Articulações intrapartidárias e desempenho eleitoral no Brasil
INTRODUÇÃO
Os partidos brasileiros são importantes eleitoralmente? Durante muito tempo,
houve um quase consenso entre os pesquisadores na resposta negativa a esta
pergunta. Após a definição das candidatura, as campanhas eleitorais seriam
conduzidas pelos candidatos de forma individual e isolada. Entretanto,
pesquisas relativamente recentes questionam a abordagem tradicional
apresentando dados empíricos que sugerem uma perspectiva mais matizada quanto à
importância eleitoral dos partidos. Esta divergência entre o que seria esperado
e o que é observado colocou um novo problema de pesquisa em busca de
explicação.
Por exemplo, alguns autores têm atestado a queda da volatilidade eleitoral no
Brasil desde antes da redemocratização1. Apesar de esta queda não ter sido
homogênea, ela tem sido consistente ao longo das últimas décadas e deve colocar
a volatilidade eleitoral brasileira perto da média dos países democráticos. De
acordo com Mainwaring e Torcal (2006), a média da volatilidade eleitoral no
Brasil entre 1982 e 2002 foi de 24,1%, um valor mediano em um grupo de 39
países majoritariamente da Europa e das Américas2. Esta queda na volatilidade é
surpreendente, dado o paradigma dos "partidos fracos", e tem se reproduzido nas
eleições estaduais3.
Em um artigo recente, Carneiro e Almeida (2008) deram mais um passo na
compreensão da queda da volatilidade, ao demonstrarem que os altos níveis de
correlação do desempenho eleitoral dos partidos - queda na volatilidade -
ocorrem também nos municípios brasileiros. Especificamente para os propósitos
deste artigo, esse trabalho salientou uma habilidade inesperada dos partidos de
organizar seus esforços eleitorais não somente entre as eleições de um mesmo
nível (nacional, estadual ou municipal), como também para eleições entre
diferentes níveis,o que sugere capacidade de articulação entre os níveis de
organização partidária4.
Neste artigo, pretendemos contribuir para esta discussão ao especificar o
efeito que a eleição de um prefeito pode ter sobre o desempenho de seu partido,
no mesmo município, nas eleições proporcionais estaduais realizadas dois anos
depois. Consideramos que um partido que elege um prefeito passa a ter uma
vantagem eleitoral potencial sobre os demais partidos naquele município5;
entretanto, a realização dessa vantagem nas eleições seguintes vai depender da
articulação entre a organização partidária municipal e a estadual. O foco nos
efeitos da eleição de um prefeito nas eleições proporcionais subsequentes nos
ajudaria a avançar um pouco mais na compreensão da queda na volatilidade,
através da análise das relações intrapartidárias, ou seja, o esforço
empreendido pelas organizações partidárias municipais para traduzir a vantagem
adquirida em transferência de votos para os candidatos do partido que concorrem
em eleições estaduais subsequentes.
Nós afirmamos que, se não houver articulação entre os diferentes níveis da
organização partidária, a eleição de um prefeito não deveria implicar mais
votos para o seu partido na eleição proporcional subsequente de âmbito
estadual. Em outras palavras, se não existir articulação intrapartidária não
haveria motivo para um prefeito eleito por partido cooperar sistematicamente
com os candidatos de seu partido nas eleições que ocorrem dois anos depois dele
ser eleito. Portanto, se encontrarmos evidências de causalidade entre a eleição
de um prefeito e os votos nas eleições proporcionais do seu partido na eleição
seguinte, interpretaremos esse resultado como evidência de que a articulação
intrapartidária tem importância nas eleições brasileiras.
Para identificar o efeito causal que a eleição de um prefeito pode ter sobre o
desempenho de seu partido nas eleições para deputados estaduais e federais,
utilizamos um modelo de regressão descontínua (RDD, em inglês). O RDD permite
que comparemos, em um mesmo município, o partido que ganhou a eleição para
prefeito (poruma pequena margem) e o partido que a perdeu. Estes dois partidos
podem ser considerados como uma estimativa para o contrafactual um do outro,
tendo em vista que a definição dos candidatos vencedores está relacionada à
pequena variação aleatória dos votos que pode ocorrer devido ao clima no dia
das eleições ou a outros fatores exógenos.
Nossos resultados sugerem que eleger um prefeito (mesmo com margem de apenas
1%) aumentaria os votos para o seu partido nas eleições proporcionais
subsequentes para deputado federal ou estadual. Nosso objetivo neste artigo não
é analisar mais detidamente os mecanismos causais específicos, ou seja, como um
partido consegue realizar a vantagem adquirida através da eleição do prefeito e
transferir votos para os seus candidatos; entretanto, a identificação desta
causalidade é uma descoberta importante para começarmos a entender as
articulações partidárias entre diferentes níveis de governo no sistema político
brasileiro, uma variável crucial para a compreensão da política federativa,
conforme apontado desde Riker (1964). Essa descoberta também é importante para
avançarmos a nossa compreensão sobre o tamanho legislativo dos partidos na
Câmara Federal e nas Assembleias Estaduais, uma variável crítica no processo de
formação das coalizões governamentais.
Além desta introdução, este trabalho contém outras cinco seções. A próxima
seção aborda a questão da articulação intrapartidárias em sistemas políticos
organizados em vários níveis de governo. A seção seguinte discute alguns
aspectos do sistema político brasileiro relevantes para a análise que se
seguirá, particularmente, o sistema federativo e a organização do calendário
eleitoral. A terceira apresenta a base de dados, o desenho da pesquisa e a
discussão dos principais resultados encontrados; a quarta seção dedica-se a
testes de robustez. Finalmente, a quinta seção sumariza e conclui.
ORGANIZAÇÃO INTRAPARTIDÁRIA E COMPETIÇÃO ELEITORAL
A atividade partidária em diferentes níveis territoriais de governo aumentou
com a descentralização política ocorrida no Brasil e em outros países. Apesar
da expectativa de que a descentralização impusesse maiores desafios
organizacionais sobre os partidos políticos, uma vez que estes teriam de
administrar a interação entre as arenas eleitorais locais e nacionais, ainda
temos conhecimento limitado acerca de como os partidos se desempenham neste
tipo de articulação6.
A habilidade que os partidos demonstram para articular as ações nos diferentes
níveis nos informará muito sobre a natureza do sistema político7. Como os
partidos administram articulações partidárias entre políticos nos diferentes
níveis eleitorais? O tipo de articulação intrapartidária dependerá de como os
partidos são organizados ou, mais especificamente, do grau de centralização
partidária. Em partidos centralizados, a liderança nacional é responsável pelas
decisões partidárias cruciais, como o recrutamento de lideranças locais, a
seleção de candidatos e a estratégia de coligações e coalizões. Neste tipo de
partido, conflitos intrapartidários tendem ser raros, uma vez que a integração
entre os diferentes níveis eleitorais é definida ex antepelos estatutos
partidários. Em partidos cuja organização é mais descentralizada, as
organizações locais mantêm alguma autonomia quando se defrontam com líderes
nacionais, e a articulação entre diferentes arenas eleitorais será consequência
de negociações entre as lideranças nacionais e locais8.
Este artigo está preocupado com um tipo específico de articulação
intrapartidária: o efeito coattailreverso das organizações partidárias locais
para níveis mais elevados de competição eleitoral. A existência de
coattailseleitorais é apontada com evidência de articulação intrapartidária ao
associar o desempenho eleitoral dos candidatos do partido em diferentes
níveis9. Estudos sobre este tipo de efeito eleitoral são comuns na
literaturasobre a política norte-americana, mas raros em estudos sobre outros
sistemas políticos10. Pode-se entender este efeito como a capacidade de um
candidato de primeira linha do partido, normalmente os candidatos a cargos
executivos, de transferir votos para seus companheiros de partido que sejam
candidatos em níveis mais locais de competição eleitoral. O exemplo mais comum
na política norte-americana associa o voto para presidente com o voto para
deputado federal no distrito eleitoral.
Os efeitos coattailreversos também se referem às transferências
intrapartidárias de votos, mas desta vez observadas de uma perspectiva de baixo
para cima, ou seja, a habilidade das organizações partidárias locais de
transferir votos para candidatos do partido em eleições disputadas em distritos
mais amplos. Como será desenvolvido mais adiante, assumimos que este tipo de
transferência de votos, no caso brasileiro, seria evidência das articulações
entre as seções locais e estaduais do mesmo partido.
Mais especificamente, analisamos se os prefeitos são capazes de transferir
votos para os candidatos de seu partido nas eleições para os cargos
legislativos estaduais e federais. Alguns autores já argumentaram sobre a
existência do efeito coattailreverso no Brasil; entretanto, eles não focaram
sua atenção para os prefeitos como uma importante engrenagem para o desempenho
eleitoral do partido nas eleições proporcionais subsequentes11.
Antes de lidar com as especificidades da análise empírica, vejamos algumas
informações sobre o sistema político, assim com a discussão sobre a decisão das
organizações locais em apoiarem os candidatos de seu partido que concorrem em
distritos mais amplos.
O SISTEMA POLÍTICO BRASILEIRO: FEDERALISMO E ORGANIZAÇÃO PARTIDÁRIA
Ainda que o sistema político brasileiro apresente uma combinação rara de
fórmulas eleitorais, o calendário eleitoral adquiriu considerável estabilidade.
De acordo com a regra em vigor desde 1994, as eleições estaduais e nacionais
são realizadas simultaneamente, com um intervalo de dois anos para as eleições
municipais.
Detalhadamente, nas eleições nacionais e estaduais, presidente e governadores
de estados são eleitos para um mandato de quatro anos em um regime majoritário
de dois turnos, com uma disputa entre o primeiro e o segundo candidatos mais
votados se o mais votado não atingir mais que 50% dos votos no primeiro turno.
Membros de ambas as Câmaras Estaduais e Federal são eleitos também para um
período de quatro anos, em um modelo proporcional estadual de lista aberta.
Finalmente, senadores também são eleitos em eleições estaduais para mandatos de
oito anos; o Senado Federal é renovado a cada quatro anos, em um sistema de um
terço e dois terços, por meio de eleições majoritárias também realizadas
simultaneamente com as eleições nacionais e estaduais.
As eleições municipais são realizadas a cada quatro anos para eleger tanto o
prefeito como os vereadores para um mandato de mesmo período. Em cada
município, o prefeito é eleito por meio de sistema majoritário de turno único,
e os vereadores são eleitos por meio de um regime proporcional de lista
aberta12.
Ao contrário da maioria das federações, que são organizadas por meio da relação
entre o governo central e os governos estaduais, ou provinciais, o federalismo
brasileiro é organizado a partir da relação entre três níveis de governo, uma
vez que os municípios também são reconhecidos como fontes soberanas de poder
político. Os prefeitos têm autoridade sobre políticas públicas sob sua
jurisdição; e esta autoridade aumentou com a descentralização promovida a
partir da Constituição de 1988, ao delegar aos municípios a implementação de
importantes políticas públicas, tais como educação e saúde. Como resultado, os
cargos municipais são disputados e as arenas municipais aumentaram sua
importância como distritos eleitorais básicos e locide competição política13.
Devido a esta peculiaridade do federalismo brasileiro, não é surpreendente que
a organização dos partidos brasileiros seja relativamente descentralizada.
Tipicamente, os partidos têm uma estrutura baseada em diretórios municipais,
que estão encarregados de assuntos rotineiros dos partidos, tal como o
recrutamento de novos membros. Apesar de intervenções ocasionais de órgãos
hierarquicamente superiores, as convenções municipais detêm autonomia
considerável nas decisões sobre campanhas municipais, sobre a seleção de
candidatos a prefeito e vereadores, sobre a definição de propostas políticas,
estratégias de coalizão etc. Por fim, as convenções municipais também
selecionam delegados municipais para as convenções partidárias estaduais, que
decidem sobre os mesmos assuntos no nível estadual e selecionam os delegados
estaduais para as convenções partidárias nacionais14.Desta forma, embora exista
ordem hierárquica claramente definida entre as instâncias do partido, as
cadeias de delegação entre a direção nacional e as direções estaduais e - muito
importante para os nossos propósitos - entre estas últimas e as direções
municipais preveem razoável grau de liberdade aos líderes partidários locais15.
Desta forma, a singularidade do Brasil frente a outros países é a de que o
espaço territorial que define a unidade primordial de organização partidária
corresponde a uma fonte constitucional de autoridade política, selecionada por
meio de eleições competitivas, e responsável por políticas públicas importantes
para a vida da maioria dos eleitores.
Resumindo as duas últimas seções, a lealdade partidária das lideranças
municipais aos candidatos de seu partido, o efeito coattaileleitoral reverso,
não deveria ser algo esperado por motivos teóricos e empíricos. Do ponto de
vista teórico, as análises sobre coattailseleitorais quase sempre assumem que
estes efeitos ocorrem de cima para baixo, ou seja, dos cargos majoritários em
distritos mais amplos para os cargos proporcionais em distritos mais restritos.
Do ponto de vista empírico, temos outros dois motivos. Primeiro, pela
singularidade do federalismo brasileiro, com a inclusão dos municípios como
fontes autônomas de poder, e seu correspondente na organização partidária, o
que enfraqueceria as relações das organizações municipais com as organizações
superiores do partido. Segundo, porque tratamos de eleições que não são
simultâneas e que ocorrem com um longo intervalo de dois anos, características
que dificultariam a ocorrência de qualquer tipo de coattaileleitoral. Portanto,
se encontrarmos a ocorrência do efeito coattailreverso, mesmo sob estas
condições adversas, poderíamos estar confiantes de que este efeito está
relacionado à articulação vertical dos partidos16.
Mas como podemos isolar o efeito causal de eleger um prefeito sobre o
desempenho eleitoral posterior do partido de outros potenciais e feitos
causais?
BASE DE DADOS, ESTRATÉGIA DE IDENTIFICAÇÃO E PRINCIPAIS RESULTADOS
Os dados eleitorais utilizados neste artigo foram obtidos do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE). Temos informações detalhadas tanto da eleição municipal de
2008 como da eleição estadual e nacional de 2010. Começamos por agregar as
votações para candidatos por município, cargo e partido. Para as eleições de
2008, em cada município filtramos apenas os partidos que venceram as eleições
para prefeito ou ficaram em segundo lugar, restando, portanto, dois partidos
por município. Também eliminamos municípios com segundo turno e municípios com
apenas um competidor para a eleição municipal (garantindo que cada município
tivesse dois partidos relevantes)17. Essas exclusões nos deixaram com 5.221 dos
5.564 municípios brasileiros. Para medir o desempenho dos partidos no município
nas eleições de 2010, nós simplesmente agregamos os votos (nominais e na
legenda) dados aos partidos especificados acima - primeiros e segundos
colocados nas eleições de 2008 - tanto para deputado federal como para deputado
estadual.
Para identificar se há articulação intrapartidária no Brasil, exploramos uma
oportunidade dada pelas regras eleitorais brasileiras e discutida anteriormente
neste artigo. No Brasil, desde 1994, existem eleições a cada dois anos,
alternando entre eleições federais e estaduais (1994, 1998 etc.) e eleições
locais (1996, 2000 etc.). A hipótese nula (de que os partidos não se articulam
entre os níveis municipais e estaduais) é de que a eleição de um prefeito por
um partido não teria impacto (causal) nos votos do mesmo partido na eleição
proporcional subsequente.
É sempre importante lembrar que a existência de correlação entre eleitores dos
partidos nas diferentes eleições, discutida nas seções anteriores, não deve ser
considerada como evidência de algum tipo de causalidade. Nós afirmamos que, se
não houver articulação entre os diferentes níveis da organização partidária,
não esperaríamos que a eleição de um prefeito implicasse mais votos para o seu
partido na eleição proporcional subsequente de âmbito estadual.
Consequentemente, se encontrarmos evidências da direção da causalidade entre a
eleição de um prefeito e os votos nas eleições proporcionais do seu partido na
eleição seguinte, interpretaremos esse resultado como evidência de que os
partidos têm importância nas eleições brasileiras.
O problema para identificar o efeito da eleição de um prefeito no desempenho
partidário decorre da possibilidade de que os votos do partido em um dado
município nas eleições estaduais sejam determinados por fatores não observáveis
pelo pesquisador. Um partido forte em um município pode ter uma quantidade
maior de votos em qualquer eleição mesmo sem coordenação partidária interna.
Tal como em outras situações de pesquisa, este problema resulta da
impossibilidade de que um partido simultaneamente ganhe e perca a mesma eleição
para prefeito. Para lidar com esse problema clássico de endogeneidade,
comparamos cidades nas quais o partido venceu a eleição por uma diferença
marginal. Lee (2008) demonstra que essa estratégia fornece uma variação quase-
aleatória entre vencedores e perdedores. O argumento é que quanto mais próximos
os resultados de uma eleição mais o partido vencedor seria determinado
aleatoriamente, por algum componente imprevisível no comportamento do
eleitor18.
Em outras palavras, o caráter aleatório da vitória nas eleições para prefeito é
a chave para contornar o problema de endogeneidade descrito acima. Para os
propósitos deste artigo, partidos com desempenhos eleitorais muito próximos são
também muito semelhantes - devem ter mais ou menos a mesma influência no
município - exceto que um logrou eleger o prefeito e o outro não. Essa
semelhança torna possível simular a situação em que um mesmo partido
simultaneamente ganhe e perca as eleições para prefeito, ou seja, comparar um
partido com ele mesmo, o que nos permite identificar o efeito da eleição do
prefeito.
Para encontrar tal efeito estimamos variações da seguinte função:
onde Vm,p,t+2representa a proporção de votos para deputado estadual ou federal
no município mpara o partido pna eleição ocorrida em t+2 (nesse caso, 2010);
dm,p,té uma variável binária que assume valor 1 se o partido venceu a eleição
para prefeito em t (nesse caso, 2008) e 0 se ele ficou em segundo lugar;
xm,p,trepresenta a margem de vitória na eleição municipal, isto é, a proporção
de votos do prefeito mais votado menos a proporção de votos do segundo colocado
no município m; V(xm,p,t;β) é uma função contínua da margem devitória
parametrizada porβ; ckm,p,trepresenta uma covariável krelacionada às
características do município m, partido pno ano tonde, para fins de
generalidade, mantivemos a possibilidade de kcovariáveis; eηm,p,té um termo de
erro com os seus atributos geralmente necessários (e desejados).α,βs eγs são
parâmetros a serem estimados pela regressão.
É importante destacar aqui que, apesar de utilizarmos um subscrito para o
tempo, não temos um painel de dados. Na realidade, as variáveis independentes
estão dois anos defasadas em relação à dependente. Assim, o subscrito do tempo
serve apenas para enfatizar que estamos trabalhando com dados defasados.
Utilizar dados com dois anos de defasagem já garante um pouco de exogeneidade
como explorado por Carneiro e Almeida (2008). Assim temos variáveis de 2008
entre as variáveis independentes e variáveis de 2010 para a variável
dependente. Em princípio podemos montar um painel adicionando dados de 2006
regredidos contra 2004, dados de 2002 regredidos contra dados de 2000 etc. No
entanto, neste artigo trabalhamos apenas com duas eleições defasadas (2008 e
2010).
Um outro ponto relevante a ser destacado é que essa estratégia evita um
problema usual na estimação de regressões em proporções com múltiplos partidos.
Nesses casos, se a variável dependente representar a proporção de votos de um
partido e todos os partidos estiverem envolvidos na regressão, a soma das
proporções de votos para um determinado município será sempre igual a um,
gerando um problema com a hipótese de independência das observações. Esse
problema foi tratado na literatura por Katz e King (1999), Tomz, Tucker e
Wittenberg (2002), entre outros. No nosso caso, como somamos as proporções dos
dois partidos mais bem votados por município, a soma dos votos não é
necessariamente um19.
Claro que, potencialmente, os dois partidos que ficaram em primeiro ou segundo
poderiam também obter todos os votos para o legislativo dois anos depois. No
nosso caso, entretanto, não há nenhuma observação acima de 95% para deputados
federais e apenas dez observações acima de 95% para deputados estaduais. De
qualquer modo, dado esse problema potencial, rodamos as regressões novamente
eliminando da amostra os municípios para os quais a soma de votos para deputado
federal ou deputado estadual representava mais do que 80% do total de votos no
município. O efeito dessa mudança é o de aumentar o impacto da eleição do
prefeito na proporção dos votos para deputados no pleito seguinte. Vale
destacar que, quando reduzimos a amostra para as observações em que a diferença
entre o primeiro e o segundo lugar na eleição para prefeito estivesse abaixo de
5%, não há observações em que a soma dos dois partidos esteja acima de 80% dos
votos para deputado federal, e apenas dez observações para deputado estadual.
Ignorando o viés de seleção, é evidente queδidentifica o efeito do prefeito ter
sido eleito no desempenho de seu partido na eleição subsequente. Esse efeito
denominamos "efeito partidário" pois exige que o prefeito se esforce para obter
votos para os deputados de seu partido (não para candidatos de sua preferência
que estivessem em qualquer partido). Em outras palavras, se fosse possível
controlar todas as fontes de viés a partir das variáveis observadas poderíamos
afirmar que o termo dm,p,t mede o efeito causal do prefeito pertencer a um
determinado partido nos votos desse mesmo partido no pleito estadual dois anos
depois.
Para entender um pouco melhor a estratégia de identificação precisamos refletir
sobre a fonte de viés da medida de efeito partidário. Um partido forte em um
determinado município deve ter uma performance boa em qualquer eleição nesse
mesmo município. Ou seja, os votos do partido em um município em uma eleição
devem estar correlacionados com a votação desse partido na eleição seguinte.
Assim, precisaríamos isolar o efeito do prefeito na eleição para deputado ao
controlar pela força do partido (independente do prefeito) nesse município. Uma
variável (observada) que poderia realizar esse controle é a proporção de votos
para vereador nas eleições de 2008. Adicionalmente, tal com discutido
anteriormente, utilizamos como estratégia de identificação a regressão
descontínua que consiste em observar o impacto apenas em eleições com uma
margem apertada de vitória.
Na primeira linha apresentamos o efeito partido "incondicional"20, ou seja,
apresentamos essencialmente a correlação entre os votos para deputado federal
em 2010 em um determinado município e o fato de o partido ter eleito o prefeito
desse município em 2008 independentemente da margem de vitória. O efeito
incondicional implica aumento de 5,5% em valores absolutos no desempenho do
partido do prefeito nas eleições para deputado federal. Considerando o valor de
base de cerca de 15% na amostra - percentual médio da votação dos partidos que
ficaram em primeiro ou segundo lugar nas eleições municipais - para deputado
federal no município21, a estimativa incondicional revela um impressionante
aumento relativo de 37% nos votos para deputados federais em municípios nos
quais o partido conseguiu elegero prefeito.
Conforme discutido acima, não acreditamos que esta seja uma boa estimativa do
efeito causal partidário. A primeira estratégia é controlar pela votação que os
candidatos a vereador do partido obtiveram no município. Essa variável
contemporânea pode controlar por grande parte da endogeneidade no resultado da
eleição subsequente se acreditarmos que poderíamos estar confundindo a
influência do partido com inércia do poder dos membros do partido no município.
De fato, ao adicionarmos essa variável de controle, o valor absoluto do efeito
partidário é reduzido para 3%. Apesar de introduzirmos o controle dos votos
para vereador, este coeficiente é estatisticamente significante, mesmo a 99%, e
representa impacto substancioso: um aumento em torno de 20% em termos relativos
na votação do partido para deputado federal no município em relação ao valor
base.
Quando restringimos nossa amostra para os municípios em que a margem de vitória
foi apertada, confirmamos nossa suspeita de que o efeito irrestrito e
incondicional pode estar superestimando o efeito do partido na eleição
subsequente. No entanto, as estimativas do efeito partidário são
estatisticamente significantes (a 1%) até para margens de vitória abaixo de 1%.
Nos 266 municípios onde a eleição foi definida com menos de 1% de margem, a
votação subsequente para deputado federal de seu partido foram, em média, 3,7%
mais altas do que os votos para o candidato na segunda colocação. Mantendo essa
amostra de municípios de eleição municipal apertada e adicionando os votos para
vereador como variável de controle, o impacto é reduzido apenas levemente para
3,4%.
Esses resultados reforçam nossa confiança nos pressupostos que adotamos para a
análise por dois motivos: o efeito reduzido da introdução do controle dos votos
para vereador indica que eleições muito apertadas são disputadas por partidos
muito semelhantes. Além disso, esse resultado está acima do estimado quando não
restringimos a amostra e adicionamos os votos para vereador do partido (linha
2), o que sugere que a variável de votos para vereador pode estar afetando
"excessivamente" o efeito partidário, induzindo uma subestimativa do parâmetro
real quando não restringimos a amostra para as eleições mais apertadas22.
Para reforçar nossa confiança, testamos diferentes funções para V(χ;β)
uma vez que um problema relevante no desenho de regressão em descontinuidade é
confundir descontinuidade com não linearidade. Na tabela reportamos apenas
estimativas de uma especificação polinomial de quarto grau, mas os resultados
são bastante resistentes à especificação funcional. Magnitude e significância
não são afetadas por diferentes premissas da forma funcional da variável em
análise - margem de vitória. Interpretamos esse resultado como um teste de
robustez para o nosso resultado de que existe coattailreverso, ou seja, uma
articulação entre os níveis do partido de tal sorte que os prefeitos atuam
sistematicamente como cabos eleitorais para os candidatos a deputado federal de
seus próprios partidos.
A afirmação de que o resultado é robusto parte, sobretudo, da estratégia de
regressão descontínua discutida anteriormente. Essa estratégia tem sido
amplamente utilizada na literatura de ciência política justamente se
aproveitando da descontinuidade natural das eleições. Ainda que essa literatura
tenha sido desenvolvida originalmente para as eleições norte-americanas, já
existem diversas aplicações em outros países incluindo o Brasil (Brambor e
Ceneviva, 2012; Brollo e Nannicini, 2012; Titiunik, 2009) justamente com
eleições municipais.
ALGUNS TESTES ADICIONAIS DE ROBUSTEZ
Evidentemente, gostaríamos de testar um pouco mais a sensibilidade dos nossos
resultados. Preliminarmente, gostaríamos de saber se a articulação
intrapartidária, ou seja, a evidência de transferência de votos do prefeito
para os candidatos proporcionais do mesmo partido é generalizada ou varia entre
os partidos dos prefeitos eleitos. Em outras palavras, nós poderíamos estar
atribuindo aos partidos em geral efeitos que se concentram em poucos partidos.
Num segundo momento, nossos testes verificam se a articulação intrapartidária
depende dos vínculos dos prefeitos com a coalizão governamental estadual e
federal23.
Para saber se o efeito que encontramos é generalizado entre os partidos,
permitimos que cada partido tenha um efeito distinto em termos do
coattailreverso proposto neste artigo. Para isso adicionamos uma variável
binária para cada partido e interagimos essa variável com a variável binária
que indica se o partido ganhou ou perdeu a eleição(a nossa variável de
tratamento). A introdução destas variáveis nos permitirá verificar se o efeito
que encontramos é generalizado. Como é bem conhecido, não podemos adicionar
todas as combinações possíveis, caso contrário teríamos multicolinearidade
perfeita. Assim, excluímos o partido com maior número de prefeituras, o Partido
do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB)24. Isso significa que os valores e
magnitudes apresentados na Tabela_2 referem-se ao impacto dos prefeitos eleitos
pelo PMDB no desempenho deste partido nas eleições estaduais.
[/img/revistas/dados/v55n4/a05tab01.jpg]
[/img/revistas/dados/v55n4/a05tab02.jpg]
As duas primeiras linhas apresentam um resultado muito semelhante ao encontrado
sem os controles para os partidos. Em outras palavras, o PMDB aparenta ter
nível de articulação intrapartidária próximo ao apresentado pelo conjunto dos
partidos na Tabela_1. Entretanto, conforme restringimos a amostra, no entanto,
acabamos perdendo precisão, como seria de se esperar25. Com margem de vitória
menor do que 5% temos um coeficiente preciso a 5% porém com magnitude menor do
que o estimado para a amostra sem a inclusão dos controles por partido.
Finalmente, para a amostra considerando apenas os municípios para os quais a
margem de vitória foi de 3% ou 1%, os coeficientes já não são significantes.
Acreditamos que esse resultado se deva exclusivamente à redução no tamanho da
amostra associada à adição de um número muito alto de novas variáveis. O que
reforça essa interpretação é o fato de o resultado resistir para a amostra toda
adicionando-se a proporção de votos para vereador do partido. Como
argumentamos, essa última variável parece capturar boa parte da força do
partido no município.
Uma outra hipótese explicativa seria que o PMDB em particular não está tão
articulado como os demais partidos. Esta hipótese é improvável, pois dada a
presença do PMDB nos municípios brasileiros, este partido deve ter um
comportamento muito parecido com a média. De fato, é possível testar se um
partido está acima ou abaixo da média pemedebista observando o coeficiente da
interação entre a variável binária do partido e a variável de tratamento.
Observando os resultados da regressão para a amostra toda incluindo a proporção
de votos para vereador como base, notamos que a articulação intrapartidária é
menor para quatro partidos (Partido Republicano Brasileiro (PRB), Partido
Democrático Trabalhista (PDT), Partido Verde (PV) e Partido da Social
Democracia Brasileira (PSDB)) e maior para três partidos (Partido dos
Trabalhadores (PT), Partido da República (PR) e Partido Comunista do Brasil
(PCdoB)). Os outros dezoito partidos apresentam uma articulação essencialmente
igual a do PMDB.
Sem dúvida os resultados observados quando permitimos a diferenciação entre os
partidos indicam que há mais a se pesquisar nessa área. Não faz parte do escopo
deste artigo, no entanto, avaliar a heterogeneidade da articulação
intrapartidária por partido o que deixamos para pesquisas futuras. O que nos
interessa destacar neste momento é que, embora a articulação intrapartidária
possa ser diferente em função da estrutura e capilaridade de cada partido, há
um efeito significante tanto em termos estatísticos quanto em termos
substantivos para a grande maioria dos partidos.
Uma outra maneira de testarmos a robustez do nosso resultado seria nos
concentrar nos maiores partidos em termos eleitorais. Seguimos, então, Carneiro
e Almeida (2008) e trabalhamos com os sete partidos historicamente mais
relevantes na arena eleitoral: Partido Progressista (PP), PDT, PT, Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB), PMDB, Democratas (DEM) e PSDB. Rodamos novamente
as regressões implícitas na Tabela_1 apenas para esses partidos. Uma vez mais
não notamos nenhuma mudança significativa; apenas perdemos precisão no caso da
amostra mais reduzida (1% de margem). Se há alguma diferença entre a
articulação intrapartidária desses partidos e dos demais, ela é no sentido
inverso do que se poderia imaginar: há menos articulação para os partidos
supostamente mais estruturados. No entanto, como a diferença é insignificante,
é mais provável que não exista diferença entre os partidos (supostamente) mais
estruturados e os menos estruturados. Uma vez mais esse resultado indica que há
ainda muito a se pesquisar em relação à articulação intrapartidária em cada
partido26.
Ainda que a adição das variáveis por partido controlem boa parte das possíveis
fontes de diferenciação nos nossos resultados, vale a pena verificar se não
estamos confundindo a articulação intrapartidária com os vínculos com a
coalizão estadual. Para checar essa possibilidade adicionamos uma variável
binária que assume valor um quando o prefeito é do mesmo partido que o
governador. Pode ser que esse tipo de vínculo favoreça tanto os votos do
candidato a prefeito em 2008 como os votos dos candidatos a deputado federal em
2010. A adição dessa variável também não influencia os resultados de maneira
significante, o que reforça nossa perspectiva de que estamos lidando com um
efeito intrapartidário e não captando outros efeitos de maneira indireta.
Uma outra possibilidade que nos levaria a confundir o efeito partidário com
outros efeitos ocorreria se os prefeitos eleitos sistematicamente se lançassem
para deputado federal ou estadual no período subsequente. Nesse caso, não
estaríamos observando a articulação intrapartidária, mas sim o prefeito
trabalhando em benefício próprio27.Não acreditamos que esse seja o caso, pois,
ao contrário do que se poderia imaginar, é raro que um prefeito se candidate a
outro cargo. Apenas 30 prefeitos eleitos em 2008 se candidataram a algum cargo
em 2010. Para a nossa amostra que se limita a municípios com menos de 200 mil
eleitores, esse número cai para apenas 14. Na verdade, é bem mais usual um
candidato a prefeito que ficou em segundo lugar se apresentar na eleição
seguinte. Entre os candidatos a prefeito que em 2008 ficaram em segundo lugar,
167 concorreram a algum cargo em 2010. Isso é esperado porque um prefeito tem
mais a perder disputando uma nova eleição com apenas dois anos de mandato.
De todo modo, verificamos se essa hipótese de benefício próprio teria algum
sentido ou não adicionando uma variável binária indicando se o prefeito ou o
segundo colocado foi candidato a deputado federalem 2010 ou não. Dado que a
maioria dos que se candidatam a deputado são os candidatos derrotados na
eleição municipal, o efeito dessa variável, se algum, seria o de aumentar a
magnitude do impacto da articulação partidária. O fato é que o resultado de que
existe alguma forma de articulação partidária, segundo a qual o prefeito
funciona como um cabo eleitoral relevante para os deputados federais do seu
partido, é bastante significativo resistindo a diversos testes de robustez28.
Finalmente, realizamos mais uma tentativa de verificar a robustez dos
resultados observando se, para deputado federal (Tabela_1), os resultados são
replicados para a votação para deputado estadual no mesmo município. Na Tabela
3, reproduzimos as estimativas modificando a variável dependente de acordo com
a nova análise. Em termos qualitativos, os resultados são virtualmente os
mesmos. A correlação entre a eleição de prefeitos e a votação para deputado
estadual na eleição subsequente é bastante clara. Portanto, há evidências para
a existência de significativo efeito partidário também nas eleições para
candidatos a deputado estadual.
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Existem, todavia, diferenças de magnitude no efeito partidário entre votação
para o legislativo no nível estadual enonível federal. Primeiramente, o impacto
é significante apenas para o nível de 10% quando restringimos a amostra para
266 municípios com margem apertada de vitória na eleição para prefeito. Em
segundo lugar, a magnitude das estimativas é sempre menor que as encontradas
para os deputados federais. Apesar do valor de base para as eleições
legislativas estaduais ser ligeiramente menor do que nas eleições para
deputados federais (14% comparado com os 15%), isto não é o suficiente para
explicar as diferenças de magnitude. O efeito partidário relativo ao valor de
base variará de um limite inferior de 10% (1,5% em valores absolutos) a um
limite superior de 26% (3,7%), comparado com uma variação entre 21% e 37%
encontrados para as votações para deputado federal no município.
Não podemos dizer muito sobre essa diferença, dado que isto nos afastaria do
foco deste artigo; entretanto, este é certamente um aspecto que merece
investigação futura. Esperaríamos que o impacto fosse maior para os deputados
estaduais por duas razões. Em primeiro lugar, o deputado estadual poderia ser
mais atento aos problemas municipais. Pelo menos o deputado estadual reside no
estado enquanto que outros participantes do Congresso Nacional residem em
Brasília. Em segundo lugar, se acreditarmos que uma carreira política típica
passaria do executivo municipal para o legislativo estadual e depois mover-se-
ia para o legislativo federal, um ex-prefeito deveria estar mais conectado ao
prefeito atual.
Para apoiar um impacto maior para o deputado federal, nós poderíamos também
criar a hipótese de que esses políticos sejam mais relevantes para a política
local que suas contrapartes estaduais. Isso é razoável, uma vez que as
transferências federais para os municípios brasileiros em geral são maiores que
as transferências estaduais. Adicionalmente, poderíamos considerar que essa
diferença é o resultado de uma influência de cima para baixo do partido.
Supondo que os deputados federais são mais influentes na organização
partidária, isto refletiria que o prefeito trabalharia mais fortemente para
eleger os líderes partidários.
De toda forma, o efeito partidário, como definido neste artigo, está presente
em ambas as eleições, aumentando o grau de confiança do nosso resultado. Além
disso, os resultados são robustos a uma série de testes o que nos dá bastante
segurança no resultado. Nós ainda sabemos pouco sobre os mecanismos através dos
quais esse efeito partidário ocorre e se as diferenças entre as duas eleições
proporcionais pode revelar algo sobre este mecanismo. Nossa análise sugere, no
entanto, que uma interessante via de pesquisa pode ser a de explorar mais
profundamente a heterogeneidade dos impactos observados.
CONCLUSÕES E PERSPECTIVAS FUTURAS
Este artigo analisou os efeitos eleitorais das articulações intrapartidárias,
um aspecto importante para entender a maioria dos sistemas políticos
federativos. Exploramos as peculiaridades da federação brasileira para explorar
a existência de coattaileleitorais reversos. Especificamente, nós exploramos a
vantagem que um partido poderia ter, ao eleger o prefeito nas eleições de 2008,
para as eleições proporcionais esta duais de 2010. Nossas descobertas mostram
evidências de um forte efeito coattailreverso, chamando a atenção para a
importância das organizações partidárias municipais para entender os resultados
nas eleições proporcionais estaduais. Esse resultado auxilia na compreensão do
tamanho legislativo dos partidos brasileiros, um assunto central para entender
a criação, manutenção e o rompimento das coalizões governamentais em um sistema
partidário fragmentado.
As descobertas deste artigo também abrem possibilidades para futuras
investigações. Um caminho óbvio é investigar detalhadamente os mecanismos
causais, ou seja, comoeleger um prefeito pode trazer vantagens eleitorais para
os candidatos a deputado de seu partido. Mais especificamente, essa vantagem
poderia vir do maior acesso dos prefeitos aos recursos públicos, do seu papel
como implementadores de políticas públicas locais, como intermediários de
transferências estaduais e federais, como emprestadores de credibilidade para
as promessas eleitorais dos candidatos do partido, ou uma combinação destes
diferentes aspectos. A resposta a esta pergunta somente poderá ser resolvida
através de pesquisa empírica.
Outro aspecto importante a ser explorado mais detidamente são as articulações
intrapartidárias, ou seja, por queseção partidária local do partido decide se
empenhar para eleger os candidatos de seu partido que concorrem em distritos
mais amplos. No caso específico deste artigo, por que apoiar os candidatos do
seu partido nas eleições proporcionais estaduais que ocorrem dois anos depois.
Se a existência de articulações intrapartidárias não é algo natural, então
seria necessário explicar as condições nas quais elas ocorrem, ou seja, quais
características organizacionais favorecem - ou dificultam - a cooperação entre
os diferentes níveis partidários29.
Este último aspecto é fundamental para explorarmos mais detalhadamente a
possível variação entre partidos brasileiros em sua capacidade de alcançar
algum nível de articulação intrapartidária, um tema que foi apenas
superficialmente discutido neste artigo devido à restrição no número de
eleições apertadas. É possível que os partidos tenham diferentes níveis de
articulação ou demonstrem diferentes trajetórias ao longo do tempo,
apresentando padrões crescentes, estáveis ou decrescentes de articulação.
Voltando aos parágrafos iniciais, outro tópico interessante de pesquisa é o
declínio da volatilidade eleitoral e a potencial consolidação da competição
partidária entre os estados brasileiros. Conforme demonstrado por Bohn e Paiva
(2009) e Peres et alii (2011), a volatilidade eleitoral diminuiu a taxas
diferentes no nível estadual. Uma explicação possível para essa variação, ao
menos para eleições legislativas, é que a volatilidade eleitoral diminui apenas
em regiões onde os partidos políticos podem alcançar algum grau de articulação
interna entre diferentes níveis de governo. Ou seja, nós deveríamos observar
uma diminuição ainda maior da volatilidade eleitoral nos estados em que os
partidos sejam capazes não apenas de manter seus votos no município, mas de
transferir estes votos para os candidatos do partido nas eleições legislativas
estaduais.
NOTAS
1. Veja-se, por exemplo, Braga (2006).
2. Ao analisar a volatilidade eleitoral no Brasil entre 1990 e 2006, Braga
(2010) encontra um valor médio de 13,8%, valor que situaria o Brasil na décima
colocação entre os mesmos 39 países analisados.
3. Para uma análise da heterogeneidade da queda na volatilidade eleitoral entre
os estados brasileiros no período mais recente, ver Bohn e Paiva (2009), Peres
et alii(2011) e os trabalhos neles citados.
4. Embora com análise menos detalhada, o mesmo tema também foi abordado em
Nicolau (2008).
5. Os mecanismos através dos quais essa vantagem se realiza podem ter várias
explicações cuja análise mais precisa foge ao escopo do presente trabalho. Na
conclusão, nós sugerimos algumas alternativas para investigação.
6. Embora os resultados empíricos ainda sejam motivo de debate, uma vertente
importante da literatura argumenta que a descentralização do poder é um
obstáculo para a articulação entre estes diferentes níveis e a formação de
partidos nacionais. Veja-se, entre outros, os trabalhos de Cox (1997, 1999),
Chibber e Kolman (1998, 2004), e Thorlakson (1999).
7. Para evitar confusões conceituais, nós evitamos utilizar o termo
coordenação,tal como introduzido por Cox (1997, 1999 e 2005), pois a
preocupação primária deste autor é com soluções estratégicas para o problema de
existência de mais candidatos do que cargos em disputa. Mesmo que as soluções
propostas por Cox assumam a existência de articulações intrapartidárias, a
administração da relação entre os diferentes níveis partidários não é analisada
como problema específico por este autor.
8. Para uma análise mais detalhada deste problema, ver Deschouwer (2003 e
2006), Leiras (2006), Van Houten (2009) e Thorlakson (2009 e 2011). Para o caso
brasileiro, alguns trabalhos já enfocaram a questão da organização interna dos
partidos, embora por outros ângulos que não o tipo de articulação
intrapartidária tratada neste artigo; entre esses trabalhos, é possível citar
Braga (2008), Braga et alii(2009) e Guarnieri (2004, 2009 e 2011).
9. Embora introduzido por Riker (1964), a importância das articulações
intrapartidárias tem sido objeto de discussão em estudos recentes sobre o
federalismo. Ver, por exemplo, os trabalhos de Filippov et alii(2004), Rodden
(2006), Wibbels (2006).
10. Podem ser considerados como exceções os trabalhos Gélineau e Remmer (2005)
para a Argentina e Gélineau e Belanger (2006) para o Canadá que analisam os
efeitos das eleições presidenciais sobre as eleições provinciais. Outra exceção
importante é o trabalho de Golder (2006) que investiga os efeitos do
coattailpresidencial sobre a fragmentação legislativa em um grupo de 35 regimes
presidencialistas.
11. A única análise mais ampla sobre os coattaileleitorais reversos para o caso
brasileiro, e de quem tomamos emprestado o termo, é Ames (1994), que lida com
os efeitos da organização partidária municipal sobre as eleições presidenciais
de 1989. Samuels (2000a e 2000b) encontra coattailseleitorais, mas afirma que,
no Brasil, as candidaturas a governador teriam maior influência do que as
candidaturas presidenciais na formação das listas de candidatos competindo nas
eleições proporcionais estaduais.
12. Em municípios com mais de 200 mil eleitores registrados, os prefeitos são
eleitos por meio do mesmo sistema de dois turnos que regulamenta as eleições
para presidente e para governadores de estado. Além disso, a reeleição está
limitada a dois mandatos consecutivos (presidente, governadores e prefeitos).
Todos os cargos legislativos (senadores, deputados federais ou estaduais e
membros de câmaras municipais) não têm restrição de reeleição.
13. As limitações da descentralização brasileira pós-1988 são abordadas
principalmente nos trabalhos de Arretche (2009 e 2010).
14. Sobre estes pontos, ver os já citados trabalhos de Braga (2008), Braga et
alii(2009) e Guarnieri (2004, 2009 e 2011).
15. Guarnieri (2011) salienta que as direções partidárias estaduais e nacionais
poderiam dificultar a organização de diretórios municipais representativos,
pois prefeririam controlar o partido através da instituição de comissões
provisórias. Segundo nossa interpretação, os partidos organizados no município
através de comissões provisórias teriam mais dificuldade para eleger o prefeito
- lembrar que Guarnieri salienta a dificuldade das comissões provisórias em
lançar candidatos - mas, uma vez que lograssem eleger o prefeito, poderiam
apresentar grau maior de articulação intrapartidária no estado. Estas questões
merecem maior atenção no futuro.
16. A mobilização dos prefeitos para favorecer candidaturas estaduais de seu
partido em estruturas políticas federativas exige um mínimo de articulação
intrapartidária entre os níveis de governo. Para uma discussão sobre a
articulação intrapartidária necessária para mobilizar os esforços dos prefeitos
nas eleições estaduais na Argentina, ver Leiras (2006).
17. Como veremos a seguir, a variável que mede o efeito partidário é uma função
da margem de vitória do partido ganhador da eleição municipal. Aexclusão dos
municípios com segundo turno se deve a dois motivos. O primeiro é o de que a
estratégia dos partidos em municípios de segundo turno pode ser diferente
daquela utilizada em municípios com eleições em apenas um turno. Atrelado a
isso, o segundo motivo da exclusão é o de que, como atestado por imensa
literatura desde Duverger (1954), as eleições majoritárias com apenas um turno
tendem a convergir para apenas duas listas competitivas que representariam a
grande maioria do eleitorado; este último aspecto torna a diferença do primeiro
para o segundo colocado uma boa medida da competitividade no município.
18. Por exemplo, alguns comentaristas sugeriram que a derrota de Gabeira no
segundo turno da eleição carioca de 2008 deveu-se em parte ao fato de que o
segundo turno caiu em um feriado e que os eleitores de Gabeira estariam mais
propensos a viajar no feriado do que os eleitores de seu desafiante.
19. Agradecemos a um parecerista anônimo por ter nos chamado a atenção para
este problema.
20. Na realidade condicionamos na função polinomial sobre a margem de vitória.
Em termos da especificação (1) a função V(xm,p,t;P) permanece, mas a somatória
em geral não é utilizada. Apenas em algumas especificações utilizamos a
proporção de votos para vereador do partido como uma covariável. Nenhuma outra
covariável foi utilizada nas especificações apresentadas.
21. Dois pontos são importantes sobre a determinação do valor de base. O
primeiro é que, no mesmo município, o percentual esperado de votos obtidos por
um partido em eleições majoritárias - no caso, prefeitos - deve ser maior que o
de votos do mesmo partido em nas eleições proporcionais estaduais,
principalmente, em distritos de grande magnitude como o caso dos estados
brasileiros. O segundo ponto é que o valor de base deveria conter apenas o
desempenho eleitoral nas eleições estaduais dos partidos que ficaram em segundo
lugar nas eleições para prefeito; portanto, ao adotarmos a média como o
desempenho eleitoral esperado para as eleições estaduais, nós estamos inflando
o valor de base, ao incluir também o desempenho dos partidos que elegeram o
prefeito.
22. Vale destacar que a regressão descontínua não deve ser interpretada como o
efeito apenas sobre a subpopulação próxima da descontinuidade, mas sim como o
efeito sobre toda a população com pesos mais elevados para as observações
próximas da descontinuidade.
23. Essas questões nos foram levantadas por parecerista anônimo, ao qual
agradecemos pelas sugestões.
24. O PMDB ficou em primeiro ou segundo em mais de 2 mil disputas na nossa
amostra.
25. Note-se que adicionamos 50 novas variáveis pois temos 26 partidos
(portanto, 25 variáveis identificando os partidos) e interagimos cada uma
dessas com a variável de tratamento.
26. Por economia de espaço, não apresentamos os resultados que, entretanto,
podem ser requisitados aos autores.
27. Esse ponto também nos foi sugerido por um parecerista anônimo.
28. Novamente, por economia de espaço, não apresentamos os resultados que podem
ser requisitados aos autores.
29. Para uma discussão sobre este ponto ver Leiras (2006) e Van Houten (2009).