A Ascensão Política dos Pentecostais no Brasil na Avaliação de Líderes
Religiosos
INTRODUÇÃO
Embora a politização dos pentecostais não seja uma especificidade brasileira
(Smilde,_2004; Martin,_2006 e 2002; Stewart-Gambino_e_Wilson,_1997; Freston,
2004; entre outros), nas últimas décadas o país tem se destacado entre as
sociedades latino-americanas pela importância crescente da ação direta de
religiosos e membros de comunidades pentecostais na arena política. Com grande
capacidade de mobilização popular, as igrejas conseguem eleger representantes
não só para as Casas Legislativas municipais e estaduais, como também para o
Congresso Nacional, onde atualmente ocupam 12% das cadeiras da Câmara Federal e
integram a Frente Parlamentar Evangélica (Machado,_2012).
Neste artigo, apresentamos uma análise do processo de revisão das posições
tradicionais dos pentecostais em relação ao engajamento político e à
participação nos debates públicos sobre as questões sociais e éticas da
sociedade brasileira, a partir de uma pesquisa qualitativa com importantes
líderes deste segmento religioso. O objetivo principal é conhecer a visão de
atores religiosos que formam opinião pública no meio pentecostal em relação a
uma série de temáticas sociais, políticas e econômicas nos planos mundial e
nacional. Interessava-nos particularmente recolher as opiniões e iniciativas
dos líderes nas áreas cultural/identitária (com temas como aborto,
homossexualidade, questões de gênero etc.) e política (partidos, corrupção,
eleições etc.).
Foram realizadas entrevistas com 58 lideranças que, na ocasião da pesquisa
(2011-2012), desenvolviam atividades nas cidades de Salvador, São Paulo, Belo
Horizonte, Brasília, Campinas e Rio de Janeiro. Quase todos tinham cargo
eclesiástico - pastores(as), missionários(as), bispos, presbíteros - e 18
entrevistados do sexo masculino acumulavam ou haviam se licenciado de seu cargo
na igreja para assumir uma cadeira na Câmara Federal, nas Assembleias
Legislativas ou nas Câmaras Municipais das cidades listadas anteriormente. Os
demais eram pastores que dirigiam instituições assistenciais e assessores
políticos com atuação no Congresso Nacional. A maioria é pentecostal, mas
também foram entrevistados alguns líderes de segmentos das igrejas históricas
que se pentecostalizaram nas últimas décadas1.
Inicialmente, apresentamos um breve apanhado das principais alterações no campo
cultural, chamando atenção para as relações dessas mudanças com processos em
curso nas outras esferas da sociedade brasileira. Em seguida, examinamos as
opiniões das lideranças pentecostais no que diz respeito à política e à
representação do segmento religioso no sistema político, em especial no
Legislativo. Na seção seguinte, discutimos a percepção desses entrevistados em
relação ao comportamento parlamentar dos políticos com identidade pentecostal.
Àguisa de conclusão, procuramos demonstrar como a participação na esfera da
política se tornou fundamental para esse grupo religioso que, embora em
expansão, é minoritário e se sente discriminado na sociedade civil e no sistema
político brasileiro.
Argumentamos que, para os pentecostais, a participação no Poder Legislativo é
interpretada a partir de dois vetores principais: a) como forma de
sobrevivência em uma ordem social em que as relações entre o Estado e os grupos
religiosos sempre foram muito assimétricas e onde a agenda política dos
movimentos feministas e pela diversidade sexual vem se impondo e orientando as
políticas públicas no campo da educação, da saúde e das relações familiares; b)
como forma de construção (minoritária) de uma agência coletiva com pretensões
de reconhecimento e influência. Nesse segundo registro, autoconfiança e uma
certa maneira de pensar estrategicamente o alcance desses objetivos se combinam
ou respondem ao sentimento de insegurança que o discurso da sobrevivência
expressa.
A figuração discursiva que articula a percepção de "ter que fazer política"
será explorada por dois ângulos: o de uma "resposta" ao desafio das mudanças
políticas e socio culturais informadas pela crescente pluralização da vida
social no Brasil pós-transição, mas também no contexto globalizante; e o de uma
tentativa de construir um "projeto" cujos contornos permanecem tão indefinidos
para a maioria dos pentecostais quanto suscitam fantasmas de
"constantinismo"2para seus adversários e críticos. A articulação da modalidade
"minoritizante" será explorada nesse segundo registro.
MUDANÇAS RECENTES NO CAMPO CULTURAL E POLÍTICO BRASILEIRO
As últimas quatro décadas foram marcadas não só pelo processo de
redemocratização do país mas também pela presença no poder político dos
partidos de centro e de esquerda e pela política de aproximação do Estado
brasileiro com os movimentos sociais que buscavam reconhecimento na sociedade.
De início, o restabelecimento da ordem democrática suscitou em diferentes
setores sociais uma grande expectativa de revisão da cultura política do país,
interpretada pelos especialistas como personalista, autoritária e clientelista
(Sorj,_2006; Carvalho,_2000; Burity,_2002; Baquero,_2003), e de criação de
novas formas de participação popular e de gestão da coisa pública (Burity_e
Andrade_Jr.,_2011). Avanços importantes foram realizados, em especial na área
dos direitos humanos e na ampliação dos segmentos que integram a elite
política, mas não ocorreu uma transformação substancial da cultura política
nacional, como veremos nas páginas seguintes.
A composição religiosa da população brasileira também sofreu alterações neste
período, verificando-se um acelerado trânsito de fiéis em direção aos grupos
evangélicos3.Isto é,enquanto a representação dos católicos na população
brasileira declinou de 83,3%, em 1991, para 73,8%, em 2000, e 64,6%, em 2010, a
dos evangélicos, nos mesmos períodos, evoluiu de 9% para 15,6% e 22,2% (IBGE,
censo demográfico de 2010). Deve-se esclarecer que essa tendência ascendente
resulta da diversificação e da difusão do pentecostalismo, uma vez que os
integrantes desse segmento deixaram para trás os chamados protestantes
históricos, nas últimas décadas do séculoXX, e, segundo os dados do último
censo, representam agora 60% dos evangélicos.
Essa surpreendente multiplicação e diferenciação de grupos pentecostais
encontra-se relacionada, segundo a literatura nacional, com a revisão da
posição de apartamento da cultura e da política partidária brasileira que
predominara durante grande parte do século XX. No campo da cultura, os
analistas (Birman,_2003; Mariano,_2000; Machado,_2006) identificam entre as
mudanças mais significativas: a flexibilização dos usos ecostumes; aadoção da
Teologia da Prosperidade; acapacidade de selecionar e incorporar elementos da
agenda política de movimentos sociais; e os investimentos crescentes nos meios
de comunicação eletrônicos. No campo da política, vários estudos (Burity_e
Machado,_2006; Machado,_2003; Fonseca,_2008; Freston,_2008; Campos,_2010;
Mariano,_2005) salientam a aproximação dos atores religiosos com os partidos
políticos; a ampliação da presença de líderes religiosos no Legislativo; e o
interesse tanto pelas concessões de canais de televisão e de rádio, quanto
pelas parcerias com as agências governamentais na área da ação social.
Impulsionando o processo de mutação no universo evangélico, estavam as igrejas
neopentecostais que surgiram a partir da década de 1970 e atraíram milhares de
fiéis pela estratégia de enfatizarem a prática do exorcismo, a capacidade de
cura e a resolução de problemas econômicos e familiares em seus programas
televisivos. Já a Teologia da Proposperidade promoveu um deslocamento das
expectativas milenaristas de salvação para uma vida de graças no presente, e
favoreceu a inserção dos pentecostais na política partidária, no mercado
editorial e no restrito universo das telecomunicações (Corten_et_al.,_2003).
De um ponto de vista mais estritamente político, pode-se mencionar o impacto da
mobilização social nos últimos anos da ditadura militar, facilitada pela
relativa liberalização do regime (retorno ao pluripartidarismo,
restabelecimento do calendário eleitoral com exceção da Presidência da
República, diminuição da repressão ao movimento sindical e aos movimentos
sociais populares). Esse impacto significou pelo menos três coisas para o
pentecostalismo: a) a percepção de uma oportunidade de sair da invisibilidade e
reclamar o acesso à esfera pública institucional que outros setores emergentes
começavam a ter; b) a emergência de uma agência interna empurrando para a
publicização como caminho para a saída da condição de minoria política e
culturalmente subalternizada, e questionando o apoliticismo; c) a confrontação
com os setores mais "avançados" dos movimentos sociais - movimento feminista,
negro, ambientalista e LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais
e Transgêneros) - e com o mundo da esquerda partidária, cujas bandeiras
desafiavam a autocompreensão pentecostal da política e da participação social.
Um estudo quantitativo (Fernandes_et_al.,_1998) realizado na década de 1990,
com fiéis de igrejas históricas e pentecostais da Região Metropolitana do Rio
de Janeiro, já chamava a atenção para o fato de que, embora apresentassem a
mesma tendência de pequena participação em associações e instituições civis dos
brasileiros em geral, os evangélicos procuravam mais os políticos para fazer
pedidos, sugestões ou reclamações dos que os não evangélicos. Ou seja, os fiéis
evangélicos demonstravam um sentimento mais forte do que o restante da
população brasileira de que possuíamos seus representante se tinham "com quem
falar no distante mundo da política". A pesquisa indicava também que, apesar de
acompanhar os programas de propaganda eleitoral gratuita, a atividade
desenvolvida pela maioria dos entrevistados era a realização de orações por
seus candidatos. Detectou, entretanto, que os pentecostais tendiam a um maior
engajamento nas atividades tradicionais da militância política do que os
evangélicos históricos, com destaque para os fiéis da Igreja Universal do Reino
de Deus (IURD) que não só participavam mais da discussão política na Igreja,
como também eram os que proporcionalmente mais declaravam ter afixado cartazes
dos candidatos em suas casas (Fernandes_et_al.,_1998:123).
Outra constatação interessante daquela pesquisa foi a de que o fato de o
candidato apresentar "boas ideias políticas" aparecia na frente da identidade
religiosa entre os princípios para a definição dos votos, sugerindo um maior
"reconhecimento da autonomia e das características próprias da política" por
parte dos evangélicos históricos. De qualquer forma, 40% dos entrevistados
evangélicos valorizava "a crença religiosa do candidato" e este princípio
tendia a ser ainda mais importante entre os fiéis da IURD (acima de 50%), que
em sua grande maioria também declaravam canalizar seus votos para as
candidaturas saídas dos próprios quadros da igreja (95%) (ibidem:126).
Estudos qualitativos demonstrariam posteriormente que muitas das tendências
identificadas nesta pesquisa poderiam ser constatadas nas comunidades
evangélicas de outras unidades da Federação brasileira, eque ahistórica
rejeição dos grupos pentecostais pela política fora superada. De forma bem
sintética, nas últimas décadas o Pentecostalismo tornou-se uma religião
pública, e um dos fatores mais importantes nesse processo talvez tenha sido a
adoção de um modelo corporativo de representação política, com o lançamento de
candidaturas oficiais por parte da IURD. Esse tipo de iniciativa ampliou a
força política do grupo e, consequentemente, acirrou as disputas no interior do
campo evangélico fazendo com que outras igrejas criassem espaços de debate,
socialização e organização das iniciativas no campo da política eleitoral
(Freston,_1999; Corten_et_al.,_2003; Machado,_2006; Campos,_2010). A Assembleia
de Deus (AD) - a maior denominação pentecostal -, a Igreja do Evangelho
Quadrangular e outras começaram a imitar a IURD na produção de materiais,
realização de reuniões de orientação para os candidatos e apresentação de suas
respectivas plataformas políticas, e engajamento em negociações com os
dirigentes partidários de todo o espectro político (cf. Oro,_2010, 2011; Burity
e_Machado,_2006).
Deve-se registrar ainda que, desde as décadas de 1980 e 1990, observa-se um
grande interesse dos partidos políticos brasileiros pelos pentecostais, com as
lideranças partidárias estimulando filiações e candidaturas de atores
religiosos desse campo na expectativa de ampliarem suas chances de sucesso nas
urnas. Essa lógica pragmática acabou favorecendo não só a entrada dos
pentecostais na política institucional, como também na direção das máquinas
partidárias. Assim, a interpenetração das esferas confessional e partidária,
que já havia sido identificada na década de 1980 com a participação de
religiosos da IURD nos diretórios estaduais do Partido Liberal (1985-2006),
pode ser ainda hoje constatada quando se examina a composição das bancadas e
das executivas do Partido Republicano Brasileiro (PRB) e do Partido Social
Cristão (PSC)4.
Este fenômeno da crescente participação dos pentecostais nas agremiações
partidárias e nas Casas Legislativas introduz novos desafios para as ciências
sociais e, em particular, para a sociologia da religião. Afinal, como
compreender a construção dessa agência política pentecostal responsável por um
novo modelo de religião pública acoplado a um processo de emergência de uma voz
minoritária? Que concepções da política e do seu lugar na esfera pública
possuíam esses pentecostais? De que modo se expressam internamente essas
concepções e que práticas elas incorporam e autorizam? Nas próximas seções,
discutiremos essas questões a partir do material empírico já mencionado.
A POLÍTICA NA VISÃO DOS PENTECOSTAIS
A politização religiosa em curso nas sociedades ocidentais tem se defrontado
com três ordens de suspeição: a) a (re)introdução "indevida" da lógica e da
linguagem de organizações religiosas no cenário da política institucional; b)
seu conteúdo conservador do ponto de vista ideológico; c) seu potencial
intolerante, que criaria problemas de coesão social onde já há suficientes
desafios colocados pela pluralidade sociocultural existente (Casanova,_1994,
2010; Cannell,_2010).
Tais referências são heuristicamente fundamentais para a compreensão dos
impactos dos discursos pentecostais na cultura política. A desconfiança de que
haja um estreitamento da esfera pública, com ameaças a expectativas de avanço
das demandas por justiça, igualdade e reconhecimento vindas de grupos
subalternos, produz uma reticente admissão do maior espaço ocupadopelos novos
atores da religião pública. Por outro lado, uma complexa teia de justificativas
para esses temores e resistências à "política religiosa" é tecida de parte a
parte, onde estereótipos sobre as minorias emergentes e reiteração de
mitologias de unidade nacional, neutralidade do Estado e pluralismo cultural
ameaçado se justapõem de forma heteróclita e alimentam confrontos entre
maiorias e minorias, ou, no caso específico, também entre minoria religiosa e
outras politicamente emergentes (mulheres, negros, gays etc.).
Uma marca preliminar importante a ressaltar é que nossos entrevistados são
fluentes no "idioma secular". Conseguem perfeitamente expressar visões, narrar
acontecimentos, defender posições, identificar tendências estruturais, sem
recorrer a uma linguagem cifrada pela religião. Em determinados debates, como
os ligados à sexualidade e à manipulação genética, discursos científicos,
psicológicos e jurídicos são crescentemente identificáveis, contra e a favor,
dependendo do ator religioso em questão. Esse ponto aparentemente banal tem
grande relevância no debate recente sobre a presença da religião na esfera
política. Seja no registro acadêmico, seja no debate público, há expressas
resistências ao que pareceria uma indevida intrusão de argumentos religiosos na
esfera pública, precisamente porque eles apelariam a critérios não verificáveis
ou não acessíveis a outsiders.
Desde os liberais a Rawls, que consideram imprópria toda manifestação de
"doutrinas abrangentes" nas esferas de debate e tomada de decisões públicas
(cf. Dombrowski,_2001), aos habermasianos que entendem ser preciso uma
"tradução" em linguagem secular do discurso religioso (cf. Habermas,_2008), há
resistências contra o uso público da linguagem religiosa. Os pentecostais não
exigem, entretanto, admissão de valores transcendentais como condição de
interação e debate com outros interlocutores religiosos ou seculares, nem
precisam de tradutores para adentrarem os protocolos de discussão pública, como
sugere Habermas.
Quando perguntados sobre diferentes temas, a esmagadora maioria dos
entrevistados não apresenta dificuldades em transitar de um registro discursivo
a outro - ou seja, da religião ao campo temático em tela. Este não é o
problema. Eles utilizam um léxico "secular": eleições, políticas públicas,
justiça social, direitos humanos, família, política internacional, relação
religião-Estado etc. Com elevado grau de instrução, os entrevistados adotam
argumentos "acadêmicos", ao saberem que se trata de uma situação de entrevista
e que, dependendo das perguntas, se espera que demonstrem conhecimento da (sua)
realidade, estilo analítico e reflexividade.
Além disso, a orientação religiosa não se sobrepõe inteiramente à forma de
articular temas sociais, políticos e culturais. Em outras palavras, por mais
que se trate de entrevistados profundamente imbuídos de uma identidade
religiosa, o que é distintivo de suas perspectivas não é uma maneira sui
generis de enquadrar os temas sociais e políticos. Não é exatamente quanto ao
conteúdo das afirmações sobre esses temas que se revela o lugar a partir do
qual falam esses atores. Despidos de referências biográficas e contextuais,
muito do que dizem passa perfeitamente por argumentos articulados desde outras
posições enunciativas no cenário nacional, inclusive inteiramente seculares.
Vale ressaltar, nesse sentido, que a cultura política do pentecostalismo não é
um caso à parte em relação a coordenadas mais amplas do que a referência
religiosa. Há muitas semelhanças com a cultura política "secular", nas virtudes
e nos vícios. O específico é um modo de articular o "secular" e o "religioso"
ou o "espiritual", que produz um caso de dupla hermenêutica5: a realidade se
desdobra numa textura multidimensional, com fenômenos "perfeitamente seculares"
se revestindo de significado religioso ou eventualmente autorizando certas
interpretações "para dentro" da comunidade de fé que não se aplicam ou não são
utilizadas "para fora". Trata-se de uma dupla hermenêutica, porque os
acontecimentos são religiosos eseculares para os pentecostais, ainda quando são
apenas seculares para os atores não religiosos (ou não pentecostais, quando há
disputas com outros atores religiosos, por exemplo os ecumênicos ou os de
matriz africana).
É possível identificar, na fala dos entrevistados, uma narrativa que vai da
admissão de um quietismo apoliticista ou sectário até uma aberta defesa da
politização entre os pentecostais. Ela por vezes se articula em termos
geracionais, ora em termos de uma minoria que se percebe em expansão (e vivendo
um descompasso entre sua autopercepção e seu reconhecimento social) e reclama
direitos, por vezes as duas coisas. Uma liderança nacional do pentecostalismo
brasileiro afirmou-nos que sua "geração foi criada e aprendeu com os pais o
seguinte: 'Igreja é de Deus, política é do cão,é do diabo, e é evidente que uma
coisa não se mistura com a outra!'". Mas a visão atual deste líder é bem
distinta desta repulsa ao mundo político ensinada por seus antepassados.
Segundo suas palavras, "nós somos alguns milhões de brasileiros e, como
qualquer outro, pagamos impostos. Então, por que não fazer parte do governo?
Também temos os nossos direitos".
Por outro lado, ela emerge em algumas das entrevistas de modo mais consistente
que em outras. Não está presente em todas. É possível indicar que quanto mais
jovem é o(a) entrevistado(a) ou mais recente seu envolvimento com a politização
pentecostal, menor a presença e densidade dessa narrativa. Essa construção
discursiva é complementada por histórias pessoais de trajetórias políticas em
que se cruzam as dificuldades de construir uma representação pela via
eleitoral, quando a maioria dos evangélicos rejeitava a política nos termos
indicados, e as mudanças recentes. Nesses casos, percebe-se também a ausência
de pentecostais entre os poucos parlamentares evangélicos eleitos antes de
meados de 1980. Além disso, já se determina uma característica marcante do que
viria a ser a política pentecostal: o papel central das lideranças, notadamente
pastores, como gatekeepers do eleitorado. Esse papel revela tanto a inadequação
de se falar de automobilização de massas pentecostais como a dimensão
fortemente estratégica da intervenção pentecostal na política e a relativização
do "carisma individual" da maioria dos políticos em favor da política
corporativa da Igreja (Oro,_2003; Burity,_2006a).
Há também outro modelo de politização que não se materializa enquanto política
eleitoral. Trata-se da militância social de pentecostais, que também emergiu em
larga medida no contexto da democratização recente do país6. Essa militância
articula outra concepção da política e outra lógica de representação. Ela
pensa-se como e a partir da sociedade civil, como compromisso cotidiano com os
setores subalternos, particularmente no atendimento a necessidades materiais
dos pobres e, dependendo da radicalidade desse compromisso, articulando as
lingua-gens dos direitos e do associativismo civil. A representação se vê como
expressão pública de uma presença evangélica nas lutas sociais "desde baixo". A
política é, antes de tudo, construção de um modelo alternativo de sociedade
(embora pouco semelhante ao discurso da teologia da libertação). Não há aqui
preferências pela via eleitoral, nem grandes simpatias pela ideia das
candidaturas evangélicas. Em alguns casos, essa posição se expressa através da
participação em entidades sociais ou de serviço evangélicas. Em outros, o
impacto sobre indivíduos pentecostais dos intensos processos de mobilização
social das décadas de 1970 a 1990 explica sua politização segundo esse modelo.
Uma assessora da Câmara Federal exemplifica bem essa trajetória de militância
social:
* Quando fiz pedagogia, eu já militava na educação social. Fui funcionária
da Visão Mundial muitos anos (...). Então já trabalhava com educação
social. Até que eu me descobri jurista, quando fui fazer mestrado (...)
eu fiz paralelo um curso de direito. Fiz apenas para entender a ligação
entre o menino de rua e a penalidade. Estavam construindo o Estatuto da
Criança e do Adolescente [ECA], fiz parte do movimento nacional dos
meninos de rua, e a gente estava ajudando nesse momento da Constituinte
[1987-1988], a construção do ECA, e eu precisava entender um pouco a
questão jurídica. E aí fui para a área jurídica. (...) Muito cedo
participei de movimentos sociais. Fui do movimento estudantil, fui do
movimento sem teto no início da sua configuração,quandonão era tão
político, e o movimento nacional de meninos de rua.
Recorrentemente, esses militantes sociais enfrentaram a incompreensão, a falta
de apoio ou mesmo a oposição frontal de suas igrejas, o que em muitos casos
gerou uma circulação por outros espaços eclesiais estimulando uma espécie de
"ecumenismo de base" evangélico.
Sinteticamente, pode-se dizer que a disputa pelo sentido da política e do que
ela representa para os evangélicos recentemente politizados tem favorecido o
questionamento sobre as convicções e credenciais democráticas dos pentecostais.
Muitas das críticas feitas ao pentecostalismo como religião pública apontam
para o autoritarismo no exercício da liderança nas próprias igrejas - seja o
estilo caudilhesco de seus pastores locais, seja a estrutura fortemente
hierarquizada (e crescentemente episcopal) das denominações pentecostais - e
para a fragilidade ética tanto dos parlamentares quanto das lideranças
eclesiásticas, respectivamente, no exercício de sua função pública ou de suas
demandas e negociações políticas.
Há, de fato, uma frágil articulação do tema democrático, se por isso se entende
o veio cívico-republicanista da participação cidadã e da defesa da coisa
pública, ou as formulações em termos de democracia participativa ou
deliberativa. Mas os pentecostais possuem, sim, um grau de compromisso e de
compreensão da democracia que, curiosamente, os aproxima de uma visão liberal.
Jamais são postos em dúvida valores e instituições como a liberdade de
expressão e de consciência, a organização pluripartidária da disputa política,
o voto como meio de expressão de demandas à ordem política. Há, além disso, uma
modulação welfarista desse liberalismo, com ampla aceitação da função (ou
provisão) social estatal e uma certa rejeição do antiestatismo neoliberal,
ainda que se mantenha uma maciça aceitação de vários outros aspectos dessa
ideologia, como o estímulo ao empreendedorismo individual, o discurso da
"responsabilidade" como contraponto aos direitos e a ideia de prosperidade
material como expressão legítima da benção divina, que se traduz em amplo apoio
às estruturas de mercado (Burity,_2006b, 2013).
Na linha da visão crítica da qualidade da política nacional que apresentamos
acima, alguns entrevistados ponderam sobre as imperfeições da democracia
brasileira: "a nossa democracia é ainda muito jovem. Ela ainda carece de muitos
aperfeiçoamentos, principalmente na área da representação, na área da
participação da sociedade nas decisões. Cada vez mais a nação está distanciada
realmente das classes políticas." No entanto, essa percepção não autoriza, em
nenhuma das entrevistas realizadas, um juízo genérico de rejeição da
democracia. Esta fala, por exemplo, provém de um parlamentar com longa
experiência, tradicionalmente posicionado na centro-direita do espectro
ideológico. Ao contrário, há reiteradas intenções de contribuir para seu
aperfeiçoamento. E em alguns casos, tanto de representantes do modelo
parlamentar como do modelo de militância social que apresentamos anteriormente,
se expressa a ideia de que somente a pressão organizada da sociedade vai
conseguir romper a inércia e o autointe-resse dos políticos na manutenção das
deficiências existentes e ajudar a aprofundar a democracia brasileira.
Especialmente no discurso dos parlamentares, defendemos que as posições
conservadoras dos evangélicos em temáticas como direitos sexuais e reprodutivos
e combate à homofobia não devem ser necessariamente compreendidas como ataques
à democracia. Antes, tratar-se-ia mesmo de sua expressão: o embate agonístico é
real, mas a lealdade a instituições e procedimentos democráticos em geral não
está em questão. Além disso, entendemos que, no contexto democrático, parte do
embate agonístico se refere a diferentes concepções do que seja democrático
(por exemplo, se deve prevalecer a ativação do princípio da maioria ou o
respeito às demandas e direitos das minorias, se as decisões devem ser
ancoradas na participação e consulta direta ou na representação). Nos embates
com seus adversários, os pentecostais conservadores entrevistados apelaram
alternadamente para todos esses entendimentos.
A questão do agonismo democrático de forma alguma aparece para os pentecostais
como um estorvo ou algo que desqualifique a democracia, nem queremos sugerir
que seu engajamento agonístico os torna necessariamente campeões das demandas
populares de base, pois é clara a predominância de concepções e práticas
conservadoras de democracia. No entanto, talvez possamos dizer que,
profundamente imbuídos de uma cultura na qual as diatribes doutrinárias e a
postura conversionista predominam, não é preciso muito no processo de
politização para que estas práticas sejam transformadas em recursos do agonismo
democrático. A motivação "bíblica" apontada pelos pentecostais para a defesa de
suas posições é complementada frequentemente pela articulação em termos de
"moralidade pública" e de evidência produzida por surveys de opinião pública,
que são perfeitamente adjudicáveis por parte de discursos não religiosos. Nisso
também os conflitos recentes entre movimentos sociais e pentecostais nos
debates citados podem obscurecer a extensão da adesão ao "liberalismo" na
cultura política pentecostal contemporânea.
É interessante como um pequeno veio dessa afirmação democrática chega mesmo a
articular um discurso laico sobre a responsabilidade do Brasil no cenário
global na defesa dos direitos humanos e da democracia. Segundo um pastor
pentecostal e deputado estadual no sudeste brasileiro, o Brasil está,
comparativamente, à frente de muitas sociedades na questão dos direitos
humanos, e tem a responsabilidade de arti-cular uma alternativa econômica e
"humana" ao modelo prevalecente naqueles países e em outros. Valoriza-se a
capacidade das instituições democráticas brasileiras de enfrentar as clivagens
étnicas e religiosas (em comparação com as dificuldades da Índia em fazê-lo,
por exemplo).
Colocar a questão da democracia a partir da perspectiva do pentecostalismo
(enquanto religião protestante) implica, tanto no debate acadêmico como no
discurso dos atores sociais e políticos brasileiros, reabrir a discussão sobre
a relação entre religião e Estado. Embora isso ocorra muitas vezes nos termos
exageradamente normativos de uma discussão sobre a legitimidade da relação
entre religião e política tout court, especialmente nos discursos externos e
internos críticos da presença pentecostal na política nacional, é a relação
entre religião e Estado que está em jogo. Afinal, todos admitem que não é
(mais) possível ignorar a imbricação entre religião e política. Estamos em
definitivo no contexto da religião pública, ativado pela emergência de uma
minoria religiosa fortemente mobilizada em torno da autopercepção tanto de seu
peso numérico e de sua representatividade sociocultural como dos entraves ao
seu reconhecimento em setores importantes do Estado e da sociedade.
A política emerge nesse contexto como uma estratégia de sobrevivência, que se
traduz em vários sentidos, a nosso ver, em termos hegemônicos. Precisamos
explicar nossa posição. Em que sentido "sobrevivência" (traduzida como um "ter
que fazer política" para alinhar a autopercepção de minoria discriminada com o
peso político já adquirido por meio da mobilização eleitoral das últimas
décadas) e "hegemonia" podem se combinar? Num entendimento clássico, leninista,
de hegemonia como imposição de um projeto vitorioso por via eleitoral ou
revolucionária sobre toda a sociedade, não há nada no discurso das lideranças
pentecostais entrevistadas que autorize essa conclusão. Assim o reiterado
debate sobre o "projeto pentecostal" como uma espécie de modelo
neoconstantiniano ou neogenebrino7 de fusão entre autoridade religiosa e
autoridade política é, no mínimo, equivocado.
O que aproxima, em nossa interpretação, o sentimento pentecostal de injunção à
atuação política da questão da hegemonia é uma compreensão gramsciana desta
última, como resultado de um complexo processo de conquistas de esferas de
influência social, cultural e política, relida à luz de contribuições pós-
estruturalistas. Isto não significa, nem pressupõe, que os atores assumam ou
explicitem essa leitura.
A releitura que propomos realça os seguintes elementos: a) a política não se
joga apenas na esfera da representação de interesses, mas também na construção
de uma direção intelectual e política da sociedade em termos "culturais"; b)
essa direção envolve a ocupação de espaços e a disseminação de um discurso que
seja capaz de se apresentar ao mesmo tempo como demanda de um setor social
específico e como interpelação ao apoio de outros setores, traduzindo suas
respectivas demandas numa "linguagem comum"; c) a viabilização estratégica
dessa construção hegemônica, ao contrário do que pensava o próprio Gramsci, já
não abrange um conteúdo de classe específico, podendo ser exercida a partir dos
espaços conquistados e "confinada" a eles, numa figuração multiescalar e
multidimensional do poder que já não se confunde com o Estado-nação, por vezes
envolvendo conexões claramente transnacionais e globais; d) embora o Estado
seja obviamente um desses pontos nodais de disputa, a conquista de espaços
hegemônicos nem sempre se traduz em termos de controle direto e, nas
democracias contemporâneas, a pluralidade de atores e demandas provoca uma
contínua alteração das fronteiras que definem esferas de "jurisdição" e
exercício do poder estatal (cf. Laclau,_2005; Glynos_e_Howarth,_2007).
Como veremos a seguir, em torno do debate sobre religião e Estado emergem
vertentes do discurso pentecostal que apontam ora para a injunção à política
por motivos de sobrevivência, ora por motivos de "guerra de posições" à
Gramsci. Trata-se, no primeiro caso, de resistir ao assédio dos movimentos
sociais, à discriminação pela mídia, à continuidade dos privilégios desfrutados
pela Igreja Católica etc. No segundo, da hegemonização como tentativa de
permear "a política" ou "a sociedade" com os "valores do Reino de Deus", a
partir de uma presença em múltiplos regimes de práticas - a construção da
identidade (individualização), a família, a cultura (nos sentidos de
entretenimento, pensamento e artes), a economia, o governo, o sistema de
justiça. Enquanto os reclamos de direitos de cidadania se articulam à dignidade
de ser "filho de Deus" na luta dos pentecostais para não serem invisibilizados
e excluídos, a imagem de serem "sal da terra" e "luz do mundo" traduz muito bem
o que aqui chamamos hegemonia (e do que para alguns pentecostais se trataria de
"salvar o que está perdido"). Um deputado estadual pelo Partido Socialista
Brasileiro (PSB) expressa essa confluência assim:
* A religião tem a ver com a política, porque a Bíblia diz que nós, homens
e mulheres cristãos, são [sic] o "sal da terra e a luz do mundo". O que é
sal? Sal é pra salgar o que está apodrecendo, e o mundo tá podre, a cada
minuto que passa o mundo apodrece mais. Quando entra, você ou eu, com o
nome de Jesus, com o brilho de Jesus, as trevas têm de ir cedendo, porque
a luz vai chegando. [...] A única coisa que justifica eu estar deputado é
porque eu sacudo a Bíblia e digo "eu sou crente, eu sou crente em Jesus".
Porque eu não sei fazer projeto, eu não sou doutor. Eu até tenho um
bocado de projeto. Mas pra mim a parte maior, mais forte do meu mandato é
dizer que eu sou um milagre, eu sou um servo de Deus, foi Deus que me
botou no parlamento, só ele me tira daqui.
Essa leitura não é universalmente compartilhada entre os pentecostais. Há
embates internos sérios, como já ressaltamos anteriormente. A necessidade de
"separação" entre religião e Estado é afirmada de várias maneiras. Para uns,
como veto a que a Igreja, como instituição, apoie ou rejeite um político ou um
partido:
* É extremamente problemático a Igreja se pronunciar a favor ou contra um
político. Porque a Igreja precisa manter a sua distância profética de
qualquer partido ou figura política. Por quê? Nenhum partido e nenhuma
figura encarnará plenamente os valores escriturísticos. Isso é
impossível. Nem mesmo um evangélico! Porque os evangélicos são os piores
exemplos!
Para alguns parlamentares, essa separação significa também a possibilidade de
alinharem-se com as posições de seus partidos e tornarem-se mais autônomos em
relação às lideranças eclesiásticas. Isso pode mesmo ser articulado em termos
da clássica distinção liberal entre público e privado,que define a religião
como "questão de foro íntimo", que "dá os elementos básicos para que nós
tenhamos uma conduta correta", mas não se afirma publicamente em termos
institucionais.
Mas a percepção, para muitos líderes pentecostais, de uma ameaça "secularista",
oriunda de avanços feitos por outros setores minoritários e por plataformas
políticas libertárias, anima a tentativa de articular uma resposta ou uma
defesa de valores religiosos considerados majoritários na sociedade brasileira
(a ideia "hegemonizante" de representar um Brasil cristão). Aqui se expressa
bem a articulação da dimensão da sobrevivência coma da hegemonia: os
evangélicos não se veem autorizados a desobedecer as leis, mas estas estão
sendo mudadas por força de mobilizações sociais e conquistas hegemônicas de
outros setores da sociedade, com implicações que suscitam problemas morais para
os pentecostais: como obedecer ao que não é "bíblico"? Nestas circunstâncias, a
justificativa para a politização se reforça. Ela serve para conter o avanço do
"secularismo" e, ao mesmo tempo, permitir que a espiritualidade pentecostal não
se veja dividida entre sua autoimposta aquiescência à lei instituída e sua
aspiração a uma correspondência entre a lei e as práticas favorecidas pela
comunidade de fé:
* Eu não posso como cidadão evangélico, assembleiano, dizer: "não vou
cumprir esta Lei, porque ela está contrária à minha formação cristã". Eu
terei que cumprir, senão vou sofrer as penas da Lei... Então, nós
conseguimos convencer uma boa parte da Igreja da necessidade de nós
estarmos aqui, porque na democracia manda quem tem mais, quem tem mais
influência, quem tem mais voto, quem tem mais poder.
Novamente, trata-se de uma relação entre religião e política, não de imbricação
ou fusão entre religião e Estado. A política pentecostal, nesse sentido, não
tem um "projeto" de conquista do Estado e sim articula uma aspiração de
hegemonia como busca de permear espaços. Não podemos perder a dimensão
potencialmente contraditória dessa construção discursiva, pois ela traduz tanto
a diferença entre o discurso pentecostal e um discurso liberal clássico como a
existência de embates internos ao pentecostalismo entre vertentes mais liberal-
conservadoras e vertentes mais cívico-republicanas.
Por outro lado, na articulação dessa estratégia de sobrevivência, o recurso às
alianças táticas com setores de outras religiões e não religiosos, a utilização
da mobilização eleitoral e a negociação no âmbito da grande política para
garantir limites à agenda que articula o mesmo tema dos direitos em um sentido
mais libertário são indicativos do caráter hegemônico dessa mesma estratégia:
"Então, isso nos preocupou muito. E aí nós fizemos um grande movimento, e
dentro desse movimento houve inclusive entre um turno de eleição e outro, uma
grande negociação com a atual presidente da República, e essa negociação
redundou, eu diria, num suporte muito forte para a eleição dela".
A dimensão hegemônica desse processo não configura um projeto abrangente
preexistente. Os embates em torno da fundamentação jurídica de um projeto de
lei (PL) criminalizando a discriminação com base na orientação sexual, o PL
122, o argumento pentecostal do suposto preconceito contra os evangélicos e as
múltiplas intervenções de pastores, juristas e líderes leigos evangélicos sobre
o tema da homossexualidade como conduta, identidade ou característica genética,
não são a ponta do iceberg, nem a expressão de um projeto. São um lugar de
manifestação do agonismo em que se veem implicados os pentecostais no contexto
de temas importantes da agenda sociopolítica brasileira. A agenda não foi
formulada por eles e sua intervenção tem sido mais reativa do que propositiva.
No processo de articular a defesa dos chamados valores tradicionais da família
e da moralidade, no contexto da defesa da liberdade de consciência e de
expressão, os pentecostais vêm se esforçando, contudo, para construir
articulações ora estratégicas, ora táticas, exibindo assim as características
de uma forma hegemônica de fazer política. As intervenções de alguns
entrevistados revelam o esforço para "desconstruir" as bases de sustentação do
movimento anti-homofobia e desqualificar o argumento de que se trata de
intolerância religiosa, discriminação ou puro veto conservador dos legisladores
evangélicos.
"CIDADÃO DO REINO, CIDADÃO DA PÁTRIA"
Assim como foram identificadas novas e distintas concepções de política entre
os pentecostais, foram registradas avaliações díspares da atuação política dos
evangélicos nos últimos anos. A heterogeneidade dessas avaliações advém em
parte da própria visão que estes entrevistados têm da cultura política
brasileira e do que conta como político, mas não se pode ignorar o fato de que
quase um terço da amostra dos entrevistados já exerceu ou ainda exerce mandato
político em uma ou mais instâncias do Poder Legislativo no país. Neste sentido,
podemos dizer que os líderes que mais enfatizam os aspectos positivos da
inserção dos atores pentecostais nas instâncias de poder político e apresentam
mais claramente a pretensão de interferir no controle do ordenamento social
brasileiro são justamente aqueles que tiveram ou ainda apresentam vínculos
diretos ou indiretos com o Poder Legislativo.
Antes de entrarmos neste balanço sobre a atuação recente dos atores políticos
deste segmento religioso, no entanto, é preciso esclarecer que foram
identificadas quatro posições diferentes no que se refere à participação dos
evangélicos nos cargos eletivos da política brasileira: a) uma defende que,
como qualquer outra minoria ou segmento social, os evangélicos podem e devem
participar das disputas pelos poderes Executivo e Legislativo; b) outra entende
que esta participação deve se restringir apenas ao Poder Legislativo; c) uma
terceira é contra a inserção dos irmãos de fé na política porque o "processo
político brasileiro é deteriorado"; d) a última veta a participação dos grupos
religiosos nestes espaços de poder por entender que o Estado é laico e por ser
crítica ao messianismo ou à visão "de estabelecer um reino cristão no Brasil."
As duas últimas posições são minoritárias e podem ser lidas como expressão,
uma, do que há de continuidade com a tradição pentecostal de apartamento da
vida política nacional, e a outra, do reconhecimento da pluralidade da
sociedade e dos direitos de outras minorias.
Entre nossos entrevistados a posição mais frequente, entretanto, foi a que
destaca a importância da presença dos pentecostais no Parlamento brasileiro,
uma vez que é nesta esfera que ocorre a disputa dos diferentes projetos
societários ou, em outras palavras, a luta pelo controle dos tipos de
sociabilidade a serem institucionalizados no país. De acordo com um dos
entrevistados,
* O Executivo já tem as leis, tem os programas e ele vai executar. Agora, a
nossa vocação é outra. É de alguém que vai trabalhar no Legislativo
porque ali é debate de valores, é embate ideológico, é onde se define pra
onde caminha a sociedade... Eu não estou ali pra governar ou legislar
para todos. Eu estou ali representando o grupo que me representa. Agora,
no cargo majoritário não, eu sou o governador de todos, eu sou o prefeito
de todos.
Com um discurso fundado na representação de sua coletividade enquanto uma
minoria social, os líderes que expressam esta posição favorável à
representatividade do grupo no Congresso Nacional justificam o abandono da
tradicional atitude de rejeição à política com argumentos de caráter pragmático
e/ou ideológico. As explicações de cunho pragmático enfatizam as possibilidades
de encaminhamento das demandas da comunidade confessional, como isenção fiscal
para templos e o fim da dependência do grupo em relação aos políticos
profissionais não evangélicos. Já as justificativas de caráter mais ideológico
salientam as contribuições que os evangélicos podem dar ao processo de
organização da sociedade brasileira. Nesta perspectiva, um pastor da Assembleia
de Deus declarou:
* Se a Bíblia diz que sou sal e luz na terra, eu tenho que contagiar e
iluminar. Como é que eu, sendo luz, posso deixar que esse país fique por
conta da corrupção e dos corruptos e não dou a minha participação como
evangélico? Eu necessariamente tenho que ter uma atuação [...]. A igreja
evangélica influenciou e vai influenciar cada vez mais. E a hora que der,
nós vamos fazer um presidente da República evangélico. Não por ele ser
evangélico, mas sim por ele ser o melhor. Nós também temos proposta pra
melhorar esse país...
De modo geral, observou-se uma tendência dos entrevistados associarem a
corrupção à cultura política brasileira que foi gestada a partir da colonização
ibérica e católica que contrastaria com a cultura das formações sociais com
predominância dos grupos protestantes8. Neste tipo de discurso, enquanto o
ethos pentecostal é associado à honestidade, ao trabalho duro e à seriedade, a
cultura política do país é descrita como "cheia de vícios", marcada pelo
"jeitinho", e capaz de desvirtuar "das suas funções os homens tementes a Deus
que se envolvem com a política", tornando-os gananciosos e preocupados apenas
com o interesse pessoal ou da própria igreja. Ou seja,
* os políticos evangélicos são tentados às mesmas práticas negativas da
política: fisiologismo e a busca de interesses pessoais ou da instituição
que ele representa [sic]. Então, é muito difícil ele ver a coletividade,
mas isso não é problema dos políticos evangélicos, é dos políticos em
geral! E o jogo político no qual o evangélico entra é aquele ali. E ele
acaba sendo cooptado pelo sistema. E se ele tentar ser diferente fica uma
luta de Davi contra Golias. (...) Ser relevante como evangélico nesse
meio é um grande desafio pra esses políticos evangélicos.
Por assumir essa representação negativa da cultura política da sociedade
inclusiva é que uma parcela pequena dos líderes que se posicionam favoráveis à
presença dos evangélicos no Parlamento sugere restringir esta participação aos
leigos de suas comunidades. Um dos líderes entrevistados fez a seguinte
declaração:
* Fui muito crítico ao envolvimento de pastores na política e isso fechou a
porta à participação dos membros [leigos] na política. De uns tempos pra
cá nós estamos tentando mudar, e incentivando os jovens a se envolverem e
se filiarem a um partido político para fazerem influência lá. Pra que a
gente possa descobrir vocações, membros que possam exercer amanhã uma
posição relevante mediante formação, treinamento e supervisão da igreja.
Se eu estivesse no Congresso, eu ia propor uma lei que incluísse uma
regra: "nenhum sacerdote, independente da religião, pode concorrer aos
cargos".
O envolvimento de atores políticos evangélicos nos escândalos econômicos e
casos de corrupção no primeiro governo do Partido dos Trabalhadores (PT) acabou
por contrariar o discurso dos religiosos sobre a restauração da ética na
política, que teve um papel importante nos pleitos realizados na primeira
metade da década passada. Vinte e oito políticos que integravam a Frente
Parlamentar Evangélica na 52ª Legislatura da Câmara Federal foram investigados
pela Comissão Parlamentar de Inquérito instalada no Congresso Nacional para
analisar o envolvimento dos políticos nos escândalos, e isso foi amplamente
explorado pela mídia nacional (Meireles e Pereira apud Campos,_2010)9. Em
decorrência disso, o número de parlamentares evangélicos na Câmara Federal
sofreu um declínio de 71 para 46 na 53ª Legislatura (Baptista,_2009:417-419).
Ainda que tenha reconquistado cadeiras no Parlamento no ano de 2010, com a
eleição de 69 evangélicos para a Câmara Federal, a presença de autoridades
pentecostais provocou abalos na construção discursiva que contrastava a
identidade pentecostal com a dos brasileiros não evangélicos, e fez com que
alguns entrevistados fossem bastante críticos aos legisladores que entraram na
vida política a partir do púlpito e/ou com apoio das igrejas. Por exemplo,
neste posicionamento:
* Existem duas vertentes diferentes: uma, ingênua, parte do pressuposto de
que se tivermos um grande número de políticos nós vamos fermentar o
Brasil para Cristo. "Quando for de Jesus, o Brasil vai ser um país mais
justo". [...] É só moralismo. A grande maioria se elege em cima deste
discurso moralista, sem a mínima discussão política. Já a outra vertente
é meramente oportunista: "Nós temos que ter lá uma pessoa para que os
nossos interesses estejam bem representados, para que a gente possa
acionar no dia que precisar de alguma benesse". E é sempre se espelhando
na Igreja Católica. Eles dizem: a Igreja Católica conseguiu dois milhões
para um projeto social, por que a gente não consegue também?
Como sugere a citação acima, e outras entrevistas corroboram-na, a concepção de
participação política que fundamenta a maior partedos grupos pentecostais é
restrita à representação da minoria religiosa no âmbito do poder do Estado e,
em especial, na gestão do bem público, reforçando a lógica corporativa já
presente na cultura política brasileira, com o que um dos entrevistados chamou
de "corporativismo denominacional". A maioria dos políticos evangélicos é
"composta de meros meninos de recado dos seus pastores", nos declarou outro
pastor.
Este discurso via de regra vem dos entrevistados ligados ao modelo de que a
politização pentecostal deve se dar pela sociedade civil e precisa ser
aprofundada. Neste sentido é preciso mencionar que houve profundas mudanças não
só na atitude social quanto aos pentecostais, mas na própria mobilidade social
destes. No início da década de 1980, um grande número ainda provinha
diretamente do mundo rural ou era a primeira geração urbana de filhos de
migrantes rurais. Era um contingente de pouca escolaridade, nenhuma experiência
de participação social e política significativa e uma teologia que
desestimulava tanto esses envolvimentos como qualquer leitura "estrutural" de
questões de poder, classe social, pobreza, racismo ou desigualdade de gênero.
As mudanças profundas trazidas pelas últimas décadas levaram ao surgimento de
uma geração mais escolarizada e profissionalizada, com maior acesso ao consumo,
e também uma cre de suas tradições de fé) e para fora (condições sociais e
políticas vigentes). Mas essa geração ainda se depara com uma liderança
centralizadora e que não acompanhou no mesmo ritmo e intensidade aquelas
mudanças. Ainda persistem temas-tabu e visões defendidas por pastores
pentecostais de que não cabe à igreja fazer "trabalho social".
A literatura brasileira indica que, embora alguns evangélicos tenham se
envolvido com a luta pelo fim do autoritarismo e restabelecimento da democracia
no país, a maioria dos grupos que integram o segmento pentecostal apoiou as
forças militares (Freston,_2011 e 2004; Burity_e_Machado,_2006; Machado,_2006;
Martin,_2006) e praticamente não teve vínculos com os movimentos sociais que
gestaram o "projeto democratizante e participativo" nos anos de 1980 e 1990 do
século passado com o objetivo de expandir a cidadania e aprofundar a democracia
(Dagnino,_2005). Consequentemente, o aprendizado da gramática política e das
regras que regem o sistema partidário nacional vem sendo feito de forma
acrítica, com os legisladores pentecostais reproduzindo os modelos tradicionais
de ação política.
Encontramos também em quase metade dos entrevistados uma autocrítica da
experiência dos pentecostais no poder. No primeiro caso, alguns destacam a
pressão que a geração mais jovem está realizando sobre os políticos evangélicos
com o objetivo de torná-los mais responsáveis perante os eleitores evangélicos
e para a sociedade em geral. Outros apresentaram uma crítica neoanabatista
(rejeição de qualquer fusão entre Igreja e Estado) da política baseada
unicamente no Estado, destacando as bases, a vocação local do compromisso de
caridade da Igreja e a necessidade de preservar uma voz profética para ela. No
segundo caso, entrevistados que são ativistas sociais criticam a fragilidade do
ethos político pentecostal (seu corporativismo, orientação autorreferente e sua
reprodução dos vícios da cultura política dominante), mas também questionam até
que ponto as igrejas são pratica e teologicamente consistentes em demonstrar
seu compromisso social com os pobres e discriminados.
Analisando a politização dos evangélicos na América Latina, Martin_(2006:34)
argumenta que "os pentecostais na política são estranhos à classe política,
frequentemente pertencendo à cultura do pastorado, e são sempre potenciais
clientes num mundo permeado por pressupostos católicos". Martin sugere ainda
que o engajamento político dos pentecostais no plano nacional torna-se
problemático para as igrejas quando os legisladores se envolvem em casos de
corrupção, mas este não seria um problema só deste segmento social.
Acrescentamos que basta lembrar que importantes dirigentes do PT foram
condenados à prisão pelo Supremo Tribunal Federal num processo que pôs em jogo
a credibilidade do próprio partido.
De qualquer maneira, pode-se dizer que a entrada em cena desses novos atores
políticos, mais do que ajudar na superação, tem contribuído para a reprodução
das lógicas patrimonialista, personalista, autoritária e clientelística
presentes na cultura política brasileira. Pode-se argumentar também que a
percepção restrita de participação política da maioria dos líderes pentecostais
entrevistados apresenta afinidades eletivas com o projeto neoliberal de Estado
mínimo que nas últimas duas décadas travou uma forte disputa com o projeto
democratizante participativo na sociedade brasileira. Acomeçar pelo
entendimento da cidadania que, como no projeto neoliberal, se ancora na
participação no mercado de trabalho e de bens e consumo, encontramos também
afinidade entre a proposta de transferência das responsabilidades sociais do
Estado para a sociedade e o empenho de vários dirigentes pentecostais em fazer
parcerias com a máquina estatal e participar das políticas públicas no país. A
pouca transparência no recrutamento dos parceiros pelo Estado, a falta de uma
política de avaliação dos serviços prestados e a dificuldade da sociedade civil
em acompanhar as prestações de conta das organizações e/ou fundações criadas
com este pro-pósito vêm despertando apreensão entre os setores mais
progressistas da sociedade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O exame das concepções de política e das avaliações da própria liderança
pentecostal sobre a representação parlamentar desse segmento confessional
indica uma clara percepção de um momento assertivo. Sugere ainda avanços
significativos no âmbito das dinâmicas socioculturais (conversões em massa,
impacto da mídia, algumas evidências de ativismo social relacionado com o
modelo de representação social não parlamentar), juntamente com as exigências
de representação política, reconhecimento e garantia de direitos. Percebe-se
uma complexa e contraditória articulação das concepções pentecostais da
política com o contexto mais amplo do liberalismo, apresentando a política como
um recurso institucional e cultural em geral, mas não se pode ignorar o impacto
dos recentes avanços da política de esquerda no discurso de várias lideranças.
Por um lado, enquanto a tradicional rejeição do mundo pode informar críticas às
práticas políticas atuais, a falta de socialização política (devida tanto ao
sectarismo quanto aos repetidos períodos de regime autoritário na sociedade
brasileira) torna eleitores e representantes pentecostais vulneráveis aos mais
perniciosos aspectos da cultura política brasileira. Há também, na esteira do
enorme impacto do neopentecostalismo sobre a espiritualidade e a identidade
evangélica, uma aceitação ambígua do empreendedorismo neoliberal (Burity,_2013)
e um foco na representação social de interesses e na desregulamentação dos
controles estatais sobre a economia, que se chocam com as políticas de bem-
estar implementadas pelo Estado no pós-2002.
Estimulando a politização, este contexto coloca novos desafios ao
pentecostalismo: neste cenário difícil, líderes pentecostais sentem que devem
entrar na política como um meio de defender o planeta contra as pressões
secularistas (religião pública), mas também fazê-lo de maneira que apontam para
uma forma hegemônica da política. Eles lutam pela sobrevivência na esfera
pública e, portanto, precisam "controlar" as suas expectativas na presença de
outros atores que devem convencer ou com quem devem negociar - sejam aqueles
que procuram resistir à mudança, sejam os que pretendem aprofundar a
democratização e a pluralização. Neste contexto, pode-se perceber uma proposta
genérica de criação de uma sociedade cristã (o chamado "projeto pentecostal") à
espreita sob certas afirmações triunfalistas, mas isso não é consistente e
abrangente o suficiente para materializar-se como uma alternativa de pleno
direito.
Existem inúmeros obstáculos e desafios enfrentados pelos pentecostais
brasileiros nessa trajetória. Alguns advêm das próprias características do
Pentecostalismo como um movimento religioso: sua pluralização, disseminação
para além das fronteiras denominacionais; sua teologia narrativa baseada em
interpretações "leigas", ad hoc, da Bíblia; a identidade sectária mantida até
recentemente etc. Outros desafios surgem como resultado de pressões na esfera
sociocultural mais ampla - o consumismo, o individualismo, o desenvolvimento de
movimentos sociais que carregam exigências de "secularização" - assim como os
confrontos com setores da mídia secular e da política institucional. Muitos
pentecostais ressentem-se de uma socialização política consistente que poderia
prepará-los para os desafios da pluralização para além de sua retórica bíblica.
Daí a percepção de "atraso" dos pentecostais, identificado por um deputado
social-democrata do Estado de São Paulo: "Parece que está sempre atrasado,
sempre. Depois que todo mundo saiu da sala, ainda estamos lá!" Em busca de um
"passaporte para a cidadania", os pentecostais precisam pular fases e, nesse
processo, tornam-se suscetíveis às influências da política antiga (elitismo,
patrimonialismo, manipulação) e aos ataques dos adversários.
Os atores políticos pentecostais perdem credibilidade quando reproduzem ou
retrocedem nas práticas vigentes de representação de interesses, fortemente
rejeitadas pela maioria da população. Eles perdem público quando centram suas
intervenções nas questões morais e na defesa corporativista de bens públicos
para comunidades de fé. Eles, finalmente, perdem a oportunidade de articular
uma "agenda de transformação social, quer para o país, o estado ou o município"
(o mesmo parlamentar acima). Há muitos, inclusive pentecostais, que não
acreditam na capacidade dos evangélicos de elevarem-se à altura do desafio de
enfrentar os graves problemas da pobreza, da desigualdade e do patrimonialismo
na política brasileira, dada a desmobilização local, a insensibilidade de
muitos ou o envolvimento em práticas ilícitas de líderes religiosos eleitos com
apoio de igrejas.
Observamos também uma grande preocupação em estar em sintonia com as grandes
transformações vividas pela sociedade brasileira no período pós-1980, em
especial com a democratização e a pluralização. Algumas podem ser identificadas
na metade dos entrevistados. Já há sinais dessas tendências no comportamento
eleitoral dos fiéis pentecostais, que parecem ter se tornado mais cuidadosos e
seletivos na escolha dos candidatos evangélicos e um pouco mais preocupados com
o monitoramento de sua participação em eventos políticos importantes. Além
disso, parece haver um sentimento crescente, pelo menos entre a liderança mais
jovem do pentecostalismo brasileiro, de autocrítica e engajamento em diferentes
áreas da vida social, política, econômica e cultural,deixando a porta aberta
para novas histórias.