexorável, postulando a
abertura indiscriminada, o retraimento do Estado e a adesão incondicional à
lógica do mercado financeiro internacional. Este caminho seria insistentemente
apontado como o mais adequado para o êxito dos países em desenvolvimento.
Quanto a essa questão, no atual estágio da produção internacional, também se
abandonou a ortodoxia convencional, ascendendo ao primeiro plano o pensamento
crítico. Neste ponto da argumentação, caberia uma pergunta. Em que medida a
crise internacional, desencadeada a partir de setembro de 2008, não teria
alterado esse quadro? Certamente alterou! Mas do ponto de vista que me
interessa aqui salientar, a crise vem produzindo efeitos que acentuam as
tendências anteriormente referidas.
Como é sabido, as conjunturas de crise criam incentivos ao debate e à revisão
de paradigmas. Muitas certezas e posições arraigadas são profundamente
questionadas, abalando-se os alicerces de antigas convicções. Este argumento
está desenvolvido de forma convincente no conhecido livro de Peter Gourevitch,
Politics in Hard Times (1986), no qual o autor analisa vários exemplos
históricos, contrapondo os tempos de bonança, em que se anula a propensão a
refutar e a desafiar, aos tempos de crise, quando se acirra a busca de novas
ideias e novos caminhos22.
Considerando-se, portanto, a atual conjuntura crítica, é possível admitir que o
processo de crise que atingiu a todos os países do mundo poderá acentuar a
tendência assinalada a se repensarem modelos de ação, a formular novos pacotes
de políticas públicas, voltadas não apenas para o enfrentamento da crise, a
curto prazo, mas também para definir rumos para o futuro. Torna-se
historicamente descartada a possibilidade de olhar para trás em busca de
orientação. Isto porque ficou claro, no decorrer desse processo, que não há
volta ao passado, que não há como buscar, no passado, a inspiração para o
enfrentamento das questões e dos desafios do presente. Torna-se imperativo
pensar o futuro mediante novas ferramentas e novos recursos analíticos.
Ademais, o Estado volta a ocupar o centro dos acontecimentos em função de sua
relevância para corrigir os desmandos do mercado.
A Contribuição dos Economistas Brasileiros e o Alargamento do Debate sobre
Desenvolvimento na Primeira Década do Novo Milênio
Como ressaltado anteriormente, fatores externos e internos combinaram-se para
produzir mudanças de vulto. Portanto, não podem ser desconsiderados os pontos
de inflexão que se verificaram na trajetória dos países latino-americanos entre
fins do século passado e o início do novo milênio. Aqui interessa-nos focalizar
especificamente o caso brasileiro.
Um primeiro ponto de inflexão relevante para os fins da análise empreendida
neste texto refere-se à ruptura do consenso em que se sustentava a agenda
neoliberal implementada durante o governo Fernando Henrique Cardoso. A
dissidência se desdobra entre 1998 e 2002, iniciando-se, portanto, no final do
primeiro mandato do presidente Cardoso. O segundo mandato (1999-2003)
transcorreu sob crescente perda de popularidade. O resultado foi a corrosão do
consenso em torno da estabilidade econômica e do ajuste fiscal como prioridades
absolutas da agenda pública. Difunde-se a percepção de que as políticas
neoliberais tiveram um alto custo social, gerando efeitos perversos de grande
impacto, como os altos índices de desemprego, a recessão, a redução do mercado
formal de trabalho (eliminação de cerca de dois milhões de empregos formais na
indústria) e a destruição do já precário sistema de proteção social ligado ao
padrão anterior.
A execução do programa de reformas orientadas para o mercado, sob o governo
Fernando Henrique Cardoso, alcançou, como foi ressaltado, uma grande amplitude
em relação ao impulso inicial dado por Fernando Collor, radicalizando-se, em
consequência, o corte com o passado. Tem início uma fase de intensa
desconstrução legal e institucional, que abriria o caminho para a refundação do
Estado e da sociedade, de acordo com os novos parâmetros consagrados pelo
mainstream internacional. Em consequência tornou-se anacrônica qualquer
perspectiva de regresso ao passado, sobretudo no que se refere ao modelo
nacional-desenvolvimentista23.
No decorrer do processo de reestruturação produtiva que se verificou, uma parte
expressiva do empresariado nacional foi duramente atingida, o que se manifestou
pelo grande número de falências e concordatas, levando inclusive ao
desaparecimento de empresas emblemáticas do período desenvolvimentista. Por
outro lado, o segmento que se expandiu viu fortalecer-se sua posição
aprofundando seus vínculos com o setor transnacional. Para este segmento, o
futuro estaria naturalmente atrelado ao êxito da estratégia dominante.
Entretanto, a incapacidade do governo de romper com as amarras da estagnação e
da vulnerabilidade externa da economia terminariam por abalar a confiabilidade
daquela estratégia até mesmo junto a alguns dos novos grupos empresariais,
aumentando a margem de descontentamento. Assim, aprofunda-se a fissura na
classe empresarial. Seu segmento mais crítico seria liderado pelo IEDI
(Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), dirigido pelo
empresário Eugenio Staub, e pela FIESP (Federação das Indústrias do Estado de
São Paulo), sob a direção de Horácio Láfer Piva, jovem empresário do grupo
Klabin, que advoga uma postura de distanciamento e independência em relação ao
governo Fernando Henrique. Desta forma, deve-se ressaltar o papel ativo de
setores do empresariado industrial na criação de um clima de oposição à visão
liberal ortodoxa, somando-se aos demais segmentos da sociedade civil em sua
postura de questionamento24.
Verifica-se a partir de então uma forte demanda por um projeto de
desenvolvimento sustentado como condição para a saída do impasse em que se
encontrava o país, prisioneiro do falso dilema estabilização x desenvolvimento.
A ênfase se desloca para temas como a retomada do crescimento econômico e
políticas de geração de emprego. Persiste a defesa de uma política firme de
estabilização, porém como âncora de um programa de desenvolvimento mais
equitativo, abrindo espaço para políticas de combate à desigualdade e à
exclusão social. Observa-se gradualmente a formação de uma nova coalizão
política e de um novo consenso em torno do imperativo de uma inflexão na
política macroeconômica, tendo em vista a inclusão de novas prioridades na
agenda pública: crescimento econômico e geração de emprego, associados à
formulação de uma nova estratégia de inserção internacional, metas
crescentemente percebidas como interdependentes de acordo com as novas
diretrizes. Nesse contexto, a vitória de Lula nas eleições de 2002 expressou a
insatisfação e as aspirações por mudanças por parte da maioria da população
brasileira.
Um segundo importante ponto de inflexão refere-se à crescente produção crítica
tanto dos fundamentos e limitações do padrão nacional-desenvolvimentista,
quanto do paradigma neoliberal, no âmbito das análises econômicas da
intelectualidade brasileira, fato que se tornou marcante entre 2002 e 2010. Tal
reflexão extrapola as fronteiras nacionais e alarga a discussão no campo
acadêmico internacional.
É nesse contexto que se retoma, no Brasil, de forma particularmente
contundente, o interesse pela discussão de novas estratégias de desenvolvimento
como alternativa quer ao pensamento ortodoxo convencional, quer ao antigo
nacional-desenvolvimentismo. Dentro deste esforço de busca de novos caminhos,
afirma-se o chamado novo desenvolvimentismo que tem, entre seus principais
representantes, os economistas Luiz Carlos Bresser-Pereira, João Sicsú, Luiz
Fernando de Paula, Renaut Michel, ao lado de alguns economistas da Unicamp,
como Luiz Gonzaga Beluzzo e Daniela Prates. Ricardo Bielschowsky (escritório
brasileiro da CEPAL) discute a viabilidade da rota de desenvolvimento puxada
pelo fortalecimento do mercado interno de consumo de massas. Paralelamente,
tomando como referência a literatura internacional, sobretudo de origem
francesa, focalizando as convenções de desenvolvimento, devem ser ressaltados
os textos de Fábio Erber, que aplica tal perspectiva à análise do governo Lula
(2003-2010).
A REABERTURA DO DEBATE SOBRE MODELOS ALTERNATIVOS E A ASCENSÃO DO NOVO
DESENVOLVIMENTISMO NO BRASIL
A primeira referência à urgência de se formular um novo modelo de
desenvolvimento - utilizando o termo novo desenvolvimentismo - de maneira a
adequar o Brasil à nova ordem mundial aparece no último capítulo da 5ªedição do
livro de Bresser-Pereira Desenvolvimento e Crise no Brasil, publicado em
200325. Em dois artigos escritos em associação com Yoshiaki Nakano (2002;
2003), ganhou vulto a crítica sistemática à ortodoxia convencional, com
destaque para as políticas de juros altos e metas de inflação, a relação entre
a proposta convencional e a semiestagnação do país e, finalmente, o
questionamento do chamado populismo cambial. Este se manifestaria pela doença
holandesa (sobrevalorização da taxa de câmbio), implicando a tendência à
sobreapreciação da taxa de câmbio, com graves prejuízos para a indústria
doméstica.
Entre 2005 e 201026, através de vários artigos, Bresser-Pereira aprofunda seu
argumento, distinguindo o novo desenvolvimentismo do nacional-
desenvolvimentismo, refutando, neste último, o papel do Estado na geração de
poupança forçada, no recurso permanente à política protecionista para expandir
a industrialização, bem como a complacência com a inflação e com o déficit
público crônico como forma de garantir taxas elevadas de crescimento. Em
contraposição, o novo desenvolvimentismo defende o equilíbrio fiscal, sem ficar
limitado ao mercado interno, favorece as exportações sem abdicar de políticas
industriais aplicadas criteriosamente. Em contraste com a ortodoxia
convencional (que não tem uma estratégia de desenvolvimento), o novo
desenvolvimentismo preconiza uma política macroeconômica distinta: o ajuste
fiscal não visa apenas garantir superávit primário, mas uma poupança pública
positiva e implica não exclusivamente a redução das despesas correntes, mas
também da taxa de juros; o Banco Central não tem apenas um mandato, conter a
inflação mediante um único instrumento - taxas de juros em níveis altos - mas
também administrar o câmbio (em contraposição à plena flutuação cambial), além
de monitorar o nível de emprego, mediante a compra de reservas ou o controle à
entrada de capitais. Ademais, na medida em que a ortodoxia convencional
preconiza reformas para fortalecer o mercado e reduzir o Estado, configura-se
uma articulação de efeitos deletérios para projetos de longo prazo.
Estes últimos são, ao contrário, fundamentais para o novo desenvolvimentismo.
Por outro lado, o novo desenvolvimentismo pretende fortalecer simultaneamente o
Estado e o mercado. Atribui papel relevante ao Estado no investimento e na
política industrial, visa alcançar o crescimento com investimento e poupança
interna, valoriza o mercado interno e as exportações, refutando fortemente a
prática de financiar investimento com poupança externa típica da ortodoxia
convencional (Bresser-Pereira, 2007:90-93). Embora o novo desenvolvimentismo
não tenha sido ainda plenamente aplicado na América Latina, o autor afirma que
seus preceitos foram seguidos pelos países dinâmicos da Ásia. Por fim, em
artigo mais recente em parceria com Paulo Gala, Bresser-Pereira formula as
bases do que seria a macroeconomia estruturalista do desenvolvimento.
Este aspecto, segundo os autores, pode ser considerado um segundo momento da
teoria estruturalista latino-americana uma vez que preserva a ideia de que o
desenvolvimento econômico é um processo de mudança estrutural, que pressupõe
inovação nos setores já explorados e transferência de mão de obra para setores
com valor adicionado per capita e salários médios cada vez mais elevados. Para
ser bem-sucedido na competição internacional, cada país deve ter sua estratégia
nacional de desenvolvimento - a instituição fundamental para estimular o
investimento e a poupança nacional. O êxito desta estratégia, por sua vez,
depende da neutralização de duas tendências negativas, a doença holandesa, que
prejudica a competitividade das empresas nacionais nos mercados externos, e a
tendência da taxa de salários a crescer menos do que a produtividade, o que
limita a demanda originada no mercado interno (Bresser-Pereira e Gala, 2010).
Em síntese, enquanto o tripé ortodoxo está constituído por taxa de juros
elevada, taxa de câmbio sobreapreciada e Estado mínimo, o tripé novo-
desenvolvimentista baseia-se em taxa de juros baixa, taxa de câmbio de
equilíbrio de forma a garantir competitividade às empresas industriais de alta
tecnologia e papel estratégico para o Estado.
A contribuição de Bresser-Pereira alcança um novo patamar ao publicar,
inicialmente na França e depois no Brasil, o livro Globalização e Competição,
no qual refina o argumento teórico-conceitual e alarga a análise comparativa
aprofundando o estudo de outros países latino-americanos e dos países asiáticos
dinâmicos, dando definitivamente à sua reflexão sobre o novo desenvolvimentismo
um escopo transnacional27. Desta forma, o pensamento latino-americano projeta-
se para fora do continente e conquista uma nova posição no debate sobre uma
nova estratégia de desenvolvimento. Os três pilares anteriormente descritos - a
garantia do desenvolvimento graças à poupança nacional, a utilização de um
regime de câmbio competitivo que favoreça o crescimento nacional e a autonomia
do Estado no sentido da manutenção de uma política fiscal rigorosa (sem
complacência com o desequilíbrio fiscal e a inflação) - são combinados de modo
idiossincrático por cada país. Em outros termos, torna-se imperativo considerar
a trajetória histórica e as escolhas políticas de seus governantes (Bresser-
Pereira, 2010:86-104).
Nesta mesma direção de formular uma estratégia alternativa de desenvolvimento
para o Brasil situa-se a publicação, em 2005, do livro organizado pelos
economistas João Sicsú, Luiz Fernando de Paula e Renaut Michel Novo-
Desenvolvimentismo, contando com a participação de expressivo número de
autores, abordando distintos aspectos de política econômica, desde a
macroeconomia, até emprego, renda, trabalho e desenvolvimento tecnológico28.
Na Introdução, depois ampliada e publicada sob a forma de artigo na Revista de
Economia Política (2007), os organizadores definem sua visão do novo
desenvolvimentismo: "uma estratégia nacional de desenvolvimento, alternativa ao
projeto neoliberal, que compatibilize crescimento sustentado com equidade
social"29. Argumentam que o novo desenvolvimentismo tem diversas origens
teóricas, entre as quais a visão de Keynes e de Polanyi, bem como de
economistas keynesianos contemporâneos, de que existe uma complementaridade
entre Estado e mercado, além da corrente cepalina neoestruturalista, com sua
ênfase na associação entre crescimento econômico e melhoria da distribuição de
renda.
À semelhança de Bresser-Pereira, rejeitam as visões extremas pró-mercado ou
pró-Estado, preconizando o fortalecimento do Estado e do mercado como condição
necessária para garantir crescimento sustentado a taxas elevadas, por sua vez,
fator indispensável para a redução da desigualdade social. Segundo os autores,
ademais, o Estado deve ser forte para permitir ao governo a implementação de
políticas macroeconômicas defensivas ou expansionistas conforme o caso. As
primeiras teriam um caráter defensivo, reduzindo a probabilidade de crises
cambiais. As segundas seriam aquelas medidas de promoção do pleno emprego,
sobretudo em contextos recessivos. As políticas industrial e de comércio
exterior devem ser utilizadas para estimular a competitividade da indústria
nacional e melhorar a inserção do país no comércio internacional. No que se
refere à globalização, convergindo com Bresser-Pereira, os autores defendem a
abertura externa, sem abrir mão da primazia do interesse nacional. Haveria,
portanto, uma estreita articulação entre Estado forte, mercado forte e redução
da vulnerabilidade externa. Em contraposição ao antigo nacional-
desenvolvimentismo, o novo desenvolvimentismo não admite o Estado-empresário,
nem a utilização indiscriminada e incondicional do protecionismo do mercado
interno nos moldes do passado.
Por outro lado, dando maior destaque à dimensão social, Sicsú, de Paula e
Michel insistem no papel do Estado na redistribuição de renda, ressaltando a
importância de implantar um sistema tributário progressivo para reduzir as
desigualdades de renda e de riqueza. Esta seria uma reforma essencial, ainda
que dentro dos limites de uma economia de mercado (2007:513-14). Ademais, os
autores defendem políticas de desenvolvimento do capital humano através do
fortalecimento e melhoria da educação pública, aspecto indispensável para a
ascensão do país no contexto internacional. Finalmente, salientam que "o
desenvolvimento de um país é um processo idiossincrático e, portanto, de certa
forma, não reprodutível. Não há um único modelo a ser seguido e, sim, inúmeras
possibilidades e combinações" (2007:516). Um dos fatores-chave do processo de
catching-up, concluem, é o governo saber extrair vantagens das oportunidades
criadas pelo momento histórico em que se vive.
Entre os economistas do escritório brasileiro da CEPAL, vale destacar a
contribuição de Ricardo Bielschowsky. Este apresenta, em comum com os autores
analisados até aqui, a noção de que, no terceiro milênio, abre-se uma nova
fase, que exige por parte dos países latino-americanos em geral e do Brasil em
particular a busca de um caminho alternativo em relação tanto ao nacional-
desenvolvimentismo, quanto ao neoliberalismo. Trata-se de criar uma nova
estratégia, na qual o Estado teria um papel importante a desempenhar na
condução da economia. Presente também está a ideia da necessidade de
compatibilizar crescimento com redistribuição de renda.
Por outro lado, a visão de Bielschowsky enfatiza a relevância de se aproveitar
o grande potencial do mercado interno, de forma a fazer com que os ganhos de
escala e produtividade de uma produção de consumo de massas resultem em maiores
salários, gerando um ciclo virtuoso de crescimento. Recupera ainda a ideia de
planejamento no sentido de um esforço de coordenação e articulação dos
interesses públicos e privados tendo em vista minorar a pobreza, reduzir as
desigualdades sociais e regionais, redistribuir renda, reduzir o desemprego,
superara escassez de financiamento e elevar o investimento público e privado.
Observa-se, enfim, a ênfase numa estratégia calcada na expansão das exportações
(commodities e bens industriais), ao lado da criação de um mercado interno de
consumo de massas para romper com a articulação destrutiva entre estabilização,
rigidez fiscal, juros altos e estagnação. A potencialidade desta via de
desenvolvimento foi pela primeira vez explicitada analiticamente pelo
economista Antonio Barros de Castro, em seminário para a elaboração do plano
estratégico do Banco do Brasil, realizado em Brasília em 1989, ocasião em que
Barros de Castro apresentou um trabalho denominado "Consumo de Massas e
Retomada do Crescimento, sugestões para uma estratégia". Neste texto, Castro
ressalta que a estratégia de retomada do crescimento (crescimento agora de um
novo tipo) impulsionada pela expansão do mercado de consumo de massas no Brasil
- processo este interrompido na década de 1980 - tinha condições de
concretizar-se, desde que o desenvolvimento readquirisse prioridade na agenda
governamental (Barros de Castro, 2011). Este argumento é retomado por
Bielschowsky ao privilegiar o modelo em que o crescimento tem na formação e
expansão do mercado interno de consumo de massas o seu elemento propulsor, sem,
contudo, desconsiderar a meta da inserção externa competitiva. Entretanto,
Bielschowsky ressalva que ainda não se tem no país um modelo hegemônico.
Segundo o autor, para que se forme um acordo nacional e se consolide um novo
paradigma desenvolvimentista impõe-se crescer de forma contínua por vários
anos30, rompendo com a prática de breves surtos de crescimento seguidos de
estagnação. Cabe ressaltar que essa agenda de desenvolvimento foi apresentada
na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, integrando um conjunto de
ideias sustentadas pela coalizão que deu suporte à campanha do candidato do
Partido dos Trabalhadores (PT) à Presidência da República.
A consolidação do movimento intelectual em prol de uma nova estratégia de
desenvolvimento, buscando realçar os pontos de convergência entre os vários
autores, ocorreu por ocasião de um seminário internacional realizado em São
Paulo nos dias 24 e 25 de maio de 2010, na Escola de Economia de São Paulo da
Fundação Getúlio Vargas. Nesse encontro, economistas não só do Brasil, como
também de universidades estrangeiras, de tradição predominantemente keynesiana
e estruturalista, reúnem-se para discutir as dez teses sobre o novo
desenvolvimentismo. Este nome que "alguns deles já vinham utilizando há alguns
anos para descrever a estratégia nacional de desenvolvimento que países de
renda média têm adotado ou deveriam adotar para promover seu desenvolvimento
econômico e atingir o nível de renda dos países mais ricos" adquire maior
visibilidade e projeção. A reunião fez parte do projeto "Crescimento com
Estabilidade Financeira e Novo Desenvolvimentismo", financiado pela Fundação
Ford. Parte-se do reconhecimento do fracasso do Consenso de Washington em
promover o desenvolvimento econômico da América Latina e da constatação dos
efeitos da "grande crise financeira de 2008 que mostrou ao mundo os limites e
perigos envolvidos na globalização e desregulamentação financeira"31.
As dez teses resumem os principais argumentos que foram analisados ao longo
deste texto, entre os quais alguns devem ser destacados. O desenvolvimento
econômico é um processo estrutural, cujo objetivo central é promover o pleno
emprego; o mercado é o locus privilegiado desse processo, mas o Estado
desempenha um papel estratégico em prover o arcabouço institucional que
sustente esse processo estrutural; no contexto da globalização, o
desenvolvimento econômico requer uma estratégia nacional de desenvolvimento; os
maiores gargalos para o crescimento situam-se no lado da demanda; nos países em
desenvolvimento, existem adicionalmente duas tendências estruturais que limitam
a demanda e o investimento: a tendência para os salários crescerem abaixo da
taxa de crescimento da produtividade e a tendência à sobrevalorização da taxa
de câmbio real e/ou nominal; a doença holandesa pode ser caracterizada como uma
permanente sobrevalorização da moeda doméstica; o desenvolvimento econômico
deve ser financiado primordialmente com poupança doméstica; a necessidade do
governo assegurar uma relação de longo prazo estável entre dívida pública e o
PIB e uma taxa real de câmbio que busque neutralizar os efeitos adversos da
doença holandesa sobre o setor manufatureiro doméstico e, finalmente, para
atingir o desenvolvimento econômico de longo prazo, deve-se priorizar o pleno
emprego, garantindo-se ao mesmo tempo a estabilidade de preços e financeira.
Entre os subscritores originais do documento encontram-se Luiz Carlos Bresser-
Pereira, Luiz Fernando de Paula, Luiz Gonzaga Belluzzo, Luciano Coutinho,
Daniela Prates, Leonardo Burlamaqui, Ricardo Carneiro, Ricardo Bielschowsky,
além de outros nomes do cenário acadêmico internacional, como Há-Joon Chang,
Robert Boyer, José Antônio Ocampo, Adam Przeworski, Robert Wade, Evelyne Huber
e Linda Weiss32.
CONVENÇÕES DE DESENVOLVIMENTO E GOVERNO LULA
Os textos de Fábio Erber aqui examinados partem do conceito de convenção de
desenvolvimento33.Trata-se de uma perspectiva que vai além da ideia de
estratégias de desenvolvimento, já que tem por fundamento o princípio
epistemológico de que a Economia é ontologicamente Política (Erber, 2009:2). Um
de seus propósitos é contribuir para a discussão dos interesses econômicos que
estão subjacentes a teorias e procedimentos recomendados para o
desenvolvimento. Busca-se, assim, politizar o debate, já que os conflitos não
são apenas considerados como fenômenos de ordem técnica. O interesse do autor
está voltado para o caso brasileiro, mais especificamente os dois mandatos do
presidente Lula.
O objetivo é, pois, a análise do processo de desenvolvimento brasileiro
contemporâneo, processo que, ao contrário de crescimento, implica
transformações estruturais. Por suas características, o processo de
desenvolvimento traz aos atores sociais uma incerteza substantiva, a qual não
pode ser eliminada pela busca de mais informações e implica problemas de
coordenação entre os atores. É para lidar com os problemas de incerteza e
coordenação que as sociedades utilizam as instituições - "as regras do jogo".
Como salienta o autor, nos planos cognitivo e comportamental estas regras estão
estruturadas por convenções34. Envolvem metáforas que definem os problemas e
sugerem soluções possíveis, hierarquizam prioridades, especificam agendas
positivas e negativas,assimcomoregraseregulamentosadequadosàsdiferentes
situações. O poder destas regras é substancialmente aumentado se elas obtêm
coerência através de uma metáfora histórica - uma teoria que explica como o
presente surgiu do passado e como será o futuro se essas regras forem seguidas
(uma teleologia). Esse conjunto de regras, as agendas positivas e negativas
geradas a partir da teleologia subjacente constituem uma convenção - uma
representação coletiva que estrutura as expectativas e o comportamento
individual. Uma convenção envolve conhecimentos codificados (que se traduzem em
regras formais de conduta, frequentemente expressas na forma de leis, ou regras
dotadas de um poder coator externo - o Estado) e tácitos (normalmente expressos
por regras informais, em que a força de coação reside na aprovação do grupo).
Resumindo, o autor salienta que as convenções de desenvolvimento constituem
dispositivos de identificação e solução de problemas (Erber, 2009:6). Embora
sejam sempre apresentadas como "projetos nacionais" voltados para o "bem
comum", refletem, na verdade, a distribuição de poder econômico e político
prevalecente na sociedade, num determinado momento histórico. Embora, em
princípio, seu escopo devesse incorporar também as aspirações dos grupos
emergentes, fora do bloco de poder, em sociedades complexas, em que existem
diversos interesses conflitantes, nenhuma convenção de desenvolvimento consegue
acomodar a todos. Assim, existem sempre diversas convenções de desenvolvimento
que competem pela hegemonia.
Tal competição entre convenções, o autor adverte, caracteriza a história do
desenvolvimento brasileiro, desde os anos 1930 até a primeira década do 3º
milênio, marcada pelos dois mandatos do presidente Lula. Assim, durante a
hegemonia do nacional-desenvolvimentismo, esta convenção jamais deixou de ser
contestada pela convenção liberal. Durante a hegemonia do neoliberalismo, nos
dois períodos de Cardoso, em diferentes momentos aguçou-se o conflito entre
neoliberais e neodesenvolvimentistas. De forma similar, esta competição
encontra-se exacerbada no governo Lula, sem que se verificasse o surgimento de
uma convenção alternativa capaz de assumir a hegemonia tanto na esfera
internacional, como no contexto interno, embora a recente crise internacional
(2008-2009) tenha aprofundado a perda de credibilidade da visão neoliberal.
Esta, porém, ressalta o autor, não saiu de cena.
A partir de tais considerações teóricas e conceituais, Erber analisa as duas
convenções em competição durante os dois mandatos do presidente Lula: a
convenção institucionalista restrita e a convenção neodesenvolvimentista,
presentes desde o primeiro mandato, embora o embate entre ambas tenha se
tornado mais intenso no segundo período (2007-2010).
A convenção institucionalista restrita (ancorada no Ministério da Fazenda e
Banco Central, notadamente no primeiro mandato Lula) baseia-se na teoria
neoclássica, enriquecida pelos aportes da Nova Economia Institucional, de
acordo com a perspectiva de North (1990). Tem como alvo o estabelecimento de
normas e organizações que garantam o funcionamento adequado dos mercados, de
forma que estes cumpram suas funções de alocar recursos do modo mais produtivo,
gerando poupanças, investimento e, em consequência, crescimento econômico.
Quanto mais eficientes os mercados, maior será a probabilidade do crescimento.
Considerando a dimensão internacional dos mercados, a abertura da economia em
termos comerciais, financeiros e de investimento é essencial. A inovação,
tecnológica e institucional, é vista como o motor do desenvolvimento. No caso
do Brasil, o Estado deve ter um papel ativo no fomento da inovação.
Estabilidade econômica, metas fiscais e de inflação, flexibilização da taxa de
câmbio seriam o cerne desta convenção, que teria no Banco Central, dotado ampla
autonomia operacional, no Conselho Monetário Nacional e no Copom (Comitê de
Política Monetária) as agências governamentais responsáveis pela consecução de
suas metas. No regime de metas de inflação em que o Banco Central tem,
nominalmente, apenas autonomia operacional, o Banco recebe as metas de uma
autoridade (o CMN) e tem a incumbência de executá-las, de acordo com o modelo
principal-agente. Entretanto, no caso brasileiro, a separação entre fixação e
execução (principal e agente) tornou-se muito tênue, uma vez que o presidente
do Banco Central tem assento no Conselho Monetário Nacional, ao lado dos
ministros da Fazenda e do Planejamento, tendo um peso decisivo nas decisões
tomadas. Em termos concretos, o tripé da política macroeconômica traduziu-se em
altas taxas de juros, câmbio sobrevalorizado e a prevalência de metas de
superávit primário suficientes para estabilizar e eventualmente diminuir a
relação dívida/PIB.
Esta convenção, garantida sobretudo pela centralidade do Banco Central, ter-se-
ia apoiado numa aliança conservadora, formada pelo setor financeiro,
investidores institucionais, como os fundos de pensão, companhias de seguro,
produtores e exportadores de commodities,entre outros. Engloba, portanto, uma
ampla constelação de interesses, estruturada, ao longo do tempo, em torno da
associação juros altos/câmbio valorizado/política fiscal restritiva, que
estabeleceu uma convenção de que tais elementos seriam imprescindíveis ao
desenvolvimento do país. Por outro lado, esta coalizão obstaculiza mudanças
estruturais que alterem a distribuição de riqueza e renda, tal como uma reforma
tributária menos regressiva.
Coexistindo com a convenção institucionalista restrita, porém numa posição
subordinada, o autor identifica outra convenção a qual chama de
neodesenvolvimentista. Esta teria uma visão de sociedade essencialmente
cooperativa, expressa através do conceito de pacto social e da prioridade
atribuída às políticas de inclusão social. De inspiração Keynesiana, o
neodesenvolvimentismo baseia-se na visão de que o crescimento é impulsionado
pelo aumento autônomo da renda familiar dos grupos mais pobres, via aumentos do
salário mínimo, expansão do emprego formal e políticas de transferência
condicionada de renda, como o Bolsa-Família. Além disso, implica investimentos
em infraestrutura e construção residencial, regidos pelo Estado, investimentos
em inovação (amparados em incentivos fiscais, crédito subsidiado e subvenções),
bem como na condução de uma política externa independente. O Estado, nesta
convenção, volta a assumir a liderança do processo de desenvolvimento,
recuperando-se, inclusive o papel primordial das empresas estatais, como a
Petrobras e bancos públicos, funções abandonadas durante a primazia das
diretrizes ortodoxas nos anos 90 do século XX. Nas palavras do autor, o
neodesenvolvimentismo opera um aggiornamento da antiga proposta
desenvolvimentista, restabelecendo a tradicional coalizão entre governo e
empreiteiras da construção pesada e leve, fornecedores de insumos e
equipamentos, bem como empregados destes segmentos. Embora tendo a mesma matriz
teórica da convenção novo-desenvolvimentista, dela se distingue pela aceitação
da política macroeconômica ortodoxa, cerne da convenção institucionalista
restrita, aspecto esse explícita e fortemente rejeitado pelos novos-
desenvolvimentistas (Erber, 2009:28), tal como visto na seção anterior.
No primeiro mandato do presidente Lula a convenção neodesenvolvimentista
manifesta-se pelo PPA (Plano Plurianual-2003/2007), pela PITCE (Política
Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior) e pelo esforço de estabelecer
parcerias público-privadas. Reforçada a partir de 2006 com a mudança de equipe
do Ministério da Fazenda e com a reeleição de Lula, a perspectiva
neodesenvolvimentista ganha novo alento no segundo mandato através do PAC
(Programa de Aceleração do Crescimento) e da PDP (Política de Desenvolvimento
Produtivo). Entretanto, segundo Erber, a convenção institucionalista restrita
segue exercendo a hegemonia. Tal fato se explicaria, por um lado, pela força da
coalizão conservadora que a sustenta. Por outro, pela percepção geral de que as
políticas desenvolvimentistas e de inclusão social não prejudicam os interesses
daquela coalizão, que a preservação de taxas de crescimento reduzidas não
impede a inclusão social, que os segmentos mais pobres são os mais prejudicados
pela inflação e, finalmente, que a elevação da taxa de investimento atende às
duas convenções (Erber, 2009:43).
Por último, conclui o autor, nenhuma das convenções em disputa enfrenta os
problemas da transformação do Estado brasileiro, notadamente no que tange às
reformas fiscal, política e administrativa, que, a seu ver, seriam essenciais
para um processo de desenvolvimento a ritmos elevados e continuados, de teor
inclusivo e democrático.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar de muitas convergências, os autores aqui analisados apresentam claras
diferenças, em termos da ênfase em certos argumentos utilizados. Bresser-
Pereira, por exemplo, revela uma preocupação central com a política econômica
e, mais especificamente, com os fundamentos de uma política macroeconômica
compatível com a consecução da nova rota desenvolvimentista. Sicsú, Paula e
Michel dão particular destaque à dimensão social do desenvolvimento,
ressaltando a necessidade de uma forte relação entre as políticas econômica e
social, crescimento econômico associado a melhorias na distribuição de renda.
Em ambos os casos, é conferida importância à política industrial, porém Sicsú,
Paula e Michel dão maior destaque à necessidade de existir uma sinergia entre
os vários aspectos da política econômica, aí incluindo a política industrial.
Bresser-Pereira considera a política industrial subsidiária: embora
estratégica, deve ser seletiva, voltando-se para setores específicos e para
empresas com capacidade de competição internacional. Já Erber, em consequência
da força da coalizão conservadora, chama a atenção para os persistentes
obstáculos a certas reformas estruturais essenciais, porém sempre postergadas,
como a implantação de uma reforma tributária progressiva, capaz de redistribuir
a renda e a riqueza. Entretanto, em contraste com o nacional-desenvolvimentismo
do passado, não se verifica até o momento uma visão claramente hegemônica.
Um passo decisivo para formalizar e difundir pontos de convergência foi dado
pela realização do já referido seminário "Dez Teses sobre o Novo
Desenvolvimentismo", levado a efeito em São Paulo, nos dias 24 e 25 de maio de
2010, na Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas. Foi nesse
encontro, como foi destacado, que economistas de tradição keynesiana e
estruturalista reuniram-se para discutir os eixos centrais do novo
desenvolvimentismo. O cerne do encontro foi a reafirmação da necessidade da
legitimação da estratégia nacional de desenvolvimento que países de renda média
deveriam adotar para promover seu desenvolvimento econômico e atingir o nível
de renda dos países mais ricos. O seminário fez parte do projeto "Crescimento
com Estabilidade Financeira e Novo Desenvolvimentismo", financiado pela
Fundação Ford. Ratificou-se o reconhecimento do fracasso da ortodoxia
convencional ou Consenso de Washington em promover o desenvolvimento econômico
da América Latina e ressaltou-se a constatação dos efeitos da grande crise
financeira de 2008 que mostrou ao mundo os limites e perigos envolvidos na
globalização associada à desregulamentação financeira.
Nesse sentido, o documento reconhece que o mercado é o locus privilegiado do
processo de desenvolvimento, embora ao Estado caiba um papel estratégico em
prover o arcabouço institucional apropriado que sustente esse processo de
natureza estrutural. Entre as tarefas primordiais, destaca-se a promoção de
instituições financeiras capazes de canalizar os recursos domésticos para o
desenvolvimento de inovações em setores que gerem elevadas taxas de crescimento
do valor adicionado doméstico. Tal arcabouço institucional deve também abarcar
medidas que possibilitem superar desequilíbrios estruturais e promover a
competitividade internacional do capitalismo dos países emergentes, inclusive
através do controle da entrada de capitais. Desta forma, a relevância do papel
do Estado aparece associada às atividades de inserção internacional de forma a
garantir a primazia dos objetivos nacionais de longo prazo. A visão nacional
estratégica é alçada ao primeiro plano, porém, não para isolar os mercados
domésticos, mas para prepará-los para um processo autônomo de
internacionalização, sob a égide da defesa da soberania nacional.
Por outro lado, para além do acordo entre lideranças intelectuais, deve-se
ressaltar a existência de uma expressiva lacuna em termos da inserção social da
nova agenda. Em síntese, a despeito dos avanços verificados no debate sobre a
necessidade de um projeto desenvolvimentista de novo tipo, não é possível
detectar uma coalizão claramente articulada em torno de um novo modelo.
Partidos políticos, bem como atores relevantes da sociedade civil permanecem à
margem dessa discussão.
NOTAS
* Este texto retoma e aprofunda uma linha de reflexão presente em trabalhos
anteriores, principalmente, Diniz (2007; 2008 e 2010) e Diniz e Boschi (2007).
Faz parte da pesquisa que venho realizando, em parceria com Renato Boschi,
Elites Estratégicas e Desenvolvimento, que integra o Instituto Nacional de
Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento
(INCT/PPED/CNPq/Faperj). Agradeço a Luiz Carlos Bresser-Pereira pela leitura
atenta e questões levantadas em relação à primeira versão deste trabalho.
Gostaria de agradecer ainda a um dos pareceristas anônimos de DADOS, pelas
críticas e sugestões altamente pertinentes. Naturalmente, as falhas e omissões
que persistem são de minha inteira responsabilidade.
1. Desse ponto de vista, sigo alguns autores clássicos no tema em questão, como
Gourevitch (1986); Biesteker (1991); Hall (2010a e 2010b), os quais chamam a
atenção para a necessidade de se levar em conta a articulação entre fatores
externos e internos para explicar mudanças de porte na agenda pública,
especialmente no que tange às análises sobre respostas dos países às crises
externas, como ocorreu nos anos 1930, 1970, 1998 e 2008 até o presente momento.
2. Existe uma ampla bibliografia sobre o esgotamento da agenda das reformas
orientadas para o mercado no Brasil e em outros países da América Latina. Ver,
por exemplo, Kuczynski e Williamson (2004); Stiglitz (2002), Chang (2001; 2003;
2008); Rodrik (2002a; 2002b; 2011).
3. A breve retrospectiva proposta aqui não pretende esgotar o tema da
trajetória da construção do capitalismo industrial no Brasil, senão que tão
somente enfatizar modelos de desenvolvimento, ideias, interesses e coalizões
que os sustentaram ao longo do tempo. A análise da construção da ordem
capitalista industrial no Brasil, o papel do empresariado industrial e do
Estado durante o período 1930-1945 foi objeto de minuciosa investigação em
Diniz (1978). Sobre as demais fases da industrialização, sob o ponto de vista
aqui salientado, ver também Barros de Castro (1993), Boschi (1979), Leopoldi
(2000).
4. As bases ideológicas do desenvolvimentismo e a evolução do pensamento
econômico brasileiro ao longo das várias fases da ISI são analisadas por
Bielschowsky (1988).
5. Os períodos assinalados foram analisados por vários autores. Entretanto, do
ponto de vista que procuro ressaltar no presente texto, considerando o papel e
o comportamento político do empresariado industrial, cabe mencionar Bresser-
Pereira (2003); Boschi (1979) e Leopoldi (2000). Um balanço dos 21 anos de
regime militar pode ser encontrado em Soares e D'Araújo (1994). Para os anos
1990, focalizando o empresariado do setor comercial, ver Costa (1997).
6. Nas palavras de Barros de Castro (2011:209), "A idade de ouro da
industrialização (no Brasil) foi [...] uma fase de vigorosa melhoria das
condições de vida da parte mais pobre da população" [...] o que não quer dizer
que "a distância entre ricos e pobres tenha sido reduzida no período". Ou seja,
existe um acordo sobre o vigor do processo de industrialização durante o
período militar paralelamente à persistência da desigualdade na distribuição da
riqueza.
7. Ver, entre outros, Diniz (2007; 2008; 2010a; 2010b).
8. Para uma análise e descrição da agenda aqui referida, ver principalmente
Williamson (1990).
9. A corrosão da coalizão neoliberal foi analisada de forma detalhada em
trabalhos anteriores. Ver Diniz e Boschi (2004 e 2007); Bresser-Pereira e Diniz
(2009).
10. Em suas palavras: Por que o establishment internacional da política de
desenvolvimento (EIPD) e os PADs (países atualmente desenvolvidos) que o
controlam não recomendam as políticas implementadas há séculos pelos países
bem-sucedidos? Por que procuram impor aos atuais países em desenvolvimento
certas instituições da "melhor prática" que não foram aplicadas pelos PADs
quando se encontravam em estágios comparáveis de desenvolvimento? [... ] os
países desenvolvidos não estão tratando de "chutar a escada" quando insistem
para que os países em desenvolvimento adotem políticas e instituições
diferentes das que eles adotaram para se desenvolver? (Chang, 2003:229).
11. Veja-se, por exemplo, Bad Samaritans (2008).
12. Ver Diniz (2007) para uma análise mais exaustiva da contribuição de cada um
dos autores que participaram desse debate na esfera internacional.
13. "Muitas dessas ideias [...] são a base do que eu vejo como um consenso
emergente, o pós-Consenso de Washington. Um princípio que emerge dessas ideias
é o de que, qualquer que seja o novo consenso, não deve ser baseado em
Washington. Se políticas são para ser sustentáveis, países em desenvolvimento
devem reivindicar a propriedade delas" (Stiglitz apud Chang, 2003:49; tradução
livre).
14. O livro foi traduzido para o português sob o título A Globalização e seus
Malefícios. Explicando suas motivações ao escrever este livro, Stiglitz assim
se expressa: "Escrevo este livro porque, durante o tempo em que estive no Banco
Mundial, pude ver com meus próprios olhos o efeito devastador que a
globalização pode ter sobre países em desenvolvimento, em especial sobre as
populações pobres desses países. Acredito que a globalização [...] pode ser uma
força favorável [...]. Entretanto, também acredito que, se for esse o caso, a
maneira como a globalização tem sido gerenciada, incluindo os contratos
comerciais internacionais [...], bem como as políticas que têm sido impostas
aos países em desenvolvimento no processo de globalização, precisa ser
radicalmente repensada" (Stiglitz, 2002:9).
15. Tal como ocorreu em momentos históricos, marcados por crises externas
agudas. Ver Gourevitch (1986); Hall (2010).
16. Nas palavras de Bresser-Pereira, a primazia da ortodoxia neoliberal levaria
os países em desenvolvimento "a aceitar a tese globalista, segundo a qual, na
era da globalização, os Estados-nação haviam perdido autonomia e relevância:
mercados livres em todo o mundo (inclusive mercados financeiros) seriam
encarregados de promover o desenvolvimento econômico de todos".
17. Uma interessante discussão sobre a contribuição de Armatya Sen ao
enriquecimento do debate em torno do desenvolvimento encontra-se em Vita
(2008).
18. Como é sabido, o conceito de Desenvolvimento Humano é a base do Relatório
de Desenvolvimento Humano (RDH), publicado anualmente pelo PNUD/ONU (Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento). O IDH foi criado pelo economista
paquistanês Mahbud ul Haq com a colaboração do economista indiano Amartya Sen,
ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1998. Além de computar o PIB per
capita, depois de corrigi-lo pelo poder de compra de cada país, o IDH leva
também em consideração a expectativa de vida ao nascer e a educação, esta
última avaliada pelo índice de analfabetismo e pela taxa de matrículas em todos
os níveis de ensino.
19. Aplicando à América Latina sua já clássica distinção entre os poderes
despótico e infraestrutural do Estado, Mann (2006) destaca: "Poder despótico é
a capacidade das elites do Estado de tomar decisões sem uma rotineira
negociação com os grupos da sociedade civil. Em princípio, democracia não
envolve nenhuma forma de poder despótico, embora no mundo real todos os Estados
de alguma forma o pratiquem. Poder infraestrutural é a capacidade do Estado de
efetivamente implementar decisões em todo o seu território, não importa quem
tome as decisões. Isso também pode ser chamado de 'capacidade ou eficiência do
Estado'. Requer que os Estados tenham infra-estruturas que penetrem
universalmente toda a sociedade civil, através das quais as elites políticas
possam extrair recursos e fornecer serviços para todos os indivíduos" (2006:
166-167).
20. Esse argumento converge com a visão de Souza (2010).
21. Este ponto é desenvolvido de forma aprofundada em Diniz (2007:37-41).
22. Cito literalmente um trecho do autor: "Os anos de crise expõem forças e
fraquezas ao escrutínio de todos, permitindo aos observadores perceber relações
que eram pouco claras nos períodos de bonança, nos períodos de prosperidade,
quando os bons tempos quase anulam a propensão a refutar e a desafiar. Os anos
de crise são tempos em que se corroem antigas relações. E há que construir
novas instituições e novos padrões, novas formas de pensar e de agir"
(Gourevitch, 1986:9; tradução livre).
23. Uma discussão aprofundada das condições que levaram à crise da estratégia
nacional-desenvolvimentista e sua substituição por uma estratégia externa, a
ortodoxia convencional, encontra-se em Bresser-Pereira (2010:78-81).
24. Este ponto é o cerne do artigo Bresser-Pereira e Diniz (2009).
25. Trata-se do capítulo 20, cujo título é "Retomada da Revolução Nacional e o
Novo Desenvolvimentismo", no qual o autor afirma: "Com a grande crise dos anos
1980 e o colapso do regime militar, o velho nacional-desenvolvimentismo perdeu
legitimidade política, mas o fracasso do neoliberalismo em substituí-lo mostrou
com clareza a necessidade de um novo desenvolvimentismo" (Bresser-Pereira,
2003:414).
26. Ver, entre outros, Bresser-Pereira, 2005; 2007; Bresser-Pereira e Gala,
2010; Bresser-Pereira 2010.
27. Como ressalta Robert Boyer, em seu prefácio, "o autor forja seu diagnóstico
a partir de seu conhecimento fino e multiforme da experiência brasileira."
Entretanto, prossegue, "em vez de fechar-se na especificidade do
desenvolvimento da América Latina, Luiz Carlos Bresser-Pereira trabalha na
elaboração de uma teoria geral graças a permanentes comparações com outras
trajetórias, em especial a de certos países asiáticos" (op. cit. 2010:
prefácio).
28. Os autores situam-se em universidades de distintos centros acadêmicos
brasileiros, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Brasília e Minas Gerais.
29. Sob o título "Por que Novo-desenvolvimentismo?", o artigo reconhece pontos
convergentes com a argumentação de Bresser-Pereira, enfatizando, porém: "Além
de tópicos macroeconômicos adicionais, queremos explorar neste artigo algumas
outras questões que são fundamentais em uma estratégia de desenvolvimento,
principalmente a relação entre as esferas pública-privada, econômica-social e
nacional-internacional" (Sicsú, de Paula e Michel, 2007:508).
30. "Evolução e estado atual do pensamento desenvolvimentista no Brasil",
Palestra proferida na UFRJ em março de 2010, por ocasião da abertura do ano
letivo do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e
Desenvolvimento.
31. Agradeço a Bresser-Pereira a referência à relevância desse Encontro. As dez
teses sobre o novo desenvolvimentismo encontram-se no site
www.tenthesesonnewdevelopmentalism.org (acesso em 16 de fevereiro de 2011).
32. As dez teses em sua forma integral e a relação completa dos intelectuais
que subscrevem o documento estão disponíveis no site
www.tenthesesonnewdevelopmentalism.org.
33. Veja-se Erber (2002; 2008; 2009). Em outubro de 2009, o artigo sobre As
Convenções do Desenvolvimento no Governo Lula: Um Ensaio de Economia Política
foi substancialmente revisto para o IPEA, no âmbito de um convênio CEPAL/IPEA.
Esta última versão foi enviada pelo autor para ilustrar palestra organizada por
Eli Diniz como parte dos workshops INCT-PPED, entre abril e novembro de 2009.
34. Nas palavras do autor (Erber, 2009:2): "Formalmente, temos uma convenção
se, dada uma população P, observamos um comportamento C que tem as seguintes
características: (i) C é compartilhado por todos os membros de P; (ii) cada
membro de P acredita que os demais seguirão C e (iii) tal crença dá aos membros
de P razões suficientes para adotar C (Orléans, 2004)."