Weber no Século XXI: Desafios e Dilemas de um Paradigma Weberiano
Desde meados dos anos 1970, Heidelberg tem sido o palco de intenso trabalho de
clarificação e atualização do pensamento weberiano. Em sua primeira fase, este
esforço concentrou-se em um longo projeto de reinterpretação de sua obra.
Denominado por alguns Weber-Renaissance, a hermenêutica do pensamento weberiano
ocupou várias décadas de trabalho e significou uma espécie de reimportação da
exegese weberiana da paisagem norte-americana para o campo acadêmico alemão. No
pós-guerra, o eixo de gravidade de leitura e difusão da obra de Weber
concentrou-se nos Estados Unidos, onde Talcott Parsons alçou Weber ao panteão
sociológico ao lado de autores como Émile Durkheim, Vilfredo Pareto e Alfred
Marshall. Nas décadas seguintes, a leitura normativista e evolucionista de
Weber, proposta por Parsons, foi contestada por uma nova onda de pesquisadores
alemães emigrados em terras norte-americanas. Liderada por nomes como Reinhard
Bendix e Guenther Roth, a dimensão histórica e política do pensamento weberiano
foi recuperada, resultando em um conflito aberto entre uma visão evolucionista
e historicista de interpretação dos textos weberianos.
Um artigo seminal de Friedrich Tenbruck de 1975 transporta esta discussão para
a Alemanha e propõe, contra a interpretação dominante (representada na Alemanha
por Johannes Winckelmann), que não "Economia e Sociedade", mas "A Ética
Econômica das Religiões Mundiais" seria o eixo da teoria weberiana da
modernidade, concebida como uma forma de evolucionismo idealista. Tal artigo
gerou uma intensa discussão à qual reagiram estudiosos como Jürgen Habermas
(1981) e, especialmente, Wolfgang Schluchter (1981). Este último, em
particular, liderou um projeto que, durante décadas, produziu um novo padrão de
leitura dos escritos de Weber. No centro desta leitura estava a tentativa de
integrar a leitura evolucionista e historicista em um modelo denominado
inicialmente desenvolvimental history (Entwicklungsgeschichte) e a tese de que
seria o problema da determinação da gênese e das características do
racionalismo ocidental e moderno o coração das investigações teóricas e
empíricas de Max Weber. Embora a leitura proposta por Schluchter não seja
aceita de forma unânime1, pode-se dizer que ela se tornou uma referência
internacional de interpretação do pensamento de Weber.
Após este primeiro grande esforço de interpretação exegética e hermenêutica do
pensamento weberiano, uma segunda geração de pesquisadores, de forma geral,
também radicada em Heidelberg, vem procurando retomar esta leitura e direcioná-
la no sentido da atualização da sociologia weberiana. Neste prisma, a pergunta
que se coloca não é o problema hermenêutico de intelecção das intenções dos
escritos weberianos, mas a pergunta teórica sobre a validade e a utilidade dos
textos e ideias de Weber para a resolução dos problemas teóricos e empíricos
presentes na agenda da sociologia contemporânea: não tanto o que Weber teria
dito ou pensado, mas o que se pode fazer com seu pensamento nos dias de hoje,
eis a pergunta central.
Os primeiros resultados desta busca são visíveis em um seminário realizado em
Heidelberg, no ano de 2003. A coletânea que materializa os resultados deste
encontro já mostra, em esboço, em que direções a pergunta acima procurou ser
respondida. Conforme as contribuições dos expositores (Albert et al., 2003), a
discussão concentrou-se nos fundamentos epistemológicos, na teoria da ação, nas
instituições e ordens sociais e na dimensão da cultura e da conduta de vida.
Esta primeira tentativa de atualização da sociologia de Max Weber também
mostrou um desacordo sobre o caráter deste empreendimento, concebido por um
determinado grupo como a tentativa de fixação de um "paradigma" (Lepsius, 2003:
33-41 e Albert et al., 2006) ou, de outro lado, como a proposta mais modesta de
um "programa de pesquisa" (Schluchter, 2005:42-76) de orientação weberiana.
A divergência sobre as vias de atualização da teoria sociológica de Weber não
se resume apenas a sua natureza epistemológica, mas estende-se também sobre o
próprio conteúdo das questões e problemas a serem trabalhados e aprofundados.
Desta feita, conforme a sistematização de Wolfgang Schluchter, um "programa de
pesquisa de orientação weberiana" estaria assentado em dez premissas
fundamentais: 1) racionalismo crítico; 2) tipos-ideais; 3) compreensão
explicativa; 4) racionalismo heurístico; 5) individualismo metodológico; 6)
análise de múltiplos níveis; 7) orientação por resultados ou valores
intrínsecos; 8) discussão sobre valores; 9) conflitos de classe, de ordens de
vida e de instituições e 10) personalidade. Gert Albert (2010), ao contrário,
propõe explicitamente um "paradigma weberiano", embora explique que empregue o
conceito de paradigma não no sentido de Thomas Kuhn, mas na acepção que lhe é
dada por Robert Merton, qual seja, como um programa de pesquisa de médio
alcance. Na visão deste último autor, a agenda a ser incluída no
desenvolvimento deste paradigma inclui três grandes eixos que dizem respeito a
problemas ontológicos, metodológicos e empíricos.
De novo, apesar da diferença terminológica empregada e, especialmente, do
espectro de problemas a serem enfrentados, destaca-se o fato de que o projeto
de recolocar o pensamento weberiano como uma proposta concorrente no quadro das
teorias sociológicas atuais preserva o espírito não dogmático contido nas
premissas da teoria de Max Weber. Isto significa que, em nenhum dos casos acima
apontados, trata-se da tentativa do monopólio de fixação dos parâmetros
epistemológicos, metodológicos ou substantivos da pesquisa sociológica, mas tão
somente do esforço de alçar o pensamento weberiano a uma proposta concorrente
no atual quadro multiparadigmático da ciência sociológica.
De um lado nota-se o esforço de desfossilizar a obra de Max Weber que, na
condição de clássico, fica reduzido à condição de autor canônico e rotinizado
na formação de cientistas sociais e fonte de citações ou empréstimos
conceituais topicamente orientados em função de pesquisas específicas e
localizadas, mas não uma fonte de problemas teóricos e empíricos que mobilizam
a discussão científica. Por outro, este esforço de atualização, mais do que
sistematizações teóricas amplas, tem se preocupado com o aprofundamento de
áreas específicas da investigação social. Nesta direção, os pesquisadores de
Heidelberg têm orientado as baterias weberianas na direção de discussões
empíricas no campo da sociologia política (Lepsius, 1990), da teoria das
organizações e instituições sociais (Stachura et al., 2009), da religião
(Bienfait, 2011), da diferenciação social (Schwinn, Kroneberg e Greve, 2011),
das desigualdades e configurações sociais (Sigmund e Albert, 2008) e até das
formas contemporâneas de capitalismo (Pohlmann, 2006). Um amplo espectro de
questões que mostra muita vitalidade e disposição de inovação.
Longe de perseguir direções tão distintas de trabalho, este texto procura
sistematizar e discutir criticamente dois tópicos da agenda desenvolvida por
seus proponentes, ambos situados nas pontas deste grande projeto teórico: 1)
seus fundamentos teórico-metodológicos [Sozialtheorie] e 2) sua teoria da
sociedade moderna [Gesellschaftstheorie]. Tenho consciência de que tal escolha
restringe o horizonte da discussão a apenas dois itens, desconsiderando,
inclusive, outros autores contemporâneos que também partem de Weber. De fato,
importa lembrar que não se trata de sustentar que existe apenas um paradigma
weberiano, e que diversos desdobramentos de sua obra são possíveis e igualmente
válidos2. Da mesma forma, cabe justificar que, embora me concentre apenas
nestas duas questões, julgo que elas são estratégicas para caracterizar as
discussões que, buscando atualizar Weber, desenrolam-se, hoje, na Alemanha. Se
elas não recobrem todo o amplíssimo espectro de questões da discussão sobre a
obra do autor, fornecem, contudo, um panorama significativo do que poderia ser
elevar seu pensamento a posto de "paradigma sociológico" contemporâneo, abrindo
espaço para delinear algumas das contribuições, mas também dos problemas que
tal tentativa engendra.
A partir deste recorte, o primeiro desses tópicos concentra-se em determinar a
posição do paradigma weberiano em relação ao problema contemporâneo das
relações entre "micro e macro" na teoria social, e o segundo debruça-se sobre a
tentativa dos teóricos neoweberianos em oferecer uma alternativa ao debate
sobre o caráter da modernidade em tempos atuais. Ambos os tópicos serão
esboçados e desembocam em uma avaliação preliminar das contribuições, limites e
impasses que tal proposta tem enfrentado.
WEBER NO DEBATE INDIVIDUALISMO VERSUS HOLISMO: PRIMEIRA, SEGUNDA OU TERCEIRA
VIA?
Conforme Jeffrey Alexander (1987), desde meados dos anos 1980 a sociologia
caminha na direção de um "novo movimento teórico". No seu entender, após o
predomínio das concepções macrossociológicas e das reações contrárias, de tipo
microssociológico, são as tentativas de integração de ambas as abordagens que
predominam. Tentando reconciliar individualismo metodológico, de um lado, e
holismo metodológico, de outro, nomes como Pierre Bourdieu, Anthony Giddens,
Margareth Archer ou mesmo Jürgen Habermas seriam algumas das referências na
busca de integrar "agente" e "estrutura" em um modelo teórico sintético que
contemple o papel das duas variáveis em questão
3
.
Neste debate já é mais do que usual a apresentação de Weber como o protótipo
por excelência da concepção individualista. Partindo de suas próprias
declarações, o indivíduo seria o átomo de seu método sociológico. Tal
declaração, contudo, não nos deve conduzir tão rapidamente à tese de que Weber
seria o nobre ancestral do qual derivam todas as vertentes do individualismo
metodológico. Mesmo que ele tenha se declarado abertamente contra uma visão
organicista de sociologia, não era nos termos "individualismo" x "holismo" que
o debate metodológico de seu tempo se efetuava e não é exatamente a este
problema que sua obra responde. Tal enquadramento é fruto da própria
institucionalização da sociologia como ciência e de seus debates internos. Por
isso, nem todos os comentadores são concordes em adjudicar a Weber o posto de
patrono da primeira posição, advindo daí posições mais matizadas, como aquelas
que podemos encontrar em Guenther Roth (1968) ou Gabriel Cohn (2003), por
exemplo. Ambos evitam o rótulo por demais fácil de "individualista
metodológico". Tais autores nos convidam a ir além das apresentações históricas
e de caracterizações didáticas, nas quais Weber ocupa o reduzido posto de
precursor. Indo além do papel histórico e modelar, a pergunta que se coloca é:
qual o lugar e qual a contribuição efetiva que o pensamento de Max Weber pode
oferecer para o atual debate micro-macro na Sociologia? Para responder a esta
pergunta, vou servir-me de dois autores do "neoweberianismo" situando a
contribuição do primeiro (Schluchter) no plano micro e a contribuição do
segundo (Albert) no plano das relações entre a escala micro e a escala
macrossocial.
Nossa reflexão começa, pois, tomando como ponto de partida o fundamento
incontornável da sociologia weberiana: sua teoria da "agência" social, qual
seja, vamos partir do plano micro. A mais do que célebre tipologia das formas
de ação, apresentada por Weber em Economia e Sociedade, por suposto conhecida,
não necessita aqui ser recapitulada. De fato, mais complexa se torna a
exposição se perguntarmos sobre qual a natureza epistemológica da concepção de
ação que preside a explanação weberiana, tema ao qual Wolfgang Schluchter busca
dar uma resposta exegeticamente fundamentada e teoricamente plausível. Após uma
primeira tentativa de sistematização da teoria weberiana da ação, em que se
propunha a ordená-la a partir de quatro elementos (fins, valores meios e
efeitos), presentes em uma escala decrescente em cada um dos tipos de ação, o
perito apresentou nova proposta, em 19964. Em termos sistemáticos, Schluchter
(2000) preocupou-se em situar a sociologia weberiana no quadro das disputas do
meio sociológico alemão, no qual a teoria dos sistemas de Niklas Luhmann
(holismo metodológico), a teoria da escolha racional e a teoria da ação
comunicativa de Jürgen Habermas (individualismo metodológico) ocupavam a cena
teórica. Situando a sociologia de Weber neste segundo lado, ele procurou
defendê-la do reducionismo economicista que lhe era atribuído positivamente
pela teoria da escolha racional ou negativamente pela teoria da ação
comunicativa. O que Schluchter contestava, acima de tudo, era a prioridade
analítica (quando não exclusividade) que ambas as abordagens atribuíam ao tipo
"ação racional com relação a fins" no esquema weberiano (primado do homo
economicus). Ao mesmo tempo, ele procurou mostrar em que medida o
individualismo metodológico de Weber era imune à crítica da "filosofia da
intersubjetividade" de Habermas.
Na sua elaboração teórica, Schluchter (2009) utiliza-se, enquanto instrumento
auxiliar, do esquema desenvolvido por Hartmut Esser (1993), autor que, apesar
de se situar claramente no plano da teoria da escolha racional, não professa
qualquer forma de atomismo social que negue substancialidade ao nível das
instituições sociais. Segundo Esser, a tarefa fundamental da sociologia é
explicar fenômenos de nível macro, embora seu ponto de partida sejam sempre
seus microfundamentos. A partir desse pressuposto, a análise social precisa
distinguir três momentos diferentes. O primeiro refere-se à lógica da situação
e diz respeito às influências das estruturas sobre o nível da ação (macro-
micro). O segundo momento - situado por inteiro no plano micro - refere-se à
lógica da seleção e envolve as linhas de ação escolhidas pelo ator (micro-
micro). O terceiro nível é denominado lógica da agregação e diz respeito aos
influxos da escala micro sobre a escala estrutural (micro-macro). Este esquema
é particularmente útil para Schluchter porque lhe permite diferenciar em Weber
um plano micro e um plano macro claramente demarcados: a sociologia weberiana
seria, sob este prisma, um modelo teórico de múltiplos níveis [Mehr-Ebenen-
Modells]. Nesta direção, o plano micro envolve os mecanismos de orientação da
ação e diz respeito à tipologia weberiana das ações sociais. Já o plano macro
envolve a transição para os mecanismos de coordenação da ação, incluindo tanto
as relações sociais quanto sua configuração em ordens sociais motivadas por
interesses (como o mercado) ou segundo princípios normativos (como a esfera
política e jurídica), incluindo ainda a institucionalização destas relações em
organizações formais (administrativas ou políticas). Finalmente, em um terceiro
nível, ainda mais amplo, Weber apresenta uma teoria da cultura que se refere à
forma como modos de orientação da ação e estrutura sociais estão
institucionalizados em civilizações historicamente determinadas. Vejamos como
Schluchter interpreta a obra de Weber no que diz respeito ao plano
microssociológico.
O ponto de partida da sociologia individualista de Weber é a diferenciação
entre "comportamento" (Verhalten) e "ação" (Handeln), o que significa que o
elemento que define a ação é um sentido subjetivamente visado, ou ainda, a
diferença entre comportamento motivado ou não (somente este último é passível
de compreensão). A partir deste fundamento, Weber constrói uma tipologia dos
mecanismos de orientação da ação que obedece a uma escala que passa das ações
irracionais para as racionais (perspectiva ascendente). No ponto de partida
estão as ações habituais rotinizadas que envolvem o mínimo de consciência dos
planos de ação, pois estes estão subconscientemente incorporados. De outro lado
estão as ações afetivas que obedecem a reações espontâneas e, neste sentido,
são inconscientes. Para Schluchter, interpretando Weber, os dois casos se
referem a formas de ação que não são passíveis de racionalização. No plano
posterior das formas de ação racionais encontram-se, em igual nível, aquelas
que são reguladas por máximas práticas (ação racional com relação a fins) que
se orientam pelo sucesso ou por máximas imperativas (em que o fundamento da
ação é uma afirmação de princípio) nas quais a representação da validade em si
é o móvel da ação. Conforme a concisa descrição de Schluchter (2009:129):
Nós podemos ordenar as formas de orientação da ação segundo uma ordem
lógica conforme elas são passíveis de classificação segundo as
possibilidades dos fins visados. Conforme esta sequência podemos
dizer: uma ação obedece a um hábito ou não? Se não obedece a um
hábito, ela pode ser espontânea ou orientada por regras e, quando
orientada por regras, pode ser orientada por máximas finais ou
máximas normativas.
Fundamental é observar que, na visão deste autor, rejeita-se claramente a tese
convencional segundo a qual a ação com relação a fins tem prioridade analítica
no esquema sociológico weberiano. Schluchter é enfático e insiste na tese de
que o método de Weber é teleológico apenas em sentido amplo, pois ele combina
três elementos: fins (Zweck), meios (Mittel) e, não menos importante, valores
(Wert).
Com base nos pressupostos acima, a reconstrução exegética efetuada por
Schluchter posiciona-se diante das abordagens concorrentes, seja em relação à
teoria da escolha racional que, na prática, restringe-se ao primeiro dos tipos
de ação; ou mesmo em relação à teoria da ação comunicativa que dualiza
normativamente e hierarquicamente entre uma forma de ação teleológica
(atribuída a Weber) e outra forma comunicativa. Para Schluchter, a teoria
weberiana da ação social, na medida em que equilibra o plano "utilitário" e o
plano "valorativo", integra e abrange tanto o modelo de ação orientado por
normas (Talcott Parsons) quanto a ação estratégica (teoria da escolha racional)
sem dualizá-las, remetendo uma ao campo dos sistemas e outra ao campo do mundo
da vida. Schluchter observa ainda que o modelo de ação adotado por Weber não é
intersubjetivo como aquele proposto por Habermas, e se aproxima do modelo
praxiológico que podemos encontrar em Pierre Bourdieu. Não obstante, em termos
weberianos, a proposta bourdiesiana prioriza o nível das práticas sociais
rotinizadas (ação tradicional/habitus), em claro contraste com o pensamento
weberiano que enfatiza a racionalização crescente dos níveis de ação5.
As últimas alusões e confrontações feitas acima (que, obviamente, ainda merecem
ser melhor exploradas) mostram que a interpretação exegética realizada por
Schluchter também está acoplada à intenção de fornecer um marco analítico que
mostra a atualidade da teoria weberiana da ação. No entanto, este debate possui
outro problema central, e ele vai além da mera determinação da natureza da
"teoria weberiana da agência social" isoladamente considerada: trata-se do
problema da articulação entre o plano microfundante da ação social e sua
tradução para o plano emergente da ordem ou das macroestruturas sociais.
Para tratar deste tema, apresento as conclusões de um dos membros mais jovens
do círculo weberiano (Gert Albert), cuja preocupação também é desviar-se de
outro rótulo convencional atribuído a Weber: o individualismo metodológico.
Clássico e pai da teoria da ação social, mas não exatamente um individualista
metodológico. Do que se trata? Já para Thomas Schwinn (1993b), além de
distinguir claramente o plano micro do plano mais amplo das macroestruturas,
não haveria qualquer primado de nenhuma das esferas na sociologia weberiana.
Albert (2005) persegue esta pista e insiste na mesma tendência
antirreducionista presente em Weber. Para chegar a este resultado ele aprimora
a usual divisão entre o individualismo e o holismo distinguindo, em cada uma
delas, uma tendência radical e outra moderada. A diferenciação entre estas
diferentes tendências é feita a partir de três critérios. O primeiro deles é a
concepção de emergência que pode ser de tipo "fraco" ou "forte". A pergunta
aqui é se o nível emergente (no caso, as estruturas sociais) possui
substancialidade própria e independente (irredutibilidade), ou, ao contrário,
requer necessariamente a redução ao nível individual. O segundo critério
pergunta-se pela direção da relação entre os dois níveis e é chamado de
causalidade. Distingue-se uma vertente que apregoa apenas determinações do
nível macro sobre o nível micro ou, ao contrário, admite também a possibilidade
da causação do plano da ação para o plano da estrutura: a questão aqui é de
onde parte o fator causal. O terceiro elemento que compõe o modelo de Albert é
chamado de explicação. Neste caso, a pergunta a ser feita é se estamos apenas
diante de problemas de definição passíveis de clarificação analítica ou se, de
fato, trata-se de uma explicação causal que pode ser, novamente, de tipo
"forte" ou "fraco": o problema central é o tipo (ou qual a natureza) de relação
causal entre o plano micro e o plano macro. Se a redução da estrutura à ação é
necessária, então a explicação é considerada de tipo "forte". Mas, se o nível
macro da ordem social tiver propriedades intrínsecas, ele não requer
necessariamente a redução ao plano dos atores, ou seja, a relação (no nível
explicativo) entre os dois níveis é de tipo "fraco". Retomando e combinando
estes três elementos, Albert identifica quatro modelos de teoria sociológica.
O primeiro destes modelos é o individualismo metodológico moderado (micro-
micro-macro). Ele admite a possibilidade de que o nível estrutural possua
características próprias, mas elas são de tipo "fraco". Isto significa que
alterações nas propriedades do Sistema "S" são possíveis apenas porque foram
verificadas alterações no nível elementar "Y". A causalidade, portanto, vai
apenas na direção do nível micro para o nível macro, não havendo possibilidade
de causação contrária: por isso, trata-se de explicações de tipo "forte" (que
requer sempre o movimento de redução ao plano dos atores). Como exemplo deste
tipo de posição Gert Albert menciona a obra de Hartmut Esser (1993) que, a
despeito de defender claramente as premissas da escolha racional, não advoga um
atomismo extremo que negue a existência de fato de estruturas coletivas.
Na concepção do individualismo metodológico radical (micro-micro), ao
contrário, fenômenos de nível macro não possuem qualquer propriedade emergente
e as possibilidades de causação do nível micro para o nível macro são
simplesmente inexistentes. Nesta visão, fenômenos de tipo coletivo são apenas
arranjos e combinações contingentes de elementos individuais e toda alteração
no conjunto nada mais é que o resultado da alteração de seus microcomponentes.
A causalidade ocorre apenas no nível dos atores mesmos, em termos de suas
relações mútuas, e a relação causal entre o nível macro e o nível micro é
apenas uma questão de esclarecimento analítico-conceitual (não há, propriamente
falando, elementos explicativos).
No campo das teorias adversárias, o holismo metodológico radical ( macro-
macro), consubstanciado em nomes como Peter Blau e o neoinstitucionalismo,
simplesmente exclui o plano micro do horizonte da análise, operando uma
disjunção completa entre o plano macro e o plano micro. O plano macroestrutural
possui um conjunto de propriedades intrínsecas de tipo forte (plano da
emergência) cuja causação atua sobre outras estruturas (causalidade de tipo
forte) e cuja determinação teórica é do tipo sintético.
Finalmente, o holismo metodológico moderado (macro-micro-macro), posição na
qual o intérprete situa Max Weber, caracteriza-se por manter a distinção entre
o plano macro e o plano micro. Esta tendência atribui propriedades emergentes
ao plano macro, mas estas podem ser tanto fracas quanto fortes. Em termos de
causação, este modelo aponta para os reflexos do plano da ação sobre o plano da
estrutura, ao mesmo tempo que não nega a possibilidade dos reflexos do plano da
estrutura sobre o plano da ação. A relação entre o nível macro e o nível micro
não é de tipo forte, pois nem sempre a redução ao plano da ação é necessária
para a análise. Esquematicamente, a tipologia de Albert pode ser apreciada no
Quadro_1.

O que justifica o fato de que, contrariando a compreensão padrão, Albert situe
Max Weber não em uma versão radical ou moderada do Individualismo, mas
justamente na versão mais moderada do Holismo? Neste caso, em vez de fixar-se
apenas nos escritos metodológicos weberianos, o intérprete foi buscar
inspiração nas análises histórico-empíricas do pensador, a começar por A Ética
Protestante e o "Espírito" do Capitalismo. Seguindo aqui uma sugestão aventada
primeiramente por David McCLellan (1961) e depois aprofundada por James Coleman
(1990), ele mostra como o estudo de Weber implica a clara distinção entre dois
níveis da análise sociológica. No centro da análise weberiana encontra-se uma
relação causal entre duas variáveis situadas no plano macro: a religião
(protestantismo ascético) e a economia (capitalismo moderno). Consoante o
modelo weberiano não estamos diante da causação direta entre as duas variáveis,
pois o influxo do primeiro sobre o segundo é mediado, necessariamente, pelo
plano micro. Nestes termos, um conjunto determinado de crenças objetivadas no
sistema religioso (lógica da situação ou plano macro-micro) orienta o sistema
de referência dos indivíduos. Esta lógica religiosa, por sua vez, desencadeia
motivações na esfera do comportamento econômico (lógica da ação ou plano micro-
micro), qual seja, engendrando uma forma determinada de "espírito capitalista"
de feições éticas. Esta forma de ação, por sua vez, está em uma relação e
adequação com uma determinada estrutura econômica (lógica da agregação ou plano
micro-macro). Mais interessante ainda é a análise que Albert nos oferece da
tipologia das formas de dominação de Max Weber. Seguindo uma discussão já
recorrente nos estudos sobre o pensamento político weberiano, Albert destaca
que os tipos de dominação são, antes de tudo, fenômenos da ordem ou das
instituições e, como tais, possuem propriedades emergentes, ainda que eles não
possam ser desvinculados de um determinado sistema de crenças dos indivíduos
(legitimidade). Mais uma vez, o que existe entre estes dois planos é uma
relação de circularidade que leva tanto do plano micro ao macro como na sua
direção contrária.
A inusitada posição de Albert em relação a Max Weber não demorou a encontrar
críticas. Segundo Jens Greve (2006), pressupor que a sociologia weberiana
possui uma concepção fraca do papel causal dos níveis estruturais implicaria
inevitável contradição, pois, neste caso, as estruturas não repercutem
causalmente sobre os indivíduos: não se pode sustentar que a realidade social
constitui-se primariamente de indivíduos e ao mesmo tempo afirmar que
estruturas transindividuais exercem ação sobre eles. Sendo assim, após uma
rodada de discussões Albert modifica sua posição, abandonando a tentativa de
situar a sociologia weberiana no campo do holismo em sua versão branda. Mas, em
vez de devolvê-la ao campo já tradicional do individualismo metodológico,
Albert (2009 e 2011) simplesmente transcende a divisão e passa a advogar que a
posição metodológica weberiana pode ser situada como uma terceira via que evita
tanto a tendência reducionista de privilegiar o polo da ação sobre o polo da
estrutura (atomismo) ou, ao contrário, o polo da estrutura sobre o plano do
agente (coletivismo)6. Na senda de autores como Pierre Bourdieu, Habermas ou,
para empregar aqui a já usual expressão de Anthony Giddens, Weber seria, avant
la lettre, um teórico da "dualidade da estrutura". Nem só as estruturas
(primeira via), nem somente a agência (segunda via), o fato é que Weber nos
abre um caminho para uma terceira via que integra as duas abordagens
concorrentes.
DA ORIGEM À EXPANSÃO E DIVERSIFICAÇÃO DO MODERNO: AS MÚLTIPLAS FORMAS DE
MODERNIDADE ENTRE CULTURA E ESTRUTURA
Antes de entrar no mérito das questões que ambas as posições levantam, passemos
do plano abstrato da teoria sociológica e do problema micro/macro ao plano
histórico-empírico, mas não menos vasto, da teoria da modernidade. Aqui um
programa de pesquisa orientado em Max Weber enfrenta um desafio diferente
daquele posto no âmbito teórico. Não se trata de atualizar ou mesmo corrigir o
já desenvolvido na teoria weberiana (supondo sua validade), mas enfrentar uma
realidade diversa daquela pesquisada por ele. Se no centro da teoria weberiana
estava a problemática da gênese e da caracterização do mundo moderno, o desafio
agora é pensar os desenvolvimentos e transformações, bem como a expansão e
diversificação da experiência moderna (Schwinn, 2004), qual seja, temas que não
estão explicitamente contemplados por Weber. Para responder a este desafio, o
caminho escolhido foi a adoção de uma ideia (para não falar em conceito) que,
mesmo nascida sob a inspiração de Weber, lhe é incorporada de fora: a ideia de
modernidades múltiplas, desenvolvida por Shmuel Eisenstadt. A que resultados
esta estratégia conduziu até agora e qual sua potencialidade, contribuições e
limites? Tal como já fiz na seção anterior dedico este tópico a descrever as
linhas desta orientação, servindo-me do trabalho de dois autores, ambos de
diferentes gerações. Primeiro apresento a teoria das modernidades múltiplas do
próprio Eisenstadt para, depois, descrever os padrões de seu desenvolvimento
por parte de Thomas Schwinn.
No Brasil, a penetração das teorias da globalização, das abordagens pós-
coloniais e, recentemente, das modernidades globais (Domingues, 2013), tem sido
muito rápida e mesmo a ideia das modernidades múltiplas já se acha, há algum
tempo, presente na discussão acadêmica7. Não obstante, creio que ainda
carecemos de exposições mais amplas e sistemáticas da proposta de Shmuel
Eisenstadt e mesmo uma avaliação mais detalhada de seus possíveis méritos e
limites. De modo geral, os críticos de sua proposta têm alegado que seu
trabalho é tributário das teorias da modernização (Joas e Knöbl, 2004).
Rejeitando esta interpretação, pretendo mostrar que a obra de Eisenstadt
comporta uma evolução na qual estas premissas são lentamente abandonadas e
reformuladas (Preyer, 2011). Meu propósito será demarcar qual o lugar e o papel
da obra de Weber ao longo deste desenvolvimento8.
O polônes Shmuel Noah Eisenstadt (1923-2010), que fora da Universidade Hebraica
de Israel, iniciou sua formação sob a orientação de Martin Buber, tendo
realizado estágios de formação em Londres (1947-48) e nos Estados Unidos (entre
1956-57). Além de estudos sobre migração, a primeira fase da obra deste autor é
marcada pelo projeto de uma vasta sociologia comparativa, cujo foco era a
transição das sociedades tribais para os grandes impérios do mundo antigo. Os
resultados desta pesquisa foram publicados no ano de 1963, em The Political
Systems of Empires. Nesta primeira grande fase, a orientação teórica decisiva
da pesquisa de Eisenstadt é dada pela combinação entre elementos do estrutural-
funcionalismo parsoniano e da sociologia política de Weber. Procurando superar
o esquema sincrônico da teoria dos sistemas sociais, ele busca mostrar como a
disputa pela monopolização dos recursos em sistemas sociais complexos
(Civilizações), controlados por vastas burocracias (Impérios), comporta a
necessidade de mecanismos de legitimação política. Ou seja, em vez de relações
funcionais entre subsistemas, a integração social comporta uma disputa
estrutural de diferentes elites por recursos. Apesar dos elementos críticos,
com ênfase em fatores dinâmicos e conflitivos que Eisenstadt injeta no esquema
sistêmico, sua proposta não se distancia do modelo das teorias da modernização
vigente nos anos 1960 e 1970, cuja premissa básica era a convergência dos
processos de transição das sociedades tradicionais para as modernas.
Segue-se, então, uma fase intermediária (Eisenstadt, 1966 e 1978), momento em
que além de pesquisas sobre o tema dos protestos e das revoluções (e cuja
tentativa de aproximação crítica com a nova sociologia histórica, então em
plena efervescência, é claramente visível), novas premissas teóricas são
desenvolvidas. Também neste momento, a obra de Max Weber continua a desempenhar
papel importante. Em colaboração com Edward Shils, Eisenstadt (1968) aproxima-
se da tese da rotinização do carisma e amplia esta noção do seu âmbito político
para o plano mais amplo das estruturas sociais. Nesta leitura (que lembra o
núcleo "sagrado" do social de Durkheim), os sistemas sociais são arranjos
estruturais contingentes e dinâmicos que institucionalizam elementos
carismáticos localizados em seu interior: a ordem social é sempre dinâmica e
envolve o confronto e disputa constante entre centro e periferia.
Até este momento, a obra de Eisenstadt pode ser compreendida como uma versão
weberianizante do funcionalismo (como a definiram Alexander e Colomy, 1985).
Mas este não é o caso para suas obras posteriores, como os próprios partidários
do funcionalismo reconheceram (Alexander, 1992). A transição de uma sociologia
política (comparativa) dos sistemas burocráticos na direção de uma sociologia
cultural (comparativa) das civilizações já pode ser identificada nos anos 1980,
não sem a decisiva estadia de Eisenstadt em Heidelberg onde, em 1987,
colaborando com Wolfgang Schluchter, atuou na qualidade de professor visitante,
parceria que continuou ainda nos anos seguintes na qualidade de professor
visitante no Max-Weber-Kolleg da Universidade de Erfurt. Desta feita, colocando
a sociologia weberiana da religião no centro de sua teorização, Eisenstadt
desenvolveu as premissas fundamentais de sua abordagem das modernidades
múltiplas. Metodologicamente, ele adota o esquema sociológico weberiano tal
como elaborado por Schluchter, no qual são divisados três níveis diferentes de
análise: o nível da ação, o nível das instituições (ordem social) e o nível da
cultura (civilizações). A partir destas balizas gerais, ele distingue entre
dois momentos diversos da história social: a primeira era axial e a segunda era
axial (Eisenstadt, 1982 e 1986).
O conceito de "era axial", retirado da obra de Karl Jaspers (1949), já havia
sido utilizado também pelo irmão de Max Weber, Alfred Weber (1997), em sua
proposta de uma sociologia histórico-cultural. Ao adotar esta noção, Eisenstadt
se move da combinação entre o funcionalismo modernizante (Parsons) e abordagem
carismático-política (Weber) para uma perspectiva culturalista na qual o
comparativismo weberiano das grandes religiões universais passa a ocupar,
agora, o posto central. Eisenstadt entende seu trabalho como uma continuidade
da obra de Max Weber, pois a ideia de uma primeira era axial retoma, em nova
nomenclatura, os estudos sobre as religiões mundiais da fase madura deste
pensador. Comparando as religiões orientais de afirmação do mundo da China
(Confucionismo e Taoísmo) e de negação do mundo da Índia (Hinduísmo e Budismo),
Weber procurou identificar a especificidade do racionalismo ocidental. Traçando
suas raízes no profetismo judaico até chegar ao protestantismo ascético, ele
viu na história do ocidente uma linha evolutiva que, através de um processo de
desencantamento do mundo (Pierucci, 2003), desembocava em uma forma ético-
prática de racionalismo.
Retomando as premissas gerais da formulação weberiana, Eisenstadt apresenta sua
própria concepção da primeira era axial. Assim, ainda que a ênfase no
comparativismo weberiano comporte um eurocentrismo heurístico (dado que o
esforço comparativo volta-se para outras civilizações apenas como recurso
metodológico de contraste), que o leva a apontar o que é "específico" em cada
civilização (adaptação ao mundo/China, fuga do mundo/Índia, aceitação do mundo/
Judaísmo Antigo e dominação do mundo/Protestantismo Ascético), o sociólogo
busca identificar em todo este conjunto um elemento axiológico comum: daí ele
poder falar em "primeira era axial". Trata-se da ideia de transcendência. O
processo de evolução das crenças na direção da superação do universo mágico-
cosmológico e o surgimento de religiões de salvação comportam uma tensão entre
a ordem social mundana e a ordem simbólico-normativa do religioso (dimensão
cultural). Esta questão ontológica básica engendra um problema que recebe
respostas diversificadas, originando visões de mundo que são elaboradas a
depender do resultado da disputa entre elites intelectuais (dimensão dos
atores) de orientação ortodoxa e heterodoxa que podem estar a serviço ou em
oposição ao poder político (dimensão estrutural). Sob esse prisma ele vê nas
civilizações orientais religiões baseadas em uma imagem impessoal do divino,
que desembocam ou na sacralização da ordem social (China) ou em uma orientação
supramundana (Índia), enquanto no Ocidente a concepção pessoal do divino
desagua em civilizações monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) que
combinam, de forma tensa e complexa, elementos extramundanos ou intramundanos.
Outro elemento no qual Eisenstadt retoma e ao mesmo tempo busca superar Weber é
a distinção de uma segunda era axial que, na visão do intérprete, este teria
descrito de forma unilateral. Ou seja, enquanto Weber apresentou uma teoria da
gênese da modernidade assumindo como premissa a existência de uma única versão
ocidental-europeia, Eisenstadt se propõe a mostrar que a institucionalização da
ordem social moderna é, desde o seu início, um processo multifacetado. Neste
caso, trata-se de mostrar que, alcançado um determinado estágio evolutivo,
múltiplas alternativas de desenvolvimento são abertas. O estágio aponta para o
princípio da unidade e as alternativas para o princípio da diversidade, sendo
que nenhuma das alternativas engloba por inteiro as possibilidades que são
abertas. Na crítica de Eisenstadt, embora Weber tenha seguido este modelo em
sua análise da primeira era axial (Ocidente), o mesmo não se aplica à sua
análise da segunda era axial (Modernidade), pois ele só descreveu uma única
alternativa histórica. É neste contexto que se insere a ideia da "variedade" de
civilizações modernas. Examinemos este ponto com mais vagar.
Inicialmente, Eisenstadt precisa mostrar o que define o moderno. Nesta senda, a
modernidade é definida como um projeto político-cultural cujo núcleo normativo
é dado pela ideia do individualismo (aspecto político) e da reflexividade
(aspecto cultural). Em confronto com o período anterior, a segunda era axial é
marcada pela ideia de imanência, e a ordem social é concebida como um processo
contínuo de construção e reconstrução de identidades políticas e sociais. Desta
forma, a ordem política ocupa um lugar central na ordem moderna e é marcada
pela existência de movimentos sociais que se propõem a orientar continuamente a
direção da vida social. Também a construção coletiva de identidades sociais
suprime a inserção dos indivíduos em papéis definidos pela hierarquia social, e
a noção de indivíduo é aberta para a reelaboração permanente. Ocorre que, longe
de apenas difundir-se de forma homogênea, supondo a transição uniforme de uma
ordem tradicional para uma ordem moderna (como supunham as teorias da
modernização), Eisenstadt entende que este programa cultural (que surge na
Europa Central) conhece substantivas variações tanto na sua gênese quanto no
seu processo de expansão. Colocando em outros termos, podemos dizer que sua
expansão quantitativa vem sempre acompanhada pela sua constante transformação
qualitativa.
Já na sua origem, a própria Europa conheceu centros diversos de constituição do
moderno, seja em países como França e Inglaterra, ou mesmo países de
desenvolvimento tardio, como Itália e Alemanha. Além deste pluralismo inicial,
nos seus momentos posteriores a Europa experimentou e oscilou entre diversos
modelos políticos de condução do projeto moderno, que vão do comunismo e do
nacional-socialismo, passando pelo fundamentalismo, até chegar ao
Constitucionalismo de Bem-Estar Social.
Se mesmo no cenário europeu não reina nenhuma unidade, da mesma maneira, o
processo de colonização das Américas (primeira onda de expansão da modernidade)
também significa a concretização de uma ordem moderna diferenciada, tanto em
relação à América do Norte quanto à América Latina que, longe de serem apenas
"fragmentos" da Europa, constituem, na visão do autor, "civilizações" com
caráter próprio, ou seja, que não apenas adotam passivamente, mas que remodelam
seletivamente o projeto político-cultural da modernidade (desenvolvendo versões
originais), dependendo da configuração e dos interesses de suas elites. Na sua
versão anglo-americana, derivada da Reforma Protestante, grupos periféricos
autônomos de seitas religiosas secularizam o princípio da igualdade e na sua
versão hispânica, derivada da Contra Reforma Católica, são os atores do centro
(Estado e Igreja), fundamentados no princípio da hierarquia, que moldam a
civilização. Mas, até este momento, essa primeira onda de expansão e
reinterpretação do projeto moderno concentra-se nos marcos do Ocidente. Uma
segunda onda de expansão do projeto cultural da modernidade (cujas raízes
também estão vinculadas ao imperialismo e ao colonialismo) se desdobra com sua
adoção e remodelação em culturas axiais não ocidentais, em especial após a
Segunda Guerra Mundial e ao lento processo de descolonização que a ele se
seguiu. Neste processo devem ser colocados, como casos exemplares, o
desenvolvimento de modernidades autônomas no mundo islâmico, na Índia, na China
e mesmo no contexto de uma civilização não axial, caso do Japão, ao qual
Eisenstadt dedicou-se com particular esmero (2010).
No esquema de Eisenstadt, o projeto político-cultural da modernidade representa
o polo da generalidade ou unicidade, enquanto os atores sociais são os fatores
que determinam o polo da particularidade ou multiplicidade, quer dizer, da
diversificação seletiva das diferentes versões de modernidade. Entre o geral e
o particular, o fato é que a preocupação eisenstadtiana em distanciar-se das
teorias da modernização (cujo núcleo explicativo comporta a tese da
diferenciação institucional) leva-o a minimizar o papel das instituições em seu
projeto teórico, ficando elas relegadas a variáveis condicionantes. No entanto,
com o falecimento do autor, em 2010, as contribuições e limites de seu legado
terão que ser enfrentados pelos membros mais jovens do círculo weberiano.
A continuidade do projeto de uma sociologia da modernidade diversificada,
iniciada por Eisenstadt, tem no nome de Thomas Schwinn, que desde 2008 é
sucessor de Schluchter na cátedra de teoria sociológica do Instituto de
Sociologia da Universidade de Heidelberg, seu principal representante. Visando
dar prosseguimento a esta empreitada, a estratégia escolhida pelo pesquisador
consiste em confrontar os pressupostos da teoria das modernidades múltiplas com
programas de pesquisa concorrentes. Neste trajeto, os elementos estruturais da
sociologia weberiana voltam ao centro das atenções.
Se o ponto de partida da tese das modernidades múltiplas de Eisenstadt era a
sociologia da religião de Max Weber, Schwinn toma como ponto de partida a
teoria weberiana das esferas de valor e ordens de vida. Neste trajeto, ele não
só acompanha a tentativa de situar o pensamento weberiano para além da
dicotomia ação/estrutura (Schwinn, 1993a), como também busca reconstruir
analiticamente o esquema sociológico das esferas de valor que Weber apresenta
em sua Consideração Intermediária (Weber, 1989). Neste caso, a tese central do
trabalho de Schwinn (2001) consiste na identificação de uma versão weberiana de
diferenciação social que, ao contrário da visão funcionalista e sistêmica, não
recorre a um conceito maior de "sociedade" e, ao mesmo tempo, prescinde da tese
de que são necessidades funcionais as responsáveis pela diferenciação das
instituições. Recorrendo aos textos de Weber, as esferas de valor da religião,
da economia, da política, da erótica, da arte, da ciência e também do direito
são decompostas em um complexo esquema que contempla três aspectos centrais
que, segundo a sistematização que já conhecemos de Schluchter, incluem a
dimensão da cultura, da ordem e da ação. Na dimensão cultural, cada esfera
rege-se em torno de uma referência valorativa específica (Eigengesetzlichkeit)
que difere segundo seu potencial de agregação social. No plano micro, cada
esfera de ação implica padrões distintos de orientação da ação.
Na rápida esquematização que posso oferecer aqui9, cabe destacar que, no estudo
de Schwinn (2001), na esfera econômica, a referência de sentido é dada pela
busca do ganho, institucionalizado na esfera do mercado e orientado por um
sentido de ação guiado por interesses (Zweckrationalitåt). A ordem jurídica e a
ordem política são passíveis de institucionalização na forma de organizações
estáveis que monopolizam instâncias de coação; não obstante, suas referências
valorativas (poder e previsibilidade da ação) precisam estar ancoradas em
mecanismo de legitimação, o que significa que as formas de orientação da ação
agregam à dimensão dos interesses elementos de ordem normativa
(Wertrationalitåt). No campo das esferas culturais, a arte e a erótica envolvem
referências valorativas não racionais (o belo e o prazer) e que, por isso,
possuem fraco poder de agregação social, desembocando em formas estilizadas de
conduta (arte) ou em relações efêmeras (erótica) com linhas de ação fortemente
ancoradas no aspecto afetivo. Já a diferenciação entre ciência e religião
desemboca em uma esfera que monopoliza o saber racional (ciência), organizada
em instituições altamente competitivas, cujos atores orientam-se por interesses
e valores e outra (religião) que se especializa na esfera irracional da
salvação em comunidades religiosas (Igrejas ou Seitas) orientando-se
fundamentalmente por padrões valorativos e afetivos. Usando como plataforma
esta leitura, Schwinn busca situar a perspectiva das modernidades múltiplas em
relação às suas perspectivas concorrentes, em especial aquelas que acentuam os
aspectos "homogêneos" (estruturais) da arena global, como as teorias da
globalização, dos sistemas-mundo (Wallerstein) e, de forma privilegiada, da
sociedade mundial ( Luhmann); ou mesmo heterogêneos (culturais) do contexto
mundial, como as diversas tendências da hibridização. Ambos os aspectos são
reavaliados tendo como parâmetro a teoria weberiana das esferas de valor, tal
como esboçada acima.
Vejamos, pois, como Schwinn (2006a) utiliza este esquema no tocante à primeira
das dimensões envolvidas: seu componente estrutural. Como responder ao desafio
proposto por Luhmann, para quem as distintas regiões geográfico-culturais são
apenas diferenciações internas de uma variedade de sistemas sociais que operam
segundo seus códigos internos? Em termos globais, a proposta luhmaniana é
criticada por reimportar os déficits teóricos das velhas teorias da
modernização, que incluem: 1) a dualidade tradicional x moderno, 2) uma visão
homogênea das esferas institucionais, 3) a linearidade dos processos de
transição e 4) pressupostos normativos teleológicos e otimistas. A teoria
luhmaniana peca por simplesmente apresentar em outro nível o pressuposto da
convergência, segundo o qual os processos de modernização são, ao fim e ao
cabo, cópias que são transladadas de um contexto para outro. A visão
autopoiética é criticada ainda por simplesmente ignorar o papel da cultura que
fica reduzida a subproduto do próprio sistema. Mas, o que tem Schwinn a
oferecer como visão alternativa a esta abordagem?
A resposta esboçada por Schwinn (2006a) consiste em propor outra compreensão da
natureza e do papel do que em Luhmann são chamados sistemas sociais e que, na
proposta weberiana, vem apresentado como esferas de valor e ordens de vida.
Trata-se de aplicar as premissas que Eisenstadt empregou na reformulação da
sociologia weberiana das religiões também para sua teoria institucional, tal
como descrita na Consideração Intermediária. Seguindo esta estratégia, Schwinn
entende que, na ordem social da segunda era axial, marcada pelo princípio da
imanência e da reflexividade, a religião perde seu lugar central (novo padrão
evolutivo ou princípio da unicidade). O deslocamento da esfera transcendente do
centro para a periferia da ordem social abre caminho para um novo arranjo
institucional. Weber descreveu como, diante deste desafio, emergiu, no contexto
europeu-moderno, uma constelação institucional própria. No entanto, a
constelação esboçada por Weber não é a única possível, pois, diante dos
desafios colocados pela nova realidade moderna, várias outras respostas também
são possíveis (princípio da diferenciação).
Naturalmente, tal procedimento não implica afirmar que Weber tenha proposto um
modelo uniforme de descrição de esferas sociais, cuja lógica expandir-se-ia
automaticamente em qualquer tempo e lugar, como pressupunham as teorias da
modernização. O que se enfatiza é que na sociologia de Weber encontramos apenas
a descrição de uma constelação historicamente contingente de esferas sociais
(Europa) que não é fadada a repetir-se: o grau de diferenciação e de autonomia
de cada uma delas obedece a padrões variados e pode alterar-se ao longo do
tempo e em diferentes sociedades. Da mesma forma, Weber contemplou as relações
de "afinidade eletiva" (protestantismo, capitalismo, burocracia, direito
formal-racional caminham em direção comum), bem como de "tensão e conflito"
(religião e mundo) entre as esferas sociais, elementos que também não obedecem
a modelos predeterminados. Partindo dessas bases, Schwinn entende que a
expansão globalizada das esferas institucionais não obedece a um modelo de
difusão homogênea, pois a constelação (diferenciação, autonomia, relações de
afinidade e conflito) em que as esferas sociais podem ser encontradas, em
contextos regionais específicos, também é múltipla.
Tal compreensão da proposta de Weber abre caminho para descrever arranjos
institucionais diferentes daquele contemplado por ele, seja em relação à sua
lógica interna (em que cada esfera é isoladamente considerada), seja em relação
à sua lógica externa (que trata das múltiplas relações entre as ordens
sociais). No caso da "lógica interna", cabe perguntar, por exemplo, até que
ponto variações nos padrões de institucionalização das ordens sociais podem ser
detectadas, permitindo-nos falar de diferentes modelos de capitalismo ou de
democracia, por exemplo. Em outros termos, mesmo isoladamente considerada, uma
esfera de valor ou ordem social determinada não possui, necessariamente, o
mesmo padrão de organização interna. Já do ponto de vista externo, o modo de
combinação entre estas ordens sociais também pode resultar em conglomerados
diversos. Schwinn cita como exemplos casos em que uma das esferas busca
sobrepor-se às demais: o predomínio da lógica do mercado (neoliberalismo), a
extensão ilimitada do político (totalitarismo), bem como tentativas de retomar
o predomínio do religioso sobre o tecido social ou de alçar visões de mundo
seculares, sejam sexuais (erotismo), estéticas ou científicas, ao posto de
visões abrangentes de mundo (fundamentalismo).
Em síntese, o argumento consiste em afirmar que o conteúdo interno, bem como as
relações de autonomia, de afinidade e tensão que as ordens sociais
institucionais manifestam ao longo de sua variação temporal ou espacial, é um
fator contingente que, de modo nenhum, supõe a reprodução automática daquele
identificado e descrito por Weber no seu horizonte histórico e sociocultural.
Nessa medida, pode-se dizer que, enquanto em Eisenstadt, é o projeto político-
cultural da modernidade que se encarna de forma diversificada em cada
civilização, no caso de Schwinn, é uma constelação determinada de ordens
sociais que pode variar. De um lado, a multiplicidade da modernidade é descrita
como um processo de concretização multifacetado de uma ordem normativa. No
outro caso, como um processo de concretização multifacetado de uma constelação
institucional.
Mas não é apenas na dimensão sincrônica que é preciso romper com a isonomia
luhmaniana. Outro fator a ser contemplado diz respeito ao potencial de expansão
e difusão das ordens sociais modernas, elemento que nos remete à dimensão
diacrônica. Neste caso, o procedimento de Schwinn consiste em identificar qual
o potencial que cada uma das esferas sociais possui enquanto mecanismo gerador
de "processos de societarização globais" [globale Vergesellschaftungsprozesse].
Com base na descrição de sua lógica interna [Eigengesetzlichkeit], Schwinn
elabora um ranking mediante o qual a qualidade e o alcance de difusão global
das ordens sociais podem ser identificados e observados. O principal critério a
definir este potencial é o seu grau de racionalidade formal, pois ela pode ser
mensurada por instrumentos de desempenho e de concorrência. Neste modelo, é o
mercado que possui o maior potencial de difusão global, tendo a racionalidade
do lucro como critério ordenador e a competição como mecanismo de sanção
(Produto Interno Bruto - PIB e outros instrumentos matemáticos permitem,
também, comparações rápidas). Critérios de concorrência também seriam claros na
esfera da ciência (número de publicações etc.), da tecnologia (registro de
patentes etc.) e da educação (quantidade de prêmios nobéis etc.). Em um segundo
nível operam as instituições políticas e jurídicas que, a despeito de
semelhanças formais, estão impregnadas por elementos valorativos que divergem
culturalmente. A discussão sobre a validade universal dos direitos humanos é o
exemplo nominado por ele. Aqui critérios de desempenho são muito mais fluidos.
Finalmente, abaixo da escala, encontram-se a esfera religiosa, a dimensão da
arte e produção de bens culturais, contexto em que mecanismos de sanção e ao
mesmo tempo critérios comparativos são bastante fracos.
Voltemo-nos agora para outra dimensão de análise, pois de fato, a pesquisa de
Schwinn não se limita apenas à análise das estruturas. Central para suas
intenções é determinar quais são as relações entre o nível estrutural e o nível
cultural (Schwinn, 2006b e 2009). Indagando-se sobre o modo como as principais
teorias sociológicas contemporâneas entendem a relação entre "estrutura" e
"cultura", ele identifica três modelos de análise. Segundo os pressupostos da
linha da "convergência" (cujos modelos são Fukuyama, Ritzer ou mesmo a teoria
luhmaniana), os processos de mundialização engendram padrões culturais
globalmente compartilhados. Na direção oposta, na linha da "divergência"
(Huntington), afirma-se que o quadro global é formado de blocos de culturas ou
civilizações que se isolam ou mesmo entram em conflito umas com as outras.
Finalmente, uma terceira variante, denominada da "hibridização" (Robertson)
ressalta os processos de influência recíproca que, nos diversos países e
regiões do planeta, emergem entre influências culturais globais e padrões
culturais locais.
No seu balanço crítico, Schwinn entende que, nos dois primeiros moldes, a ideia
de cultura é hipostasiada e essencializada, seja porque uma determinada cultura
simplesmente substitui a outra (visão sistêmica), seja porque cada bloco
cultural permanece impermeável a qualquer influência externa (visão de
Huntington). Neste sentido, ele prefere dialogar criticamente com a alternativa
da hibridização. Mas, o que parece problemático ao autor, nesta vertente, é a
ideia de que diferentes sociedades nacionais estariam a engendrar uma síntese
de sua própria cultura nacional com a cultural global em uma espécie de
"terceira cultura" (híbrida), sem esclarecer como coletividades sociais
poderiam integrar indivíduos que dispõem de referências normativas divergentes.
Para Schwinn, estudos focados em fenômenos como migração, por exemplo, negam
esta possibilidade. Como escapar dessas diferentes formas de reducionismo?
Para solucionar este dilema, Schwinn (2006b) retoma os pressupostos de sua
plataforma teórica que, como já sabemos, adota a teoria weberiana das esferas
de valor. Neste caso, elas são aplicadas para entender fenômenos de tipo
cultural. Também aqui a pergunta central diz respeito a 1) capacidade de
difusão e de 2) hibridização, contida em diferentes dimensões da vida cultural.
Isto o leva a distinguir três dimensões culturais com suas correspondentes
lógicas ou racionalidades. A primeira, chamada de estética, diz respeito aos
produtos culturais de massa, como tipos de comida, vestuário, música etc.
Elementos culturais deste tipo são facilmente generalizáveis, pois possuem
elementos cognitivos e normativos fracos. Em termos weberianos, eles obedecem a
uma racionalidade estético-expressiva de tipo subjetivo, quer dizer, obedecem a
juízos estéticos de gosto. Eles não deixam de carregar consigo componentes de
suas identidades nacionais de origem, mas além de estandardizados para consumo,
eles não implicam a capacidade de impregnar por inteiro uma cultura alheia, que
os recebem segundo suas próprias referências normativas: as culturas alvos
destes produtos incorporam tais elementos a partir de seus próprios critérios
internos, sem ser afetadas em seus padrões estruturais básicos. É este fator
que explica por que bens de consumo são os elementos culturais mais
"globalizáveis", ou seja, com o maior poder de difusão e ao mesmo tempo
"hibridização" em escala global.
Já os elementos normativos de uma cultura obedecem à lógica da racionalidade
ética: valores não podem ser racionalmente fundamentados, mas são passíveis de
crítica racional. Por esta razão, elementos culturais normativos precisam ser
institucionalizados e incorporados pelos indivíduos mediante processos de
socialização. Além disso, a capacidade de difusão global de padrões culturais
normativos não é intrínseca e é fortemente dependente da ação impulsionadora de
fatores institucionais (fóruns globais, ONU, organizações internacionais etc.).
Por outro lado, a hibridização de elementos normativos, como a noção de
direitos humanos ou valores democráticos, é muito mais fraca, pois tais
caracteres precisam ser culturalmente interpretados e traduzidos nos moldes dos
padrões regionais/locais.
Finalmente, na dimensão cognitiva, o grau de racionalidade dos juízos torna-se
ainda mais forte. Critérios de aceitação de resultados científicos são
altamente padronizáveis e, na mesma medida, passíveis de rápida
transnacionalização. No entanto, o modo de articulação destes padrões globais
com os saberes locais (hibridização) pode variar desde sua coexistência,
substituição do padrão local pela visão externa ou mesmo incorporação local de
estilos de pensamento. Não obstante, quanto mais autônoma é a lógica da esfera
científica, tanto mais ela tende a absorver o conteúdo dos saberes locais
segundo sua própria lógica formal. No esquema de Schwinn, o potencial de
globalização e de hibridização de padrões culturais é uma variável dependente
do tipo de racionalidade formal e material de cada esfera cultural envolvida.
Em regra, quanto mais "formal" a racionalidade da dimensão cultural a ser
analisada, tanto maior é seu potencial de expansão global e de hibridização
local.
Embora a pesquisa de Schwinn seja um trabalho ainda em andamento, fica claro
como sua proposta possui uma ambição bem menor do que o trabalho de Eisenstadt.
Enquanto este último se propunha a identificar diferentes civilizações modernas
que consistem em cristalizações diferenciadas do projeto cultural da
modernidade, Schwinn reduz sua análise à apreciação do potencial de difusão e
absorção das instituições e padrões culturais modernos que, bem diferente de
Eisenstadt, não redundam em formações socioculturais diferenciadas. Na acepção
de Schwinn, a ideia de "modernidade múltipla" fica reduzida a uma
"metadefinição" sem um conteúdo específico. Mesmos os casos empíricos
utilizados por ele como ilustrações são mais localizados, como as diferenças
institucionais entre o capitalismo no Japão e na Alemanha ou mesmo a pergunta
sobre o lugar da Turquia no contexto cultural europeu. Na sua análise, a
dimensão estrutural e a dimensão cultural ocupam o foco da análise, mas ambas
são pensadas de forma paralela e a relação entre os dois elementos fica
indeterminada. Por outro lado, o elemento fundante da sociologia weberiana (seu
foco na orientação da ação) praticamente desaparece e parece não ocupar maior
lugar na teorização do autor.
WEBER COMO PARADIGMA?
Após a descrição do estado da arte do projeto de constituição de um parâmetro
paradigmático/programa de pesquisa orientado segundo Weber (tanto no plano
metateórico quanto no plano teórico-empírico), a pergunta a ser feita é sobre a
validade, contribuições e limites deste esforço ainda em andamento. Visando
oferecer um primeiro balanço deste empreendimento, pretendo seguir duas
direções. Em primeiro lugar, um programa de pesquisa com base em Weber precisa
confirmar-se no seu confronto com as propostas concorrentes. Neste caso, o que
precisa ser feito é avaliar em que medida o conteúdo do "neoweberianismo"
permite avanços na agenda das discussões com as quais ele mesmo resolveu travar
confronto. A relação que aqui se estabelece é entre esta leitura de Weber e os
problemas de pesquisa contemporâneos. Outra linha de avaliação volta-se para o
próprio ponto de partida da discussão e se pergunta o que significa, de fato,
atualizar conceitos weberianos quando nos voltamos para o autor em si mesmo:
aqui, a relação que se trava é entre o weberianismo lido no presente e suas
fontes. Quais os aspectos da obra de Weber são reativados e o que isto implica
na imagem de Weber que emerge de sua reutilização? Nesta parte final, tomarei a
avaliação "prospectiva" para apontar alguns elementos de validade que podem ser
extraídos da atualização de Weber. Em segundo momento, eles serão colocados em
confronto com a linha "retrospectiva" de avaliação para diagnosticar também
questões e problemas que tal proposta engendra. Em ambos os casos busco
localizar, de modo positivo, os desafios que o projeto de atualização da obra
de Weber ainda precisa enfrentar.
Para uma ciência multiparadigmática como a Sociologia, torna-se difícil achar
um eixo unanimemente aceito que articule as posições e os debates existentes.
No campo da teoria sociológica stricto sensu, desacordos à parte, o problema
micro-macro tem possibilitado um critério a partir do qual as diversas
tendências podem, ao menos, reconhecer suas posições. Particularmente forte no
mundo da sociologia de corte anglo-saxão (penso aqui em Giddens, Archer e
Baskhar, por exemplo), tal discussão também invade o campo da sociologia
praticada na Alemanha, onde, em termos globais, luhmanianos, habermasianos e
partidários da escolha racional, entre outros, disputam o terreno. Ao retomar
os fundamentos metodológicos da sociologia de Weber, menos por sua perspectiva
exegética e mais pela roupagem terminológica hoje em uso, teóricos como
Schluchter e Albert permitem que a posição weberiana transite do mero campo da
história das ideias para o campo da discussão teórica em si mesma. Isto abriu o
caminho para que Weber pudesse ser transformado em fonte de orientação capaz de
fornecer tanto um ponto de partida para a discussão, como também instrumentos
conceituais e até posições substantivas em relação ao problema da emergência
(transição do micro ao macro), da redução (ação do plano macro sobre o micro) e
mesmo da orientação da ação (no plano micro-micro).
Dentre as muitas possibilidades que assim ficam abertas, cito apenas um
exemplo. Entendo que, mais do que um precursor da discussão, a organização da
sociologia weberiana em múltiplos planos (Mehr-Ebenen Modell) - que compreendem
a lógica da situação, a lógica da escolha e a lógica da agregação - permite que
o tema da relação macro-micro avance para além da dificuldade já apontada por
Archer em relação a Giddens e à ideia da dualidade da estrutura: o tratamento
simultâneo dos dois níveis leva ou à redução do plano micro ao plano macro
(redução deflacionária) ou à redução contrária (redução inflacionária). Mais do
que uma temporalização sequencial de ambos os problemas, a disjunção de cada um
destes níveis em suas características, propriedades e efeitos permite um
tratamento teórico-analítico específico para cada um deles. Passemos agora ao
plano substantivo da teoria da modernidade.
Max Weber foi, entre os clássicos da Sociologia, o autor que organizou sua
teoria da modernidade não tanto por um aporte exclusivamente diacrônico, tendo
como base a transição do tradicional para o moderno (como é o caso de Durkheim
com a dicotomia solidariedade mecânica/orgânica e de Marx com sua sucessão de
modos de produção), mas integrando a ela um procedimento comparativo segundo o
qual a definição do moderno emerge não como uma forma civilizacional exclusiva
de racionalismo, mas como uma variante contingente, ao lado de outras
possibilidades históricas (China e Índia, em particular). Em tempos de
globalização e de crítica ao eurocentrismo, tal elemento não torna sua análise
imune de críticas, mas surpreendentemente atual. Ao desenvolver suas análises
do mundo moderno na plataforma comparativa, autores como Eisenstadt e Schwinn
estão ancorados em uma das mais profícuas potencialidades da análise de Weber.
Mas, longe de apenas repetir o diagnóstico weberiano, tais autores também estão
convencidos de que o comparativismo weberiano precisa ser complementado e
enriquecido, permitindo-nos avançar do problema da "gênese" da modernidade para
seus desdobramentos posteriores. Neste quesito, o léxico categorial weberiano
contribui com elementos oriundos de sua sociologia cultural (elemento
ressaltado por Eisenstadt) ou mesmo de sua sociologia estrutural (elemento
ressaltado por Schwinn), permitindo que ele possa ser colocado ao lado das
discussões que buscam entender fenômenos globais sem perder de vista a difícil
relação entre elementos gerais e particulares e entre elementos estruturais ou
simbólicos.
Mas, se até aqui, o esforço de velhos e novos weberianos mostra que proposições
oriundas dos escritos de Weber são passíveis de uma atualização produtiva, o
que significa falar, exatamente, de um "paradigma"? Em que medida uma proposta
como esta não acaba regredindo na pura exegese, ou, por outro lado, não corre o
risco de enrijecer o pensamento de Weber em algum tipo de "weberianismo"
ortodoxo? O que significa orientar-se pelas premissas de Weber e, ao mesmo
tempo, atualizá-lo, corrigi-lo e superá-lo? Também aqui a agenda é vasta e
gostaria de destacar apenas dois pontos.
Sob a perspectiva teórica, se uma sociologia de tipo weberiano caracteriza-se
pela sua modelização em três níveis, em que do plano básico da ação social
passa-se ao plano emergente da ordem social e deste para o plano mais vasto da
cultura (conforme modelo fixado por Schluchter), resta que as propostas aqui
resenhadas exibem divergências que dificultam agrupá-las em único marco
paradigmático. Para Albert, por exemplo, Weber sequer pode ser situado no plano
do individualismo metodológico e sua posição reside em uma tendência não
reducionista que o autor ora define como holismo de tipo fraco, ora como
síntese (pouco explicada) entre coletivismo e individualismo. Por que Albert,
partindo de seu próprio esquema, simplesmente não classificou Weber no campo de
um individualismo metodológico (não atomista) é uma pergunta difícil de
responder. Da mesma forma, se examinarmos as posições de Eisenstadt e Schwinn
(que trabalham no campo empírico-comparativo), veremos que o primeiro opera com
a variável dependente ação e independente cultura, esvaziando o nível
estrutural. Já em Schwinn, estrutura e cultura ocupam o papel analítico, mas a
relação entre os dois pontos não é esclarecida e - parece - corre paralela, sem
pontos de ligação. Quanto aos atores, ao final, eles não ocupam, praticamente,
nenhum papel. Se, por um lado, tais variações mostram que o programa não é
rígido (permitindo explorar de forma variada cada um dos níveis de análise),
ocorre que se exibe pouca unidade se o que estamos a procurar é um paradigma ou
mesmo um programa de pesquisa formalmente articulado.
Deixando o campo dos modelos teóricos formais e aterrissando no campo empírico
da explanação de fenômenos sociais de longo alcance, de fato, chama a atenção
como a ideia de múltiplas modernidades (seja ela concebida em termos
substantivos/Eisenstadt ou metacognitivos/Schwinn) está fortemente desconectada
daquele que me parece ser o eixo da teoria weberiana da gênese e formato da
modernidade: sua teoria da racionalização. O que em Weber eram diferentes
modelos socioculturais de racionalismo (adaptação, fuga, aceitação ou dominação
do mundo) construídos levando em consideração os tipos de racionalidade teórica
ou prática simplesmente desaparece em Eisenstadt, reduzindo-se a uma variante
culturalista concebida como projeto. Somente em Schwinn os rastros do conflito
entre racionalidade material e formal ainda se deixam apresentar, timidamente,
em sua análise do potencial de globalização e hibridização de estruturas e
padrões culturais. Uma teoria da modernidade que leve em conta novos
desdobramentos da racionalidade (como a racionalidade contingente dos meios,
contida na tecnicidade da modernidade) poderia ser aqui uma pista promissora
nesta direção10.
Ao final, cabe perguntar se não perde a conexão com o núcleo do pensamento
weberiano um paradigma no qual a prioridade analítica da ação social perde
espaço para a tentativa de situar forçadamente Weber em alguma forma de
equilíbrio entre a dimensão micro/macro. O autor possui evidentes contribuições
para pensar os múltiplos lados da questão, mas é exatamente no nível das formas
de orientação da ação (ou lógica da situação) que se situa o ponto nevrálgico e
forte de sua teoria: "o que ele sustenta é que o ponto de partida da análise
sociológica só pode ser dado pela ação de indivíduos e que ela é
'individualista' quanto ao método" (Cohn, 1991:26, ênfases no original). Da
mesma forma poderíamos nos perguntar se não abandona o eixo da reflexão de
Weber uma leitura das múltiplas modernidades onde o conteúdo da teoria
civilizatória do autor não é mais a racionalidade prática da dominação do
mundo, mas apenas um esquema comparativista de tipo formal, ora reduzido a uma
variante cultural, ora estrutural. Em que medida podem-se chamar estas
orientações de paradigma, quiçá mesmo de um programa de pesquisa orientado
segundo Max Weber?
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A recepção do pensamento de Weber na própria Alemanha comporta sucessivas ondas
de fluxo e refluxo. Após uma relativa disseminação inicial, ela foi
interrompida durante a Segunda Guerra Mundial, transladando-se seu centro de
importância para os Estados Unidos. No pós-guerra, o predomínio quase exclusivo
da Escola de Frankfurt e de sua versão de teoria crítica relegou Weber ao
combatido campo do sempre indeterminado "positivismo". No entanto, já na metade
dos anos 1970, o campo dos especialistas em Weber, liderado por figuras
importantes da academia alemã como Wolfgang Schluchter, Rainer Lepsius,
Wolfgang Mommsen e, em associação com os mesmos, Shmuel Eisenstadt e outros,
reorganiza suas forças e lidera um longo projeto que, além da republicação de
suas obras (Max Weber Gesamtausgabe) propôs um novo marco hermenêutico de
intelecção da obra weberiana em torno de sua sociologia da religião e do tema
dos processos de racionalização. Repatriado e ancorado em nova disposição de
seus escritos, Weber volta a ser exportado mundo afora.
Partindo dos marcos estabelecidos por esta primeira geração, podemos
identificar, atualmente, uma segunda onda de pesquisadores, no momento em busca
de ascensão na estrutura acadêmica e intelectual alemã, que vem se esmerando na
tentativa de desenvolver um programa de pesquisas orientado segundo as
premissas da sociologia weberiana. Menos centrada na exegese e no objetivo de
fixar um marco hermenêutico, a preocupação destes pesquisadores é retomar os
impulsos deixados por Weber em função de problemas colocados na agenda teórica
e empírica da sociologia contemporânea. Partindo de certo cânon interpretativo,
tais pesquisadores enfrentam o desafio de torná-lo instrumentalmente produtivo
como recurso nas disputas acadêmicas. Neste processo, podemos identificar
quatro estratégias metodológicas: 1) Em primeiro lugar, temas, enfoques,
autores e conceitos do horizonte teórico continental ou mesmo anglo-saxão
contemporâneo são empregados como plataforma para retomar e reatualizar
problemas e elementos do pensamento de Weber. Paradoxal é que o ponto de
partida da discussão acabe não sendo a plataforma de Weber em si mesma, mas as
premissas sugeridas pelo chamado "novo movimento teórico" em sua ânsia por
integrar, em perfeita simetria, as "duas sociologias" nas quais se reparte a
comunidade sociológica. Não seria o caso de indagar por que o novo movimento
teórico prescreve a Weber o lugar do individualismo metodológico e questionar
este enquadramento, se não mesmo a própria dicotomia?; 2) este é um ponto que
mereceria maior desdobramento mas, por ora, quero chamar a atenção para o fato
de que, ainda assim, este processo de adaptação do (neo)weberianismo ao marco
do novo movimento teórico não tem como meta, obviamente, o abandono da tradição
e, bem ao contrário, visa tornar o pensamento de Weber uma alternativa viável
nas discussões em curso: a absorção externa opera como meio para o fim da
retomada interna; 3) neste processo, mais do que elementos isolados, o
pensamento weberiano é concebido como "conjunto", pensado ora como paradigma em
sentido forte (Kuhn) ou fraco (Merton) ou apenas como Programa de Pesquisa
(Lakatos). Nem observações empíricas limitadas nem conceitos isolados, Weber é
aqui apresentado enquanto instrumento abrangente de compreensão e explicação de
problemas teóricos e empíricos; 4) a partir deste enfoque global, tanto
elementos "formais" quanto "substantivos" são retomados, consistindo,
basicamente, dos eixos ação e ordem social (macro-micro) e, em termos
substantivos, na determinação do papel das instituições modernas (mercado,
Estado, Ciência, Direito etc.) e suas representações simbólico-normativas (o
projeto cultural da modernidade no contexto global).
Tendo em vista tratar-se de um processo em andamento, tanto uma descrição dos
trabalhos realizados, bem como uma avaliação dos resultados alcançados, só
podem ser provisórias. Mais do que julgamentos definitivos, talvez seja
interessante prestar atenção às questões de fundo que tal projeto levanta. Pode
realmente a sociologia weberiana deslocar-se do campo da "história" para o
campo da "teoria" como paradigma concorrente na verdadeira selva de propostas
teóricas que rondam a sociologia contemporânea? Em suma: um "programa de
pesquisa de orientação weberiana" (para retomar aqui outra formulação) é
realmente possível (e necessário)? De nosso ponto de vista, entendemos que sim.
Mas, mesmo sendo positiva a resposta, nova série de questões ainda ficam à
espera de resposta: qual a imagem de Weber que lhe segue como resultado? Até
onde é possível acompanhá-lo, de que forma é necessário complementá-lo, em que
pontos ele precisa ser superado? Em que medida um paradigma weberiano se
aproxima e se distancia do Weber clássico apresentando-se como mais ou menos
ortodoxo ou heterodoxo? Fazer perguntas, em si mesmo, já significa muita coisa.
Se Weber ainda nos consegue mobilizar para repensar questões teóricas e,
principalmente, lançar um olhar sobre o mundo social atual, talvez não saibamos
exatamente se já temos diante de nós um paradigma (ou um programa de pesquisa)
para nos guiar ou não. O fato é que, praticamente 150 anos depois, Max Weber
ainda consegue dialogar produtivamente conosco e parece que tem algo importante
a nos dizer sobre este mundo do século XXI.
NOTAS
1. Dentre as visões alternativas: Kalberg (1994) e Hennis (1987).
2. O que nos leva, por sinal, ao encontro de diversos outros comentadores, como
Guenther Roth (1968) e Gabriel Cohn (2003), no Brasil, por exemplo. Agradeço ao
parecerista anônimo que, acertadamente, chamou-me a atenção para este ponto. Em
tempo, também, para agradecer às preciosas indicações que foram sugeridas por
ambos os avaliadores de Dados e que, sempre que possível, procurei incorporar,
ainda que tenha consciência de que alguns temas tenham que ser aprofundados
ulteriormente.
3. Para uma avaliação crítica deste debate, consultar Vandenberghe (2010).
4. Tal publicação, cujo original inglês foi publicado em 1996, está agora
disponível em português (Schluchter, 2012).
5. A proposta de interpretação de Schluchter privilegia claramente o confronto
com o pensamento habermasiano. Um cotejo entre a dimensão racional da ação
weberiana e o projeto de concepção reflexiva da agência (conforme Giddens)
ainda está por ser realizado.
6. Individualismo/Atomismo/Subjetivismo versus Holismo/Estruturalismo/
Sistemismo/Coletivismo, notará o leitor, são termos intercambiáveis na
discussão que, até o presente momento, ainda não encontraram detalhamentos
analíticos mais cuidadosos. Na falta de um consenso técnico-linguístico (aliás,
incomum nas Ciências Sociais), adoto como referência padrão o primeiro de cada
um dos termos de cada conjunto.
7. Em 2005, por exemplo, os coordenadores do Grupo de Teoria Sociológica da
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) já
organizavam um GT sobre "As modernidades múltiplas". Cabe assinalar, ainda, que
há uma tradução em português facilmente disponível (Eisenstadt, 2001),
ampliando a difusão desta vertente no Brasil. A tradução de um capítulo da obra
de Wolfgang Knöbl (2006) também é um momento importante neste processo de
recepção. A coletânea de textos de Sérgio Costa, José Maurício Domingues,
Wolfgang Knöbl e Josué Silva também oferece um bom balanço do debate (em
especial a Introdução e o capítulo de Wilfried Spohn), mas, até o momento, não
foi traduzida para o português (The Plurality of Modernity: Decentring
Sociology. Rainer Hammp, München, 2006).
8. O próprio autor fornece uma concisa e instrutiva reconstrução de sua
trajetória teórica em Eisenstadt (2006:9-38).
9. Ideal seria apontar, com vagar, os detalhes da riquíssima reflexão weberiana
das esferas de valor e ordens de vida, tal como exposta na Consideração
Intermediária. Dada a restrição de espaço, remeto o leitor à excelente
sistematização de Habermas (2012) e aos importantes detalhamentos de Cohn
(2003) e Waizbort (1995). Meu ponto de vista sobre o assunto é apresentado em
Sell (2013).
10. Esforço que, em conjunto com Brüseke (2012), resulta de sua parte na busca
pela reflexão sobre a "modernidade técnica" (Brüseke, 2002) e, de minha parte,
na identificação de fundamentos weberianos para uma teoria da racionalidade
técnica. Esta não é nem a racionalidade de "fins" nem de "valores", mas
racionalidade de "meios" (Sell, 2011).