Influência majoritária em eleições proporcionais: os efeitos presidenciais e
governatoriais sobre as eleições para a câmara dos deputados brasileira (1994-
2010)
INTRODUÇÃO
O sistema eleitoral brasileiro combina o modelo majoritário para os cargos
executivos dos três níveis da Federação, presidente, governadores de estado e
prefeitos, com o modelo proporcional para os legislativos nacional e
subnacionais, deputado federal, deputado estadual e vereadores. No nível
nacional, o Poder Legislativo é bicameral. Para as eleições dos 81 membros do
Senado o sistema é majoritário, sendo que a cada quatro anos há renovação
parcial desta Casa, ora de um terço dos seus membros, ora de dois terços dos
mesmos.
No contexto atual da democracia brasileira, algumas mudanças ocorreram no
processo eleitoral. Em 1989, por ocasião da primeira eleição direta para
presidente, as eleições para Presidência ocorreram solteiras, sem qualquer
eleição para o Legislativo nacional. Em 1990, foram realizadas eleições para
governadores, deputados estaduais, deputados federais e um terço dos senadores.
A forma como se configura o calendário eleitoral em um regime democrático tem
pretensões e consequências políticas, evidentemente. Nos Estados Unidos, por
exemplo, as eleições do Legislativo no meio do mandato presidencial funcionam
como importante indicador de popularidade e satisfação dos cidadãos com o Poder
Executivo nacional. No Brasil, eleições legislativas nacionais casadas com
eleições estaduais e descoladas das eleições presidenciais foram apontadas como
fator de enfraquecimento do poder presidencial e fortalecimento dos
governadores de Estado na esfera política nacional.
Juan Linz (1990) defendeu que eleições distintas e independentes para o
Executivo e o Legislativo nacional resultavam na ausência de vínculos
eleitorais e, por sua vez, em baixa coordenação entre os poderes, causando
ingovernabilidade e instabilidade política. Abrucio (1998) e Samuels (2003)
destacaram, como efeito deste calendário, o aumento da influência dos
governadores sobre as eleições legislativas nacionais e, consequentemente, o
poder destes atores na política nacional.
A partir de 1994, este quadro eleitoral foi alterado, passando as eleições
presidenciais a coincidirem com as eleições para deputados federais, senadores,
governadores e deputados estaduais, só permanecendo descoladas as eleições para
prefeitos e vereadores. Em 1998, houve outra mudança importante, com a
introdução da reeleição para cargos do Poder Executivo, o que possibilitou a
presidentes, governadores e prefeitos a recondução aos cargos, por um único
período subsequente.
Contudo, mesmo após as mudanças, a tese do poder dos governadores no âmbito
eleitoral não foi abandonada, dado que o calendário eleitoral seria tão somente
um dos fatores da dinâmica eleitoral a responder por este poder e as eleições
estaduais e nacionais continuaram coincidentes.
Abrucio (1998) indicou que o poder dos governadores diminuiu, porque as
eleições do presidente e do Legislativo nacional passaram a ser casadas, devido
ao instituto da reeleição e por mudanças conjunturais ocorridas no governo do
presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Samuels (2003) continuou a
defender a posição privilegiada dos governadores na arena eleitoral e na
política nacional, alegando que estes continuaram a dominar o processo
eleitoral para a câmara baixa nos distritos eleitorais, que correspondem aos
estados da Federação. O que estes autores estabeleceram para o caso brasileiro
foi uma conexão eleitoral federativa, na qual governadores seriam atores
estratégicos nas eleições para a Câmara dos Deputados e, com isto, obteriam o
apoio dos parlamentares aos seus interesses nas votações de matérias
legislativas. Esta perspectiva, que tem outros adeptos, destacando os chamados
brasilianistas, estrangeiros que estudam a política brasileira, privilegia as
variáveis dos sistemas partidário e eleitoral como determinantes do
comportamento legislativo na Câmara dos Deputados brasileira (Mainwaring, 2001;
Garman, Haggard e Willis, 2001; Ames, 2003).
Os autores também imputaram consequências negativas do poder dos governadores
para a política e a economia brasileiras. Os governadores seriam atores de
veto, atuando via Legislativo nacional, às ações do Poder Executivo central,
gerando instabilidade política e ameaça de paralisia decisória à jovem
democracia brasileira. O bloqueio dos governadores atingiria, principalmente,
as iniciativas de reformas modernizantes voltadas para o desenvolvimento
político e econômico do país, como o fim da guerra fiscal entre os estados, a
reforma tributária, o saneamento fiscal das contas públicas, entre outras
medidas (Samuels e Mainwaring, 2004).
Há duas dimensões na tese do poder dos governadores que precisam ser demarcadas
e analisadas para uma melhor compreensão da política brasileira. Uma diz
respeito à dinâmica eleitoral, na qual existe a hipótese de influência dos
governadores de Estado sobre as eleições para o Legislativo nacional. A outra
dimensão diz respeito às consequências da dinâmica eleitoral para o
comportamento parlamentar, com destaque para a relação Executivo e Legislativo.
Sobre esta última dimensão, a hipótese do poder dos governadores na política
nacional é questionada por uma ampla literatura que aponta a insuficiência da
dinâmica eleitoral para explicar o comportamento parlamentar e apresenta outras
variáveis importantes a serem consideradas: as regras internas de funcionamento
do Legislativo (Cox e McCubbins, 1993) e os mecanismos de que dispõe o Poder
Executivo nacional para influenciar os congressistas (Shugart e Carey, 1992).
Para o caso brasileiro, tais variáveis têm sido destacadas nas obras de
Figueiredo e Limongi (2001), Cheibub, Figueiredo e Limongi (2003), Santos (1997
e 1999), Amorim Neto (2000), Amorim Neto e Santos (2001 e 2003). Os resultados
destes trabalhos mostram que o comportamento parlamentar brasileiro, no atual
período democrático, tem sido marcado por disciplina partidária e sucesso do
Executivo nacional na aprovação de sua agenda governamental, algo explicado
pela centralização das tomadas de decisão na Câmara dos Deputados nas
lideranças partidárias e pelos recursos de que dispõe o Executivo para legislar
e obter apoio parlamentar às suas iniciativas de lei. Entre estes recursos,
destacam-se a distribuição de cargos governamentais para constituição de uma
base partidária aliada ao governo no Legislativo nacional (coalizão de governo)
e o controle dos recursos orçamentários.
No presente artigo, a atenção recai sobre a dinâmica eleitoral brasileira, mais
especificamente sobre a influência que os cargos majoritários podem exercer nas
eleições para deputado federal. O propósito de tal investigação é verificar se
um partido tem sua performance eleitoral para a câmara baixa influenciada pela
ocupação de cargos de governador e/ou presidente e/ou pela apresentação e pelo
desempenho de candidatos aos cargos majoritários para os executivos estaduais e
federal. A análise é importante não somente para dialogar com a literatura que
defende o poder dos governadores de Estado nas eleições legislativas, como para
ajudar a entender a dinâmica eleitoral brasileira. Em que medida a ocupação de
cargos executivos no plano nacional e subnacional impactam as eleições
legislativas? Os governadores têm impacto decisivo nas eleições para a câmara
baixa brasileira, são as locomotivas" das eleições legislativas, como
defendem Abrucio (1998) e Samuels (2003)? As eleições majoritárias,
presidenciais ou governatoriais, com maior visibilidade e recursos, influenciam
as eleições para deputado federal? Candidatos fortes nas disputas majoritárias
impulsionam seus partidos na votação para a câmara baixa? E quem impacta mais
as eleições legislativas: presidentes ou governadores, candidatos à presidência
ou aos governos estaduais?
Para responder a essas questões, o artigo está organizado em quatro seções. A
primeira apresenta o debate sobre a influência majoritária em eleições
proporcionais, destacando como eleições majoritárias podem impactar eleições
proporcionais (efeitos coattails)1 e o possível efeito que a ocupação de cargos
majoritários pode ter sobre as eleições para deputado federal.
A seção seguinte apresenta a proposta metodológica para a análise da influência
majoritária nas eleições para a câmara baixa brasileira. A inspiração geral vem
de Samuels (2003), que resgatou a literatura de coattails eleitorais dos
Estados Unidos para verificar e comparar, no caso brasileiro, a capacidade de
candidatos a presidente e a governador de arrastar seus partidos nas eleições
legislativas para a câmara baixa, os coattails presidenciais e os coattails
governatoriais. Por meio de dados eleitorais e modelos analíticos distintos do
autor, utiliza-se a análise de regressão para verificar os impactos de algumas
variáveis sobre a votação recebida pelos partidos para deputado federal, nos
estados (distritos), nas cinco últimas eleições. Destacam-se entre as variáveis
explicativas o fato de o partido ocupar ou não a Presidência e/ou governos
estaduais e a votação recebida para os cargos majoritários de presidente e
governador.
A terceira seção apresenta e analisa os resultados obtidos a partir dos métodos
utilizados. Os achados não apontam correlação com significância estatística
entre o partido estar à frente da Presidência e/ou de governos estaduais e a
votação recebida pelo partido para deputado federal. Por outro lado, verifica-
se que as eleições para presidente e governador têm efeito sobre a votação dos
partidos para câmara baixa, candidatos a presidente ou governadores bem votados
potencializam a votação do seu partido para deputado federal, sendo que este
efeito é maior para governadores (coattails governatoriais) que para
presidentes (coattails presidenciais). Contudo, a principal variável a explicar
a votação de um partido para deputado federal é a votação deste mesmo partido
na eleição imediatamente anterior, indicando que os partidos detêm um capital
eleitoral nos estados, nas eleições para câmara baixa, que independe das
disputadas majoritárias.
Por fim, a quarta e última seção é dedicada a algumas considerações finais, na
qual se destaca a importância do federalismo para entender a composição do
Legislativo nacional. Também aponta a necessidade de mais pesquisas para
entender a relação entre dinâmica eleitoral e dinâmica parlamentar, com
destaque para a relação Executivo e Legislativo, mesmo admitindo que tal
relação não signifique ingovernabilidade e paralisia decisória na jovem
democracia brasileira.
INFLUÊNCIA MAJORITÁRIA EM ELEIÇÕES PARLAMENTARES
A Influência das Eleições Majoritárias sobre as Eleições Parlamentares: Efeitos
Coattails
O termo coattail eleitoral foi cunhado pela ciência política norte-americana
para designar a influência que as eleições para cargos executivos exercem sobre
as eleições para cargos legislativos. Nas eleições presidenciais dos Estados
Unidos, os candidatos contam com recursos financeiros milionários para suas
campanhas, participam de disputa política nacional acirrada entre os dois
partidos dominantes, Republicano e Democrata, são destaques nos meios de
comunicação e têm maior visibilidade política junto ao eleitorado, o que os
torna cabos eleitorais privilegiados de seus partidos na disputa aos postos
legislativos. Assim, a literatura destaca que candidatos populares à
Presidência, com forte votação, são capazes de puxar votos para suas legendas
na competição para os cargos do Legislativo nacional: efeitos coattails
presidenciais.
Os estudos sobre efeitos coattails no Legislativo norte-americano têm se
concentrado em expor como as eleições presidenciais influenciam as votações ou
a obtenção de cadeiras dos partidos Democrata ou Republicano para a Câmara dos
Deputados ou para o Senado. A polêmica entre os estudiosos gira em torno da
evolução dos efeitos coattails presidenciais ao longo do tempo, com a maioria
defendendo o declínio desses efeitos a partir dos anos 1950 (Ferejohn e
Calvert, 1984), e outros sustentando a persistência dos efeitos coattails
presidenciais (Born, 1984).
O principal interesse pelos efeitos que as eleições presidenciais produzem
sobre as eleições parlamentares nos Estados Unidos não estaria propriamente na
arena eleitoral, mas no momento pós-eleitoral, quando o presidente buscará
apoio do Congresso para aprovar as medidas políticas de seu interesse. Os
efeitos coattails presidenciais, para a maioria dos seus estudiosos, é um fator
importante para definir a relação Executivo e Legislativo. Candidatos
presidenciais fortes eleitoralmente podem angariar votos para seus partidários
e obter uma base de apoio majoritária e duradoura no Legislativo nacional.
Ferejohn e Calvert (1984) sustentam que os presidentes necessitam de algum
mecanismo para obter apoio dos congressistas às suas políticas e que tal
mecanismo deve ser buscado na arena eleitoral, mais especificamente na
capacidade do presidente de puxar votos para os candidatos de seu partido nas
eleições legislativas. Em síntese, os efeitos coattails presidenciais são
apresentados como uma variável a ser incorporada à teoria das conexões
eleitorais que buscam explicar o comportamento parlamentar. Contudo, em termos
de evidências empíricas, estes estudos têm se concentrado em medir os efeitos
dos coattails presidenciais, não havendo a preocupação em relacionar tais
efeitos com os resultados da produção legislativa.
A análise de efeitos coattails é pertinente para o Brasil, país
presidencialista marcado por dois processos eleitorais distintos de escolha dos
ocupantes dos cargos executivos e legislativos, princípio majoritário na
escolha de presidentes, governadores e prefeitos e princípio proporcional
adotado na definição dos ocupantes dos postos legislativos nacionais e
subnacionais. Como nos Estados Unidos, as eleições brasileiras para os cargos
majoritários mobilizam maiores recursos e prevalecem em termos de projeção e
interesse por parte do eleitorado sobre as eleições legislativas, o que nos
leva à conclusão de que as eleições majoritárias podem ter efeitos coattails
sobre as eleições parlamentares. Contudo, a análise de efeitos coattails no
caso brasileiro requer adaptar a teoria e os métodos adotados para os Estados
Unidos a uma realidade bastante distinta. Em vez de um sistema bipartidário, no
qual se verifica a relação entre os votos presidenciais e os votos
parlamentares dos dois partidos majoritários, cabe analisar os efeitos
coattails em uma realidade multipartidária, na qual vários candidatos aos
cargos majoritários podem influenciar seus respectivos partidos ou coligações
partidárias na corrida aos cargos legislativos. Ao invés de restringir os
efeitos das eleições majoritárias à corrida presidencial, cabe também verificar
os efeitos das eleições governatoriais sobre o Legislativo nacional, dadas as
peculiaridades do sistema eleitoral brasileiro, entre elas: eleições casadas
para os cargos de presidente, governador e deputado federal; recursos de
campanhas concentrados no nível estadual e estados como distritos eleitorais
dos parlamentares nacionais.
Samuels (2003) adotou a análise de coattails para mostrar que os candidatos a
governadores predominam sobre os candidatos presidenciais no processo de
escolha dos deputados federais brasileiros. Assim, diferente da análise dos
efeitos coattails nos Estados Unidos, o autor concentrou-se em comparar os
efeitos coattails presidenciais e os efeitos coattails governatoriais nas
eleições legislativas nacionais. A perspectiva das conexões eleitorais e do
impacto dos coattails sobre o comportamento parlamentar se manteve na análise
de Samuels para o Brasil. O autor defendeu que a prevalência dos efeitos
coattails governatoriais resulta em um foco distinto de fidelidade e apoio no
Legislativo nacional. Em vez do foco ser o presidente, os deputados têm como
referência os governadores de Estado e são influenciados por estes em suas
votações de matérias legislativas2.
Neste artigo, o pressuposto é que o comportamento parlamentar, com destaque
para a relação Executivo e Legislativo, não pode ser derivado diretamente do
comportamento dos atores na arena eleitoral, desconsiderando outras variáveis
da dinâmica política nacional. Assim, esta não é a principal motivação na
análise de coattails, sua relevância reside no que ela elucida da própria
dinâmica eleitoral. Neste aspecto, permite verificar correlações nas votações
para os cargos de presidente, governadores de estado e deputados federais. Com
isto, podemos observar o atrelamento destas disputas e indagar sobre as
estratégias partidárias para conquistar cargos no Legislativo nacional.
A Influência da Ocupação de Cargos Majoritários sobre as Eleições Parlamentares
Para além dos efeitos coattails eleitorais, é pertinente verificar a influência
que a ocupação dos cargos de presidente e/ou de governador de estado pode ter
sobre as eleições legislativas nacionais na câmara baixa. Com isto, busca-se
discernir melhor os termos do debate e evitar certa confusão presente nos
atores que defendem a tese do poder dos governadores no plano nacional sem
distinguir claramente ocupantes e postulantes aos cargos de presidente e
governador.
Estar à frente da Presidência da República ou de governos estaduais pode
contribuir para a conquista de votos para a Câmara dos Deputados. Conforme
Abrucio (1998), os governadores podem otimizar a performance eleitoral de seus
partidos ou coligados para deputado federal porque contam com recursos
importantes para serem utilizados nas bases eleitorais destes: cargos, verbas
para obras, apoio de deputados estaduais e prefeitos, que funcionam como cabos
eleitorais, entre outros. De forma similar, podemos estender estes mesmos
recursos ao governo federal. Pereira e Mueller (2002) destacam, para o contexto
nacional, o controle do Executivo federal na liberação de recursos financeiros
destinados a atender as emendas parlamentares no orçamento da União. As
emendas, geralmente, estão voltadas para o atendimento das bases eleitorais dos
deputados federais e podem contribuir para o seu futuro sucesso eleitoral, seja
na reeleição ou na conquista de novos cargos políticos.
Contudo, a despeito dos recursos, presidentes e governadores podem ser
impopulares e não conseguirem eleger seus sucessores ou mesmo não se
reelegerem. Isto significa também baixa capacidade de arrastar votos para sua
legenda. Pereira e Rennó (2007), ao analisarem os fatores que geraram sucesso
eleitoral para os deputados federais que buscavam a reeleição, em 1998 e 2002,
observaram impactos distintos da vinculação dos deputados federais com o
presidente nos dois períodos. Em 1998, diante de um presidente que buscava a
reeleição e gozava de alta popularidade, a aproximação com o presidente
(pertencer a sua coalizão de governo e ter maior execução financeira de emendas
orçamentárias individuais) se mostrou relevante para o sucesso na busca da
reeleição. Em 2002, com um cenário diferente, no qual o presidente não era
candidato à reeleição e sofreu expressiva queda na sua popularidade, o que se
fez acompanhar de crescimento da oposição na corrida presidencial, a
aproximação com o Executivo federal não gerou impactos no sucesso eleitoral.
Desta forma, além de distinguir a influência que pode ter a ocupação ou
postulação de um cargo majoritário sobre as eleições para Câmara dos Deputados,
parece relevante identificar se os partidos que concorrem aos cargos
legislativos têm um presidente e/ou governadores de estados que são
incumbentes, ou seja, candidatos à reeleição. A combinação das duas condições,
ocupante e postulante, pode significar força adicional no arraste da votação
legislativa, ou não, a situação de postulante pode estar associada a baixo
poder sucessório derivado de desgaste governamental.
MEDINDO INFLUÊNCIA MAJORITÁRIA NAS ELEIÇÕES PARA A CÂMARA DOS DEPUTADOS
BRASILEIRA
Para avaliar os efeitos majoritários sobre as eleições proporcionais, foi
utilizada a análise de regressão estatística. A escala de mensuração das
principais variáveis e a quantidade de variáveis independentes, assim como a
associação observada entre estas e a variável dependente, levou à adoção do
modelo de regressão linear multivariada.
Variáveis e Hipóteses
A variável dependente consiste na votação recebida pelo partido político para o
cargo de deputado federal, nos estados brasileiros, em cada uma das últimas
cinco eleições. A métrica utilizada é o percentual de votos recebido pelo
partido no estado em relação ao total de votos válidos distribuídos entre os
diversos partidos no mesmo estado (Votação Partidária para Deputado Federal).
Espera-se que esta variável seja impactada pelo seguinte conjunto de variáveis
independentes e com as seguintes direções:
Ocupação de Cargos Majoritários Nacionais e Estaduais
A ocupação de cargos majoritários (Presidência; Governo Estadual) pode
significar o acesso a importantes recursos de governo (cargos, verbas públicas
e execução de políticas públicas) e impactar positivamente a votação dos
partidos nas eleições para deputado federal nos estados. Tal efeito pode ser
potencializado se o partido ocupar simultaneamente os dois postos (Presidência
e Governo estadual). Para estas três variáveis independentes foram utilizadas
variáveis dicotômicas para verificar se o partido ocupa a Presidência, se ocupa
o Governo estadual ou se ocupa simultaneamente os dois cargos, atribuindo valor
um para cada uma destas condições, e zero, em caso negativo.
Efeitos Coattails Presidenciais e Governatoriais
As eleições majoritárias, por concentrarem recursos e visibilidade, podem
influenciar as eleições proporcionais da câmara baixa brasileira. Assim, os
partidos políticos fortes na disputa pela Presidência ou pelos governos dos
estados podem arrastar os votos de suas legendas partidárias para a Câmara dos
Deputados (Votação Presidente; Votação Governador).
Pode-se considerar, ainda, que partidos sem candidatos próprios à Presidência
ou ao Governo estadual podem se beneficiar de fazer parte de uma coligação
eleitoral forte para os cargos majoritários, capaz de puxar votos para as
legendas coligadas na disputa legislativa. Evidentemente, a votação de um
partido que tem candidato próprio à Presidência é a mesma votação da coligação
presidencial para os partidos que não tiveram candidatos próprios e se
coligaram àquele. Serão utilizados dois modelos para distinguir os partidos que
tiveram candidatos próprios aos cargos majoritários e aqueles que se coligaram
a candidatos de outros partidos (Votação Coligação Presidente; Votação
Coligação Governador).
É também razoável supor que presidentes ou governadores incumbentes têm uma
força diferenciada nas eleições, visto que concentram recursos de governo e de
campanha, podendo impulsionar ainda mais a votação de seus partidos para
deputado federal. Para esta análise adotaram-se duas medidas, um primeiro
modelo, com variáveis dicotômicas, para verificar se o partido tem um
presidente ou um governador que concorre à reeleição (Presidente Incumbente;
Governador Incumbente), atribuindo valor um para estas condições, e zero, em
caso contrário. Um segundo modelo incluiu como variáveis independentes a
votação obtida pelos candidatos incumbentes (Votação Presidente Incumbente;
Votação Governador Incumbente).
Por fim, outra variável independente do modelo é a votação recebida pelo
partido para deputado federal na eleição imediatamente anterior (Votação
Anterior). Com ela, buscaremos verificar se existe um padrão de votação
legislativa nos partidos políticos que independe dos cargos majoritários, ou
seja, um partido político pode ter um capital eleitoral" em um estado que
independe dos ocupantes ou postulantes aos cargos de governador e presidente.
Para as variáveis Votação Presidente; Votação Coligação Presidente; Votação
Governador, Votação Coligação Governador e Votação Anterior foi considerado o
percentual da votação recebida pelo partido ou coligação, no estado, no
primeiro turno das disputas majoritárias, exatamente quando ocorreram as
eleições proporcionais.
A partir destas variáveis, as hipóteses de trabalho sustentam que a votação do
partido político para o cargo de deputado federal aumenta se:
H1: o partido ocupa o cargo de presidente da República (Presidência);
H2: aumenta a votação do partido para o cargo de presidente (Votação
Presidente);
H3: aumenta a votação da coligação partidária para o cargo de presidente
(Votação Coligação Presidente);
H4: o partido tem um presidente que concorre à reeleição (Presidente
Incumbente);
H5:aumenta a votação do presidente incumbente (Votação Presidente Incumbente);
H6: o partido ocupa o cargo de governador de estado (Governo Estadual);
H7: aumenta a votação do partido para o cargo de governador (Votação
Governador);
H8: aumenta a votação da coligação partidária para o cargo de governador
(Votação Coligação Governador);
H9: o partido tem um governador que concorre à reeleição (Governador
Incumbente);
H10:aumenta a votação do governador incumbente (Votação Governador Incumbente);
H11: o partido ocupa simultaneamente o cargo de presidente da República e de
governador do estado (Presidência e Governo Estadual);
H12: aumenta a votação recebida para deputado federal em eleição anterior
(Votação Anterior).
Modelos Analíticos
Para testar essas hipóteses, foram definidos três modelos de regressão. Os dois
primeiros, e principais modelos, trabalham com os partidos que tiveram
candidatos próprios à Presidência ou aos governos estaduais. Isto nos permite
correlacionar a votação para deputado federal com as votações recebidas pelos
partidos para os cargos executivos nacional e estaduais. O modelo dois difere
do primeiro porque inclui, além das variáveis dicotômicas referentes à
presidente/governador incumbente igual a 1 (um) e desafiador igual a 0 (zero),
a interação destas com as respectivas votações dos incumbentes3. Busca-se,
desta forma, analisar com maior precisão o efeito que o presidente ou
governador incumbente pode ter sobre a votação dos partidos para deputado
federal.
Os modelos 1 e 2 podem ser expressos pelas equações:
Votação Partidária Deputado Federalst = B0 + B1*Presidênciat +
B2*Votação Presidentest + B3*Presidente Incumbentet + B4*Governo
Estadualst + B5*Votação Governadorst + B6*Governador Incumbentest +
B7*(Presidênciat*Governo Estadualst) + B8*Votação Partidária Deputado
Federals(t-1) + Erro
Votação Partidária Deputado Federalst = B0 + B1*Presidênciat +
B2*Votação Presidentest + B3*Presidente Incumbentet + B4*Votação
Presidente Incumbentet + B5*Governo Estadualst + B6*Votação
Governadorst + B7*Governador Incumbentest + B8*Votação Governador
Incumbentest + B9*(Presidênciat*Governo Estadualst) + B10*Votação
Partidária Deputado Federals(t-1) + Erro
Em que:
t = Ano da eleição (1994, 1998, 2002, 2006 ou 2010) s = Estados (Acre, Amapá,
Amazonas, Alagoas...)
No modelo três, considera-se os partidos que não tiveram candidatos
majoritários próprios, mas que participaram de coligações eleitorais para
presidente ou governador. Assim, em vez da votação destes partidos para
presidente ou governador de estado, tem-se a votação da coligação para estes
cargos:
Votação Partidária Deputado Federalst = B0 + B1*Presidênciat + B2*Votação
Coligação Presidentest + B3*Presidente Incumbentet + B4*Governo Estadualst
+B5*Votação Coligação Governadorst + B6*Governador Incumbentest + B7*
(Presidênciat*Governo Estadualst) + B8*Votação Partidária Deputado Federals(t-
1) + Erro
Período, Amostra e Dados
O período selecionado corresponde às cinco últimas eleições para a Câmara dos
Deputados (1994, 1998, 2002, 2006 e 2010) e contempla o universo de eleições
casadas para presidente, governador de estado e deputado federal no regime
democrático atual. Tal restrição possibilita uma avaliação mais criteriosa dos
efeitos coattails presidenciais e governatoriais, sem qualquer defasagem de
tempo entre estes processos eleitorais, algo que necessitou ser ponderado em
outros estudos que abordaram períodos anteriores, como o de Samuels (2003).
A unidade de análise é o partido político, em cada estado, com restrição da
amostra aos dez maiores partidos com representação política na Câmara dos
Deputados no período. Estes partidos conquistaram 92% da representação
parlamentar, conforme Tabela_1, e nos permitem uma análise estatística mais
apurada dos efeitos majoritários, visto que eles representam também os
principais partidos que ocuparam e pleitearam os cargos majoritários. Ainda, a
restrição possibilita avaliar os efeitos majoritários efetivos sobre a
composição da Câmara dos Deputados, ou seja, em que medida presidente ou
governador, candidatos a presidente ou a governador contribuíram para a
obtenção de cadeiras na Câmara dos Deputados. Estatisticamente, a restrição
possibilita trabalhar com uma correlação mais linear entre as variáveis e com
menos omissões nos dados (missings).
O banco de dados foi construído, predominantemente, com informações eleitorais
disponibilizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE, 2011), em seu sítio
eletrônico, e por Nicolau (2006).
RESULTADOS
A Tabela_2 apresenta os resultados obtidos para os três modelos adotados. O
modelo 1 apresenta 219 observações e explica 65% (R2) da votação recebida para
deputado federal. Neste modelo, os resultados encontrados apontam que a
ocupação de cargos majoritários não se revelou importante na definição da
votação dos partidos para câmara baixa; partidos à frente do Executivo nacional
ou de governos estaduais não impulsionaram seus partidários na corrida
legislativa. O fato de o partido ter um presidente ou governador incumbente
poderia ser um fator adicional de impulso à eleição para deputado federal, mas
também aqui não encontramos correlações com significância estatística. O modelo
2, com o mesmo número de observações e R2, ao introduzir a votação dos
presidentes e governadores incumbentes, obteve resultados similares ao modelo 1
e não significância estatística para as variáveis de votação dos incumbentes.
Nos dois modelos, o problema da não significância estatística nas variáveis de
incumbentes pode ser decorrente de um número baixo de observações, dado que,
para o período, somente houve duas possibilidades de reeleição para presidente
e governador de estado. O mesmo deve ser o caso para os partidos que tiveram
simultaneamente a Presidência e o Governo do estado em disputa.

Tais achados podem ainda estar relacionados a um fator já mencionado
anteriormente neste artigo e não considerado dentre as variáveis independentes,
a popularidade do presidente ou governador à época da eleição, como salientaram
Pereira e Rennó (2007). A alternância de poder verificado na Presidência da
República, e em muitos dos governos estaduais no período, aponta que, no
processo eleitoral, nem sempre os que estiveram à frente dos cargos
majoritários foram cabos eleitorais importantes para seus partidos, sendo
exemplar a baixa popularidade de Fernando Henrique Cardoso ao final do seu
segundo mandato.
Com isto, os resultados não corroboram a tese do poder dos governadores sobre a
eleição para deputado federal no Brasil, conforme defendem Abrucio (1998) e
Samuels (2003). O fato de controlar importantes recursos de poder não faz dos
governadores as locomotivas" das eleições parlamentares federais. E isto
ocorre por diversos motivos, primeiro porque os recursos de poder dos
governadores podem variar em função do contexto político e econômico de cada
estado; segundo e mais importante, porque uma baixa popularidade do governante
pode minimizar ou mesmo anular os efeitos destes recursos; e, ainda, porque a
análise centrada no governador desconsidera a própria dinâmica da competição
eleitoral, na qual importa a articulação de candidaturas majoritárias e
proporcionais, bem como a força e o prestígio da oposição junto ao eleitorado.
No que se refere aos coattails, verificamos nos dois modelos a presença de
coattails presidenciais e governatoriais nas eleições legislativas, com alta
significância estatística, ao nível de 1%. Candidatos fortes a presidente ou a
governador de estado potencializaram a votação do partido para deputado
federal, sendo que este efeito foi maior para governadores (coattails
governatoriais) que para presidentes (coattails presidenciais). Este resultado
é similar ao verificado por Samuels (2003) para dois períodos democráticos
brasileiros: 1945-1964 e 1989-1998.
O modelo 3, ao considerar todos os partidos que não tiveram candidatos próprios
à Presidência ou aos governos dos estados entre 1994 e 2010, mas que
participaram de coligações para estes cargos, teve o número de observações
elevado para 403 e uma queda no poder de predizer a votação para deputado
federal, com um R2 de 53%. Este modelo omite variáveis independentes utilizadas
no primeiro modelo, o que é justificado pelo fato de que partidos sem
candidatos próprios aos cargos executivos são aqueles que não estavam à frente
da Presidência e dos governos estaduais, tampouco pleitearam a reeleição nestes
cargos. Neste modelo, foram identificados coattails presidenciais, ou seja, as
coligações eleitorais para presidente impactaram positivamente o conjunto dos
partidos aliados, com significância estatística ao nível de 5%, e de forma bem
menos expressiva do que quando o partido teve um candidato forte a presidente.
O mesmo efeito não se verificou para as coligações governatoriais. Os dados
indicam que a busca de votos para deputado federal nos distritos enfrenta
contextos diversos de competição partidária estadual e federal, o que leva a
estratégias distintas com respeito às candidaturas majoritárias nos dois
níveis. Estes resultados parecem congruentes, não seria esperado algo
expressivo no efeito de candidaturas presidenciais ou governatoriais sobre as
eleições legislativas de outros partidos coligados, quando comparada a situação
de ter candidatos próprios aos cargos executivos. Contudo, se um partido ter
candidato forte a governador prevalece em termos de impulso ao voto
legislativo, sem espaço para benefícios aos partidos coligados; inversamente,
diante da impossibilidade de lançar um candidato forte à Presidência, alguma
vantagem parece haver em pegar carona" em outra candidatura.
Nos três modelos, obtivemos coeficientes expressivos e significância
estatística no nível de 1% para a variável independente Votação
Anterior", indicando a robustez dessa variável na explicação da votação
dos deputados federais. Estas correlações indicam que os partidos políticos
entram na competição política estadual para os cargos de deputado federal com
um capital eleitoral que, de certa forma, independe do contexto das eleições
majoritárias. Ainda, vale apontar que o capital dos partidos nas eleições para
deputado federal é composto pelo capital de alguns indivíduos com alta
performance eleitoral, os denominados puxadores de voto". Este aspecto
foge aos propósitos de trabalho, mas deve ser apresentado no intuito de evitar
uma conclusão fácil sobre a força dos partidos nas eleições legislativas
nacionais.
Em suma, se queremos saber qual será a votação de um partido político para
deputado federal em determinada eleição, o melhor preditor é a votação que esse
partido obteve na eleição anterior. Contudo, ter um candidato forte ao Governo
federal ou, principalmente, ao Governo estadual se apresentou, dentre as
variáveis, como a melhor forma de impulsionar a votação de um partido para a
Câmara dos Deputados. E na falta de um cabeça de chapa para as eleições
presidenciais, há ganhos em coligar-se a um partido forte para esta disputa.
Estes resultados mostram que a dinâmica eleitoral brasileira não é tão volátil
e que há certa regularidade presente, inclusive, nas votações para deputado
federal. Ao menos isto é válido para o período mais recente, pós-1994, marcado
por maior estabilidade econômica e política no país.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O artigo buscou analisar os efeitos majoritários, da ocupação e postulação dos
cargos de presidente e governador de estado, sobre as eleições proporcionais
para a Câmara dos Deputados brasileira. Os resultados encontrados não apontaram
impactos da ocupação de cargos majoritários, seja presidente ou governador, nas
votações dos partidos para deputado federal. Por outro lado, observa-se que
partidos com candidatos fortes à Presidência ou aos governos estaduais
impulsionaram suas votações para deputado federal, sendo os efeitos coattails
governatoriais mais expressivos que os efeitos coattails presidenciais. No caso
da presidência, observa-se ainda que partidos fortes nesta disputa
impulsionaram a votação de partidos coligados para deputado federal.
Verificamos também uma forte correlação entre a votação dos partidos na eleição
para deputado federal e a votação recebida por esses mesmos partidos em eleição
anterior. Como analisar tais achados à luz da literatura política sobre
eleições e comportamento parlamentar, conforme autores citados no decorrer
deste trabalho?
Primeiramente, ao discriminar os efeitos majoritários de ocupantes e
postulantes aos cargos de presidente e governador, é possível ter maior clareza
sobre as relações causais e evitar certas confusões presentes na literatura que
defende a tese do poder dos governadores na arena eleitoral e na política
nacional. Assim, os resultados encontrados não respaldam a tese de poder dos
governadores sobre as eleições para deputado federal. Os governadores, assim
como os presidentes, não se mostraram como a locomotiva das eleições
parlamentares. Contudo, os outros atores políticos se mostraram relevantes para
as eleições legislativas, os candidatos a presidente e a governador de estado;
estes últimos mais relevantes que os primeiros.
Os efeitos coattails governatoriais presentes e mais expressivos que os
presidenciais apresentam uma faceta importante da dinâmica eleitoral brasileira
que precisa ser melhor explorada em suas causas e consequências, algo para além
dos objetivos deste artigo, mas que aponta uma agenda futura de pesquisa. Entre
as causas, vale explorar por que candidatos a governador são importantes e,
ainda, mais importantes que os candidatos a presidente, nas eleições de suas
legendas para deputado federal. O que está por trás desta vinculação eleitoral:
recursos de campanha, força de alguns partidos ou candidatos no plano estadual,
associações feitas pelo eleitorado?
Conforme Ames (2003) e Carvalho (2003), um recorte municipal também pode ser
informativo das eleições legislativas. Estudos destes autores apontaram padrões
muito distintos de distribuição espacial dos votos para deputado federal nos
estados, padrões que só poderiam ser melhor entendidos quando a referência
fosse os municípios. Em uma pesquisa mais ampla, poderiam ser testados os
efeitos da ocupação de prefeituras e de coattails prefeituriais sobre as
eleições legislativas, mesmo com o descolamento temporal entre as eleições
municipais e nacionais.
Em relação às consequências dos resultados encontrados, vale também
reintroduzir o debate dos possíveis impactos da dinâmica eleitoral sobre o
comportamento parlamentar, para além das votações nominais. Tendo como
pressuposto que a arena eleitoral é limitada para definir o comportamento
parlamentar e que outras variáveis de funcionamento interno do Legislativo e da
relação Executivo e Legislativo nacionais devem ser consideradas, como afirmam
diversos estudiosos do Legislativo brasileiro, destacando Figueiredo e Limongi
(2001), ainda assim, resta a questão de como a dinâmica eleitoral pode
interferir na dinâmica parlamentar. Com isto, o objetivo não é dizer que o
resultado seja indisciplina partidária e falta de apoio às iniciativas
legislativas do presidente, mas tão somente que as composições e barganhas
políticas podem ser afetadas pela dinâmica eleitoral, com padrões distintos de
cooperação e custos na relação Executivo e Legislativo.
Se estar à frente da Presidência ou de governos estaduais não significa,
necessariamente, mais votos para os partidos na próxima disputa legislativa
nacional e, ainda, se os partidos detêm algum capital eleitoral nos estados que
se perpetua pelas eleições, isto pode significar certa independência na atuação
de partidos e parlamentares em relação aos presidentes e governadores de
estado? Mas o que dizer dos efeitos das eleições governatoriais sobre as
eleições legislativas? Partidos e parlamentares podem atuar visando a
construção de candidaturas fortes ao governo no plano estadual, em detrimento
do plano federal? O caso do PMDB seria exemplar de uma estratégia que não
prioriza candidatura própria à presidência, mas centra recursos na dinâmica
estadual e na busca de recursos para atuar neste nível, inclusive por meio de
participação na base aliada do governo federal?
A conclusão geral é que o federalismo é um componente importante para entender
a composição do Legislativo nacional, mas são necessárias mais pesquisas para
conhecimento da dinâmica eleitoral e de seus impactos nas relações Executivo e
Legislativo no plano nacional.
NOTAS
1. O termo coattail se refere às abas traseiras de um fraque que,
demasiadamente compridas, arrastam objetos ao se deslocar. A metáfora foi
utilizada pela Ciência Política dos Estados Unidos para se referir ao puxador
de votos", ou seja, a capacidade que tem um candidato forte de arrastar
votos para outros candidatos do seu partido. Por exemplo, um candidato à
presidência forte pode impulsionar a votação do seu partido nas eleições
legislativas.
2. Entre os modelos de Samuels (2003), um deles, cujo resultado foi a
prevalência de efeitos coattails governatoriais sobre os presidenciais,
apresenta um importante erro de especificação, conforme Brambor, Clark e Golder
(2006). A deficiência está na omissão de termos constitutivos de variáveis de
interação que compõem o modelo. Ao replicar o modelo com as devidas inclusões,
os autores encontraram resultados opostos aos de Samuels: efeitos coattails
presidenciais mais expressivos que efeitos coattails governatoriais.
3. Este modelo segue sugestão de parecerista do artigo, que considerou
importante verificar o impacto da votação de presidentes ou governadores
incumbentes sobre a votação dos partidos para deputado federal. Para obter as
variáveis independentes de votação dos candidatos incumbentes (presidente ou
governador), utilizamos interações entre as variáveis dicotômicas, ser
presidente ou ser governador incumbente, e as variáveis de votação do
presidente ou governador.