O mercado sobe o morro: a cidadania desce? Efeitos socioeconômicos da
pacificação no Santa Marta
INTRODUÇÃO
Ao longo da história, o Rio de Janeiro assistiu à expansão descontrolada das
favelas como consequência da alteração entre a invisibilidade desta questão na
agenda e políticas públicas de negação, repressão e remoção. A partir do século
XIX (Valladares, 2000), quando a favela deixa de ser invisível para o poder
público, ela passa a ser vista como um problema social, alimentada pela
precariedade destas aglomerações urbanas consideradas subnormais e pelos mitos
da marginalidade de suas populações (Perlman, 1981). A favela vista como
problema retorna repetidamente à agenda política ao longo da história mais pelo
incômodo que gera para a cidade do que pela perspectiva da assistência social
(Zaluar e Alvito, 2006).
A fragilidade dos direitos nas favelas, bem como em outros loteamentos
irregulares, é apontada como facilitadora da entrada do comércio de drogas e
posterior domínio armado do território por facções de bandidos. À ausência de
bens públicos e de políticas voltadas para a melhoria de vida dos favelados
somou-se a persistência de um padrão de ilegalidade tais como os "gatos" de
eletricidade e TV a cabo, e que inicialmente aceitava o tráfico de drogas como
mais uma atividade ilegal, preço até então a ser pago pelos favelados para
assegurar sua permanência (Fischer, 2008). Ironicamente, a redução das práticas
repressivas após a redemocratização facilitou que essa fosse acompanhada pela
maior presença e domínio do tráfico armado, o que fez desse território um
espaço marcado pela permanente precariedade da ordem estatal, do mercado e da
condição de cidadania a um patamar de barbárie sem precedentes.
Vulnerabilidades, precariedades, informalidades e violências marcaram, a partir
de então, o cotidiano das populações nas favelas com permanentes incursões
policiais que resultavam em tiroteios e vítimas fatais e feridos. Um imaginário
de uma "cidade partida" foi sendo construído, opondo a favela aos bairros, como
se a separação social plasmada espacialmente indicasse uma situação de
exterioridade e distanciamento cada vez mais intransponíveis. Mesmo que os
dados corroborem essa diferença socioespacial, "a separação entre favela e não-
favela expressaria a segmentação do acesso aos recursos localizados
desigualmente na cidade, sejam eles os relativos à moradia ou às oportunidades
de trabalho e renda" em um ciclo que se autoperpetua, já que os favelados que
alcançam romper esse padrão buscam inserção em outros bairros da cidade
(Ribeiro e Lago, 2001:153).
O crescimento da violência urbana passa a ser a gramática que articula um
conjunto de práticas sociais e estrutura um padrão de sociabilidade que Machado
da Silva denominou "sociabilidade violenta", no qual a força física, com ou sem
instrumentos e tecnologias, deixa de ser um meio de ação para se transformar em
um regime de ação (Machado da Silva, 2010). A exacerbação da violência assim
socialmente autorizada terminou por debilitar tanto a cidadania quanto o Estado
e o mercado, tornando-se uma ameaça potencial ao desenvolvimento urbano e
regional.
Mais recentemente, mudanças nas políticas urbanas e de segurança, embora
descontínuas, indicaram uma nova perspectiva voltada para a integração das
favelas à cidade, motivados pela expectativa de realização de eventos
internacionais na cidade. Antecederam as políticas atuais, que tomaram o nome
de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), um conjunto de iniciativas e
programas descontinuados de intervenção urbana em favelas e loteamentos, bem
como transformações incrementais nas políticas de formação de pessoal e
coordenação da área de segurança pública. Além disso, políticas sociais de
recuperação do valor do salário mínimo com forte impacto redistributivo por
meio dos benefícios previdenciários foram a marca dos últimos governos
nacionais. Combinados com transferências condicionadas de renda para combate à
pobreza e políticas assistenciais de saúde da família e de assistência social,
esse conjunto de medidas, ainda que de forma não integrada, terminou por
convergir para o espaço e populações localizadas nas favelas. O aumento do
poder aquisitivo das populações nesses territórios favoreceu o aumento do
consumo e o interesse mercadológico em relação a esses territórios.
As evidências de que as políticas redistributivas no campo do trabalho, saúde,
previdência e assistência social tiveram um impacto econômico considerável na
dinamização do mercado interno e no enfrentamento da crise econômica global
terminaram por chamar a atenção de autoridades políticas e lideranças
empresariais para o potencial de consumo das camadas mais pobres da população
urbana, que passou a ser denominada de nova classe média (Neri, 2010), parte
dela localizada nas favelas e loteamentos periféricos.
No campo da intervenção urbana o Programa Favela-Bairro, desenvolvido na década
de 1990, voltou-se para a urbanização das favelas e foi seguido por outras
iniciativas políticas similares de diferentes níveis governamentais, mesmo que
limitadas ao aspecto urbano. Mais recentemente, o programa federal Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC) quando aplicado às favelas busca enfrentar
conjuntamente questões de urbanização e a precariedade das moradias nesses
territórios. Já a política de segurança pública do atual governo do Estado do
Rio de Janeiro, que tem como principal pilar o policiamento comunitário por
meio da implantação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), de certa forma
se inspira em experiências descontinuadas de policiamento comunitário
implementadas no passado, como a Delegacia Legal, o Destacamento de
Policiamento Ostensivo (DPO), o Posto de Policiamento Comunitário (PPC) e, mais
recentemente, o Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais (GPAE). Políticas
do governo federal, como o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania
(Pronasci), também reforçaram esta linha que busca introduzir o componente de
cidadania e respeito aos direitos humanos na formação e abordagem policiais,
além de buscar uma coordenação entre os componentes do sistema de segurança
pública.
Assim, apesar das descontinuidades e incapacidade das políticas pretéritas de
darem conta dos problemas da urbanização, habitação, saneamento e segurança nas
favelas, elas serviram como subsídio para a formulação da atual política de
pacificação, indicando uma perspectiva incremental de aprendizagem
institucional e formação de consensos e alianças, necessários à mudança de rumo
das políticas tradicionais de abordagem da favela. Por outro lado, a atual
política pública de segurança visa romper com algumas características das
políticas anteriores que demonstraram ser prejudiciais, como a não permanência
do efetivo nas comunidades, que se tornou essencial quando a ação prioritária
passou a ser a retomada do território pelo domínio estatal, já que o comércio
ilegal de drogas passou a deter forte poderio bélico e controle sobre a
população e o território.
Além do conjunto de microrreformas gerenciais na área de segurança que
antecederam as UPPs, sem quebrar o padrão de ação anterior, dois fatores são
apontados como responsáveis pela ruptura que essa política representa: por um
lado, a autonomia operacional que o governador concedeu à Secretaria de
Segurança a partir de 2007, e, por outro lado, a abertura de um canal direto do
governo estadual com os empresários e acadêmicos reunidos em Thinks Tanks1 nos
quais essa política foi formulada (Ferreira, 2011). É inovadora a forte
articulação desta ação governamental com a atuação de grupos empresariais que
participam diretamente no planejamento e execução desta política com diferentes
ações, desde a formulação até o seu financiamento direto. A expectativa é que
possam se beneficiar por meio da integração de áreas estrategicamente situadas
nas zonas mais cobiçadas pelo mercado imobiliário, em uma cidade que vive um
clima de euforia com sua inserção na economia dos eventos globais. Se esta
articulação entre governo e empresariado é vista por alguns como virtuosa,
permitindo a troca constante de percepções e o aumento das fontes de
financiamento (ibidem), corre o risco de romper o padrão de processo decisório
transparente e participativo, ambicionado nos modelos de controle social e
cogestão, criados a partir da Constituição Federal de 1988, e que deveriam
resultar em um Plano Diretor da Cidade democraticamente negociado.
A possibilidade de compatibilizar, nesses territórios, ações governamentais no
campo da segurança, necessárias para o crescimento do mercado e aumento de
atividades empresariais, com a expansão da condição de cidadania, foi a questão
que nos mobilizou a pesquisar esta dinâmica em um caso concreto.
A política atual de pacificação, implementada por meio das UPPs, permite
observar como está se dando o redesenho destas relações em um dado território
desde a perspectiva do fortalecimento do Estado pela recuperação do domínio
territorial e do poder de coerção, o que permite a expansão dos negócios
locais, além de contar também com ações empresariais de promoção social e de
apoio às políticas públicas de desenvolvimento social. Os efeitos destas
sinergias e novas modalidades de ação pública sobre a comunidade devem ser
observados desde a perspectiva de assegurar a cidadania, considerando tanto a
garantia de direitos e incremento de capacidades, assim também tomando como
parâmetro o respeito às demandas comunitárias no desenho e execução das
políticas.
A produção acadêmica acerca dos efeitos da atual política pública de segurança
nas favelas tem sido intensa, e pesquisas recentes têm produzido um conjunto de
dados sobre a expansão do mercado nesses territórios. Contudo, o aspecto da
interação da população da favela com o mercado, de como esta dinâmica
expansionista está afetando a vida das pessoas que lá habitam tem sido menos
estudado, por ser mais recente. Buscamos, portanto, iniciar o preenchimento
dessa lacuna ao focarmos nossa pesquisa na primeira favela pacificada, em
dezembro de 2008, o Santa Marta2. Essa escolha se deu por considerarmos que o
tempo transcorrido desde a sua implantação é razoável para que o mercado local
respondesse aos impactos dessa política pública, bem como já é possível
perceber novas interações dos atores do mercado externo com a comunidade,
alteradas pela maior inserção do Estado. Ademais, o Santa Marta tem sido visto
por estudiosos e até pelos moradores como comunidade vitrine/modelo do novo
ordenamento. Por ser considerada uma comunidade de pequeno porte, já que ali
habitam em torno de cinco mil pessoas3, e por estar localizada em área nobre e
por ter sido a primeira a receber uma UPP, torna-se naturalmente uma forte
candidata a atuação e intervenções pioneiras de diversos atores, inclusive de
pesquisadores.
Neste estudo de caso da favela Santa Marta, o objetivo foi lançar luz sobre
esse arranjo da política pública a partir de como a nova realidade está sendo
vivida pela população local. Assim, buscamos identificar como as relações entre
Estado, mercado e comunidade têm sido alteradas na favela Santa Marta após a
implantação da UPP, especialmente focalizando como essa rearticulação tem sido
vivenciada pelos moradores. É lugar comum a constatação de que a atuação
estatal na área (seja ela policial, assistencial ou promocional) permitiu a
expansão do mercado e gerou novas possibilidades e tensões em relação às
garantias cidadãs devido às ameaças de remoção e à elevação do custo de vida.
Esse processo, contraditório por si, já justifica o estudo de caso da
comunidade onde foi implantada a primeira UPP.
Para tanto, foi realizada na favela Santa Marta uma pesquisa de campo que teve
início em meados de outubro de 2011 e estendeu-se até meados de dezembro do
mesmo ano. O Santa Marta é marcado pela presença e atuação de atores sociais
importantes, como lideranças do Grupo ECO (Sociedade de Educação e Promoção
Cultural), associação comercial, associação de moradores e rádio comunitária.
Como outras favelas, possui um histórico de mutirões para construção de
escadarias, casas, distribuição de água, e de mobilizações que se perderam ao
longo do tempo. Para Itamar Silva, intelectual e liderança local, essa
desmobilização se deve à satisfação das necessidades básicas, o que deixa as
pessoas mais tranquilas e menos motivadas a buscarem outras melhorias (Pandolfi
e Grynszpan, 2003).
A coleta de dados4 foi feita por meio de 15 entrevistas semiabertas com
lideranças da favela e com moradores que se destacam na comunidade pela
atividade empreendedora que realizam. Outras três entrevistas foram realizadas
com representantes de atores do mercado (Sebrae, Firjan e Light), além de
observações participantes em atividades festivas, guiamento turístico, bares,
restaurantes, Fórum da UPP Social na favela e em reunião do Grupo ECO5. Os
dados foram examinados utilizando-se análise de conteúdo, sob um viés
qualitativo.
Assim, a partir da implantação da política pública de segurança na favela Santa
Marta, analisamos a expansão do mercado na favela, no que tange à inserção de
empresas externas a ela, bem como à diversificação e formalização de
empreendimentos endógenos. Os efeitos causados nas relações sociais da
comunidade foram estudados com base nas ações de agentes de mercado
identificadas como responsabilidades sociais empresariais, desenvolvimento de
capacidades e na ocorrência de formas de mercantilização dos espaços sociais.
Estas novas dinâmicas foram percebidas pelos moradores tanto como geradoras de
mais reconhecimento e potencialidades, como também provocando inseguranças em
relação ao futuro da comunidade, vista como o elemento mais frágil no jogo de
forças mencionado. As limitações inerentes à incapacidade de generalização de
estudo feito a partir de um caso podem ser compensadas pelas claras indicações
de problemas percebidos pela população na implantação da política pública das
UPPs, cujo conhecimento pode servir para que as autoridades governamentais
façam ajustes nos rumos desta política, de forma a buscar um arranjo virtuoso
entre Estado, mercado e comunidade.
Este artigo está organizado em três seções adicionais. Na próxima seção,
apresentamos a discussão teórica que fundamenta a análise da rearticulação
entre Estado, mercado e comunidade. Na seção seguinte, os dados são agrupados
nas categorias de expansão do mercado e promoção social. A expansão do mercado
foi vista através das empresas que sobem o morro, da diversificação dos
negócios e da formalização das relações de consumo de serviços. Já a promoção
social foi tratada a com base nos programas de responsabilidade social e
desenvolvimento de capacidades. As consequências dessa dinâmica para a vida dos
moradores também foi analisada por meio da mercantilização dos espaços sociais
e das inseguranças em relação à sustentabilidade da política e capacidade de
resistência à remoção branca6. Na terceira e última seção apresentamos as
considerações finais, apontando as contradições em relação à busca de expansão
da cidadania por meio da ampliação do mercado.
ESTADO, MERCADO E CIDADANIA
Karl Polanyi (1980) argumenta que o desenvolvimento do Estado moderno se deu de
forma paralela e contraditória ao desenvolvimento da sociedade de mercado,
porém ao mesmo tempo estiveram intimamente ligados. Esse processo se deu por
meio de um duplo movimento: de um lado, houve a expansão do mercado; de outro,
a ampliação do poder estatal no sentido de evitar que a dinâmica do mercado
levasse ao desmoronamento da sociedade. Mecanismos de regulação e de proteção
social levaram a um re-equacionamento da interação do mercado com a sociedade,
cujos valores se materializaram em um conjunto de direitos e deveres
assegurados por meio de políticas e instituições estatais.
Para Charles Lindblom (1982), o equívoco de Polanyi foi não ter percebido até
que ponto o sistema de mercado aprisiona ou aleija o processo de formulação de
políticas públicas e, de fato, ter chegado a pensar que a política pública
elaborada de forma inteligente poderia ser bem-sucedida onde outras tentativas
haviam falhado. De acordo com Lindblom, regulações são frequentemente vistas
pelo mercado com um desincentivo para investimentos e geração de renda e
trabalho. Inúmeras medidas regulatórias são, portanto, imediatamente seguidas
pela punição do desemprego. Esse é o motivo pelo qual, para o autor, o mercado
pode ser caracterizado como uma prisão. Para uma ampla gama de relações
políticas/econômicas, o sistema de mercado aprisiona o processo de formulação
de políticas públicas e aprisiona as tentativas de melhorar as instituições
sociais. É um mecanismo altamente seletivo que permite certas mudanças, mas
impõe obstáculos poderosos para outras. O autor enfatiza, porém, que o sistema,
apesar de aprisionado pelo mercado, não é a prova de fuga, ou seja, não é
imutável.
Evitar as dualidades perigosas entre sentimento e racionalidade, Estado e
mercado é a proposta de Zelizer (2009), que retoma o argumento
neoinstitucionalista de que nenhuma relação de mercado existe sem a
infraestrutura de instituições ou sem a presença de compreensões
compartilhadas. No entanto, a presença reguladora estatal sobre o mercado
depende da sua capacidade de manutenção simultânea de autonomia e inserção
(embeddedness autonomy), nos ensina Evans (1986). Na ausência dessa
simultaneidade, ou o Estado perde autonomia, tornando-se prisioneiro dos
interesses de mercado, ou perde capacidade de inserção, de formular e
implementar um projeto de desenvolvimento.
A literatura nos mostra que com a expansão da cidadania foi possível
compatibilizar a coexistência de um status igualitário assegurado pelo Estado,
em relação a direitos e deveres, em uma sociedade em que as desigualdades de
mercado foram parcialmente limitadas pela regulação estatal e pelas políticas
distributivas de proteção social (Marshall, 1967). O que interessa é o
enriquecimento da vida civilizada, uma redução do risco, da insegurança, uma
igualação entre os mais e os menos favorecidos em todos os níveis. Assim,
conclui em seu ensaio que "a igualdade de status é mais importante do que a
igualdade de renda" (ibidem:95). Em outras palavras, a desigualdade inerente ao
sistema de classes é passível de aceitação se a igualdade de cidadania for
reconhecida como um "status concedido àqueles que são membros integrais de uma
comunidade. Todos aqueles que possuem o status são iguais com respeito aos
direitos e obrigações pertinentes ao status" (ibidem:76).
Essa trajetória da construção da modernidade democrática capitalista foi
contraditória, dependendo das relações e instituições sociais existentes em
cada contexto histórico. Será mais ainda em sociedades marcadas pela
desigualdade e exclusão social, cuja governabilidade democrática dependerá da
capacidade estatal de gerar inclusão ativa da cidadania, rompendo barreiras
discriminatórias impostas pelo mercado, pela cultura elitista e pela
persistência de modalidades de apropriação de bens públicos por alguns poucos
(Fleury, 2004; Calderón, 1995). A busca de um rearranjo destas relações entre
Estado, mercado e comunidade é também o desafio da governança necessária à
consecução de políticas públicas efetivas em um contexto de marcadas
assimetrias.
A expansão da cidadania tende a combinar componentes contraditórios, o que
permite diferentes leituras e disputas em relação a este conceito, desde uma
perspectiva libertária a outra, de natureza mais igualitária. Nos seus
extremos, a liberdade irrestrita, mesmo favorecendo o mercado, gera ameaças à
existência da sociedade, enquanto a igualdade, quando implica restrição à livre
ação dos indivíduos, compromete o princípio básico no qual o mercado se
sustenta. Por outro lado, tanto o mercado requer a igualdade formal para o
estabelecimento das trocas contratuais e suas garantias legais, quanto a
igualdade jurídica pressupõe a autonomia dos sujeitos para que se efetive.
Estas tensões inerentes à construção do Estado moderno e de suas interfaces com
o mercado e a cidadania tendem a aprofundar-se com a complexificação das
sociedades, nas quais as reivindicações de igualdade e liberdade passam a se
somar com as de reconhecimento das diversidades e requisitos de participação
cidadã na gestão da coisa pública (Fleury, 2003; Fraser, 2003; Young, 2000).
Para Amartya Sen (2000), a subordinação da igualdade pela liberdade, ou vice-
versa, é um falso paradoxo que seria resolvido com sua compatibilização por
meio da introdução da noção de capacidade. Só por meio do desenvolvimento de
capacidades os indivíduos poderiam exercer plenamente igualdade e liberdade.
Assim, enquanto a pobreza é tradicionalmente identificada como um mero baixo
nível de renda, para Sen (2000) ela deve ser vista não somente como uma renda
baixa, mas, principalmente, como uma situação de privação de capacidades
básicas; capacidades por ele entendidas como possibilidades de ser e de fazer
do indivíduo, tais como ser saudável, bem nutrido, ter conhecimento, participar
da vida da comunidade. A privação relativa de rendas pode resultar em privação
absoluta de capacidades. Essa ideia está associada com o custo de vida de uma
dada sociedade e das exigências contextuais para os indivíduos participarem da
vida da comunidade, as quais podem ser severas. Sen aponta a possibilidade de
compatibilização entre mercado e sociedade por meio da intervenção
governamental, única forma de assegurar oportunidades iguais e respeito à
liberdade. O conceito de capacidades, no entanto, não discute a questão da
distribuição do poder, tomando-a como reflexo do incremento de capacidades, o
que tende a obscurecer a discussão sobre modelos alternativos de políticas que
se configuram na tensão das alianças entre governantes e empresários na busca
pela expansão do mercado, em detrimento da comunidade dos cidadãos.
EXPANSÃO DO MERCADO LOCAL
Empresas Sobem o Morro
De acordo com Burgos (2005), os moradores das favelas, embora de baixa renda,
representam um mercado consumidor bastante dinâmico. Assim como indivíduos que
moram em outras localidades da cidade, pensam e agem como atores de mercado.
Portanto, de olho nos consumidores que ali habitam, o período pós-pacificação é
marcado pela entrada de grandes empresas no morro, que direcionam suas
atividades para o mercado antes inacessível de forma direta.
Em setembro de 2010 foi inaugurada, na Praça Cantão, principal espaço comercial
da comunidade, uma mini Casa & Vídeo, loja que vende desde eletrodomésticos
a pequenos utensílios. O imóvel alugado pela empresa pertence ao empresário
local apelidado pela grande imprensa de Eike Batista do Santa Marta.
O banco Bradesco instalou, em meados de 2010, no prédio da creche localizada na
rua Jupira, principal rua da favela, um Posto de Atendimento Avançado. Com
apenas um funcionário, realiza atividade gerencial relacionada à concessão de
crédito e disponibiliza um caixa eletrônico. Há, ainda, o serviço realizado
pelo o que chamam de Bradesco Expresso, o qual pratica a atividade operacional
de um banco, ou seja, abre contas, recebe pagamentos, depósitos, abre cartões e
faz saques. O Santa Marta possui três comerciantes que operam como Bradesco
Expresso, e esses comerciantes locais, parceiros do Bradesco, são pagos por
cada transação que realizam e, como ressaltou nosso entrevistado, "recebem bem
para isso". A adaptação às condições locais é patente na redução dos requisitos
para abertura de contas e tomada de empréstimos.
A expansão do mercado é, pois, uma realidade vista como positiva por
empresários e moradores. No entanto, a inserção da população se dá
fundamentalmente como consumidores, já que não há menção à forte expansão do
mercado local de trabalho como parte desse processo, a não ser a incorporação
de moradores em serviços pouco qualificados e temporários das obras do PAC.
Diversificação
A grande repercussão da política pública no Santa Marta estimulou o surgimento
de um projeto pioneiro, o Rio Top Tour, tornando a comunidade parte do roteiro
turístico oficial da cidade. Realizado com o apoio do Ministério do Turismo, da
agência de fomento do Governo do Estado e do Serviço Brasileiro de Apoio às
Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), sendo este último o responsável pela
capacitação de moradores como guias turísticos, o projeto tem se mostrado uma
nova oportunidade de fonte de renda para os moradores, principalmente como
guias. Outros guias locais, entretanto, optaram por seguir como autônomos e não
se envolveram com o projeto Rio Top Tour, quer por já desenvolverem outros
projetos turísticos anteriormente, ou por considerarem que podem ganhar mais de
forma independente. Há, ainda, o turismo realizado por empresas de fora da
comunidade, que chegam na favela por meio de jipes. Estes são, com frequência,
criticados pelos moradores por não contribuírem com a economia local. A
polarização entre empreendedores no ramo do turismo, internos e externos, tem
aumentado a cada dia, o que tem levado à organização coletiva dos
empreendedores locais em busca da defesa do seu lugar nesse mercado. Enquanto
os empreendedores locais baseiam seu negócio no capital cultural que detêm, o
desnível em relação aos empreendedores externos que trazem os turistas desde os
hotéis com seus meios de transporte, falando inglês e transmitindo maior
segurança, favorece enormemente suas atividades.
Comerciantes locais se dividem em relação à opinião sobre os benefícios do
turismo para seus negócios. Enquanto muitos alegam que os visitantes não
compram nem água mineral por receio de algum tipo de contaminação, outros dizem
que começam a se beneficiar com o aumento da frequência, em especial nos bares.
Eventos festivos nos fins de semana, em especial rodas de samba, têm atraído
público de fora da comunidade, disposto a gastar somas altas, para o padrão
local, com a entrada nos eventos, além de comes e bebes. Os eventos mais
conhecidos são as rodas de samba e outros shows que ocorrem na Quadra de Samba
da Mocidade Unida do Santa Marta, localizada na Praça Cantão. As famosas rodas
de samba organizadas pelo grupo do bloco de carnaval da Zona Sul, Spanta Neném,
atraem um público classe média que enche a quadra e seus arredores na Praça
Cantão, onde estão localizados diversos bares. O bloco de carnaval custeia
outras duas bandas que tocam do lado de fora da quadra, com acesso livre a
todos. Assim, a circulação de pessoas e o consumo permanecem intensos quando
ocorrem tais rodas, deixando os comerciantes dos bares em constante expectativa
para o próximo evento. Além disso, a nova clientela altera a dinâmica do
comércio em questão ao exigir produtos, frequentemente de preço mais elevado,
com os quais não estavam acostumados a trabalhar, como nos relata uma
comerciante local:
[...] antigamente, você lidava só com a comunidade; hoje em dia, não,
você lida com outro tipo de pessoas [...]. A pessoa ganha confiança
de vir pra comunidade, o comércio ganha confiança de atrair a pessoa
também pra comunidade. Isso é um ganho muito grande pro comércio;
eles ficam contando os dias pro próximo evento. [...] tanto que eu
mudei muito o meu jeito de trabalhar. Eu não vendia... não sei, eu
não vendia vodka, eu não vendia nada, fui aprendendo com eles. Eu
passei a comprar vodka, que eu não comprava, passei a comprar
energético, que eu não comprava, passei a comprar whisky, que eu não
comprava; uma vodka cara à beça, que uma garrafa, você vai comprar, é
R$ 100,00. Que diabo de vodka é essa?! Mas é assim, você acaba se
acostumando com a forma das pessoas, com a aproximação da pessoa,
entendeu? É totalmente diferente do pessoal aqui do morro. [...] é
muita roda de samba que tem, é muito evento que tem, e é só gente de
fora, não é ninguém do morro. Não dizendo que a comunidade não gasta;
gasta, mas quando esse pessoal vem, vem com uma disposição de gastar
que eu nunca vi na minha vida; não tem dia, nem hora, nem data,
entendeu? Todo dia é bom. Pelo menos pra comunidade é no começo do
mês; pra eles não, pra eles é no começo, meio e fim, que é bom,
entendeu?
A fala da comerciante nos mostra que a maioria dos eventos que ocorre na quadra
da escola de samba e na Praça Cantão, que fica em frente à quadra, tem sido
para pessoas de fora da comunidade. A mudança na dinâmica dessa área comercial
do morro leva os comerciantes a buscarem se adaptar ao gosto da nova clientela
ao adquirirem produtos diferenciados. O fato de que a maioria dos eventos na
quadra são direcionados às pessoas de fora agrada aqueles comerciantes que
lucram mais com o público externo. Ademais, a sensação de segurança que a
presença permanente da polícia gera, desperta a confiança para que pessoas do
asfalto frequentem o morro e, consequentemente, possibilita ao comerciante
investir por acreditar que tal movimento da freguesia se sustentará.
Assim, por um lado, há aqueles que foram beneficiados pelo aumento da
circulação de turistas e de pessoas com maior poder aquisitivo, como os bares e
restaurantes localizados em pontos que fazem parte do trajeto turístico e,
principalmente, os empreendimentos localizados na Praça Cantão, como os citados
anteriormente. O dono de um bar no meio do morro relata a expansão do
empreendimento proporcionada pela retirada do domínio armado do tráfico. Antigo
ponto de olheiros do tráfico, a chegada da UPP promoveu uma grande mudança para
o bar.
Por outro lado, existem aqueles comerciantes que se sentem prejudicados pela
maior inserção do Estado, em especial aqueles que não se enquadram no comércio
voltado aos turistas ou ao público externo. O aumento dos custos pela
regularização dos serviços de luz e água, bem como a imposição da formalização
dos empreendimentos torna o comércio mais custoso. Ademais, o fato de os
moradores terem que arcar com a formalização dos serviços supracitados e da TV
a cabo compromete boa parte do orçamento, resultando numa disponibilidade
financeira menor para consumir no interior da comunidade.
Por fim, o comércio ambulante localizado na entrada do morro se sente inseguro
com a entrada do Estado e sua ordem. A Associação Comercial do Santa Marta,
juntamente com os próprios ambulantes, lutam pela sua permanência por meio da
legalização das barraquinhas por parte da Prefeitura, ainda sem uma efetiva
resposta do ente.
Em resumo, a diversificação das atividades do comércio local favorece aqueles
empreendedores e negócios que se inserem na nova dinâmica de relação com a
favela, em especial nos ramos do turismo e do comércio de bares e festas
voltados para o público externo. Além da competição entre os negócios locais e
externos no mesmo ramo, que favorece grandemente os agentes externos, a
dinâmica do mercado direciona as atividades para o público externo,
reestratificando o mercado em detrimento daqueles comerciantes que têm como
consumidores a população local, cujo poder aquisitivo vem sendo reduzido com a
formalização das relações de consumo.
Formalização
Com a maior inserção do Estado nas favelas cariocas, viabilizado pela
implantação de UPPs, teve início o processo de regularização de consumo de
serviços e de atividades comerciais. De acordo com dados do Sebrae7, cerca de
92% dos negócios nas favelas cariocas são informais. O projeto Empresa Bacana,
organizado pela Diretoria de Desenvolvimento Econômico do Instituto Pereira
Passos e realizado pela Prefeitura em parceria com o Sebrae e o Sindicato de
Empresas de Serviços Contábeis (Sescon), oferece aos que faturam até R$ 36 mil
por ano a chance de formalizar o seu negócio pagando mensalidades que variam de
R$ 28,25 a R$ 32,25. O mutirão tem sido realizado em cada comunidade
pacificada, as quais são o foco atual do projeto.
Segundo relatos de alguns entrevistados, o maior atrativo aos olhos do
microempreendedor na favela Santa Marta é a possibilidade de, com o número do
CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) em mãos, adquirir o sistema de
vendas por cartão de crédito, o que representa mais possibilidades de vendas
para os comerciantes que se beneficiam com a mudança de clientela. De acordo
com a Associação Comercial do Santa Marta, hoje são 70 comerciantes
formalizados na comunidade.
Um segundo aspecto relevante da formalização é o da regularização dos serviços
no Santa Marta após a instalação da UPP. Em substituição aos chamados "gatos",
prática até então comum de acesso irregular à luz e TV a cabo, regularizou-se o
fornecimento destes serviços, bem como o de água.
O fornecimento de energia elétrica foi o primeiro serviço a ser regularizado
após a implantação da UPP (Cunha e Mello, 2011). Segundo dados da
concessionária Light, 90% dos domicílios não possuía fornecimento legal de
energia. Hoje, o número de famílias com o fornecimento regularizado saltou de
73, antes da UPP, para 1.594. Essas alterações refletiram, outrossim, nos
rendimentos da empresa. Segundo reportagem veiculada pelo jornal O Globo, em 3
de janeiro de 2012, o valor cobrado pela empresa no Santa Marta aumentou em
5.437%, passando de R$ 1.585,64 antes da ocupação, para R$ 87.799,04, em
dezembro de 2011. Por sua vez, a arrecadação no referido mês ficou em R$
79.509,12, contra apenas R$ 242,17 do período anterior à UPP, pois, dos 73
consumidores com fornecimento regularizado, somente 15% pagava. Ademais, a
arrecadação de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) também
disparou, passando de R$ 285,42 do mês anterior ao projeto ser implantado, para
R$ 17.854,80 em dezembro de 2011. O aumento da arrecadação do imposto estadual,
dessa e de outras fontes, é visto por alguns como uma compensação bem-vinda
para as contas do Estado do Rio de Janeiro diante do aumento dos custos com as
UPPs.
Buscando maior envolvimento dos moradores no programa de eficiência energética
e a redução do impacto da cobrança regular da energia consumida, a Light
realizou a troca de antigas geladeiras por novos modelos, mais econômicos, fez
reformas elétricas em casas, trocou lâmpadas e realizou ações educativas. Tais
ações são reflexos de determinações da Agência Nacional de Energia Elétrica
(Aneel), que estabelece que empresas concessionárias ou permissionárias de
distribuição de energia elétrica devem aplicar um percentual mínimo da receita
operacional líquida (ROL) em programas de eficiência energética voltados a
comunidades de baixo poder aquisitivo (Aneel, 2008).
Um sistema de telemedição permite que a concessionária realize um controle
remoto que a possibilita fazer cortes e ligações diretamente da empresa, sem
precisar ir ao local, como fazia anteriormente. Além disso, a Light instalou
iluminação pública em diversos becos e vielas da favela, bem como afixou placas
com os respectivos nomes e numerações nas edificações, de modo a garantir a
entrega da conta de luz diretamente em cada residência, passando os moradores a
ter um endereço (Cunha e Mello, 2011). Até o presente momento, essa é a única
correspondência entregue nas casas, o que é feito pela própria Light. A conta
de luz é também um comprovante de residência, importante para a condição de
cidadania do indivíduo, e que antes era emitido pela própria associação de
moradores.
Durante o período de transição foi fixado um teto de cobrança do consumo,
medido em quilowatts-hora, estabelecido a partir da média do consumo local.
Esse teto, revisado e ampliado a cada quatro meses, tinha como objetivo
"adaptar" os moradores à nova cobrança, pois, quando retirado o teto
estipulado8, a tarifa cobrada seria a mesma do asfalto. O desconto é previsto
somente para aqueles que possuem Número de Inscrição Social (NIS) por estarem
vinculados a programas sociais como o Bolsa Família ou o Cheque Cidadão, ou
para aqueles que participam do projeto Light Recicla, que, implantado
primeiramente no Santa Marta, prevê a troca de lixo reciclável por desconto na
conta de luz.
De acordo com o representante da Light entrevistado por nós, a empresa tem a
intenção de tratar o morador de favela como um cliente normal. Ele coloca a
questão do próprio dilema da compatibilização entre o mecanismo de mercado e a
condição de cidadania de como tratar igualmente pessoas tão desiguais: "a gente
não quer criar uma 'Lightinha' separada [...] eu quero tratar esse cliente como
cliente da Light, não como coitadinho".
A nova cobrança, mesmo no período em que se encontrava reduzida pelo teto
estipulado, tem impactado consideravelmente o orçamento dos moradores e é alvo
frequente de reclamações. A queixa esteve presente em todas as entrevistas que
realizamos e podemos classificá-las como sendo fundamentalmente de três
naturezas: arbitrariedade associada à falta de transparência na medição do
consumo; desconfiança da atuação da companhia gerada pela falta de
transparência; e insegurança financeira que a cobrança considerada abusiva
provoca, como expressa a fala de um dos entrevistados transcrita a seguir:
Aumentou muito. Estou pagando R$ 92,00 de luz. Eu acho assim, que é
um absurdo. A gente não tem um relógio próprio pra poder a gente
estar medindo a nossa luz; esse relógio é fechado numas caixas ali
embaixo, então, eles vêm aleatoriamente e colocam. E deu pra ver que
está sendo abusivo porque teve uma época que a gente ficou sem
chuveiro elétrico e sem máquina de lavar, então, esquentava a água
pra tomar banho, e eu descia pra lavar a roupa na minha mãe; a luz
continuou vindo no mesmo valor. Quer dizer, máquina de lavar e
chuveiro, que são coisas que puxam muito, sem funcionar, e ainda
assim vem esse valor todo, então assim, você percebe que é abusivo.
Dado que a energia elétrica é um serviço considerado imprescindível, o não
pagamento e o consequente corte do fornecimento é evitado com empenho pelos
moradores. De fato, o percentual anual de adimplência no Santa Marta chega a
97%, superior aos 94,34% registrados na rede de baixa tensão (residências e
pequeno comércio) da empresa em toda a sua área de concessão. Entretanto, a
conta de energia não diferenciada para os moradores de favela é um dos grandes
fatores de empobrecimento na comunidade.
O fornecimento de água também tem sido alvo de polêmica. Moradores receiam que
a conta de água apresente o mesmo aumento gradual que a cobrança da energia
elétrica. Segundo relato de moradores, a cobrança iniciou-se com uma taxa
considerada baixa por eles, R$ 8,00. Entretanto, com o tempo, passou para R$
18,00, pois agora inclui a taxa de esgoto no valor de R$ 10,00. Esta é outra
reclamação unânime entre os moradores, que argumentam ser descabida a cobrança
por um serviço que não é prestado, visto que não possuem saneamento adequado,
com valas abertas e a sujeira que as acompanha espalhadas pela comunidade, além
da irregularidade no fornecimento de água.
Uma moradora expressa, no trecho a seguir, seu descontentamento com a
precariedade do serviço prestado pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos
(Cedae) e atribui a má qualidade do serviço à discriminação associada ao
morador de favela. Apesar de estar sendo cobrada, não se sente tratada como
igual, ferindo sua condição de cidadania.
Então, estamos pagando água agora, taxa de água, R$ 18,00. Eu acho
que todo mundo tem que pagar pelo que usa. Estamos uns 20 dias sem
água. Tem uns 20 dias que a gente está assim: eles fecham a água,
porque eles têm que consertar, mas eles não deram prioridade pra vir
consertar porque o governo tem que entregar uma [outra] obra, então a
equipe da Cedae está lá pra poder fechar esse local; e aí a gente
fica... Porque é favelado. [...] Só água, não, estamos pagando água e
esgoto - é pior, né, não existe o esgoto!
Outro serviço que foi formalizado e que impactou no orçamento do morador do
Santa Marta foi o de TV por assinatura. Moradores relatam que este é mais um
custo com o qual não estavam habituados e que afeta as finanças. Assim que a
empresa Sky formalizou o fornecimento do sinal da TV por assinatura, logo após
a chegada da UPP, os pacotes oferecidos eram os mesmos do asfalto. Muitos
moradores aderiram, fazendo dessa despesa mais um fator de empobrecimento.
Relatam que tentam cancelar o serviço, mas existe um contrato que prevê alta
multa em caso de rescisão contratual.
Após experiências como a do Santa Marta e de outras favelas pacificadas
mostrarem que a cobrança do valor praticado no asfalto para aquela nova
clientela traria problemas, a empresa Sky e o governo do Estado do Rio de
Janeiro chegaram a anunciar, em setembro de 2010, um termo de cooperação e um
pacote desenvolvido pela operadora especialmente para as áreas pacificadas, o
SKY UPP (Terra, 2010), que seria oferecido por uma mensalidade mais baixa, no
valor de R$ 44,90. Contudo, os moradores do Santa Marta com os quais
conversamos relataram desconhecer o pacote de menor preço.
Comunidades pacificadas têm se mostrado um atraente mercado para as empresas de
TV por assinatura. A forma abrupta e incisiva como esse novo mercado consumidor
foi abordado no início do processo de formalização gerou estranheza e incômodo.
Hoje, "a Sky já vem dentro do caminhão do Bope" é uma piada ouvida com
frequência nas favelas de modo geral (Banco Mundial, 2013). A reclamação mostra
o desapontamento dos moradores em relação a um tipo de presença do Estado que
de fato regulasse o mercado, protegesse os cidadãos contra abusos e ampliasse a
gama de serviços que atendessem as suas necessidades, como saúde, educação e
saneamento. Não se trata da ausência do mercado, ou do Estado, mas das relações
entre eles e seus impactos sobre a comunidade.
As tensões entre diferentes lógicas concernentes à ação do Estado, do Mercado e
da Comunidade foi apontada por Offe (1998), para quem há uma incoerência básica
entre os princípios que regem a ação coletiva em cada uma destas esferas -
respectivamente a razão, o interesse e a (com)paixão - , o que gera
contradições. A sinergia e o virtuosismo da relação entre princípios de
natureza tão díspar não é facilmente encontrada, como constata Lechner (2000)
ao estudar os resultados do paradoxal crescimento econômico chileno nas últimas
décadas. O desenvolvimento econômico sob a égide dos interesses do mercado, com
uma grande retração das garantias sociais do estado de bem-estar, gerou uma
sensação de mal-estar difuso, uma crescente insegurança entre os cidadãos
acerca de como será seu futuro sem garantias legais de direitos asseguradas
pelo Estado.
No caso estudado na pacificação da favela, o predomínio da lógica do mercado,
fortemente amparado pela política pública de segurança, gera na população um
sentimento ambíguo de orgulho de poder assumir um lugar formalizado, ao lado de
uma grande insegurança em relação às consequências desse processo sobre a vida
de cada indivíduo e da comunidade como um todo.
RESPONSABILIDADE SOCIAL E CAPACITAÇÃO
Além da expansão das atividades típicas do mercado, encontramos um conjunto de
ações desenvolvidas por agentes de mercado, apoiadas pelo governo e em apoio às
políticas públicas, voltadas para a promoção social junto aos moradores da
favela. Elas podem ser englobadas na categoria de responsabilidade social
empresarial, estando voltadas para o desenvolvimento da imagem da empresa junto
a esse público e ao aumento das capacidades dos moradores.
Encontramos ações de diferentes naturezas em termos de responsabilidade social
(Rodrigues, 2004) na favela Santa Marta. Elas visam construir uma boa imagem da
empresa ou instituição perante a comunidade e a cidade, mas ao mesmo tempo
possuem outras especificidades.
A primeira está vinculada ao sistema corporativo, que tem uma relação próxima
com o Estado e intensa atuação na comunidade. Fruto de um acordo firmado entre
o governo do estado e da prefeitura do Rio de Janeiro com o sistema Firjan
(Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), o programa SESI
(Serviço Social da Indústria) Cidadania é realizado especificamente nas
comunidades pacificadas do Rio de Janeiro. Lançado em agosto de 2010, o
programa leva serviços gratuitos de educação, cultura, saúde, esporte e lazer a
moradores de 19 regiões com UPPs.
O programa Indústria do Conhecimento, vinculado ao SESI Cidadania, e cujo
objetivo é a promoção do acesso à informação e ao conhecimento, teve sua quinta
unidade implantada no Santa Marta, em setembro de 2011. Segundo alguns
moradores, o fato de tal espaço ter sido instalado no Polo de Inclusão Social
Padre Veloso, unidade do poder público onde estão situadas outras instâncias de
ação social, localizado na Praça Corumbá, na entrada do morro pela rua São
Clemente, trouxe uma nova dinâmica para o Polo, o qual estava subaproveitado.
Para nós, o fato de o programa da Firjan no Santa Marta se situar nesse local
deixa clara a articulação existente entre a Federação e o Estado.
A segunda diz respeito à responsabilidade social imposta por regulação estatal.
Como foi dito no tópico acerca da formalização, as ações de eficiência
energética da concessionária Light direcionadas às comunidades de baixo poder
aquisitivo estão associadas à determinação da Aneel. A literatura não é unânime
e aponta que essa forma de atuação pode ou não ser vista como ação de
responsabilidade social empresarial, visto que não é voluntária. Contudo, essa
regulação evidencia a importância da ingerência estatal na compatibilização
entre mercado e cidadania.
A terceira se refere às atuações esporádicas que visam manter relações com a
comunidade e estão, em geral, vinculadas ao objetivo de aumentar a venda de
produtos ou atrair mão de obra. Uma delas foi a abertura de vagas para
contratação de moradores de comunidades pacificadas para a função de atendente
de call center na empresa responsável por esse serviço na Light. Já o banco
Bradesco e a Casa & Vídeo buscam apoiar atividades organizadas pela
comunidade, como a festa do Dia das Crianças, além de oferecer vagas de emprego
em suas lojas.
Por outro lado, a maior presença do Estado na favela também está associada ao
empenho de diversos setores em desenvolver ações socais visando ao aumento de
oportunidades e capacidades. O indubitável aumento de ofertas de cursos e
atividades é contrastado com a situação anterior, cujo único mercado era o do
tráfico, mas criticado por outros por sua descontinuidade, ineficácia e
inadequação às necessidades.
Segundo o comandante da UPP Santa Marta, capitão Andrada, antes as pessoas
tinham que conviver com o tráfico, hoje a UPP lhes dá escolha. De acordo com o
agente comunitário do programa SESI Cidadania e morador do Santa Marta, as
oportunidades aumentaram e muita coisa está chegando: "Onde tem segurança
melhora tudo. Oportunidades estão batendo na porta, só não faz quem não quer".
O período pós-UPP permitiu que novas oportunidades chegassem à comunidade,
segundo alguns dos entrevistados. Enfatizam o aumento da oferta de trabalho, de
projetos e serviços públicos, de cursos profissionalizantes e oportunidades de
trabalho.
Porque hoje é assim, aqui tem vários projetos, tem projeto do estado,
do município, tem um polo da saúde; então assim, melhorou por isso,
porque, se não houvesse a UPP, isso não viria pra comunidade, não
teria o polo aqui, na praça, não teríamos a Faetec9 aqui do lado; não
teríamos várias coisas aqui dentro, os eventos da quadra...
Por outro lado, um morador relata que os cursos que têm chegado ajudam muito,
sim, mas enfatiza que o estigma de favelado os acompanha, e, para terem
capacidade e poderem participar da vida da cidade ainda devem se destacar.
Finalmente, há também moradores que acreditam que os cursos oferecidos por
instituições como Faetec e Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial)
não condizem com os anseios da população e principalmente dos jovens. Para
eles, tais cursos não dão oportunidades e capacidades novas para os jovens, mas
os limitam aos subempregos que o mercado lhes oferece e nos quais prefere
mantê-los.
A pobreza, para Sen (2000), deveria ser vista não apenas pelo baixo nível de
renda, mas principalmente como uma situação de privação de capacidades básicas.
A privação relativa das rendas pode resultar em privação absoluta de
capacidades. No entanto, essa noção de capacidades está associada com o custo
de vida de uma dada sociedade e com as exigências contextuais para os
indivíduos participarem da vida da comunidade. Essas exigências não são apenas
materiais, podendo ser exclusões decorrentes de estigmas e outros critérios
simbólicos. Assim, o investimento em atividades de capacitação deve levar em
conta as exigências contextuais, materiais e simbólicas, se pretende contribuir
para a redução das desigualdades. A inadequação entre a oferta e as
expectativas, bem como a ineficácia de muitas das ações, como apontadas pelos
moradores, em especial os jovens que deveriam ser o público-alvo, mostra uma
baixa capacidade de planejamento e execução dessas políticas, nas quais estão
envolvidos governantes e representantes empresariais.
EFEITOS NA SOCIABILIDADE
A nova dinâmica instaurada na favela a partir da pacificação e do processo
imediato de expansão do mercado em suas diversas formas tem gerado efeitos
desestabilizadores da sociabilidade existente, mostrando que a inclusão pelo
mercado produz, paradoxalmente, novas formas de estratificação e exclusão que
se evidenciam na privatização dos espaços públicos e nas inseguranças em
relação a uma remoção branca que estaria em curso.
Mercantilização dos Espaços Sociais
Com a sensação de segurança trazida pela política de segurança pública, a
favela se mostrou um local lucrativo ao atrair pessoas de fora da comunidade
que buscam nos eventos que ali ocorrem algo diferente, em especial aqueles que
são realizados na quadra da escola de samba. Dessa forma, os moradores, que
tinham como principal espaço para festas a quadra da escola de samba, sentem
que perderam espaço em sua própria comunidade para aqueles de fora que agora
aproveitam para lá circularem e para os que lucram com a mudança de público,
além de sofrerem com a ordem imposta pela UPP para a realização de suas festas.
As festas para pessoas de fora da comunidade não ficam restritas à quadra da
escola de samba. Uma vez por mês a Laje do Michael Jackson10, outro espaço de
socialização dos moradores, é ocupada por uma roda de samba organizada por um
morador juntamente com outros três músicos do asfalto, que, apesar de ser
gratuita e aberta a todos, tem como principais frequentadores os cariocas de
fora da comunidade e turistas estrangeiros buscando lazer alternativo.
Além da perda do espaço para suas próprias festas e eventos de lazer, a intensa
movimentação de pessoas motivadas pelas festas ou pelo turismo praticado na
favela incomoda os moradores que têm a circulação prejudicada pelo
congestionamento de pessoas nas estreitas vielas. Alguns moradores se sentem
incomodados com a presença de indivíduos com os quais não se identificam
circulando pela comunidade e olhando dentro de suas casas. Muitos se queixam do
barulho e da sujeira deixada pelos visitantes nas proximidades dos locais das
festas. Outros questionam por que a infraestrutura da comunidade não é
beneficiada com a entrada dessa nova renda, e, sim, apenas aqueles que lucram
diretamente com os eventos.
Para alguns moradores, o turista é inconveniente quando não respeita a
privacidade daqueles que ali habitam. Descrevem situações em que o visitante
fotografa pessoas em momentos privados sem pedir autorização:
Porque verão, calor, a gente dentro de casa, né, você está de short,
você está de top, e já vêm pessoas fotografando assim, dentro de
casa: "Ah, que interessante!", como se você fosse assim, um ser
esquisito, sabe, não pergunta [...] a pessoa fotografa sem perguntar,
sem pedir autorização? Não é assim. Então, houve muito também uma
invasão, sabe?
Assim, apesar de alguns defenderem que esse movimento de subida do morro por
pessoas de fora dele é uma oportunidade de integração morro/asfalto e
possibilita a desmistificação do estereótipo do favelado devido à percepção
mais próxima daquela realidade por aqueles que não a conheciam, o que predomina
é o sentimento de perda de espaço para a exploração mercadológica. Ademais,
pouco conseguem interagir com a cidade, que também costuma praticar preços
elevados, ou seja, agora ambos fora do alcance do favelado. A integração não
ocorre se não acontecer nos dois sentidos: asfalto-morro, morro-asfalto.
Portanto, o que tem ocorrido na comunidade Santa Marta é mais uma invasão da
classe média e uma mercantilização dos seus espaços sociais, ou seja, um
movimento de expansão do mercado com restrições para os moradores locais. A
ausência de uma entidade do governo que resguardasse os espaços públicos da
exploração exclusivamente lucrativa, o que representaria o duplo movimento
requerido para proteção da cidadania, mostra a capacidade destrutiva do mercado
em relação à sociabilidade, apontada por Polanyi (1980).
Inseguranças
A nova realidade vivida pela favela Santa Marta após a implantação da política
pública da UPP e maior inserção do Estado tem trazido diferentes benefícios
para aquele território. Por outro lado, são várias as inseguranças causadas
pelas recentes mudanças. A primeira que apontamos aqui diz respeito à própria
política pública das UPPs. Os moradores de favelas já assistiram a algumas
iniciativas de policiamento comunitário darem errado, o que gera grande
desconfiança e insegurança. Itamar Silva, membro do Grupo ECO, comenta a
experiência vivida com o Destacamento de Polícia Ostensivo (DPO) no governo
Anthony Garotinho: oito meses depois da instalação, a DPO se retirou do morro
e, em seguida, aconteceu uma das piores guerras entre quadrilhas (Pandolfi e
Grynszpan, 2003:331).
Este exemplo nos permite entender o sentimento atual da comunidade diante da
política pública das UPPs. O receio de que a iniciativa se deva puramente aos
interesses associados aos megaeventos que serão sediados pela cidade - alguns
jogos da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 - desperta grande
desconfiança nos moradores, além da percepção de que predomina o "interesse
deles", o qual não coincide com o "nosso", como na fala seguinte:
A obra está vindo, essas coisas estão vindo e todo mundo sabe que é
por causa da Olimpíada. Ninguém tira isso da minha cabeça, nem da
cabeça das pessoas que têm um pouquinho mais de conhecimento. Não
está vindo porque eles gostam do Santa Marta não, nem da Rocinha, nem
do Vidigal, nem Tabajara, nem do morro dos Cabritos. Eles vêm por
causa da Olimpíada, é interesse dos governantes, tanto federal,
municipal, estadual. Não é porque eles gostam da gente, não é porque
eles querem dar o melhor para a gente não. É interesse deles.
Existe ainda a visão de que o Estado não dá segurança para aquela população;
diante disso, alguns optam por se resguardar nesse período de mudanças, que
para muitos tem o prazo de validade limitado a 2016. Assim, evitam expor
opiniões de forma explícita. A insegurança gerada por essa possibilidade leva
um dos entrevistados a considerar sair do morro devido ao medo de ser
repreendido pelo progresso alcançado fora do crime, caso os traficantes voltem
a dominar o território:
Se a UPP sair... Cara, eu vou ser sincero a você, eu acho que eu saio
do Santa Marta. Porque vai acontecer uma série de situações,
provavelmente guerras, que vão afetar muitas pessoas, e eu vou ser um
desses afetados. Ninguém quer ver você bem, ninguém quer ver você
ganhando num trabalho com dignidade; se você está bem, você é mau;
eles [se referindo aos bandidos] querem ver você no buraco, afundado
lá, no fundo do poço. [...] Eu vou ser bem sincero, o BOPE ficou aqui
durante 10 meses; quando o BOPE saiu, foi uma das guerras mais
sangrentas do Santa Marta.
Segundo Itamar Silva (Grupo ECO), "quando a polícia se instala, para impedir
[...] atritos, há uma certa paz. Mas quando ela sai - pode ficar até um, dois
anos - , há uma cobrança em cima daqueles que, de alguma forma, se protegeram
com a intervenção da polícia" (Pandolfi e Grynszpan, 2003:342).
Aqueles que residem no pico do morro, local com moradias mais humildes e com
menor infraestrutura, enfrentam outra insegurança: a possibilidade de remoção.
A Prefeitura argumenta que o motivo para a remoção se deve à situação de risco
em que se encontram as casas ali localizadas. Contudo, alguns moradores
entrevistados atribuem a possível remoção ao interesse da Prefeitura e de
empresários em criar um grande ponto turístico no pico do morro. Seja essa
crença verídica ou não, o fato é que aqueles moradores se encontram
constantemente sob o medo da remoção de suas casas e questionam por que a verba
disponível para reassentá-los ou indenizá-los não é utilizada para dar-lhes a
segurança que as autoridades argumentam faltar.
A literatura de política urbana (Carrión, 2007) chama a atenção para a
penetração do grande capital nacional e internacional na disputa pelo espaço
urbano, o que produz transformações nos marcos institucionais e nas modalidades
de gestão pública, com a privatização da cidade e a concentração de capitais. A
esse projeto de cidade empresarial privada no qual a urbe é normatizada a
partir da perspectiva mercantil, se oporia uma visão crítica da gestão pública,
que propõe um modelo de gestão participativa. Entretanto, no lugar do
planejamento moderno, fortemente marcado por uma ação diretiva do Estado,
predomina um planejamento competitivo, que se pretende flexível, amigável ao
mercado (market friendly), orientado pelo e para o mercado (market oriented),
que possui como ideário a "cidade-empresa" (Vainer, 2011). Neste modelo ocorre
um deslocamento do processo decisório desde os conselhos participativos para as
corporações em relação estreita com os governantes.
A remoção dos moradores do pico demonstra bem esse processo decisório cerrado,
o que gera enormes desconfianças por parte dos moradores e resistências em
aceitar os argumentos apresentados pela Prefeitura. Organizados em defesa da
sua permanência, utilizando recursos técnicos como contralaudos sobre riscos de
desabamento e também recursos políticos, como mobilização de vereadores e
exigência de que sejam ouvidos pelos dirigentes da Prefeitura, os moradores
denunciam tanto o modelo decisório quanto a vinculação dessas medidas aos
interesses empresariais.
Outra insegurança que apontaremos aqui está diretamente associada ao custo de
vida no morro após a maior inserção do Estado. Conforme destacado na categoria
formalização, o aumento dos custos associado à regularização dos serviços de
energia elétrica, água e TV por assinatura sobrecarrega o orçamento do morador
da favela. Além disso, alguns moradores do Santa Marta apontam que os preços
praticados pelas biroscas e pequenos comércios, como bar, padaria e restaurante
também tiveram os preços inflacionados pelos novos custos com os quais devem
arcar e pela procura de uma clientela com maior poder aquisitivo que tem
frequentado a comunidade.
Os preços aumentaram muito, porque como agora eles vão ter que pagar
taxas também, agora eles pagam luz e os outros impostos que se tem,
tudo está muito mais caro. A comunidade está assim, fora da
realidade. Não se vende mais pra pessoas que ganham um salário
limitado; as coisas estão bem altas. Estão voltados mais pro pessoal
de fora. Com certeza. Com certeza! Antigamente, você descia, pedia
uma pizza aí família, R$ 10,00; hoje em dia, é R$ 25,00. O
refrigerante, que antigamente você comprava por R$ 3,00, R$ 3,50,
hoje em dia é R$ 6,00. O açaí, que você comprava por R$ 1,00, hoje em
dia é R$ 2,50. Então assim, foi muito... O pãozinho, que era R$ 0,10,
hoje em dia é R$ 0,25. Uma caixa de leite, você vai comprar na
padaria, é R$ 5,00. Porque o rapaz da pizza continua trabalhando sem
os padrões que a Vigilância Sanitária exige, mas ele aumentou porque
ele está pagando luz, aumentou porque o turista está subindo,
aumentou porque está tendo vários eventos no Cantão, e assim, ele...
Está sendo abusivo; está sendo muito abusivo.
O aumento do preço dos aluguéis também traz insegurança para aqueles que não
possuem casa própria. Na parte alta da comunidade houve uma valorização de
200%, enquanto na parte baixa a valorização foi de 74%, como mostra a tabela a
seguir.

Os trechos seguintes expressam a preocupação de alguns moradores entrevistados
no que tange ao aumento da demanda e consequente valorização das moradias:
[...] a gente não está encontrando casa porque você não encontra casa
pra alugar no Santa Marta, e, quando você encontra, é R$ 600,00,
R$ 500,00, R$ 550,00, e está muito fora da nossa realidade [...].
Por exemplo, hoje em dia quem tem as suas casas, não querem mais
alugar pra moradores do Santa Marta, ou pra uma família que vem do
Nordeste, e que precisa trabalhar aqui; eles querem alugar como se
fosse um albergue, que é pra turista, temporada. Assim, mudou muito.
Foi uma das coisas que mudaram. Tudo está voltado assim: "Vou vender
pros turistas. Eu vou ganhar através dos turistas".
A insegurança maior que tanto preocupa os moradores é o risco de uma remoção
camuflada, que vem sendo chamada de "remoção branca", pois não se daria de
forma violenta e impositiva, mas por pressão do mercado. Uma comunidade como o
Santa Marta, bem localizada na Zona Sul da cidade, com o plano inclinado que
favorece o acesso às partes altas do morro, apesar dos constantes problemas,
sem tráfico armado, pode facilmente atrair o interesse de especuladores
(Mattar, Chequer e Dias, 2010). Assim, o aumento dos custos dentro da favela-
modelo é fator de pressão para a saída dos atuais moradores.
Outros entrevistados demonstram inquietude e insegurança ao falar da atuação do
Estado e do mercado na comunidade. Para alguns, a favela está sendo oprimida e
até expulsa pelas ações do governo, que atuaria somente para construir
conjuntos habitacionais distantes da área central, ou seja, o processo de
gentrificação. Acreditam que o Santa Marta está sofrendo uma grande exploração
econômica, o que agrava a sensação de rivalidade entre morro e asfalto, com
este sendo percebido como oportunista ao querer aproveitar economicamente a
situação de tranquilidade na favela e ao mesmo tempo desrespeitando aqueles que
ali habitam.
Eles estão com essa preocupação de tirar a bandidagem, né, o tráfico
armado, por conta das Olimpíadas e tal, pra estar vindo pra cá com
uma espécie de segurança, mas eles estão oprimindo as pessoas dentro
da comunidade, porque tem muitas pessoas aqui que estão... Eu
acredito que o governo está trabalhando de maneira assim, a expulsá-
los, convidá-los a se retirar daqui, porque a gente está com a conta
de luz... a gente já é rua; rua, casa paga IPTU e vários outros
atributos, tem várias taxas: taxa de incêndio, taxa de limpeza. Quem
vem morar na comunidade, veio fugindo desses impostos, veio correndo,
se escondendo desses impostos por não ganhar o suficiente pra poder
pagar. Se você for botar na ponta do lápis todos esses encargos,
quanto que não vai dar? E aí a empregada doméstica, a patroa dela vai
aumentar o salário dela porque agora ela paga luz, porque agora ela
paga água, porque agora ela vai pagar taxa de iluminação, vai pagar?
Não vai, não vai mudar. Então, vai chegar num ponto que essas pessoas
não vão conseguir se manter aqui, e vão sair; o governo vai construir
conjuntos habitacionais lá, em Saracuruna, lá, em Seropédica, lá, não
sei onde, e vai convidar essas pessoas a irem pra lá, porque elas não
vão ter condições de se manter dentro da Zona Sul. Um aluguel aqui
está R$ 600,00.
O termo gentrificação tem sido usado correntemente pelas lideranças nas
reuniões das favelas do Rio. Um reflexo do ideário cidade-empresa, apesar de
não estar restrito a ele, é o processo de gentrificação11, ou enobrecimento
urbano. O termo faz referência ao processo de conversão de áreas habitadas por
uma população de menor poder aquisitivo para uma vizinhança com poder
aquisitivo maior (Smith, 1979) por meio de uma estratégia do mercado
imobiliário normalmente associado a uma política pública de revitalização
dessas áreas degradadas, visando a torná-las mais atraentes ao grande capital.
Segundo Smith (2002), o processo de gentrificação, que inicialmente era
esporádico e local, é agora profundamente generalizado em âmbito global. O
Estado de tendência neoliberal se torna muito mais um agente do mercado do que
um regulador deste, deixando de atuar no sentido da reprodução social e
priorizando o capital produtivo. Nesse contexto, a gentrificação pode agravar
os já existentes problemas sociais quando a legislação não protege os moradores
das áreas afetadas.
A cidade comemora a retirada do domínio armado do tráfico na favela,
possibilitando a inserção mais efetiva do Estado e da ordem. Contudo, ignoram-
se os problemas causados aos moradores da favela pela exploração econômica que
acompanha a nova ordem, como as inseguranças e o medo da remoção branca. Ao
contrário, tal exploração é socialmente aceitável e até estimulada ao ser
percebida como um processo natural.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A política pública das UPP no Rio de Janeiro tem sido vista como a
possibilidade de devolver à cidade a sensação de segurança de que ela carece.
Para além dos efeitos pretendidos, de resgatar os territórios do domínio do
tráfico, devolvendo ao Estado o monopólio da coerção, a política de pacificação
tem propiciado uma rearticulação entre Estado, mercado e comunidade que merece
ser analisada. Este foi o propósito do estudo de caso realizado na favela Santa
Marta, tomando como foco a percepção dos agentes envolvidos, tanto do mercado
quanto da comunidade. A necessidade de estudar o fenômeno se mostrou evidente,
uma vez que há, de fato, uma nova dinâmica de relações entre agentes políticos,
econômicos e sociais, que está sendo desenhada de tal forma que esta nova
cartografia indica um direcionamento induzido pela política pública que
transcende os objetivos e metas anunciados. Tal aspecto é de fundamental
importância ao se avaliar os efeitos da política pública em questão, tendo em
conta a assimetria de poder e recursos entre os três agentes envolvidos.
A ocupação policial da favela Santa Marta, antes controlada pelo tráfico, e a
maior inserção do Estado significou um importante tônico para os negócios de
algumas empresas, bem como para o aumento na arrecadação de impostos. Ao mesmo
tempo em que os moradores apreciam a facilidade de acesso a certos produtos e a
melhoria na prestação dos serviços de TV por assinatura e luz, veem o orçamento
doméstico ser reduzido pelo gasto extra. Corre-se, pois, o risco de que esta
política tenha como trade-off o empobrecimento da população, enquanto o governo
tem como meta a redução da pobreza.
A expansão de mercado, propiciada pela maior inserção do Estado, permite que
cheguem alguns benefícios, como serviços de melhor qualidade, diversidade na
oferta, conhecimento, oportunidades de fontes de renda e de capacitação. Assim,
aqueles que têm mais capacidade de aproveitar a oportunidade, de lucrar, são
beneficiados pela nova realidade, enquanto outros tantos vivem na insegurança.
Neste sentido, a ideia de uma sociabilidade comunitária é, de certa forma,
corroída pelo individualismo que o mercado provoca, cada um tentando garantir o
seu quinhão. A maior entrada do mercado provoca disputas e prevalência de
interesses pessoais, pois ele não atua de forma especificamente solidária.
Apesar das ações de responsabilidade social que estão ocorrendo e das muitas
ações de diferentes órgãos públicos, o propalado imaginário do jovem
empreendedor em substituição ao do traficante poderoso envolve um elevado grau
de ilusão, já que poucos possuem habilidades, ou terão oportunidades de atingir
este ideal.
Enquanto alguns empreendedores aproveitam o aumento do turismo e da circulação
de pessoas de maior poder aquisitivo para desenvolver iniciativas lucrativas de
lazer, muitos moradores sentem que o espaço de lazer foi restringido, pois a
quadra da escola de samba passou a abrigar festas caras, a Laje do Michael
Jackson recebe frequentadores da rua para evento de samba, os preços praticados
pelos bares aumentaram, ou seja, há um processo de mercantilização dos espaços
sociais que segrega a população favelada dentro da própria comunidade.
Indubitavelmente, a população que ali reside percebe que a segurança física
proporcionada pela presença do policiamento comunitário ostensivo viabiliza a
entrada de outras ações de cunho social e de serviços públicos, bem como de
novos interesses. Os moradores, em sua maioria, sentem mais segurança e
percebem que, por meio dela, o Santa Marta ganhou visibilidade na mídia e
perante a cidade. Contudo, nem todos terão condições de arcar com o preço da
paz, o que gera insegurança. Aqueles que não conseguirem agarrar as
oportunidades que têm surgido e que não têm condições de arcar com o aumento do
custo de vida, possivelmente reduzirão o padrão de vida ou terão que sair da
comunidade para locais mais afastados. O possível processo de gentrificação das
zonas pacificadas adiará a solução dos problemas habitacionais e urbanos ao
varrer a pobreza para áreas afastadas da cidade, onde há escassez de transporte
público, de hospitais e escolas, além de outros serviços públicos.
O aumento do custo de vida na comunidade significa algo além do empobrecimento,
pois a privação relativa de rendas pode resultar em privação absoluta de
capacidades. Participar da vida da comunidade, em sentido amplo, está associado
às exigências contextuais, que são cada vez mais rigorosas. Apesar de a grande
maioria dos moradores ter sentido o impacto da cobrança de luz em seus
orçamentos e o empobrecimento que o novo custo tem gerado, a política de
regulação da Aneel demonstra a importância que este tipo de atuação estatal tem
quando a questão é proteger os mais vulneráveis. Ademais, os efeitos da
regulação não se restringem aos mais pobres, pois promove um bem público ao
reduzir o desperdício, as disparidades e a poluição. Há neste fato, portanto,
sinergia entre mercado, Estado e sociedade.
A chegada de diferentes projetos de capacitação à comunidade nesse período de
rearticulação entre poder público, empresariado e a própria comunidade é
percebido por alguns moradores como uma ampliação das oportunidades. Contudo,
outros questionam o fato de elas estarem limitadas a subempregos e afirmam que
não atendem aos anseios dos moradores, em especial aos dos jovens, grupo que se
supõe mais vulnerável à influência dos traficantes.
Ademais, há grande preocupação quanto à sustentabilidade do projeto UPP, que,
para alguns moradores, tem seu fim marcado para após os jogos olímpicos de
2016, que serão realizados na cidade. Tal preocupação leva-os a agir com
prudência quanto às associações que fazem e quanto ao que falam, pois se sentem
em um terreno ainda minado. Chega ao ponto de que aqueles que obtiveram sucesso
empresarial com a chegada da UPP pensarem na necessidade de sair do morro caso
o projeto chegue ao fim, devido ao medo de represálias pelo seu alinhamento às
forças dominantes na situação atual.
A história nos mostra que o Estado tem papel primordial na compatibilização
entre mercado e a segurança do cidadão visando o enriquecimento da vida
civilizada com a redução do risco e da insegurança. Sem proteção e regulação
estatal, os moradores da favela veem os direitos de cidadania ameaçados pela
crescente especulação mercadológica e imobiliária, além de sofrerem o
empobrecimento causado pelo aumento do custo de vida. Temem que isto resulte em
um processo de remoção branca e começam a se organizar para fazer frente às
políticas urbanas que não foram acordadas com a comunidade. A mobilização em
torno da maior transparência das políticas e na regulação do mercado vem sendo
demandada pela comunidade, cujo histórico de lutas para conquistar os
benefícios mínimos da vida urbana, produziu atores respeitados dentro da
favela.
Estes realizam trabalho de conscientização quanto à clientela que os
empreendedores locais buscam atender, ou seja, moradores ou visitantes;
convocam reuniões para discutir com a comunidade preocupações comuns; e
reivindicam ativamente maior regulação e proteção do Estado, tendo em conta que
a condição de cidadania não pode desconhecer as enormes desigualdades
existentes entre a população da favela e os moradores do bairro no seu entorno.
Igualar seus deveres de consumidores é visto como uma "cidadania de exceção",
já que não desfrutam no morro dos bens públicos que são oferecidos pelo Estado
à população do asfalto.
O medo da exclusão, sentimento fortemente presente na favela Santa Marta
atualmente, tem a ver, em grande parte, com as demandas de proteção contra os
avanços desregulados do mercado. A sensação de que a comunidade está sendo
explorada economicamente e que está à mercê da insegurança e da especulação,
sem que seus moradores tenham uma proteção estatal eficaz, gera grandes
inseguranças. O risco atrelado a esse movimento está no fato de que tal
exploração é socialmente aceita e até estimulada, eclipsando seus efeitos
deletérios.
A importância destes resultados está em mostrar que há uma demanda cidadã para
que o poder público utilize os instrumentos de regulação e de proteção social
para evitar que os interesses comerciais se sobreponham aos interesses sociais,
defendidos durante toda a história de resistência e construção de uma
identidade própria desta comunidade. A disjuntiva entre o domínio do tráfico ou
a paz da UPP tende a colocar os moradores da favela sem a liberdade de escolha
de suas preferências, desconhecendo, ademais, as enormes desigualdades
existentes na distribuição de recursos e acesso aos bens públicos que persistem
na favela e na relação com seu entorno. Preocupante é que a favela tenha se
tornado, em si mesma, uma mercadoria, desconhecendo a cidadania e a
sociabilidade ali existentes, cuja memória os moradores insistem em preservar
para garantir sua identidade e evitar que sejam assimilados como meros
consumidores em um tecido urbano revigorado pelo mercado.
Na ausência de liberdade e igualdade, que só poderão ser garantidas por uma
presença estatal cujas políticas públicas reconheçam a necessidade de
equacionar de forma favorável à comunidade sua nova inserção urbana e social, o
risco de que sejam tratados como meros consumidores é iminente. Assim, com o
mercado subindo a favela como fruto da ação estatal, o que se coloca no cenário
é a demanda de que a cidadania seja também garantida pelas políticas públicas.
Se isto não acontecer, a subida do mercado ao morro pode vir a representar a
descida da cidadania, com a expulsão da população favelada para novas áreas
longínquas e desprovidas de serviços na periferia urbana. Se a equação
equilibrada entre Estado, Mercado e Comunidade foi historicamente possível,
esta questão está, hoje, na nossa agenda pública e requer uma resposta que
preserve todos seus componentes. A condição de cidadania tem como pressuposto a
presença do Estado como garantia da ordem policial e jurídica, mas seu
exercício só se efetivará em condições de expansão das capacidades de forma a
desenvolver as potencialidades individuais. Isto requer o reconhecimento das
desigualdades de acesso da população aos bens públicos e proteção diferencial
contra uma mera inserção igualitária no mercado de consumo. Se não for assim, o
mesmo movimento visto como sucesso da política de pacificação, medida pela
subida do mercado ao morro, poderá indicar seu fracasso, com a consequente
descida da cidadania.
NOTAS
1. Como o IETS (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade), e a Casa das
Garças - Instituto de Estudos de Política Econômica.
2. Há polêmica em torno do nome e de qual vem a ser sua origem, inclusive entre
os próprios moradores. Segundo alguns, uma imagem de Santa Marta foi colocada,
ainda na década de 1920, no alto do morro por uma moradora. Como o local se
tornou lugar de celebração religiosa, padre Velloso, do Colégio Santo Inácio e
figura importante para a comunidade, optou por construir uma pequena capela
para abrigar a imagem (Cunha e Mello, 2011). Outros, no entanto, afirmam que o
nome do local se deve à sua antiga proprietária, que permitiu que aquelas
pessoas ali vivessem e foi homenageada por elas ao darem seu nome, Dona Marta,
ao morro. A confusão ficou mais marcante quando, na década de 1980, a mídia
passou a se referir à comunidade como Dona Marta, nome do morro no qual se
encontra e do mirante localizado no pico. De acordo com relatos de moradores,
os evangélicos se apropriaram do nome e passou a haver uma disputa simbólica em
torno dele. Apesar do Decreto de 13 de novembro de 2007, do então prefeito
César Maia, fixar o nome Dona Marta para o morro (acidente geográfico) e Santa
Marta para a comunidade, ainda há troca de nomes tanto pela mídia como até
mesmo em documentos produzidos por órgãos públicos. A favela Santa Marta está
localizada no morro Dona Marta, no bairro de Botafogo, Zona Sul da cidade do
Rio de Janeiro, em uma área de 54.692 m2. Sua expansão está hoje limitada, ao
lado direito, pelo plano inclinado e, ao lado esquerdo, por um muro, que separa
a favela do terreno onde se encontra a sede da Prefeitura, construído em 2009,
sob o argumento de que a intenção era proteger a vegetação nativa remanescente.
3. De acordo com o Censo de 2010, o Santa Marta possui 3.913 habitantes.
Contudo, com a população do asfalto no trecho contíguo à favela e na área da
UPP, também conhecido como franja, o número de pessoas se aproxima de cinco
mil.
4. Apesar de relatos etnográficos apontarem grande dificuldade na abordagem de
possíveis entrevistados dentro do Santa Marta, deparamo-nos com somente uma
resistência, qual seja, a de um famoso empreendedor local, do qual tomamos
conhecimento por meio de reportagens. Dono de uma barbearia e de cinco imóveis
no espaço comercial mais privilegiado na comunidade, a Praça Cantão, os quais
costuma alugar para moradia ou para empreendimentos comerciais, que inclui o
imóvel onde foi instalada uma miniloja da rede Casa & Vídeo, foi apelidado
de "Eike Batista do Santa Marta" por uma reportagem de revista, fazendo
referência ao bem-sucedido empresário brasileiro. Ao abordarmos o famoso
comerciante, ele argumentou que já estava cansado de dar entrevistas e que
havia passado a cobrar por elas. Esta foi, portanto, a única resistência que
encontramos nas abordagens para as entrevistas.
5. Grupo formado por lideranças e moradores que começou com a criação de um
jornal comunitário, em 1976, e cresceu ao se engajar em atividades de mutirão e
mobilização.
6. Remoção branca refere-se à criação de condições que impedem a continuidade
dos moradores no local, como por exemplo, a cobrança de impostos ou especulação
imobiliária.
7. A coordenadora de programas do Sebrae-RJ em comunidades pacificadas, Carla
Teixeira, afirma faltarem dados precisos sobre o empreendedorismo nas favelas.
Uma pesquisa encomendada pelo Sebrae ao IETS pretende detalhar as
características dos negócios nesses locais.
8. O teto citado foi retirado em 31 de dezembro de 2011. Portanto, a partir de
fevereiro de 2012, os moradores do Santa Marta passaram a pagar integralmente
pela energia consumida.
9. Fundação de Apoio à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro. Criada em
1997, está vinculada à Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia (SECT).
Oferece educação profissional gratuita, em diversos níveis de ensino.
10. Laje com a estátua do cantor, celebrando o fato de que ali ele gravara um
vídeo para lançamento de seu disco.
11. No original, gentrification. A expressão da língua inglesa foi usada pela
primeira vez pela socióloga inglesa Ruth Glass, em 1964, ao analisar as
transformações imobiliárias londrinas. Gentry significa "bem nascidos".