Reflexões sobre o Brasil e os desafios Pan-Amazônicos
Introdução
Muitos são os desafios que se apresentam para o Brasil em termos amazônicos,
tanto no plano doméstico como nos planos regional e internacional. No plano
doméstico, de longa data se apresenta a questão da sua ocupação e integração ao
restante do País, além da contenção do desmatamento descontrolado e da efetiva
presença do Estado na região. No plano regional, o maior desafio é a integração
com os países vizinhos, numa perspectiva Pan-Amazônica, além do controle dos
ilícitos transfronteiriços, que incluem uma série de atividades ilegais que vão
desde o tráfico de drogas ao contrabando e descaminho de diversos tipos de
produtos. Já no plano internacional, há tempos paira no ar o receio da
relativização da soberania brasileira sobre a Amazônia, um pensamento que vem
atormentando principalmente os setores mais nacionalistas da sociedade
brasileira.
A Pan-Amazônia, maior floresta tropical e bacia hidrográfica do mundo, conta
com 7,8 milhões de quilômetros quadrados distribuídos entre 9 países, sendo um
deles de fora do continente.1 Os números indicam que sua área equivale a 60% da
superfície da América Latina e que o Brasil é o detentor da maior parte de todo
esse fabuloso território, de sorte que o País possui 67,8% da área total. Para
se ter uma ideia da relevância da dimensão territorial pertencente ao Brasil,
basta dizer que em segundo lugar, em termos nacionais, vem o Peru, com uma área
equivalente a 13% do total da Floresta Amazônica, ficando, portanto, bem atrás
do Brasil.
Alguns outros dados indicam a dimensão amazônica brasileira. Assim, a chamada
Amazônia Legal detém 59% do território brasileiro e possui 11.300 km de
fronteiras com sete países vizinhos, quais sejam: Bolívia, Colômbia, Guiana,
Guiana Francesa (França), Peru, Suriname e Venezuela (Tabela_1). São cerca de
25.000 km de vias navegáveis dentro de nove estados da República Federativa do
Brasil, ou seja, os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso,
Pará, Rondônia, Roraima e grande parte do Tocantins estão, em alguma medida,
vinculados a sua vasta e importante rede hidrográfica.2

Apenas no lado brasileiro, esse imenso território possui uma população de pouco
mais de 25 milhões de habitantes, abriga 56% da população indígena do País,
conta com vastas áreas esparsamente ocupadas e nas quais a maior parte de seus
habitantes se concentra nas cidades de Manaus e Belém, as capitais dos estados
do Amazonas e do Pará, os dois maiores da região.3 O Estado do Amazonas é o
maior do País em área territorial e equivale aos territórios somados de França,
Espanha, Suécia e Grécia, o que nos dá uma amostra de sua grandiosidade. Por
outro lado, sua densidade demográfica é muito baixa e sua população vive,
predominantemente, em áreas urbanas, espalhadas de forma muito desigual, entre
os 62 municípios do Estado.4
À parte algumas outras cidades de médio e pequeno porte, existem também os
habitantes que vivem nas cercanias dos rios, população conhecida como
"ribeirinha" ou "povos da floresta". As áreas ocupadas pelos ribeirinhos são
quase totalmente desprovidas de infraestrutura básica e quase totalmente
dependentes de transportes fluviais, com pouca ou nenhuma assistência do
Estado, o que torna a vida nessas regiões ainda mais difícil. Sua economia é,
de certa forma, rudimentar e poucas são as perspectivas de um desenvolvimento
mais autônomo e rentável.
A Pan-Amazônia possui, ademais, enormes riquezas, muitas ainda não exploradas
ou pouco exploradas. A floresta detém o maior número de espécies vivas do
planeta, a maior reserva de água doce, madeiras nobres, vastas jazidas minerais
(muitas sequer mapeadas), e grande potencial para geração de energia
hidrelétrica, dentre outros recursos. Destaque-se, além do que foi elencado,
todo o potencial genético contido em seu ecossistema e a imensurável riqueza
traduzida na diversidade de sua população, ainda mais com grupos indígenas que
sequer travaram contato com o chamado homem "branco". Toda essa riqueza e
diversidade estão espalhadas pela vasta área da região amazônica entre os seus
condôminos, não se restringindo a este ou àquele país em particular.
A Pan-Amazônia - desenvolvimento, integração, preservacionismo e interesses
estrangeiros
Rica em recursos naturais e em biodiversidade e componente inseparável do
estado brasileiro, a Pan-Amazônia precisa ser melhor estudada e compreendida
para que possamos nos preparar para os desafios do presente e do futuro. Não é
de hoje que outros países e interesses se debruçam sobre a região amazônica,
seja em nome de uma pretensa preservação ambiental, seja embalado por
inconfessos interesses materiais relacionados ao acesso e controle de suas
riquezas.
O Brasil, como detentor da maior parte do território amazônico, tem não só o
direito ao exercício da soberania sobre a região, mas também o dever de
proteger o seu ecossistema e as populações nacionais que lá habitam. Não pode,
portanto, o Brasil abrir mão, abandonar ou deixar qualquer vazio de poder
naquela importante e estratégica região, sob pena de enfrentar forças capazes
de impor visões incompatíveis com a perspectiva da soberania nacional.
A Amazônia, todavia, não se encerra no Brasil. Nesse sentido, faz-se necessário
um olhar atento para o entorno regional, sobretudo para os países vizinhos que
com o Brasil compartilham e conformam a Pan-Amazônia. Uma análise mais
detalhada da bacia amazônica demonstra justamente o caráter regional da mesma,
ou seja, deve-se observar a interdependência e transnacionalização do
ecossistema, das riquezas e oportunidades, mas também dos seus problemas e
desafios.
Entendida como um sistema complexo que seria melhor compreendido se não fosse
compartimentado, manter a soberania, o desenvolvimento e a capacidade de
preservação da Amazônia não são desafios apenas para o Brasil, senão que
envolve todos os outros países limítrofes. A Amazônia conforma um sistema
regional que compartilha problemas e desafios semelhantes e demanda uma
abordagem também compartilhada, embora o Brasil se coloque, quase que de forma
natural, como o país mais capacitado para liderar esse verdadeiro complexo
regional. Nesse caso, a ideia de liderança não implica necessariamente assumir
uma capacidade de influenciar politicamente os outros Estados, embora isso seja
desejável a partir de uma perspectiva brasileira.
Infelizmente, o espírito de liderança é falho no Brasil. Há uma grande
expectativa entre os países da América do Sul para com o Brasil que, via de
regra, é frustrada quando o País é chamado a liderar politicamente a região.
Por um lado, a diplomacia brasileira age com uma excessiva cautela e se
intimida frente a muitos desafios sul-americanos, ocorrendo, em certas
ocasiões, de o País se tornar inoperante e se deixar levar pelos
acontecimentos. Por outro, há de se reconhecer os esforços que vêm sendo
realizados, mesmo que ainda de forma tímida e difusa, para ampliar o grau de
integração física da região, haja vista que a ausência de infraestrutura física
básica é um grande complicador e um dos elementos que mais dificultam uma ação
conjunta dos países amazônicos. Assim, não basta a existência de planos, alguns
dos quais mirabolantes, que sempre jogam para o futuro a integração dos países
da região.
É compreensível que a criação de uma infraestrutura física seja um objetivo de
longo prazo, sobretudo pela dificuldade em integrar e conectar a região como um
todo, tendo em vista suas características naturais. Aliás, se dependesse dos
discursos oficiais que enfatizam a necessidade dessa integração, ela já estaria
concluída há muito tempo; infelizmente não é o que se verifica na prática.
Essa não é uma questão recente. Historicamente, os países amazônicos se
desenvolveram voltados praticamente de costas para a Pan-Amazônia. Enquanto no
Brasil os principais núcleos urbanos e planos desenvolvimentistas se
concentraram na região Sudeste do País e foram projetados em direção ao
litoral, nos países vizinhos o processo não foi muito diferente. Assim, a
região amazônica foi ficando relativamente relegada para o futuro. Sua ocupação
foi, portanto, postergada, e só passou a receber mais atenção a partir da
década de 1970 e, mesmo assim, de forma muito incipiente e desordenada, o que
gerou um quadro quase caótico de ocupação em várias partes do seu território,
pelo menos no caso brasileiro.
No plano internacional extrarregional, observa-se um comportamento de cobiça
sobre a Amazônia que remonta ao século 19. Mas foi apenas no final do século 20
que esse interesse começou a se tornar mais efetivo e intenso. Ele ganhou
fôlego em torno de um discurso ecológico e ambiental, e, a partir de então, se
formou uma enorme pressão sobre o Brasil que ora se amplia, ora se ameniza;
esse discurso, de toda forma, está consolidado na agenda internacional. Trata-
se de um tema que dificilmente deixará de ser um dos mais destacados no plano
internacional, principalmente pelo arrojado e internacionalizado movimento
ambientalista que age em escala global e está disseminado entre os países mais
desenvolvidos e nas principais organizações internacionais do mundo atual.
Os desafios e as ameaças à Amazônia são múltiplos. Podemos encontrá-los nos
níveis doméstico, regional e internacional. No nível doméstico, o maior desafio
- e que interage ativamente com os demais - diz respeito à integração efetiva e
mais harmoniosamente possível da região com o resto do Brasil; fenômeno
semelhante ocorre entre os demais países da Pan-Amazônia. Isso se dá porque os
planos até agora implementados com vistas à plena integração da Amazônia às
outras regiões foram apenas parcialmente executados em alguns países e, em
outros, sequer foram considerados ou se encontram em estágio muito incipiente.
Assim, a realidade atual é que existem vastas áreas onde não se percebe a
presença do Estado, o que gera a sensação de um perigoso vazio de poder,
geralmente ocupado por atividades e interesses associados a ilicitudes de
diversas naturezas e com grandes impactos ambientais, o que aliás ajuda a
consolidar e, de certa maneira, legitimar o discurso internacional de proteção
ambiental.
Não é uma tarefa simples a integração das zonas amazônicas aos núcleos mais
centrais dos Estados da bacia. Em primeiro lugar porque, historicamente, como
observado anteriormente, todos os países se projetaram em direções opostas à
bacia ou, quando diferente, apenas mantiveram uma presença mais restrita na
região. Em segundo lugar, há de se destacar a dificuldade de implementar
projetos de ocupação e desenvolvimento na região tendo em vista as
características naturais da bacia. É, de fato, uma tarefa complexa, com os
recursos disponíveis nos países da região, manter uma presença estável do
Estado que seja capaz de dotar os territórios de infraestrutura condizente com
as demandas sociais, tanto dos empreendedores quanto da sociedade em geral.
Hoje, por exemplo, há de se notar a insegurança jurídica e humana provocada
pela mudança de enfoque para com a região. Se, na década de 1970, por exemplo,
a ideia predominante era a de desmatar grandes extensões de florestas para
ocupar as terras com atividades produtivas, como se verificou sobretudo nos
atuais estados do Mato Grosso e de Rondônia (mas não apenas neles), com
iniciativas tanto públicas como privadas de ocupação da terra, atualmente a
tendência é valorizar a preservação ambiental e reconhecer os direitos dos
povos indígenas, o que provoca conflitos fundiários (com grandes, médios e
pequenos proprietários, além de posseiros e até mesmo grileiros) e com grupos
específicos, como com os garimpeiros, e diminui o interesse de muitos
empreendedores na região.
A questão indígena, pelo menos no caso brasileiro, é um dos grandes desafios
para a integração e exploração dos recursos de grandes áreas da Amazônia na
perspectiva do desenvolvimentismo. Abundam exemplos de conflitos que travam ou
dificultam obras importantes para o desenvolvimento do País, como é o caso da
construção de hidrelétricas na região.
No plano regional, os problemas se multiplicam. Os vizinhos amazônicos do
Brasil possuem uma presença ainda menor do Estado nas partes mais profundas de
suas respectivas zonas amazônicas, reproduzindo os problemas afetos à ausência
ou pouca presença do Estado verificados no Brasil. Há casos mais graves, como o
da Colômbia, no qual atividades guerrilheiras, agora associadas ao
narcotráfico, promovem insegurança que facilmente transborda para além das
fronteiras daquele país, gerando mais insegurança na região.
A precária coordenação entre os Estados da Pan-Amazônia para promoção de ações
conjuntas objetivando uma abordagem regional e sistêmica voltada para encontrar
soluções conjuntas para os problemas comuns é outra debilidade importante.
Apesar da existência de uma Organização Internacional - Organização do Tratado
de Cooperação Amazônica (OTCA) - criada justamente para essa finalidade, os
seus resultados são ainda muito precários.
Já no plano internacional, não é de hoje que existe uma intensa atividade com
relação aos assuntos amazônicos, em muitos casos com interesses políticos e
econômicos que contrariam os interesses nacionais. Além da retórica ecológica
de muitos ambientalistas, assistimos a declarações de Chefes de Estado, ou de
ex-Chefes de Estado, de outros países que enfatizam a necessidade de "proteção"
internacional da floresta. Na mesma linha, é observável também a ação de
centenas de Organizações Não Governamentais (ONGs) que utilizam tanto a
retórica ambiental quanto a indigenista para promover interesses contrários aos
nacionais dos países amazônicos, tais quais percebidos por seus diferentes
governantes.
É até curioso notar que a abordagem brasileira se distancia da visão dos países
do "Norte", principalmente porque o Brasil identifica a necessidade premente do
desenvolvimento sustentável da região como forma de melhorar a qualidade de
vida dos seus habitantes, ao mesmo tempo em que tal desenvolvimento
possibilitaria uma conexão mais articulada com o restante do País e com os
Estados vizinhos. O mesmo vale, grosso modo, para os vizinhos.
Uma das grandes questões que se coloca em termos amazônicos diz respeito a como
compatibilizar a exploração dos recursos encontrados na Amazônia com a
preservação ambiental e com os direitos das populações nativas e não nativas
que há muito tempo habitam a região. A expansão do agronegócio, a exploração de
gás e petróleo, as atividades de extração de madeira, ouro e outros minerais e
a construção de hidrelétricas realizadas até o presente momento já demonstraram
quão agressivas são essas atividades para um ecossistema relativamente frágil,
assim como também são perturbadoras para as vidas das pessoas que moram na
vasta zona amazônica.
Trata-se, na verdade, de um paradoxo, porque não há como desenvolver e integrar
as respectivas regiões amazônicas ao restante dos países que a compõem sem
implementar projetos de desenvolvimento que dependem de fortes inversões dos
Estados nacionais e que inevitavelmente provocam efeitos colaterais sobre o
meio ambiente. Seria uma grande ilusão pensar exclusivamente em termos de
proteção ambiental sem considerar as necessidades humanas e dos países que
conformam a Pan-Amazônia. No fundo, não há muita diferença em termos de países,
uma vez que as necessidades de praticamente todos os Estados amazônicos
convergem para esse paradoxo entre os ideais "preservacionistas" e os
"desenvolvimentistas". O que muda, sobretudo em decorrência de características
particulares de cada Estado amazônico, é a necessidade e intensidade da sua
projeção em direção ao interior da Amazônia.
De toda forma, é possível, até certo ponto, compatibilizar desenvolvimento com
preservação, no sentido da sustentabilidade do desenvolvimento. Nesse caso em
específico, a presença do Estado em toda a região Pan-Amazônica se torna
condição sine qua non para que algum grau de sustentabilidade seja alcançado no
processo de desenvolvimento da região.
Sem uma ação decidida por parte dos Estados amazônicos, prevalecerão a
exploração predatória dos recursos locais e a evasão de parte substancial
desses recursos em direção a países de fora da região. Já existe, por exemplo,
um intenso tráfico em torno das riquezas amazônicas realizado por meio da
chamada "biopirataria", que contrabandeia diversas espécies da flora e da fauna
regional, além de tentar se apropriar e monopolizar, por meio do registro de
patentes, de conhecimentos e saberes das populações nativas da Amazônia.
Conforme aponta o Ministério do Meio Ambiente do governo brasileiro,
Historicamente, o uso dos recursos e conhecimentos genéticos e dos
conhecimentos tradicionais associados tem ocorrido de forma injusta.
Os países de origem dos recursos genéticos e as comunidades indígenas
e locais, detentoras de conhecimentos tradicionais associados, sequer
têm sido consultados pelos que utilizam desses recursos para obter
ganhos econômicos com produtos comerciais, quanto mais recebido
qualquer tipo de benefício. Esta apropriação injusta, muitas vezes
agravada pelo uso das patentes, corresponde a biopirataria, e tem
ocorrido ao longo de toda a história do Brasil. (MMA 2013).
A questão da biopirataria é apenas um dos problemas enfrentados pelos países da
Pan-Amazônia frente aos grandes interesses internacionais em torno dos recursos
amazônicos. Existe um grande e promissor potencial em termos de biodiversidade
que ainda é muito pouco conhecido e explorado, seja pelas populações locais,
seja pelos países detentores da soberania amazônica. Ilustra bem esse quadro a
informação de que as populações indígenas empregam aproximadamente 1.300
diferentes plantas para fins medicinais, que possuem princípios ativos
"característicos de antibióticos, narcóticos, anticoncepcionais,
antidiarreicos, anticoagulantes, fungicidas, anestésicos, antiviróticos e
relaxantes musculares".5 É de se imaginar a variedade de patentes no campo da
saúde que podem sair de tão vasto acervo que se encontra espalhado pela Pan-
Amazônia. Mas as riquezas da biodiversidade não se restringem ao campo da
saúde. Existe também um enorme potencial em termos alimentares e toda uma
tradição "imaterial" que acaba chamando a atenção de muitos outros países e
grupos para a Amazônia.
Ainda no campo da biopirataria, vale a pena uma referência ao fato de que tanto
o Brasil como os demais países amazônicos encontram-se numa absurda situação de
vulnerabilidade institucional e jurídica para combater essa modalidade de
ilícito internacional, via de regra transformado em atos legais sob o abrigo da
lei de patentes, por mais imoral que possa parecer.6 Com efeito, os países da
Pan-Amazônia praticamente não avançaram na discussão do tema e parece que ainda
se está muito longe de uma ação coordenada. No caso do Brasil, o país mais
visado de todos, apesar da regulamentação por Medida Provisória (2186-16, de
2001), a biopirataria continua sendo praticada quase que livremente, uma vez
que a regulamentação não conseguiu estancar esse processo e nem tampouco o
Estado criou ou adequou órgãos de fiscalização que conseguissem imprimir um
controle mais efetivo sobre a presença de atividades estrangeiras dedicadas à
biopirataria.
Uma breve lista de patentes requeridas no exterior, por diversos países - quase
todos desenvolvidos -, demonstra como é grande o interesse internacional pelos
valiosos recursos da biodiversidade amazônica. Além disso, é preciso considerar
que muitas plantas e material nativo já foram retirados do ecossistema original
e são hoje cultivados em outras partes do mundo. Vale também lembrar o caso
relativamente recente, que causou certa irritação e reação por parte do governo
e da sociedade do Brasil, da tentativa de biopirataria "legal" levado a efeito
pela multinacional japonesa Asahi Foods Co. Ltd, de Kyoto. Nesse episódio, o
Escritório de Marcas do Japão (JPO) tentou o registro da marca comercial do
cupuaçu que, caso tivesse sido bem-sucedido, daria à empresa Asahi, por meio de
uma subsidiária criada justamente para essa finalidade, a "Cupuacu
International", a patente para a produção industrial de um chocolate obtido com
a utilização da semente da fruta. A iniciativa foi contestada pelo governo
brasileiro e por ONGs e a pressão deu resultado, uma vez que o próprio
Escritório de Marcas do Japão solicitou a retirada do pedido da marca por parte
da empresa em 2004.7
Como dito, outros países da Pan-Amazônia sofrem ações e pressões semelhantes ao
Brasil em termos de biopirataria, mas com um ingrediente a mais que aumenta o
grau de preocupação. Nesse sentido, a assinatura de Tratados de Livre Comércio
entre a Colômbia (segundo país do mundo com maior biodiversidade vegetal e
maior número de plantas conhecidas) e os Estados Unidos e entre o Peru
(classificado entre os dez países do mundo com maior biodiversidade) e os
Estados Unidos abre uma enorme via de possibilidades para que a biopirataria
seja executada praticamente de forma legal por parte dos Estados Unidos,
sobretudo pelos interesses privados representados pelo governo norte-americano.
Essa questão pode assumir um contorno ainda mais grave caso a União Europeia,
que já está em processo de negociação de acordos de livre comércio com ambos,
reivindique o mesmo tratamento dispensado aos Estados Unidos, ou seja, as
mesmas vantagens em torno da aquisição e registro de material biológico
coletado nesses países.
Alguns estudos críticos elaborados nos países vizinhos ressaltam que os norte-
americanos têm utilizado os Tratados de Livre Comércio para defender seus
interesses não apenas no campo comercial, mas também adicionam cláusulas
ambientais e de propriedade intelectual que abrem possibilidades de acesso e
apropriação de recursos da biodiversidade amazônica. Conforme um estudo
colombiano,
En el marco del Tratado bilateral que pretende firmar ambos países,
uno de los temas de mayor interés para Estados Unidos, es el capítulo
ambiental y especialmente el tema de la biodiversidad y la aplicación
de propiedad intelectual sobre toda la materia viva y conocimientos
tradicionales. Para este país del Norte, la enorme riqueza que posee
Colombia en biodiversidad y recursos genéticos potencialmente útiles
para la industria biotecnológica, pone a estos recursos en el centro
de la negociación, y desde el inicio se puso sobre la mesa la
posición de Estados Unidos frente al tema. Un eje central del acuerdo
firmado, es la creación de condiciones para las inversiones en
absolutamente todos los sectores de la economía y de la sociedad.
Para ello el gobierno se compromete a realizar las adecuaciones
jurídicas necesarias para darles garantía de tratamiento nacional a
los inversionistas. (Semillas 2008, 60).
A assinatura desses tratados tem se mostrado perigosa para uma abordagem que
leve em conta os interesses das populações locais e dos Estados da Pan-
Amazônia. Ao assinarem acordos que permitem a apropriação privada por parte de
empresas dos países desenvolvidos de recursos da Pan-Amazônia (Tabela_2), os
governos da Colômbia e do Peru estão, ao mesmo tempo, passando por cima de suas
respectivas sociedades e ajudando a desmontar o pouco que foi realizado pela
Comunidade Andina de Nações (CAN) acerca dessa temática.
[/img/revistas/rbpi/v56n2/a06tab02.jpg]
A precariedade do controle dos órgãos responsáveis no Brasil se revela também
por meio do impressionante e expressivo tráfico de animais silvestres,
retirados principalmente da Amazônia. Segundo a Polícia Federal, essa atividade
ilícita está entre as mais frequentes do mundo, perdendo apenas para o tráfico
de armas, drogas e seres humanos. Assim, muitos animais são retirados da
Amazônia e vendidos ilegalmente, tanto no Brasil quanto no exterior. O
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama) apreendeu, apenas em 2009, mais de 31 mil animais silvestres retirados
de seus habitats naturais e vendidos ilegalmente. Estima-se que cerca de 40%
dos animais extraídos apenas da fauna brasileira seguem para o mercado
internacional, principalmente para a Europa (Duarte 2010).
Cenários da Pan-Amazônia
Ao projetarmos os possíveis e mais prováveis cenários regionais para a Pan-
Amazônia, há de se considerar algumas importantes variáveis, como a evolução
dos quadros políticos nacionais e suas interações no plano regional,
considerandose principalmente o comportamento dos atores amazônicos mais
proeminentes (Brasil, Colômbia, Venezuela e Peru) e da visibilidade e atenção
que a região pode despertar perante a comunidade internacional, sobretudo pelo
agravamento ou não da questão ambiental e do aquecimento global, que são
considerados como os temas que têm mais chances de colocar em evidência a Pan-
Amazônia no âmbito internacional.
Parte-se, nesta parte do artigo, de pressupostos nacionais e regionais
convergindo e interagindo para ampliar, reduzir ou manter o status quo da Pan-
Amazônia, em parte permeados por problemas comuns, como os ilícitos
transnacionais, a necessidade de cooperação como países condôminos de um
sistema interdependente e as perspectivas diante dos interesses de poderosos
países de fora da região com relação aos temas amazônicos.
Cenário regional
O contexto amazônico mudou muito desde a década de 1970, quando a Amazônia se
torna um tema de grande destaque na agenda política brasileira, principalmente
pela preocupação despertada para sua integração mais efetiva ao território
nacional, o que levou a medidas como abertura de estradas, expansão da
fronteira agrícola e implementação de polos de desenvolvimento econômico.
Começou, assim, a surgir uma região muito diferente da anterior, tanto em
termos de desenvolvimento econômico e de ocupação humana do seu território.
Todavia, esse processo de transformação da paisagem amazônica teve e tem
resultados negativos, como grandes impactos ambientais e humanos
(principalmente para suas populações autóctones), além de uma maior
visibilidade internacional, acompanhada de perto pela intensificação de um
discurso ambientalista questionador da validade da tese da soberania nacional
sobre o ecossistema amazônico.
No plano regional, considerando como marco o período iniciado na década de
1970, houve, assim como no Brasil - porém em menor escala -, uma gradativa
descoberta do potencial amazônico pelos países vizinhos, mesmo considerando que
nenhum deles tenha projetado planos mais ousados para a integração da área
amazônica aos seus núcleos socioeconômicos principais. De toda forma, ocorreu
um movimento crescente no sentido de ampliar a presença do Estado na Amazônia,
mesmo que em áreas pontuais, com o duplo discurso de exploração dos recursos
naturais existentes e preservação ambiental.
A questão colombiana e a Pan-Amazônia
Um caso muito particular no âmbito regional e que possui significado especial
para a Pan-Amazônia é o da Colômbia. Com efeito, a perspectiva colombiana se
difere das demais pela presença perturbadora para toda a região de um grupo de
guerrilha ainda atuante e que mescla questões ideológicas com o problema do
narcotráfico. Isso é importante porque vários episódios demonstram o efeito de
spillover das questões colombianas para os seus vizinhos. Um dos efeitos
colaterais desse problema, por exemplo, foi a implementação do Plano Colômbia,
que trouxe de forma mais intensa para a região a presença militar dos Estados
Unidos, o que contraria frontalmente os interesses brasileiros e de vários
outros países amazônicos (principalmente Venezuela, Equador e Bolívia), haja
vista a preocupação nacional com qualquer modalidade de ingerência de grandes
potências na América do Sul e, em especial, na Amazônia.
Assim, a persistência das atividades das Forças Armadas Revolucionárias da
Colômbia (FARC) e sua associação com o narcotráfico impõem desafios que não se
restringem à perspectiva colombiana. É certo que a guerrilha se encontra
atualmente em estado de relativa fragilidade, mas a incapacidade das forças
regulares colombianas, mesmo associadas à ajuda militar norte-americana, em
impor uma derrota decisiva para as FARC é um sintoma de que o problema
persistirá e que sua solução provavelmente deverá conter um elemento
essencialmente político. Nesse sentido, caso a Colômbia persista na sua
política de tentar resolver a questão das FARC por meio essencialmente da força
em estreita aliança com os Estados Unidos, o país continuará destoando dos
demais e mantendo sua especificidade.
É preciso considerar, entretanto, os interesses colombianos e compreender que a
aproximação do país com os Estados Unidos seguiu uma lógica própria que pode,
inclusive, ser associada à manutenção da ordem interna e do controle do Estado
sobre o seu território. A Colômbia foi, com efeito, o país da América do Sul
que mais sofreu com as atividades do narcotráfico e das guerrilhas. Com
dificuldades internas para manter a situação sob controle, tanto pela ação das
guerrilhas como pela existência de poderosos cartéis do narcotráfico - que
provocaram uma violenta disputa intra-cartéis e também uma forte contestação à
autoridade do Estado -, e pressionado externamente sobretudo pelos negócios
ilícitos envolvendo as drogas, havia pouca escolha para as lideranças
colombianas. Assim, a parceria com os Estados Unidos foi, de certa forma,
providencial para que o país não entrasse na lista dos estados falidos no final
dos anos 1990.
A atuação das FARC e a resistência da maior parte dos países sul-americanos em
identificarem oficialmente o grupo como tendo "evoluído" para uma
narcoguerrilha, criou uma situação complicada na relação entre os países
vizinhos e a Colômbia. Além disso, a presença norte-americana na Amazônia
colombiana e as consequências de algumas ações planejadas em conjunto entre o
governo da Colômbia e os norte-americanos criaram ainda mais dissensos
políticos na região. É o caso, por exemplo, do emprego do agente químico
glifosato, aspergido nas plantações de coca na Colômbia mas que rapidamente
contaminou territórios e mananciais além das fronteiras colombianas.
Outro exemplo ainda mais grave, pelo menos do ponto de vista político, foi o
desrespeito à soberania territorial dos vizinhos. Esse foi o caso, registrado
de maneira mais contundente, da ação militar levada a efeito pelo Exército
colombiano contra um acampamento militar das FARC em solo equatoriano.8 Embora
não tenha sido a única operação militar fora da Colômbia, foi a mais grave pela
sua dimensão e pela captura de informações importantes que estavam em poder de
um alto líder da guerrilha que foi morto na operação. Além disso, existe ainda
a desconfiança da maior parte dos países sul-americanos com a livre utilização
de bases localizadas em território colombiano pelas Forças Armadas dos Estados
Unidos.
Por tudo isso e pelo destacado crescimento de sua economia, a Colômbia,
portanto, é um país-chave para considerarmos qualquer cenário mais positivo (ou
negativo) e que contemple avanços (ou retrocessos) no processo de integração e
articulação política no espaço amazônico. Nesse sentido, e considerando o caso
especial do país, tudo dependerá do fim do conflito FARC versus governo
colombiano, seja por uma vitória militar - caso menos provável -, seja por um
acordo que coloque fim à guerra. Nesse cenário, a normalização política do país
numa situação pós-conflito tem tudo para afastar da região a presença direta
dos Estados Unidos e pavimentar o caminho para o melhor entendimento entre a
Colômbia e todos os seus vizinhos.
É de se ressaltar que, corroborando esse pensamento, há na Colômbia a ideia de
que o diálogo e a parceria com o Brasil são importantes para ambos os países em
diversas matérias, da segurança e cooperação regional à consolidação da
democracia e do Estado de direito. Em recente obra publicada no país, os
principais temas das relações bilaterais foram abordados justamente na
perspectiva da aproximação entre os dois países, contemplando inclusive a
inserção regional e as abordagens de ambos em direção à construção de uma
identidade sul-americana mais consistente (Buelvas, Jost, e Flemes 2012). De
fato, a recente discussão em torno de uma maior aproximação entre Colômbia e
Brasil é algo ainda em fase inicial, haja vista que até bem pouco tempo o
parceiro identificado como estratégico por importantes intelectuais brasileiros
- e, por que não dizer, até mesmo pelo próprio governo brasileiro - era a
Venezuela, e não a Colômbia. Podemos estar, assim, diante de uma inflexão da
política externa brasileira no que diz respeito às suas opções na região
amazônica.
Essa projeção muda caso o conflito colombiano persista ou mesmo se agrave.
Nesse outro cenário, tudo indica que a Colômbia continuará sendo um país
destoante dos demais por suas relações especiais com os Estados Unidos e pelo
problema da guerrilha associado à questão do narcotráfico, de impacto ainda
maior para a região e para o mundo. Se, simultaneamente, persistirem governos
mais à esquerda em países vizinhos como Venezuela, Bolívia e Equador, o quadro
se agravará ainda mais.
É importante que se diga que o narcotráfico não é um problema exclusivamente
colombiano, uma vez que atinge a totalidade dos países da Pan-Amazônia. A
questão é que a Colômbia é o país que detém o papel de maior produtor mundial e
que conta em seu território com vastas áreas de plantio de coca. Além disso, é
preciso considerar o envolvimento transnacional da cadeia produtiva da cocaína
que está muito presente no país. Assim, os produtores e traficantes colombianos
e seus associados estão diretamente ligados a outros crimes transnacionais,
como lavagem de dinheiro, contrabando de precursores utilizados na produção da
cocaína, tráfico de armas e conexões com outras organizações criminosas
espalhadas não apenas pelo América do Sul, haja vista que possuem conexões em
outros continentes.
Por tudo isso e muito mais há de se considerar a necessidade de o Brasil buscar
uma aproximação maior com a Colômbia. Além de compartilharmos uma grande área
de fronteira, compartilhamos também muitos problemas em comum. Se a Colômbia é
o maior produtor mundial de cocaína, o Brasil é um dos maiores consumidores da
droga, além de grande corredor de exportação. O crime organizado que atua no
Brasil possui conhecidas conexões com os narcotraficantes colombianos e, em
grande medida, a alta taxa de violência urbana verificada no Brasil decorre do
tráfico de drogas, o que é um exemplo a mais a demonstrar as interações, mesmo
que indiretas, entre os dois países. Está claro, após décadas de crescimento da
violência no Brasil, que o País não conseguirá eliminá-la ou controlá-la apenas
por meio da repressão.
Impactos ambientais e intervencionismo internacional
Qualquer projeção que diga respeito à Pan-Amazônia deve levar em consideração a
questão ambiental e suas repercussões internacionais. A exploração dos recursos
naturais e a ocupação do solo na região têm aumentado em praticamente todos os
países amazônicos e os impactos ambientais decorrentes desse processo são
inevitáveis. No atual contexto e no horizonte de curto e médio prazos a
principal questão não diz mais respeito ao dilema de explorar ou não os
recursos amazônicos, mas sim de como explorar a região de forma sustentável e,
preferencialmente, com autonomia por parte dos países detentores de territórios
amazônicos.
A autonomia para a exploração da Amazônia se encontra em risco permanente,
assim como a própria soberania dos Estados amazônicos sobre a Pan-Amazônia.
Como destaca Rosineide Bentes, "entre 1989 e 2002, a Amazônia se tornou o
primeiro, e até agora único, objeto da intervenção direta do ambientalismo
internacional" (Bentes 2005, 225). Embora não se possa descartar a existência
de um pensamento genuinamente preservacionista por trás do ativismo
ambientalista, não se deve descartar, de forma alguma, os interesses econômicos
e políticos de grandes potências ou de instituições e atores internacionais que
muitas vezes se utilizam desse discurso para embasar de maneira sub-reptícia os
seus objetivos e interesses.
Mas mesmo diante da pressão internacional em torno do ativismo ambientalista,
os países da Pan-Amazônia, no geral, estão passando por um processo de tomada
de consciência de que é preciso integrar os seus núcleos mais ativos às áreas
da floresta. Como observado anteriormente, até bem pouco tempo atrás o Brasil
era praticamente o único país amazônico que planejou e executou uma política de
ocupação e exploração da região, tendo aumentado consideravelmente a presença
do Estado na chamada Amazônia Legal. Naturalmente que essa ocupação e
exploração se fez e ainda se faz de forma um tanto precária, mas esse é um
diferencial que deve ser registrado. Contudo, outros países começaram também a,
digamos, "descobrir" vocações amazônicas.
Já existem investimentos em diversos setores sendo executados em países como
Colômbia, Peru e Bolívia, além, naturalmente, do próprio Brasil. Praticamente
todas as inversões na Pan-Amazônia levam a algum grau de impacto ambiental,
haja vista que empreendimentos de setores como a agropecuária, a mineração, o
cultivo de ilícitos (a ampliação das áreas de cultivo de coca se dá, via de
regra, às expensas de novos desmatamentos, principalmente na Amazônia
colombiana, peruana e boliviana), a prospecção de petróleo e gás, a construção
de hidrelétricas, a abertura de estradas, e melhorias nas vias fluviais, entre
outros, não são realizáveis sem afetar o meio ambiente.
Em termos políticos, perante os países desenvolvidos do Hemisfério Norte,
custam caro para a imagem dos Estados da Pan-Amazônia os impactos ambientais
provocados pelo aumento do nível das atividades econômicas na região. Como os
países amazônicos não estão dispostos a manter a floresta intacta e nem
tampouco a restringir a atividade econômica a processos de pouco impacto
ambiental, haja vista a necessidade de melhorar a qualidade de vida das pessoas
que habitam a região e de utilizar esses recursos para o desenvolvimento dos
seus países, é de se esperar que a pressão internacional não irá desaparecer ou
mesmo diminuir. Nesse caso, o cenário mais provável é o aumento do ativismo dos
movimentos ambientalistas, que podem inclusive passar a contar com maior
empenho de determinados governos do Norte, principalmente de países europeus e
dos Estados Unidos. Além disso, não é difícil imaginar o envolvimento de
organizações internacionais com o tema, haja vista que elas são igualmente
muito suscetíveis ao discurso ambientalista.
O modo mais eficaz de se contrapor a esse ativismo internacional, que cada vez
mais possui um indisfarçável caráter ideológico e que se desenvolve por meio de
determinados países e ONGs e alcança Organizações Internacionais, é o de
aumentar a presença do Estado na Pan-Amazônia em diferentes frentes.
Não é possível para um único país, como o Brasil, fazer frente sozinho e de
forma plenamente autônoma, a esse crescente ativismo. A ideia de aumentar a
presença do Estado na Pan-Amazônia é entendida aqui não apenas com a execução
de projetos desenvolvimentistas ou por meio apenas do aumento da presença
militar. É importante que haja uma concertação política regional que passa pelo
fortalecimento da OTCA e pelo estreitamento dos laços políticos dos países
vizinhos, independente de condicionantes ideológicas.
Considerações finais
A Pan-Amazônia é uma região estratégica para o Brasil e para os países que a
compõem. Além dos diversos recursos naturais encontrados em seu ecossistema,
existe em torno da Pan-Amazônia toda uma perspectiva estratégica, política e
econômica que interessa diretamente aos países condôminos. Ela é um ponto vital
para qualquer programa de integração sul-americano, se constituindo em elemento
essencial para a integração continental em sua dimensão mais ampla, isso sem
contar que os impactos ambientais que atingem a zona amazônica acabam
repercutindo também em outras áreas do continente sul-americano. Além disso, o
discurso do internacionalismo ambientalista que proliferou nas últimas décadas
chamou ainda mais a atenção internacional sobre a Pan-Amazônia, elevando
consideravelmente os riscos da internacionalização do seu território, o que
afeta de maneira mais intensa, entre todos os países da bacia, o Brasil.
As questões envolvendo a Pan-Amazônia são complexas e o seu caráter regional
sugere que abordagens igualmente regionais poderiam, afinal, promover sinergias
entre os países mais diretamente relacionados à região para o encaminhamento
tanto de programas de cooperação, em seus múltiplos níveis, como de questões
políticas. Todavia, é preciso considerar os interesses individuais dos atores
envolvidos, o que muitas vezes impõe severas restrições para ações conjuntas.
Talvez a prova mais concreta e contundente de tal assertiva seja o lento ritmo
de integração e cooperação alcançado por meio do Tratado de Cooperação
Amazônica e, depois, da OTCA. Assim, é realmente um exercício de idealismo
imaginar que a Pan-Amazônia possa, num cenário de curto e médio prazos, estar
plenamente integrada ou mesmo em estágio mais avançado em seu processo de
integração.
Tudo isso, contudo, não remove os graves problemas e desafios da Pan-Amazônia.
A integração física da região é um imperativo imediato, embora o seu ritmo real
seja lastimável. A presença do Estado em toda a Pan-Amazônia ainda deixa muito
a desejar, abrindo caminho ou facilitando a ação de diversos ilícitos
transnacionais com grandes impactos societários, sobretudo pela ação do
narcotráfico. Essa mesma ausência possibilita que interesses privados -
nacionais e internacionais - incrementem num nível incompatível com a
sustentabilidade diversos programas de exploração econômica na região, causando
grandes impactos ambientais e chamando a atenção de atores externos,
normalmente capitaneados pelo discurso do internacionalismo ambiental, para a
região.
Assim, em toda a Pan-Amazônia, o maior desafio é ampliar a presença e
coordenação dos Estados condôminos para que, guiados pela responsabilidade
ambiental, possam manter as respectivas soberanias nacionais e integrar, da
maneira mais harmoniosa possível, os seus territórios amazônicos aos
respectivos núcleos territoriais.