Donald Pierson e o Projeto do Vale do Rio São Francisco: cientistas sociais em
ação na era do desenvolvimento
INTRODUÇÃO
Os anos 1950 foram pródigos em ciclos de pesquisas desenvolvidos pelas ciências
sociais brasileiras, como o convênio Columbia University-Estado da Bahia, o
programa Unesco de relações raciais e o conjunto de estudos realizados no Vale
do Rio São Francisco. Patrocinados por agências nacionais e internacionais,
instituições de ensino e pesquisa, os projetos abordaram um país em acelerado
processo de transformação social com base na industrialização, na urbanização e
em mudanças no mundo rural. No centro dessas iniciativas encontra-se tema caro
à sociologia: a mudança social. Alvo de distintas interpretações, este conceito
foi mobilizado por cientistas sociais no esforço de compreensão dos desafios
postos pela modernização da estrutura socioeconômica do país, em que assumia
relevo a ação planejadora do Estado. Neste período, o papel dos cientistas
sociais foi objeto de intensos debates envolvendo os limites de seu
envolvimento com a intervenção e as relações entre uma modalidade aplicada de
ciência social e as atividades de natureza acadêmico-científica.
Este artigo analisa as relações entre ciências sociais e desenvolvimento no
Brasil a partir da investigação do ciclo de Pesquisas no Vale do São Francisco.
Coordenado pelo sociólogo norte-americano Donald Pierson (1900-1995), o
programa de investigações foi realizado na década de 1950 sob os auspícios da
Comissão do Vale do São Francisco (CVSF), da Escola Livre de Sociologia e
Política (ELSP) e do Institute of Social Anthropology/Smithsonian Institution
(ISA/SI). A análise recai sobre a inflexão na trajetória de Pierson, que passou
da posição de sociólogo-investigador, dedicado à formação de cientistas sociais
profissionais e à institucionalização das ciências sociais no Brasil ' posição
que se pretendia crítica e equidistante do mundo dos interesses societais e
políticos ' à afirmação do papel do cientista social no processo de mudança
social. Para tornar inteligíveis as descontinuidades no pensamento de Pierson,
representadas pelo estudo do Vale do São Francisco, assume importância o
processo de profissionalização dos cientistas sociais na era do
desenvolvimento, que colocou em tela os usos sociais do conhecimento
socioantropológico.
O Projeto do Vale é geralmente inserido nos chamados estudos de comunidade
(Melatti, 1984). No Brasil, eles constituíram um modelo explicativo da
sociedade com base em múltiplas investigações empíricas, circunscritas
espacialmente, de populações rurais. Seu enfoque recaiu sobre o processo de
mudança em contextos sociais marcados pela tradição. Trata-se de uma abordagem
que remonta aos trabalhos de cientistas sociais norte-americanos, tais como
Robert e Helen Lynd (Middletown), Warner Loyd (The Social Life of a Modern
Community) e Robert Redfield (Tepotzlan, a Mexican Village: A Study of Folk
Life). Em termos metodológicos, os estudos de comunidade refletiriam o
deslocamento, para sociedades complexas, de métodos caracteristicamente
utilizados pelas pesquisas etnográficas nas denominadas sociedades primitivas.
Esses estudos foram alvo de controvérsias envolvendo, dentre outros aspectos,
suas bases metodológicas e alcance explicativo, e fizeram parte dos debates em
torno da institucionalização das ciências sociais, dos padrões de trabalho
intelectual capazes de conferir-lhes legitimidade social e científica1. Na
perspectiva positiva de autores como Florestan Fernandes (1958), ao vincularem
a análise da sociedade ao levantamento sistemático de material empírico, os
estudos de comunidade contribuíam para a superação das interpretações da
realidade brasileira de caráter ensaístico, apresentando a diversidade
sociocultural do país.
Aos críticos, por sua vez, não faltaram observações quanto ao problema da
representatividade das localidades selecionadas, tendo em vista a possibilidade
de compreender, por meio desses estudos, aspectos de ordem mais geral da vida
social brasileira2. Houve ainda quem sublinhasse a inadequação de seus
pressupostos teórico-metodológicos, construídos a partir do enfoque
antropológico sobre comunidades primitivas, e tendentes a enfatizar a
estabilidade, homogeneidade e autossuficiência das estruturas sociais, em uma
situação de pesquisa envolvendo uma realidade social distinta, caracterizada
por uma maior fluidez e pelo contato frequente com outras localidades (Holanda,
1979 [1948]). O sociólogo Costa Pinto criticou a abordagem antropológica dos
estudos de comunidade que, detendo-se na descrição dos fatores da localidade,
perdiam de vista suas conexões com a região e a estrutura social do país como
um todo (1950:3). Diante do forte apelo empírico desses estudos, Caio Prado
Júnior (1948) chamou a atenção para a ausência de esforços analíticos capazes
de conferir inteligibilidade aos dados coligidos. Guerreiro Ramos (1995[1957]:
106), por seu turno, insistindo sobre a necessidade de teorizações sociológicas
globais acerca da realidade brasileira, aptas a indicar o sentido de suas
transformações e servir de instrumento à construção da Nação, criticou as
visadas descritivas, tópicas, transpostas acriticamente do contexto norte-
americano3.
Em solo brasileiro, as investigações centradas em comunidades foram produzidas
após a Segunda Guerra Mundial, no contexto do desenvolvimento, da Guerra Fria,
da cooperação técnica internacional e das trocas científicas entre diferentes
instituições, tais como o acordo entre o Institute of Inter-American Affairs
(EUA), o Institute of Social Anthropology/Smithsonian Institution e a ELSP; a
parceria entre o Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp) e pesquisadores da
ELSP no âmbito dos estudos de desenvolvimento de comunidade; os convênios entre
o Programa Ponto IV do governo norte-americano, o Serviço Social Rural e a
ELSP, além do programa Columbia University-Estado da Bahia. Essas iniciativas
também foram apoiadas por agências multilaterais, como a Organização das Nações
Unidas (ONU), a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a
Cultura (Unesco) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).
A análise do Projeto do São Francisco permite observar que a investigação da
estrutura social de comunidades rurais passou a ser entendida, ao longo dos
anos 1950, como um requisito necessário à transformação da sociedade
brasileira. O meio rural, locus no qual o tempo passado, peculiar a uma
sociedade em mudança, ainda poderia ser analisado, para que se avaliassem suas
consequências no presente e no futuro, passa a ser investigado sob o prisma de
sua organização social e política, suas tradições culturais e relações de
trabalho (Villas Bôas, 2007:116). Dentre os estudiosos que se debruçaram sobre
o impacto das mudanças no estilo e nas condições de vida das populações
sertanejas, estão Emílio Willems, Antonio Cândido e Maria Isaura Pereira de
Queiroz (Lima, 1999).
No Projeto do Vale ficou patente ainda a noção de utilidade social do
conhecimento científico produzido pelos cientistas sociais. Como salientou
Pierson, as pesquisas poderiam ter desdobramentos de ordem prática, associados
à informação e à orientação das ações em planejamento social. A posição de
Pierson, neste caso, contrasta com sua atuação na ELSP até o final dos anos
1940, quando esteve envolvido não apenas com o treinamento de estudantes em
pesquisa, mas também com a tradução de textos científicos, a editoria da
revista Sociologia e o trabalho de campo em Araçariguama, no interior
paulista4. As pesquisas no Vale do São Francisco revelam, por outro lado, um
Pierson mais atento à importância do trabalho do sociólogo no processo de
desenvolvimento, ainda que sua nova perspectiva tenha sido marcada por tensões.
Tratava-se da preocupação em assegurar que os fins práticos da pesquisa não
influíssem negativamente sobre o desenvolvimento da análise sociológica, que se
pretendia objetiva.
Em O Homem no Vale do São Francisco (1972)5, Pierson aponta algumas diretrizes
básicas destinadas à maior eficácia dos programas de intervenção, tal como o
estímulo à participação ativa da população neste processo. O conhecimento da
vida humana na região em seus diferentes aspectos (cultural, geográfico,
econômico, histórico) era essencial aos esforços de mudança social dirigida
(Pierson, 1972, III:475). Caberá, neste sentido, qualificar a relação
estabelecida entre as ciências sociais e a conjuntura desenvolvimentista da
década de 1950 no Brasil, considerando os estudos de comunidade e a atuação
de Pierson na ELSP importantes elos que permitem articular contexto histórico e
produção intelectual sobre a sociedade brasileira.
Inicialmente, o artigo examinará a origem e os objetivos do programa de
pesquisas no Vale do São Francisco à luz dos planos governamentais esboçados
para o desenvolvimento socioeconômico da região, que desde os anos 1940 vinha
assumindo importância crescente na agenda política nacional, na confluência com
os esforços de cooperação técnica internacional do pós-Segunda Guerra. A
análise da atuação de sociólogos e antropólogos na implementação de políticas
públicas no país evidencia a importância que os temas do planejamento e do
desenvolvimento adquiriram para as ciências sociais no período. Em seguida, são
analisadas as diferentes etapas do Projeto do São Francisco, em especial o
tratamento que Donald Pierson confere ao tema da mudança social e cultural em
sua obra O Homem no Vale do São Francisco. Por fim, o trabalho se concentra nos
aspectos normativos da atuação de Pierson nos anos 1950 e, em particular, em
suas sugestões para o planejamento social.
O PROJETO DO SÃO FRANCISCO EM CONSTRUÇÃO
Donald Pierson lecionava na ELSP há uma década quando formulou o Projeto do
Vale do São Francisco em 19496. Sua atuação na formação de sociólogos-
pesquisadores e na divulgação de uma sociologia científica no Brasil inspirava-
se no padrão de trabalho sociológico em vigor na Universidade de Chicago,
notadamente aquele desenvolvido por William Thomas, Robert Park e Ernest
Burgess, que nutriam particular interesse pelos problemas de desorganização
social decorrentes dos processos de urbanização e industrialização7.
Pierson também havia organizado e dirigido o Departamento de Sociologia e
Antropologia da ELSP, fundado em 1939 e transformado, dois anos depois, em
Divisão de Estudos Pós-Graduados (Pierson, 1987:57). Em 1945, a Divisão, que
permaneceu sob a direção de Pierson até que este deixasse o país nos anos 1950,
passou a contar com um programa de treinamento em pesquisa mediante convênio
com o Institute of Social Anthropology (ISA) (Anuário, 1947:14), unidade do
Departamento de Etnologia Americana da Smithsonian Institution, prestigiada
entidade científica norte-americana conhecida por seu vasto complexo de museus
e centros de pesquisa em ciências naturais e humanas. Fundado em 1943 por
iniciativa do antropólogo Julian Steward, da Universidade da Califórnia, o ISA
tinha por objetivo o estímulo às atividades de ensino e pesquisa em ciências
sociais em países latino-americanos, tendo por base a cooperação entre
pesquisadores norte-americanos e instituições acadêmicas locais. Steward nutria
particular interesse pelo problema da mudança nos padrões culturais de grupos
indígenas8.
As atividades do ISA foram financiadas pelo Departamento de Estado norte-
americano no contexto da política de boa vizinhança do Governo Roosevelt. Os
programas de pesquisa em antropologia da instituição previam a realização de
estudos em comunidades rurais em processo de transformação. Os trabalhos
ficariam disponíveis a planejadores nos vários países em que as pesquisas
fossem realizadas, e proveriam os dados socioculturais de que necessitam
(Foster, 1979 [1967]:205, tradução livre).
No Brasil, os representantes do ISA foram Donald Pierson e o antropólogo
Kalervo Oberg9. A atuação de Pierson na ELSP foi central para o estabelecimento
de atividades financiadas pelo ISA no país e também serviu de modelo à criação
de convênios entre o órgão norte-americano e instituições acadêmicas em países
como México, Peru e Colômbia (Pierson, 1987:42; Price, 2008:112).
O ISA foi um dos patrocinadores do programa de pesquisas no Vale do São
Francisco, cujo objetivo era o estudo detalhado do modo de vida de suas
populações, levando-se em conta as características físico-geográficas da região
e as dimensões históricas, econômicas e socioculturais de suas comunidades
(Pierson, 1972, III:446). Em um documento destinado ao ISA, intitulado Notes
on the São Francisco Preliminary Survey, Pierson chamou a atenção para três
pontos do projeto de pesquisa:
A. Científico:
1. Fornecerá dados preliminares para fins comparativos;
2. Provavelmente estimulará (e talvez venha a ser modelo) para
surveys em outras partes do Brasil;
B. Prático:
1. Fornecerá dados úteis ao planejamento social no vale, por parte
dos funcionários públicos responsáveis por melhorias na saúde,
saneamento, agricultura, educação etc.;
2. Contribuirá no acompanhamento e na avaliação das prováveis
mudanças sociais no futuro próximo, especialmente com o
amadurecimento dos planos do governo federal para desenvolver a
capacidade hidroelétrica do vale;
C. Estratégico:
1. Ao fornecer informações úteis a outras pessoas e organizações no
Brasil, chamará a atenção para a Escola [de Sociologia e Política],
seus objetivos, realizações e possibilidades de colaboração futura;
2. Empregando neste caminho ' num projeto fora do estado de São Paulo
e de interesse nacional ' parte do financiamento recentemente
concedido à Escola pelo governo federal, ajudará a justificar, aos
olhos dos legisladores federais, a subvenção federal à Escola, e
aumentará a probabilidade de sua renovação, e seu aumento, no
futuro10.
Do ponto de vista científico, Pierson tinha como meta reunir dados sobre
importante região do país e, com base em análises comparativas, produzir
conhecimento sobre as diversas comunidades. Segundo o sociólogo, o contato
íntimo com realidades sociais específicas era o único meio possível para
generalizações em ciência. Daí o avanço da profissionalização da sociologia
depender, a seu ver, da ampliação da prática de pesquisa sistemática. Neste
caso, era fundamental garantir recursos para a ELSP, o que remete ao aspecto
estratégico do Projeto do São Francisco. O fornecimento de informações úteis
a órgãos governamentais tornaria o Estado sensível às atividades científicas da
instituição com o respectivo apoio financeiro11.
O Projeto do Vale servia, assim, à legitimação de um padrão de trabalho
sociológico calcado na investigação empírica, conduzida por equipes de
pesquisadores treinados, em face não somente da comunidade de cientistas
sociais que então se formava12, mas também do poder público. No item B do
documento, que tratava do aspecto prático do projeto, Donald Pierson destacou,
seguindo esta linha de raciocínio, a importância da cooperação entre cientistas
sociais e Estado na área do planejamento social.
PESQUISA, PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO NO CICLO DE ESTUDOS DO VALE DO SÃO
FRANCISCO
Nos anos 1940 e 1950, em um contexto de vertiginosas transformações do país, a
ideia de planejamento tornou-se recorrente no discurso de economistas,
industriais e técnicos. A aposta no planejamento, pensado como um conjunto de
ações estratégicas no setor econômico, implicava a intervenção deliberada e
programada do Estado no processo de industrialização, a partir da perspectiva
de que as forças econômicas seriam incapazes de conduzir espontaneamente a
superação do atraso (Bielschowsky, 1995)13.
A possibilidade de exercer controle sobre os processos de mudança com base em
planos de ação também atraiu cientistas sociais como Luiz de Aguiar Costa Pinto
e Florestan Fernandes. Apoiando-se em Mannheim, que punha em relevo o papel do
intelectual na remodelação da sociedade, eles atribuíram a si mesmos a tarefa
de auxiliar na construção de uma ordem moderna no Brasil (Villas Bôas, 2006).
Afirmando que a reflexão sociológica passava necessariamente pelo envolvimento
do investigador com a vida social, Costa Pinto observa que
a forma mais autêntica e mais expressiva dos homens refletirem uma
mudança social na qual estão envolvidos é tomar consciência dela,
tentar compreendê-la e interpretá-la, formular programas de ação que
visem controlá-la e organizar agências específicas por meio das quais
vão ensaiar aquele supremo objetivo de predeterminar o futuro pela
ação no presente (Costa Pinto, 1953:230).
Costa Pinto acreditava que a sociologia era fundamental no debate sobre os
desafios do desenvolvimento no contexto brasileiro, uma vez que era preciso
atentar tanto para as condições sociais do avanço econômico quanto para as suas
implicações sociais, seus efeitos sobre a estrutura de classes (Sorj, 1999:
226). Para Florestan Fernandes, a formulação de uma política de controle e
orientação, na medida do possível, dos processos sociais deveria ter como base
técnicas sociologicamente informadas (Fernandes, 1979:164). No tocante à
centralidade das ciências sociais nas tarefas de planejamento, Donald Pierson
se aproxima dessas perspectivas. As pesquisas no Vale do São Francisco
serviriam à avaliação e ao acompanhamento das mudanças nas relações sociais e
na cultura das comunidades, impulsionadas, por sua vez, pela intervenção
estatal na região.
O interesse econômico-social do governo brasileiro pelo Vale torna-se evidente
no pós-Segunda Guerra. Caberia intervir de forma centralizada e racional na
região com o fito de realizar um bem-sucedido processo de ocupação e
desenvolvimento. Esta iniciativa inspirou-se no Tenessee Valley Authority
(TVA), órgão criado na era Roosevelt, que se tornou fonte inspiradora em
planejamento e administração de áreas rurais pobres. O São Francisco,
tradicionalmente concebido como o rio da integração nacional, era alvo de
iniciativa pioneira de planejamento regional (D'Araújo, 1992). No artigo 29 da
Constituição de 1946, é destacada a importância de se definir o traçado e a
execução de um plano de aproveitamento total das possibilidades econômicas do
rio São Francisco e seus afluentes, no qual [o governo federal] aplicará,
anualmente, quantia não inferior a um por cento de suas rendas tributárias14.
No processo de elaboração do plano foi criada a Comissão do Vale do São
Francisco (CVSF) pela Lei Federal no 541, de 15 de dezembro de 1948, que,
dentre outras questões, estabeleceu:
Art. 7o ' Incumbe à C.V.S.F.:
a) organizar e submeter ao presidente da República, para aprovação do
Congresso Nacional, o plano geral de aproveitamento do Vale do São
Francisco, que vise à regularização do curso de seus rios, melhor
distribuição de suas águas, utilização de seu potencial
hidroelétrico, fomento da indústria e da agricultura, desenvolvimento
da irrigação, modernização de seus transportes, incremento da
imigração e da colonização, assistência à exploração de suas
riquezas.
Art. 9o ' A Comissão poderá colaborar com as associações rurais, já
constituídas ou que se venham a criar, no sentido de introduzir na
agricultura e na pecuária, ou de os aperfeiçoar, os processos mais
rápidos e eficientes.
Art. 10o ' A C.V.S.F., ao organizar suas tabelas de salários,
procurará fixá-los observadas as condições de cada região, a fim de
atenuar quando possíveis as perturbações oriundas da mudança de
atividade das populações locais15.
Na alínea a do documento fica evidenciado que o principal interesse da
administração pública recaía sobre a indústria, a agricultura e a exploração de
recursos naturais. Era fundamental promover incrementos tecnológicos (tais como
irrigação, uso de fertilizantes e maquinário industrial) capazes de acelerar o
desenvolvimento econômico da região em um processo de modernização
especialmente ligado à produção de energia hidrelétrica16. O engenheiro civil
Lucas Lopes17, chefe da equipe dos técnicos responsáveis pelo plano geral,
destacou a importância estratégica, do ponto de vista geopolítico, da
valorização econômica do Vale. O povoamento das margens do São Francisco, a
elevação do padrão de vida das populações ribeirinhas e o aumento do
intercâmbio das regiões Nordeste e Sudeste seriam fundamentais para a
consolidação da unidade nacional (Lopes, 1955:30).
Nota-se ainda a preocupação com alterações na ordem social que transformações
no setor econômico poderiam suscitar. No caso do aproveitamento hidrelétrico do
São Francisco, que exigia o alagamento de extensas áreas para a construção de
barragens, comunidades inteiras seriam deslocadas de suas terras, o que
aumentaria o fluxo migratório para regiões vizinhas e outras áreas do país.
Esse processo poderia desencadear perturbações, conforme expressão da
referida lei, envolvendo tanto conflitos sociais em torno da disputa de terras
como problemas de adaptação da população às novas áreas, decorrentes de
mudanças nos hábitos alimentares, nas atividades de trabalho e nas relações
vicinais (Camelo Filho, 2005:88).
Para os técnicos do Estado, conhecer as populações do Vale do São Francisco era
um passo importante rumo à superação dos entraves de natureza sociocultural ao
desenvolvimento por meio de ações planejadas. Eles concebiam esse processo não
apenas mediante o aumento da produtividade na esfera do trabalho, mas também
pela elevação dos padrões educacionais e sanitários da região.
O PAPEL DAS CIÊNCIAS SOCIAIS NOS PROGRAMAS DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL
Na arena internacional, o discurso sobre o desenvolvimento surgiu no pós-guerra
como um conjunto de representações e práticas no âmbito das relações entre
povos e sociedades. Ele operou a redefinição da situação das ex-colônias e
nações periféricas, que à luz dos padrões civilizacionais dos países afluentes
do mundo ocidental passaram a ser vistas como pobres e subdesenvolvidas
(Escobar, 1996). Tendo como pressuposto a noção de continuidade histórica, de
destino comum entre as diferentes regiões do globo, este discurso definiu como
prioritária a luta contra o atraso daqueles países (Rist, 2002)18.
Um dos alicerces da era do desenvolvimento foi o advento do programa Ponto IV,
criado em 1949, durante o governo Truman. Ele estabelecia o uso dos recursos
técnico-científicos norte-americanos no combate à pobreza nos países
periféricos, na melhoria de seus aspectos econômicos, sociais e sanitários19.
Tratava-se de um amplo empreendimento que, apelando à cooperação internacional,
à assistência técnica, visava à elevação das condições de vida das populações
locais e ao aumento das zonas de influência norte-americana no âmbito da Guerra
Fria, em face do avanço do comunismo (Lleys, 2005; Packard, 1997; Cueto, 2007).
No Brasil, durante o segundo governo Vargas, a emergência de uma perspectiva
desenvolvimentista esteve ligada à crença de que o avanço do país dependia da
construção de uma sociedade capitalista de tipo industrial (Bielschowsky, 1995;
Cepêda, 2012). Visto como ator fundamental neste processo, o Estado brasileiro
passa a adotar nos anos 1950, políticas de desenvolvimento destinadas à
correção das desigualdades e assimetrias regionais do país, valendo-se
principalmente de investimentos em infraestrutura básica (Costa Lima, 2011). No
campo da saúde, o período foi marcado pelo otimismo sanitário, pela crença de
que inovações tecnológicas do setor contribuiriam decisivamente no combate às
doenças endêmicas, alavancando a economia local (Hochman, 2009).
Neste contexto, diferentes programas de desenvolvimento contaram com a
participação de cientistas sociais. Este foi o caso do antropólogo norte-
americano Charles Wagley, da Universidade de Columbia, que foi funcionário do
Sesp durante a Segunda Guerra e participou, nos anos 1940, do projeto de
criação de um centro de pesquisas interdisciplinar de caráter global denominado
Instituto Internacional da Hileia Amazônica sob os auspícios da Unesco (Maio e
Sá, 2000; Maio e Oliveira, 2010). Ele conduziu trabalho de campo no município
de Gurupá. Em conferência proferida no Institute for Brazilian Studies da
Universidade de Vanderbilt, em 1950, Wagley afirmou que os fatores humanos
representados pela sociedade e cultura locais eram os principais entraves ao
aproveitamento eficaz de seus recursos naturais, de grande potencial econômico
(Wagley, 1951). O antropólogo se referia aos compromissos firmados pelo governo
norte-americano, por ocasião do Ponto IV, de fomento aos programas de
desenvolvimento nas regiões atrasadas do globo:
O que nós concebemos como racional e eficiente pode não parecer
desta forma, ou realmente pode não ser desta forma, nos termos de uma
outra cultura. Nem a cultura é transmitida mecanicamente como um
carregamento de mercadorias de uma cultura para outra. O problema de
tornar os benefícios do nosso conhecimento científico disponível
[...] para nações subdesenvolvidas proposto pelo presidente Truman é
mais complexo do que simplesmente torná-lo disponível. Não é
suficiente enviar especialistas para as regiões a fim de recuperar
terras, construir pontes, instalar fábricas, e assim por diante, nem
é suficiente treinar grande número de pessoas da localidade em
questão nos nossos métodos. O novo conhecimento, as novas
ferramentas, e as demais inovações devem se fazer aceitáveis para a
população em seus próprios termos (ibidem:21, tradução livre).
Segundo Wagley, a transferência de tecnologia das nações ricas para as
subdesenvolvidas, um dos objetivos delineados pelo Ponto IV, era geralmente
pensada de forma impositiva, sem que fosse devidamente considerado o problema
da incorporação, pelas populações locais, dos padrões culturais ocidentais.
Investidos de uma visão que privilegiaria sobremaneira a dimensão cultural
(códigos de conduta, sistema de crenças, rituais, costumes, normas, valores,
linguagem), os antropólogos seriam capazes de aquilatar as implicações, em
termos de reações e conflitos, que inovações técnicas em determinado setor da
vida social podiam acarretar em outros. Isto porque, com frequência, a
integração efetiva à cultura local exigia a remodelação dos novos elementos
(idem:27). No caso da Amazônia, a expectativa de Wagley, sensível ao caráter
assimétrico que pautava as relações entre nações centrais e periféricas, era de
que uma nova cultura emergisse, combinando as forças produtivas da ciência e
da tecnologia modernas com os valores humanos positivos e a íntima adaptação ao
ambiente da cultura presente (idem:30).
No início dos anos 1950, coube a Wagley, junto ao antropólogo Thales de Azevedo
(Universidade Federal da Bahia) e ao sociólogo Luiz de Aguiar Costa Pinto
(Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil), a direção do
projeto Columbia University-Estado da Bahia, elaborado durante a gestão de
Anísio Teixeira na Secretaria de Educação e Saúde, no governo de Otávio
Mangabeira (1947-1951). Tendo por objetivo o planejamento de políticas nos
setores educação e saúde, o projeto envolveu a realização de estudos
sociológicos e antropológicos cujo enfoque recaía sobre a dinâmica da mudança
cultural em curso em diferentes localidades (Maio, 2009). A difusão de moderna
tecnologia na região estava ligada à construção de escolas rurais, postos de
higiene e rodovias. Também era crescente a presença do rádio, do avião e do
cinema e, com a instalação da usina hidrelétrica de Paulo Afonso no Baixo Rio
São Francisco, diversas cidades receberiam eletricidade (Wagley et alii, 1950:
9-10).
Os estudos deveriam ser conduzidos com base na cooperação entre administradores
e cientistas sociais no sentido da solução dos problemas sociais (ibidem:7).
Esperava-se que os técnicos em saúde e educação participassem do próprio
desenho das pesquisas, apontando questões de caráter prático que pudessem ser
esclarecidas junto aos cientistas sociais no decorrer da investigação (idem:20-
21). Uma delas dizia respeito às barreiras a serem vencidas em se tratando
das concepções vigentes sobre doença, a fim de que um conceito científico de
medicina pudesse ser incorporado pela população.
A necessidade de se considerar, no processo de intervenção social, os padrões
culturais das populações locais também foi objeto de reflexão de cientistas
sociais em atividade no Sesp. Criado em 1942, a partir do programa de
cooperação técnica do Instituto de Assuntos Interamericanos (IAIA), o Sesp foi
produto da parceria entre o governo brasileiro e o norte-americano como parte
dos esforços de guerra. Após o conflito, o órgão manteve-se em funcionamento
devido ao apelo que suas ações sanitárias tiveram para projetos de
desenvolvimento regional, como aquele levado a cabo no Vale do São Francisco
(Campos, 2006).
A partir de 1953, a Divisão de Educação Sanitária do Sesp contou com uma Seção
de Pesquisa Social, criada e dirigida pelo sociólogo José Arthur Rios. Um dos
objetivos de Rios, ligado ao trabalho de educação rural, foi o de orientar
profissionais de saúde no trato com as populações locais a fim de vencer as
resistências culturais à mudança. Por conhecerem o universo cultural das
populações-alvo dos programas sanitários, os cientistas sociais poderiam atuar
como intérpretes ou mediadores entre aquelas e os profissionais de saúde
(Rios, 1953:2). Eles deveriam alertar o administrador para o problema do ritmo
e da amplitude da mudança que este quer provocar, a fim de que aquilo que se
propõe como um progresso não se transforme em crise (ibidem:3).
O antropólogo canadense Kalervo Oberg, ao comentar os resultados de sua
pesquisa na comunidade de Chonin de Cima (MG), contemplada pelas atividades do
Sesp, atribuiu aos cientistas sociais a tarefa de definir as prioridades no
processo de intervenção. A seu ver, esses profissionais também cumpriam
importante papel no envolvimento da própria comunidade com os programas
governamentais. Isto porque era preciso trabalhar de dentro da comunidade, em
vez de tentar impor de fora serviços de saúde, educação e agricultura (Oberg,
1961:49). O compromisso do cientista social, do pesquisador de comunidade,
com as ações em saúde e educação revelava assim forte conotação política: Os
serviços são necessários, mas seu valor tem que ser real para as comunidades
rurais, e vice-versa: os serviços precisam saber o que o povo rural pode e
deseja aceitar. É precisamente aqui que os pesquisadores de comunidade são
necessários. Trabalhando com o povo, eles podem esclarecer suas necessidades,
suas aspirações e seus problemas (ibidem:49).
Essas experiências na esfera das ciências sociais aplicadas denotam uma face
das pesquisas socioantropológicas nos anos 1940 e 1950 intimamente articulada à
preocupação com a fundamentação científica de políticas públicas e de programas
de desenvolvimento regional. Foi neste contexto, marcado pela aproximação de
cientistas sociais das ações do Estado, que Donald Pierson coordenou a execução
do programa de pesquisas no Vale do São Francisco.
CIENTISTAS SOCIAIS EM CAMPO: AS PESQUISAS NO VALE DO SÃO FRANCISCO
A realização do Projeto do Vale envolveu duas etapas: um survey, capaz de
proporcionar aos pesquisadores uma visão geral sobre a região, e estudos
sistemáticos nas localidades. As atividades iniciais do projeto incluíram: 1) o
exame da literatura disponível sobre o Vale; 2) uma viagem pelo curso do rio
para observar a realidade das comunidades ribeirinhas, entrevistar a população
e coletar dados quantitativos; 3) a elaboração de relatórios sobre as
atividades desenvolvidas (Pierson et alii, 1952:22-23). A duração prevista para
a condução das pesquisas foi de oito meses20.
Donald Pierson e dois de seus ex-alunos da ELSP, Octavio da Costa Eduardo e
Levy Cruz, fizeram a primeira viagem ao Vale do Rio São Francisco entre os
meses de abril e junho de 1950, percorrendo os quase 2.200 km da região - da
nascente até a foz do rio ' em barcos, canoas, caminhões e, algumas vezes, a
pé21. O financiamento do survey foi acordado entre Pierson e Jaime Duarte,
técnico em educação da CVSF, por intermédio de Anísio Teixeira22. Na ocasião, a
CVSF solicitou que os pesquisadores dedicassem especial atenção à educação e à
medicina popular no Vale (Pierson et alii, 1952). Os resultados parciais do
survey reforçaram a importância da pesquisa empírica para a "eficiência do
planejamento social" (ibidem:24).
O material coligido serviu ainda de base à seleção das comunidades que seriam
alvo das investigações em profundidade. Elas foram escolhidas em pares23 que
deveriam refletir a diversidade da região em termos físicos (um par próximo da
nascente do rio, outro na região das corredeiras, outro, ainda, próximo da
foz); econômicos (uma área predominantemente agrícola, outra pecuarista ou
comercial); e socioculturais (variações do contato com os centros urbanos)
(Pierson, 1972, I:57-103)24.
Na elaboração de seu programa de pesquisas, Pierson foi influenciado por Robert
Park, Ernest Burgess e Robert Redfield (Pierson, 1987:33-34). A marca da Escola
de Chicago é evidenciada em carta a Paulo Peltier de Queiroz, diretor-
superintendente da CVSF. Neste documento, que resume sua agenda de trabalho, o
sociólogo se refere à luta pela existência', e suas consequências com
referência às formas culturais e à migração; ao papel do isolamento e do
contato na organização social, das relações entre pessoas famílias, raças e
nacionalidades e das formas e grau de intensidade do conflito e acomodação,
destacando, ainda, o problema relativo ao caráter, à dimensão e à intensidade
da mudança social que começa a aparecer em certas áreas do vale25. Estes temas
eram caros à sociologia de Park e Burguess, a exemplo do processo ecológico de
conformação das comunidades e da dinâmica das interações de grupos de
diferentes matrizes étnicas e culturais26.
O grau de isolamento e contato das comunidades locais em relação aos
centros urbanos constitui uma das ideias diretrizes do estudo. A principal
hipótese de pesquisa de Pierson indica que quanto mais isolada uma comunidade,
menor seria a importância da mudança social em seu interior e mais evidente a
força da tradição. Assim, o curso e o grau da mudança que se operava em cada
comunidade podiam ser avaliados com base na identificação do ponto em que ela
se situava no continuum rural-urbano, ou ainda, na medida em que sua
organização social se aproximava ou se afastava de um dos extremos do gradiente
cultura de folk-civilização, par conceitual que remete aos estudos do
antropólogo Robert Redfield na Península de Yucatã, no México27.
Segundo Redfield, o conceito de cultura de folk envolvia a identificação de
estruturas sociais homogêneas, de base rural, em que a família e o parentesco
são os principais determinantes dos laços de solidariedade social entre os
indivíduos. Seu sistema de crenças, atitudes e sentimentos são de natureza
mágico-religiosa. O conceito de civilização, por seu turno, é construído em
oposição àquele e denota estrutura social mais heterogênea e diferenciada, com
predomínio de valores impessoais, do interesse e da conveniência na vida
associativa dos indivíduos. Na cultura de folk, de natureza estável, o
indivíduo é refém da tradição, que consegue se perpetuar ao longo do tempo e
das gerações na medida em que se mantém mais ou menos isolada de outras
sociedades. Em contraposição, a civilização seria melhor exemplificada pelas
grandes metrópoles, marcadas pelo contato entre diferentes povos e culturas e
por constantes transformações sociais (Redfield, 1949).
Estruturado em torno dessas ideias e problemas, o Projeto do São Francisco foi
apresentado ao Departamento de Produção e Assistência da CVSF em 30 de dezembro
de 1950, após a realização do survey. Ao encaminhar o Projeto para apreciação
do presidente Eurico Gaspar Dutra, a diretoria da CVSF apontou a necessidade de
que órgãos públicos e privados conhecessem os processos sociais de manutenção,
transmissão e desenvolvimento da cultura de uma área tão estrategicamente
importante para o país como o Vale28. O documento considerava o Projeto a
base indispensável em que se alicerçará a política governamental de assistência
às populações e amparo à produção, reafirmando, desse modo, a crença dos
técnicos quanto ao valor das ciências sociais na orientação das intervenções
(ibidem). Embora tenha inicialmente lançado mão de políticas econômicas de
feição liberal, o Governo Dutra caracterizou-se por iniciativas no âmbito do
planejamento regional, além de ter esboçado um plano nacional de investimentos
públicos nos setores saúde, alimentação, transporte e energia (SALTE)
(Skidmore, 1976).
Ao patrocinar o programa de pesquisas capitaneado por Pierson, a CVSF estava a
par de experiências internacionais no campo das ciências sociais aplicadas, a
exemplo do estudo no Haiti realizado pelo antropólogo Alfred Métraux,
funcionário do Department of Social Affairs da ONU (Maio, 1997), inquérito
sociológico e ecológico que serviria de anteparo e apoio de qualquer ação
governamental29. A pesquisa de Métraux (1948) integrou um projeto da Unesco
levado a cabo em 1948, com a colaboração da OMS, da FAO e do governo
haitiano30, visando à elevação do padrão de vida no Vale do Marbial, área rural
com cerca de 30 mil habitantes, mediante técnicas modernas de educação
fundamental31. Foi a primeira iniciativa de assistência técnica da ONU em uma
área subdesenvolvida (Amrith e Sluga, 2008:261-262). O conhecimento da CVSF
acerca de pesquisas como esta, na interface com projetos de desenvolvimento,
indica o impacto da atuação de agências internacionais na modelagem de projetos
locais.
O HOMEM NO VALE DO SÃO FRANCISCO
A segunda etapa do Projeto do Vale do São Francisco foi um empreendimento
coletivo de estudos nas comunidades, em que participaram 21 pesquisadores e
assistentes de pesquisa, divididos em cinco equipes (Pierson, 1972, I:7-12).
Cada uma permaneceu no Vale de quatro a seis meses. O estudo se estendeu de
janeiro de 1952 a outubro de 1953. Estes dados revelam a magnitude do programa
de pesquisas coordenado por Pierson. Além de ter sido a base de diversas
monografias, o material produzido foi utilizado na elaboração d'O Homem no Vale
do São Francisco (1972), obra dividida em três volumes que contempla todas as
comunidades estudadas e revela o esforço de Pierson em compreender o processo
de mudança social em curso na região32.
No primeiro volume, Pierson descreve os aspectos físicos da região: a bacia
hidrográfica do rio São Francisco, formação geológica, clima, vegetação e
fauna. É o momento da narrativa da chegada do sociólogo às diversas localidades
e das dificuldades de transporte para alcançá-las (Pierson, 1972, I:59-94).
Também apresenta informações sobre a história do Vale, desde a chegada dos
europeus no início do século XVI até as primeiras décadas do século XX (ibidem:
223-224). O contato entre populações indígenas, colonizadores europeus e
africanos escravizados estaria na origem de um conjunto de crenças e hábitos
alimentares e de saúde, padrões de comportamento e técnicas de trabalho
constitutivo das tradições populares do presente33.
No segundo volume são abordadas as bases ecológicas da vida social no Vale bem
como seu perfil demográfico34. As atividades econômicas predominantes ligavam-
se à pecuária, à agricultura de subsistência (arroz, mandioca), à caça e à
pesca (Pierson, 1972, II: 293-295). A maioria da população morava em casas de
pau-a-pique, divididas em média em dois cômodos com pouco mobiliário (ibidem:
97-121).
No terceiro volume, Pierson trata da vida associativa e do universo cultural
das comunidades a partir de questões como repertório de etiquetas sociais,
laços de parentesco, rituais, crenças morais e religiosas e comportamento
político, além do processo de socialização do indivíduo, de assunção de papeis
sociais na comunidade. As práticas socialmente valorizadas tendiam a reforçar a
solidariedade em torno do grupo familiar, unidade social básica em todo o Vale,
à qual se somavam as relações vicinais e de compadrio, que influíam
sobremaneira no comportamento dos indivíduos (Pierson, 1972, III:5-27).
Percorrendo as diferentes dimensões da vida humana no Vale, o estudo de Pierson
detém-se na análise da mudança social. Sua hipótese explicativa relaciona-a ao
rompimento do isolamento geográfico e cultural das comunidades, à sua gradativa
inserção no mundo urbano. Os resultados deste processo, que convergiam para a
formação de uma sociedade moderna, não sendo completamente observados no
presente, eram apresentados enquanto as tendências mais prováveis de
desenvolvimento das comunidades. Pierson destaca ainda o ritmo lento da mudança
e os ruídos que ocasionavam, relativos aos fenômenos da resistência cultural e
da desorganização social das comunidades.
As transformações eram perceptíveis na estrutura socioeconômica, até então
predominantemente rural, autossuficiente e pouco diversificada. Na comunidade
de Cerrado, sob a influência do centro urbano de Belo Horizonte, novos
estabelecimentos comerciais começaram a surgir, responsáveis pela disseminação
de artigos manufaturados em substituição aos produtos artesanais utilizados
pela população, especialmente os têxteis. O crescimento das transações
comerciais gerava maior especialização das atividades ocupacionais, modificando
o padrão dos vínculos empregatícios (especialmente com o afrouxamento dos laços
tradicionais entre senhores de terra e trabalhadores rurais) e tornando o
dinheiro item cada vez mais importante na localidade (Pierson, 1972, III:461-
462). Embora predominassem empregos agropecuários, crescia o volume de
ocupações urbanas: médicos, advogados, funcionários públicos, professores,
motoristas de caminhão etc. (Pierson, 1972:293-338).
A construção da hidrelétrica de Paulo Afonso e o aumento da distribuição de
energia elétrica permitiram o uso de novas tecnologias que influíram
diretamente sobre a produtividade econômica, como o sistema de irrigação com
bombas d"água e o arado mecânico35. O poder público vinha ainda
construindo estradas na região e estendendo o serviço aéreo a várias cidades. A
presença crescente de caminhões desempenhava importante papel não apenas no
transporte de cargas e pessoas, mas também na disseminação de notícias, como
meio de comunicação entre as localidades mais afastadas e os centros urbanos
(Pierson, 1972, II:583-589). O advento do rádio abria um novo mundo a um
crescente número de pessoas nas cidades e em maiores fazendas, pessoas que
estiveram outrora isoladas em graus variados não apenas geográfica, mas
costumeira e psiquicamente (ibidem:459).
A avaliação do ritmo da mudança sociocultural é patente nos capítulos sobre
higiene, doenças e práticas de cura. Pierson indica que, embora os serviços de
saneamento básico fossem precários, a CVSF vinha trabalhando para a extensão do
fornecimento de água encanada a comunidades ribeirinhas (idem:143-155). Também
era visível a atuação do Serviço Especial de Saúde Pública, com a instalação de
postos de saúde, e do Serviço Nacional de Malária, responsável pelas campanhas
de dedetização36.
Nos cuidados com o corpo, as práticas de folk predominavam, com o uso chás,
unguentos, infusões, óleos e ceras, por vezes acompanhadas de benzeduras,
orações, amuletos e dietas. Crescia, no entanto, a influência do sistema de
ideias, atitudes, práticas e especialistas de origem urbana e mais sofisticada
do mundo externo (Pierson, 1972, III:452). Era cada vez mais frequente a
utilização de soro antiofídico em substituição aos serviços dos curadores-de-
cobra (ibidem:196), e algum grau de ceticismo já se fazia notar em relação ao
poder dos curandeiros (idem:258). Nas localidades menos isoladas, a população
mostrara entusiasmo pelas ações governamentais de combate ao mosquito
transmissor da malária37 (Pierson, 1972, II: 264-265), enquanto os habitantes
mais bem informados buscavam aproveitar os recursos farmacêuticos disponíveis
nos postos de saúde locais, tais como vermífugos e antibióticos, por vezes
utilizados indiscriminadamente (ibidem:266-268).
O grau de incorporação de concepções científicas em saúde variava de acordo com
fatores como local de residência, classe social e família. Elas coexistiam, no
imaginário social, de modo conflitante com concepções tradicionais. A
resistência cultural à mudança era perceptível nas atitudes de reserva, e por
vezes de hostilidade, para com os profissionais de saúde. Um pescador afirmou
que não se contentava apenas com os médicos locais. Tendo acumulado
experiências malsucedidas de tratamento, afirmava que eles frequentemente não
[sabiam] o que receitar (idem:270). A resistência era maior no caso de
pacientes do sexo feminino. O exame médico, em sua maioria a cargo de homens,
esbarrava no tabu da exposição do corpo da mulher fora do contexto conjugal
(idem:274). Tais problemas, decorrentes de uma falta de uma tradição de
médicos na cultura local, agravam-se pela incompreensão destes, pouco
sensíveis à influência do sistema tradicional de crenças sobre o comportamento
dos indivíduos (idem:269)38.
A análise do processo de educação formal também lança luz sobre o tema das
resistências39. A relação entre escola e comunidade era permeada por tensões:
esta não compreendia os propósitos do ensino ou não enxergava nele qualquer
valor utilitário para garantir o sucesso do indivíduo na luta pela vida
(Pierson, 1972, III:336). A eficácia do processo educacional, garantindo a
frequência escolar, dependia de sua maior ou menor integração ao restante da
vida comunitária. À escola faltava o respaldo de todos os aspectos da cultura
local e, em especial, [das] atitudes de pessoas da comunidade que gozam de
prestígio aos olhos da criança (ibidem:394)40.
A despeito da influência decisiva da família na vida do indivíduo, seu controle
social vinha se enfraquecendo com o passar do tempo (idem:29-35). Era o que se
observava na esfera política, com a diminuição da força do parentesco na
obtenção e manutenção do poder local. O declínio do papel político do grande
fazendeiro seria concomitante à emergência de novas lideranças entre
professores e médicos formados nas grandes cidades, cujo comportamento político
gozava de mais independência frente aos antigos vínculos familiares. A redução
da violência e da coerção típicas do coronelismo significava mudanças em
direção a uma ordem mais democrática (idem:288-290). Isto é, a lealdade [dos
novos líderes] à cidade e à área circundante começa[va] a suplantar a lealdade
ao grupo de parentesco e ao partido, abrindo espaço para a efetiva
participação política de eleitores menos facilmente controlados, inclusive
entre as classes baixas (idem:290-291).
Aos olhos de Pierson, a mudança social se insinuava lentamente na diminuição da
homogeneidade da estrutura socioeconômica, acompanhada, no plano dos valores,
pela adoção do individualismo; pela contestação do tradicional orgulho de
família em nome da igualdade e pelo ceticismo crescente diante das crenças
mágicas. Tratava-se da gradativa substituição de uma ordem social
tradicionalmente rural, pastoril, agrícola, e orientada em termos de
hierarquia, por outra, baseada em princípios mais igualitários, com maior
diferenciação econômica, política e sociológica (idem:462). Para o sociólogo,
o problema básico prático de natureza sociológica ou socioantropológica no
Vale dizia respeito à incorporação apenas parcial dos padrões culturais
modernos por parte da população, principalmente pelos setores populares (idem:
465). O isolamento explicava o atraso das comunidades, em cujo interior ainda
vigiam elementos culturais parcial ou inteiramente derivados de fontes
medievais européias, ameríndias, africanas [...] e transmitidas de geração a
geração por habitantes não alfabetizados (idem).
A efetiva transformação social dependia de um processo amplo, que pusesse em
movimento as diferentes partes constitutivas da comunidade. Tomando a sociedade
como um todo orgânico, Pierson afirma que a alteração que se desejava produzir
nos campos da educação e da saúde tornava imperativa a consideração dos demais
aspectos da vida comunitária, sob o risco de a força das tradições sobrepujar
as novas práticas, crenças e instituições que começavam a ser introduzidas
(idem:472).
A mudança detinha igualmente um sentido, apontando para a conformação gradativa
das comunidades ao padrão societário e político dos centros urbanos ou, no
dizer de Pierson, aproximando-se da ideia de civilização. Ainda que não
utilize o termo desenvolvimento, a visão de Pierson sobre a integração da
população a uma ordem tecnológica e cultural do século XX não se restringiu a
considerações sobre o incremento da atividade econômica41. É significativo que
o sociólogo tenha considerado indícios de mudança tanto as alterações nas
relações políticas locais em direção a uma ordem democrática, quanto a
diminuição do controle social familiar sobre o comportamento individual.
Ainda que afirme o caráter tipo-ideal de seus conceitos (Pierson, 1941), o
autor por vezes se torna refém dos esquemas abstratos ao analisar a mudança.
Unidirecional, o curso histórico parece conduzir as comunidades inexoravelmente
à adoção dos traços tidos como definidores da sociedade moderna42. Por mais que
se constate a existência de tensões neste processo, provenientes do sistema
cultural, o aparato conceitual de Pierson, tomado de empréstimo a Redfield, não
será problematizado à luz do fenômeno da permanência ou reatualização do
atraso. A mudança acaba sendo abordada em uma chave dualista ou disjuntiva, com
o moderno implicando a substituição do tradicional43.
Não obstante o motor da mudança na região ser exógeno e os centros urbanos,
seus principais irradiadores, a intervenção governamental não seria capaz, por
si só, de romper a inércia cultural. É neste ponto que Pierson defende a
centralidade da pesquisa socioantropológica. Ao conferir inteligibilidade ao
impacto da mudança vinda de fora (Pierson, 1972, III:461), ela poderia
orientar os agentes da intervenção na superação das resistências da comunidade,
conquistando-lhe a adesão. As ciências sociais se tornavam uma das forças a
serviço da modernização.
DONALD PIERSON E A MUDANÇA SOCIAL PROVOCADA
O Projeto do São Francisco representa uma inflexão no pensamento de Pierson,
que passa a articular rigor científico e comprometimento social, compartilhando
assim o otimismo sociológico vigente nos anos 1950, da crença dos efeitos
positivos do desenvolvimento sobre a sociedade brasileira, tais como a elevação
dos padrões de vida e de consumo e a inserção de amplos setores do campo ao
mundo dos direitos.
É possível acompanhar tal mudança analisando-se investigações anteriores do
sociólogo. No caso da pesquisa na comunidade rural de Cruz das Almas (nome
fictício para Araçariguama, cidade do interior paulista), realizada entre 1946
e 1947, a ênfase de Pierson recaiu sobre a formação de sociólogos-pesquisadores
e a divulgação da sociologia moderna no país. No prefácio à edição norte-
americana do trabalho (1966 [1951]:xiv), ele destaca ainda o interesse
científico que o Brasil despertava em função de sua diversidade cultural e
extensão territorial.
Pierson buscou examinar as bases ecológicas e a vida sociocultural da
comunidade, marcada pelo predomínio da pequena propriedade rural. Embora tenha
analisado as mudanças estruturais ocorridas em seu interior, e que apontavam
para a diminuição da distância entre as classes sociais, o sociólogo não
relacionou o estudo à possibilidade de aplicação. Com efeito, nesse caso, um
dos primeiros estudos de comunidade conduzidos no Brasil, estava em jogo a
afirmação de um padrão de afazeres sociológicos calcado no trabalho de campo,
conduzido por pessoal treinado, que buscava se contrapor à reflexão social
considerada diletante, associada ao ensaísmo44.
Nesse momento, portanto, era importante diferenciar a função do cientista
social em relação aos demais atores que se dedicavam ao estudo ou à intervenção
na vida social, como o pensador social, o filósofo, o historiador, o moralista
e o assistente social (ver Corrêa, 1987; Limongi, 1989; Oliveira, 1995; Lopes
2012). Em Teoria e Pesquisa em Sociologia (1962 [1945]), livro que reuniu suas
aulas e palestras durante a primeira metade da década de 1940, Pierson se
manifestou acerca da aplicação do conhecimento sociológico:
É pena, pois, que os sociólogos e outros cientistas sociais estejam
atualmente sob a pressão de alguns governos, aliás, bem
intencionados, para resolverem, desde já, seus problemas práticos.
[...] Devemos [...] admitir francamente que ainda não estamos em
condições de dar, de maneira certa, todos os conselhos que se
desejam. A prova disto é que dezenas de esforços sinceros,
inteligentes e bem intencionados, para tratar de problemas sociais,
não só falharam, parcial ou completamente, mas também foram até agora
impotentes para impedir o desenvolvimento, sempre para pior, de
cada um destes problemas. Como ciência, a nossa disciplina é ainda
jovem e imatura (ibidem:45-46).
Pierson registra a demanda pela aplicabilidade do conhecimento na solução de
problemas sociais, como os decorrentes do crescimento urbano, e afirma, em tom
pessimista, que não cabia ao sociólogo o envolvimento direto com questões de
natureza prática em função do estágio incipiente de institucionalização das
ciências sociais. Neste ponto, Pierson se aproximava das concepções de ciência
de sociólogos norte-americanos ligados à Universidade de Chicago, como William
Thomas e Robert Park (Lopes, 2012).
Em contrapartida, os argumentos de Pierson acerca da relevância do Projeto do
São Francisco indicam que sua perspectiva sofrera mudanças: afinado com as
transformações econômico-sociais em curso nos anos 1950, ele confere maior
importância à utilidade da pesquisa para governos e agências promotoras do
desenvolvimento, para além dos efeitos positivos de tais projetos no processo
de legitimação do modelo de análise social fundado na pesquisa empírica. A
inflexão de Pierson se traduziu pela redefinição do papel do sociólogo, não
mais pensado apenas como cientista-investigador, mas também como colaborador
dos agentes da intervenção social, provendo dados e orientando-lhes a ação.
Em carta a Jaime Duarte, técnico em educação da CVSF, por ocasião das
negociações envolvendo o financiamento das pesquisas no Vale, Pierson
manifestou sua convicção acerca da absoluta necessidade da realização de
estudos prolongados e pormenorizados como fundamento para um eficaz
planejamento social45. Contudo, as atividades do pesquisador e do planejador
social não deviam se confundir. Isto porque [mudava-se] de tal forma [o] ponto
de vista [do sociólogo] que não mais [podia] ele ter aquela objetividade e
independência indispensáveis para a pesquisa realista e frutífera (ibidem:1,
ênfase nossa). Cioso da autonomia do cientista na determinação do escopo de
investigação, Pierson ponderou que as pesquisas, embora financiadas pela CVSF,
seriam realizadas sob [sua] própria orientação e responsabilidade, abrangendo
os problemas a serem estudados, os lugares mais indicados para as pesquisas
futuras e tudo mais que a eles se relacionar. Quanto à colaboração, a equipe
de pesquisadores sob sua direção tudo [faria] para atender aos pedidos da
[CVSF] no que diz respeito a orientações sobre planejamento. O nosso principal
interesse, tomo a liberdade de frisar novamente, é o de estudar a vida social
das populações [da região] (ibidem:2).
Tais considerações normativas sobre o comportamento do sociólogo aproximam-se
de concepções mertonianas acerca dos valores e sentimentos que constituiriam o
ethos científico. Socializados no universo da ciência, os cientistas estariam
atentos à ingerência de critérios extracientíficos na produção de conhecimento
(Merton, 1973). Por outro lado, Pierson argumentava pragmaticamente a favor da
compatibilização entre as dimensões básica e aplicada da sociologia. A pesquisa
seria frutífera na medida em que o cientista conseguisse, durante sua
realização, desembaraçar-se dos imperativos práticos em jogo46.
Distante da figura do intelectual público ou militante, a exemplo de ex-alunos
como Darcy Ribeiro (Bomeny, 2001:188), e mesmo de uma sociologia de intervenção
de feição mannheimiana, ao modo de Guerreiro Ramos47 (Werneck Vianna, 1997),
Pierson assume a postura de um sociólogo pragmático, que pretende se manter nos
limites do rigorosamente observável, preservando o sentido realista da
aplicabilidade do conhecimento científico do social (Vila Nova, 1998:142).
Trata-se de um sociólogo que, não tomando para si a tarefa de formular amplos
projetos de transformação, aposta em mudanças graduais na ordem social, nos
estreitos marcos institucionais da democracia liberal e longe de qualquer
procedimento radical de intervenção, visto como sinônimo de totalitarismo
(Pierson et alii, 1952:30).
As tensões presentes no perfil de Pierson ' como sociólogo que ora investe na
conciliação dos interesses das ciências básica e aplicada, ora se posiciona
normativamente frente a modelos de intervenção social ' fazem parte da nova
condição do sociólogo na era dos grandes projetos coletivos dos anos 1950, sob
o signo da mudança social provocada, nas palavras de Emilio Willems (1943),
marca de distinção do tempo dos sociólogos. Esta expressão-síntese, como bem
analisa Villas Bôas (2006:13), revelava a liberdade de agir dentro de um plano
elaborado de antemão. Traduzia o desejo de intervir na espontaneidade dos
acontecimentos para mudar a feição das instituições, das mentalidades, da
distribuição de poder, impondo regularidade nova à conduta cotidiana de homens
e mulheres.
O Projeto do São Francisco é representativo da convergência entre o processo de
afirmação das ciências sociais como referencial investigativo e explicativo da
sociedade brasileira e a agenda desenvolvimentista da década de 1950. Neste
contexto, Pierson empenhou-se na tradução de demandas sociais em desafios
científicos que, por sua vez, viabilizariam as mudanças julgadas necessárias.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este texto analisou as relações entre ciências sociais e desenvolvimento a
partir do Programa de Pesquisas do Vale do Rio São Francisco. As investigações
tiveram lugar durante o segundo Governo Vargas, período em que debates sobre
desenvolvimento, planejamento, mudança provocada e resistências à mudança
tornaram-se obrigatórios. A descrição minuciosa da ecologia e da vida social do
Vale do São Francisco associava-se a um programa de desenvolvimento regional
patrocinado pela CVSF. Os vínculos entre produção de conhecimento e projetos de
modernização são um indicador da estreita cooperação entre cientistas sociais e
administradores na era do desenvolvimento.
Na parte final da trilogia O Homem do Vale do São Francisco, há um apêndice
intitulado Algumas Sugestões sobre o Planejamento Social. Pierson demonstra
certa cautela ao abordar o papel do sociólogo, sobretudo quando procura trazer
soluções para os problemas existentes na região do Vale, declarando que não
caberia ao cientista social definir normas para a sociedade. Ele não deixa de
ponderar, contudo, que talvez fosse útil sugerir [...] algumas diretrizes'
para o planejamento social em geral (Pierson, 1972, III:471).
Pierson apresenta, então, um extenso catálogo de sugestões na esfera da
engenharia social, conjunto de iniciativas geralmente estatais que pretendem
mudar atitudes e comportamentos da sociedade. A seu ver, a introdução
deliberada da mudança social era de difícil consecução devido à força da
tradição (ibidem:472-473). O sociólogo chama a atenção para a dimensão humana
implicada no processo de intervenção social, afirmando a necessidade de
conhecer bem as pessoas que se procura ajudar, e entender-lhes os desejos,
esperanças, aspirações e motivação, bem como a disposição, e a capacidade, de
granjear-lhes não somente o apoio, mas também a ajuda ativa ao novo projeto
(idem:473). O Projeto do Vale estava em sintonia com uma vertente pragmática
dos chamados estudos de comunidade, que concebiam estas investigações como uma
contribuição ao conhecimento mais aprofundado e mais minucioso da realidade
nacional, permit[indo] uma eficiência maior ao trabalho de todos aqueles
técnicos que, pelo caráter de suas atividades, são, ao mesmo tempo, agentes de
mudança social e cultural: o agrônomo, o médico, especialmente o sanitarista, o
educador e outros (Nogueira, 1955:98).
Contudo, as pesquisas do Vale foram além. A inflexão de Pierson se aproxima de
uma série de propostas identificadas com o denominado desenvolvimento/
organização de comunidade. O conceito de desenvolvimento de comunidade tem
sua origem na tradição anglo-saxã do entreguerras, e se desdobra no pós-Segunda
Guerra na implementação do Ponto IV. Trata-se de uma modalidade de intervenção
social baseada no trabalho de organização dos indivíduos em programas de
combate ao analfabetismo, de melhoria das condições de saúde, modernização da
agricultura, abastecimento d'água etc. Estas ações em comunidades, realizadas
por agências locais, nacionais e internacionais, deveriam respeitar as
especificidades culturais de suas populações e principais lideranças, criando
condições para o êxito das mudanças almejadas (Campos, 2006; Maio e Lopes,
2012).
Ao analisar o envolvimento do cientista social em projetos de planejamento
social, Pierson inspirou-se na experiência de um grupo de professores e alunos
de um curso de Pós-Graduação em Saúde Pública da Universidade de Berkeley.
Parte significativa dos participantes do curso tinha experiência de pesquisa,
administração ou magistério em saúde pública em vários países, incluindo
Brasil, Chile, Peru, México, El Salvador, Irã, Índia, Ceilão, China e Estados
Unidos. O coordenador do curso foi o antropólogo George Foster, ex-diretor do
ISA, e mais tarde, colaborador, durante vários anos, na avaliação de programas
de saúde pública da Organização Mundial de Saúde (OMS), especialmente na
América Latina.
O grupo reuniu-se ao longo de 12 semanas com o objetivo de analisar a eficácia
do planejamento social. O resultado foi a elaboração de uma série de sugestões
que norteariam a introdução de programas envolvendo alterações do quadro
social. Em princípio, destacou-se a necessidade de estudo minucioso da
comunidade antes do desenvolvimento do programa. Quanto às medidas de ordem
prática destinadas à implementação de projetos visando à mudança social
orientada, caberia: 1) Conhecer a cultura na qual será introduzida a mudança;
2) Aferir as potencialidades da comunidade-alvo com base em conhecimento
pragmático da realidade; 3) Iniciar o planejamento social com ações tópicas,
moleculares, com resultados viáveis a curto prazo; 4) Definir um programa em
que as partes se complementem, procurando não correr o risco de fragmentação,
de iniciativas isoladas; 5) Escolher cuidadosamente a comunidade a ser objeto
da mudança; 6) Estar atento à seleção das pessoas que estarão liderando o
processo de mudança; 7) Valer-se da natureza pragmática de todo indivíduo,
mobilizando os habitantes da comunidade a partir dos próprios fins práticos que
perseguem; 8) Contar sempre que possível com a liderança local; 9) Não medir
esforços para impedir que membros da comunidade se oponham ao projeto (Pierson,
1972, III:474-475).
A lista de sugestões do grupo de Berkeley teve por base as experiências
malsucedidas resultantes de tensões, conflitos, resistências culturais de
populações rurais à medicina científica ocidental. O Brasil e outros países
haviam acumulado fracassos por falta de conhecimento e reconhecimento das
práticas terapêuticas tradicionais e das formas locais de organização
comunitária, o que gerava dificuldades na relação entre dirigentes, equipes e
comunidades (Foster et alii, 1951; Paul, 1955). O Sesp colecionou alguns
insucessos, como o experimento social do pequeno município mineiro de Chonin de
Cima, relatada pelo antropólogo do Sesp e da ELSP Kalervo Oberg no início dos
anos 195048, ou no caso de Aimorés, no Espírito Santo (Fontenelle, 1959). No
mesmo período, coletâneas foram publicadas nos EUA analisando experiências em
África, Ásia e América Latina (Paul, 1955).
Ao lançar mão de sugestões para o desenvolvimento/organização de comunidades,
que enfatiza o envolvimento da população local no processo de mudança, Pierson
buscava contrapor-se às ações em planejamento vinculadas aos sistemas
totalitários, a exemplo da experiência nazista na Segunda Guerra (Pierson,
1972, III:471). No contexto de Guerra Fria, Pierson foi categórico ao afirmar
que as soluções de cunho autoritário aos problemas sociais, violentamente
impostas como as únicas possíveis, não deviam ser toleradas por povos que
vivem segundo princípios democráticos (ibidem:472). Ademais, em face da
tenacidade da tradição, a força nos assuntos humanos tinha efeitos
passageiros (idem). Isto é, o valor do desenvolvimento/organização de
comunidades em termos de sua eficácia era indissociável das virtudes políticas
que deveriam inspirá-lo: o pluralismo e a participação associados às
democracias ocidentais. Deste modo, Pierson revela seu compromisso não apenas
com a mudança social no país, mas também com os caminhos políticos que deveriam
efetivá-la.
O exame do Projeto do Vale do São Francisco permitiu abordar as relações entre
ciências sociais e desenvolvimento no Brasil. Mantidas suas especificidades, a
posição de Pierson neste momento, ao sublinhar a participação do sociólogo-
pesquisador no processo de mudança provocada, apresenta afinidades com a de
outros cientistas sociais, tais como Oracy Nogueira, Emílio Willems, Luiz de
Aguiar Costa Pinto, Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos. Na era do
desenvolvimento, esses profissionais não perderam de vista a possibilidade de
instrumentalizar o conhecimento socioantropológico a favor das mudanças em
curso.
NOTAS
1. O emprego do termo estudos de comunidade por vezes sugere uma
homogeneidade inexistente entre as pesquisas realizadas (Guidi,1962). Ele
engloba diferentes iniciativas que diferem em seus objetivos, técnicas de
investigação e alcance analítico, compreendendo, dentre outros, trabalhos
etnográficos, de organização de comunidade e de caráter histórico. Oscilam
entre a concepção da pesquisa de comunidade como método e como objeto de
estudo.
2. Para uma apreciação da fortuna crítica sobre os estudos de comunidade, ver
Oliveira (2010); Jackson (2009); Peixoto e Simões (2003); Consorte (1996).
3. Analisando pesquisas de Emílio Willems, Lima (1999:177) observa que o escopo
da proposta dos estudos de comunidade era maior do que sugere a crítica de
Guerreiro Ramos, uma vez que eles aspiravam constituir-se em bases de
pedagogia de transformação do caboclo, do imigrante acaboclado' e de outros
atores sociais, de ruptura com o multissecular processo de transmissão
cultural.
4. Pierson promoveu, ainda, o contato entre indivíduos de diferentes regiões do
país, no esforço de criar uma rede de interessados na investigação sociológica,
além de ter desempenhado papel central na concessão de bolsas de estudo para
alunos brasileiros nos Estados Unidos. Ver Pierson (1987).
5. O livro de Pierson foi precedido por uma série de estudos levados a cabo por
pesquisadores da ELSP sob sua orientação no âmbito do Projeto do Vale:
Medicina Rústica, publicado em 1959, e Populações Ribeirinhas do Baixo São
Francisco, publicado em 1961, ambos de Alceu Maynard Araújo; Potengi:
Encruzilhada no Vale do São Francisco, de Alfonso Trujillo Ferrari (1960);
Cerrado e Retiro: Cidade e Fazenda no Alto São Francisco, de Esdras Borges
Costa (1960); Xique-Xique e Marrecas: Duas Comunidades do Médio São Francisco,
de Fernando Altenfelder Silva (1961); e Análise Comparativa de Alguns Aspectos
da Estrutura Social de duas Comunidades do Vale do São Francisco, apresentada
por Altenfelder como tese de Livre-Docência junto à Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras da Universidade do Paraná em 1955; e outros dois estudos que
não chegaram a ser publicados: Rio Rico e os Gerais: Estudo de Dois Grupos
Humanos no Platô Ocidental do Vale do São Francisco, de Levy Cruz; e o estudo
de Cabrobó, coordenado por Octavio da Costa Eduardo.
6. Em carta a George Foster, Pierson fornece importante indício de que já havia
vislumbrado a possibilidade de pesquisas sobre mudança social e cultural com
base no interesse do governo brasileiro em projetos de desenvolvimento nas
regiões do Vale do Rio São Francisco e do Vale do Rio Doce e na construção da
usina siderúrgica de Volta Redonda. Carta de Pierson a George Foster, 21/9/
1948, p. 3. Records of Institute of Social Anthropology Smithsonian Institution
1942-1952, National Anthropological Archives, Series 4 Correspondence, Pierson,
Donald, 1948-49, Box 10.
7. O Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade de Chicago,
fundado em 1892, deu origem a uma tradição de investigação empírica em resposta
aos inúmeros problemas sociais decorrentes do boom demográfico e do acelerado
desenvolvimento urbano-industrial vivido por Chicago a partir do final do
século XIX, tais como a tensão interétnica (envolvendo principalmente
imigrantes europeus e negros vindos do Sul), o divórcio e a delinquência
juvenil. Ver Coulon (1995); Chapoulie (2001) e Valladares (2005).
8. Para análises da atuação de Julian Steward e do funcionamento do ISA, ver
Castro (2010); Price (2008) e Figueiredo (2009).
9. Formado em Economia na Universidade da Columbia Britânica (Canadá), em 1928,
Oberg ingressou no Programa de Antropologia da Universidade de Chicago em 1930.
Foi um dos primeiros antropólogos a fazer parte do programa do Instituto de
Assuntos Interamericanos (IAIA), destinado à América Latina. Lecionou na ELSP
por seis anos (1946-1952) e atuou como social science consultant no Serviço
Especial de Saúde Pública (McComb e Foster, 1974:357-358); Falhauber (2001).
10. A Preliminary Survey of the Valley of São Francisco, 1949. Fundo Donald
Pierson, pasta 72. AEL. Tradução livre.
11. Considerando-se as incertezas sobre a continuação do apoio do ISA a
pesquisas no Brasil nesse período, em decorrência das mudanças na política
externa norte-americana com o fim da Segunda Guerra Mundial, pode-se inferir
que Pierson procurou mostrar ao ISA a relevância do conhecimento que o governo
norte-americano estava ajudando a produzir e, assim, garantir a manutenção do
financiamento de suas atividades no Brasil (Figueiredo, 2009).
12. Sobre o processo de institucionalização das Ciências Sociais no Brasil, ver
Corrêa (1987); Miceli (1989); Limongi (1989); Massi (1989) e Oliveira (1995).
13. Bielschowsky (1995) aborda os vínculos entre planejamento e
industrialização no pensamento de economistas brasileiros como Roberto
Simonsen. O autor também destaca a repercussão dos diagnósticos da Comissão
Econômica para a América Latina (CEPAL) nos usos que se fizeram, no Brasil, da
noção de planejamento no campo econômico.
14. BRASIL. Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 18 de setembro de
1946. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/
constitui%C3%A7ao46.htm. Acesso em 2/9/2012.
15. BRASIL. Lei no 541 de 15 de dezembro de 1948. Cria a Comissão do Vale do
São Francisco e dá outras providências. Disponível em http://
www.codevasf.gov.br/principal/legislacao/leis/lei-nb0-541-de-15-de-dezembro-de-
1948. Acesso em 1/7/2010.
16. Sobre a importância econômica do Vale nesse período, ver Andrade (2006);
Vainer (2007); Camelo Filho (2005, 2008); Coelho Neto (2009).
17. Lucas Lopes (1911-1994) teve papel de destaque nas políticas de expansão
energética na década de 1950. Integrou a Comissão de Administração do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) em 1952, trabalhando também no
Conselho de Desenvolvimento (órgão de aplicação do Plano de Metas do Governo
Juscelino Kubitscheck). Centro de Pesquisa e Documentação de História
Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas. Disponível em http://
cpdoc.fgv.br/producao/dossies/biografias/lucas_lopes. Acesso em 17/8/10.
18. Os autores que, a exemplo de Escobar (1996), buscaram compreender o
desenvolvimento como um fenômeno cultural fazem parte dos denominados post-
development studies. Para uma discussão em torno dessa abordagem, ver Andrade
(2012).
19. Public Papers of the Presidents. Harry S. Truman. January 20, 1949. Harry
S. Truman Library and Museum. Disponível em http://www.trumanlibrary.org/
publicpapers. Acesso em 20/8/2012.
20. A Preliminary Survey of the Valley of the São Francisco, 1949. Fundo
Donald Pierson, pasta 72, AEL; Carta de Donald Pierson a Paulo Peltier de
Queiroz em 3 de janeiro de 1952. Fundo Donald Pierson, pasta 57, AEL.
21. As pesquisas levadas a efeito no Vale do São Francisco ' 28.02.1959.
Fundo Donald Pierson, Pasta 56, AEL.
22. Os gastos da CVSF com o Projeto do Vale como um todo foram de Cr$
490.000,00 (quatrocentos e noventa mil cruzeiros), o equivalente a 62 mil reais
em números de 25/4/2010. Valor calculado com base no Índice Geral de Preços.
Disponível em: www.calculoexato.com.br.
23. Os pares foram: 1o: Cerrado e Retiro (2.825 habitantes), em Minas Gerais;
2o: Correntina e Gerais (19.306 hab.), na Bahia; 3o: Xique-Xique e Marrecas
(33.004 hab.), também na Bahia; 4o: Cabrobó e Ilha de Toré (10.235 hab.), em
Pernambuco; 5o: Piaçabuçu e Potengi (9.500 hab.), em Alagoas. Nessas
localidades, 69,7% da população vivia em áreas rurais (Pierson, 1972, II:15).
24. The São Francisco Project ' 28/2/1959. Fundo Donald Pierson, Pasta 56,
AEL.
25. Carta de Donald Pierson a Paulo Peltier de Queiroz em 10.08.1950. Fundo
Donald Pierson, Pasta 57, AEL.
26. Sobre os estudos de ecologia humana desenvolvidos por Park e Burgess, ver
Eufrásio (1999). Análises sobre os temas e objetos privilegiados pelos
sociólogos de Chicago encontram-se em Coulon (1995) e Chapoulie (2001).
27. A obra foi publicada no Brasil em 1949 como parte da coleção organizada por
Pierson, denominada "Biblioteca de Ciências Sociais" (Pierson, 1987:
52-54). Ao lado de Robert Park e Louis Wirth, Redfield foi um dos orientadores
de Pierson em sua pesquisa de doutoramento sobre as relações raciais na Bahia
(ibidem:34).
28. Comunicação do Departamento de Produção e Assistência da CVSF ao presidente
da República, s/d. Fundo Donald Pierson, pasta 57, AEL.
29. Comunicação do Departamento de Produção e Assistência da CVSF ao presidente
da República, s/d. Fundo Donald Pierson, pasta 57, AEL.
30. Unesco Courier, vol. 1, no 3, abril de 1948, p. 4.
31. A região era marcada não só pelo elevado índice de analfabetismo, como
também pelo predomínio de doenças tropicais, desmatamento e agricultura pouco
produtiva.
32. Pierson fez uma nova viagem ao Vale do São Francisco patrocinada pela
Fundação Rockefeller, em 1959. Ela teve como objetivo permitir ao sociólogo
fazer uma revisão das informações e análises do manuscrito entregue à CVSF no
mesmo ano (Pierson, 1972, I:20). No entanto, o livro só foi publicado 13 anos
depois. Houve mudanças administrativas na CVSF, que em 1967 tornara-se
Superintendência do Vale do São Francisco (Suvale), além de dificuldades no
financiamento da tradução e na publicação da obra, que chegou a ter capítulos
desaparecidos nos gabinetes do órgão (Oliveira, 2010).
33. As consequências da interação desses grupos são entrevistas no
estabelecimento de uma ordem política com base na distribuição fundiária, na
construção de habitações segundo o estilo europeu e na adoção de práticas
religiosas de origem africana (Pierson, 1972, I:248-249).
34. A população estava distribuída de forma irregular pela região,
concentrando-se nas grandes fazendas ou em pequenas cidades e vilarejos. Nos
cinco pares de localidades estudados, o número de homens e mulheres era
relativamente semelhante, com predomínio da população jovem (Pierson, 1971, II:
18-24). Em todas as comunidades estudadas a população era miscigenada, embora a
predominância de brancos, negros ou indígenas variasse conforme diferentes
circunstâncias históricas, tais como povoamento e migração. Nas duas
extremidades do Vale, onde o povoamento ocorrera em função das minas de ouro e
dos engenhos de cana-de-açúcar, era maior o número de negros, enquanto nas
áreas mais isoladas havia maior concentração de indígenas (ibidem:24-28).
35. A construção da Represa de Três Marias, visando ao controle das inundações
periódicas do rio, e a exploração de petróleo em torno de sua foz também abriam
novas perspectivas econômicas (Pierson, 1972, III: 460).
36. O Sesp atuou nos estados da Paraíba, Pernambuco e Bahia em áreas econômicas
estratégicas e no treinamento de profissionais de saúde. No primeiro semestre
de 1950 assinou um convênio com a CVSF (Campos, 2006:211-212).
37. Além da malária, verminoses, doenças venéreas, disenteria, tifoide e
paratifoide, leishmaniose e doença de Chagas eram as principais doenças
diagnosticadas no Vale. Em Correntina havia ocorrido, em 1940 e 1941, uma séria
epidemia de paratifoide que afetou mais de uma centena de pessoas, na ocasião
sem qualquer assistência médica (Pierson, 1972, III:161-162, 263-264).
38. Cientistas sociais vinculados à Divisão de Educação Sanitária do Sesp, a
exemplo de José Arthur Rios e Luiz Fernando Raposo Fontenelle, detiveram-se no
estudo do universo cultural das populações-alvo das políticas de saúde na zona
rural. Ambos assinalaram a hostilidade e a incompreensão que por vezes
caracterizavam a relação entre pacientes e profissionais de saúde, decorrentes
do choque cultural (Maio e Lima, 2009).
39. Pierson critica as condições precárias de ensino no Vale, ainda que indique
as ações do poder público no setor. Em localidades como Cerrado, a porcentagem
de pessoas alfabetizadas chegava apenas a 30% (Pierson, 1972, III:343-344).
40. Pierson afirma que parecia ser maior a aceitação da escola, do professor e
do processo de aprendizagem em cidades cujo contato com os centros
metropolitanos era mais estreito, entre membros da elite local e entre famílias
protestantes (Pierson, 1972, III:335).
41. Cepêda (2012) observa que a perspectiva desenvolvimentista do período
enfatizava a mudança nas atividades produtivas, restringindo-se por vezes à
esfera econômica, à criação, nos países periféricos, de um robusto mercado
interno, diversificado e autônomo.
42. Algumas características presentes na concepção de Pierson sobre o moderno '
tais como diferenciação socioeconômica, adoção de valores políticos
democráticos e mentalidade secularizada, ligada à racionalidade científica '
lembram não apenas visões sociológicas clássicas sobre a história ocidental,
como também foram exploradas ao longo dos anos 1950 e 1960 pela sociologia da
modernização de matriz norte-americana, cuja base teórica provinha do
estrutural-funcionalismo parsoniano (Sztompka, 2005:232-233). No contexto
latino-americano, a teoria da modernização foi interpelada e reinterpretada por
Florestan Fernandes e Gino Germani, que buscaram conferir-lhe densidade
histórica (Brasil Júnior, 2011).
43. Para uma análise da contribuição de sociólogos brasileiros na compreensão
da coexistência tensa e dos arranjos complexos entre modernidade e tradição no
processo de transformação social do país, ver Villas Bôas (2006).
44. O ensaísmo é geralmente visto como produção intelectual pré-científica,
vinculado a autores como Oliveira Vianna, Sergio Buarque de Holanda e Caio
Prado Junior, intérpretes da formação sócio-histórica do país. Como observa
Botelho (2010), a despeito das semelhanças, os ensaios não podem, contudo, ser
igualmente subsumidos a um mesmo conjunto de características cognitivas ou
narrativas exclusiva" ' unidade esta que se colocou a posteriori, e em
especial pelas ciências sociais. Os primeiros balanços e interpretações sobre
a história das ciências sociais no país produzidos nos anos 1940 e 1950
tenderam a reafirmar a cientificidade das investigações sociais no novo
contexto de institucionalização universitária, contrastando-a ao caráter pré-
científico da produção intelectual até então existente. Para um exame crítico
do marco institucionalista na história das ciências sociais, ver Santos (1978),
Oliveira (1995) e Lima (1998).
45. Carta de Donald Pierson a Jaime Duarte em 13. 04. 1950. Fundo Donald
Pierson, Pasta 63. AEL. p. 1.
46. Certamente Pierson se preocupou com o fato de que as pesquisas no Vale,
além dos usos práticos, alcançassem reconhecimento em termos de seu valor
científico. Nos Estados Unidos, a crescente demanda social por conhecimento
socioantropológico a partir da instauração do Ponto IV foi vista pelos
cientistas sociais do ISA como oportunidade de expansão do escopo de sua
disciplina e demonstração do valor prático do saber socioantropológico
(Figueiredo, 2009). No entanto, à semelhança do caso de Pierson, a aproximação
com um modelo de ciências sociais aplicadas acabou por tensionar as normas do
ethos científico, trazendo para o plano das considerações dos cientistas
critérios de natureza política.
47. Nos anos 1950, Guerreiro Ramos se posicionou a favor do comprometimento
normativo explícito do cientista social com a tarefa de construção da nação.
Tratava-se da confluência das atividades de pesquisa e teorização sociológicas
com os desafios práticos e políticos do desenvolvimento socioeconômico. Ver, a
este respeito, Werneck Vianna (1997); Maio e Lopes (2012).
48. O Sesp havia estabelecido, no início de 1951, em Chonin, programas de
saúde, agricultura e educação, nos quais a população participaria por meio de
um Conselho de Comunidade. Ao analisar o fracasso dos programas, Oberg (1961:
44-48) relatou um incidente, numa festa patrocinada pelos funcionários do
projeto, em que a disputa política entre os líderes locais culminou com o
encerramento das atividades do projeto do Sesp. O episódio revelou que o
programa estava em dissonância com os valores, as personalidades e a estrutura
tradicionais da comunidade, aspectos apontados pelo antropólogo como
essenciais para a continuidade dos trabalhos.