A demofobia na democracia moderna
INTRODUÇÃO
Ademocracia experimenta hoje quase que um consenso ao ser considerada o regime
mais legítimo no horizonte político. Todavia, ela vem sendo posta em xeque pela
crise da representação, pelo déficit democrático, pelo descrédito de suas
instituições, pela persistência e pelo agravamento de problemas sociais e
econômicos de toda ordem. Parece estar mergulhada em um paradoxo de consenso e
insatisfação. Para o filósofo Miguel Abensour (1998), tal paradoxo se apresenta
na figura de uma alternativa inarredável, da qual se faz crer não haver como
escapar: "estamos, nós, condenados a uma alternativa cujos termos seriam seja o
exercício temperado da democracia, seja o recurso ao antidemocratismo
clássico?". Para autores como Jacques Derrida (1994), a saída desse dilema
passa pelo desafio da Ciência Política de remontar à construção teórica da
democracia para desfazer a aparente alternativa inarredável.
Este artigo se inscreve na perspectiva dessa tarefa. Para isso, tenta ampliar a
latitude da pesquisa democrática, investigando o pensamento de autores que
refletiram não necessariamente o governo democrático já instaurado
institucionalmente, mas o processo de produção de noções nascentes de
democratização sob o contexto do protagonismo das massas no cenário político.
Busca-se, portanto, analisar como as reflexões de alguns autores contribuíram
para a construção teórica da democracia, seja orientando suas questões, seja
dando subsídios à sua institucionalização. Nesse sentido, esta pesquisa
açambarca o pensamento de autores que desenvolveram as primeiras noções
intelectuais e abstratas de democracia.
Exploram-se algumas proposições teóricas presentes na obra dos pensadores
Benjamin Constant, Alexis de Tocqueville, James Madison (e os federalistas),
Stuart Mill, Vilfredo Pareto e Joseph Schumpeter. Entende-se que tais autores,
que experimentaram os tempos de ascensão revolucionária das massas, formularam
proposições reiteradas sobre a dúvida na possibilidade de a multidão se
governar. A partir do estudo desses autores, este trabalho sugere como hipótese
que a teoria democrática se reinventou na modernidade tendo em relevo o medo
das massas - e todos seus correlatos, como o terror, a aversão e o desprezo.
O objetivo deste artigo é, a partir dessa perspectiva, mostrar a existência de
premissas e princípios associados ao medo (e seus correlatos) em relação à
emergência do demos na política moderna. Esses princípios constituem o que se
chamou de demofobia, engendrando um oxímoro político (a democracia demofóbica)
e formando um obstáculo epistemológico para a teorização. A visão desenvolvida
neste artigo associa-se à visão de Etienne Balibar (1997) que, em estudo sobre
a obra de Spinoza, caracteriza o "medo das massas" como o problema primordial
desenvolvido na modernidade.
Frisa-se aqui que a hipótese demofóbica pode ser aplicada a diferentes
correntes políticas, dado o caráter comum do medo em relação às massas no
pensamento político moderno. Como se averigua, a historiografia é rica em
evidências do medo, medo esse que ocorre concomitantemente à ascensão do povo
ao cenário político - e a formulação das ideias democráticas não foi alheia a
isso. Assim, esta análise pode, certamente, se aplicar às proposições de alguns
pensadores socialistas do século XIX, como o faz esta autora em seu trabalho de
pesquisa. No entanto, por razões práticas, este trabalho restringe-se ao estudo
dos autores que, embora de matizes diferentes, são identificados como liberais.
Além disso, os autores desse campo apresentam relevância, se se considerar que
o momento liberal tomou parte substancial na construção da democracia.
A argumentação deste artigo estrutura-se em três seções. Segue-se a esta
primeira seção, de caráter introdutório, a segunda seção subdividida em seis
temas-chave, a partir dos quais se expõe algumas proposições teóricas
constituintes da demofobia moderna. Nesse momento, ressalta-se como essas
teorias enunciaram os problemas relativos ao governo do "grande número",
sentenciando a subsunção do demos no governo de todos e a redução da presença
das massas na política,preconizando a exterioridade dos modos de organização e
a racionalização da gestão do grande número. Esta análise passa pelo estudo em
torno da acepção do termo povo no vocabulário político. Na terceira seção,
reservada às considerações finais, sistematizam-se as proposições analisadas e
conceitua-se a demofobia. Concebida como obstáculo epistemológico (Bachelard),
ela insere-se em duas dimensões: na dimensão da "dialética moderna temor-
proteção" (Paolo Virno), tendo como foco a dicotomia povo-multidão, e na
dimensão dos "modos de governar" (Foucault), tendo como centro a população. Por
fim, soma-se à terceira seção uma "breve nota sobre uma demofilia", na qual se
esboça uma agenda de pesquisa, que tem como método a genealogia de princípios
democráticos.
AS CLASSES PERIGOSAS E OS TERMOS DA DEMOCRACIA DEMOFÓBICA
O estudo das proposições que constituíram o pensamento democrático precisa
levar em consideração dois aspectos. O primeiro aspecto consiste na apreensão
da figura do povo, que se constituiu em uma questão em si tanto para os
teóricos, historiadores e sociólogos, quanto para os próprios atores políticos
modernos (Arthur Rosenberg, 1986). Como nota Yves Surel (2009), a noção de povo
não deixou de ver seus usos se multiplicarem e sua legitimidade se reforçar
desde o século XVIII, quando o povo se tornou o "soberano" legítimo da
política. Não obstante o uso do termo tenha sido intensificado ao longo da vida
moderna, seu conteúdo permaneceu inapreensível, vacilante e fluido.
Na acepção política, o povo designava uma comunidade política, a ficção
hobbesiana de uma entidade homogênea, entendida como fundadora da soberania e
associada à ideia rousseauniana da vontade geral. Já na perspectiva social, o
povo designava uma fração dessa comunidade, o povo-classe1, que passou a ser
associado, no contexto da revolução industrial e da transformação econômico-
social, à "parte mais baixa" da população e desprovida de propriedade. Como
argumenta Surel, essa dupla conotação ao mesmo tempo universal e particular fez
com que a significação do termo povo se tornasse dependente dos usos a ele
associados.
A definição de povo como sujeito da democracia constituiu, na visão de
Rosanvallon, um problema para a política moderna e ganhou expressão, sobretudo,
ao longo do debate sobre o sistema de representação política, seja do tipo
classista, corporativo ou profissional2.De certa forma, esse sistema tentava
reduzir a soberania popular à representação, o conteúdo sociológico à fórmula
política. "O povo não existe senão através de representações aproximativas e
sucessivas dele mesmo", afirmou o autor (1998:15). Isso ocorreu de tal modo
que, na democracia dos modernos, a representação transformou o povo, nas
palavras de Rosanvallon, em um "senhor indissociavelmente imperioso e
inapreensível" (ibidem). Por isso, para esse autor, o povo tornou-se uma figura
do tempo na modernidade.
Também para Rosenberg, o povo constituiu "o sujeito problemático da democracia"
(1986). Atendo-se à concepção socialista, Rosenberg ressaltou a acepção do
povo-classe como fundamento democrático. Para ele, ao longo da modernidade, o
povo foi identificado com o proletariado, sendo posteriormente acompanhado do
campesinato, dos artesãos e do intelectual empobrecido para, em seguida,
fragmentar-se na distinção do lupemproletariado, pequena burguesia e
operariado3.A partir do aumento da classe operária, foi essa classe que passou
a expressar a condição de desprovimento. Na visão de Surel, porém, o povo-
classe assemelhava-se à populaça, aos miseráveis, aos descamisados e toda essa
vasta sinonímia dos sem propriedade.
Com efeito, a variabilidade produzida em torno do sujeito da democracia pode
ser em muito ampliada quando se remonta à era clássica. O termo demos, ao qual
os gregos se referiam para definir o sujeito de sua democracia4, derivou-se do
termo dçmo ou deme, que denotava uma área geográfica composta por aldeias e
habitada por camponeses pobres, situadas na região Ática, onde se localiza
Atenas. Como explicou Ellen Wood (2003), as reformas implementadas por
Clístenes (508 e 507 a.C.) possibilitaram que esses aldeões adquirissem sua
condição cívica em virtude de sua participação no demos e estabeleceram o dçmo
como unidade constitutiva da pólis, o que representou essencialmente a fundação
da democracia.
Com base nesses estudos históricos, Wood considerou que a democracia
significava o desafio do governo de classe, aquele em que o demos ou o homem
comum desafiava a dominação dos ricos. Essa concepção se aproximou da de
Aristóteles, que em Política considerou que a democracia consistia no governo
do demos, isto é, no governo dos pobres enquanto maioria - ou seja, os pobres
eram tão numerosos que formavam a maioria.
Mas é preciso considerar, com Surel (2009), que a noção de povo apresentou um
caráter retórico que demanda exploração. O produto dessa retórica foi a enorme
polissemia, a partir da qual se podem ter indicações indiretas sobre o conteúdo
da noção. Por isso, o significado do termo depende do uso que se faz dele. Para
Surel,a noção de povo era apresentada tanto positivamente, o que ocorria
especialmente nas democracias, quanto negativamente5, quando o povo era
considerado uma ameaça. Ele observou, curiosamente, que essa noção foi
frequentemente acompanhada de uma carga afetiva.
Por essa razão, entende-se que a apreensão do sujeito político moderno e, por
conseguinte, da construção da democracia pode se dar através da identificação
dos atributos e predicados relacionados à figura do povo, ou seja, por meio do
que se afirmou ou se negou a respeito desse sujeito político. Reconhecendo a
variabilidade terminológica e a recriação e reformulação da linguagem política,
tratou-se, portanto, de compreender como os recursos retóricos combinaram-se às
acepções políticas da noção de povo e como essa noção marcou a concepção da
democracia moderna.
O segundo aspecto diz sobre o cenário moderno, a emergência do povo como
sujeito político coincidindo com tormentas revolucionárias e produção
imaginária fértil. Sabe-se que a efervescência revolucionária marcada pelos
eventos de 1789 e estendida ao longo do século XIX na Europa6, notadamente o
período insurrecional de 1830 e 1848 e a Comuna de Paris em 1871, imprimiu
fortes marcas na teorização da democracia moderna. Tais eventos concentrados
primeiramente no território europeu, tendo a França como epicentro, e no
território americano, tendo os EUA como protagonistas, fizeram da prática
revolucionária a produtora do imaginário e dos valores democráticos.
Embora as multidões demonstrassem um protagonismo crescente na política, ver-
se-á que a formulação desse sistema moderno chamado de democracia não se
definiu por uma crença uniforme e ilimitada no governo do povo. Nesse processo
de invenção da democracia moderna, identificava-se, mesmo nos pensadores mais
crédulos, sob as formas mais sutis, a crença na impossibilidade de o povo
governar-se. Considerando-se essa hipótese, a emergência da massa na política
fez da conversão de um povo governado em povo governante uma questão candente e
quase intransponível para a construção da democracia moderna. Encontram-se aí
as raízes das formulações políticas de natureza demofóbica.
A frequência dos levantes no período pós-1789 levou teóricos como Rosanvallon a
dizerem que se vivia, especificamente no caso da França, a "cultura das
insurreições". Essa "cultura" suscitava verdadeiro pavor nas classes detentoras
do poder político. A atmosfera de repressão, os rumores, as barricadas, os
massacres e o derramamento de sangue tomaram conta do cenário, confundiram-se
com a revolução, foram associados à anarquia e determinaram o modelo da
democracia.
Essa multidão foi apreendida, sobretudo, pelo seu caráter de bara funda, malta
tumultuosa, amotinável, avessa ao controle e à ordem. Reforçava-se nesse embate
revolucionário o medo da democracia perigosa e, mais ainda, a derivação de uma
tirania da maioria. Por essa razão, como sintetiza Rosanvallon (1992:26), é
impossível compreender a história instável da democracia sem relacioná-la às
fobia se às contestações que obsedaram o imaginário político dos atores da
época. É importante notar que os corolários políticos suscitados por tais
imagens ditaram todo o andamento da experiência democrática nascente ao longo
do século XIX e se reformularam ainda na fase de consolidação do sistema
democrático no início do século XX.
a) O "Grande Número" sob o Critério do Esclarecimento
A determinação do demos foi fundamental na constituição de uma teoria da
democracia moderna. Benjamin Constant, por exemplo, considerou que nenhum povo
tomava como membro do Estado todos os indivíduos residentes em um território.
"A mais absoluta democracia estabelece duas classes: uma composta por
estrangeiros e aqueles que não atingiram a idade prescrita pela lei para
exercer seus direitos de cidade [cidadania]; e outra formada por homens que
atingiram a idade determinada e os nascidos no país" (Constant, 1997:366)7.
Dessa forma, produzia-se a compreensão de que era necessário possuir certo grau
de esclarecimento (nem crianças, nem jovens o teriam), e também partilhar do
interesse comum para fazer parte de uma associação (supõe-se que estrangeiros
não partilhavam esse mesmo interesse).
Esse esclarecimento se estabeleceu como condição à democracia, impondo-se como
critério para considerar que nem mesmo os nascidos no país ou os homens na
idade madura apresentavam necessariamente qualidades próprias para o exercício
da cidadania. Estabelecido desse modo, o critério pesava sobre pobres e
trabalhadores, relegados à classe estabelecida pela "mais absoluta democracia"
como excluída de direitos de cidadania. "Aqueles que a indigência mantém em uma
dependência eterna , e que ela condena a trabalhos cotidianos, não são nem mais
esclarecidos que as crianças sobre os negócios públicos", afirmava Constant,
"nem mais interessados que os estrangeiros a uma prosperidade nacional, do qual
eles desconhecem os elementos e de qual ele partilha somente indiretamente as
vantagens" (ibidem: 367).
Ficou claro que, na concepção de Constant, a definição do demos como sujeito da
política encontrou fundamento no critério iluminista do esclarecimento.
Entendia-se que a classe trabalhadora, a despeito de qualidades como a
prontidão para os mais heroicos sacrifícios e a dedicação patriótica, não
apresentava as imprescindíveis condições de ilustração. Também o patriotismo
que dava "coragem de morrer pelo seu país" não a habilitava a conhecer os
interesses desse país. Para Constant, era "preciso, portanto, uma condição a
mais do que o nascimento e a idade prescrita pela lei. Essa condição [era] o
lazer indispensável à aquisição das luzes, à retidão do julgamento" (ibidem:
367).
O esclarecimento era mais do que condição para a participação política8. Ele
estava intimamente relacionado à propriedade. Para Constant, "[...] só a
propriedade torna os homens capazes de exercer os direitos políticos".
Afirmações como essas se prolongaram ao longo do século XIX, de sorte que
passaram a servir de medida para essa sociedade em processo gradual de
democratização, associando assim o esclarecimento a um ideal fisiocrático e,
por extensão, burguês (já que à ideia de propriedade fundiária se seguiu o
reconhecimento de práticas mais modernas como a indústria). Nesse contexto,
negar a relação entre esclarecimento e propriedade significava contrariar fatos
evidentes9. Como questionava Constant, "o operário não tem atrás dele a fome
que o pressiona, que mal o deixa um instante para discutir seus direitos, e que
o dispõe logo a vender seu tempo e suas forças abaixo de seus valores?" (ibidem
:551). Sieyès igualmente indagava: "É possível olhar como cidadãos os mendigos,
os vagabundos voluntários ou os sem domicílio?"10 (apud Rosanvallon, 1992:68).
Embora Constant rascunhasse, a partir da teoria de Adam Smith, uma teoria da
exploração do trabalho vendido a baixos valores, isso não permitiu que a
política oferecesse uma forma de superação dos dados da realidade. Também
Sieyès baseou-se na evidência para considerar uma"contradição"a inserção dos
populares na comunidade dos iguais. Em 1789, ele formulou a distinção
paradigmática entre cidadão passivo e ativo, isto é, entre aqueles que
legalmente tinham direitos civis e eram limitados em seus direitos políticos e
aqueles que gozavam de direitos civis universais e ainda eram dotados de plenos
direitos políticos (Rosanvallon, 1992:66-100).
A consequência desses princípios reafirmou na política a discriminação entre os
mais ricos (proprietários) e os mais pobres (não proprietários) mesmo no
interior da ordem democrática. Isso ocorria não somente pelo espírito de
preservação presente nos proprietários ligados à terra, espírito esse julgado
tão necessário às associações políticas; ocorria também por serem esses homens
senhores de sua existência, isto é, independentes em relação a outros homens,
não tendo que se sujeitar ao trabalho. Subjacente à visão racionalista-
iluminista estava o medo de que os direitos políticos cedidos ao "grande
número" servissem "infalivelmente para invadir a propriedade" (ibidem: 368). A
demofobia se revelava aqui como prevenção contra a expropriação pela ação do
número.
A necessidade dessa discriminação fundamentava-se na certeza de que o objetivo
dos não proprietários era, nas palavras de Constant, alcançar a propriedade por
meio de uma "estrada irregular, em vez de seguir a estrada natural, o
trabalho". Ou seja, a não discriminação seria "fonte de corrupção" para os não
proprietáriose"fontededesordem" para o Estado. De acordo com a observação de um
escritor, cujo nome não foi revelado por Constant, os não proprietários dotados
de direitos políticos tendiam a 1) destruir a sociedade a partir de um impulso
próprio, 2) servir de instrumentos de tirania quando impulsionados por homens
no poder, 3) ou servir de instrumento de facção quando impulsionados por
aspirantes ao poder (Constant, idem: 369).
O fato de os proprietários terem sido autores de "leis absurdas" e
"espoliadoras" durante a Revolução de 1789 era justificado de maneira a
responsabilizar os colegas não proprietários: "os proprietários tinham medo dos
não proprietários revestidos de poder" (idem: 370). Embora Constant acreditasse
que a deliberação racional e as reflexões filosóficas elevadas não eram
dissociáveis das paixões e dos interesses (1992:20), ele julgava que os não
proprietários haviam viciado a razão daqueles homens ilustres. "O temor de
perder o que possuímos nos torna pusilânimes, e então se imita o furor daqueles
que querem adquirir o que não têm. Os erros e os crimes dos proprietários foram
consequência da influênciados não proprietários", arrematou (ibidem).
b) Paixão e Razão, Desprezo e Temor em Relação à Massa
Alexis de Tocqueville foi um dos autores que melhor expressou no pensamento
político a força dos atemorizantes eventos revolucionários e multitudinários
que obsedaram o horizonte teórico. As lembranças das jornadas revolucionárias
de 1848, escritas entre suas duas grandes obras, Democracia na América (1835 e
1840) e Antigo Regime e a Revolução (1856), guardaram um caráter especial da
teoria política do autor: a obra transmitiu toda a dramaticidade de seu tempo,
na qual Tocqueville foi ao mesmo tempo autor dos relatos e ator nos eventos
rememorados11. Ela exprimiu a sensibilidade de um homem de alma originariamente
aristocrática que, apesar de convencido da inevitabilidade da democracia,
demonstrava sua impressão a respeito do protagonismo popular em um testemunho
permeado pelo medo.
Nessas memórias, Tocqueville afirmou diversas vezes a incapacidade do povo, que
para ele era "[...] incapaz e indigno de viver livre", "sempre o mesmo: tão
impaciente, tão irreflexivo, tão desprezador da lei, tão fraco diante do
exemplo e temerário diante do perigo como o foram seus pais" (1991:88).
Todavia, em Tocqueville, o medo do qual se derivou o elemento demofóbico da
democracia moderna apresentou-se em matizes diversos, se confundindo, por
vezes, com asco e desprezo despertados pela constituição física do povo - o que
era próprio daqueles espíritos altivos da aristocracia remanescente e da
burguesia emergente.
Na ocupação da Assembleia francesa pelos insurgentes em fevereiro de 1848,
Tocqueville fez questão de notar que eles "[...] fediam a suor, embora a
natureza e o estado de suas roupas não devessem tornar-lhes o calor muito
incômodo, pois estavam bastante mal vestidos" (ibidem:133). E ainda nessa mesma
direção, Tocqueville ateve-se a uma descrição minuciosa do aspecto físico do
revolucionário Auguste Blanqui, presente naquela ocasião (idem:134). Contava
que a lembrança daquela visão o enchia de "[...] aversão e horror: [Blanqui]
tinha as faces macilentas e murchas, os lábios brancos, o ar doentio, malévolo
e imundo [...]". Identificava nele "uma palidez suja, o aspecto de um corpo
bolorento, sem nenhuma roupa branca visível, uma velha sobre-casaca negra,
grudada sobre membros franzinos e descarnados". Aos olhos de Tocqueville,
Blanqui "parecia ter vivido em um esgoto de onde acabava de sair".
De acordo com essa forma de conceber as coisas no mundo, os aspectos morais e
os físicos apareciam até mesmo coincidentes, aversão física e moral se
conjugavam juntas. Em muitos relatos dessa época, repugnância ao caráter físico
e horror ao avanço político do povo alternavam-se. Aspectos pejorativos, que
iam desde a aparência física tosca e repugnante de personagens populares à
ausência de liderança e comportamento desmedido resultado de suas paixões
irrefreadas, eram ressaltados. Era como se aspectos físicos acompanhassem, por
ordem natural das coisas, a organização coletiva.
Bem antes dos eventos de sublevação nos anos 1840, em carta ao amigo Kergolay
(11 de novembro de 1833), Tocqueville observava que, nos esforços pelo bem da
humanidade, "há pessoas que trabalham para fazer o bem dos homens os
desprezando e outros, os amando" (1977:345). Ele considerava que há algode
"incompleto,derudeedeorgulhoso" nos primeiros. "Eu gostaria de estar entre os
últimos; mas frequentemente eu não o posso. Eu amo o homem em geral, mas
encontro sempre tantos indivíduos que me repugnam pela baixeza de sua alma
[...]" (idem:346).
Em outro momento de sua obra, Tocqueville lançou mão de uma reflexão sobre os
instintos, tema tão em voga em sua época. Ele avaliou que os homens sempre
retornavam mais ou menos a "seus instintos fundamentais". No seu caso: "[...]
Tenho pelas instituições democráticas um gosto intelectual [goût de tête], mas
eu sou aristocrata por instinto, quer dizer, eu desprezo e temo a massa. Eu amo
com toda paixão a liberdade, a legalidade, o respeito dos direitos, mas não a
democracia", escreveu (in Oeuvres Completes, Paris, Gallimard, 1952-91, t III-
2:87 apud Capdevila, 2007:12). "Eis o fundo da minha alma [...]". Não sendo nem
do partido revolucionário nem do partido conservador, ele considerava que se
aproximava mais do segundo que do primeiro, muito embora se distanciasse no que
se referia à salvação da liberdade por meio da restauração da monarquia. Sob
esse aspecto, Tocqueville não negava a inarredável evolução de elementos
democráticos na sociedade - e nesse sentido, porque conformava-se com essa
evolução, ele era um democrata.
Por outro lado, sua sensibilidade de origem aristocrática apreciava uma
disposição de coisas que a democracia tendia a dissolver. Isso gerava
inquietudes, como a possibilidade da expansão das luzes [lumières] a todo povo
- segundo Tocqueville, havia um aparente consenso nos Estados Unidos sobre a
necessidade dessa expansão. A esse propósito, Tocqueville comentou com o amigo
Kergolay, em carta do dia 29 de junho de 1831: "Você sabe quantas vezes na
França nós (nós e mil outros) nos atormentamos o espírito para saber se se
desejava ou se temia a penetração da instrução em todas as escalas da
sociedade" (1977:226). O sentimento ambíguo de Tocqueville revelava a apreensão
quanto ao apoderamento pelas classes pobre ser evolucionárias do conhecimento.
A dimensão do medo teve um papel fundamental na circunscrição dos limites da
democracia. Em um estudo sobre Tocqueville, o filósofo Capdevila ressaltou que
o temor estava no cerne desse trabalho de circunscrição, que constituía em si
um esforço para distinguir o regime democrático do movimento revolucionário.
Para Capdevila, Tocqueville estava ciente da dificuldade em "distinguir o que,
estando intrinsecamente ligado à revolução, devia desaparecer com o advento da
democracia" (2007:7). Por isso, ele denunciava todas as doutrinas que
pretendiam, em todos os sentidos, levar aos extremos os princípios da
revolução. "Vocês pensam que após terem destruído a feudalidade e vencido os
reis, a democracia vai recuar diante dos burgueses e ricos? [...] Aonde iremos,
então? Ninguém sabe dizer, pois já nos faltam termos de comparação" (Democracia
na América,DA12,I,introd.apud Capdevila, 2007:7). Nota-se que Tocqueville
observava com certa angústia que o processo de democratização não só encontrava
sua origem moderna na revolução, como se confundia com esta.
A rejeição à revolução e a defesa da democracia constituíram uma dimensão
importante no pensamento de Tocqueville e podem ser associadas à perspectiva
demofóbica. Capdevila observou muito bem que essa rejeição resultou em uma
"aceitação racional" da democracia. Isso equivalia a reconhecer que havia uma
luta entre instinto e razão na adesão de Tocqueville ao governo democrático.
Para Capdevila, o estudo sobre a democracia na América era uma amostra de que o
instinto podia ser vencido e dominado. Mas, ainda que isso ocorresse, Capdevila
não ignorou que "[...] o desprezo e o medo da multidão [foule]continuam a
trabalhar a razão".
Esse autor observou, por exemplo, que foi sob o medo do socialismo que
Tocqueville defendeu a Revolução de 1789 e a democracia13.O próprio Tocqueville
entendia, em termos gerais, a influência da dialética entre razão e paixão na
atividade humana: "É a paixão que conduz o mundo; ou, ao menos, a razão não faz
seu caminho senão quando ela encontra alguma paixão que queira por acaso lhe
fazer companhia"14 (Lettres Choisies, Souvenirs. Paris, Gallimard, 2003:691-692
apud Capdevila, idem:14).
A partir dessas considerações, Capdevila ressaltou o medo evocado por
Tocqueville, mas o considerou inerente à vida política e, portanto, quase
trivial. Argumentou de modo a naturalizar a existência desse afeto: "Imaginem
um observador assistindo ao advento universal da aristocracia. Não seria tomado
por um terror religioso diante do desenvolvimento crescente e implacável da
desigualdade?" (2007:20).
Ora, se medo e desprezo constituíam elementos inerentes à vida política, está
aí uma razão para serem levados em conta no processo histórico. Jean Delumeau é
um autor que não só considerou essa dimensão importante,como também a valorizou
em estudos sobre o medo no ocidente (1978). Também Michel Foucault, na busca
por eventos onde menos se esperava encontrá-los, entendia ser importante se
deter no que não parecia haver nada de história, como os sentimentos e
instintos (1971). Para Proudhon, "o medo do povo é o mal de todos aqueles que
pertencem à autoridade" (Les Confessions d'un révolutionnaire [1849], Dijon,
Les Presses du Réel, 2002:160 apud Capdevila, 2007:13). Para esse socialista, o
medo, como instinto conservador, seria uma condição inseparável das revoluções.
A dialética tocquevilliana da paixão que trabalhava a razão e da razão que
trabalhava os instintos resultou na defesa de uma democracia que progredisse em
um compasso moderado. Capdevila notou que Tocqueville lutou para a moderação se
tornar uma possibilidade dentro do movimento da democracia, que até então era
indistinguível da revolução. Tocqueville, nesse sentido, deu início a uma
disputa interna ao espaço democrático, esboçando limites para caracterizar o
regime e intervindo contra democratas autoproclamados. Ele operou a distinção
entre o desprezível povo revolucionário e o admirável "povo propriamente dito",
destacando, em relação a esse, "seu sentimento de ordem" e seu "amor verdadeiro
pelo país". Não obstante fosse desprovido de saber, esse povo era admirável por
ter sabido resistir à tentação socialista (Lettres Choisies, 2003:623 apud
Capdevila, 2007:15).
O mesmo trabalho de distinção aplicava-se à divisão, nas categorias do autor,
entre uma democracia falsa e uma verdadeira, que se sobrepunha à cisão entre
democracia antiga e democracia nova (ou democracia dos modernos). Para
Tocqueville, essa distinção se realizava com a construção de um saber político
que fosse capaz de "dirigir", "instruir" e "corrigir" a democracia nascente - e
para Capdevila, "o medo é um dos motores dessa ciência política" (ibidem: 27).
Essa "ciência" era divisada como um instrumento para colocar nos eixos o
processo democratizante na Europa que, na sua visão, estava "abandonada [o] a
seus instintos selvagens", uma vez que as classes superiores não tinham se
apoderado da democracia para dirigi-la (DA, introd.: 8 apud Capdevila, idem:
9). Em consonância com Tocqueville, o ideólogo da monarquia de Julho, Édouard
Alletz, entendeu que, diferentemente da democracia antiga em que reinava o
grande número, na "democracia nova" a burguesia abria o governo àqueles que o
mereciam pela educação e propriedade (apud Capdevila, idem:9).
Capdevila observou que, para Tocqueville, o saber político tinha como objetivo
fazer a democracia descobrir "seus próprios interesses", "tomá-lapelamão"(DA,
I, introd., 8e13), regraras vontades "vacilantes" e seus agentes "brutos" (DA,
I, II, 9, 366), "conter" suas propensões "nos justos limites" (DA, I, II, 9,
360 apud Capdevila, idem: 27 e 34). As "paixões irrefletidas" (DA, I, II, 8,
303) e os "limites insuperáveis das luzes" do povo premido pela necessidade de
trabalhar tornavam esse povo "incapaz de se governar duravelmente. É preciso
que uma nova classe superior substitua a antiga", analisou Capdevila (idem:34).
Essa classe superior ganhou seu lugar no corpo de legisladores que formou, a
partir daí, "a aristocracia democraticamente aceitável". Tocqueville entendia
que mesmo o legislador que provinha do povo tornava-se, pelo saber que o
convertia em superior e pelos hábitos aristocráticos adquiridos, parte dessa
"elite democrática"15 (DA, I, II, 8, 307 apud Capdevila, idem: 34 e 35). Essa
"elitização", assim, se tornou sinônimo do bom governo democrático.
Tocqueville revelou ainda uma curiosa visão em torno da determinação da vontade
do povo e da representação política - assunto bem explorado por Capdevila e
interessante à análise demofóbica. Na sua reflexão sobre a democracia, a
discussão em torno da extensão do sufrágio era secundária ,demo do que o
sistema democrático tornava-se, na sua concepção, passível de ser reduzido ao
governo de um só16,desde que a vontade popular fosse de alguma maneira
expressa. "Toda vez que o governo de um povo é a expressão sincera e permanente
das vontades do maior número, o governo, quaisquer que forem as formas, é
democrático", argumentou (Oeuvres, t. 2,997 apud Capdevila: 41 e 42). Para
Tocqueville, não importava se a democracia tinha a forma de uma confederação,
uma monarquia ou uma república, já que todas essas formas permitiam a expressão
da vontade do povo. A redução dos representantes políticos envolvia a ideia do
"reino de todos e governo de um só" e parecia ainda mais pertinente diante da
rejeição ao dogma da infalibilidade. Com isso, Tocqueville acreditava que se o
governo de um só era falível, tanto mais o era o poder do grande número, pois a
reunião de muitos homens falíveis em uma multidão não os tornava infalíveis,
ainda mais se a maioria fosse pouco esclarecida e imersa em paixões.
Conhecer a vontade do povo ou da maioria havia se tornado uma questão em si:
duvidava-se que o próprio povo conhecesse sua vontade. Nas palavras do
socialista Louis Blanc, a questão era de "saber qual é a vontade do verdadeiro
povo" (apud Capdevila, idem :44; ênfase no original). A dificuldade em
determinar as vontades do povo se agravava quando se considerava que o próprio
povo não conhecia suas próprias vontades (DA, I, II, 5: 253). Como ressalta
Capdevila, para esses autores, um povo que não conhecia suas vontades reais era
um povo que tinha rebaixada sua soberania (DA, I, II, 5, 253). Vista desse
ângulo, a vontade do povo se tornava objeto de indeterminação: "ele [o povo]
está dividido em classes e a parte majoritária e preponderante é aquela que tem
menos capacidades para traduzir adequadamente sua vontade e aquela do povo-
todo", assinalou Capdevila (idem:43).
Para além do desprezo em relação à multidão e do temor a respeito do conteúdo
revolucionário dado à democracia, o traço demofóbico se expressou também na
reflexão a respeito da opressão da maioria17 sobre a minoria. Nessa
perspectiva, a democracia apresentava em seu código genético uma tendência
temível, sobretudo, aos olhos da minoria outrora aristocrática. Com efeito,
esse tema ganhou relevo no contexto das grandes revoluções. É verdade que
Aristóteles já mencionava a possibilidade ou o risco da degeneração da
democracia em oclocracia (entre os modernos, Rousseau, Hegel), isto é, em
governo exercido pela maioria violenta, corrupta e viciosa. Mas, com a visão do
tipo liberal, essa degeneração se firmou como tendência.
Na reflexão de Tocqueville, todas as democracias pareciam guardar entre si, a
despeito de suas singularidades históricas, esse traço comum fundamental. Havia
um conteúdo radical inerente às democracias, sejam elas revolucionárias ou não.
Mesmo a democracia norte-americana, que Tocqueville distinguia como uma "forma
não revolucionária da revolução democrática" (Capdevila, idem:25), podia se
assemelhar, nesse ponto, à democracia revolucionária francesa. Ambas continham
um elemento fundamentalmente revolucionário e, portanto, opressor e temível.
Nessa perspectiva, por mais que americanos ignorassem as paixões
revolucionárias, usufruíssem de uma sociedade com relativa igualdade de
posições sociais e livre de uma aristocracia multissecular, também a democracia
americana trazia em si a possibilidade da tirania da maioria, em que esta se
supunha superior ao indivíduo. Por isso, pode-se entender com Capdevila que a
ideia de "[...] tirania da maioria funciona como um substituto da luta
revolucionária" (ibidem:32). E, come feito,as democracias, por definição,
comportavam o risco do governo de uma massa todo-poderosa, ameaçadora e
opressora.
A possibilidade inerente da tirania na democracia não provocava apenas o medo
comum à política, o da morte violenta, mas um conjunto de novos temores: de
perda dos bens materiais, de propriedade, de bem-estar e de posição (status),
que consistiam, enfim, na ameaça de proletarização a partir da multiplicação do
número de pequenos proprietários e da generalização da igualdade (DA, II, III,
21, 781 apud Capdevila, ibidem:25). No entanto, a mitigação da tendência
revolucionária trazia à democracia tendências conformista se conservadoras, nas
quais Tocqueville entrevia o despotismo democrático: indivíduos aceitando
qualquer governo desde que a segurança do bem-estar e a ordem na sociedade
fossem garantidas.
c) Construções Semânticas, Ideias Políticas
A concepção sobre o papel e a capacidade do povo estava presente da imprensa à
literatura pitoresca. Nesses textos, os populares de Paris eram representados
como feios e, antes mesmo de qualquer gesto ameaçador, o horror se impunha já
na aparência física (Chevalier, 1984), frequentemente aproximando o popular ao
selvagem18.O aspecto selvagem e assustador não constituía mero recurso
literário, mas também servia à metáfora política.
Para Tocqueville (1991), a multidão das jornadas revolucionárias de 1848 que
ocupou a assembleia, aparentemente sem liderança, tinha aspecto de "barafunda e
não [de] uma tropa". Para ele, "a maioria parecia somente presa de uma
excitação febril provocada pelo arrebatamento, pelos gritos de fora, pelo
abafamento, pela compressão e pelo mal-estar do ambiente [...]" (ibidem). Ele
não deixou de registrar a presença de homens bêbados entre a massa - e, vale
lembrar com Chevalier, o alcoolismo já era um vício associado às classes
populares.
Essas imagens compunham a memória coletiva fortemente presente na alma dos que
testemunharam o advento do avanço do povo revolucionário e das ideias
democráticas na política moderna. Elas próprias foram frutos de imagens
antecedentes, alocadas na memória coletiva alimentada pela fúria das multidões
e registradas nos arquivos históricos franceses, relatórios policiais e médicos
que retratavam o povo às vésperas da Revolução Francesa (Chevalier, 1984).
Foram imagens repetidas ao longo do turbulento século XIX.
O historiador Hippolyte Taine reproduziu alguns desses registros ao falar de
camponeses cujos cérebros eram considerados "muito primitivos, vazios de ideias
e povoados por imagens", de modo que "necessitam de ídolos na terra assim como
no céu" (1902). Em contraste com a retórica iluminista, a imaginação popular
foi afirmada como plena de imagens fantásticas e ideias supersticiosas, de
inaptidão a concepções abstratas e a noções de ordem social. Taine chegou a
considerar que a condição social do camponês era quase a mesma "do seu boi e de
seu asno". Acrescentou: "julguem por isso sua inteligência política" ([1875]
1902:284). Ele acreditava que a multidão, sem liderança e organização, não
passava de uma turba; o populacho, livre do freio ao qual foi acostumado,
abandonar-se-ia a violências cruéis sem saber, ele mesmo, o momento de lhes dar
um fim (idem:280).
Os episódios identificados como insubordinação e desconfiança entre classes
eram latentes nas relações sociais. Nos dias que antecederam a Revolução de
1789, a insubordinação era percebida no simples fato de que, ao entrar em
quaisquer recintos e oficinas, "os moços [não mais] retiravam seus chapéus";
naqueles dias, nota o escritor Louis-Sébastien Mercier, "eles se contentam de
vos olhar e rir de maneira desprezível e sarcástica" (Tableau de Paris apud
Taine, 1902:287). Nas palavras de Madame Yigée-Lebrun, eles "nos olhavam com
insolência; alguns deles nos ameaçavam mesmo com seus grandes porretes" (apud
Taine, idem). Alguns registros davam conta de miseráveis que subiam os degraus
de carruagens gritando: "no próximo ano sereis vós atrás das carroças e
estaremos nós dentro"(apud Taine, idem:288). Ao que destacou Chevalier (1984),
havia um desprezo mútuo expresso no quotidiano das ruas e frequentes eram as
ocorrências policiais registradas por burgueses atingidos por lama ou pedras,
golpeados e agredidos nas ruas de Paris.
Rosanvallon entendeu que a desconfiança entre classes consistia em uma dimensão
dos medos sociais (1992). Tocqueville, por exemplo, via o medo se instalar nos
lugares mais insuspeitos, de sorte que "os próprios lugares de que
acreditávamos ser os donos formigavam de inimigos domésticos; era uma atmosfera
de guerra civil que envolvia toda Paris e na qual, qualquer que fosse o lugar
para onde se escapasse, era preciso viver" (1991:155). Com efeito, no jantar
que lhe foi oferecido pelo seu colega economista Blanqui no dia em que a
insurreição de fevereiro havia começado, ficou impactado com o que disse o
jovem criado, filho de um pobre homem do campo cuja miséria impressionara
Blanqui, ao recolher a mesa depois da ceia: "'No domingo que vem (era quinta-
feira),seremos nós que comeremos as asas do frango'; ao que uma rapariga que
também trabalhava na casa respondeu: 'E seremos nós que usaremos os bonitos
vestidos de seda'".
Tocqueville tomou aquele episódio como sinal de sua época: "O que poderia dar
melhor uma ideia tão justa do estado dos espíritos do que o quadro infantil
dessa ingênua cupidez? E o que a completa é o fato de Blanqui ter-se poupado de
dar a entender que tinha ouvido os fedelhos: eles o atemorizavam" (idem:155).
Ele via que o espírito de insurreição "circulava de uma ponta a outra dessa
vasta classe [operária] e em cada uma de suas partes, como o sangue em um único
corpo" (1991:155).
O aspecto semântico não só revela o espírito do tempo, com o ajuda a
compreender a construção das ideias políticas. No forjar de um novo
vocabulário, toda uma semântica peculiar entrava em cena. Na pena do
conservador Saint-Marc Girardin, os protagonistas da insurreição operária de
1831 em Lyon comparavam-se a bárbaros - termo resgatado do Império Romano. Em
geral, o protagonismo popular era tratado de modo pejorativo e visto como algo
retrógrado frente à civilização. Após a insurreição de 1834 em Lyon, o Journal
des Débats, mobilizado por Girardin, considerou os operários a "ferida" da
sociedade comercial e industrial e as sociedades operárias foram comparadas às
sociedades escravocratas, em que "cada fabricante vive na sua fábrica como os
plantadores das colônias no meio de seus escravos, um contra cem". E ainda: "os
Bárbaros que ameaçam a sociedade não estão no Cáucaso nem nas estepes da
Tartária: eles estão nas periferias das cidades manufatureiras" (apud
Rosanvallon, 1992:255).
O próprio termo proletário teve origem pejorativa. Segundo Rosanvallon, "[...]
proletário é a palavra mais repugnante da língua; dessa maneira todos os
dicionários a rejeitaram" (idem:257). Ele também informa que o termo hilota,
resgatado da antiguidade grega pela semântica dos anos 1840, foi utilizado como
expressão para designar o rejeito político das massas sob a monarquia de Julho
na França. Produziu como sinônimo a ideia de pessoa reduzida "ao grau extremo
de miséria, servilismo e ignorância, abjeção; pária". Thiers, em discurso
proferido no dia 24 de maio de 1850, a propósito da reforma eleitoral pela
Assembleia, cunhou termos fortes para denotar as classes pobres e instáveis: "
[...] essa classe que já foi nomeada aquela de vagabundos [...] São esses
homens que formam não o fundo, mas a pátria perigosa das grandes populações
aglomeradas; são esses homens que merecem esse título, um dos mais aviltantes
da história, o título de multidão [multitude]" (apud Rosanvallon, 1992:305).
Restrições ao sufrágio foram mantidas e a massa urbana operária, descartada.
d) Blindar a Democracia da Facção e dos "Vícios Perigosos", Controlar os
Governados
A América estabeleceu novos paradigmas para a democracia moderna. Nos artigos
federalistas [campanha de 1788], James Madison, Alexander Hamilton e John Jay
sustentaram um projeto de constituição oposto à primeira constituição
estadunidense de 1776, chamada de Artigos da Confederação. Na visão desses
autores, essa legislação estava demasiadamente centrada nos Estados,
possibilitando uma crise anárquica desestabilizadora do poder. A preocupação
dos federalistas era constituir uma União em que predominasse o controle da
violência e do faccionismo, esses "perigosos vícios", que "mais assustam o
simpatizante dos governos populares" (Madison, Hamilton e Jay, 1993, artigo 10:
133).
Sabe-se que homens novos, bastante humildes em muitos casos, puderam chegar ao
poder na América a partir de 1776. Para Kramnick, essa chegada consistiu em uma
reação às elites tradicionais que tinham dominado a vida política e social no
período colonial (Madison, Hamilton e Jay, 1993). Por isso, a Constituição
Federalista foi considerada em grande parte uma reação ao poder desses homens
novos e aos programas igualitários implementados pelos legislativos estaduais.
Vista sob esse ângulo, a campanha federalista foi entendida como uma luta
interna pelo poder. Nas palavras de Kramnick, "em certo sentido, 1787 e a
constituição representam o triunfo de uma interpretação da revolução americana
sobre outra".
Aos olhos dos federalistas, o que havia era o vício faccionista minando os
governos populares. Na sua visão, a formação de maiorias opressoras ou de
minorias facciosas movidas por "um impulso comum, de paixão ou interesse" e
agindo de modo adverso aos interesses permanentes e coletivos da comunidade
devia ser suprimida. Os federalistas compartilhavam, portanto, de uma
escatologia, na qual os vícios constituíam um traço nocivo da natureza humana
para a vida política. Para Madison (artigo 10), era muito forte "a propensão da
humanidade a descambar em animosidades mútuas que, ali onde nenhuma
oportunidade real se apresentava, as mais frívolas e fantasiosas distinções
foram suficientes para atiçar suas paixões hostis e fomentar os mais violentos
conflitos" (idem:135).
Os federalistas consideravam fundamental forjar um governo popular imune a
esses vícios. Na concepção desses homens, as democracias até então conhecidas
deviam ser evitadas, pois haviam se mostrado desprovidas de defesas contra as
paixões destrutivas dos homens. Era preciso blindar a democracia e rejeitar sua
forma pura. "Uma democracia pura, isto é, uma sociedade formada por um pequeno
número de cidadãos que se unem e administram pessoalmente o governo não dispõe
de nenhum remédio contra os malefícios da facção", afirmou Madison. "Uma paixão
ou interesse comum contamina, em quase todos os casos, a maioria do todo [...]"
(idem). Além disso, a democracia não era vista como regime apto a controlar "as
tendências em sacrificar a parte mais fraca ou indivíduo inofensivo". O
discurso federalista encontrava a fórmula fixada nas consciências políticas:
democracia, logo, precipício das paixões e tendência à tirania. Além disso, ele
afirmava o controle político como um valor prático.
O problema teórico da democracia era formulado principalmente como questão de
limites do poder da maioria. O governo popular a ser reinventado tinha como
grande dificuldade política "capacitar o governo a controlar os governados; e
em seguida obrigá-lo a se controlar a si próprio" (idem: artigo 51:350, ênfase
no original). Em sua reflexão, Madison mobilizou mais uma vez a metáfora já
presente em Rousseau e Kant: fossem os homens anjos, não seria preciso governo
algum; fossem governados por anjos, não haveria necessidade de controle
externo.
Para o federalista, as democracias tinham que ser reinventadas porque "sempre
ofereceram espetáculos de turbulência e luta" (idem:136) e sempre se mostraram
"incompatíveis com a segurança pessoal ou com os direitos de propriedade". Isso
explicava por que tiveram, em geral, "vidas tão breves quanto violentamente
interrompidas". Segurança e propriedade apareciam como princípios a serem
implementados. Em contrapartida, o sentido igualitário, associado à democracia,
era considerado uma quimera na opinião de Madison. "Políticos teóricos que
defenderam essa espécie de governo supunham erroneamente que, se a humanidade
fosse reduzida a uma perfeita igualdade em seus direitos políticos, ela se
tornaria ao mesmo tempo perfeitamente nivelada e assemelhada em suas posses,
opiniões e paixões" (idem).
O modelo político das repúblicas pequenas era descartado, porquanto Madison
considerava impossível se ler a história das repúblicas italianas e gregas "sem
experimentar horror e repugnância diante dos distúrbios que continuamente as
agitavam", e também, "da rápida sucessão de revoluções que as mantinham em
estado de perpétua oscilação entre os extremos da tirania e da anarquia" (idem:
128). Acreditava-se que as repúblicas territorialmente extensas poderiam
afastar a instabilidade, a turbulência e a violência. Elas eram definidas como
governo representativo e vistas como solução para o governo de muitos cidadãos
em território extenso. O artifício da representação era seu corolário. Esse
modelo ganhou, com efeito, a forma de legítimo governo popular, embora governos
representativos não fossem, de costume, considerados democráticos (Held, 1987;
Rosanvallon, 1998).
A defesa da república representativa19 como governo popular foi feita em
consonância com teóricos como Constant e Tocqueville, de modo a "depurar e
ampliar as opiniões do povo, que são filtradas por uma assembleia escolhida de
cidadãos, cuja sabedoria pode melhor discernir o verdadeiro interesse de seu
país" (Madison, 1993:138). Além disso, o "[...] patriotismo e amor à justiça
[desses cidadãos] serão menos propensos a sacrificá-lo [o país] a considerações
temporárias ou parciais". Para eles, se o povo não sabia governar, saberia
escolher, já que a escolha de cada representante por um maior número de
cidadãos tornava menos provável a escolha de candidatos indignos ou traidores
do interesse do povo. A eleição de indivíduos mais competentes e sábios do que
o próprio povo sugeria que a adequação à complexidade da vida moderna20 ainda
não estava em primeira ordem em sua teoria.
Sua teoria da representação se sustentava na existência de um constrangimento
moral que operava sobre os indivíduos em grupos limitados, o que não ocorria
entre homens inseridos anonimamente na multidão e propensos à facção. "Está
provado que corporações de homens atuam com maior retidão ou desinteresse que
indivíduos? Todos os observadores precisos da conduta humana concluíram o
contrário, e seus motivos são óbvios", questionou Hamilton (Madison, Hamilton,
Jay, 1993:163). Por isso, "[...] por menor que seja a república, os
representantes devem ser em número suficiente para se protegerem contra as
aspirações de uns poucos; e que, por maior que ela seja, o número de
representantes deve respeitar certo limite, para se evitar a confusão de uma
multidão" (idem:138).
Se sociólogos e psicólogos da massa, como Gustave Le Bon e Scipio Sighele,
fossem contemporâneos dos federalistas, poder-se-ia incluí-los entre os
"observadores precisos da conduta humana" do qual falava Hamilton. Os
argumentos acerca do comportamento do indivíduo e da multidão eram, senão muito
semelhantes, certamente convergentes. Essa visão compartimentada do indivíduo e
da multidão na política deu origem a uma longa linhagem de proposições sobre o
problema da força do número, apontando para uma atomização dos indivíduos
políticos e preconizando sua ação individual ou em pequenos grupos.
e) Subsunção do Demos em Governo de Todos
Stuart Mill apresentou dois princípios para se julgar um governo. Primeiro, a
despeito da forma política, um governo devia ser julgado pelo grau em que
tendia a aumentar a soma das boas qualidades de seus governados, tanto coletiva
quanto individualmente, de modo a promover as mais destacadas qualidades morais
e intelectuais próprias à visão burguesa emergente21, a saber, a virtude e a
inteligência dos governados (1868: cap. II). Segundo, a ampla participação
(direito à voz e a exercer função pública) devia ser promovida em benefício do
desenvolvimento da capacidade de autonomia intelectual. Isso significava
expandir o lado ativo e não passivo do indivíduo, aumentando, por conseguinte,
o grau geral de aprimoramento da comunidade (idem Na concepção de Mill, a ampla
participação caracterizava um "governo livre idealmente perfeito", além de um
governo completamente popular. "O único governo capaz de satisfazer
completamente todas as exigências do estado social é aquele em que o povo todo
possa participar" (idem:III). Esse governo em questão era a democracia.
Todavia, conflitos teóricos obstaculizaram a participação do povo todo,
convertendo participação em representação. A presença do grande número foi
formulada como complicador para a democracia no contexto de complexidade da
vida moderna. Para Mill, "[...] uma vez que é impossível, em uma comunidade
maior do que uma única cidade, que todos participem pessoalmente de todos os
negócios públicos, a não ser de muito poucos, conclui-se que o tipo ideal de
governo perfeito deve ser o representativo" (idem A representação foi
considerada, nesses termos, como artifício para a realização do governo
idealmente perfeito e para o governo popular, porquanto "o povo inteiro ou
parte numerosa dele exerce através dos deputados periodicamente eleitos o
extremo poder controlador" (idem :V). Além de mais adequado às circunstâncias
modernas, entendia-se que o governo representativo favorecia a realização das
felicidades particulares22, que, segundo Constant (1985), haviam sido
multiplicadas na modernidade. Tratava-se de um modelo compatível com as
práticas modernas que haviam deixado pouco tempo para o exercício dos direitos
políticos.
Mas o projeto da representação englobava, para além do caráter aparentemente
circunstancial, uma concepção nova sobre a política: a de que qualquer governo
que almejasse ser bom devia ser formado por algumas partes das boas qualidades
existentes nos membros individuais da comunidade (Mill, 1868). Nesse sentido, a
representação designava um "[...] meio de trazer o padrão geral de inteligência
e honestidade existente na comunidade, assim como a inteligência e a virtude
individuais de seus membros mais sensatos, a voltar-se mais diretamente para o
governo [...]"(idem:II).
O artifício da representação aparece como algo singular, pois não significava
simplesmente a seleção dos indivíduos mais dotados de qualidades superiores (a
elite). Mill a formulou como amostragem de todos os graus de intelecto, isto é,
como microcosmo intelectual da sociedade. Os representantes deviam compor a
"justa amostra de todos os graus de intelecto presentes entre o povo que se faz
ouvir nos assuntos públicos" (idem:VI). Na sua compreensão, essa formulação
equivalia à participação de todos no governo de todos. Dessa forma, Mill operou
uma abstração aritmética entre representação, governo popular e democracia, de
sorte a criar uma economia da participação própria. Ele subtraiu a presença
multitudinária da compreensão de governo popular para estabelecer uma paridade
na amostragem intelectual. De certo modo, ele suprimiu a presença numérica em
prol da presença da diversidade dos indivíduos. A partir do princípio da
amostragem de intelectos, subsumiu-se o governo popular da "maioria" em governo
de "todos".
Isso significou uma mudança de paradigma na concepção clássica da democracia
que, segundo Aristóteles, consistia no governo do demos, isto é, no governo dos
pobres enquanto maioria -os pobres eram tão numerosos que formavam a maioria, e
essa maioria não designava, portanto, a formação de um grupo majoritário
qualquer. Com Mill, passou-se a defender uma democracia de todos "[...] e não
somente da maioria - na qual os interesses, as opiniões, os graus de intelecto
que excedem em número seriam, contudo, ouvidos e teriam uma oportunidade de
obter, pelo peso do caráter e pela força do argumento, uma influência que não
pertenceria à sua força numérica[...]"(idem:VIII). Consequentemente, a crítica
a uma "representação desigual de privilégios"23, que apriori beneficiaria o
maior número, sentenciou a democracia de todos como o"único tipo verdadeiro de
democracia" (idem:VII).
Por certo, o risco de a maioria se apropriar do poder estava implícito nesse
princípio intelectivo. Na imaginação teórica de Mill, essa maioria
caracterizava-se por indivíduos que se assemelhavam em inclinações, em
preconceitos, em modos de pensar e de partilhar uma cultura menos elevada (ou
medíocre) - e foi com essa linguagem que Mill se moveu no contexto do avanço
político das massas. Contra isso, Mill priorizou a dimensão intelectiva e o
critério político da potência cognitiva individual, dissolvendo a potência
coletiva (considerada somente na medida em que expressava um emparelhamento das
potências individuais).
Como se mencionou, Mill adotava como critério para um bom governo a promoção da
inteligência de todos. Nesse sentido,ele entendia a representação como arranjo
institucional e exercício prático e favorável ao aprimoramento da capacidade
intelectual. No entanto, embora reconhecesse com Tocqueville a possibilidade da
promoção do desenvolvimento mental das "classes inferiores" a partir das
instituições democráticas, ele pôs de lado a possibilidade de elementos dessas
classes se elegerem representantes. Ao longo de sua obra, sugeriu que o
desenvolvimento mental do mais inferior trabalhador manual se desse aos poucos,
enquanto os indivíduos mais iluminados exerceriam sua influência por meio da
representação. Para ele, era fundamental "permitir que as concepções do homem
de gênio original prevaleçam sobre o espírito obstruído pela mediocridade
treinada" (idem:VI). Propunha, assim, garantir a redução do poder da maioria
medíocre e a influência da minoria supostamente sábia.
Para sustentar esse princípio, algumas condições para o exercício democrático
foram formuladas por Mill, como as restrições à participação de analfabetos, o
sufrágio indireto ou em dois graus e o voto de pesos diferentes, que foram
saudados como melhor meio de obstaculizar "o inteiro alcance do sentimento
popular" e proporcionar a formação de um corpo intermediário "menos movido pela
paixão popular do que o Demos" e de "maior responsabilidade do que as próprias
massas" (idem: IX). Enquadradas nesses termos, as massas tornavam-se objeto de
educação em vez de sujeito de poder. Estabelecendo essa visão, acreditava
afastar o risco de "excluir os mais hábeis professores e afastar as primeiras
mentes do país da representação nacional".
Na concepção desse liberal, a ignorância - ou os ignorantes - não podia ter, em
relação ao conhecimento e à inteligência, o mesmo espaço no aparato do governo.
De acordo com suas referências culturais, um empregador era tido como mais
inteligente do que o trabalhador por exercitar mais a mente do que as mãos.
Como consequência dessa visão, naturalizou-se a tutela exercida sobre o povo
por indivíduos inteligentes que, por extensão, eram imbuídos das melhores
intenções e livres dos interesses particulares ou classistas: "Se a pessoa mais
ignorante não ceder à orientação da mais sábia esta última será forçada a ceder
àquela. Qual destes modos de superar a dificuldade é de maior interesse para
ambas e está de acordo com a adequação geral?" (idem:VIII).
Para Mill, cabia aos mais instruídos a função de conduzir os menos instruídos
ao progresso e ao aprimoramento intelectual. Ele acreditava que o maior
exercício das faculdades mentais e o esforço dos mais instruídos poderiam
esclarecer o julgamento e retirar o preconceito dos menos instruídos. Por isso,
Mill opunha-se à valorização do homem comum (ideia de que qualquer homem é tão
bom quanto qualquer outro) em favor da "excelência moral e intelectual" (idem:
VIII). Em uma perspectiva um tanto platônica24, ele sustentava que os sábios no
poder evitariam que um, poucos ou muitos, de posse de todo o poder, fizessem
prevalecer suas próprias vontades sem necessidade de utilizar as armas da razão
(idem:VIII). Ele defendia que "[...] a posição que proporciona o estímulo mais
forte para o desenvolvimento da inteligência é a de elevar-se ao poder, não de
tê-lo obtido".
O perigo de se tomar a maioria como fundamento do poder estava não somente na
mediocridade (ou grau inferior de inteligência) que a caracterizava, mas também
na possibilidade de tirania e legislação de classe. Essa ideia aparecia, então,
associada à maioria, aos muitos e ao povo, assim como ao demos, termo do qual
Mill lançou mão em algumas passagens da obra para pontuar sua natureza
despótica (capítulos VI, VIII, IX e XII). "O Demos [...], sendo na América a
única fonte de poder, toda a ambição egoísta do país gravita em torno dele,
como ocorre nos países despóticos em relação ao monarca" (idem:VIII). Desse
ponto de vista, era premente a necessidade de impor freios ao uso do poder pelo
povo, também comparado ao déspota bajulado e adulado. Mill sustentou que a
democracia só se tornaria a forma de governo idealmente melhor e popular se
pudesse "ser tão organizada que nenhuma classe, nem mesmo a mais numerosa,
[fosse] capaz de reduzir tudo a não ser ela mesma à insignificância política,
direcionando o curso da legislação e da administração pelo seu interesse
exclusivo de classe" (idem:VIII).
Mill evocava um governo igualitário de todos, cujo arranjo institucional
permitiria que a minoria pudesse ser representada proporcionalmente tal como a
maioria (idem:VII).No respeito à minoria,subsistia um caráter para além da
questão moral de defesa da diversidade. Tratava-se de uma questão igualmente
epistemológica ou intelectiva, na medida em que a minoria assegurava a
diversidade e representava a porta de saída da mediocridade vista como
tendência na civilização moderna - o mundo fabril das massas disciplinadas e
uniformizadas. Mill via que a tendência à mediocridade tinha como efeito
colocar o poder nas mãos das classes "que estão cada vez mais abaixo do mais
elevado nível de instrução na comunidade [...]" (idem:VII).Emsua opinião, era o
que ocorria na democracia americana, na qual os membros de espírito altamente
cultos sacrificavam suas opiniões e se tornavam "porta-vozes servis daqueles
que são inferiores a eles em conhecimento" (idem).
Cabe notar que a noção de minoria de seu tempo distinguia-se da noção usual
contemporânea por estar frequentemente associada à instrução e à superioridade
intelectual. Com efeito, a minoria podia ser entendida como aquela que
cultivava a maioria, a exemplo do indivíduo humboldtiano25 cultivador de sua
individualidade. A individualidade das mais altas eminências do pensamento
servia de contrapeso e corretivo à predominância das opiniões das massas de
homens simplesmente medianos. "O voto da minoria poderia aumentar o padrão
intelectual da Casados Comuns,e também a maioria seria impelida a buscar
membros de mais alto calibre" (idem). Nessa medida, a minoria não apenas
comportava a diversidade e um conflito salutar, mas também representava o
"único refúgio no qual procurar um suplemento ou correção suplementar contra os
instintos de uma maioria democrática" (idem:VII). O valor intelectivo da
minoria instruída suplantava, portanto, seu valor numérico. Ela contava não
apenas "por seus números, mas como força moral contaria muito mais em virtude
de seu conhecimento e da influência". Para Mill, o povo seria suprido com
aquilo que de um outro modo quase certamente lhe faltaria - líderes com um
nível mais elevado de intelecto e caráter do que ele próprio.
Além de uma mudança de paradigma na concepção clássica de democracia, essa
perspectiva representou ao mesmo tempo uma inflexão na possibilidade de uma
conformação política propícia ao maior número, isto é, às multidões recém-
chegadas ao cenário político. Preocupado em combater a mediocridade presente na
padronização e na homogeneização da vida em massas, Mill produziu críticas
profícuas no sentido de repensar a existência política dos indivíduos, mas
alimentou, em certa medida, uma espécie de repulsa à semelhança e desapreço
pela massa de homens comuns. A partir dessa perspectiva, ele formulou a
equação: "massa, isto é, mediocridade coletiva". "O seu pensamento lhes provém
de homens muito semelhantes a ela, que a ela se dirigem, ou que em nome delas
falam, sob a esfera do momento, através dos jornais" (idem: cap. VII). Todos
esses elementos foram considerados na teoria do governo democrático.
f) Elites Organizadas, Massas Irracionais, "Menos Demos"
O tema da minoria, da elite e dos pequenos grupos ganhou relevo na sociologia
das massas e marcou o andamento dos estudos sobre a democracia. A ideia de
minoria instruída de alto valor intelectivo cedeu lugar à afirmação da minoria
como classe dirigente em função de sua capacidade de organização e coordenação
da maioria atomizada, desarticulada e desorganizada (Mosca, 1992). Ela era
identificada, em geral, à classe dirigente, que era vista como grupo homogêneo
e solidário entre si. Na concepção de Mosca, essas qualidades constituíam
requisitos fundamentais para a prática da democracia moderna, entendida como
sistema de renovação da classe dirigente por meio do sufrágio.
A tese do sistema de renovação das classes dirigentes foi formulada pela Teoria
da Circulação das Elites de Vilfredo Pareto, convergindo no pressuposto da
capacidade de organização e exercício do poder pela minoria (1967). Em
contraste com Mill, Pareto afirmou que os mais propensos a governar não eram
necessariamente os mais inteligentes, mas aqueles que, tendo concorrido com
outros grupos, se mostraram capazes de tutelar as massas e de lidar com sua
irracionalidade. Ou seja, eram capazes não pela sua inteligência, mas pelo
potencial de organização em sociedades complexas.
Como suporte de reflexão para a democracia, Pareto aplicou uma abordagem
epistemológica para se pensarem os homens na política. No lugar da dualidade
razão e paixão, ele distinguiu "ideias não lógicas" e "ideias lógicas", que
exprimiam a relação entre meios e fins. Segundo o autor, as ideias não lógicas
eram mais comuns e os homens tenderiam a imprimir sobre elas a aparência de
ideias lógicas. Além disso, ele entendia que instintos e paixões, que
permaneciam misteriosos e incompreensíveis, serviam de motor para as ações dos
homens. Os limites do ato cognitivo foram estabelecidos dessa maneira e os
condicionamentos subjetivos e idealistas foram rebaixados. Os ideais
democráticos (governo das massas, soberania popular), considerados pura
abstração, foram reduzidos à evocação de sentimentos e decredo de esperança
destinados às massas e formulados pelos grupos em competição pelo poder.
Mais uma vez, as derivações políticas da Sociologia estiveram especialmente
orientadas para o paradoxo do governo das massas frente à complexidade do mundo
moderno. O governo exercido pelo grande número era reafirmado como técnica e
mecanicamente inviável e a delegação das funções políticas a chefes e líderes
resultava na formação de massas incompetentes, apáticas e desinteressadas pela
política. Robert Michels, seguindo a linha weberiana, mostrou como, sob o
efeito do racionalismo e do desencantamento da sociedade moderna, as multidões
atuavam na dinâmica democrática desprovidas de raciocínio, vulneráveis à verve
de oradores e dependentes de líderes.
Michels observou também a existência de uma tendência à concentração de poder
por um grupo restrito de pessoas dentro de organizações partidárias
democráticas. Conhecida como "lei de ferro das oligarquias", essa tendência à
elitização ocorria até nos partidos socialistas, supostamente mais ligados às
massas. A fórmula "quem diz organização, diz oligarquia" (Michels, 1982)
refletiu a burocratização da sociedade, a profissionalização dos
representantes, enquanto a organização se convertia em meio de sobrevivência
individual, com a perpetuação dos representantes nas suas funções sendo fixada
como objetivo.
A direção das elites e a irracionalidade das massas foram mais uma vez
afirmadas por Schumpeter. Nos seus termos, a vontade, os desejos e as opiniões
dos indivíduos consistiam em um "feixe indeterminado de impulsos vagos que
volteiam em torno de palavras de ordem ou de impressões equivocadas" (1984).
Essas imagens conduziam à seguinte reflexão: as massas não tinham como
organizar seu desejo, dado que no aglomerado os indivíduos perdiam a contenção
desejante característica da civilidade26. Dessa maneira, a baixa participação
dos indivíduos na política, antes de ser efeito contingente, era vista como
condição para que a sociedade de massa não se tornasse ingovernável, pois ela
reduzia o excesso de demanda em relação à capacidade de decisão dos governos e
evitava a dificuldade em acordar sobre o bem comum. De outra forma, significava
dizer que, quanto "menos demos"27, melhora democracia. Com base nessas
convicções, Schumpeter considerou que decisões impostas por órgãos não
democráticos poderiam ser mais facilmente aceitáveis por todos do que a decisão
democrática que envolvia diversidade e gravidade de interesses.
Schumpeter sentenciou que a democracia não era o governo exercido pelo povo,
mas o governo aprovado pelo povo. Para ele, "o povo como tal nunca pode
realmente governar ou dirigir" (1984:308). Com o lugar do povo reduzido na
teoria democrática, a democracia se limitava a um método político ou
institucional implementado para a organização das decisões políticas. Concebida
como governo para o povo, a democracia incorporava aos poucos a analogia
mercantil da livre competição das elites políticas pela preferência dos
eleitores no mercado político. O voto assumia o papel de moeda com a qual o
eleitor comprava os bens políticos ofertados pelos partidos. A necessidade de
maximizar votos fazia com que partidos e políticos trabalhassem, sobretudo, em
função de interesses de grupos. A democracia, operada pela lógica econômica,
pretendia suprir pelo racionalismo econômico a ausência do racionalismo dos
homens.
As premissas dessas teorias atingiram seu ápice na Psicologia das Massas de
Scipio Sighele e Gustave Le Bon e mais tarde produziram congêneres na Teoria da
Escolha Racional (Mancur Olson, Anthony Downs). Essas teorias continuaram a
tematizar a impossibilidade do governo da multidão. Na Teoria da Escolha
Racional, a ação coletiva do "grande número" foi analisada a partir dos
pressupostos de organização, eficiência e comportamento instrumental em objeção
às teorias sociais que viam vigorar no mundo uma espontaneidade ou
voluntariedade da ação do indivíduo na consecução de benefícios coletivos
(Carvalho, 2008). O indivíduo racional, operador de custos e benefícios assumiu
uma condição ontológica. Esboçando uma taxonomia de grupos, essa teoria
reforçou uma clivagem na estrutura social28.
CONCLUSÃO: DEMOFOBIA COMO CONCEITO E DEMOFILIA CONTRA O OBSTÁCULO
EPISTEMOLÓGICO
Em termos gerais, a noção de demofobia pretende designar o medo ou desprezo que
o demos (e equivalentes como povo, massas, multidões) inspirou nos pensadores
modernos que formularam questões pertinentes à democracia. A partir da
perspectiva demofóbica, abriu-se caminho para se identificarem premissas
recônditas no pensamento político moderno, como as da teoria política que
tematizou a complexidade do governo do "grande número", a exterioridade da
organização e, por conseguinte, a limitação das experiências coletivas de
existência.
O aspecto demofóbico pareceu tão incontornável quanto o avanço da democracia
inevitável. Com a consolidação do processo de irreversibilidade da democracia e
universalização do sufrágio, emergiram questões do tipo: "Como gerir as massas?
Como canalizar suas paixões e seus interesses? Como evitar que a potência do
povo se degrade em brutalidade da multidão?" (Rosanvallon, 1992:377). Com
efeito, essas teorias gravitaram em torno da domesticação das massas, da
repressão de seus impulsos e paixões, da contenção e represamento da multidão,
da tutelagem dos de baixo, da regulação do demos ou da "racionalização da
gestão do número" (Reynié, 1988). O limite dessa teoria se manifestou no fato
de, em nome da democracia, poder se subsumir o demos, do qual ela não poderia
prescindir.
Sob essa perspectiva, os princípios democráticos fincaram raízes em um ponto de
vista totalmente externo à massa, ao mesmo tempo em que o grande número se
transformou em enigma da reflexão democrática. A questão demofóbica revelou,
portanto, uma orientação epistemológica subjacente à teoria, de sorte que o
medo da insurgência e da turbulência da maioria e a obsessão por ordem e
estabilidade reconduziram ao centro do pensamento político o espectro
hobbesiano do medo da morte violenta. Ademais, enquanto conhecimento produzido
pela intelligentsia de uma época, essa teoria circunscreveu parâmetros e previu
limites para a imaginação política.
Não obstante o iluminismo sustentasse no seu interior a crença no ideal de
progresso, a formação e o aperfeiçoamento do "homem novo", alguns teóricos
iluministas preconizaram a conciliação entre razão e tradição (Israel, 2006) e
animaram o despotismo esclarecido. Além disso, a afirmação da ciência e da
racionalidade ocorreu de tal modo que ofereceu subsídios para formular para a
sociedade moderna um modelo racional superior - o burguês da Europa Ocidental
detentor das luzes29 (Jacques Roger, 1968) - sendo simplesmente imposto sobre
comportamentos considerados irracionais associados às massas. Enquanto a
política reclamava o voto do maior número possível, a razão superior demandava
sua limitação (Gueniffey, 1993). Uma relação antonímica entre razão e grande
número foi construída, reiterando a dúvida sobre a capacidade da multidão em se
governar. Nessa perspectiva, embora o iluminismo tenha inspirado a integração
da multidão à política, esse pensamento continha, nas palavras de Reynié
(1988), uma "contradição delicada", a saber, entre o medo da multidão
totalmente manifesto e a retórica a favor de que o povo ocupasse o centro
político.
Por certo, o medo suscitado a partir da ação violenta das massas e da evidência
da potência majoritária era real e concreto. A demofobia não consistiu em mero
preconceito; ela teve como fulcro a possibilidade material e verdadeira da
violência multitudinária. Por conseguinte, não se tratou de negar o caráter
violento da multidão; ela foi, de fato, frecuentemente perigosa e ignorante.
Tratou-se de entender a demofobia como concepção limitada do advento do povo na
política, que se revelou incapaz de produzir uma razão sobre o suposto conteúdo
"irracional" da insurgência política. Mas não bastou igualmente falar das
limitações dessa concepção. O reconhecimento da demofobia apontou para a
necessidade de distinguir as relações de poder, as disposições cognitivas e os
efeitos que operaram a imaginação teórica animadora de uma teoria da
democracia.
Nesse sentido, argumenta-se que a demofobia se revelou um "obstáculo
epistemológico"30 (Bachelard, 1996) na evolução da teoria democrática. Pensando
como epistemólogo31, o conhecimento das condições psicológicas do progresso da
ciência permitiu encontrar nos obstáculos internos ao próprio ato de conhecer o
problema do conhecimento científico. Eles faziam surgir, por uma espécie de
imperativo funcional, lentidões e conflitos (idem :17). Bachelard observou que,
quando o conhecimento empírico se racionaliza, nunca se pode garantir que
valores sensíveis "primitivos" não interfiram nos argumentos - pois o homem
sensível trabalha com todas as expressões de sua sensibilidade. Nesse caso,
pode-se presumir que a demofobia obstaculizou o pensamento que investigava a
conversão do povo governado em povo governante, engendrando essa espécie de nó
górdio da modernidade política.
Por fim, a demofobia introduziu na teoria democrática duas dimensões
principais. A primeira dizia respeito à geração de um movimento dialético que
opunha medo da violência multitudinária e busca de segurança ou proteção para o
indivíduo. Essa dialética temor-proteção, concebida por Paolo Virno (2002),
referia-se a certas estratégias que, contidas no conceito de povo, visavam
distanciar o perigo e obter a proteção em sociedade.
Assim, o conceito de povo operou pelo registro antagônico à multidão. Esse
antagonismo foi ilustrado pelas perspectivas de Hobbes e Spinoza. Para Virno,
essa distinção esteve no centro das controvérsias do século XVII e orientou as
categorias político-sociais da modernidade. Spinoza compreendeu a multidão como
pluralidade que raramente "converge em um" ou em "unidade sintética" (Virno:
idem) e sua potência como "origem do poder e do político" (Aurélio in Spinoza,
2009). "A multidão é a forma de existência social e política do Número enquanto
Número: forma permanente, não episódica ou intersticial", sintetizou Virno
(idem:8). Por outro lado, Hobbes a via como perigo para a decisão política do
Estado, "um mau cheiro de estado de natureza na sociedade civil" (Virno),
repulsiva à unidade política, refratária à obediência, avessa a pactos duráveis
(ibidem: 9 e 10), enquanto o povo era concebido como "uma espécie de unidade
que tem uma vontade única" (1642, XII, 8; e VI, 1, nota), espécie de
"reverberação" da ideia de Estado. "Se há Estado, há povo; sem Estado, nada de
povo" (Virno, idem: 8). Para Hobbes, a multidão era aquilo que não estava
pronto para se tornar povo: "os cidadãos, quando eles se rebelam contra o
Estado, são a multidão contra o povo".
Por certo, essa dicotomia presente no par povo-multidão foi reformulada sob
diversos nomes (demos, massas etc.) que carregaram, ao longo da teoria
democrática, essa dualidade de origem. A partir daí, pode-se dizer que a
demofobia incorporou um princípio de natureza dialética, em que "as formas de
medo e as formas correspondentes de proteção ligadas à noção de povo se
metamorfoseiam" (Virno) tanto do ponto de vista empírico, quanto daquele
conceitual, adquirindo expressões diferentes.
A segunda dimensão da demofobia diz respeito a um "modo de governar" (Foucault,
2008), a um novo aparato de poder e a uma nova disposição das relações de poder
na política moderna. Esse modo teve como centro a população, "esse novo
personagem [que] fez uma entrada notável, e logo notada, aliás, no século
XVIII" (ibidem:88). Ele se constituiu em um novo saber político e se
desenvolveu fundamentalmente por meio da implementação de "dispositivos de
segurança".
A técnica relativa a esses dispositivos operou sobre a população não a partir
do ponto de vista do impedido ou do obrigatório, da lei e da disciplina, mas a
partir de "o ponto em que as coisas vão se produzir, sejam elas desejáveis ou
não" (idem :61). Ela é, portanto, compatível com a ideologia da liberdade
prescrita no laissez-faire/laissez-passer. Além disso, ela evoluiu de maneira a
fazer uns e outros mecanismos agirem, "mas sem que se trate, de maneira
nenhuma, em todo caso não fundamentalmente, de uma relação de obediência entre
uma vontade superior, a do soberano, e as vontades que lhe seriam submetidas"
(idem:86).
Foucault entendia que essa forma de regular e delimitar marcos aceitáveis
denotava um modelo de gestão da população, que era entendida como aquela que
segue normas racionais e não se revolta (na linguagem foucaultiana, o povo tem
um caráter próximo à multidão spinozista, no sentido que ela não pertence à
população e se comporta em relação à gestão dessa população, que se põe fora
dessa gestão e se recusa a ser população) (2008:57). Assim, a população que já
havia deixado de ser elemento do poderio do soberano (uma população numerosa,
obediente e laboriosa, que era signo de tropas numerosas e mercados citadinos
em plena atividade) passou a ser divisada como força produtiva pelos
mercantilistas (força essa passível de ser adestrada, enquadrada e
distribuída). A população, por isso, deixou de ser compreendida na chave
jurídico-política do sujeito em relação de obediência com o soberano para ser
apreendida como objeto técnico-político de uma gestão ou governo.
Para Foucault, fazer a gestão da população significou exatamente submetê-la a
técnicas e a agentes de transformação, agindo sobre um jogo de fatores
aparentemente não relativos à população. Tratou-se de uma mutação na
organização e racionalização dos métodos de poder (idem:94). Observou-se aqui
que, à medida que a demofobia operava correlativamente à segurança, ela operava
o uso dessas técnicas de racionalização de gestão da população pelo pensamento
democrático, buscando repelir o povo e instaurar a população (Foucault) ou
enquadrar a multidão e forjar o povo(Virno).
***
Breve nota para uma demofilia: Permite-se aqui finalizar esta conclusão com uma
proposta em divagação. Por um lado, entende-se que a teoria democrática
constituiu-se como o resultado de um processo histórico, de traços de
demofobia. Por outro lado, sabe-se que experimentos teóricos modernos de
natureza democrática produziram registro diferenciado sobre a emergência da
multidão na política. Esses experimentos requerem do pesquisador a atenção para
eventos na medida de sua singularidade, a despeito de uma linearidade
histórica. Como orienta Foucault (2000), é preciso considerar a existência de
um campo de disputa de regimes de imaginação teórica que se deu no interior da
experiência moderna. Conhecer os elementos desse campo pode ser um caminho para
desfazer alternativas inarredáveis, sobre as quais se falava no início deste
artigo. Essa visão conduz à formulação de uma agenda de pesquisa, a qual se
partilha aqui com o leitor. Essa agenda consiste, por ora, em um trabalho de
genealogia que possa fazer emergir saberes históricos descontínuos,
desqualificados e não legitimados. Na visão de Foucault, esses saberes podem
intervir contra a instância teórica unitária que pretende "filtrá-los,
hierarquizá-los e ordená-los em nome de um conhecimento verdadeiro ou de uma
ciência" (Foucault, 2000).
Essa genealogia pretende deslindar teorias produtoras de princípios de
"demofilia". O substantivo usado para qualificar a natureza desses princípios
busca livre inspiração no estudo da ética aristotélica (Ética a Nicômaco), na
qual a philia se caracteriza pela vida em comum e na reflexão spinozista sobre
a amizade como condição do viver junto (Ética, livro IV). Soma-se a essa philia
a ideia moderna de demos. Como escreve Lagrée, a comunidade política é a
condição que requer a amizade (in Jankélévitch e Ogilvie, 1995). Nesse sentido,
espécies determinadas de comunidades políticas dão nascimento a espécies
distintas de amizade; na democracia, por exemplo, comunidade baseada na
igualdade entre os cidadãos, as amizades são intensas em virtude de haver mais
coisas em comum. Logo, como afirma Wolf (in Jankélévitch e Ogilvie, 1995),
refletir sobre amizade conduz a considerá-la como força social e a divisar a
difícil economia da relação com o outro. Na visão de Macherey (in Jankélévitche
Ogilvie, 1995), pensar a amizade (e o amor) é por em jogo uma concepção de
sociabilidade e de vida em comum.
NOTAS
* Agradeço a Bernardo Ferreira (UERJ), Marcelo Jasmin (IESP/UERJ) e Gildo
Marçal Brandão (in memoriam) pelos comentários feitos à primeira versão deste
artigo na ocasião do 33º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação
e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). Agradeço igualmente a recepção crítica
dos pareceres de DADOS. Assinalo que erros e equívocos são de exclusiva
responsabilidade da autora.
1. Além do povo-soberano e do povo-classe, Surel identificou ainda, em uma
perspectiva cultural e identitária, o povo-nação.
2. Rosanvallon distinguiu três propostas de configuração do sistema de
representação política presentes no cenário político francês: 1) a busca dos
operários em eleger os políticos oriundos de seu meio ou classe; 2) a proposta
de uma representação que espelhasse as profissões e as funções sociais. Por
último, a experiência da representação proporcional. Ver Le Peuple Introuvable,
Paris, Gallimard, 1998.
3. A consulta à Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et
des Metiers, de Diderot e D'Alembert, permite ter uma ideia sobre a variação do
conceito de povo. Era considerado como "a parte mais útil, a mais preciosa e,
por conseguinte, a mais respeitável da nação" ou a parte que "forma sempre a
parte mais numerosa e a mais necessária da nação" e também como aquele que se
opõe aos grandes e nobres. Entendia-se que era composto de trabalhadores,
operários, artesãos, negociantes, financistas, pessoas de letras e gente das
leis. Mas outros pensavam que o povo se limitava aos operários e aos
trabalhadores. Os autores afirmaram, por fim, que se tratava de um "substantivo
coletivo de difícil definição", porque a partir dele se formavam ideias
diferentes nos diversos lugares e segundo a natureza dos governos.
4. Embora seja o universo grego a referência para se pensar o vocabulário
democrático, o conceito político de povo é mais frequentemente associado pelos
modernos ao Estado Romano. Assim o faz, por exemplo, Colliva no verbete "povo"
do Dicionário de Política (Bobbio, Matteucci e Pasquino, 1994), ao lembrar que
o povo era um grupo romano dêmico que, progressivamente integrado e urbanizado,
passou a fazer parte do Estado romano com a queda da monarquia. Ellen Wood
considera que a reflexão política dos modernos leva mais em conta o cenário de
Roma antiga do que das cidades gregas antigas.
5. No Dictionnaire de l'Académie française (primeira edição, 1694; quarta
edição, 1762; e quinta edição, 1798) afirmou-se que o termo povo podia ser
entendido às vezes pela parte "menos considerável dentre os habitantes de uma
mesma cidade, de um mesmo país"; considerava que havia "alguma emoção entre o
povo", de modo que "ele não sabe o que ele quer a maior parte do tempo". Aponta
como sinônimo "o pequeno povo, o baixo povo". E, na sexta edição (1835), ele
foi considerado "sob a dimensão da instrução e da fortuna".
6. Na visão de Eric Hobsbawm (2002) "a França forneceu o vocabulário e os temas
da política liberal e radicalmente democrática para a maior parte do mundo". A
Revolução Francesa foi considerada pelo historiador como o exemplo mais
dramático e de maior repercussão na modernidade. A partir dela, foram
proclamados os princípios universais, ou seja, destinados a toda humanidade.
7. Essas questões se renovam no tempo. Em 2008, a professora de Ciência
Política da Universidade Livre de Bruxelas, Justine Lacroix, tendo em vista o
espaço europeu, reivindicou um incremento no "autogoverno da comunidade
política". Ela questionou a existência de uma hierarquia entre diferentes
categorias de estrangeiros, o que no seu entendimento contradizia as pretensões
cosmopolitas da União Europeia. Propunha então que a entidade europeia
conferisse o "status pleno de cidadão europeu a todos aqueles que escolheram
viver no seio de seu espaço", em uma tentativa de reinventar a democracia
europeia e 'desnacionalizar os direitos' (Lacroix, "Qui sontles citoyens
européens?" Le Monde. La Republiques des Idées. 29/04/2009, p. VI).
8. O estudo de Patrice Gueniffey (1993) ilustra o debate da época. Ele mostra
que, a partir das eleições no período da Revolução Francesa, engendrou-se um
dilema na política, conforme o qual as decisões tomadas pelo voto da maioria
poderiam ser irracionais. Assim, a ideia de que a razão demandava uma limitação
no quadro de votantes viria, de maneira tensa, a modular a afirmação, de
natureza democrática, do voto do maior número possível.
9. Anoção de evidência constituiu a epistemologia do conhecimento que
fundamentou o liberalismo à francesa (de raiz fisiocrática) como racionalismo
político. Segundo Rosanvallon (1992), a evidência era oposta ao arbitrário e à
opinião, significando, de acordo com Quesnay, "uma certeza tão clara e
manifesta por ela mesma que o espírito não pode negá-la". Na visão de
Rosanvallon, "é um modo cômodo de deslocar ou evitar o problema da
autoinstituição do social" (idem:152). Para ele, a evidência era um modo de
acesso à verdade e ao interesse geral que não implicava de maneira nenhuma
deliberação ou experimentação, pois era uma via imediata e vizinha da fé.
10. Rosanvallon observou que, no antigo regime, os bandidos [brigands],
vagabundos e mendigos acabavam por constituir no imaginário coletivo uma vasta
população perigosa que se tratava de manter à distância. Nas grandes cidades,
eles representavam uma parte considerável e não negligenciável das classes
trabalhadoras. Nas contas do autor, a condição de domicílio conduzia
provavelmente a subtrair do corpo eleitoral perto de 15 por cento dos homens em
idade de votar. A associação entre cidadania e domicílio tornou-se fundamental
no século XIX, o que mostrava que "o medo secular dos vagabundos e dos
indivíduos desterritorializados continuava a assustar o corpo social" (1992:
77). O principal contingente de cidadãos passivos era constituído de mendigos,
vagabundos, exercendo aqui ou ali, ao grado das temporadas e das oportunidades,
as tarefas agrícolas.
11. Esses não eram reflexos imediatos do calor dos fatos, visto que tais
memórias de 1848 foram registradas entre 1850 e 1851, e publicadas após a morte
do autor, em 1959. Porém, são afirmações ainda imersas em uma retórica
rememorativa do clima das paixões desenfreadas.
12. As passagens referentes à obra de Tocqueville foram reproduzidas
diretamente das citações feitas por Capdevila, com se indica por meio do termo
"apud". Optou-se ainda por fazer referência aos originais em francês. Por isso,
todas as referências do livro Democracia na América estão assinaladas pela
sigla DA, seguida da indicação de volume, da parte, do capítulo e da página
relativa ao segundo volume de Oeuvres,onde foi publicado (Oeuvres, volume II,
Paris, Gallimard, "Bibliothèque de la Pléiade", 1992).
13. De fato, Proudhon entendia que, em 1848, o medo do socialismo teria forçado
todos "a refletirem sobre as condições do trabalho e da propriedade, e a
revolução foi feita" (Le Droit au Travail et le Droit de Propriété, Paris,
1850:56 e 56 apud Capdevila, 2007:14).
14. Por certo, o tema do instinto, da razão e da paixão, muito caro aos
filósofos e políticos da modernidade (Hobbes, Hume, Spinoza etc.), influenciou
o pensamento político democrático. Albert O. Hirschman desenvolveu uma
concepção interessante sobre a linguagem das paixões e dos interesses na
política em As paixões e os Interesses: argumentos políticos a favor do
capitalismo antes do seu triunfo (2002).
15. Destacando na obra de Tocqueville uma série de passagens notáveis,
sobretudo do ponto de vista sociológico, Capdevila (2007:36) mostrou como esse
autor observou os meios pelos quais se afirmava a prevalência do espírito
elitista sobre os instintos do povo. Para Tocqueville, ainda que a linguagem
culta do legislador se tornasse a língua vulgar do povo, o superior não era
degradado pelo inferior, e sim este era captado e elevado. Dessa maneira,
considerava-se que a assembleia legislativa filtrava e purificava a vontade
popular (DA, I, II, 5,227) e, por isso, na divisão do poder legislativo, não se
via qualquer contradição do dogma da soberania do povo, mas sim um refinamento
de sua aplicação, extraindo o que ela tem de melhor e corrigindo "em parte os
instintos perigosos da democracia" (DA, I, II, 5, 226).
16. Socialistas como Proudhon tinham a seguinte visão sobre o papel dos
partidários dos reis na democracia: "Os realistas são democratas que levam o
princípio representativo até a sua última consequência, reduzindo o número de
representantes a um, ou dando um teto ao edifício representativo" (Carnet,
Dijon, Les Presses du Réel, 2004: 123 apud Capdevila, 2007: 44).
17. O poder onipotente da opressão ou do império da maioria contrastou com a
teoria da igualdade. Aplicada às inteligências, a igualdade submetia os
indivíduos às decisões do maior número. Marcelo Jasmin escreveu a propósito de
Tocqueville: "a censura invisível da maioria esmaga as individualidades e
impede a independência intelectual, consolidando a mediocridade cultural da
democracia e a impotência do indivíduo frente às massas" (2005:62). Ver adiante
a discussão em torno desse tema em Stuart Mill.
18. Para Chevalier, a opinião da burguesia sobre as classes populares e imposta
a essas classes e a baixa opinião que as classes populares tinham da burguesia
explicavam, em parte, o comportamento das massas, que deveria ser estudado como
um acerto de contas diário capaz de lançar luz sobre as grandes tormentas
públicas. Consideradas pelos outros e por elas mesmas como relegadas à margem
da civilização urbana, as massas se conduziam conforme essa condenação.
"Selvagens, lhes dizem; selvagens, a queremos. Selvagens elas serão então, de
todas as maneiras e a todos os momentos de sua existência" (Chevalier, 1984:
685).
19. É preciso considerar que os termos governo popular e república eram mais
frequentemente mencionados do que a palavra democracia, um tanto rarefeita na
linguagem política do último terço do século XVIII. Muitos historiadores das
ideias mostram que a democracia tinha uma significação muito própria, ligada ao
exercício do governo direto, ao sentido igualitário e à experiência grega.
20. Isso significou também que, para os federalistas, a representação não
continha o conflito entre soberania e formas do Estado moderno, como sugeriria
mais tarde Max Weber em O Socialismo [1918]. A forma moderna de Estado exigia
transferência dos meios de administração e produção para o controle de
funcionários especializados, sendo a soberania submetida à inevitabilidade do
controle burocrático da organização estatal (Avritzer, 1996:104).
21. Essas qualidades se constituíram em critérios dessa sociedade burguesa que
encontrou na meritocracia o instrumento de ordenação da sociedade. Os
princípios fundamentais dessa nova ordem meritocrática eram a virtude e a
inteligência. De acordo com o 6º artigo da Declaração de Direitos do Homem e do
Cidadão de 1789, os cidadãos podiam ser "igualmente admitidos a todas as
dignidades, postos e empregos públicos, segundo sua capacidade e sem outra
distinção que a de suas virtudes e inteligência". Ameritocracia passou a
funcionar como critério para ocupação de posições sociais a partir das
revoluções burguesas (Fischer in Bobbio, Matteucci, Pasquino, Dicionário de
Política, 1994:747 e o capítulo "A carreira aberta ao talento", in Eric
Hobsbawm, 2002:255).
22. Constant foi além para mostrar o aparente antagonismo entre o grande número
e a complexidade moderna. Na distinção entre a liberdade dos modernos e dos
antigos, a despolitização era, portanto, uma tendência: a liberdade dos
modernos de notava o "exercício pacífico da independência privada" (1985:15).
Constant afirmava que "[...] o exercício dos direitos políticos somente nos
proporciona pequena parte das satisfações que os antigos nele encontravam e, ao
mesmo tempo, os progressos da civilização, a tendência comercial da época, a
comunicação entre os povos multiplicaram e variaram ao infinito as formas de
felicidade particular." (1985:15). A existência individual tornava-se, nas
palavras do autor, "menos englobada na existência política" (idem: 23).
Ademais, o indivíduo perdido na multidão, em que "quase nunca percebe a
influência que exerce", não permitia experimentar sua importância social e
sentir a compensação pela sua participação no poder como o sentiam os antigos.
23. No Capítulo VII, Mill afirmou: "Aideia pura de democracia, conforme sua
definição, éogovernodetodoopovopelopovotodo,igualmenterepresentado. Democracia,
como normalmente concebida e até agora praticada, é o governo de todo o povo
pela mera maioria do povo exclusivamente representada. A primeira é sinônimo de
igualdade de todos os cidadãos; a última, estranhamente confundida com essa, é
um governo de privilégio em favor da maioria numérica, que sozinha possui
praticamente toda a voz do Estado".
24. Em A República (Politeia), Platão elegeu o rei-filósofo como o melhor
governante para uma sociedade perfeita ou ideal assentada sobre a Razão.
25. Wilhelm von Humboldt (1767-1835) formulou como ideal de sua teoria política
o cultivo da individualidade ou cultivo de si. Em On The Limits of State Action
(1969 [1851]), Humboldt afirmou que o verdadeiro fim do homem era "o mais alto
e harmonioso desenvolvimento de suas potencialidades em um completo e
consistente todo" (1969:16). Ele compreendida a sociedade como um todo, formado
pela mútua cooperação dos membros, suas vontades internas e capacidades. O
coletivo tornar-se-ia mais rico quanto mais potencialidades o indivíduo pudesse
realizar em condições de variedade de experiências culturais, sendo essa
variedade a expressão da liberdade, entendida como condição primordial. Dessa
maneira, sua preocupação não era quem devia exercer o poder, mas a fixação de
limites ao poder exercido. Vale ainda ressaltar, com Burrow (in Humboldt,
1969), que o ideal do homem cultivado, o connoisseur cultural, era
evidentemente acessível somente a uma elite cultivada, que podia dedicar tempo
e meios ao processo de desenvolvimento individual. Humboldt influenciou
franceses e ingleses, entre eles Stuart Mill, que fez de suas palavras a
epígrafe de Sobre a Liberdade (Mill, 1942): "O grandioso e capital princípio
para o qual todos os argumentos desenvolvidos nestas páginas diretamente
convergem é a importância absoluta e essencial do desenvolvimento humano na sua
riquíssima diversidade".
26. Essa sociologia encontrava paralelo nos conteúdos da Psicologia das Massas
de Gustave Le Bon, que buscou elementos nas Teorias de Hipnotismo e
Sugestionabilidade de Théodule-Armand Ribot (1839-1916) e na Psicologia de
Sigmund Freud para demonstrar que a conduta do indivíduo era motivada por
elementos irracionais e que, aglomerado na multidão, ele tinha racionalidade e
escrúpulos morais inibidos.
27. Faz-se aqui alusão à expressão utilizada pelo professor Cesar Guimarães,
que costuma dizer a seus alunos: a democracia "tem muito krátos epouco dêmos".
28. ParaumavisãocríticadaTeoriadaEscolhaRacional,consultaraobradeBruno
Sciberras de Carvalho: A Teoria da Escolha Racional como Teoria Social e
Política: uma interpretação crítica (2008).
29. Segundo Jacques Roger (1968), o iluminismo de Diderot permitia distinguir
em um país a existência de homens "esclarecidos" e outros homens, que estariam
condenados à ignorância - o enciclopedista concebia que dezenove vinte avos de
uma nação restariam na imbecilidade. Em uma escala mundial, imaginava-se que
haveria povos mais iluminados do que outros, cabendo, segundo Condorcet, à
Europa difundir suas luzes na África e nas Américas.
30. Segundo Rosa Guedes Lopes, Bachelard utilizou o termo obstáculo
epistemológico "para batizar tudo que se incrusta no conhecimento não
questionado, todos os pontos onde o progresso científico estanca, regride ou
goza inerte". Como ela explicou, a importância de detectar esses pontos
"sustenta sua tese de que o ato de conhecer se dá sempre contra um conhecimento
anterior, destruindo o que foi mal estabelecido e superando o que, no próprio
espírito, se forma como obstáculo à espiritualização" (s/d. A Noção de
Obstáculo Epistemológico. Disponível em: http://www.nucleosephora.com/
impressao/pdf/disc21ãobstaculoepstemolo.pdf. Acessado em 15/10/2009)
31. Para Bachelard, o historiador da ciência deve tomar as ideias como se
fossem fatos e o epistemólogo deve tomar os fatos como se fossem ideias,
inserindo-as num sistema de pensamento. "Um fato mal interpretado por uma época
permanece para o historiador um fato. Para o epistemólogo é um obstáculo, um
contrapensamento" (1996:22).