Internacionalização pelo envolvimento de atores externos no conflito
colombiano: atuação da OEA na desmobilização de grupos paramilitares na
Colômbia
Qualquer análise que se proponha a compreender os processos políticos na
Colômbia não deve se distanciar da existência de um conflito de longa duração
nesse país. Suas raízes são domésticas, sob o pano de fundo das disputas entre
os dois partidos nacionais, predominantes no século XIX, as quais, associadas a
fatores de ordem social e econômica e ao contexto da Guerra Fria, constituíram
o caldo sociopolítico para o surgimento das primeiras guerrilhas organizadas.
No sentido mais estrito de sua definição, e em uma apropriação livre do
conceito de Edward E. Azar, o conflito colombiano é um "protracted social
conflict" (um conflito social prolongado) em que
as percepções e motivações por trás do comportamento dos atores
estatais e comunais são condicionadas por experiências, temores e um
sistema de crenças de cada um dos grupos comunais. Em uma situação de
interações limitadas ou proscritas, as piores motivações tendem a ser
atribuídas ao outro lado. Há pouca possibilidade de falsificação, e a
consequência são as recíprocas imagens negativas que perpetuam o
antagonismo comunal e fortalecem o conflito social prolongado (Azar,
1990:15; tradução dos autores).
Embora, para efeitos da temática deste artigo, não seja possível aceitar os
termos de Azar para denominar o caso da Colômbia "conflito comunal" e, mais
ainda, no caso das relações entre o Estado colombiano e um dos atores políticos
envolvidos - os grupos paramilitares -, uma das condições que permitiu um
acerto de cooperação foi a existência de "imagens recíprocas positivas" entre o
governo Álvaro Uribe e grupos paramilitares, dentre os quais se destacam as
Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), muito provavelmente em virtude dos
alegados vínculos entre o passado de Uribe e tais organizações armadas.
Para além disso, a partir da década de 1990, o conflito adquiriu uma
complexidade tal que se tornou problemático enquadrá-lo como um conflito armado
interno, haja vista que seus efeitos já se faziam sentir muito além de suas
fronteiras. Desde seu nascimento como Estado nacional, a história da Colômbia
foi marcada pela violência. Já no início do século XIX, a Independência foi
resultado de guerras civis cujo objetivo era a libertação do domínio espanhol.
De 1810 - ano da promulgação da primeira Constituição - até 1886, as acirradas
e violentas disputas entre os dois polos da elite criolla, agrupadas em torno
dos projetos federalista e centralista, resultaram em numerosas guerras civis.
Posteriormente, a Guerra dos Mil Dias (1899-1902) e o período La Violencia
(1948-1958), que, juntos, totalizaram aproximadamente 300 mil mortos,
corresponderam a dois dos capítulos mais sangrentos da história da Colômbia.
Mais do que representar um histórico de disputas políticas entre os dois
tradicionais partidos - o Conservador e o Liberal -, esses episódios constituem
uma espécie de prenúncio sem fim de um violento capítulo que se desdobrará em
um futuro próximo, em uma sucessão de eventos sangrentos que fazem da violência
um componente presente em praticamente toda a linha histórica do país. Não
seria, pois, exagero afirmar - como o fazem diversos estudos sobre a Colômbia
(Pécaut, 1987; Ostos, 2004; Alves, 2005; Guerrero, 2006, para citar alguns) -
que as disputas violentas que caracterizaram a trajetória política colombiana
formam o caldo sociopolítico para o surgimento dos principais movimentos
insurgentes do país.
A incapacidade do Estado colombiano em apresentar uma resposta aos projetos
revolucionários, por meio de políticas de inclusão social e do estabelecimento
de mais capilaridade da presença de instituições estatais nas regiões
historicamente alijadas dos projetos de integração territorial promovidos pelo
governo colombiano, abriu espaço para o aumento da complexidade do conflito
armado, que está presente no país há mais de quarenta anos (Bonilla, 2001;
Ostos, 2004; Villa e Viana, 2008).
Ao mesmo tempo que floresceu de um quadro de crescentes desigualdades sociais,
exclusão política e estagnação econômica, esse conflito de longa duração tem
contribuído para o agravamento de problemas da mesma natureza na Colômbia,
tendo gerado mais de 37 mil mortos de 1990 a 2002 (International Crisis Group,
2007) e mais de 3,5 milhões de deslocados internos entre 1999 e 20101. O
conflito contribui, entre outros fatores, para o desvio de recursos do Estado
para a área de segurança e para o sentimento permanente de insegurança na
população, além de criar exigências emergenciais de políticas que deem conta
dos enormes custos sociais decorrentes do deslocamento dessa população2.
Além do caráter doméstico, conforme mencionado, atribuído ao conflito armado
colombiano, este possui uma dimensão internacional, entendida pela literatura
em dois sentidos principais: o primeiro deles, a "internacionalização de fato"
(Leongómez, 2004:160), diz respeito à propagação dos efeitos do conflito para
além das fronteiras nacionais; o segundo atribui a qualificação internacional
ao conflito em virtude da participação de atores externos nas iniciativas
voltadas para sua resolução.
A internacionalização de fato diz respeito tanto ao nível regional quanto ao
global. Dentre os fatores que permitem identificar a transposição das
fronteiras no caso colombiano, destacam-se: narcotráfico; refugiados;
deslocamento das guerrilhas; e fluxo de armamentos. O tráfico de drogas
constitui uma atividade essencialmente internacional, na medida em que sua
extensa cadeia produtiva envolve diversos países: desde a importação de insumos
químicos da Europa3, passando pelo cultivo e processamento da folha de coca,
atividades concentradas nos países andinos, à distribuição da droga nos Estados
Unidos da América (EUA) e na Europa (Thoumi, 2002; Camacho, 2006). Além disso,
as políticas antinarcóticos e contrainsurgentes levadas a cabo pelo governo
colombiano têm produzido o deslocamento dos cultivos de narcóticos em direção
aos países limítrofes à Colômbia, bem como das guerrilhas em direção ao Equador
e à Venezuela - notadamente a partir da administração Uribe (2002-2010). A ação
das guerrilhas, de grupos paramilitares e, por vezes, das forças oficiais tem
gerado um deslocamento massivo de populações interna e externamente ao
território colombiano. No segundo caso, estima-se que 300 mil colombianos
tenham deixado o país em busca de segurança4 entre 1996 e 2005 (Tokatlián,
2001:81). O aumento do fluxo de armas para a Colômbia também tem sido apontado
por governos vizinhos como um fator preocupante de desequilíbrio militar e de
desestabilização regional.
O outro sentido em que se atribui uma dimensão internacional ao conflito armado
colombiano parte da identificação do envolvimento de atores externos nas
tentativas de resolução do conflito. No caso da Colômbia, a participação
internacional ocorreu por meio de iniciativas voltadas para as negociações com
os grupos armados (forma direta) - bons ofícios, facilitação e verificação - e
de programas de assistência ao governo e/ou à sociedade civil com vistas à paz
(indireta). Durante a administração César Gaviria (1990-1994), por exemplo,
Venezuela e México ofereceram bons ofícios nas negociações com a Coordenadora
Nacional Guerrilheira Simón Bolívar - constituída de Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia (Farc), Exército de Libertação Nacional (ELN) e
Exército Popular de Libertação (EPL) -, culminando nos acordos de Caracas
(1991) e Tlaxcala (1992).
Que relação existe entre a internacionalização de fato e a internacionalização
pelo envolvimento de atores externos no caso colombiano? Parece plausível supor
que, quanto mais forte a propagação dos efeitos do conflito além das fronteiras
do país que constitui seu núcleo, maior será o envolvimento de atores externos
- sobretudo daqueles diretamente afetados pelo conflito5. Com efeito, a
natureza transnacional dos problemas colombianos acabou impulsionando uma
exposição da agenda doméstica à comunidade internacional, na medida em que a
resolução dos problemas do país exigia a cooperação entre os estados.
Embora se entenda a relação entre ambos os focos conceituais, para fins de
análise neste artigo, opta-se pela internacionalização do envolvimento dos
atores externos por meio de seus programas e propostas. O contexto
internacional favorável para esse envolvimento só começou a se configurar no
pós-Guerra Fria, quando a ampliação do conceito tradicional de segurança
incluiu novos temas na agenda de segurança internacional, como drogas ilícitas,
democracia, pobreza, direitos humanos e meio ambiente. Assim, muitas das
preocupações internacionais definidas na década de 1990 foram identificadas na
Colômbia, de modo que esta passou a ser caracterizada como a maior fonte de
instabilidade regional.
No entanto, a maior visibilidade adquirida pelo conflito colombiano nesse
período não pode ser explicada unicamente pelo contexto internacional: os
desdobramentos de natureza doméstica desempenharam um papel significativo nesse
processo. Conscientes da caracterização da Colômbia como um "país problema"
(García-Peña, 2006) no cenário internacional, as lideranças políticas desse
país passaram a demandar mais envolvimento de atores externos e a exigir que
estes reconhecessem sua corresponsabilidade quanto a alguns aspectos da crise
colombiana. Note-se, pois, a existência de um continuum entre o transbordamento
dos efeitos do conflito além da fronteira nacional e a participação de atores
externos.
Nesse processo de internacionalização dos processos de paz na Colômbia,
destaca-se a participação dos EUA, da União Europeia (UE), da Organização das
Nações Unidas (ONU) e da Organização dos Estados Americanos (OEA)6. Esses
atores governamentais e intergovernamentais, entretanto, não apresentam visões
e propostas harmônicas em direção ao conflito armado - o que incrementa a
complexidade do tabuleiro da paz na Colômbia.
No que diz respeito a esse último ponto, parece interessante aprofundar a
discussão acerca do papel da OEA na Colômbia, na medida em que,
recorrentemente, algumas iniciativas dessa Organização são consideradas uma
continuidade da política estadunidense (Diamint, 2000; Tickner, 2000; Villa,
2008). Parafraseando Monica Herz (2008), a OEA importaria na mediação de
conflitos no sistema interamericano?
Quais seriam as motivações da Organização ao propor agir no processo de
internacionalização por meio de mecanismos de resolução de conflito no caso da
Colômbia? Desde os anos 1990, a OEA tem desempenhado, no campo das relações
interestatais do sistema interamericano, um papel destacado nesse sistema. Um
passo firme foi dado em 1991, no chamado Compromisso de Santiago do Chile, que
culminou com a Declaração de Defesa Coletiva da Democracia e a Resolução 1080,
ou "cláusula democrática" - mecanismos normativos que preveem a suspensão do
sistema interamericano em países onde há ruptura da ordem constitucional
democrática. Esse processo foi afirmado, no aspecto operacional, com a fundação
da Unidade para o Desenvolvimento Democrático (UDD), que coordena as chamadas
Missões de Observadores da OEA (MOEA) em processos eleitorais do continente.
Desde sua fundação, a OEA tem participado de mais de cem processos eleitorais,
tanto em níveis legislativos quanto presidenciais. Por outro lado, a Resolução
1080 foi invocada durante a década de 1990 no caso de quatro estados membros:
Haiti (1991), Peru (1992), República Dominicana (1994) e Paraguai (1996),
havendo ainda um pedido de aplicação no caso das eleições peruanas de 2000, no
regime de Alberto Fujimori.
No entanto, talvez a maior fragilidade atual do sistema de governabilidade
regional gerado pela OEA esteja relacionada à administração de conflitos
intraestatais, o que teoricamente é importante pela seguinte razão: um sistema
de governabilidade regional como a OEA poderia administrar conflitos
intraestatais que eventualmente surgissem, bem como aqueles que já se
encontrassem em andamento, mas a ausência de iniciativas da OEA em conflitos
desse caráter revela a fragilidade da Organização em operacionalizar os
mecanismos de intervenção de que dispõe, mesmo no caso de conflitos já
contemplados em sua estrutura normativa. Assim, a participação da OEA no
processo de desmobilização na Colômbia muito provavelmente buscava sinalizar o
esforço de testar, em conflitos intraestatais, os mecanismos de que a
Organização dispõe. É possível que, como resultado da ausência de conflitos
interestatais no continente em quase trinta anos (além do colombiano), a OEA
tenha se descuidado de testar mecanismos de solução de conflitos daquela
natureza. Além disso, aproveitou o learning da experiência acumulada por suas
instituições em outros campos de atuação, como as MOEA, para o planejamento da
metodologia de abordagem de diferentes atores envolvidos no conflito.
Outra motivação está relacionada com a legitimidade atribuída à atuação da OEA:
atores com posições em conflito (o governo e os grupos paramilitares)
perceberam, na Organização, uma arena legítima para a resolução do problema.
Nesse aspecto, a OEA, por meio da Missão de Apoio ao Processo de Paz na
Colômbia (MAPP/OEA), exerceu uma espécie de liderança multilateral, afastando
possibilidades de solução unilateral, da mesma forma que iniciativas como o
Plano Colômbia no passado. A intervenção da OEA, aliás, é uma oportunidade para
mostrar que os alinhamentos automáticos com os EUA eram mais problemáticos com
o fim da Guerra Fria.
Um olhar mais atento sobre a MAPP/OEA aponta uma relação diferenciada da OEA
com os EUA, como será visto ao longo deste artigo. Além disso, a MAPP/OEA,
criada em 2004 com a finalidade de acompanhar o processo de desmobilização dos
grupos paramilitares conduzido pelo governo Uribe, assinala um envolvimento
mais consistente da Organização no processo de paz da Colômbia.
Tendo as linhas esboçadas anteriormente como desafios analíticos, este artigo
está dividido em três seções. Na primeira, a passagem do doméstico para o
internacional ao longo da trajetória do conflito é problematizada,
identificando os principais atores estatais e multilaterais que medeiam ou
intervêm nesse conflito. A segunda seção é dedicada à análise do papel da MAPP/
OEA no processo de desmobilização dos grupos paramilitares colombianos. Na
terceira seção, retoma-se a discussão sobre o impacto da internacionalização,
pela incorporação de atores externos, em face do balanço que se faz da atuação
da MAPP/OEA.
INTERNACIONALIZAÇÃO DO PROCESSO DE PAZ NA COLÔMBIA PELO ENVOLVIMENTO DE ATORES
EXTERNOS
O aumento da participação internacional nas tentativas de resolução do conflito
armado colombiano - aqui denominada "internacionalização do processo de paz" -,
observado desde finais da década de 1990, pode ser atribuído à combinação de
duas variáveis: a debilidade do Estado colombiano e o contexto do pós-Guerra
Fria (Bonilla, 2001). A erosão das atribuições do Estado colombiano no manejo
das políticas sociais e econômicas contribuiu para a transferência de parte de
sua capacidade decisória para agências internacionais dedicadas à gestão de
problemas dessa natureza, além de expor à comunidade internacional e à
sociedade colombiana a imagem de um Estado incapaz de fazer frente ao conflito
armado com os próprios meios. Soma-se a isso o contexto global, que contribuiu
para que tais agências internacionais incrementassem sua capacidade de intervir
em âmbitos anteriormente regulados pelos estados (ibidem:62).
Conscientes da forte exposição da agenda doméstica ao cenário internacional no
pós-Guerra Fria, os governos colombianos passaram a demandar, desde finais dos
anos 1990, mais cooperação estrangeira nas tentativas de resolução do conflito,
sob o argumento de que não eram capazes de fazê-lo isoladamente. As palavras do
ex-presidente Misael Pastrana são elucidativas nesse sentido: "A Colômbia não
conseguirá sozinha. O desafio que enfrentamos como nação e como parte da
comunidade mundial é, talvez, o maior desafio de nossa história" (apud Bonilla,
2001:61-62; tradução dos autores).
A trajetória da internacionalização do processo de paz apresentou dois pontos
de inflexão principais. O primeiro deles ocorreu no governo César Gaviria
(1990-1994), período que coincidiu com a reformulação da agenda internacional
no pós-Guerra Fria. Trata-se de um ponto de inflexão que marcou o início do
envolvimento de atores estrangeiros com o processo de paz colombiano. Com
efeito, no governo Gaviria, México e Venezuela ofereceram seus bons ofícios
para as negociações junto à Coordenadora Guerrilheira Simón Bolívar,
constituída pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), pelo
Exército de Libertação Nacional (ELN) e pelo Exército Popular de Libertação
(EPL) nos anos 1980. Ao longo da administração Ernesto Samper (1994-1998), esse
processo foi aprofundado por meio da participação da Espanha e da Alemanha em
acordos de paz com o ELN. Além disso, o Congresso colombiano aprovou, nesse
período, o Protocolo II de Genebra, referente à proteção da população não
combatente em meio ao conflito. Foi incorporado à legislação da Colômbia após
ter sido aprovado pelo Congresso, sendo então incorporado à legislação do país;
e o presidente Samper assinou um convênio com a ONU, por meio do qual se
estabelecia um escritório de representação do Alto Comissariado das Nações
Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), em Bogotá.
Embora as observações feitas anteriormente se refiram estritamente às
iniciativas com vistas à pacificação do conflito armado, cabe considerar que,
na época do governo Gaviria, os EUA apresentavam um envolvimento crescente em
torno da temática das drogas na Colômbia. Um olhar desatento nos levaria a
afirmar que esse aspecto não diz respeito diretamente à preocupação central
desta análise. Contudo, é preciso tomar em conta que, de certa forma, o tema do
narcotráfico acabou por escancarar a dinâmica do conflito armado em virtude da
forte relação entre os fenômenos do narcotráfico e do conflito armado. Assim,
não somente os EUA mas também os demais atores aqui destacados direcionaram
gradualmente um olhar mais amplo em direção à crise da Colômbia, processo que
resultou na expansão horizontal (ampliação do leque temático) da agenda
internacional de paz para o conflito armado colombiano.
Ainda que as gestões de Gaviria (1990-1994) e Samper (1994-1998) tenham
contribuído para a crescente exposição da agenda interna da Colômbia à
comunidade internacional, é preciso considerar tais governos uma etapa
embrionária da internacionalização do processo de paz. Isso porque a
participação de atores estrangeiros nesse período se mostrou errática e não
sinalizou a existência de um debate amadurecido na Colômbia - tanto na
sociedade quanto no governo - acerca do que se esperava com essa cooperação
(Ramírez, 2004).
O segundo ponto de inflexão identificado na trajetória da internacionalização
do processo de paz foi o governo Pastrana, no qual foi possível observar, de um
lado, esforços voltados para a estruturação da participação internacional no
processo de paz; e, de outro, o aumento do número de atores envolvidos
(Carvajal e Bello, 1999; Chernick, 1999; Leongómez, 2004; Ramírez, 2004; Pardo
e Carvajal, 2004; Valdivieso, 2005-2006; García-Peña, 2006). O maior número de
atores envolvidos com a problemática colombiana decorreu da confluência de um
contexto internacional favorável com uma demanda mais estruturada por parte do
governo colombiano em relação aos objetivos do processo de paz. Disso
resultaram não somente a expansão horizontalda agenda internacional para o
conflito armado - em termos de número de atores e de temas - mas também sua
expansão vertical, no sentido de que a participação externa foi aprofundada a
partir desse período.
Pastrana implementou a chamada "Diplomacia pela Paz", pilar de sua política
externa que visava à obtenção de apoio internacional ao processo de paz por
meio de recursos humanos e financeiros. Além disso, criou instituições e canais
cujas atribuições refletiam bem a natureza interméstica7 do contexto em que se
inseria a Colômbia: o Fundo de Investimentos para a Paz e as Mesas de
Doadores8. Tais iniciativas ilustram um esforço, por parte do governo
colombiano, de manter as rédeas do processo de paz - o que revela o caráter
induzido desse processo de internacionalização -, ao mesmo tempo que reconhecia
sua vulnerabilidade perante a crise vivida pelo país. Essa leitura fica
evidente em trechos do Plano Colômbia, conjunto de diretrizes gerais que
definem as prioridades e as linhas de ação dos EUA na Colômbia: "O papel da
comunidade internacional também é vital para o êxito do processo de paz", e
essa "[...] pode desempenhar o papel de mediadora, inspetora ou, em uma etapa
posterior, verificadora do cumprimento dos acordos realizados" (Presidência
apud Pardo e Carvajal, 2004:196-197).
Em 2000, a arquitetura da política de Pastrana foi completada pelo Plano
Colômbia, o qual agradara, inicialmente, os países europeus por sua ênfase nas
raízes sociais do conflito e pelo delineamento de propostas alinhadas aos
princípios europeus de cooperação. A versão finalmente aprovada pelo Congresso
dos EUA, entretanto, inverteu a ordem de prioridades em favor de soluções
militares e antidrogas à crise colombiana. De todo modo, a aprovação do Plano
Colômbia marcou, de um lado, a intensificação da ajuda (essencialmente militar)
dos EUA à Colômbia e, de outro, a elaboração de um projeto europeu de
intervenção sobre a crise colombiana caracterizado, em linhas gerais, pelo
aspecto humanitário - embora este não seja equiparável à assistência dos EUA em
termos de recursos (Ramírez, 2004; Viana, 2012).
A oposição europeia à ênfase militar da intervenção estadunidense9 fez com que
a UE definisse uma inserção diferenciada - comparativamente aos EUA - no
processo de paz. Note-se, pois, que o Plano Colômbia constituiu um marco nas
relações entre a UE e a Colômbia, na medida em que o bloco europeu, antes
reticente a um envolvimento mais constante em relação ao conflito armado,
definiu as linhas gerais que orientariam seus programas com vistas à paz no
país10.
A intervenção dos EUA, por sua vez, priorizava nitidamente o combate às drogas
ilícitas desde meados da década de 1980 e mantinha certo distanciamento em
relação à problemática do conflito armado colombiano. No entanto, a retomada
das relações amistosas entre Washington e Bogotá em 1998, associada ao
recrudescimento do conflito armado, deu início a um processo ambíguo de
sobreposição entre a estratégia antinarcóticos e a luta contrainsurgente. Essa
ambiguidade só foi removida no contexto posterior aos atentados de 11 de
setembro, quando o conflito colombiano foi enquadrado na lógica de combate ao
terrorismo (Villa, 2010). Assim, embora não tenha sido precisamente a partir do
Plano Colômbia que os EUA removeram as ambiguidades existentes entre a luta
antidrogas e a contrainsurgente, o referido plano pode ser considerado um
prelúdio de um envolvimento mais direto dos EUA nas tentativas de resolução do
conflito por meio do combate às guerrilhas.
Os desdobramentos desencadeados pelo Plano Colômbia e pelo 11 de Setembro
agruparam as iniciativas de atores hemisféricos e globais em torno de duas
propostas centrais: a estadunidense e a europeia. De um lado, a iniciativa
estadunidense enfatizava o confronto militar contra as guerrilhas em vez do
diálogo. O elo conceitual entre guerrilhas e narcotráfico - narcoguerrilha11 -
permitiu que as lideranças estadunidenses sobrepusessem as estratégias
antidrogas e contrainsurgente. Dito de outra forma, o governo Bush
compartilhava da tese do governo Uribe de que o enfraquecimento das guerrilhas
passava necessariamente pela erradicação de cultivos de coca. Assim, a
transição da ajuda estadunidense ocorreu mais sob a forma de uma transposição
da estratégia antidrogas com a luta contrainsurgente do que propriamente por
uma nova formulação política. Desse modo, de uma intensa securitização da
agenda estadunidense para as drogas, passou-se à narcotização da política dos
EUA para o conflito colombiano.
Apesar da ênfase militar da ajuda estadunidense, parte do Departamento de
Estado e a maior parcela da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento
Internacional (USAID na sigla em inglês) lograram incluir dois dispositivos que
vinculavam a transferência de recursos à Colômbia ao cumprimento de exigências
relativas a direitos humanos: a Emenda Leahy12 e a certificação regular em
matéria de direitos humanos. Na prática, entretanto, tais mecanismos foram
esvaziados por meio de cláusulas que autorizavam a suspensão da referida
vinculação quando os interesses relacionados à segurança nacional dos EUA assim
o exigissem. Desse modo, o alinhamento de algumas instâncias estadunidenses a
recomendações em matéria de direitos humanos é apenas aparente na prática, na
medida em que somente vigora em situações em que os preceitos que regem
instâncias governamentais como o Departamento de Estado dos EUA não são
desafiados. Mais recentemente, entretanto, o aumento das pressões para que a
vinculação fosse cumprida de forma mais rigorosa contribuiu para a paralisia no
processo de aprovação do Tratado de Livre-Comércio com a Colômbia - o qual,
após cinco anos de negociação, foi aprovado em outubro de 201113.
Já a proposta europeia de participação no processo de paz apresentou como
principais características a ênfase no respeito aos direitos humanos e no
desenvolvimento social; o alinhamento aos princípios e às propostas da ONU; e
um forte caráter humanitário no delineamento de seus programas para a Colômbia.
Ademais, os países europeus engajaram-se em grupos de facilitação das
negociações sob o argumento de que privilegiavam a negociação como meio de
resolução do conflito em detrimento do confronto. Com esses esforços, parece
plausível identificar um propósito de que a leitura dos fatores originários da
crise colombiana não apresentasse um viés securitizador.
O contexto posterior aos atentados de 11 de setembro implicou alguns desafios
ao modelo desenhado pela UE visando diferenciar sua abordagem da estadunidense
no que tange ao conflito. A política de segurança defendida por Álvaro Uribe
(2002-2010), bem como sua negação em incorporar elementos sociais, econômicos e
políticos à sua leitura do conflito armado colombiano, exigiu que a UE
retomasse a postura reticente em relação à cooperação com a Colômbia a fim de
manter a coerência dos princípios orientadores de sua política de cooperação
com a América Latina. Em face da dificuldade de alcançar uma posição consensual
entre seus membros no que dizia respeito à luta antiterrorista, a UE optou por
uma estratégia de apoio aos termos gerais do Plano Colômbia, mas não aos meios
utilizados pelo presidente colombiano no combate às guerrilhas14.
Os atentados terroristas de Madri (2004) e Londres (2005) puseram novamente à
prova a capacidade da UE de apresentar uma posição consensual em relação à
cruzada antiterrorista conduzida pelos EUA. Diferentemente de outras ocasiões,
a resposta europeia ocorreu na mesma linha que a Declaração de Cartagena15,
assinada em fevereiro de 2005, quando da realização de uma reunião multilateral
com potenciais financiadores para a resolução do conflito armado colombiano. Em
contraste com a Declaração de Londres16, assinada pelo mesmo grupo de
financiadores em 2003, no documento elaborado em Cartagena, a ênfase na
necessidade de avanços cedeu lugar ao reconhecimento dos avanços alcançadose ao
tom conciliador com o governo Uribe. Com efeito, o texto da declaração reafirma
o "respaldo ao governo colombiano em seus esforços para fortalecer o bem-estar
e a segurança de todos os cidadãos colombianos, assim como na luta contra o
terrorismo e as drogas ilícitas" (tradução dos autores)17; ressalta a
relevância do processo de desmobilização dos paramilitares; condena as
guerrilhas por não demonstrarem uma atitude favorável a uma negociação séria; e
omite - conforme desejava o governo Uribe - as expressões "conflito armado
interno" e "crise humanitária" na Colômbia. Assim, a Declaração de Cartagena
foi anunciada pela mídia colombiana como um "respaldo menos tímido" ou o
primeiro respaldo considerável da comunidade internacional ao governo Uribe (El
Tiempo, 1o/2/2005).
Embora a Declaração de Cartagena tenha marcado a aproximação da UE em direção à
Colômbia, isso não implica dizer que tenha marcado a aproximação entre as
propostas dos EUA e da UE para o conflito colombiano. A ajuda europeia
continuou a ser pautada em temas como proteção aos direitos humanos,
desenvolvimento alternativo, fortalecimento do Estado de direito e da sociedade
civil. O caráter descentralizado do modelo europeu - segundo o qual os
destinatários finais dos recursos são organizações da sociedade civil, e não o
Estado - permitiu a continuidade da assistência europeia mesmo em momentos de
atrito diplomático.
Apesar de sua relevância para o equilíbrio entre as diferentes posições
políticas em face do conflito armado colombiano, a proposta da UE ainda não
constitui uma compensação à dos EUA. De um lado, isso decorre de uma limitação
político-institucional inerente ao bloco, a qual pode ser entendida sob dois
aspectos principais: a diversidade de posições políticas entre seus membros e
entre os próprios órgãos da UE. O Plano Colômbia e os atentados de 11 de
setembro são exemplos emblemáticos do que foi dito anteriormente. Nessas
ocasiões, o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia divergiram quanto ao
posicionamento a ser adotado, e a conduta política de alguns estados europeus -
destacadamente, Espanha e Inglaterra - também destoou em relação à posição dos
demais membros.
De outro lado, a presença hegemônica dos EUA no hemisfério, notadamente na
região andina, leva alguns autores (García-Peña, 2001; Ramírez, 2004; 2006) a
explicar o distanciamento com que a UE encarou o conflito colombiano como
resultado da leitura de que se trata de uma área de influência dos EUA. De
fato, historicamente a UE se manteve distante de uma cooperação estreita com a
América Latina, apesar de ensaiar, em algumas ocasiões, a formulação de
mecanismos de cooperação que a aproximassem da região. Com a ampliação do
número de estados membros da UE, essa possibilidade se tornou ainda mais
distante, na medida em que equacionar as diferenças estruturais - em termos
econômicos e políticos - que separam os países da Europa Central daqueles do
Leste Europeu se tornou uma prioridade para o sucesso do projeto de integração.
Além disso, a proposta da UE não poderia constituir uma compensação humanitária
ao caráter essencialmente militar da presença estadunidense se considerarmos a
disparidade entre os montantes que cada um desses atores destina à Colômbia.
Antes de tudo, os US$ 315 milhões destinados pela Comissão Europeia ao país
andino estão longe de fazer frente aos US$ 5,2 bilhões destinados pelos EUA
entre 1997 e 2007. Entre 2003 e 2006, período em que a ajuda da Europa é
ampliada, os EUA responderam por 42% dos recursos destinados à Colômbia, ao
passo que a Comissão Europeia por pouco menos de 13%18.
Em relação à polarização das propostas em torno dos EUA e da UE, cabe ressaltar
que a OEA e a ONU não escaparam a essa tendência. Na primeira, os principais
temas relacionados ao conflito foram, em linhas gerais, abordados em
conformidade com os interesses estadunidenses, fornecedores de parcela
representativa dos recursos à Organização hemisférica, sobretudo na gestão
Uribe, que privilegiou de forma nítida a aliança com os EUA. Além disso, a
sintonia da OEA com os interesses desse país favoreceu a cooperação da
Organização com o governo colombiano por meio do envio da MAPP/OEA.
Quanto à ONU, suas recomendações em matéria de direitos humanos só adquiriram
força no contexto colombiano a partir do momento em que foram associadas à
política de cooperação da UE com a Colômbia. Isso ocorreu de forma mais
explícita na Declaração de Londres (2003), enfática quanto à exigência de que
as recomendações do ACNUDH fossem cumpridas sob pena de interrupção da
transferência de recursos da Europa para a Colômbia.
O estreito vínculo entre as formulações da UE e da ONU se reproduziu também nos
esforços diplomáticos empreendidos por ambas nas negociações de paz. Assim como
no caso europeu, o fracasso das negociações de paz em 200219 implicou o
afastamento do polo político da ONU (situado em Nova York) em relação à
problemática colombiana. Isso culminou no esvaziamento - e na posterior
extinção - do cargo de delegado do secretário-geral para a Colômbia, ao qual
cabia se dedicar exclusivamente às tratativas de paz.
Por outro lado, as iniciativas da OEA apresentam uma orientação mais voltada
para os interesses estadunidenses, com poucas ressalvas. Desse modo, no
contexto mais recente, os estreitos laços entre o governo Uribe e os EUA
repercutiram em um apoio mais discreto por parte da ONU. Esta manteve apenas as
atividades executadas por suas agências instaladas na Colômbia - atualmente, 23
-, mas optou pelo silencia-mento de seu polo político a respeito da crise
colombiana. Foi na OEA que o presidente Uribe encontrou amparo ao pilar de sua
estratégia de resolução do conflito armado relativo à desmobilização dos grupos
paramilitares.
De fato, a MAPP/OEA foi comemorada pelo governo colombiano como um atestado do
apoio multilateral, em contrapartida à recusa da ONU em atender aos insistentes
pedidos de Uribe de que enviasse uma missão de paz que garantisse a segurança
nas regiões já ocupadas pelo Exército colombiano, a fim de permitir que a
população deslocada pelo conflito retornasse a seus lares.
O CASO DA MAPP/OEA E A DESMOBILIZAÇÃO PARAMILITAR
Durante a Guerra Fria, o debate sobre o perigo de uma guerra nuclear ofuscou o
tratamento adequado à questão das armas ligeiras20 no âmbito da OEA, problema
já bastante presente em conflitos regionais à época. O mesmo ocorreu no caso da
Comissão de Desarmamento das Nações Unidas, criada em 1978, cuja atuação foi
engessada pela União Soviética e pelos EUA, restringindo-se, assim, à abordagem
das armas de destruição em massa.
Em meados da década de 1980, entretanto, o tema das armas ligeiras começou a
ganhar notoriedade nos debates da OEA graças ao papel desempenhado pela
Organização nos processos de desmobilização, desarmamento e verificação21 da
"contra"22 na Nicarágua e no Suriname (Ramírez, 1995:140-141). No primeiro
país, além de uma Missão de Observação Eleitoral composta de 400 integrantes
para acompanhar o pleito de 1990, a OEA criou o Acompanhamento e Verificação de
Garantias (PSV na sigla em espanhol) - com a função de receber denúncias de
porte ilegal de armas ligeiras e encaminhá-las ao Ministério de Governo da
Nicarágua para os casos serem averiguados - e a Comissão Internacional de Apoio
e Verificação (Ciav), que também atuava nos processos de desmobilização e
reinserção da "contra"23.
O estreito vínculo entre a atividade do narcotráfico e o tráfico de armas
ligeiras foi utilizado como justificativa para o tratamento do tema
exclusivamente no âmbito da Comissão Interamericana para o Controle do Abuso de
Drogas (Cicad). Tal vinculação ocorreu formalmente em 1990, quando da Reunião
de Estupefacientes e Substâncias Psicotrópicas realizada em Ixtapa (México)24.
Nessa reunião, os estados membros da OEA solicitaram à Cicad a elaboração de um
estudo em profundidade acerca do controle de armas e explosivos e seu vínculo
com o narcotráfico no hemisfério, bem como a elaboração de um marco normativo
que pudesse servir de modelo para os estados membros da OEA (pontos 6 e 12 da
declaração).
No entanto, isso não implica afirmar que o debate em torno da temática das
armas ligeiras tenha sido substancialmente alterado com o fim da Guerra Fria. A
continuidade da influência estadunidense sobre o tratamento do tema ficou
evidente no caso do documento Medidas de Fomento à Confiança25 (CBM na sigla em
inglês), aprovado em 1993 pela Assembleia Geral da OEA. O referido documento
visava à definição de um conceito amplo de segurança, que incluísse, entre
outros fatores, a problemática relacionada às armas convencionais no debate
internacional. Todavia, as duas reuniões que seguiram à aprovação do docu-
mento26 mantiveram a ênfase sobre as armas de destruição em massa com a
justificativa de que a Cicad se encarregaria de avaliar a questão das armas
ligeiras apropriadamente27. Tal lógica fez com que o tema fosse retirado dos
trabalhos no âmbito da Comissão Especial de Segurança Hemisférica, o que tornou
seu debate intermitente, haja vista que as reuniões da Cicad ocorrem somente
duas vezes por ano.
Para países como a Colômbia, diretamente impactados pela questão das armas
ligeiras, o tema deveria ser tratado em conformidade com sua complexidade, além
de exigir um debate integral e profundo, que considerasse o maior número
possível de variáveis determinantes - como produção, comércio legal ou
clandestino e tráfico e demanda de armas ligeiras. A despeito da proatividade
demonstrada pela delegação colombiana no interior da Cicad para que a abordagem
do tema fosse aprofundada, o interesse dos EUA, resistentes à ideia de que o
problema recebesse tratamento especial, parece ter predominado.
Como vimos, a problemática do conflito colombiano só passou a figurar na agenda
internacional após os atentados de 11 de setembro de 2001. Assim, para além do
espaço que o tema das armas ligeiras e do desarmamento havia conquistado no
âmbito da OEA, os atentados de 11 de setembro e o destaque adquirido pelo
conflito armado colombiano acabaram por criar um contexto favorável à criação
da MAPP/OEA28.
MAPP/OEA: Tensões no Marco Normativo de Resolução de Conflitos
Uma análise mais minuciosa da Missão de Apoio ao Processo de Paz na Colômbia
(MAPP) se revela esclarecedora do eixo analítico da internacionalização pelo
envolvimento dos atores externos e problematiza noções geralmente estabelecidas
a priori sobre as relações mais complexas entre atores estatais e
multilaterais. Primeiramente, a iniciativa de criação da MAPP representa um
marco na trajetória do conflito colombiano: pela primeira vez, uma organização
internacional foi convidada a verificar um processo de paz no país. Nas
negociações levadas a cabo anteriormente com grupos armados, a presença
internacional ocorreu sob a forma de representantes individuais para auxiliar e
mediar as negociações, mas não de uma missão institucionalizada e permanente
presente na Colômbia.
A MAPP pode ainda ser pensada como um divisor de águas na relação da Colômbia
com a OEA, uma vez que é a partir da criação da missão que se estabelecem, com
a instalação de escritórios representativos da MAPP no país, vínculos políticos
mais fortes entre a Colômbia e a Organização. Antes disso, a ação da OEA em
face do conflito armado colombiano restringia-se ao envio de relatores para a
observação da situação dos direitos humanos no país e a declarações políticas
sobre a situação colombiana - as quais se tornaram mais numerosas no contexto
posterior aos atentados de 11 de setembro.
Além disso, a criação da MAPP encaixou-se bem com a demanda da administração
Uribe (2002-2010) por um papel mais ativo e direto das duas principais
organizações multilaterais envolvidas com o conflito armado: a ONU e a OEA.
Desde o primeiro ano de seu mandato, a MAPP buscou pressionar - sem sucesso - a
ONU para que enviasse uma missão humanitária dotada de soldados cascos azuis
aos municípios colombianos mais afetados pela ação dos grupos armados29,
sobretudo no que tange à proteção dos deslocados internos. Sem sucesso em sua
empreitada diante da ONU, Uribe recorreu ao apoio da OEA para que esta
cooperasse com o processo de desmobilização levado a cabo junto aos grupos
paramilitares.
A instituição da MAPP resultou da demonstração, em sucessivas reuniões, de
interesse do governo da Colômbia em contar com um apoio mais amplo dos países
do hemisfério nos programas de resolução do conflito colombiano30, interesse
que foi intensificado no governo Álvaro Uribe. A OEA expressou esse apoio em
diversas ocasiões, mas sempre sob a forma de declarações políticas, sem nenhuma
implicação prática para o conflito armado colombiano. Por exemplo, em um
excerto da Declaração da Conferência Especial sobre Segurança a respeito da
Situação na Colômbia, realizada em outubro de 2003, os países do hemisfério
manifestaram apoio ao governo
em sua busca de soluções pacíficas negociadas para superar a
violência, mediante a cessação de hostilidades [...] e [fizeram] um
chamado à comunidade internacional para que respalde o rápido início
das negociações, os programas de desmobilização, reconciliação,
desarmamento, e reinserção necessários para que se chegue, de maneira
justa e transparente, à reincorporação à vida civil de integrantes de
todos os grupos armados ilegais (Conferencia Especial sobre
Seguridad, 2003; tradução dos autores).
Em 23 de janeiro de 2004, César Gaviria, à época secretário-geral da OEA, e o
presidente Uribe assinaram o convênio que determinou a criação de uma missão
multilateral de verificação dos processos de desmobilização, desarmamento e
reinserção dos paramilitares que o governo colombiano levava a cabo. O
estabelecimento da MAPP foi autorizado em 6 de fevereiro pelo Conselho
Permanente da OEA, mediante a Resolução 859 (1397/04), e recebeu apoio imediato
dos EUA e do representante do secretário-geral da ONU.
O mandato especifica os princípios sob os quais opera a MAPP: neutralidade,
entendida como o tratamento igual às partes afetadas pela violência; autonomia,
ou seja, independência do governo e dos grupos ramados ilegais; flexibilidade,
a fim de permitir a adaptação às realidades do processo; e respeito à soberania
e à independência do Estado colombiano (Permanent Council of the OAS, 2004).
Destaque-se, para os fins desta análise, que o mandato da MAPP antecedeu a
aprovação da Lei de Justiça e Paz (lei 975)31, dispositivo normativo que
regulamenta, no âmbito nacional, o processo do qual se ocupa a missão da OEA.
Desse modo, a MAPP iniciou suas atividades em 2004, quando já haviam sido
assinados o Acordo de Santa Fé de Ralito com as Autodefesas Unidas da Colômbia
(AUC) (julho de 2003) e o Acordo de Fátima32, mas sem que houvesse um conjunto
de normas legais e judiciaisdefinidas e devidamente aprovadas no Congresso a
respeito dos processos acordados com os grupos paramilitares. Ao ser aprovada,
a Lei de Justiça e Paz exigiu uma adaptação das atividades da MAPP,
evidenciando a falta de planejamento e de clareza por parte do governo e da OEA
quanto às atividades da missão, "com o alto custo de [esta] dever definir suas
funções no decorrer dos acontecimentos" (Violante, 2007:47; tradução dos
autores). A principal implicação prática disso foi a alteração recorrente das
prioridades da MAPP.
A Lei de Justiça e Paz trata da desmobilização de "grupos armados organizados à
margem da lei [...], que tenham decidido se desmobilizar e contribuir
decisivamente para a reconciliação nacional"33, ou seja, não diferencia
guerrilhas (Farc e ELN) de paramilitares. No entanto, a implementação dessas
normas ocorreu de forma restrita aos grupos paramilitares, ao passo que, contra
o grupo guerrilheiro das Farc, foi aplicado o Plano Patriota, ofensiva militar
incisiva no Sul da Colômbia. Assim, embora a MAPP seja operada no marco da
referida lei, seu trabalho se dedicou exclusivamente à desmobilização de grupos
paramilitares - notadamente de integrantes das AUC e do Bloco Central Bolívar
(BCB).
Os documentos que instituíram a MAPP - o Convênio e a Resolução - foram alvo de
polêmica, uma vez que enquadraram a atuação da missão nos limites das
iniciativas de paz do governo da Colômbia34 e determinam que a MAPP não deve
interferir nos assuntos internos do país, tampouco opinar sobre decisões de
caráter político ou jurídico do Estado colombiano:
A leitura prática que resulta dessa interpretação contraditória acaba
por reforçar a ideia de que a MAPP dá um apoio incondicional à
política de paz do governo, do qual não é independente nem autônoma,
uma vez que, enquanto acompanha todas as ações governamentais
orientadas à paz do país, não toma posição, não opina, mas sim aprova
silenciosamente as decisões do governo (Violante, 2007:47; tradução
dos autores).
Longe de desejar lançar mão de uma avaliação sobre os resultados obtidos pela
missão no transcurso de suas atividades, acredita-se que alguns questionamentos
levantados em relação à MAPP contribuem para uma melhor compreensão acerca da
inserção da OEA como ator externo no conflito armado colombiano. Além da
preocupação com os resultados que podem advir de um acompanhamento passivo da
missão, o trecho transcrito revela uma preocupação de ordem conceitual, que diz
respeito ao atrito intrínseco entre o marco jurídico dentro do qual atua a MAPP
e os princípios de independência, autonomia e imparcialidade característicos à
função de verificação do ator que age como terceira parte em um conflito.
Uma análise da internacionalização pelo envolvimento dos atores externos, no
entanto, deve considerar, mesmo que brevemente, os aspectos normativos, ou o
marco regulatório, que possibilita estabelecer as margens possíveis de ação e
intervenção no processo de verificação de acordos entre atores internos
envolvidos. A verificação tem o objetivo de constatar o cumprimento da
legislação vigente e dos acordos estabelecidos pelas partes em conflito em
determinado processo de paz, sendo permitida àquele que verifica a elaboração
de informes e de recomendações como contribuição ao fortalecimento de seu
acompanhamento. As três etapas que compõem o conceito de verificação - pré-
desmobilização, desmobilização e pós-desmobilização - são afetadas pela falta
de autonomia da MAPP referida anteriormente.
Na pré-desmobilização, cabe ao verificador determinar o alcance do cumprimento
dos acordos de paz por meio de observação e de análise do comprometimento das
partes com os termos da cessação de hostilidades. Para essa função, a MAPP
criou o Comitê de Verificação, integrado por delegados do Alto Comissionado
para a Paz, da MAPP e das AUC; é responsável por receber e tramitar queixas e
denúncias de não cumprimento da cessação de hostilidades. No caso colombiano,
entretanto, não houve um entendimento entre as partes a respeito do alcance
desses termos quando da assinatura do acordo de paz, de modo que o Comitê de
Verificação se viu esvaziado.
A etapa de desmobilização compreende o acompanhamento do processo de
sensibilização da comunidade, bem como a entrega e a destruição de armas e o
circuito de identificação dos indivíduos reincorporados à vida civil. Nessa
fase, a MAPP realiza a catalogação e a contagem dos desmobilizados por sexo,
idade e etnia, e das armas por modelo, estado, relação homens/armas e armas/
munição com o objetivo de munir a desmobilização de parâmetros quantitativos de
análise. O sucesso dessa etapa influi diretamente sobre a etapa posterior,
relativa à verificação da sustentabilidade dos processos de desmobilização,
desarmamento e reinserção.
A pós-desmobilização tem por objetivo principal verificar a efetivação dos
compromissos assumidos pelas partes com base no real desmantelamento e na
desarticulação da estrutura militar rebelde, e no monitoramento da situação de
ordem pública. A equipe da MAPP realiza visitas às regiões antes controladas
pelos grupos paramilitares e, por meio da aproximação às comunidades locais,
investiga se houve reincidência de atos de violência ou intimidação após a
desmobilização. Além do desmantelamento total da estrutura, são considerados os
fenômenos de recomposição, aparição e incursão de novos grupos armados nessas
regiões35, com especial atenção à presença de ex-combatentes desmobilizados
nesses grupos. Também constitui objeto de especial preocupação a observação da
transferência de forças de segurança e de autoridades civis para as regiões em
que houve a desmobilização. Por fim, a etapa da pós-desmobilização visa ao
monitoramento da implementação das políticas governamentais de reinserção, da
qual depende o sucesso dos processos de desarmamento, desmobilização e
reinserção.
De novembro de 2003 a novembro de 2005, houve 27 atos de desmobilização
coletivos de paramilitares, que resultaram na desmobilização de 30.151
combatentes e na entrega de 16.984 armas. Mesmo assim, os integrantes da MAPP
demonstraram crescente preocupação com o surgimento de novos atores armados; a
reorganização dos ex-combatentes desmobilizados em bandos delinquentes; focos
de paramilitares não desmobilizados; ou o assassinato de ex-combatentes,
acusados de traidores por paramilitares não desmobilizados36. Quanto ao
desarmamento, as forças públicas colombianas descobriram, recentemente,
depósitos clandestinos de armas não entregues por alguns blocos desmobilizados
das AUC.
Cabe ainda ressaltar que as AUC constituem o principal grupo paramilitar, mas
não representam, em relação aos demais grupos paramilitares, um comando central
como existe nas Farc e no ELN. Com efeito, foram diversas as divergências entre
as AUC e outros grupos paramilitares, principalmente após a morte de Carlos
Castaño, ex-líder das AUC37. Tendo em vista esse aspecto fragmentário dos
grupos paramilitares (International Crisis Group, 2007:3), é possível
compreender algumas das dificuldades encontradas no processo de desmobilização,
na medida em que os compromissos assumidos pelas AUC não necessariamente eram
enxergados por outros grupos como suas próprias concessões. A própria presença
das AUC como única parte paramilitar no Comitê de Verificação pode constituir
um ponto controverso entre esses grupos armados, o que explicaria a resistência
de alguns grupos em se submeter à desmobilização.
Outro ponto digno de nota relativo à reinserção está relacionado ao dilema para
o Estado colombiano quanto a permitir ou não que os paramilitares
desmobilizados se candidatem a cargos políticos. Por exemplo, nas eleições de
outubro de 2007, Moisés Andrade e Alexander Pérez, ambos desmobilizados das
AUC, candidataram-se, respectivamente, ao Conselho de Valledupar (no Estado de
Cesar) e à Assembleia de Cesar. Além disso, Oscar Mira, desmobilizado do bloco
Heróis de Granada, buscava sua reeleição à Prefeitura de Yalí (Antioquia)38. A
princípio, a candidatura de paramilitares desmobilizados é legalmente admitida
- tal qual ocorreu com integrantes dos grupos guerrilheiros M-19 e Exército
Popular de Libertação nos anos 1990 -, desde que não tenham sido condenados em
processo judicial. No entanto, conforme mencionado, a persistência do vínculo
entre indivíduos desmobilizados e organizações criminosas, bem como a
dificuldade de um desmantelamento de fato das estruturas de poder dos grupos
paramilitares nas localidades dominadas por eles anteriormente, exige uma
análise mais cautelosa. Fundamentalmente, parece problemática a sobreposição
entre essa ilegalidade residual - entendida como a criação de um vínculo de
ilegalidade distinto do anterior, que permanece como atividade armada à margem
da lei - e uma nova condição de legalidade - traduzida no exercício dos
direitos políticos por meio da candidatura. Além disso, podem-se questionar a
transparência e a neutralidade do referido processo eleitoral na medida em que
o vínculo dos candidatos desmobilizados com a ilegalidade pode resultar na
coação dos habitantes locais a elegê-los. Tais fatos deixam à mostra
contradições de fundo do processo de desmobilização dos paramilitares, bem como
evidenciam a ausência de normas para casos complexos desse tipo. Mostram também
certa tensão entre a existência de marcos regulatórios de internacionalização
para atores externos, os quais aparecem mais institucionalizados, e a ausência
de marcos normativos domésticos mais institucionalizados, no terreno doméstico
do conflito.
Essa tensão entre a existência de um marco político-normativo para atores
externos envolvidos em um processo de internacionalização e os déficits
internos de regulação aparece clara quando se constatam os desacordos e as
fortes críticas que atores externos (multilaterais, estados e atores não
estatais) emitiam ao marco normativo cujo objetivo era regular o processo de
desmobilização. Entre as vozes críticas à MAPP, encontram-se organizações não
governamentais de direitos huma-nos39, alguns países da UE e determinadas
agências da ONU, notadamente o ACNUDH. Tais atores se opuseram ao processo
unilateral de paz do governo Uribe com grupos paramilitares desde sua origem.
Os debates no Congresso colombiano acerca dos processos de desmobilização,
desarmamento e reinserção se basearam, inicialmente, em um projeto de lei
denominado Alternatividade Penal. Os países europeus e o ACNUDH protestaram, em
um primeiro momento, sobre a concepção de "penalidade alternativa" presente no
projeto de lei: acreditavam que esta abria demasiado espaço para a impunidade
de combatentes paramilitares por violações atrozes aos direitos humanos e ao
direito internacional humanitário.
Posteriormente, a lei aprovada no Congresso foi novamente criticada pelos
membros da UE e pelo ACNUDH, pois pouco desenvolvia a questão da verdade40 e da
reparação às vítimas. Nas palavras de Cubides, que bem traduzem a posição
europeia: "[...] a verdade como um suposto da justiça e da paz [...] foi
subordinada, uma vez que o pragmatismo se impôs como conhecimento necessário: a
busca da verdade pode ser impertinente em face de outros objetivos" (2006:60-
61; tradução dos autores).
Holanda e Suécia, países que contribuem com a missão desde o início,
comunicaram que, nos primeiros vinte meses de atividades da MAPP/OEA, o mandato
desta não coincidiu com sua capacidade operativa, e as prioridades do mandato
foram alteradas em função dos desdobramentos dos processos de desmobilização,
desarmamento e reinserção. Tais críticas caminharam no sentido de condicionar a
ajuda desses países à MAPP.
É importante destacar que, quatro meses após o estabelecimento da Missão da OEA
em Bogotá, o representante da Comissão Interamericana de Direitos Humanos
(CIDH)41, Santiago Canton, declarou que a comissão cooperaria com a MAPP por
meio de um acompanhamento mais próximo acerca do cumprimento das normas
relativas a direitos humanos e a direito internacional humanitário nos
processos de des-mobilização e desarmamento. Isso porque, embora o Comitê de
Verificação da MAPP recebesse denúncias de violação de cessação de
hostilidades, não lhe competia denunciar ou relatar violações a direitos
humanos, atribuição conferida à CIDH no âmbito da OEA. Canton também defendeu a
necessidade de avançar no processo de desmobilização em direção aos outros
grupos armados, além dos paramilitares42.
Desde os debates anteriores à aprovação da Resolução 859 (1397/04), a
participação da CIDH no acompanhamento das atividades da MAPP é discutida, e
sua definição é recorrentemente adiada. Com efeito, os seis informes da missão
dedicaram pouco espaço à CIDH, restringindo-se a mencionar que "se iniciou essa
coordenação e se explorou como tornar realidade um trabalho conjunto de
assessoramento, comunicação e ação" (MAPP/OEA, 2004). Os relatórios seguintes
revelam uma coordenação de baixo perfil entre a MAPP e a CIDH, na medida em que
estas realizaram predominantemente atividades paralelas, à exceção de algumas
oportunidades em que a comissão brindou assessoria técnica aos integrantes da
MAPP em matéria de direitos humanos e de direito internacional humanitário.
De modo geral, a CIDH concentrou seus esforços nos temas de "justiça, paz e
reparação" dos deslocados internos e das minorias, notadamente comunidades
indígenas e afrodescendentes. O primeiro ponto diz respeito a uma divergência
quase intrínseca entre o governo colombiano e a CIDH, uma vez que esta se
juntou às inúmeras organizações não governamentais de direitos humanos, ao
ACNUDH e à UE no coro das críticas ao processo de negociação entre governo e
grupos paramilitares. Para os membros da CIDH, a Lei de Justiça e Paz, aprovada
em 2005, "[...] não estabelece incentivos para que os desmobilizados confessem
a verdade sobre sua responsabilidade de forma exaustiva, em troca dos
importantes benefícios judiciais que receberão" (CIDH, 2005; tradução dos
autores). Em decorrência disso, a lei não oferece garantias para que os crimes
cometidos sejam investigados e suas vítimas, devidamente reparadas, tampouco se
ocupa do fortalecimento das instituições criadas com o objetivo de fazer
justiça às vítimas. Mais precisamente, destaca-se o exemplo de uma dessas
instituições, a Unidade Nacional de Fiscalía, que possui vinte fiscais
encarregados de apurar milhares de massacres, execuções, desaparecimentos,
sequestros, torturas, entre outros crimes. Em outras palavras, a CIDH
compartilha da visão de diversas entidades em defesa dos direitos humanos, a de
que a Lei de Justiça e Paz dá margem à impunidade por atos atrozes de violação
aos direitos humanos, o que confronta a comissão diretamente com a MAPP.
Aqui, cabe a associação com os dois outros temas dos quais a CIDH tem se
ocupado: o deslocamento forçado e os indígenas. Particularmente, preocupa à
comissão a ausência de uma referência aos mecanismos de reparação à degeneração
do tecido social causada aos povos indígenas, às comunidades afrodescendentes,
às mulheres deslocadas e aos chefes de família, considerados alguns dos grupos
mais vulneráveis à ação dos grupos armados. O caráter especial desses grupos
deriva do fato de depararem com uma violência crescente, ainda que os índices
oficiais de violação aos direitos humanos estejam em queda em todo o país.
Os sucessivos embates que foram travados entre o presidente Uribe e as
organizações não governamentais e intergovernamentais de direitos humanos
parecem ter contribuído para o aumento do distanciamento entre a MAPP e a CIDH.
Mostra disso é que a CIDH publicou apenas dois relatórios de acompanhamento
sobre os processos de desmobilização e desarmamento dos grupos paramilitares:
um em dezembro de 2004 e outro em outubro de 200743. Essa lacuna entre os dois
relatórios pode ser explicada pela reação negativa do governo colombiano ao tom
excessivamente crítico do primeiro informe da comissão, o qual concentrou suas
críticas na ausência de clareza jurídica e na falta de garantias à justiça, à
paz e à reparação às vítimas do conflito no processo de desmobilização dos
grupos paramilitares.
MAPP: UM CASO COMPLEXO DE INTERNACIONALIZAÇÃO ENVOLVENDO ATORES EXTERNOS
Um aspecto complexo da internacionalização do conflito colombiano refere-se à
maneira com que os aspectos organizacionais e operacionais de um órgão de
mediação internacional - nesse caso, a MAPP/OEA - podem revelar elementos de
relevância não somente do conflito mas também da relação de um organismo
multilateral com um estado poderoso - desenvolvimento esse que pode contestar
teses do neorrealismo contemporâneo, segundo as quais organizações são
funcionais ou instrumentais aos poderes estatais mais fortes44.
No período compreendido entre fevereiro de 2004 e dezembro de 2005, a falta de
recursos para a realização das tarefas da MAPP constituiu seu principal
desafio. A missão não dispõe de um fundo regular para seu funcionamento, de
forma que os recursos são obtidos mediante "contribuições voluntárias". Nos
primeiros meses, os seis funcionários que constituíam a MAPP45 direcionaram
seus esforços para a busca de financiamento junto a entidades públicas e
privadas, nacionais e internacionais46. Em face da hesitação de alguns desses
atores quanto ao processo de paz com os paramilitares e ao mandato da missão, o
governo colombiano teve que desembolsar US$ 1 milhão para que esta começasse a
funcionar.
Em dezembro de 2005, a MAPP já contava com 22 oficiais de verificação (10
internacionais e 12 colombianos), um escritório principal em Bogotá, seis
regionais47 e uma equipe móvel, com jurisdição de 14 departamentos. A obtenção
de recursos, em finais de 2005, junto a EUA48, Canadá, Suécia, Holanda,
Brasil49 e Espanha, possibilitou à missão desencadear um processo de
reestruturação com vistas ao fortalecimento de seu papel estratégico. A
reestruturação da MAPP partiu da observação de duas debilidades principais no
desenvolvimento de suas atividades: uma relativa ao acesso e à sistematização
das informações; e outra, à imagem pública da missão, abalada pela percepção de
falta de transparência. A reforma envolveu, portanto, a criação de unidades
especializadas visando ao fortalecimento da MAPP especialmente nesses aspectos.
Nesse sentido, foi estabelecida a Unidade de Análise, encarregada de
sistematizar e analisar a informação recolhida pelos integrantes da missão nas
atividades de verificação; elaborar os informes50 e outros documentos com as
informações; e manter contato dinâmico com as equipes móvel e regionais. Quanto
ao aprimoramento da imagem pública e das relações interinstitucionais da MAPP,
foi criada a Unidade de Relações Exteriores, responsável pelo estabelecimento
de canais de comunicação mais formais para a transmissão de informações sobre
os processos de desmobilização, desarmamento e reinserção, e a sensibilização
sobre o mandato nos âmbitos nacional e internacional. Por fim, em meados de
2006, foi formada uma Unidade de Projetos cujos objetivos são a identificação,
o desenho, a execução, a avaliação e o monitoramento de processos
participativos, iniciativas e projetos voltados para as vítimas do conflito
armado em regiões em que os grupos paramilitares se faziam mais presentes
anteriormente à desmobilização.
Note-se que as preocupações presentes no processo de reestruturação da MAPP/OEA
giram em torno de dois aspectos cruciais a um regime internacional: a qualidade
da informação e a transparência em sua transmissão (Young, 2000). O fato de
constituir uma missão de observação permanente in loco faz da MAPP uma fonte
privilegiada de informações qualificadas. Nesse sentido, a missão possui
potencial para reduzir a assimetria de informação e a incerteza entre os países
membros da OEA. Tal função é relevante sobretudo para os países que investem em
mecanismos de cooperação com vistas à resolução do conflito armado colombiano,
como Espanha, EUA, Holanda e Suécia. O desempenho da MAPP interessa ainda aos
países que integram a OEA, em virtude de a missão lidar com uma crise cujo
efeito desestabilizador se propaga para outras regiões do hemisfério. Conforme
argumentado, a MAPP vinha apresentando alguns problemas na organização e na
distribuição das informações às quais tem acesso. Foi justamente sobre esses
pontos que incidiram as preocupações na reestruturação da missão.
Isso posto, note-se que os desdobramentos decorrentes da instalação da MAPP/OEA
na Colômbia ainda são muito recentes, de modo que é prematura qualquer
avaliação de seus impactos mais acabados, em um processo complexo como a
desmobilização, o desarmamento e a reinserção. No entanto, as informações
anteriores possibilitam o delineamento de algumas análises interessantes. A
MAPP representa um marco na trajetória de resolução do conflito armado
colombiano, pois corresponde à primeira missão de paz conduzida por uma
organização internacional na Colômbia. Antes disso, a ONU havia sido
pressionada pelo governo colombiano para que enviasse uma missão humanitária à
Colômbia51, mas se mostrou evasiva diante da solicitação.
A missão também constitui um marco no tratamento da OEA ao conflito armado
colombiano. Conforme visto, anteriormente à instalação da MAPP, a Organização
tratava apenas de forma tangencial do conflito colombiano. Mais precisamente,
no âmbito da Cicad, a vinculação entre os temas de armas ligeiras e o
narcotráfico permitiu o estabelecimento de certo grau de notoriedade - ainda
que de forma tímida - ao conflito armado. Este também foi objeto de mais
atenção da CIDH em ocasiões pontuais, sobretudo nas visitas de relatores in
loco em 1980, 1990, 1992, 1997 e 2001. Além disso, o Conselho Permanente e a
Assembleia Geral limitaram-se a declarações de cunho político em diversas
ocasiões e, em sua maioria, em reação a episódios violentos na Colômbia. Tais
declarações se tornaram mais recorrentes no contexto posterior aos atentados de
11 de setembro, haja vista a notoriedade adquirida pelo conflito colombiano no
contexto hemisférico.
Nesse sentido, a MAPP poderia bem significar um divisor de águas nas relações
entre Colômbia e OEA, uma vez que o estabelecimento de uma missão permanente in
loco implicou maior vínculo político entre o país e a Organização. Ademais, a
periódica prestação de contas realizada pela MAPP acerca de suas atividades
contribuiu para um debate permanente sobre o conflito. Mais do que isso, no que
diz respeito ao governo Uribe, a missão incorpora uma espécie de atestado de
resolução multilateral como compensação à prioridade atribuída à relação
unilateral com os EUA.
De fato, a partir da instalação da MAPP/OEA na Colômbia, tornou-se problemático
afirmar com precisão que a política da Organização para o conflito armado
reflete as preferências estadunidenses - característica preponderante das
atividades da OEA em parte considerável de sua trajetória (Diamint, 2000;
Tickner, 2000; Villa, 2008). Esse desdobramento do processo de
internacionalização, como anunciado, questiona a ideia neorrealista (de autores
como Mearsheimer) sobre a instrumentalidade das organizações internacionais em
face dos grandes poderes. A relação direta da MAPP com o processo de paz junto
aos paramilitares forçou os EUA a assumirem, em diversas ocasiões, uma postura
de distanciamento. Talvez a explicação mais plausível para isso seja a
incompatibilidade entre a política antiterrorismo dos EUA e o processo de paz
com as AUC, grupo incluído em 2001 na lista das Foreign Terrorist Organizations
(FTOs) do Departamento de Estado dos Estados Unidos. As FTOs designam as
organizações internacionais consideradas terroristas, uma ameaça à segurança
nacional dos EUA.
A solução encontrada pelos organismos estadunidenses para se inserir no
processo de internacionalização pelo envolvimento foi marcar o distanciamento
da MAPP/OEA por meio de uma dupla estratégia. De um lado, a ajuda estadunidense
à MAPP/OEAfoi destinada somente a programas tangenciais à política de
desmobilização de paramilitares - por exemplo, a reinserção de crianças
soldados; de outro, a concessão de ajuda à missão foi vinculada a uma série de
exigências, em sua maioria relacionadas ao resguardo dos direitos humanos no
processo de desmobilização (El Tiempo, 22/6/2004). Mais precisamente, tais
condições são: a MAPP deve se dedicar exclusivamente ao papel de verificação;
os terroristas devem estar concentrados em uma zona de desmobilização; deve
existir um marco legal na Colômbia que estabeleça sanções àqueles que violarem
direitos humanos e que possuírem vínculo com o narcotráfico; e a CIDH deve
assessorar a missão. No entanto, diversos desses pontos ainda não atingiram um
grau satisfatório, o que não implicou o cancelamento da ajuda dos EUA à MAPP.
Por outro lado, a formulação de uma estratégia em duas vias (ação indireta e
condicionamento, conforme mencionado) pode ser interpretada de uma perspectiva
mais otimista. Tais esforços foram empreendidos apesar do obstáculo imposto
pela legislação estadunidense a fim de que os EUA se fizessem presentes - com
ressalvas - na empreitada do presidente Uribe junto aos grupos paramilitares.
Como sustentado, entretanto, o caso da MAPP/OEA exige uma análise mais
cuidadosa, na medida em que encerra contradições em relação às quais os EUA
ainda se encontram em processo de adaptação. De certo modo, o embate já era
esperado: a política ambígua da gestão de Uribe em direção aos paramilitares
data de 2003, quando teve início o processo de negociação com o grupo. Essa
aproximação se mostrou diametralmente oposta à conduta adotada pelo governo
colombiano em relação às guerrilhas, contra as quais ordenou uma ofensiva
militar incisiva no Sul do país - o Plano Patriota. Aos olhos dos EUA, o apoio
à vertente militar da Política de Segurança Democrática52 e do Plano Patriota
não contradizia a política antiterrorista estadunidense, defendida de forma
inequívoca nos fóruns regionais e globais após os atentados de 11 de setembro.
O mesmo não ocorreu com o apoio ao processo de negociação com os paramilitares
e à MAPP, o qual expunha contradições entre o combate a organizações
terroristas e a política de segurança do governo de Álvaro Uribe.
É importante observar ainda que a missão não usufrui dos recursos do Fundo
Regular da OEA - dentro do qual os EUA respondem por aproximadamente 64% -, mas
sim de contribuições voluntárias. Nesse quadro, os recursos oriundos de países
europeus constituem parcela representativa do orçamento da MAPP/OEA,
comparativamente àqueles destinados pelos EUA. Por exemplo, para o ano de 2005,
o orçamento da MAPP foi de US$ 10 milhões. Em outubro de 2004, a Holanda
comprometeu-se a transferir aproximadamente US$ 1,2 milhão para a
desmobilização de 1.000 paramilitares até 2006. Ao longo de 2005, a Noruega
transferiu US$ 307 mil para a missão; a Suécia ofereceu US$ 600 mil para um
programa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) voltado para a
desmobilização de soldados crianças; e a Irlanda comprometeu-se a entregar US$
500 mil em três anos. Os EUA, por sua vez, transferiram US$ 520 mil à MAPP53.
Dessa forma, por responderem por parcela representativa do total de recursos,
países como Holanda, Suécia e Espanha encontram maior espaço político no
planejamento das atividades da missão. Nesse sentido, diferentemente da
política militar para o conflito armado - na qual existe um antagonismo marcado
entre as iniciativas estadunidense e europeia -, o caso da MAPP/OEA, uma
iniciativa regional, revela certa complementaridade entre os recursos
originados dos EUA e da Europa.
Embora não se tenha encontrado a parcela do orçamento da OEA absorvida pela
Colômbia por meio de programas dos quais é beneficiária, alguns dados
possibilitam uma reflexão interessante. Os EUA contribuem anualmente com US$ 45
milhões para o Fundo Regular da OEA54 e respondem por mais de 64% dos recursos
da Organização. Se a Colômbia absorvesse toda essa cota - o que não ocorre -,
entre 1997 e 2006, o país andino teria recebido dos EUA uma ajuda de US$ 450
milhões via OEA. Em contrapartida, a Colômbia recebeu diretamente dos EUA,
nesse mesmo período, um total de aproximadamente US$ 5,256 bilhões, aplicados
em programas bilaterais de ajuda militar (US$ 4,36 bilhões) e econômica e
social (US$ 895,7 milhões)55. O distanciamento com que os EUA trataram o
conflito colombiano no âmbito da OEA, incultive após a instalação da MAPP (El
Tiempo, 1o/2/2005), reforça a lógica da assimetria entre recursos unilaterais e
multilaterais observada anteriormente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Existem algumas considerações dignas de nota em relação à MAPP/OEA. A primeira
delas diz respeito aos eixos de atuação e às agências da OEA voltadas para os
conflitos regionais que envolvem atores governamentais e não governamentais.
Conforme mostrado pelas tensões diplomáticas entre Colômbia e Equador em 2008,
a OEA dispõe de escassos mecanismos de atuação institucional para conflitos
intraestatais com potencialidades de spill over para outros países (Herz, 2008;
Villa, 2008). A MAPP constitui, nesse sentido, um sinal da capacidade de gestão
de conflitos complexos, que extrapolam as fronteiras conceituais do que
tradicionalmente se entende por segurança, partes envolvidas e até mesmo
guerra. Embora a OEA tenha endossado a "segurança multidimensional" em muitas
de suas declarações e resoluções, pouco disso havia sido traduzido na atuação
de seus mecanismos institucionais. A MAPP constitui um passo significativo
nessa direção.
Em segundo lugar, como já destacado, a missão usufrui de um fundo de composição
aberta, desvinculado do orçamento regular da OEA, elemento que permitiu a
participação expressiva de países europeus no provimento de recursos à MAPP.
Esse aspecto atribuiu um grau de complexidade maior à missão, na medida em que
implicou a imposição de condicionantes externos àqueles evocados pela OEA à sua
atuação.
Em terceiro lugar, os pontos de atrito entre o mandato da MAPP e a Lei de
Justiça e Paz motivaram diversas críticas internacionais em relação ao processo
de desmobilização levado a cabo pela gestão Uribe. Isso parece ter produzido um
efeito contrário ao desejado pelo governo colombiano: em vez de representar um
atestado de apoio multilateral, cultivou a imagem de inflexibilidade de Uribe e
de fraqueza da OEA, uma vez que a MAPP foi engessada e silenciada por aquela
administração.
Isso nos leva a uma reflexão interessante no que tange à relação do governo
colombiano com os principais atores envolvidos no processo aqui denominado
"internacionalização do conflito armado colombiano". Em um balanço geral, o
status de parceiro mais fiel dos EUA na América do Sul atribuído à Colômbia não
tem operado em um sentido favorável ao país andino em diferentes aspectos. A
opção das lideranças políticas colombianas do pós-Guerra Fria pelo
estreitamento dos laços com os EUA correspondeu, na verdade, a uma
característica histórica na trajetória de política externa do país. Com efeito,
o respice polum("mirar ao polo") - no caso, uma alusão à potência hemisférica
EUA - constituiu o paradigma dominante nas gestões presidenciais colombianas em
maior ou menor intensidade (Carrizosa, 1988).
Esse paradigma da política externa colombiana refletiu de forma inequívoca as
diretrizes da administração Álvaro Uribe. Ao fim e ao cabo, o unilateralismo em
direção aos EUA foi de encontro ao multilateralismo pretendido pela Colômbia
como tentativa de minimizar o impacto do estigma de "país problema" sobre sua
inserção nos diversos fóruns internacionais. Esse embate entre unilateralismo e
multilateralismo se tornou, por assim dizer, uma característica da política
externa colombiana no pós-Guerra Fria, com os devidos custos econômico-sociais
para a Colômbia. Dentre eles, destaca-se a persistência do narcotráfico, apesar
dos expressivos montantes destinados ao país, bem como de grupos armados à
margem da lei após um processo de desmobilização mal-estruturado, que relega a
segundo plano os direitos à verdade, à justiça e à reparação às vítimas do
conflito. Esse quadro resulta no enfraquecimento das instituições judiciais e
dos pilares eleitorais da Colômbia, que permanecem frágeis diante da ameaça dos
grupos à margem da lei.
No que diz respeito aos efeitos do embate multilateralismo/unilateralismo,
especificamente sobre a dinâmica do conflito armado, é plausível concluir que
essa tensão é projetada sobre a relação entre os atores - nacionais e
estrangeiros - envolvidos nos esforços de resolução do conflito. Dito de outra
forma, as características essencialmente distintas dos dois polos em torno dos
quais as iniciativas internacionais passaram a ser formuladas - EUA e UE -
operaram mais no sentido do confronto das propostas do que propriamente do
diálogo conjunto, com vistas a uma formulação mais completa e complexa, que
corresponderia mais apropriadamente a um conflito de longa duração tal qual o
colombiano. É preciso lembrar, entretanto, que, nessa preponderância da
concorrência em detrimento da cooperação entre os atores internacionais
voltados para a problemática colombiana, as maiores perdas recaem sobre a
Colômbia.
NOTAS
1. Ver http://www.codhes.org/
index2.php?option=com_docman&task=doc_view&gid=187&Itemid=51.
Acesso em 17/3/2012.
2. Essa é uma linha de pesquisa que tem crescido sobretudo entre os estudiosos
colombianos. Para um mapeamento do debate na literatura especializada, ver
Álvarez e Rettberg (2008).
3. Esse aspecto chegou a ser enfatizado em diversos mecanismos de cooperação
entre a região andina e a União Europeia. A partir do reconhecimento do
princípio de responsabilidade compartilhada, a Europa passou a priorizar
programas domésticos de combate à exportação de precursores químicos utilizados
pela indústria da droga nos países andinos (Estievenart, 2006).
4. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados
(Acnur), em 2004, cerca de 8.300 colombianos se refugiaram no Equador, 1.000 no
Panamá, 200 na Venezuela e 130 no Brasil e no Peru. Ressalta-se que o principal
destino desses refugiados são os EUA, que receberam, em 2004, 14.900
refugiados. Ver http://www.unhcr.org/publ/PUBL/441687ff0.pdf. Acesso em 13/8/
2012.
5. Pode ocorrer também que o recrudescimento de um conflito armado conduza ao
isolamento de um país. Com efeito, esse foi o quadro observado em alguns casos
africanos. Não cabe, entretanto, aplicá-lo ao colombiano, uma vez que, mesmo
durante o governo Samper (1994-1998), quando os EUA conduziram uma política de
isolamento do presidente, a ajuda estadunidense continuou a ser transferida
para a Colômbia, de forma mais direta à Polícia Nacional Colombiana. Para mais
detalhes, ver Viana (2012:cap. 4).
6. Para um estudo detalhado acerca do envolvimento desses atores, ver Viana
(2012).
7. O termo "interméstico" foi cunhado por Manning (1977) para se referir a uma
agenda constituída de temas simultaneamente domésticos e internacionais em sua
essência. Por meio de sua formulação, o autor advogava que as fronteiras
tradicionais entre "doméstico" e "internacional" haviam se tornado obsoletas na
análise contemporânea. Os exemplos mais recorrentes de temas intermésticos são:
as drogas, a imigração, o meio ambiente e o comércio internacional - muitos dos
quais estão presentes na agenda doméstica colombiana para o conflito armado.
Para Manning, na abordagem interméstica, a formulação de uma política tende a
emergir de uma série de acordos que não podem ser interpretados segundo os
axiomas tradicionais, nos quais é sublinhada a ideia de interesse nacional.
8. Por meio de encontros periódicos - sob o nome de "Mesas de Doadores" -, o
presidente colombiano apresentava um portfólio de projetos que careciam de
investimentos a potenciais doadores europeus, asiáticos e americanos (grupo que
ficou conhecido como G-24). O Fundo de Investimentos para a Paz complementava
essa estratégia na medida em que constituía um canal com vistas a agilizar e
efetivar a transferência de recursos internacionais para o programa de paz.
9. Em fevereiro de 2001, o Parlamento Europeu aprovou, por 474 votos a favor, 1
contra e 33 abstenções, uma resolução que determinava a oposição do bloco ao
Plano Colômbia. Ver http://www.europarl.europa.eu/sides/
getDoc.do?type=MOTION&reference=B5-2001-0087&language=EN. Acesso em 16/
3/2012.
10. Além do recorrente endosso ao trabalho das agências da ONU na Colômbia nas
declarações assinadas pela UE, o bloco europeu privilegiou uma estratégia
descentralizada de ação no país andino por meio dos Laboratórios de Paz.
Considerados pela Comissão Europeia "o programa mais importante de cooperação
financeira e técnica da UE na Colômbia", os laboratórios foram estabelecidos em
regiões com indicadores elevados de violência, pobreza e expulsão e recepção da
população deslocada. (Para mais informações, ver http://www.google.com.br/
url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=2&ved=0CDYQFjAB&url=http%3A%
2F%2Fwww.prodepaz.org%2Findex.php%3Foption%3Dcom_docman%26task%3Ddoc_download%26gid%3D
14%26Itemid%3D126&ei=iXkpUPGYPK2y0QGdhIHADA&usg=AFQjCNHbIQNOq5FY9wDnzA036hyI18KxgA&sig2
=zrtfBDosH8iRlkTGpiVf6g. Acesso em 13/8/2012.) Dos cerca de US$ 230,72 milhões
não reembolsáveis já transferidos pela Comissão Europeia à Colômbia, cerca de
US$ 84,4 milhões (até 2005) foram destinados aos Laboratórios de Paz I e II. É
digno de nota que a participação europeia na distribuição dos recursos dos
Laboratórios de Paz ultrapassa os 80%, cabendo ao governo colombiano cobrir o
restante. Ver Viana (2012).
11. De modo geral, o argumento de que as Farc retiram do narcotráfico recursos
para a compra de armamentos deriva da premissa de que é improvável que a
expansão dessa guerrilha, observada desde a década de 1980 - mas de forma mais
acentuada a partir da década de 1990 -, tenha sido financiada somente por
recursos advindos de sequestros e extorsões. Para uma análise mais aprofundada
acerca das disputas e articulações institucionais no processo de formulação do
conceito de narcoguerrilha, ver Viana e Viggiano (no prelo).
12. Essa emenda (que leva o nome do senador que a propôs) foi aprovada em
meados da década de 1990. Inserida na dinâmica da luta antidrogas, a Emenda
Leahy proibia a transferência de ajuda militar dos EUA a qualquer país cujas
tropas ou oficiais do Exército estivessem envolvidos em violações de direitos
humanos.
13. Ver http://www.fcce.org.br/congresso-dos-eua-aprova-acordo-de-livre-
comercio-com-a-colombia. Acesso em 16/3/2012.
14. Em contraste com a oposição contundente do Parlamento Europeu ao Plano
Colômbia - expressa em sua Resolução de 2001, "European Parliament Resolution
on Plan Colombia and Support for the Peace Process in Colombia" -, a Comissão
Europeia, braço executivo da UE, revelou-se disposta a manter seu alinhamento
aos princípios norteadores da cooperação europeia por meio do Plano Colômbia.
Assim, a Comissão definiu dois componentes sociais do Plano para nortear suas
iniciativas: medidas incisivas contra a produção e o tráfico de drogas, e ajuda
voltada para o desenvolvimento com foco em fatores sociais e econômicos. A fim
de reduzir os impactos da Resolução do Parlamento Europeu, a Comissão Europeia
patrocinou a visita de uma delegação de especialistas à Colômbia para que
avaliassem os projetos de assistência social e econômica que poderiam ser
financiados. Ainda foi necessário que a Comissão enfatizasse que não perderia
de vista as preocupações da sociedade civil e o respeito aos direitos humanos,
bem como assegurasse que tais recursos não seriam direcionados ao componente
militar do Plano Colômbia. Foi com tais ressalvas, portanto, que a Comissão
aprovou, em outubro de 2000, um plano de ajuda no valor de US$ 90 milhões para
financiar projetos de desenvolvimento alternativo e apoio humanitário de 2001 a
2006 (Ramírez, 2004:111).
15. Ver http://www.minambiente.gov.co/documentos/
4990_080310_declar_cartagena.pdf. Acesso em 16/3/2012.
16. Ver http://www.hchr.org.co/documentoseinformes/documentos/internacio-nal/
LondonDeclaration.pdf. Acesso em 16/3/2012.
17. O documento original está disponível em http://www.minambiente.gov.co/docu-
mentos/4990_080310_declar_cartagena.pdf. Acesso em 19/1/2009.
18. Os dados encontram-se disponíveis no site da Agencia Presidencial para la
Acción Social y la Cooperación Internacional (Acción Social): http://
www.accionsocial.gov.co. Acesso em 13/8/2012.
19. O presidente Pastrana anunciou o rompimento do processo de negociação
levado a cabo junto às Farc após o sequestro, em fevereiro de 2002, de um avião
da Avianca, fazendo de todos os seus passageiros reféns.
20. De acordo com a definição da ONU, há duas categorias de armas: 1) armas de
destruição em massa, entendidas como as armas nucleares, com componentes
radioativos, químicos e biológicos; e 2) armas convencionais, que se distinguem
entre pesadas e ligeiras.
21. A verificação é um tipo de assistência técnica que observa permanentemente
o cumprimento dos acordos que constituem o escopo de seu mandato. Além disso,
realiza balanços sobre os avanços e os retrocessos identificados no processo.
As recomendações apresentadas nos informes elaborados e divulgados nos âmbitos
nacional e internacional pressionam as partes a cumpri-las.
22. Em linhas gerais, os revolucionários sandinistas tomaram o controle do
Estado em 1979 e passaram a contar com a ajuda do bloco soviético para a compra
de armamentos. Em oposição aos sandinistas, formou-se um grupo armado de
"contrarrevolucionários", conhecidos como "contras", os quais receberam
financiamento estadunidense para seus armamentos. Para saber mais sobre as
intervenções internacionais nesse conflito de diferentes perspectivas, ver
Ramírez (2004).
23. Atribuiu-se à Ciav a desmobilização de mais de 22.000 "contras" em 1990. As
atividades dessa comissão foram exercidas em cooperação com a ONU: após
coordenar a desmobilização, a Ciav auxiliava o Grupo das Nações Unidas para a
América Central (ONUCA na sigla em inglês) na recepção e na destruição das
armas ligeiras resultantes do desarmamento.
24. A Declaração de Ixtapa foi assinada em 20/4/1990 e está disponível em http:
//www.cicad.oas.org/Main/Template.asp?File=/Main/AboutCICAD/BasicDocuments/
Ixtapa_SPA.asp. Acesso em 13/8/2012.
25. Ver AG/RES. 1237 (XXIII.O/93). Disponível em http://www.oas.org. Acesso em
1/9/2008.
26. A primeira ocorreu em Washington, ainda em 1993, e consistiu em uma reunião
preparatória. A segunda, realizada em Buenos Aires, em 1994, constituiu uma
reunião de especialistas.
27. A indústria armamentista estadunidense é uma das que mais lucram no mundo.
De acordo com Call (1995:87), no início da década de 1990, os EUA chegaram a
dominar o mercado global de armas, passando a responder por 60% do mercado em
1992 - na década de 1980, essa porcentagem girou em torno dos 20%. As vendas
para os países do chamado Terceiro Mundo, entretanto, caíram nos últimos anos;
daí o forte lobby exercido pelos principais produtores estadunidenses, que
desejam assegurar suas vendas ao exterior.
28. A experiência adquirida pelo pessoal da OEA nos conflitos centro-americanos
contribuiu para a definição das linhas gerais que nortearam o papel da MAPP.
Mostra disso é que o ex-chefe da missão, Sergio Caramagna, foi diretor da
Secretaria da OEA na Nicarágua (1997-2004).
29. A proposta de Uribe argumentava que missões que combinavam ações civis e
militares foram implementadas pela ONU nos conflitos de Kosovo e Afeganistão.
Segundo o presidente colombiano, tais conflitos e, posteriormente, a guerra no
Iraque de 2003 apresentavam a mesma gravidade que o caso colombiano e, no
entanto, este não recebia a devida atenção por parte do Conselho de Segurança
da ONU. A proposta de Uribe constituiu objeto de grandes controvérsias nos dois
primeiros anos do mandato do presidente da Colômbia. Para mais informações, ver
El Tiempo (4/10/2002; 25/1/2003; 22/6/2003).
30. Ver Asamblea General de la OEA (2003); Permanent Council of the OAS (2004).
31. Disponível em http://web.presidencia.gov.co/leyes/2005/julio/
ley975250705.pdf. Acesso em 12/1/2009.
32. Assinado em 13 de maio de 2004, o Acordo de Fátima estabeleceu uma região,
localizada em Tierralta (Córdoba), na qual os processos de desmobilização e
desarmamento se concentrariam.
33. "Artigo 2: Escopo da lei, interpretação e aplicação normativa. A presente
lei regula o concernente à investigação, processamento, sanção e benefícios
judiciais das pessoas vinculadas a grupos armados organizados à margem da lei,
como autores ou partícipes de atos delitivos cometidos durante e por ocasião do
pertencimento a esses grupos, que tenham decidido se desmobilizar e contribuir
decisivamente para a reconciliação nacional" (disponível em http://
web.presidencia.gov.co/leyes/2005/julio/ley975250705.pdf; tradução dos
autores).
34. No primeiro ano de seu mandato, em dezembro de 2002, Uribe designou uma
Comissão Exploratória para a Paz com a finalidade de realizar contatos com os
grupos paramilitares que haviam manifestado disposição em negociar para a paz.
Em decorrência das divergências de interesse entre os grupos paramilitares,
foram criadas, em janeiro de 2003, quatro mesas paralelas de diálogo com as
AUC, o BCB, a Aliança Oriente e as Autodefesas Campesinas do Magdalena Medio
(ACMM). Foi a mesa de diálogo com as AUC que resultou em maiores avanços: em
julho de 2003, foi assinado o Acordo de Santa Fé de Ralito, no qual as AUC se
comprometeram a desmobilizar a totalidade de seus membros até dezembro de 2005,
e o governo colombiano se comprometeu com o programa de reinserção.
35. Os novos grupos possuem características distintas dos paramilitares:
dedicam-se exclusivamente ao narcotráfico e ao delito e, ao contrário dos
"senhores da guerra" do passado, que possuíam vínculos com políticos e
empresários locais, buscam passar despercebidos. Esses bandos delinquentes
possuem mais poder no Baixo Cauca Antioqueño, San Martín, Cesar, Sul de
Bolívar, Costa Pacífica nariñense em Puerto Asís (Putumayo). Ainda cabe
mencionar que, até abril de 2008, registravam-se 860 assassinatos de
reinseridos. Ver MAPP/OEA (2006).
36. Até abril de 2008, calcula-se que 860 desmobilizados tenham sido
assassinados.
37. Ver http://www.elespectador.com/impreso/judicial/articuloimpreso-profecia-
de-carlos-castano. Acesso em 16/3/2012.
38. Para mais informações sobre a repercussão do caso na mídia colombiana,
consultar o jornal El Tiempo de 2007.
39. Em 3 de fevereiro, por exemplo, a Human Rights Watch (HRW) enviou ao
secretário-geral da OEA uma carta, por meio da qual pedia a suspensão do
convênio assinado com o governo colombiano. Para a HRW, o documento não permite
que a OEA cumpra plenamente o papel na verificação do processo de paz, na
medida em que não permite que a MAPP emita juízos a respeito de decisões
jurídicas e de políticas adotadas pelo governo colombiano, a menos que este o
solicite. O conteúdo da carta está disponível em http://www.hrw.org/en/news/
2004/02/04/letter-foreign-ministers-member-states-oas. Acesso em 12/1/2009.
40. Segundo Cubides, o artigo 57, que trata do "dever de memória", entende
verdade como "[...] um trabalho para os historiadores das gerações seguintes; é
a eles que corresponde a tarefa da verdade, sendo a tarefa atribuída ao Estado
do presente [...] apenas a 'Conservação dos Arquivos' (que é a denominação dada
ao antepenúltimo capítulo da lei)" (2006:61; tradução dos autores).
41. A CIDH foi criada pela Resolução VIII, aprovada em 1959. Quando da reforma
da OEA de 1967, a comissão foi incluída entre os principais órgãos da
Organização. O processo de institucionalização da CIDH foi reforçado pela
Convenção Americana sobre Direitos Humanos - ou Pacto de São José -, aprovada
em 1978. O referido pacto considera a CIDH e a Corte Interamericana de Direitos
Humanos as duas instituições de referência hemisférica na promoção e no
resguardo dos direitos humanos. A comissão possui sete integrantes, os quais
são eleitos na Assembleia Geral da OEA entre candidatos apresentados pelos
governos dos estados membros para um período quadrienal, sendo possível sua
reeleição por uma vez. O estatuto atual da CIDH, adotado em 1979, estipula as
seguintes atribuições: 1) realizar visitas in loco a quaisquer países membros
da OEA, atividade que exige consentimento ou convite por parte do Estado
receptor; 2) elaborar informes de avaliação acerca do processo de implementação
de medidas de proteção aos direitos humanos e formular recomendações aos
estados; 3) solicitar informes aos estados a respeito da conduta destes em
matéria de direitos humanos; e 4) assessorar os governos em temas relacionados
a direitos humanos. A comissão também pode atuar a partir de denúncias de
violação ao Pacto de São José feitas por algum estado membro, ou mesmo por
qualquer indivíduo, grupo de indivíduos ou entidade não governamental, desde
que tenham sido exauridos os recursos judiciais internos. Constitui etapa
essencial desse processo a realização de investigações, ao final das quais a
CIDH analisa os dados, recolhe provas e apresenta ao Estado investigado um
primeiro informe a respeito da situação, em relação ao qual o Estado tem a
obrigação de se manifestar. Caso não o faça dentro de três meses, o caso é
levado à Corte Interamericana. Para mais informações, ver Defensoría del Pueblo
(1997).
42. Para mais informações, ver informe disponível em http://www.oas.org/
oaspage/press_releases/press_release.asp?sCodigo=C-015/04. Acesso em 30/7/2008.
43. Os dois relatórios estão disponíveis em http://www.cidh.org/pdf%20files/
COLOMBIA%20COMPILACION.pdf. Acesso em 12/1/2009.
44. De acordo com Mearsheimer, "apesar da retórica sobre a força crescente das
instituições internacionais, há pouca evidência de que estas tenham um poder
significativo para agir em sentido contrário aos ditames do realismo [...].
Certamente, estados às vezes operam por meio de instituições e se beneficiam ao
fazê-lo. No entanto, os estados mais poderosos no sistema criam e moldam as
instituições de tal maneira que possam manter, quando não aumentar, seu próprio
modelo de poder mundial" (2001:364; tradução dos autores).
45. Nos primeiros meses de atividade, a MAPP era constituída de: chefe da
missão, subchefe e mais quatro funcionários internacionais.
46. O primeiro informe trimestral da MAPP apresentava uma proposta de orçamento
no total de US$ 1,5 milhão por ano, dividido em: contratos internacionais (US$
427.000); viagens internacionais (US$ 161.520 por dia); equipe local (US$
364.100); viagens domésticas (US$ 63.000 por dia); manutenção de paz e promoção
aos direitos humanos (US$ 25.760); manutenção e comunicação (US$ 179.400); e
compra de equipamentos (US$ 279.220). Ver MAPP/OEA (2004) e El Tiempo (4/6/
2004).
47. Os escritórios regionais localizam-se em: Cúcuta (Departamento de Santander
e Sul de Cesar), Medellín (Departamentos de Antioquia, Caldas, Risaralda e
Quindío), Valledupar (Magdalena, Atlántico, Cesar e Guajira), Montería
(Córdoba, Norte de Bolívar, Sucre, Zona de Ubicación Temporal; essa última é a
região em que se concentravam os paramilitares em processos de desmobilização e
desarmamento com o objetivo de facilitar a atividade da verificação), Urabá
(Departamentos de Urabá - Antioqueño e Chocoano) e Magdalena Medio
(Departamentos de Santander, Sul de Bolívar, Puerto Boyacá e Puerto Berrío).
Esse último substituiu, em meados de 2005, o de Cali, aberto no início desse
ano e fechado por motivos de segurança.
48. O direcionamento de fundos dos EUA à MAPP enfrentou alguns problemas de
ordem jurídica. O entrave envolvia a incompatibilidade entre a aprovação da
ajuda no Congresso estadunidense e a legislação que proíbe a concessão de ajuda
para grupos terroristas - entre os quais, as AUC. Em dezembro de 2004, o
Congresso dos EUA aprovou o desembolso de US$ 3,5 milhões para financiar as
atividades de desmobilização levadas a cabo pela MAPP, os quais seriam operados
pela USAID. A saída para a resolução do impasse foi tornar indireta a ajuda à
MAPP, tal qual fizera em 2004, quando o país norte-americano investiu cerca de
US$ 1 milhão em programas como a reintegração das crianças soldados
desmobilizadas à sociedade (El Tiempo, 14/12/2004).
49. Para uma revisão ampla do papel desempenhado pelo Brasil no conflito
colombiano, ver Cepik e Borba (2010).
50. Os informes da MAPP estão disponíveis em http://www.mapp-oea.net/
index.php?option=com_content&view=article&id=51&Itemid=82. Acesso
em 13/8/2012.
51. Conhecida como "capacetes azuis à colombiana", tal missão auxiliaria o
governo da Colômbia na proteção da população não combatente, notadamente dos
deslocados internos. Essa solicitação foi feita por Uribe em duas ocasiões:
entre 1995 e 1997, quando governador do Departamento de Antioquia; e entre 2002
e 2003, nos primeiros anos de seu mandato na presidência. Por meio do assessor
Volker Petzoldt, a ONU comunicou que não vincula suas missões humanitárias a
capacetes azuis e propôs, em vez disso, incrementar seus esforços humanitários
no país. Ver El Tiempo (4/10/2002).
52. Durante sua campanha presidencial, Uribe apresentou um plano estruturado de
segurança para a Colômbia - a Política de Segurança Democrática - com dois
objetivos centrais: recuperar a integridade territorial do Estado colombiano e
restituir a autoridade do Estado. Ver http://www.oas.org/csh/spanish/
documentos/Colom-bia.pdf. Acesso em 16/3/2012.
53. Essas informações encontram-se disponíveis em Alta Consejería Presidencial
para la Reintegración: http://www.reintegracion.gov.co. Acesso em 8 mar. 2009.
54. Ver planilhas de cotas por país membro no site do Comitê de Assuntos
Administrativos e Orçamentários: http://scm.oas.org/pdfs/2007/CP18129.pdf;
http://scm.oas.org/pdfs/2008/CP19698E.pdf; e http://www.oas.org/consejo/CAAP/
docs/cp07918.pdf (acesso em 13 jan. 2009 para todos os endereços).
55. Os dados podem ser encontrados na página do Center for International Policy
em http://www.ciponline.org/regions/colombia. Acesso em 13/8/2012.