A Tese da Singularidade Brasileira Revisitada: Desafios Teóricos Contemporâneos
A TESE DA SINGULARIDADE BRASILEIRA E SUAS INSINUAÇÕES
Vislumbrada desde pronto como singular em relação a outras, a sociedade
brasileira é amplamente assumida como um objeto de investigação privilegiado,
merecedor de esforços explicativos e interpretativos específicos; não raro, num
movimento quase imediato, ela se vê alçada da condição de unidade de análise ao
statusde categoria analítica. Com efeito, a tese da singularidade
brasileirarevela-se a ideia-força mais poderosa e penetrante de nosso
pensamento social. Mesmo uma breve apreciação é facilmente capaz de revelar sua
força percuciente e sua notável presença em diferentes momentos e seções desse
universo intelectual: como nenhuma outra, ela tem logrado circunscrever e
orientar a agenda de reflexão, pesquisa e elucubração acerca da experiência
social brasileira. Conquanto se reconheça as irredutíveis peculiaridades dos
vários autores e constelações intelectuais que coloriram esse cenário, admitida
até mesmo a incomensurabilidade das distintas ancoragens epistemológicas -
algumas das quais notoriamente anacrônicas - sobre as quais se apoiaram
diagnósticos diversos dessa pretensa peculiaridade societal, tal ideia parece
permanecer irresistivelmente hegemônica. O presente artigo pretende revisitar
essa tese, abordá-la em algumas de suas principais manifestações e modulações
com o propósito inicial de identificar os elementos que a consubstanciam. Ao
invés de deixar-se seduzir por seu notável poder de emoldurar o real, cedendo
aos seus apelos e noções, é tempo de interpelá-la com distanciamento. Com esse
objetivo, minha opção metodológica é abordá-la a partir de algumas dentre as
mais célebres obras e esforços de "interpretação do Brasil", restringindo-me,
dessa maneira, à sua circulação acadêmico-intelectual.
Algumas advertências prévias fazem-se necessárias: ao inquirir essa tese,
tratarei suas manifestações acerca da "singularidade brasileira" como uma
espécie de discurso que, se por um lado, não guarda com a realidade à qual
pretende referir-se uma relação de estranhamento, também não lhe é contíguo.
Dito de outro modo, não a tomo nem como uma falsa construção da experiência
brasileira, nem como um canal de acesso privilegiado a essa experiência.
Interessa-me, sim, investigar como ela serve-se de vários pontos e aspectos da
realidade para confirmar suas próprias proposições. Mas interessa-me também
inquirir a respeito do quadro de referência sobre o qual tal tese se apoia.
Explico-me: não a considero autossuficiente em suas reivindicações de verdade;
conforme minha primeira hipótese, a imagem do Brasil contemporâneo como um
cenário especial e original não é fabricação exclusiva e solitária dessa tese
1. A meu ver, suas proposições assentam-se e circulam no interior de um terreno
epistemológico mais amplo, caro ao próprio imaginário sociológico da
modernidade2.
De acordo com minha segunda hipótese, esse terreno epistemológico restringe
sobremaneira as possibilidades de imaginação sociológica em uma direção
bastante específica: de maneira expressiva, as alternativas de interpretação
confluem no sentido de se vislumbrar a experiência brasileira como diversa
daquelas tidas por modelares da modernidade. Mas esses dois pontos não exaurem
o problema em tela. É mais que evidente que as últimas décadas testemunharam a
multiplicação de críticas desferidas contra certo discurso a respeito da
experiência moderna. Disseminaram-se as ocasiões nas quais a reafirmação e o
reforço tout courtde parâmetros sociológicos por muito tempo estáveis deram
lugar a observações quanto aos seus limites e fragilidades. Se,conforme sugere
a primeira hipótese do artigo,a tese da singularidade brasileiraadota aqueles
como seus próprios parâmetros, é de se esperar que sua desestabilização redunde
em desafios decisivos às maneiras como nossa suposta originalidade tem sido
comumente imaginada e codificada. Ou seja, à fragilização do discurso
sociológico hegemônico da modernidade se seguiriam inevitavelmente
questionamentos àquela tese.
Esse desdobramento será foco especial de minhas atenções. Há algo mais, porém,
que desejo explorar: talvez com alguma dose de ironia, conforme minha terceira
hipótese, é possível identificar nas mais célebres obras interpretativas da
"peculiaridade brasileira" - as mesmas que esposam elementos centrais daquela
tese - antecipações a críticas contemporâneas ao discurso da modernidade. As
possibilidades dessas antecipações encontram-se associadas à posição não
hegemônica de enunciação de tais intérpretes, que lhes permitiu vislumbrar a
experiência moderna de ângulos incomuns às posições hegemônicas. Por mais
assistemáticas que se apresentassem, por mais divorciadas que estejam em
relação às terminologias científicas atualmente em voga, os sentimentos de
descompasso entre a realidade brasileira e os parâmetros da modernidade,
recorrentes em nosso universo intelectual, podem ser tomados como índices das
fragilidades do discurso sociológico da experiência moderna a que me referi há
pouco. Pretendo debruçar-me sobre tais desencontros também com o propósito de
avaliar as reações e as respostas da tese da singularidade brasileiranesse
debate contemporâneo.
AINDA O PROBLEMA DAS ORIGENS E USOS DE NOSSAS IDEIAS
Muito já se debateu acerca da caracterização que Silvio Romero ofereceu para o
clima intelectual brasileiro da segunda metade do século XIX: "Um bando de
ideias novas esvoaçava sobre nós de todos os pontos do horizonte" (Romero, 1926
apud Schwarcz,_1993:27). Em uma das passagens lapidares de Raízes do Brasil,
Sérgio Buarque desfecha um argumento expressivo de certo desconforto recorrente
entre nossos intérpretes: "Trazendo de países distantes nossas formas de
convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbrando em manter tudo isso
em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns
desterrados em nossa terra" (Holanda,_1994:3). Sugestivo do vigor duradouro
desse sentimento, tal preocupação foi reavivada em décadas recentes por
pesquisadores que retomaram as reflexões acerca das fontes de nossas
referências cognitivas, morais, estético-expressivas e institucionais. É
possível que nenhuma outra expressão tenha conseguido captar de maneira tão
precisa essa angústia como "ideias fora do lugar", objeto da análise magistral
de Roberto Schwarz. Como bem sabemos, ao empregá-la Schwarz - que também se
dobra àquela passagem de Raízes do Brasil- visava investigar o enorme paradoxo
(ou descompasso) que parecia fraturar a sociedade brasileira do século XIX: ao
mesmo tempo que o ideário liberal adentrava o imaginário de nossas elites com
passos firmes, o corpo social continuava a descansar sobre a mais abjeta das
instituições, a escravidão. Em sua visada, não havia dúvidas quanto à origem
estrangeira daquelas referências - afinal, "havíamos conquistado a
independência há pouco, em nome de idéias francesas, inglesas e americanas"
(Schwarz,_2009a:63); mas parecia-lhe também evidente que sua aplicação no
Brasil seguia uma lógica diferente.
Mais recentemente, Ventura corroborou essa avaliação ao se debruçar sobre a
"recepção de modelos europeus, como a história natural e a etnologia, que
forneceram instrumentos para a interpretação da natureza tropicale das raças e
culturas brasileiras" (1991:12-13; ênfases no original) naquele mesmo cenário
analisado por Schwarz. A seu ver, com algum lapso temporal, além de "deslocados
de suas funções de origem" (ibidem:40), esses modelos teriam sido adotados em
meio a esforços de afirmação da identidade nacional por "camadas letradas e
dirigentes". Ocorre que, para Ventura, o nacionalismo exacerbado de certos
críticos literários, ansiosos por bradar as inovações das criações nacionais,
os teria impedido de perceber certa armadilha eurocêntrica da qual caíam
presas: a adoção desses parâmetros europeus implicava a exotização da
autorrepresentação brasileira, resultado de um olhar de fora projetando-se a
partir de dentro. A bem da verdade, na percepção de Schwarz, nada disso nos
autorizaria a concluir que tais "ideias estrangeiras" pouco ou nada diziam
acerca desse país periférico e de tradição ibérica. Sendo aceitas como suas,
essas mesmas referências "assim faziam parte da nossa identidade" (Schwarz,
2009a:63), ainda que num primeiro momento somente para círculos sociais
restritos, ou apenas no âmbito das relações desses círculos com outras parcelas
da sociedade. Destarte, aquelas referências estrangeiras passavam a cumprir
importantes funções locais na organização e funcionamento dessa sociedade
capitalista periférica. É claro que, para Schwarz, nada disso anu-lava
inconfundíveis peculiaridades: escravidão e favor - este último um mecanismo de
mediação universal - estavam lá para lembrar que, naquelas circunstâncias, o
casamento entre liberalismo e sociedade brasileira jamais poderia adquirir
perfil similar ao observado nas principais sociedades europeias. Destoando
assim do "centro", era inevitável "o desacordo entre a representação e o que,
pensando bem, sabemos ser o seu contexto" (Schwarz,_2009a:75-76). Por certo,
não caberia desconsiderar a "falsidade" do liberalismo na própria Europa, isto
é, seu papel ideológico. No Brasil, entretanto, o problema seria de outra
ordem, em virtude de suas irredutíveis especificidades econômicas, culturais,
políticas e sociais, amplamente consideradas: graças a elas, o liberalismo
atuava como uma versão também original daquela "falsidade".
Seja antes ou depois de seu tratamento por Schwarz, o cerne dessa reflexão já
foi alvo de inúmeras e variadas reações3. Há, no entanto, uma problematização
especialmente cara aos objetivos deste artigo, a saber, o argumento conforme o
qual, ao invés de mera assimilação passiva/imitativa, os processos de
deslocamento de "ideias estrangeiras" e seu posterior reposicionamento em
terras brasileiras fizeram-se acompanhar de significativos ajustes e
transformações. Também nesse caso, o argumento não é em hipótese alguma novo.
Silvio Romero já havia sugerido que "a civilização na América respectivé no
Brasil, é um processo de aclimação e, inevitavelmente, de transformação da
cultura européia" (Romero,_1949:296; ênfases no original). Muito tempo depois,
Cruz Costa fez afirmações semelhantes ao analisar a cena intelectual brasileira
na qual o mesmo Romero fora personagem destacado. Em decorrência da "importação
variada de ideias e doutrinas aparentemente contraditórias" (Cruz_Costa,_1964:
272), o ecletismo parecia-lhe um dos traços mais marcantes de nosso universo
intelectual. Mas aquilo que Cruz Costa queria sublinhar de maneira especial era
o caráter dinâmico dessa recepção, que o levava a concluir que "escrever a
história de suas idéias é descreveras modificações de idéias estrangeiras
importadas para o Brasil" (ibidem:3-4). Sob a "influência das novas condições",
aquelas ideias originariamente europeias teriam sofrido mudanças e inovações.
A expressão que possivelmente melhor captura o espírito dessas ponderações, e
que em certa medida agrega maior complexidade à noção de "ideias fora do lugar"
é "a originalidade da cópia". Fernando Henrique Cardoso adotou-a para avaliar
as contribuições do pensa-mento Cepalino. Com sua atenção voltada à questão do
desenvolvimento econômico da América Latina, Cardoso não pretendeu, em hipótese
alguma, descartar as "raízes extracontinentais" (marxistas) das "mais originais
interpretações latino-americanas" (1980:18). Ainda assim, haveria aqui "um
campo teórico próprio, embora limitado" (ibidem:72), resultado de experiências
sociais também singulares. Alfredo Bosi refere-se a operações de filtragem de
ideologias provenientes de culturas estrangeiras, as quais permitiriam a certos
grupos sociais "descartar os seus aspectos impertinentes e utilizar aqueles que
interessam à racionalização de seus interesses particularistas" (1995:22;
ênfases no original). Em direção análoga, Lilia Schwarcz empregou aquela mesma
expressão para se referir às várias modalidades de adoção que modelos
evolucionistas europeus tiveram no Brasil da segunda metade do século XIX e
início do seguinte. Conforme salienta Schwarcz, exercícios de tradução dessa
natureza via de regra envolviam a "seleção prévia de textos e escolhas de
certos autores" (1993:42). Por essa razão, ao invés de tomar o resultado desse
movimento como uma "cópia desautorizada", mais apropriado seria percebê-lo em
"seus novos significados contextuais, bem como verificar sua relação com a
situação social, política, econômica e intelectual vivenciada no país" (ibidem:
242).
Não se quer desconsiderar o vigor dessas análises. Sua sofisticação habilita-as
a apreender elementos importantes da circulação de referências caras ao
imaginário acerca da experiência da modernidade no Brasil. Note-se que, dentre
as mais bem-sucedidas, não há ocasião em que o retrato oferecido seja estanque
ou simplificador. Ao mesmo tempo, porém, é indisfarçável a segurança com que
essas mesmas análises imputam selos de origem estrita a tais "ideias". É
verdade que os contextos de circulação são comumente pensados em suas relações
mútuas: tal qual em nossos melhores intérpretes, a imagem da "peculiaridade
brasileira" não se confunde com a do pretenso isolamento dessa experiência.
Ainda assim, assume-se desde pronto a existência de fronteiras bastante
precisas entre, de um lado, sociedades produtoras de referências (cognitivas,
ético-morais, estético-expressivas e institucionais) e, de outro, sociedades
destinatárias - sejam elas tomadas como receptoras passivas ou, no melhor dos
casos,como provocadoras de mudanças mais ou menos criativas de "ideias
fabricadas alhures".
Ora, observadas com distanciamento, ao menos três coisas podem ser destiladas
dessas análises e reflexões: primeiramente, supõe-se que formas de pensar
únicas ascendem e projetam-se a partir de configurações sociais específicas; no
limite, é como se houvesse uma correspondência necessária entre contextos
determinados e certos universos mentais e normativos. Nesses termos, quando
empregadas ou aplicadas a outras configurações societais, essas formas de
pensar e agir deveriam inevitavelmente sofrer algum tipo de ajuste, para não
dizer "deformação" ou "distorção".
Em segundo lugar, apesar de se descartar a existência de entidades sociais
insuladas e autossuficientes em favor do reconhecimento de suas interconexões
(históricas, políticas, culturais, simbólicas, econômicas e de outras
naturezas); mantém-se de maneira mais ou menos sutil certo lastro nacional a
esse quadro de referência. Por conseguinte, pressupõe-se já de partida que as
experiências nacionais guardam algum tipo de coerência no tempo, a despeito de
eventuais fraturas internas cuja gravidade, no entanto, não fere sua condição
de categoria analítica. Trava-se, dessa maneira, um pacto silencioso - e
bastante eficaz em seus efeitos interpretativos - entre o observador e seu
objeto, unidos graças à existência prévia e indubitável de uma dada vida
nacional (com alguma frequência compartilhada por ambos). Tomada como o
resultado da combinação peculiar entre elementos diversos (alguns dos quais
derivados dos "países centrais", outros tantos pretensamente típicos e únicos
ao novo lugar), não é de estranhar, pois, que a singularidade brasileiraseja
pacificamente assumida como um ponto de partida - o qual, sem nenhuma surpresa,
vê-se confirmado ao termo do exercício.
Por fim, como um corolário daquela divisão (estabelecida também com nuanças e
graus variados de sutileza) entre sociedades produtorase sociedades receptoras;
toma-se por certo a existência de algum tipo de conexão íntima entre "ideias e
referências originais da modernidade" e as "sociedades centrais". Ao fim e ao
cabo, é-se levado a concluir que, em contrapartida ao ajuste fino observado
nessas últimas, sobressai-se o indisfarçável descompasso das "sociedades
destinatárias". Sejam quais forem as razões identificadas do desacerto - clima,
raça, meio, política, cultura, economia etc., combinadas ou não entre si - há
sempre algum obstáculo que se interpõe à sua consonância. No que se segue, à
luz de alguns dos mais celebrados esforços de interpretação do Brasil, importa-
me destilar o "núcleo duro" dessa imagem duradoura.
FORMULAÇÕES EM TORNO DA "SINGULARIDADE SOCIETAL BRASILEIRA"
Em A Idéia de Brasil Moderno, Octavio Ianni nos recorda que "A questão nacional
é um tema constante no pensamento brasileiro" (1992:8). Essa quase obsessão
traduziu-se em realizações diversas, algumas das quais posteriormente alçadas
ao statusde precursoras da análise sociológica no Brasil. Desde pronto, salta
aos olhos a enorme variedade desses empreendimentos (Vianna,_2004:200-206).
Apoiados em ancoragens epistemológicas não raro incomensuráveis, as variáveis
independentes por meio das quais essas "interpretações do Brasil" buscaram
compreender a "originalidade brasileira" mostraram-se muitas vezes
incompatíveis. Note-se, aliás, que a autoconsciência dessa diversidade
interpretativa é quase tão antiga quanto sua própria existência4. Ora, a
institucionalização das ciências sociais no Brasil parece ter acentuado ainda
mais o interesse pela catalogação e avaliação do teor da produção pregressa
(Santos,_1978). Recentemente, Lidke_(2005) ofereceu uma classificação
abrangendo cinco períodos, distribuídos em duas grandes etapas: I) Etapa da
herança histórico-cultural da sociologia:1) período dos pensadores sociais/ou
período pré-científico (até a década de 1920); 2) período da sociologia de
cátedra (1928-1935); II) Etapa contemporânea da sociologia:1) período da
sociologia científica (1930-1950); 2) período de crise e diversificação (1950-
1960); 3) período de busca de uma nova identidade. De outro modo, Brandão
descartou tentativas de periodização vinculadas a progressos na
institucionalização das ciências sociais no Brasil em favor de um esforço de
identificação e análise de "linhagens/famílias de pensamento", as quais
interconectariam autores e obras situados em momentos diversos de nosso
universo intelectual. Para ele, mais valeria discernir "'estilos' determinados,
formas de pensar extraordinariamente persistentes no tempo, modos intelectuais
de se relacionar com a realidade" (Brandão,_2007:29).
Não pretendo levar às últimas consequências exercícios de catalogação dessa
natureza. Basta percebê-los como evidência da complexidade dessa empresa
interpretativa, matizada pela expressiva diversidade de pontos de apoio -
conforme salientei, muitas vezes incompatíveis e incomensuráveis entre si - por
meio dos quais a "singularidade brasileira" tem sido codificada desde longa
data. Ao invés de me ater a traços tidos por exclusivos de "épocas", "escolas"
e/ou "linhagens" específicas, é minha prioridade iluminar uma faceta com
frequência preterida: sem descartar a existência de aspectos e preocupações
únicas e exclusivas a certos períodos ou seções desse universo intelectual,
interessa-me identificar algumas imagens a respeito da experiência societal
brasileira que perduram e atravessam essas muitas "etapas", "períodos" e/ou
"famílias" de nosso pensamento. Não se trata, conforme Brandão já teve
oportunidade de advertir, de "enxergar sempre no novo o antigo" (2007:58), como
se esse universo intelectual fosse imune a mudanças. Ocorre que abundam
evidências de que a tese da singularidade brasileiraalimenta certa
"regularidade na dispersão", para usar uma expressão cara a Foucault_(1972).
Saliento, no entanto, que o presente exercício de reflexão não pretende em
hipótese alguma subestimar diferenças irredutíveis facilmente observáveis entre
autores, obras, momentos e movimentos que coloriram esse quadro. Não se trata,
pois, de fazer tabula rasa das maneiras notoriamente diversas por meio das
quais nossos intérpretes pretenderam explicar e codificar a "peculiaridade
brasileira". Conforme Lidke_(2005) nos sugere, preocupações, respostas,
categorias e conceitos variaram de um momento para outro na longa história
desse pensamento, desde seus precursores até os praticantes da sociologia
científica. Ademais, a extensa lista de intérpretes que para muitos expressa o
que há de melhor nessa tradição intelectual é por si só sugestiva da incrível
diversidade desse universo: Tavares Bastos, André Rebouças, Joaquim Nabuco,
Silvio Romero, Tobias Barreto, Nina Rodrigues, Alberto Torres, Oliveira Vianna,
Paulo Prado, Mário de Andrade, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio
Prado Jr., Florestan Fernandes, Celso Furtado, Raymundo Faoro, Guerreiro Ramos,
entre outros (Brandão, 2007; Botelho e Schwarcz, 2009). As sugestões de Brandão
certamente nos poderiam instar a "investigar a existência dessas 'famílias
intelectuais' no Brasil, reconhecer suas principais características formais e
escavar sua genealogia" (2007:29).
Nessa direção, além de uma "família de pensamento autoritário" (Oliveira
Vianna), talvez pudéssemos falar de uma "linhagem liberal" (Rui Barbosa), de
uma "perspectiva conservadora" (Visconde do Uruguai), de uma "abordagem
patriarcalista" (Freyre), de uma "perspectiva patrimonialista" (Faoro), de uma
"nacional-desenvolvimentista" (Guerreiro Ramos), uma "periférico-dependentista"
(Celso Furtado), dentre outras. Essas várias modalidades de interpretação
retrataram, cada qual a seu modo (ainda que não necessariamente de maneiras
excludentes), as continuidades e rupturas entre o Brasil e outros contextos:
por vezes nossa "singularidade" aparece como uma situação absolutamente
original, outras como a especificidade de um quadro mais amplo com o qual
guardam algum grau de parentesco5.
A depender dos critérios adotados, e considerando eventuais interpenetrações e
influências mútuas, além do fato de que nem todos os autores "se enquadram
nesta ou naquela linhagem" (Brandão, 2007:38), outros recortes poderiam ser
igualmente sugeridos com vistas à análise dessas distintas maneiras de
compreender, explicar e codificar as "particularidades brasileiras". Ou seja,
parece-me indiscutível que nossa alardeada "singularidade" ganhou conotações
diversas em diferentes autores, seções e momentos desse pensamento. A riqueza e
relevância dessa opção analítica dispensam maiores comentários. Isso posto,
saliento uma vez mais que meu interesse prioritário é, antes sim, destilar
certo denominador comum que tendeu a confirmar e reforçar o que Carvalho Franco
chamou de "pressuposto de uma diferença essencial" entre "nações
metropolitanas" e "povos coloniais" (Franco,_1976:61) - ou, como quero
preferencialmente argumentar, entre o Brasil e outros contextos ditos
"centrais" da experiência moderna. Conquanto muitas das nuanças desse
pensamento se percam nesse exercício, acredito que a opção mais abrangente do
artigo possa iluminar alguns aspectos de um dilema sociológico que nos é caro.
Conforme observado por muitos analistas contemporâneos, é justamente a partir
de meados do século XIX que preocupações com os caminhos e descaminhos da
nacionalidade brasileira se exprimem em novas modalidades discursivas, boa
parte delas afinadas com o imaginário científico e filosófico moderno (Alonso,
2002; Botelho,_2003; Ortiz,_2006; Schwarcz,_1993). A sociedade brasileira
passava, então, gradativamente a se consolidar como uma categoria analítica.
Ainda que nenhuma obra ou "família intelectual" de modo algum sintetize a
riqueza e a variedade que colorem esse pensamento social, gostaria de indicar
algumas regularidades, isto é, certos elementos cuja recorrência contribui para
consubstanciar e perpetuar a imagem da brasileira como uma experiência societal
irredutível àquelas tomadas por modelares da modernidade.
Primeiramente, é comum tomá-la como uma sociedade indiferenciada, ou ao menos
configurada aquém dos níveis de complexificação e diferenciação observados no
chamado "núcleo moderno". Nesse sentido, a formação de uma esfera de produção
da vida material autônoma, sólida e dinamizada a partir de imperativos
exclusivamente econômicos se revelaria titubeante; a isso se faria acompanhar
um aparato político-administrativo não menos imaturo, claudicante em suas
esperadas atribuições, já que atravessado por normas e códigos diversos
daqueles que melhor qualificariam tanto a burocracia moderna quanto o tipo de
dominação racional-legal. Paralelamente, prevalece a imagem de um corpo social
esgarçado, para não dizer amorfo, politicamente débil, incapaz de estruturar um
âmbito de sociabilidade alternativo às esferas políticas e econômicas e, por
essa razão, impossibilitado de se converter em agente independente do Estado e
da economia - e deles cobrar suas aguardadas responsabilidades. Replicado em
diversas outras direções, esse quadro de indiferenciação também se
manifestaria, por exemplo, na ausência de uma esfera intelectual e cultural
regida por códigos e imperativos próprios.
Não menos comum é a imagem de que a sociedade brasileira permanece atada a
códigos e referências não de todo racionalizados. Com isso, perpetua-se a
convicção de que entre nós não teria se completado de forma integral a
transição de uma ordem tradicional em direção a um cenário propriamente pós-
tradicional. Por um lado, há um sentimento de que concepções de mundo mágico-
religiosas continuam a se fazer presentes no cotidiano de amplos segmentos da
população brasileira, informando e orientando suas atitudes e comportamentos em
diversas esferas de sociabilidade, sejam elas públicas ou privadas. Por outro
lado, alimenta-se a noção de que os códigos de sociabilidade seculares que
lograram vicejar entre nós o fizeram, no entanto, entrelaçados a normas e
expectativas mútuas de comportamento não totalmente racionalizadas. Isso
responderia, dentre outras coisas, pela força da presença da religião na
dinâmica política e cultural dessa sociedade, influenciando processos públicos
de tomada de decisão.
Outro elemento desse "núcleo duro" é a imagem de um vínculo singular entre os
domínios públicos e privados. Não raro, fala-se de uma configuração da esfera
doméstica por si só diversa daquela considerada modelar da vida moderna:
atravessado por referências e valores patriarcais, o domínio privado brasileiro
perpetuaria hierarquias tradicionais além de orientações de conduta
personalistas em excesso. Logo de partida, essas características se fariam
sentir nos domínios públicos ao moldarem indivíduos pouco afeitos a padrões
normativos e comportamentais igualitários e impessoais. Nessa direção, alude-se
também a uma relação sensivelmente porosa e fluida entre os dois domínios: na
ausência de instituições e mecanismos encarregados de filtrar anseios, demandas
e interesses pessoais e particulares, o funcionamento dos espaços públicos
estaria viciado, com frequência raptado pelas vontades e interesses
particularistas dos segmentos mais poderosos da população.
Faz-se menção, ainda, a certa economia emocional tomada por peculiar à
experiência brasileira, não menos divorciada dos padrões modernos. Trata-se,
nesse caso, da imagem de uma estrutura psíquica ausente de profundidade
interior, razão maior da ausência de uma subjetividade plenamente centrada.
Isso explicaria a incapacidade desse "tipo psíquico brasileiro" para se
destacar do mundo externo - resguardando-se de seus apelos e condicionantes
mais elementares -, para conter suas vontades e desejos primários e, dessa
feita, internalizar padrões comportamentais metódicos e disciplinados. Daí seu
descompasso diante de códigos de sociabilidade impessoais, igualitários e
universalistas, bem como dos requisitos de suas instituições-chave (Estado
racional-legal, economia capitalista e esfera pública democrática). Não por
acaso, as figuras da pessoa jurídica, do agente econômico empreendedor e do
cidadão participativo parecem estranhas aos retratos mais correntes de nosso
pretenso "caráter nacional".
Por fim, fala-se que essa sociedade guarda uma relação também peculiar com o
mundo natural. Se é verdade que a ideia da ruptura com a dinâmica da natureza -
exemplificada de maneira especial pela capacidade técnica para sujeitá-la aos
desígnios e necessidades humanos - é comumente tomada como um dos marcos
fundamentais da modernidade, estaria aqui mais um sinal da singularidade
brasileira. Em virtude de um conjunto de aspectos - técnicos, simbólicos,
estéticos, orgânicos etc., combinados ou não entre si -, argumenta-se que
amplos segmentos da população brasileira não teriam consumado totalmente essa
ruptura, de modo que suas dinâmicas psíquicas e coletivas permaneceriam de
alguma maneira e em alguma proporção subsumidas aos ditames do mundo natural.
Assim sendo, a vida social ainda não teria conseguido constituir-se como um
domínio próprio, desvinculado dos elementos da natureza.
Articulados de maneiras e em proporções variadas, esses fatores - que assumiram
diferentes matizes nas muitas interpretações e momentos que marcaram nosso
pensamento social - consubstanciam o núcleo da tese da singularidade societal
brasileira. Sua notável recorrência concorre para sedimentar e perpetuar a
imagem de que um profundo hiato se-para essa sociedade daquelas tomadas por
modelares da modernidade. Importa observar que os pontos de apoio centrais
dessa tese não lhe são de modo algum exclusivos. Na verdade, são os mesmos
sobre os quais se ergue certo discurso acerca da modernidade que ocupa posição
privilegiada na sociologia: (a) diferenciação/complexificação social; (b)
secularização; (c) separação entre domínios públicos/privados; (d)
subjetividade autocentrada e, finalmente; (e) divórcio entre sociedade/natureza
são alguns dos principais pilares desse imaginário sociológico hegemônico
(Tavolaro,_2005; 2011; 2013).
Tudo isso, é claro, faz-nos refletir sobre o legado de certas maneiras de
imaginar o Brasil, sobre sua longevidade e seu peso no presente. Marcos Nobre
sustenta que a partir dos anos 1980, a impossibilidade de continuação de
"qualquer projeto de tipo nacional-desenvolvimentista" representou um golpe de
misericórdia para o chamado "paradigma da formação", dentro do qual a
nacionalidade brasileira era pensada "com seu vínculo pretensamente intrínseco
a um determinado território, a uma determinada população e a uma forma
específica e exclusiva de soberania" (2012:75-76). Em sentido análogo, Cardoso
(2013:12) observou que encerrado o período dos "pensadores que inventaram o
Brasil", sua própria geração "começou a se debruçar sobre as formas da
sociedade brasileira, suas conexões internacionais e seus novos desafios".
Embora concorde com Cardoso (idem) que atemática prioritária nas ciências
sociais entre nós tenha gradualmente deixado de girar"ao redor da questão
nacional"- a despeito, é claro, da "sobrevida do paradigma da 'formação'"
(Nobre,_2012:76) em muitas análises e esforços interpretativos de hoje -, a meu
ver isso não implicou necessariamente o abandono da imagem de descompasso entre
a sociedade brasileira e os "países centrais da modernidade". No meu
entendimento, a tese da singularidade brasileiraé uma daquelas "formas de
pensar extraordinariamente persistentes no tempo (...) que subsumem até mesmo
os mais lídimos produtos da ciência institucionalizada, estabelecendo
problemáticas e continuidades (...)" (Brandão,_2007:29)6 - inclusive nas
ocasiões em que essa sociedade é interpelada para além de suas próprias
fronteiras.
No que se segue, interessa-me o fato de que nos últimos decênios multiplicaram-
se as objeções teóricas bem como as contraevidências empíricas mobilizadas para
desafiar as pretensões preditivas e descritivas do discurso sociológico da
modernidade.
ALGUNS DESAFIOS TEÓRICOS RECENTES À SOCIOLOGIA DA MODERNIDADE
Sabemos que, para Talcott Parsons, "o tipo moderno de sociedade emergiu em uma
arena evolucionária única, o Ocidente, o qual é essencialmente a área da Europa
herdeira da metade ocidental do Império Romano ao norte do Mediterrâneo" (1971:
1). Na produção sociológica do século XX, talvez essa tenha sido a mais sonora
e vigorosa modalidade de discurso da modernidade em que diferenciação social
(inclusive a separação entre âmbitos públicos e privados), secularização
normativa(repousada sobre princípios gerais, abstratos e universais), ação
propositivamente orientada(preocupa da com a eficiência com que certos fins
podem ser alcançados) e o divórcio entre a dinâmica social e a naturezaaparecem
como referências epistemológicas centrais. Para ele, a configuração societal
moderna foi justamente aquela que conquistou grau de autossuficiência sem
paralelos no que diz respeito a pelo menos seis aspectos: adaptação a um
ambiente físico hipercomplexo; motivação de suas unidades de ação; controle das
ações e mobilização dessas unidades para a realização de metas coletivas;
manutenção de certo padrão de valores; sua integração interna e, por fim;
questões de sentido vinculadas à realidade não empírica, tudo isso em um
cenário marcado por pluralidade e diversidade inéditas. Esse salto
evolucionário teria resultado de transformações históricas importantes, sendo
as mais recentes e impactantes as revoluções industrial, democrática e
educacional. Ao fim e ao cabo, mudanças estruturais teriam se traduzido em
progresso sem direção a níveis sistêmicos mais elevados e, por isso mesmo, mais
capazes de lidar com cenários altamente complexos (interna bem como
externamente considerados).
Na visão do autor, a tomar pelo bem-sucedido exemplo do Japão, essa tendência à
modernização estaria ganhando alcance mundial, atingindo inclusive sociedades
não ocidentais. Note-se, porém, que os padrões seletivos, desiguais e
conflitivos por meio dos quais esses valores e referências (desenvolvimento
econômico, independência política, algum tipo de democracia, além de educação)
vinham sendo incorporados por tais sociedades não ocidentais através de suas
elites (Parsons,_1971:137) seriam evidências de seu selo de origem específico
bem como da posição modelar inconfundível gozada por algumas poucas sociedades
do ocidente. Em apreciações mais otimistas, seria concebível ver esses
descompassos diluídos tão logo tais padrões e instituições fossem incorporados
pelas sociedades em transição, seja por desenvolvimentos estritamente endógenos
ou como resultado de influências externas (Rostow,_1974). Ora, conquanto
Parsons e outros autores expressivos do chamado "discurso sociológico
hegemônico da modernidade" reivindiquem universalidade para suas categorias,
conceitos, noções e retratos da experiência moderna, há que se reconhecer que
suas próprias propostas também ocupam lugares particulares de enunciação. Minha
intenção a seguir é mostrar que várias das críticas recentes a esse discurso
buscam justamente salientar as armadilhas e insuficiências que resultam dessas
(inelutáveis) posições específicas de enunciação que reclamam universalidade.
As últimas décadas testemunharam uma nova onda de insatisfação com certo
imaginário sociológico, com sua autorreivindicada capacidade para descrever e
explicar a experiência social contemporânea em suas inúmeras dimensões
(culturais, econômicas, políticas, institucionais, epistemológicas, subjetivas,
estéticas, dentre outras), processos e desdobramentos nas diversas regiões do
globo. Em linhas gerais, tais desafios são dirigidos: à própria validade
científica desse discurso, como também ao escopo de aplicação empírica
reivindicado para suas categorias; à referência temporal que informa os
retratos acerca de suas origens e desenvolvimentos; às unidades de análise
adotadas para se avaliar as manifestações da experiência moderna; à real
acuidade de sua estrutura conceitual, por meio da qual os graus de modernidade
de configurações societais passadas e contemporâneas são aferidos e mensurados,
e por fim; às imagens construídas e projetadas a respeito de seus "Outros", em
contraste com as quais as peculiaridades atribuídas ao padrão de sociabilidade
moderno ganham relevo. Esses desafios alcançam níveis variados de radicalidade
em diferentes perspectivas: enquanto em alguns casos o que se demanda é tão
somente um esforço de adequação das categorias e conceitos correntes, em outros
almeja-se nada menos que a elaboração de um quadro epistemológico totalmente
novo, divorciado do discurso da modernidade. Iniciarei com o polo mais brando
da crítica.
Um dos efeitos do debate sobre globalização/mundialização a partir do final dos
anos 1980 foi colocar em xeque o statusde unidade de análise por muito tempo
gozado pelas sociedades nacionais. Ainda assim, não se teria reafirmado certa
linearidade embutida no imaginário sociológico da modernidade? Afinal, uma vez
entendida como a resultante do aumento da extensão, intensidade e velocidade de
interconexões regulares em escala transcontinental ou inter-regional (Held_et
al.,_1999:16), a globalização parecia levar padrões sociais outrora exclusivos
do Ocidente aos quatro cantos do mundo. A sociologia poderia, enfim, empregar
suas referências em um mundo cada vez mais homogêneo. Mas não tardou para que
se fizessem ponderações acerca dos paradoxos, assimetrias, ambivalências e
contradições desses processos (Ianni, 1996; Ortiz, 2009). Críticos contundentes
ao suposto da homogeneização alertavam justamente para o equívoco de se reduzir
a globalização à ideia de modernidade e/ou ocidentalização (Pieterse,_1995).
Ademais, argumentava-se que o aumento das interconexões transnacionais fez-se
acompanhar de novos tipos de desconexão e de fragmentação; muitas dimensões da
realidade social, inúmeros segmentos da população bem como várias regiões do
globo pareciam apenas tangencialmente impactados, quando não de todo excluídos
de tais processos - sem falar no surgimento de modalidades inéditas de
antagonismo, geradoras de identidades exclusivistas e localmente ancoradas
(Friedman,_1995; Castells,_1999).
Pode-se dizer que as recentes elaborações em torno da ideia de modernidades
múltiplasambicionam contemplar tais críticas dirigidas à sociologia da
modernidade, sem, no entanto, abandonar seu quadro de referência geral. Ajustes
deveriam ser feitos face à recusa veemente ao pressuposto da homogeneização: em
contraste com retratos monocromáticos forjado sem meados do século passado, nos
quais imperava o suposto da convergência progressiva entre sociedades que se
urbanizavam e se industrializavam (Rostow,_1974), argumenta-se que a
experiência da modernidade no mundo contemporâneo desaguou numa "multiplicidade
de programas culturais" (Eisenstadt,_2000:2; 2010). Ou seja, embora o discurso
sociológico da modernidade não seja de todo descartado, almeja-se abrandar seus
vínculos a qualquer padrão particular ou experiência específica. Note-se que um
dos argumentos chave é que "padrões ocidentais de modernidade não são as únicas
modernidades 'autênticas', ainda que gozem de precedência histórica e continuem
a ser um ponto de referência básico para outras" (Eisenstadt,_2000:2-3). Isso
porque a expansão da modernidade para além das fronteiras de seu berço
originário teria resultado em transformações mais ou menos radicais em suas
premissas culturais e políticas, fruto de sua adoção seletiva em virtude de
especificidades e circunstâncias locais. Por outro lado, e não menos
importante, argumenta-se que em vez de monolítica e homogênea, mesmo no
ocidente, a modernidade "foi desde seus começos acossada por antinomias e
contradições internas" (Eisenstadt,_2000:7; Wittrock,_2000). Não por outra
razão, a sociologia da modernidade é chamada a reajustar-se em resposta às
crescentes variações do programa moderno originário.
Uma terceira modalidade de crítica decorre da percepção de que "a modernidade
global tem (...) operado como um pano de fundo e elemento crucial para a
construção da identidade nos últimos séculos." (Domingues, 2003:233) - ou,
ainda, de que vivemos um momento marcado pela "vitória global" da modernidade
(Dirlik,_2003:275). Nesse sentido, afirma-se que "está se tornando menos
possível aos indivíduos ou grupos humanos escapar do alcance das instituições
modernas" (Wagner,_2003:XIII). Como era de se esperar, essa nova ênfase levanta
críticas à própria abordagem das "modernidades múltiplas". Primeiramente,
rejeita-se "considerar cada país como possuidor de seu próprio modelo,
circunscrito, de modernidade" (Domingues,_2003:243). Refuta-se, na mesma
medida, a supervalorização de diferenças culturais sob o argumento de que
convergências e semelhanças entre inúmeros contextos societais acabariam
desconsideradas, já que vislumbradas desde pronto como culturalmente
incomensuráveis (Schmidt,_2007). Ao mesmo tempo, variações internas a cenários
específicos - inclusive subnacionais euro-americanos - seriam sistematicamente
obscurecidas à sombra de uma suposta coerência cultural que lhes conferiria
homogeneidade (Dirlik,_2003). Por essa razão, o protagonismo da "modernidade
europeia" que tanto se desejava diluir acabaria inadvertidamente reinstaurado:
ainda que às escuras, essa configuração particular voltaria a se tornar o
padrão de medida das demais.
Essa proposta talvez pudesse a princípio ser interpretada como a reafirmação
tout courtdo discurso sociológico da modernidade. Afinal, aceita-se que "a
modernidade teve seu núcleo no Ocidente, onde primeiro surgiu, e então
transbordou para o mundo como um todo." Ou seja, sem quaisquer subterfúgios,
assume-se que "[s] eu 'centro' foi originalmente com clareza o Ocidente, em
termos tanto de sua dinâmica quanto, em especial, de poder" (Domingues,_2003:
251). Ademais, alude-se a um núcleo comum às experiências societais modernas,
cujo alcance ampliado tornaria a modernidade contemporânea um fenômeno
verdadeiramente global7. Mas note-se que tais afirmações são também
acompanhadas do desejo expresso de se evitar a inexorabilidade subjacente às
teorias da modernização (Domingues,_2003; Dirlik,_2003). Na esteira dos
processos de descolonização após a Segunda Guerra Mundial, e tão logo a
alternativa socialista ao capitalismo saiu de cena ao final do século passado,
a hegemonia euro-americana sobre a modernidade viu-se diluída. Com isso, ganhou
contornos cada vez mais claros um cenário "ideologicamente e
organizacionalmente descentrado", habitado por vozes e experiências outrora
silenciadas e invisibilizadas pelo discurso eurocêntrico da modernização
(Dirlik,_2003:276).
Atento a esses desdobramentos, Domingues_(2009) fala-nos de três períodos da
modernidade: a) o liberal (mais limitado à Europa e aos EUA); b) o organizado
pelo Estado (que em muitos países da América Latina desdobrou-se no
desenvolvimentismo e no corporativismo); e, por fim, c) o período atual marcado
por profunda complexidade e pluralização da vida social. Schmidt_(2012), por
sua vez, argumenta que enquanto a primeira fase da modernidade
(denominada"eurocêntrica") foi um fenômeno circunscrito à Europa, a ela seguiu-
se um novo quadro ("ocidentocêntrico") marcado pela perda de monopólio daquele
berço originário em favor da América do Norte. Por fim, a fase atual é
designada de "policêntrica" em alusão à multiplicação inédita de centros
modernos, cujas inovações substantivas responderiam pelo fato deles mesmos
terem se tornado referências modelares a todas as partes do globo. Ao fim e ao
cabo, argumenta-se que "não podemos mais tratar a Europa e a América do Norte
como sinônimosda modernidade. Ao invés disso, para compreendermos a realidade
da modernidade devemos ampliar consideravelmente nossos horizontes
geográficos". Ora, na medida em que "a modernidade torna-se global, o mesmo
deve ocorrer com a sociologia da modernidade" (Schmidt,_2012:6).
Reconhecidas as suas inconfundíveis especificidades, em linhas gerais, essas
três perspectivas- globalização, modernidades múltiplase modernidade global-
não consumam um rompimento definitivo com a sociologia da modernidade. Elas
mais parecem demandar a adequação de suas categorias e conceitos. O
espraiamento do padrão de sociabilidade moderno para além de seu "berço
originário europeu" teria provocado algumas mudanças importantes no "programa
original" - dentre outras razões, graças à sua mescla com outras culturas,
instituições e padrões de sociabilidade, mas também em virtude da crescente
diversificação da experiência moderna nos confins daquelas mesmas "sociedades
modelares". Daí a necessidade de ajustar ferramentas cognitivas inicialmente
formuladas à luz daquele contexto. Ambições mais ousadas e radicais, no
entanto, podem ser encontradas na produção em torno da condição pós-
colonial,assim como no projeto da decolonialidade do saber/poder. Nesses casos,
alude-se a contra-evidências empíricas que impõem desafios mais substantivos a
pressupostos-chave daquele discurso. No limite, almeja-se nada menos que a
elaboração de um novo quadro epistemológico.
Críticas são feitas, em primeiro lugar, ao universalismo (tido por enviesado)
das categorias da sociologia da modernidade. Nesse sentido, Chakrabarty_(2000)
chama atenção para as inadequações de conceitos caros ao imaginário da
modernidade política europeia- tais quais sociedade civil, direitos humanos,
cidadania, igualdade perante a lei, Estado, entre outros - "em países fora das
democracias capitalistas ocidentais". Na medida em que suas esferas políticas
são habitadas por segmentos da população - não raro grupos subalternos - e
padrões comportamentais estranhos atal imaginário, essas sociedades seriam com
alguma frequência posicionadas como se estivessem a meio caminho da
modernidade. Afirma-se que exercícios de classificação dessa natureza tornam
evidente a noção de temporalidade que subjaz as narrativas modernas, bem como
os dispositivos discursivos empregados (dentre eles "alguma versão de uma
teoria e tapista da história") para obliterar seu próprio provincianismo. Para
esses críticos, é sugestivo que o mesmo historicismo que dispôs a modernidade
ao longo de uma estrutura temporal global e linear também "capacitou a Europa a
dominar o mundo no século XIX" (Chakrabarty,_2000). Ao conceber a modernidade,
o capitalismo e o iluminismo como eventos internos à sua história, a Europa
renega a contemporaneidade de cenários não ocidentais, aludindo aos pretensos
anacronismos e aos lapsos culturais e institucionais que distinguiriam o
Ocidente de "outros lugares". Com isso, experiências não europeias e não
ocidentais são invariavelmente alocadas em posições assimétricas nessa
estrutura temporal global, fato que as torna alvo imediato de prescrições
civilizadoras (idem).
Mas note-se que as críticas não se restringem a sublinhar a persistência de
diferenças entre a Europa e o resto do mundo. Conforme argumenta Chatterjee,
"há, de fato, amplos setores da sociedade ocidental contemporânea que não são
necessariamente parte da entidade histórica conhecida como Ocidente moderno"
(2008:57). Ou seja, trata-se também de indicar a existência de desacertos desse
discurso hegemônico com respeito a seu referente privilegiado: o Ocidente (ou
mais especificamente, a Europa). Nesse espírito, ao referir-se aos "limites
epistemológicos" de certas "idéias etnocêntricas", Homi Bhabha indica a
existência de "fronteiras enunciativas de uma gama de outras vozes e histórias
dissonantes, até dissidentes" (2010: 24), dentre as quais as das "mulheres,
colonizados, grupos minoritários". Tomá-las seriamente em consideração conduz-
nos a suspender as imagens de homogeneidade cultural nacional que obscurecem
experiências "descontínuas ou em desacordo" com a modernidade, "resistentes a
suas opressivas tecnologias assimilacionistas" (ibidem:26). Ora, tais "culturas
de contra-modernidadepós-colonial" podem, na visão do autor, "reinscrever o
imaginário social tanto da metrópole como da modernidade" (ibidem:26, ênfase no
original).
Por fim, até mesmo a narrativa da "originalidade europeia", apoiada sobre o
suposto de um tempo linear-progressivo, coerente e homogêneo, é alvo de
questionamentos (Chatterjee,_2008). Nos dizeres de Stuart Hall,
* o "pós-colonial" provoca uma interrupção crítica na grande narrativa
historiográfica que, na historiografia liberal e na sociologia histórica
weberiana, assim como nas tradições dominantes do marxismo ocidental,
reservou a essa dimensão global uma presença subordinada em uma história
que poderia ser contada a partir do interior de seus parâmetros europeus"
(2011:106).
Daí o chamado ao abandono de analogias espaciais - "centro/periferia", "dentro/
fora" - que induzem as ciências sociais a vincular identidades, referências
cognitivas, normativas e estéticas, além de formas de sociabilidade, de maneira
exclusiva a certos territórios e segmentos da população.
Não menos radical é o confronto do chamado projeto da decolonialidade do saber/
podercom o discurso da modernidade. A linearidade temporal subjacente àquele
discurso é igualmente denunciada como artificial e perniciosa em seus efeitos:
espécie de "invento ideológico" e "manipulação conceitual" ex post facto, essa
concatenação histórica de eventos desconexos resulta na elevação da Europa à
posição de realização suprema e culminante de desenvolvimentos na verdade
dispersos (Dussel,_2005; Quijano,_2005). Some-se a isso a denúncia aos
paradoxos e contradições da modernidade ocultados da narrativa oficial: se é
que existe um núcleo racional (com destaque para as conquistas iluministas),
haveria também uma faceta irracional com frequência obliterada (embora
igualmente constitutiva), caracterizada pela dominação, violência, sofrimento e
exploração. Afirma-se que em decorrência da autoproclamada superioridade da
modernidade europeia, essa outra faceta é muitas vezes justificada como um
custo inevitável dos benefícios da civilização; destarte, os efeitos perversos
de intervenções com vistas a educar e civilizar os primitivos, bárbaros e
atrasados acabam moralmente legitimadas (Escobar,_1995; Dussel,_2005).
Ambiciona-se, na mesma medida, descentrar a narrativa histórica da
contemporaneidade por meio da consideração de outros lugares de enunciação e
agência: a despeito de localizados nas periferias/bordas, afirma-se que esses
"Outros" foram peças-chave da própria experiência hegemônica europeia. Nesse
sentido, acredita-se que o reconhecimento do protagonismo da experiência
colonial na construção do quadro social contemporâneo ajudará a diluir a imagem
autogeradora e autossuficiente da "modernidade" e de suas instituições
(Coronil,_2005:111-112; Quijano,_2005:239).
A partir dessas críticas, anuncia-se a necessidade de uma "mudança na
geopolítica do conhecimento" em detrimento da epistememoderna - ou, como quer
Mignolo_(2005), da "perspectiva da modernidade", cuja localização geo-histórica
europeia se chocaria com sua reivindicação de universalidade. Essa mudança,
denominada "virada/giro decolonial", envolveria colocar em seu lugar uma
"perspectiva da colonialidade", desde o princípio descentrada em "histórias
locais críticas", isto é, em novos locide enunciação de onde emergiriam formas
contra-hegemônicas de conhecimento e compreensão do mundo (por exemplo, a
partir de condições fronteiriças), ou ainda "formas subalternas de
racionalidade", para além das "grandes narrativas do Ocidente" (Mignolo,_2000:
86). Essa "perspectiva da colonialidade" é concebida como "a contrapartida
silenciada e não-reconhecida da modernidade". É justamente a partir das
"condições da 'ferida colonial', do sentimento de inferioridade imposto sobre
seres humanos que não se encaixam no modelo predeterminado nas narrativas Euro-
americanas" (Mignolo,_2005:XII) que esse novo "paradigma de conhecimento
decolonial" ascenderia. E na medida em que a violência econômica (apropriação
da terra, expropriação do trabalho, controle financeiro), a violência política
(controle de autoridade) e a violência civil (controle de gênero e
sexualidade), todas elas tidas por constitutivas da matriz colonial, sempre
estiveram associadas à violência epistêmica (controle do conhecimento e da
subjetividade), o "giro decolonial" desabonaria categorias, noções e conceitos
hegemônicos em benefício de novas maneiras de codificar e imaginar o mundo
(Mignolo,_2005).
Por certo, há diferenças indisfarçáveis entre as abordagens da pós-
colonialidadee da decolonialidade do saber/poder, de um lado, e o diálogo que
as perspectivas anteriormente salientadas pretendem estabelecer com o discurso
sociológico da modernidade; aos esforços de acomodação e ajuste dessas últimas
contrasta o tom de ruptura daquelas. Reconhecidas essas especificidades,
interessa-me o fato de analistas recentes sugerirem a possibilidade de se
encontrar o teor de muitas dessas ponderações e críticas na vasta e polissêmica
produção do pensamento brasileiro (Bastos,_2011; Maia,_2009; Ribeiro,_2011). Na
seção seguinte, pretendo retomar um dos problemas anunciados no início do
artigo: como é que a tese da singularidade brasileirase posta diante dos
desafios àquele discurso da modernidade lançados por essas elaborações teóricas
contemporâneas?
INTERPRETAÇÕES DO BRASIL A CONTRAPELO DOS "MODELOS ESTRANGEIROS"
Em que medida a adesão à tese da singularidade brasileirapor nossos mais
célebres intérpretes amarrou-os de maneira inelutável àquele discurso da
experiência moderna? Haveria algum indício de que tais intérpretes almejaram e,
de fato, lograram lançar seus olhares para além desse quadro de referência
hegemônico? Certa feita, Brandão_(2007) sugeriu que nossa posição periférica
poderia proporcionar um olhar "da cultura, do capitalismo e da política
mundiais" a partir de um "ângulo inusitado". Não era sua intenção celebrar sem
mais a pretensa originalidade brasileira ou latino-americana. Ao contrário,
Brandão manifestava-se desconfortável com a noção do Brasil como uma
"singularidade auto-referente", tanto quanto com "percepções e modos de ver que
tendem a comungar do suposto 'excepcionalismo' do País" (ibidem:144). Não
obstante, esta continuava a parecer-lhe uma sociedade diversa das modelares,
"produto da aventura européia no trópico" (ibidem:143), o que inclusive se
traduziria em uma vida intelectual também marcada por especificidades.
Em verdade, essas ambiguidades são ilustrativas de algo bastante disseminado
entre nossos mais admirados intelectuais; conforme tenho argumentado, não foram
raros os momentos em que a imagem "não modelar" do Brasil fez-se acompanhar do
sentimento de inadequação de "categorias estrangeiras" para descrever essa
sociedade. Ao lado disso, contudo, foram poucas as ocasiões em que nossos
intérpretes colocaram-se de maneira deliberada e sistemática a tarefa de
transpor termos e noções centrais da chamada "perspectiva da modernidade".
Feita essa ressalva, ainda assim não me parece um exagero afirmar que, ao
trazerem à luz esses descompassos, essas disjunções entre "realidade" e
"teoria", tais interpretações tocaram em questões caras ao debate sociológico
contemporâneo.
Eis o argumento que quero avançar: diante do sentimento de desencaixe dessa
sociedade em relação aos quadros de referência conceitual hegemônicos, nossos
intérpretes tenderam a apontar para duas direções. Por um lado, ao reafirmarem
a peculiaridade da experiência brasileira em contraste com as "sociedades
centrais", tenderam a fortalecer as profecias autorrealizadoras do discurso da
modernidade. Mas, por outro lado, à medida que as pretensas qualidades
excepcionais de nossa sociedade eram trazidas à luz, expunham-se também os
próprios limites e inadequações das noções, conceitos e parâmetros a partir dos
quais esse imaginário sociológico ambicionava descrever e codificar as inúmeras
e variadas experiências societais contemporâneas.
Portanto, o fato de nossos intérpretes ocuparem um lugar de enunciação não
hegemônico no quadro da modernidade teve ao menos dois efeitos importantes em
sua relação com o discurso sociológico da experiência moderna. De um lado, essa
posição com alguma frequência favoreceu o reforço da imagem da brasileira como
uma configuração diversa e, no limite, original em relação aos cenários
modelares (justamente aqueles que ocupavam lugares hegemônicos de enunciação).
Não por acaso, os retratos construídos para dar visibilidade a nossa alardeada
singularidade comumente expressaram sentimentos de falta, de insuficiência, de
disjunção ou mesmo de "incompletude" em referência a cenários por sua vez
assumidos como plenos, autênticos, coesos, internamente articulados e completos
em inúmeros aspectos (culturais, políticos, econômicos, subjetivos, estéticos,
epistêmicos, normativos, institucionais etc.). De outro lado, contudo, essa
mesma posição não hegemônica abriu-lhes a possibilidade de vislumbrar e
interpelar a modernidade a partir de perspectivas que iluminaram aspectos e
dimensões da experiência moderna nem sempre capturados, quando não ocultados,
pelas narrativas hegemônicas. A meu ver, é precisamente nessas ocasiões que se
anuncia a promessa de crítica da tese da singularidade brasileira. Esse não foi
um encadeamento necessário, comum a todas as empreitadas interpretativas. No
entanto, quando essas articulações estiveram presentes e atuantes para além das
supostas "incompletudes", faltas e insuficiências da experiência moderna no
Brasil, vinham também às claras as fragilidades daquele discurso, suas
disjunções e descompassos em relação aos próprios cenários societais tomados
por modelares.
Que fique bem claro: não se trata de dizer que o pensamento social brasileiro
tenha inadvertidamente tocado em "categorias residuais" do discurso sociológico
da modernidade, apenas hoje integralmente recuperadas por seus críticos mais
argutos e perspicazes. De outro modo, parece-me que ao versar sobre uma
realidade classificada como "não modelar" - segundo os parâmetros e
referenciais desse discurso - tal pensamento trouxe à luz aspectos da própria
"realidade modelar" que escaparam ao campo de visão daquele quadro de
referência hegemônico. Nessas ocasiões, é possível identificar algumas
convergências entre, de um lado, as obras e esforços de compreensão da formação
e experiência social brasileiras e, de outro, os desafios ao discurso
sociológico da modernidade aludidos há pouco. Dentre as fragilidades sugeridas
nos dois casos, destaco as seguintes: o historicismo sobre o qual descansa esse
discurso; o nacionalismo metodológico que de maneira mais ou menos sutil subjaz
esse quadro de referência; o escopo de aplicação pretendido para suas
principais categorias e noções, bem como as insinuações prescritivas projetadas
sobre situações e cenários tidos como"desconexos" ou "incompletos"; os próprios
termos constitutivos da grade conceitual desse discurso, tomados como
referência para se aferir os sucessos e insucessos de diversas experiências
modernas. Por fim, apesar de poucas, há também ocasiões em que se anuncia a
necessidade de transposição do quadro de referência da "perspectiva hegemônica
da modernidade" como condição sine qua nonà compreensão adequada da pretensa
"singularidade brasileira".
Nesse exato sentido, várias dessas avaliações chamaram atenção para dinâmicas,
transformações e desenvolvimentos caros à formação brasileira cujos contornos
temporais mostravam-se bem mais complexos e resistentes à concepção
progressivo-linear do imaginário da modernidade. Em segundo, seguidas ênfases
nas interconexões (históricas, políticas, culturais, econômicas, institucionais
etc.) de nossa formação social com outras regiões e contextos sugeriam a
insuficiência da sociedade nacional como unidade de análise primordial. Em
terceiro lugar, tais análises indicaram de maneira contundente a inadequação da
estrutura conceitual empregada para se aferir o grau de modernidade de
experiências sociais diversas, bem como de modelos institucionais tidos por
estrangeiros a essas realidades não modelares. Finalmente, em situações-limite,
a própria validade científica desse discurso era colocada sob suspeita.
Para iniciar, guardadas as suas irredutíveis especificidades, em vários
esforços de interpretação do Brasil é patente o desconforto em relação à
concepção temporal sobre a qual se sustentam as mais influentes narrativas
sociológicas da experiência moderna. Freyre, por exemplo, fala-nos de uma
"noção hispânica de tempo", distinta da temporalidade cronológica e progressiva
associada à "experiência norte-europeia". Essa concepção diferiria do "ritmo
constantemente progressivo" - "como o tempo europeu se tornou desde o princípio
da Revolução Comercial"- em favor de uma noção marcada pela "fusão de passado,
presente e futuro" (Freyre,_1975:8-9). Florestan Fernandes_(1975:52-53), por
sua vez, sugere haver entre nós a coexistência de temporalidades distintas -
arcaicas e modernas -, ou ainda, de "várias épocas histórico-econômicas
distintas (mascoetâneas)" em virtude do que "estruturas econômicas em
diferentes estágios de desenvolvimento" são "combinadas organicamente e
articuladas no sistema econômico global" (Fernandes,_1976:268-269).
Em segundo lugar, ponderações em relação aos próprios termos e categorias-chave
do "discurso sociológico da modernidade", bem como às reais possibilidades de
sua aplicação ao caso brasileiro, podem ser igualmente encontradas em nossas
mais celebradas obras e esforços interpretativos. Parece ser este o caso das
dissonâncias comumente apontadas entre a configuração emocional associada à
experiência moderna e aquela que nossos intérpretes afirmam persistir no
Brasil. Num extremo, alude-se à existência de hiatos de natureza psicodinâmica
que teriam dificultado sobremaneira a plena integração de certos segmentos
marginalizados à ordem social racional-competitiva (Fernandes,_2008). Mas, de
maneira mais generalizada, abundam referências ao personalismo exacerbado do
brasileiro, responsável por vinculá-lo de modo determinante a laços afetivos
primários, os quais moldariam expectativas e padrões de comportamento
incongruentes com os códigos e imperativos próprios de uma ordem impessoal
(Holanda,_1994; Torres,_1982; Da_Matta,_1997). A isso se soma a imagem desta
como uma sociedade não plenamente racionalizada, permeada por referências
normativas tradicionais agindo sobre âmbitos públicos e privados (Freyre,_2000;
Holanda,_1994).
Também conforme indiquei anteriormente, o suposto moderno da separação entre
domínios públicos e âmbitos privados com frequência encontrou dificuldade
análoga para ajustar-se às interpretações do Brasil. Seja em virtude de nossas
heranças patriarcais (Freyre,_2000; Vianna,_1987), seja em razão de vícios
patrimonialistas duradouros (Faoro,_2001), ou mesmo da resiliência de relações
de produção dadas por extintas nas ditas "sociedades centrais" (Prado_Jr.,
2008, 2011; Fernandes,_1976), é perene a ideia de que, entre nós, interesses
privados continuam a projetar-se e a moldar indevidamente espaços públicos de
sociabilidade (Vianna, 1987; Holanda,_1994). Na mesma medida, fala-se do
caráter incompleto dos processos de diferenciação e complexificação sociais no
Brasil. Disso decorreriam a confusão, a sobreposição e o choque de atribuições
que, em cenários plenamente modernos, seriam exclusivos a âmbitos sociais
específicos (Estado, mercado, sociedade civil, família, esfera pública etc.).
Sinal de atraso, esse quadro de quase ou semi diferenciação seria impeditivo à
constituição autônoma e autorreferente de cada uma dessas esferas,redundando em
prejuízo generalizado de eficiência funcional (Cardoso,_1972; Faoro,_2001;
Fernandes,_1975; DaMatta,_1997).
Nem mesmo o suposto da separação entre a sociedade e a natureza escapa às
reflexões de nossos intérpretes. Vale salientar que a própria construção da
identidade nacional brasileira a partir do século XIX quase sempre esteve de
alguma maneira vinculada aos atributos naturais do território (Ventura,_1991).
Em muitas ocasiões, o ambiente tropical foi responsabilizado por moldar o
caráter nacional com traços que destoavam dos requisitos da civilização moderna
(Cunha,_1981; Romero,_1949). Em outras oportunidades, essa mesma natureza foi
cantada e celebrada por nos legar qualidades e vantagens inéditas em relação a
outras sociedades (Freyre,_2000). Seja como for, o ponto chave é que vários
esforços de interpretação atribuíram à natureza peso condicionante, quando não
posição protagonista nos processos de formação e vivência de referências
modernas pela sociedade brasileira.
Finalmente, há que se reconhecer a existência de formulações mais ou menos
ousadas no seio do pensamento social brasileiro que apontam para a necessidade
de superação de termos e noções caras à "perspectiva da modernidade" como
condição sine qua nonà compreensão de nossa experiência. Assim é que Bomfim
denunciava os "doutores e publicistas da política mundial que se limitam a
lavrar sentenças - invariáveis e condenatórias" às sociedades latino-americanas
(1993:38). Sua insatisfação com certos "juízos categóricos", sustentados pelo
que qualificava como disparates conceituais e apreciações absurdas (ibidem:
40),traduziu-se em sua crítica à teoria da inferioridade das raças por meio da
qual os europeus explicavam sua pretensa superioridade em relação às populações
latino-americanas. Para ele, "tal teoria não passa de um sofisma abjeto do
egoísmo humano, hipocritamente mascarado de ciência barata, e covardemente
aplicado à exploração dos fracos pelos fortes" (ibidem:243).
Em outro momento e com outra visada, Freyre lamentava os efeitos perniciosos
decorrentes do fato de que
* quase todas as interpretações atuais do que seja a civilização européia -
mesmo a russa ou a ibérica - em face das não européias, têm sido
elaboradas por antropólogos, sociólogos, historiadores e sobretudo,
pensadores, cujas personalidades se desenvolveram dentro de
circunstâncias, se não sociais, de cultura ou de disciplina intelectual,
peculiares à Europa mais especificamente européia (Freyre,_2010:294).
Num breve ensaio publicado originalmente em 1950, Freyre ousou argumentar que
"Não deveria haver ciência social 'nacional', como se fosse alguma coisa oposta
à ciência social supranacional" (2003:57). Manifestava, assim, seu receio
quanto aos excessos de "interesses e aspirações nacionalísticos" que se
insinuavam na sociologia com prejuízo das possibilidades de "compreensão
universal". Isso não implicava sua total rejeição às "projeções nacionais", mas
sim ao que qualificava como "distorções nacionalísticas". Uma dessas
"distorções" seria a construção e projeção de estereótipos sobre "grupos
híbridos, etnicamente compostos por uma mistura de europeus com as chamadas
raças inferiores", sugerindo que "esses povos fossem destinados pela natureza
ou pelo pecado - o 'pecado da miscigenação' - a serem colônias de 'povos
superiores' ou, quando independentes, simples subnações" (ibidem:62). O
problema, a seu ver, era que os efeitos perniciosos desse viés nacionalista não
se esgotavam nesse ponto: os próprios grupos estereotipados ("latino-
americanos, asiáticos e africanos", povos híbridos "localizados em zonas
tropicais, ou quase tropicais") acabavam por construir auto-imagens também
pessimistas, em conformidade com ideias condenatórias, que sacramentavam sua
condição de inferioridade em relação a tais "povos superiores". Freyre não
queria, com isso, desconsiderar a existência de traços peculiares a cenários
específicos. Não obstante, parecia-lhe fundamental encurtar distâncias teórico-
interpretativas que de maneira artificial estabeleciam um divórcio
intransponível entre experiências sociais e regiões do globo variadas.
Por sua vez, Guerreiro Ramos_(1996:68) recusou a "assimilação literal e passiva
dos produtos científicos importados" - isto é, do "patrimônio científico
estrangeiro" - e advogou em favor de uma "sociologia autêntica", ajustada às
especificidades dos contextos nacionais diversos. Anos depois, Florestan
Fernandes afirmaria que "é ponto pacífico que os recursos conceptuais,
metodológicos e teóricos da Sociologia foram construídos através da observação,
análise e interpretação de alguns países da Europa e dos EUA". Ora, segundo o
autor, "O chamado mundo subdesenvolvidonão só apresenta uma enorme variedade de
situações histórico-sociais distintas, que contrastam com a desses países, como
dificilmente se poderiam explorar frutiferamente aqueles recursos (...) sem uma
criteriosa adequação deles (...)" (Fernandes,_1975:17-18).
Conforme salientei anteriormente, esses desencontros entre os intérpretes do
Brasil e o "discurso sociológico hegemônico da modernidade" a princípio
poderiam ser tomados exclusivamente como evidência e confirmação da
"incompletude" da sociedade brasileira em relação aos cenários e contextos
tidos por modelares da experiência moderna. No entanto, revisitados à luz dos
debates contemporâneos, esses mesmos descompassos podem também ser percebidos
como desafios que lugares de enunciação não hegemônicos suscitam àquele
discurso, flagrando-o em seus próprios limites e fragilidades: em virtude de
sua posição marginal, ao versar sobre a pretensa "singularidade brasileira",
tais olhares iluminaram aspectos e facetas da experiência moderna, amplamente
considerada, negligenciados pela "perspectiva da modernidade". Nessa visada, as
distâncias entre esses parâmetros hegemônicos e contextos não hegemônicos podem
talvez ser tomados como índices dos desacertos e lapsos entre aquele discurso e
seus referentes preferenciais, as ditas "sociedades centrais".
A EXPERIÊNCIA BRASILEIRA A QUÉM E A LÉM DO NACIONALISMO METODOLÓGICO
Em situações-limite, a tese da singularidade brasileirachega a reivindicar
noções, conceitos, teorias e ferramentas metodológicas especiais, adequados à
pretensa irredutibilidade dessa experiência. Nessa exata direção, vemos
Guerreiro Ramos defender que enquanto
* No plano geral do raciocínio sociológico, as "normas", "valores" e
"ideais" transcendem as particularidades históricas de cada sociedade
nacional, [continua ele], No terreno concreto, porém, a utilização
prática do saber sociológico obedece, em cada sociedade nacional, a
"normas", "valores" e "ideais" específicos, que refletem a
particularidade histórica de sua situação (Ramos,_1996:23-24).
Ora, aceita a existência de "uma perspectiva brasileira", como não transferir
ao cientista o desafio e "a tarefa de fundação de uma sociologia nacional"
(ibidem:41-42)? Bem sabemos que, a certa altura, esse foi um ponto de tensão
entre o próprio autor e Florestan Fernandes; acusado por Guerreiro Ramos de
provinciano e "hiper-correto", Florestan teria se deixado seduzir pelo
universalismo enviesado dos "cânones estrangeiros". Ainda que o extremismo do
autor de A Redução Sociológicaencontre poucos símiles, a tendência para
enxergar traços inconfundíveis e específicos da experiência brasileira -
conforme analisei anteriormente - é algo bastante disseminado em nosso
pensamento social.
Em verdade, Roberto Schwarz já teve oportunidade de visitar essa questão,
atentando-nos para uma das reações extremas ao "sentimento da contradição entre
a realidade nacional e o prestígio ideológico dos países que nos servem de
modelo", qual seja, "a busca de um fundo nacional genuíno, isto é, não
adulterado", ou mesmo, de uma "substância autêntica do país" (2009b:109-115). A
meu ver, é sugestivo que a busca dessa pretensa essência nacional seja
frequentemente informada pelas mesmas lentes acusadas de postiças em relação a
essa realidade; por meio delas, os traços da alardeada peculiaridade brasileira
sobressaem-se em contraste com o "centro", o que, de quebra, confirma a posição
modelar deste.
Por um lado, o próprio esforço de Schwarz, ao associar características tidas
por peculiares à sociedade brasileira à sua posição periférica no cenário
capitalista mundial, pode ser visto como um exercício de ruptura de certo
nacionalismo metodológico. Mas, conforme sugerem as reflexões de Franco_(1976),
nem sempre tal mudança de perspectiva resultou no abandono daquele pressuposto
que estabelece uma ordem de sucessão entre o "centro" e a "periferia" em razão
de suas alardeadas "diferenças essenciais"8. Fato é que Schwarz não parece ver
no "rompimento conceitual com o primado da origem" uma solução convincente para
"equacionar ou combater relações de subordinação efetiva". Na realidade, para
ele, a "fatalidade da imitação cultural se prende a um conjunto particular de
constrangimentos históricos" (2009b:119).
Como venho observando, sua avaliação não é consensual. Além das já mencionadas
reações de Franco_(1976) e Bosi_(1995), Rouanet rebateu a proposta de Schwarz
afirmando que "há um enorme exagero na tese do desajuste entre idéias externas
e realidade brasileira". A seu ver, "Em muitos casos não houve desajuste
nenhum, mas uma perfeita congruência" (Rouanet,_1994:36). Daí tratar-se, em seu
entendimento, de "uma questão secundária", caudatária do "toposda autenticidade
cultural". Mas é um outro ponto avançado por Rouanet que gostaria de destacar:
o autor nos fala da vulnerabilidade das premissas da "tese nacionalista",
apoiadas sobre "uma ideologia historista implícita, de origem herderiana"; a
seu ver, tais premissas desconsideram o incontornável desenraizamento observado
em toda e qualquer cultura. Fato é que, em seu entendimento, a mesma Europa
exportadora de modelos de organização social importou de países não europeus
inúmeros "arquétipos" que contribuíram para "alimentar seu imaginário" e suas
fantasias de superioridade (Rouanet,_1994:39-40).
Este parece-me o ponto-chave: exercícios de compreensão da experiência societal
brasileira que ambicionem estabelecer um diálogo crítico com a sociologia da
modernidade demandam do analista abrir mão da experiência nacional como uma
categoria analítica inequívoca. Mutatis mutandis,uma análise da tese da
singularidade brasileiraatenta à sua tendência de emoldurar ex anteo real
envolve duas tarefas: a) confrontar o nacionalismo metodológico que implícita
ou explicitamente perpassa tanto a sociologia da modernidade como o pensamento
social brasileiro; b) orientar o olhar preferencialmente para as conexões e
entrelaçamentos envolvendo experiências societais diversas (em seus diferentes
níveis).
É verdade que tais conexões e entrelaçamentos não são de modo algum estranhos a
vários de nossos intérpretes. Talvez se possa dizer que justamente sua posição
não hegemônica de enunciação - com frequência assombrados pelo peso de nossa
suposta "inautenticidade" - tenha-os incentivado a contemplar as conexões da
formação brasileira com outros contextos e cenários societais. Ao atentarem
para os circuitos extranacionais de bens econômicos e simbólicos, de modelos
políticos e institucionais, além das referências cognitivas, normativas e
estéticas em meio aos quais essa sociedade ganhou existência, tais intérpretes
sugeriram a necessidade de abordar suas alardeadas"singularidades" para além
delas mesmas (Romero,_1949; Bomfim,_1993; Holanda,_1994; Freyre,_2000; Furtado,
2009; Prado_Jr.,_2011; Fernandes,_1976, para nos restringirmos a poucos
exemplos). No entanto, por mais sofisticadas e cuidadosas que tenham sido,
ainda assim tais sugestões não tiveram o efeito de desmontar por completo o
nacionalismo metodológico que as orientava - dentre outras razões porque este
não era o efeito pretendido. De outro modo, quando contemplaram aquelas
conexões, o fizeram para salientar as sínteses peculiares que teriam desaguado
naquilo que nos tornamos9.
Mas é claro que essa tendência não lhes é exclusiva. Conforme tem-se
argumentado, "As estruturas epistêmicas e os programas das ciências sociais
mainstreamtêm permanecido fortemente atrelados ao, e moldados pela experiência
da formação do estado-moderno" (Wimmer_e_Schiller,_2002:303; tradução livre).
Por esse motivo, não é de estranhar que o Estado-nação seja tratado como "a
representação natural e necessária da sociedade moderna" (Chernilo,_2011:99;
tradução livre). Por certo, seria no mínimo pueril desconsiderá-lo como "uma
forma moderna de arranjo sócio-político". Mas isso é muito diferente de "ver a
modernidade como o resultado final de um número de desenvolvimentos nacionais
diferentes e endógenos" (ibidem:109; tradução livre). Ora, a adoção da
sociedade brasileira como categoria analítica - sob a alegação de que somente
assim consegue-se captar inconfundíveis singularidades - tem, com frequência,
redundado na confirmação de uma epistemedesatenta às incongruências e
descompassos dos próprios "contextos modelares da modernidade".
Foge aos propósitos precípuos deste artigo elaborar uma receita analítica
acabada para esses dilemas. Àguisa de conclusão, desejo ao menos lançar o
seguinte argumento: a saída dessa armadilha envolve considerar enfaticamente as
conexões simbólicas, epistêmicas, econômicas, culturais, institucionais,
econômicas etc. que de um ponto de vista histórico revelaram-se fundamentais à
formação e experiência societais brasileiras. Conforme Sanjay Subrahmanyam já
teve oportunidade de argumentar, caso se queira contornar os "essencialismos"
que comumente acompanham "unidades geográficas convencionais de análises", é
preciso substituir a perspectiva metodológica das "histórias comparadas" pela
perspectiva das "histórias conectadas" (1997:742-743). Essa escolha capacita-
nos a apreender as tramas e nexos que entrelaçam os destinos de localidades e
regiões diversas (inconfundíveis com recortes nacionais), aproximando cenários
equivocadamente retratados como "zonas culturais fechadas", como se estes
fossem dotados de histórias autônomas.
Mesmo esta opção pelas histórias conectadastem implicações analíticas distintas
conforme a direção conferida ao olhar. Uma vez mais, volto a indicar algumas
possibilidades de encaminhamento analítico. Se, ao se contemplar tais conexões,
a ênfase recair sobre a consideração dos desdobramentos históricos peculiares
advindos desses entrelaçamentos, o resultado provável estará mais próximo da
crítica ao discurso sociológico elaborada pela abordagem das modernidades
múltiplas. Nesse caso, a experiência brasileira poderá ser codificada como um
tipo singular e irredutível de modernidade (a modernidade brasileira); em uma
hipótese mais promissora, poderá ser tomada como partícipe de uma classe mais
ampla de sociedades, unidas por aspectos também inconfundíveis no quadro da
modernidade (um tipo de modernidade periférica,de modernidade semiperiférica,
ou ainda um exemplar da modernidade latino-americana).
De outro modo, caso a ênfase da consideração de tais conexões recaia sobre
efeitos e desdobramentos compartilhados (uma vez mais, sejam eles
institucionais, simbólicos, econômicos, epistêmicos, culturais, dentre outros),
o resultado da análise se aproximará das críticas desferidas pela abordagem da
modernidade global. Há, aqui, ao menos duas possibilidades diversas: pode-se
tomar a modernidade como uma experiência descentrada desde seus primórdios,
isto é, "uma virada mais ou menos global, com muitas fontes e raízes
diferentes" (Subrahmanyam,_1997), resultante de desenvolvimentos partilhados
por localidades e regiões distintas; nesse caso, haveria fluxos de bens
materiais, bem como de "idéias e construções mentais" que desde os passos
iniciais em direção à experiência moderna atravessaram fronteiras diversas e
que contribuíram para o estabelecimento de redes e processos de circulação
extranacionais (ibidem). De outro modo, pode-se tomar a modernidade como um
evento que, apesar de europeu em suas origens, a partir de um determinado
momento projetou-se para inúmeras regiões, unificando referências
institucionais, simbólicas, cognitivas etc. nos quatro cantos do mundo. Na
esteira desses desenvolvimentos, localidades e regiões outrora receptoras
teriam tornado-se elas próprias centros difusores de padrões e instituições,
aprofundando o programa da modernidade e, ao mesmo tempo, diversificando as
modalidades de suas manifestações.
Por fim, a consideração desses laços e conexões poderá conferir atenção aos
efeitos discursivos de poder advindos de processos de formação e estabilização
de centros de hegemonia global. Na direção sugerida pelas críticas pós-
coloniale de colonial, pode-se querer interpelar a consolidação de estruturas
epistêmicas assimétricas que fazem da experiência de segmentos específicos da
sociedade europeia padrões de medida a partir dos quais outras experiências
(dentro ou fora dos confins da Europa) são codificadas ao mesmo tempo que
hierarquicamente dispostas. Nesse caso, ao invés de tomá-la como uma
configuração societal única e especial em comparação com outros cenários sócio-
históricos (do passado e do presente), trata-se de abordar a modernidade
prioritariamente como uma retórica, ou ainda, como uma perspectiva discursiva
que, ancorada em posições hegemônicas de enunciação, perpetua relações
assimétricas de poder econômico, cultural, epistêmico, simbólico, político etc.
São os efeitos dessa retórica sobre regiões e segmentos não europeus da
população, ao lado das facetas obscurecidas dessa experiência, que migram para
o centro da agenda de análise e reflexão.
Importa salientar que, independentemente da ênfase conferida, todas as três
modalidades de análise convidam-nos a vislumbrar o discurso sociológico da
modernidade para além e aquém de contextos nacionaisespecíficos.Ainda que
pensados apenas e tão somente como elementos de uma perspectiva discursiva,
diferenciação/complexificação social, secularização, separação público/privado,
experiência subjetivo-emocional centralizada e disjunção sociedade/
naturezadeixam de ser associados exclusivamente às experiências de sociedades
nacionais, tanto em suas origens como em seus desenvolvimentos posteriores. Da
mesma forma, referências cognitivas, simbólicas, institucionais, normativas,
estéticas e políticas caras ao imaginário e à organização societal
contemporâneos podem ser contemplados com maior atenção às relações que
aproximam e distanciam segmentos sociais de diferentes localidades, regiões e
nações do mundo. Seja qual for a escolha, é cada vez mais problemático
continuar a sustentar a existência de predicados brasileiros singulares,
irredutíveis e inconfundíveis com outras sociedades contemporâneas.