O jogo de esconde-esconde: trabalho perigoso e ação social defensiva entre
motoboys de Salvador
Introdução
Os trabalhadores de moto-entrega ou motoboys são um traço saliente da cena
urbana brasileira contemporânea. Mais recentes, numerosos e indiscretos que
seus equivalentes norte-americanos e europeus, os motoboys transportam em suas
motocicletas uma vasta gama de encomendas: desde remédios, alimentos e flores,
passando por garrafas de água mineral, até celulares, cartões de crédito e
dinheiro.1 A expansão dos serviços de moto-entrega ' por causa de
congestionamento das vias urbanas, praticidade para o consumidor, baixos custos
da mão-de-obra,2 facilidade de ingresso na ocupação, autonomia e excitação
proporcionadas pela condução de veículos versáteis ' converteu este trabalho em
um pólo de atração para adultos e jovens do sexo masculino.
Trata-se de uma atração fatal ou quase fatal pelas características da
atividade. A enorme pressão, exercida por empresas e clientes, por rapidez nas
entregas (Culley, 2002; Fincham, 2006, 2007) leva os motoboys a cometerem
imprudências no trânsito. Juntamente com os conflitos com motoristas,3 estas
contribuem para ocorrências de acidentes fatais ou não (Culley, 2002; Fincham,
2006, 2007), que transformam estes trabalhadores em líderes do ranking nacional
de acidentes no trânsito (Marin e Queiroz, 2000).
Conquanto a ansiedade provocada pelos acidentes ofusque, nos relatos dos
atores, os riscos de vitimização por crimes predatórios,4 estes constituem uma
segunda sobrecarga, uma vez que os motoboys são alvos atrativos de roubo ' por
conta de seus veículos, encomendas e pertences pessoais ' e, ao mesmo tempo,
carecem de defesas formais, representadas pelo policiamento estatal ou privado,
contra eles (Hobbs et al., 2003). Nesse sentido, a manipulação e o transporte
de valores, o trabalho em trânsito, o grande raio de deslocamentos diários
(Niosh, 1996), a estigmatização pública5 e a desproteção policial geram um
déficit crônico de vigilância que eles devem suprir através de defesas
informais. Neste ponto, cabe interrogar: Quais são estas defesas? Como elas se
adaptam aos diferentes espaços urbanos? Quais as possibilidades e os limites
delas para reduzirem as oportunidades de furtos, roubos, agressões físicas?
Esta linha de indagação remete ao papel da vigilância na prevenção de
investidas predatórias, visando a explorar as oportunidades criadas pelas
atividades rotineiras de indivíduos e grupos sociais (Cohen e Felson, 1979;
Felson, 1986). Entendendo que tais oportunidades envolvem a disponibilidade de
alvos valiosos e a presença de vigilantes adequados, a falta destes últimos
determina a opção para vitimizar com maior freqüência aqueles que estão em
desvantagem para responder aos ataques (Cohen e Felson, 1979; Birckbeck, 1984-
1985; Beato et al., 2004) ou modificar seus padrões de atividades (Felson,
2006). Segundo esta abordagem situacional do delito, indivíduos que cuidam de
uma casa, membros da família, colegas de trabalho, amigos e até estranhos na
rua possuem mais condições de atuar como guardiões adequados, porque têm mais
probabilidade de estarem presentes nos eventos, do que policiais.
Um dos limites desta teorização é que, embora ela reconheça a importância de
laços sociais, interesses comuns e responsabilidades compartilhadas para a
vigilância adequada (Cohen e Felson, 1979; Felson, 2006), não há um
aprofundamento da discussão acerca das variações desses laços na segurança de
indivíduos e grupos em diferentes contextos socioespaciais e legais. Este
aspecto, delineado pela teoria do capital social (Coleman, 1988), foi
direcionado para explicar os níveis diferenciados de criminalidade em distintos
espaços urbanos pela teoria da eficácia coletiva (Sampson et al., 1997). Nessa
linha de raciocínio, a teoria das vantagens ecológicas qualifica a influência
da eficácia coletiva com base na posição ecológica ou posicionamento espacial
dos lugares em termos de oportunidades e meios de controle social de crimes. Ao
lado disso, essa teoria chama atenção para dois outros aspectos importantes
para o presente estudo: os processos de negociação entre atores legais e
ilegais e as expectativas de retaliação das disposições para agir na prevenção
do crime (St. Jean, 2007).
Em termos mais específicos, a vigilância compreende defesas, primárias e
secundárias, que objetivam tornar os crimes menos atrativos, mais arriscados e
mais difíceis. Elas são aplicadas antes ou depois de detectar a presença de
ameaças por meio de métodos de ocultação, dissuasão, superação, desestímulo e
oposição aos adversários (Felson, 2006).6 Ao tempo em que a quase totalidade
desse tipo de defesa depende de recursos próprios, individuais e inter-
individuais, e, por isso mesmo, se confunde com o que literatura tem denominado
de auto-policiamento (self-policing) (Radford, 1987; Sanders, 2005), a defesa
secundária simbiótica se dá por meio da mobilização dos recursos de vigilância
de outros atores, legais e ilegais (Felson, 2006).
Argumentamos que as (des)vantagens ecológicas dos espaços urbanos estruturam e
são, por sua vez, estruturadas pela ação multidimensional dos atores nos planos
da defesa individual, inter-individual e inter-grupal. À medida que essas
(des)vantagens ecológicas ' ou facilidades espaciais dos lugares ' para a
criminalidade predatória e suas vítimas, atuais e potenciais (St. Jean, 2007),
condicionam a demanda e a forma de vigilância adequada, as defesas podem ser
pensadas como táticas socioespaciais (Lysaght e Basten, 2003) restritivas e
expansivas. Tais táticas estão pautadas na adaptação pragmática às situações,
na exploração das possibilidades existentes e, no caso das defesas expansivas,
na negociação de vigilância adequada de atores lícitos e ilícitos. Ainda que
ambos os tipos de tática sejam complementares, acreditamos que as de caráter
expansivo são mais efetivas para a redução das desvantagens ecológicas que
atingem os motoboys do que as defesas meramente restritivas.
Trabalho de campo
O trabalho de campo foi realizado em 2004 e incluiu 53 entrevistas,
subdivididas em 32 entrevistas semi-estruturadas e 21 não estruturadas, e 15
horas de observação direta. Esta enfocou rotina de trabalho de moto-entrega,
assembléias e concentrações sindicais, audiências públicas, encontros técnicos
e reuniões com policiais de trânsito. Além dos motoboys, foram entrevistados
três proprietários de empresas de moto-entrega, o presidente do sindicato da
categoria e o comandante da unidade especial de policiamento de trânsito.
Como critérios de seleção de motoboys para a pesquisa utilizamos o tempo de
exercício profissional (tempo mínimo de seis meses de exercício e tempo máximo
de um ano de afastamento), o tipo de relação de trabalho (trabalhadores
informais ou formais, terceirizados ou com vínculos diretos com a empresa
contratante) e o tipo de atividade de entrega (trabalhadores de lojas de
alimentos, farmácia, autopeças, vendas, correios, documentação e outros, nas
proximidades dos estabelecimentos onde eles costumam ficar aglomerados em
vários pontos da cidade).
Os contatos com os motoboys foram feitos de três maneiras: abordagens seguidas
por entrevistas não estruturadas nas ruas, indicações do sindicato da categoria
e indicações de colegas já entrevistados, com base na técnica da bola de neve.
As novas entrevistas foram realizadas no carro de um dos pesquisadores ou em
centros comerciais, com duração média de uma hora e meia. Tanto os nomes dos
entrevistados como os bairros referenciados foram alterados com o intuito de
manter sigilo.
Entre os 53 trabalhadores entrevistados, a sistematização dos dados
sociodemográficos correspondentes a 32 depoentes evidencia a predominância
quase absoluta do sexo masculino, negros-mestiços, com segundo grau completo,
casados e com filhos. Apenas seis trabalhadores eram solteiros. Os
entrevistados tinham uma idade que variava entre 30 e 38 anos, sendo apenas
nove com idade inferior aos 30 anos e seis com idade superior aos 38 anos. O
mais jovem entrevistado tinha 22 anos e o mais velho 49 anos. A totalidade
desses motoboys trabalhava com motos próprias e apenas quatro deles possuíam
seguros de veículo. Todos residiam em bairros de baixo poder aquisitivo de
Salvador. Considerando-se as relações de trabalho, dezessete tinham contrato
direto com a empresa, onze eram autônomos e quatro eram trabalhadores
terceirizados. Três deles trabalhavam à noite como moto-taxistas.
Quanto aos motoboys vitimizados (56% da amostra), dois perderam a moto por
furto, oito sofreram tentativas de assalto e oito já tinham sido assaltados.
Entre estes últimos, dois foram vítimas repetidas de assalto. Contudo, em vez
destes elevados níveis de vitimização causarem sentimentos de impotência (Paes-
Machado e Nascimento, 2006), os motoboys entrevistados manifestaram confiança
nas virtudes das suas defesas para enfrentar os perigos e as ameaças do dia-a-
dia.
Táticas socioespaciais restritivas
As defesas restritivas, individuais e inter-individuais, visam a evitar
interações forçadas (Katz, 1988) com indivíduos e ambientes hostis e, no
limite, contra-atacar as ameaças e os perigos advindos daí. Tais defesas são
apropriadas para áreas ecológicas, a exemplo de locais de passagem e lugares
com rotas de fugas, onde o outro ' o infrator está lá ' não domina por completo
a situação ou pode ser neutralizado por diferentes artimanhas, como: uso de
equipamentos contra furtos, imitação de motocicletas velhas, checagem dos
endereços dos destinatários, uso seletivo do uniforme de trabalho, realização
de entregas em dupla, cuidados especiais com encomendas de maior valor,
mudanças previstas e imprevistas de itinerários (fugas) e suspensão das
entregas nas áreas ecológicas mais arriscadas.
Além de prestarem bastante atenção aos locais de estacionamento, os motoboys
utilizam equipamentos para dificultar furtos de veículos, como alarmes, travas
e correntes, chegando a retirar peças dos motores dos veículos para estes não
funcionarem. Trata-se de procedimentos que, objetivando aumentar a inércia e
reduzir a atratividade do alvo (Cohen e Felson, 1979), são compatíveis com pelo
menos dois aspectos importantes. De um lado, a existência de um mercado ilegal
de motocicletas e peças roubadas que é alimentado pelo consumo predatório
(Zaluar, 1994; Neto et al., s.d) dos motociclistas e dos próprios motoboys. No
propósito de rebaixar os custos das motos, tais atores estimulam atividades
predatórias contra indivíduos e grupos possuidores desses bens (Paes-Machado,
2006). De outro, o fato de a maioria desses trabalhadores, a exemplo de três
quartos dos proprietários de veículos no Brasil, não possuir seguro contra
perdas totais ou parciais das suas motocicletas, arriscando a perder o emprego,
já que, como foi declarado pelos entrevistados, "sem moto [própria] não há
trabalho" (Weher, s.d). Tais medidas de precaução são insuficientes, contudo,
para impedir que as motocicletas sejam furtadas e carregadas por veículos
utilitários, ou mesmo roubadas no trânsito.
Uma segunda medida contra furtos e roubos das motocicletas consiste na redução
do valor e da visibilidade relativa da moto mediante a imitação (Felson, 2006)
de veículos mais velhos ou gastos. Isto é feito com a colagem de adesivos na
carroceria, retirada de peças e conservação da sujeira sobre os mesmos (Neto et
al., s.d). O objetivo é depreciar o valor da oportunidade (Birkbeck, 1984-1985)
representada pelas motocicletas para que elas não fiquem "visadas" pelos
ladrões, mesmo que isto signifique abrir mão, ao menos temporariamente, da
distinção social e do narcisismo associados à posse de veículos novos e
reluzentes. Em sociedades onde, apesar dos elevados índices de crimes, os
membros das classes altas e médias insistem com a ostentação de símbolos de
distinção que contribuem para torná-los alvos atrativos, esse bom senso dos
estigmatizados motoboys é algo a ser lembrado. Entretanto, e a exemplo do
caráter incerto de qualquer defesa, para predadores interessados no desmanche
das motocicletas e venda de peças avulsas, tais truques não chegam a ser um
impedimento.
Embora a checagem de endereços dos clientes seja comum na atividade de entrega,
ela está permeada pela função de segurança (Iafolla, 2004) e tem um caráter
proativo contra roubos. Esta checagem é feita a partir do catálogo telefônico,
das empresas de telefonia, das consultas aos colegas, das chamadas para
localizar endereços, verificando a identidade e vasculhando riscos associados
aos usuários (Sanders, 2005). Tal método, porém, pode ser neutralizado por
falsos clientes ou imitadores (Gambetta e Hammil, 2005; Sanders, 2005; Felson,
2006) que, após fazerem pedidos e fornecerem endereços aparentemente corretos,
o chamado "trote", assaltam os motoboys:
[...] às vezes a gente também é assaltado em certas entregas que a
gente faz que são trotes. Isso é muito freqüente, o cara faz o
pedido, dá o endereço certo e quando a gente chega lá, o cara está
embaixo esperando a gente pra assaltar (Edu, 23 anos).
A manipulação da identidade mediante a imitação (Felson, 2006) é uma defesa
bastante utilizada no transporte de encomendas mais valiosas. A imitação
envolve o uso seletivo de fardas e equipamentos no intuito de reduzir a
visibilidade (Lysagth e Basten, 2003; Felson, 2006), evitar a identificação ou
ocultar a associação (Sanders, 2005) com estabelecimentos que operam com
dinheiro, talões de cheque, cartões telefônicos, tíquetes e outros objetos.
Esta prática, contudo, não está isenta de ambivalência. Ao tempo em que os
trabalhadores se sentem orgulhosos e mais seguros quando usam fardas e mochilas
com logotipos das suas empresas, eles substituem, quando estão fazendo este
tipo de entrega, a roupa de trabalho pelo próprio vestuário para se confundirem
com outros motoboys e, desse modo, se ocultarem dos agressores (Felson, 2006).
Ora, se esta é uma boa receita para se safar de assaltantes, o mesmo não vale
para o público e a polícia. A falta de uniforme alimenta suspeitas e
discriminação dos transeuntes contra os motoboys. Quanto à polícia, cuja
atuação constitui, em vários aspectos, um risco adicional para esses
trabalhadores (Sanders, 2005; Riccio-Oliveira, 2005), por conta da
estigmatização da categoria e dos abusos de autoridade, ela pára e revista mais
freqüentemente os motoboys não uniformizados, fazendo-os perder tempo e mesmo
submetendo-os a arbitrariedades (Riccio-Oliveira, 2005). Vale lembrar que
também não é recomendável passar em casa para almoçar com as encomendas, como
ainda é hábito entre os motoboys da região analisada.
O trabalho em dupla, do motoboy acompanhado por um conhecido na garupa do
veículo é outra forma de defesa grupal (Felson, 2006) contra roubos de
motocicletas praticados por duplas de motociclistas infratores. Por disporem de
veículos velozes, celulares e armas de fogo para cometer crimes e evitar
flagrantes, em diferentes lugares e momentos, as ações dessas duplas já foram
chamadas de "violência pau de fósforo". Ainda que o motoboy tenha que pagar ao
parceiro com recursos do seu próprio bolso, esta prática explora o temor
despertado, em muita gente, por duplas de motociclistas e sinaliza os
infratores de plantão que ele está preparado para reagir. O trabalho em dupla,
porém, apresenta a mesma desvantagem, mencionada antes, de favorecer as
suspeitas do público e as abordagens da polícia:
Têm atividades que a gente trabalha de dois, pelo seguinte: eu às
vezes, quando estou entregando convite à noite, chamo algum amigo
meu, dou um dinheiro a ele, e ele vai comigo entregando... Por que eu
faço isso? Pra minha própria segurança. Eu vou ser parado mil vezes
[pela polícia], mas eu vou estar seguro também... Porque o ladrão vai
pensar que eu sou ladrão, e não vai querer me parar, e não vai me
roubar... O bandido que está lá rondando não encosta em mim! (Luis,
30 anos).
Ao lado dessa forma de defesa grupal, os motoboys também recorrem à chamada
defesa social emergente (Felson, 2006). Fundada na solidariedade e advinda das
condições de trabalho, da estigmatização e da sensação de desproteção e de uma
concepção reativa da masculinidade, a defesa social se expressa na formação de
grupos de apoio a colegas envolvidos em conflitos nas ruas: "A classe é muito
unida e se um motoboy estiver brigando com um motorista, todos vão ajudar"
(Renato, 26 anos). Tal defesa faz com que os motoboys sejam particularmente
temidos. Embora a defesa social seja comum nas situações de conflito com
motoristas, ela não funciona contra ataques violentos e rápidos.
No transporte de dinheiro e encomendas mais valiosas, os trabalhadores empregam
métodos de ocultação e despistamento. Afora o desejo de não terem prejuízos, os
trabalhadores temem ser responsabilizados (Ewald, 2002; Paes-Machado e
Nascimento, 2006) pelos estabelecimentos: receiam ser considerados suspeitos,
perderem o emprego e angariarem referências negativas que dificultarão a
obtenção de um novo posto de trabalho (Riccio-Oliveira, 2005).
Essa linha de defesa manifesta-se no cuidado com a manipulação e o transporte
de dinheiro ' subatividade de entrega mais perigosa segundo os trabalhadores '
dentro e fora das agências bancárias e estabelecimentos comerciais. Nas
agências, eles buscam não chamar atenção de predadores que costumam espreitar a
movimentação dos saques para roubar vítimas potenciais, como os motoboys ou
outros clientes, quando eles saem dos estabelecimentos, de acordo com uma
modalidade de crime conhecida como "saidinha bancária". Os motoboys que
trabalham com estas encomendas também limitam, com o consentimento de seus
patrões, o volume das retiradas e entregas de dinheiro. Tal prática, que
multiplica os trajetos, fragmenta e dilata o tempo de cumprimento das tarefas,
seria mais complicada se a remuneração da força de trabalho e o consumo de
combustível fossem mais elevados.7 O terceiro procedimento consiste em
distribuir os valores em vários compartimentos, como bolsos, mochilas etc. para
evitar perdas totais caso haja um assalto. Esta e outras receitas estão
resumidas no seguinte trecho:
Muitas vezes quando vou entregar valores, vou com as encomendas em
mochilas e mais um colega na garupa para despistar; também procuro
sair em horários diferentes para não ficar muito visado. Também não
uso a camisa com o logotipo nem a mochila da empresa (Paulo, 49
anos).
Um dos limites desse tipo de defesa, ignorado pela literatura especializada
(Felson, 2006), deriva de um dos mais temíveis riscos apresentados pelo
trabalho de moto-entrega: a infiltração predatória dos estabelecimentos por
infratores que fornecem informações para seus comparsas roubarem os motoboys.
Trabalhar com o inimigo sem saber é um dos caminhos mais curtos para o inferno.
Contra isto apenas o sigilo entre colegas de trabalho e a tentativa de
desestimular, por meio de várias artimanhas, os infratores.
Do mesmo modo que outros grupos que se deslocam em zonas de risco (Lysaght e
Basten, 2003), os motoboys também modificam suas rotas de deslocamento para não
se tornarem alvos fáceis. Tais modificações envolvem tanto as mudanças
previstas de itinerários para alterar as atividades rotineiras (Felson, 2006)
ou reduzir a previsibilidade de tempo e lugar de deslocamento (Lysaght e
Basten, 2003), como as mudanças imprevistas para escapar de encontros perigosos
e confrontos armados (Linger, 1992; Paes-Machado e Levenstein, 2004).
Se o uso de carros permite aos motoristas superar riscos de violência
associados às divisões espaciais (Lysaght e Basten, 2003), isto não se aplica
ao emprego de veículos para atividades profissionais (Gambetta e Hammil, 2005).
No caso dos motoboys, por melhores que sejam a mobilidade e a visão
proporcionadas por suas motocicletas, eles transportam bens cobiçados e seguem
rotinas mais rígidas e identificáveis do que os motoristas não profissionais
(Lysaght e Basten, 2003). É assim que, quanto maior o limite para modificar
esta rotina, por causa dos horários comerciais, e quanto maiores os riscos de
infiltração criminosa, mais imperiosa é a necessidade de variar os itinerários
ou até transferir, em acordo com os estabelecimentos, o transporte das
encomendas visadas para carros.
Nestes casos [de assaltos], eles já sabem o que a gente leva. Isto
aconteceu com um colega meu da empresa. Aí eu tive que mudar todo o
meu roteiro e os meus horários... cada dia eu ia por um lugar
diferente, num horário diferente, às vezes não levava o malote... às
vezes eu levava só documentos, [o] dinheiro e cheque ia de carro,
porque os caras realmente sabiam tudo. O malandro deu placa de moto,
as cores da moto, a descrição de cada um da gente, o que a gente
levava, o horário certinho, tudo... muitas vezes tem gente da própria
empresa envolvida, principalmente pra quem trabalha em banco (Edu, 23
anos).
A competência espacial,8 a sabedoria de rua (Anderson, 1990) e o conhecimento
sofisticado da ecologia urbana (St. Jean, 2007) dos motoboys permitem rastrear,
ao modo de radares ultra-sensíveis, sinais quase imperceptíveis de alteração no
ambiente, registrando movimentos de motociclistas suspeitos e orientando
mudanças imprevistas de itinerários. O lema aqui é 'não esperar para ver:
A gente já desconfia quando vê dois numa moto... qualquer coisa fora
do padrão, qualquer coisa que seja suspeita você realmente tem que
mudar o seu itinerário, tem que entrar em algum lugar, fingir que
parou, que vai falar com alguém, que vai pedir uma informação...
fazer qualquer coisa pra poder evitar o assalto... (Carlos, 30 anos).
Pode-se verificar neste trecho como o estado de alerta aos perigos e às ameaças
que brotam das ruas potencializa a acuidade perceptiva como meio de
antecipação, tomando a forma de um habitusque já fez com que esses
trabalhadores fossem chamados de ases do asfalto (Riccio-Oliveira, 2006).
A prioridade é desencorajar os atacantes e mobilizar defesas de outros atores,
seguranças ou policiais, para inibi-los (Felson, 2006) por meio de um
verdadeiro jogo de esconde-esconde. Ao observarem motos com dois ocupantes na
proximidade dos semáforos, onde acontecem muitos assaltos de motoboys (Riccio-
Oliveira, 2005) e de condutores de outros tipos de veículos, eles fazem bruscas
e arriscadas manobras de trânsito e de itinerário, reduzindo ou aumentando a
velocidade para não parar junto a tais motociclistas. Outras táticas
socioespaciais adotadas nessas situações são: entrar em ruas secundárias,
aproximar-se de um aglomerado de pessoas, parar simulando buscar informações,
ir para a outra extremidade da via e avançar o sinal (Riccio-Oliveira, 2005).
Em deslocamento, os motoboys também evitam pilotar próximos a duplas de
motociclistas suspeitas ou prestar socorro, por mais solidários que sejam com
seus colegas (Neto et al., s.d), assim como procuram se aproximar, à menor
desconfiança de que estão sendo seguidos, de locais onde haja seguranças ou
policiais. Além de aumentarem os riscos de acidentes, essas manobras arriscadas
nem sempre conseguem esquivar-se de motociclistas delinqüentes que, além de
pilotarem motocicletas mais velozes, também possuem um conhecimento sofisticado
da ecologia urbana ou tiram proveito da noite para emboscar os motoboys, às
vezes com arames estendidos nas ruas.
No caso de serem surpreendidos por atacantes, só resta a esses trabalhadores a
submissão ou a tentativa de fuga (Conklin, 1972; Wright e Decker, 1997;
Matthews, 2002; Felson, 2006). O que determina a opção pela fuga, seja ela bem
ou mal-sucedida, é o receio de que as empresas os responsabilizem, levando os
motoboys a assumirem atitudes precipitadas para defender os produtos conduzidos
(Riccio-Oliveira, 2005), ou mesmo a idéia de que têm chances de escapar ilesos
ou ainda a reação emocional inesperada (Paes-Machado e Levenstein, 2004).
Vejamos então dois exemplos de fuga numa situação de encontro perigoso. No
primeiro, o fato de os infratores demonstrarem pouco poder de dissuasão
(Conklin, 1972; Wright e Decker, 1997; Matthews, 2002) fez uma dupla de
motoboys desobedecer a ordem de parar, empreendendo uma fuga que poderia
resultar em tragédia. No segundo, o mesmo motoboy empreendeu duas fugas
arriscadas da mesma dupla de assaltantes. Se a primeira fuga foi frustrada pelo
disparo de um tiro, na segunda ele se jogou, na falta de rotas alternativas e
aparentemente tomado pelo desespero, em uma vala com a moto.
A fuga também é a principal defesa quando eles adentram, inadvertidamente, uma
área ecológica de risco transformada em campo de batalha entre grupos de
infratores ou entre estes e as forças policiais. Diante de episódios perigosos
como estes, os motoboys buscam um refúgio no local e/ou retornam à empresa sem
entregar a encomenda, como veremos a seguir.
Suspensão das entregas
O comportamento de risco não é uma ação individual ou isolada, mas é modelado
socialmente pelas relações de poder e negociação entre atores desigualmente
dotados para impor, aceitar ou evitar condutas consideradas arriscadas (Rhodes,
1997). É assim que, em meio às dinâmicas complexas que envolvem a existência e
as reações ao risco (Best, Lukenbill, 1982), é preciso atentar para os
processos de resistência contra a imposição de condutas que ultrapassam o
patamar de tolerância de indivíduos e grupos.
No contexto aqui estudado, chama atenção o comportamento dos trabalhadores de
suspender as entregas em área ecológicas onde foram alvo de investidas ou
ameaças predatórias. Entre os vários critérios de tipificação dessas áreas, um
fator decisivo é a inexistência de lideranças criminosas que possuam domínio
territorial e forneçam créditos de proteção aos motoboys.
Se com respeito às demais táticas socioespaciais há um consenso entre motoboys
e estabelecimentos acerca da sua validade, isto não acontece com a suspensão
das entregas. Por ameaçar o fluxo de encomendas e colocar em xeque o precário
equilíbrio entre condutas de aceitação e aversão a riscos, a suspensão das
entregas é malvista pelos estabelecimentos. Uma vez que a base do negócio é
garantir acima de tudo a continuidade das entregas para não perder clientes,
não importa os meios e os sacrifícios realizados para isto. A postura temerária
de arriscar a sofrer ataques predatórios é reforçada pela ameaça de demissão.
Daí que, apesar de a grande maioria dos entrevistados ter expressado o desejo
de interromper suas atividades nas áreas ecológicas de alto risco, a tendência
geral é buscar vencer seus medos e continuar o trabalho. Esta postura, no
entanto, pode mudar conforme a gravidade dos perigos e ameaças, levando esses
trabalhadores a suspenderem velada ou abertamente a entrega de encomendas.
Na linha da chamada resistência cotidiana, os motoboys criam mentiras
plausíveis, como, por exemplo, a não identificação dos endereços de clientes
por causa do caráter acidentado e irregular do casco urbano, para não entrarem
em rota de colisão com as empresas (Scott, 1990). "Quando tem local perigoso eu
invento uma desculpa. Eu digo que não achei a casa e a empresa liga mandando o
cliente ir buscar na loja" (Marcelo, 22 anos). Em contraponto com este
procedimento velado, vários entrevistados são mais assertivos: "Eu me recuso a
fazer entrega em local perigoso. A empresa não assume atitude nenhuma"
(Zivaldo, 28 anos). Sem ignorar o poder de barganha diferenciado de indivíduos
e grupos dentro da ocupação, esta postura deve ser vista como uma forma de
resistência à lógica de desresponsabilização ou descaso dos estabelecimentos
com os riscos de vitimização de seus empregados (Paes-Machado e Nascimento,
2004). Este é o caso do entrevistado, já mencionado anteriormente, que após ter
sofrido uma ameaça de assalto resolveu suspender as entregas na área onde
aconteceu o fato.
Quanto à posição dos estabelecimentos, fatores como os prejuízos resultantes de
roubos, a resistência continuada dos trabalhadores e a visibilidade pública
negativa das áreas ecológicas de alto risco podem levá-los a concordar com as
interrupções de entregas e se inclinarem para medidas de maior segurança. Em
uma linha proativa de gerenciamento de riscos, algumas empresas, a exemplo de
cadeias de pizzarias, farmácias, entre outras, não somente cortam as entregas
em locais mais inseguros, como também elaboram mapas de risco informatizados
dos pontos quentes (hot spots), algumas vezes representados com caveiras, para
orientar a decisão de entrega.
Infortunadamente, essas iniciativas são ou tendem a permanecer marginais no
conjunto da atividade. Em primeiro lugar, por causa das grandes diferenças
entre os estabelecimentos quanto às estratégias de venda, gerenciamento de
riscos e disponibilidade de tecnologias de segurança. Em segundo, porque a
recusa de muitas entregas faz com que os motoboys relaxem suas defesas e
aceitem fazer, pressionados pela sobrevivência, entregas em áreas tão ou mais
perigosas do que as que foram recusadas (Gambetta e Hammil, 2005).
Um balanço dessa e das demais táticas socioespaciais restritivas analisadas
revela a diversidade, a flexibilidade e a capacidade de adaptação às
(des)vantagens ecológicas representadas pelos perigos e ameaças percebidas em
determinados espaços urbanos. Mostra também como, apesar do enorme ônus para os
trabalhadores, essas defesas estão comprometidas por seus efeitos antecipados
ou não, e podem gerar efeitos diferentes dos esperados (Sanders, 2005). Esta
pontualidade e imprevisibilidade das defesas restritivas contrasta com a maior
continuidade e previsibilidade das defesas táticas socioespaciais expansivas.
Táticas socioespaciais expansivas
Conquanto a literatura especializada sobre controle da criminalidade saliente o
papel das defesas restritivas e da vigilância prestada por atores legais
(Shapland e Hall, 2005; Felson, 2006), o mundo social da atividade de moto-
entrega, em espaços urbanos como o de Salvador, aponta para direções menos
ortodoxas. Estas envolvem interações completas (Hannerz, 1980) e negociações
com atores ilegais para gerenciar crimes aleatórios (St. Jean, 2007) ou se
defender de predadores avulsos. Essa negociação para lograr vigilância adequada
de atores ilegais está muito presente em áreas ecológicas onde o outro ' o
infrator está aqui ' possui domínio territorial e limita a circulação de
pessoas, bens e serviços mediante autorizações especiais (Fonseca e Brito,
2008) ou créditos de proteção.
Os créditos de proteção fornecidos aos motoboys pelos "caras" compatibilizam a
manutenção da normalidade do fluxo de encomendas com o domínio territorial
(Tapparelli, 1996). Se para os motoboys é complicado suspender as atividades de
entrega, aos membros das quadrilhas tampouco interessa sustar os recebimentos
de encomendas, visto que tanto eles como os moradores dependem delas para seu
abastecimento. Por sua vez, o controle territorial recomenda limitações ao
acesso e à circulação de pessoas estranhas às localidades, em especial, de
condutores de veículos, como carros e motocicletas, para se defenderem de
ataques. Contra esses, "os caras" possuem dispositivos eficientes de
observação, comunicação, poder de fogo e, em algumas situações, toque de
recolher.
Do ponto de vista dos trabalhadores, os acertos para recebimento de créditos de
proteção constituem uma iniciativa corajosa e, ao mesmo tempo, uma rendição
pela assimetria das relações entre os atores e natureza das concessões feitas.
Esses acertos também podem ser vistos como uma ruptura do princípio das defesas
restritivas, individuais e inter-individuais, pelo fato de os motoboys passarem
a depender da provisão de vigilância pelos "caras". Pensando neste e em outros
exemplos parecidos, pode-se afirmar que a segurança não é uma propriedade
social cumulativa que permite somar todos os meios desejáveis para lidar com os
perigos e as ameaças. A busca de segurança também envolve subtrações
resultantes de incompatibilidades de escolhas e compromissos não desejados, mas
incontornáveis, que emolduram as atividades e as situações concretas de
indivíduos e grupos.
A permissão para entrar em áreas controladas por quadrilhas passa pela
aceitação de exigências relativas à liberdade de ir e vir, ao uso de
equipamentos de segurança e à condução de motocicletas, cujos usos delituosos
são bem conhecidos por todos. Conseqüentemente, os motoboys não devem circular
com capacetes e motocicletas, devem se submeter ao pagamento de extorsões e, em
certos casos, transferir a entrega de encomendas para motoboys residentes ou
conhecidos nestas áreas.
Despir-se do seu principal instrumento de proteção individual ' o capacete ' é
a primeira exigência a ser atendida. A exemplo do que sucede nas portarias de
estabelecimentos financeiro-comerciais e prédios residenciais, os motoboys
devem retirar seus capacetes nestas áreas ecológicas (Culley, 2002; Riccio-
Oliveira, 2005). Os riscos de acidentes, de multas de trânsito ou os
inconvenientes causados pela chuva são considerados menos graves do que o
descumprimento de uma regra obrigatória de circulação. Ironicamente, o artefato
que garante proteção a uns é visto como uma ameaça a outros, por favorecer, tal
como as máscaras, o anonimato perigoso dos seus portadores (Huggins et al.,
2006). No caso dessas áreas, a justificativa, não de todo infundada dos
"caras", é que sob o capacete de um motociclista pode estar um inimigo em
potencial, um policial ou um delinqüente rival.
Apesar dessas limitações, vários entrevistados mencionaram a flexibilidade das
quadrilhas com respeito aos entregadores de medicamentos. Elas não querem se
responsabilizar pela falta de medicação aos doentes porque podem ficar com a
imagem prejudicada junto aos moradores das localidades. Após checarem as
credenciais, revistarem as mochilas e verificarem os documentos de identidade,
eles liberam o acesso ao local e até auxiliam os motoboys a encontrar o
endereço desejado:
Simplesmente tem que esperar que eles venham para saber qual é o
problema... você abre a sacola e mostra que está trabalhando. Quando
a gente mostra que está trabalhando a coisa fica mais fácil.
Principalmente quando é remédio... é uma coisa mais fácil de
trabalhar porque eles respeitam muito quando é remédio... E aí eles
liberam a gente numa boa, chegam a levar na casa e tudo, chegam a
ajudar... Eles chegaram a me ajudar uma vez, eu procurando um
endereço de madrugada... mas dava medo! (Valdir, 31 anos).
O pagamento de extorsão para circular, ter acesso ou permanecer nos espaços
urbanos é um padrão difundido nas cidades brasileiras (Paes-Machado e
Levenstein, 2004; Paes-Machado e Noronha, 2002). Os agentes das extorsões são,
entre outros, mendigos, crianças em situação de rua, vendedores ambulantes,
guardadores informais de automóveis, vigilantes clandestinos e quadrilhas de
bairros. Ao lado da pressão do emprego (e do subemprego), a compreensão
alargada do fenômeno envolve dois determinantes sociolegais: a normalização da
intimidação para lograr vantagens monetárias e o descaso das autoridades
públicas com respeito a esse tipo de ilegalidade. No que se refere às
quadrilhas de bairro, estas se valem da sua reputação de violência (Volkov,
2002) para cobrar proteção ao indivíduo e a grupos que vivem ou circulam em
áreas que estão sob seu controle. Afora ser uma renda complementar, as
extorsões simbolizam e reforçam o domínio territorial.
Com efeito, nas áreas ecológicas de risco aqui referidas, a liberdade de ir e
vir depende do pagamento do "pedágio" (toll) ou forma de renda de proteção
(Volkov, 2002), em dinheiro ou em espécie ' tíquetes de alimentação e vales
transporte etc. Muita gente já deixa separado um valor para isto (Gambetta e
Hammil, 2005; Paes-Machado e Levenstein, 2004), o chamado "dinheiro do ladrão".
Qualquer tentativa de não pagamento é tomada como uma ofensa e como pretexto
para os agressores ' seguindo a conhecida expressão de 'ou dá ou desce' '
intensificarem a pressão, roubarem os pertences e até agredirem as vítimas:
Às vezes a gente está indo visitar os clientes e recebe aquela
abordagem: "Me dê um dinheiro aí!" Isso pra poder passar. Às vezes
armados [...] A verdade é essa, entendeu? Aí às vezes a gente não
conseguia dizer que não, porque eles só esperam que a gente diga não
pra tomar aquilo como ofensa, e aí vai até mesmo lhe assaltar, tomar
tudo que você tem... Então é até melhor dar, entendeu? Pelo menos já
ficava até um pouco mais conhecido na área, pra quando tiver que
voltar (Ari, 30 anos).
Tais extorsões estão de tal modo integradas à rotina desses trabalhadores que
são vistas de modo positivo, como um meio de ficarem conhecidos, ganharem a
simpatia e facilitarem suas atividades. Nessa condição, os pagamentos poderão
ser suspensos, relaxados ou mesmo substituídos por favores. Uma vez conhecido,
o motoboy passa a merecer uma "consideração" pessoal que opera como crédito de
proteção contra investidas de terceiros, elementos da quadrilha ou predadores
avulsos:
Logo quando eu comecei a trabalhar aqui embaixo, eu não conhecia
ninguém, então eu passava e os meninos: "Me dá um dinheiro pra eu
comprar maconha, me dá um real pra inteirar a maconha aí...". Eu não
conhecia muita gente, aí eu dava com medo de ser assaltado... Eu via
eles fumando maconha, ficava com medo, então dava... Mas agora que eu
já conheço eles, todos já me conhecem, aí agora eu não dou mais...
também eles não pedem mais... e também se ver alguém mexer comigo,
eles já não deixam... É que eu já conheço todos eles, já fiz amizade
com todo mundo. Meninos, pessoas adultas, todos gostam de mim...
(Pedro, 31 anos).
Conforme este depoimento, os contatos iniciais do motoboy com a quadrilha
pavimentaram o caminho para uma relação proveitosa, e o que poderia se
converter em extorsão continuada (Volkov, 2002; Misse, 1997; Cano e Iooty,
2008) resultou na aquisição de vigilantes capazes de reduzir a vulnerabilidade
do trabalhador.
Por fim, quando "os caras" só permitem o acesso de trabalhadores conhecidos ou
de sua confiança, os motoboys recusados informam seus estabelecimentos e
buscam, sob a orientação destes, identificar e contatar trabalhadores adequados
à tarefa. A confiança proveniente dos laços de conhecimento substitui os demais
mecanismos de credenciamento de proteção e até os pagamentos monetários,
contribuindo para estabilizar transações e render benefícios aos atores
envolvidos: "Escapei várias vezes porque conheço os caras de onde eu moro e
eles não me assaltavam. Quando via que iam me assaltar, eu cumprimentava e 'aí
velho', então não me roubavam porque sou da área" (Cassandro, 22 anos). Aqui,
como em muitos domínios sociais, as relações informais, iniciadas de modo
casual ou a partir das recomendações de terceiros, constituem uma credencial
(Monaghan, 2002) mais eficiente para lograr vigilância adequada do que qualquer
canal burocrático-legal.
Redes sociais de vigilância
Considerando o déficit crônico de vigilância dos trabalhadores de moto-entrega,
as expectativas e as obrigações criadas e consolidadas por meio de laços
sociais (Coleman, 1988) com os moradores também cumprem um importante papel na
provisão de segurança a eles. Ainda que não se possa exagerar a influência
destas expectativas e obrigações na prevenção do crime ' em especial de crimes
considerados sérios como assaltos e tráfico de drogas ', ela é suficiente para
prover vigilância a atividades como a entrega de encomendas, que não incorrem
em riscos de retaliação por parte de elementos criminosos (St. Jean, 2007).
Nessa linha, o apoio dos moradores funciona como um amortecedor (buffer)
ecológico mais eficiente do que o crédito de proteção concedido pela gangues de
bairro.
A mobilização desse capital social, incluindo a familiaridade com o espaço, se
manifesta na obtenção e na transmissão de informações, provisão de vigilância
pessoal e patrimonial e auxílio, direto e indireto, às entregas em áreas onde
os motoboys estão impedidos de realizar seu trabalho. As redes sociais de
vizinhos é a principal fonte de informação para mapear riscos, avaliar ameaças
e conhecer as regras de circulação estabelecidas como, por exemplo, a
exigência, já examinada antes, de os motoboys não usarem capacetes. Este foi o
caso de um motoboy que trabalha como fiscal do serviço de limpeza pública e
que, ao entrar em um bairro inseguro, foi alertado por um transeunte a retirar
o capacete para não ser confundido com um inimigo, evitando assim, porventura,
um desfecho trágico.
Rapaz, eu vou lhe falar uma coisa, quando você entrar no bairro Q
tire o capacete. Você já foi confundido ali dentro com polícia, eu
que disse aos caras [delinqüentes] que você não era polícia. Você já
soube que teve gente que já quis até meter bala em você lá dentro? E
eu não sabia de nada... Ele disse: "Quando você entrar no Bairro X
tire o capacete e quando você me vê se aproxime e vá conversar
comigo". Aí eu fiz isso, ele me apresentou à malandragem e relatou
aos caras o que conversou comigo. Eles disseram: "Você pulou uma
fogueira aqui dentro, estava tendo a maior guerra aqui, os policiais
estavam encarnando [fazendo operações], e você pra lá e pra cá com
essa moto aí... Já teve gente que teve vontade de meter a bala em
você"... Você veja, eu poderia estar morto sem saber por que!
(Mateus, 33 anos).
Dadas estas e outras restrições impostas pelas quadrilhas, tudo seria mais
difícil sem a vigilância patrimonial igualmente proporcionada pelos vizinhos
(St. Jean, 2007). É assim que, no que se refere ao impedimento de circular de
motocicleta, os trabalhadores também recorrem aos moradores da sua confiança
para guardar seus veículos e pertences pessoais enquanto realizam os roteiros
de entrega a pé, o que prolonga o tempo gasto na tarefa, causa prejuízos
financeiros e desgaste físico-psicológico.
No bairro Q a rota tinha que ser toda a pé mesmo. Só ia de moto até o
início, pois esse era o único bar onde eu podia largar a moto, porque
eu já tinha uma certa confiança com o dono do estabelecimento. Eu
deixava a moto lá, chamava por Deus e ia fazer a rota... Quer dizer,
uma rota que de moto eu acabava em uma hora, mas como eu tinha que
fazer a pé... na cara e na coragem mesmo... eu gastava, mais ou
menos, umas três horas, três horas e meia de relógio... (José, 34
anos).
Ao lado desse apoio logístico, os trabalhadores contam com a ajuda dos vizinhos
para a redistribuição das encomendas (Fonseca e Brito, 2008). Por mais banal
que pareça, esta redistribuição opera como uma socialização informal de riscos,
responsabilidades e tarefas que modifica a forma da atividade e redimensiona o
papel dos motoboys na aproximação dos domínios da oferta e da demanda. Seguindo
esta lógica de flexibilização da cadeia de entregas, os motoboys delegam parte
de suas atividades a moradores, comerciantes e lideranças locais, que passam a
atuar como pontes de ligação com clientes e vigilantes patrimoniais. Assim, os
moradores assumem, de modo voluntário, tarefas típicas dos motoboys, a exemplo
da identificação e dos contatos com clientes, guarda e entrega de encomendas.
Para os trabalhadores, ficar na retaguarda dos moradores enquanto esses assumem
encargos da distribuição garante a efetivação das entregas, poupa tempo e
evita, ao modo de um amortecedor, ataques predatórios.
No bairro M tem uma escola que a gente não pode ir. A gente tem que
entregar o material da escola à diretora de uma outra escola, porque
tem uma professora que todo dia à tarde vai até lá... aí a gente dá
uma quantidade maior dos folhetos e a professora pega e faz esse
trabalho pra gente... leva lá (Luis, 30 anos).
Isso também acontece para as encomendas que necessitam de comprovante de
recebimento como, por exemplo, cartas registradas. Como as experiências de
colegas assaltados desaconselham entregas diretas, os trabalhadores limitam-se
a transmitir recados para os destinatários irem buscar suas encomendas na sede
do estabelecimento, o que é mais uma inovação nessa atividade (Culley, 2002;
Fincham, 2006, 2007; Wehr, s.d).
No bairro Q tem uma associação de moradores onde deixo as
correspondências normais. Quando é carta registrada, deixo um bilhete
avisando para o cliente ir buscar na agência. Os Correios não fazem a
entrega [direta ao cliente] porque muitos motoqueiros já foram
assaltados [...]. Se nós formos [entregar], iremos ficar tomando
informações e corremos o risco de sermos assaltados (Edvaldo, 43
anos).
Mas isso não esgota a socialização de riscos pela flexibilização das entregas,
uma vez que os destinatários e seus conhecidos também entram no jogo. Se nas
sociedades contemporâneas indivíduos e grupos não medem esforços para
participar do consumo, o mesmo se aplica ao consumo mediante entregas no
contexto de grandes cidades, como Salvador. No caso dos moradores das
localidades aqui mencionadas, entre serem cortados das listas dos
estabelecimentos por residirem em áreas arriscadas, de um lado, e fazerem
sacrifícios, como esperar mais tempo ou se deslocar para recolherem as
encomendas, de outro, eles preferem a segunda opção. Tais acertos, feitos por
telefone ou com a mediação de terceiros, versam sobre a definição de pontos
físicos de entrega satisfatórios, sob a ótica da segurança e da distância, ou
de pessoas nas mãos das quais os destinatários deverão buscar seus produtos '
lojas, sedes de associação de moradores e até mesmo representantes de órgãos
públicos.
Por essas razões, reafirmamos que a negociação e mobilização dos recursos de
vigilância adequada, de atores externos ao grupo (out-group), torna os
resultados das táticas socioespaciais expansivas mais contínuos, previsíveis e
efetivos para evitar ataques predatórios do que os das táticas socioespaciais
restritivas, limitadas aos recursos individuais e interindividuais do grupo
(in-group).
Conclusões
Neste trabalho, acerca das soluções engenhosas e defesas informais múltiplas
dos trabalhadores de moto-entrega contra crimes predatórios, discutimos as
possibilidades e limites de eficácia dessas defesas para a redução das
oportunidades atrativas para esses crimes.
Para comprovar a pertinência deste foco, encontramos, entre os motoboys
entrevistados, uma dupla, simultânea e imbricada jornada de trabalho: a
primeira relativa ao cumprimento das obrigações profissionais e a segunda
voltada para a redução das oportunidades de vitimização resultantes dessas
obrigações. Além de esta segunda jornada implicar esforços adicionais,
prejuízos profissionais e financeiros não compensados pelos contratadores ' e
representar, portanto, uma forma perversa de auto-exploração e precarização das
relações de trabalho no setor de serviços ', ela possui particularidades que
estão no cerne de alguns debates atuais em torno da prevenção do delito
(Felson, 2006; St. Jean, 2007).
Tendo em vista a centralidade do conceito de espaço nos estudos a respeito do
crime, parte desse debate aborda as defesas ligadas ao uso, organização e
reconhecimento dos espaços urbanos pelos autores e pelas vítimas, potenciais e
atuais, de delitos (Cohen e Felson, 1979; Sampson et al., 1997; St. Jean,
2007). Nesta linha e ao contrário das visões normativas e estatistas
hegemônicas, o nosso argumento realçou o significado das defesas informais para
a provisão de vigilância adequada aos trabalhadores. Dentro de uma visão
alargada do policiamento ' como instrumento de manutenção de arranjos coletivos
desejáveis e indesejáveis, ilegais e legais ', essas defesas fazem parte do que
vem sendo categorizado como autopoliciamento (self-policing) (Radford, 1987;
Sanders, 2005).
Ao levar em conta as referências espaciais que influenciam nas oportunidades
atrativas para os crimes, classificamos essas defesas informais múltiplas em
táticas socioespaciais restritivas e táticas socioespaciais expansivas.
Primando pela sensibilidade, potencial de cobertura e complementaridade, essas
táticas dependem da ação criativa dos sujeitos para responder às (des)vantagens
ecológicas, dos espaços urbanos, em suas atividades. É assim que, as defesas
socioespaciais restritivas são apropriadas para áreas onde, a exemplo de locais
de passagem e lugares com rotas de fugas, o outro ' o infrator está lá ' não
domina por completo a situação ou pode ser neutralizado pelas artimanhas dos
trabalhadores. Por sua vez, as táticas socioespaciais expansivas são empregadas
em dois outros tipos de espaços: áreas onde o outro ' o infrator está aqui' é
capaz de administrar, pelo domínio territorial, o acesso e circulação (Brito e
Fonseca, 2008) de pessoas, bens e serviços e, em terceiro lugar, em áreas onde
o infrator também está aqui, mas disputa o domínio territorial com outros
infratores ou com as forças policiais.
Ao lado dessas características criminogênicas, a eficácia coletiva ou a
capacidade das redes de moradores de prover vigilância, no segundo e no
terceiro tipo de espaço urbano, faz uma grande diferença para a validade e o
sucesso das defesas contra o crime (Sampson et al., 1997). Nessa perspectiva,
os nossos achados relativos à negociação de práticas espaciais com possíveis
atacantes (Lysaght e Basten, 2003), à fluidez de limites (Ruggiero e South,
1997; Misse, 1997) e aos acertos entre atores legais e ilegais para evitar
crimes aleatórios (St. Jean, 2007) evidenciaram a existência de uma
complementaridade de ações entre os mesmos, a qual remete ao conceito de defesa
simbiótica (Felson, 2006).
Embora não tenhamos estudado as quadrilhas de bairros, a análise dos relatos
dos motoboys, bem como os resultados de outros estudos nos permitiram verificar
que elas jogam um papel positivo na segurança dos motoboys. Isso sucede quando
as quadrilhas possuem outras prioridades delituosas ' a exemplo do tráfico de
drogas e da extorsão continuada ', não enxergam ameaças ou extraem vantagens da
oferta de proteção (Misse, 1997; Cano e Iooty, 2008), Por mais oposta que seja
às concepções sustentadas pela justiça criminal e por algumas teorias
criminológicas, esta provisão é coerente com uma realpolitikda rua que
aconselha prestar mais atenção à micropolítica das (des)vantagens ecológicas do
que aos códigos legais e às políticas de segurança. Nas agendas do dia-a-dia e
fazendo uso da máxima de que é "melhor um pássaro na mão do que dois voando", a
prioridade dos demandantes de vigilância é a boa vizinhança, a construção de um
modus vivendi (Paes-Machado e Noronha, 2002) e a obtenção, mesmo que mediante
um preço, de créditos de proteção "dos caras" que ditam os códigos de acesso,
circulação e permanência nos seus espaços de atividades.
Quanto ao papel de destaque das redes de moradores na segurança dos motoboys,
este é consistente com as teorias que tratam da influência positiva dos laços
sociais (Coleman, 1988) e da eficácia coletiva (Sampson et al., 1997; St. Jean,
2007) nas condições de segurança, bem como na disponibilidade de vigilância
adequada (Cohen e Felson, 1979) para a prevenção de crimes. Cabe salientar,
porém, que no contexto de Salvador, e provavelmente de outras cidades
brasileiras, essa influência positiva assume um caráter generalizado e difuso
que destoa dos padrões anglo-americanos mais contidos que norteiam essas
teorias. Nesse sentido, a situação desses atores brasileiros contrasta com a de
trabalhadores vulneráveis do setor de serviços de países do hemisfério norte-
ocidental (Gambetta e Hammil, 2004; Sanders, 2005), cuja menor disponibilidade
desse tipo de capital ' pela maior auto-suficiência dos indivíduos (Coleman,
1988; DaMatta, 1985; Barbosa, 1992) ' faz com que contem apenas com as próprias
forças e, eventualmente, com as do policiamento estatal para se defender.
Uma síntese geral dos resultados evidencia a relevância das táticas
socioespaciais expansivas para a prevenção do delito: a propriedade destas
táticas de criar amortecedores (buffers) ecológicos ou redutores de perigos e
ameaças aos motoboys, mediante a negociação e mobilização de vigilância de
quadrilhas e redes de moradores, que, pelo domínio ou familiaridade
territorial, podem fazer com que sejam concretizadas ou evitadas essas ameaças.
Por fim, apesar do caráter preliminar deste trabalho, acreditamos que ele
suscite novas investigações sobre as variações ecológicas da criminalidade e do
controle social em espaços urbanos ' em particular, os habitados pelas classes
populares ' que, apesar das evidências contrárias, continuam sendo vistos como
homogêneos (Machado da Silva, 2008). Ao lado disso, esta pesquisa pode
contribuir para discussões mais aprofundadas de métodos informais que '
inspirados na máxima de que a melhor defesa é o ataque ' investem no capital
social/eficácia coletiva e na negociação de vigilância com distintos grupos,
para melhorar a segurança dos trabalhadores do setor de serviços, garantir o
fluxo de entregas de encomendas e resistir aos efeitos perversos dos crimes
predatórios sobre as condições de vida e trabalho das classes populares
urbanas.
Notas
1 Estima-se que só em Salvador existiam cerca de 7 mil motoboys circulando
pelas ruas em 2005, enquanto em São Paulo o número atingia 160 mil no ano de
2000.
2 Diferentemente de outras atividades em que o empregador fornece os
instrumentos de trabalho, na atividade de moto-entrega a maior parte das
empresas exige que o trabalhador possua seus próprios equipamentos (Wehr, s.d).
As relações de trabalho são o contrato formal direto com uma empresa principal,
a terceirização, o trabalho autônomo e o chamado trabalho free-lancer. A
jornada de trabalho divide-se em quatro etapas: espera e recebimento da
encomenda, deslocamento no trânsito e entrega da encomenda (Oliveira, 2003;
Riccio-Oliveira, 2005), sendo que as vitimizações por acidentes e crimes se
concentram nas etapas 3 e 4.
3 Estes conflitos resultam das diferenças técnicas entre motocicletas e
automóveis (Riccio-Oliveira, 2005) e das condutas de ambos os grupos de
condutores de veículos. As condutas dos motoristas estão relacionadas com a
frustração pela redução da automobilidade e o incômodo causado por
motociclistas que não obedecem às mesmas regras de trânsito que eles (Fincham,
2006, 2007). Por sua vez, os comportamentos dos motoboys resultam de um estilo
de condução assertivo e agressivo e de uma cultura ocupacional que valoriza os
perigos diários e as infrações de trânsito (Ficham, 2006, 2007; Wher, s.d).
Entre os motoboys entrevistados, por exemplo, as principais explicações para
suas imprudências foram a já mencionada pressão pela rapidez nas entregas e
gosto da excitação ou "adrenalina" produzida pela velocidade.
4 Conforme Felson: "Na ecologia do crime o termo 'crime predatório' tem um
significado não culinário, remetendo a agressões nas quais uma pessoa toma ou
danifica a pessoa ou propriedade de outra, que não é uma co-participante neste
crime ou vítima repetida deste agressor" (2006, p. 351, tradução nossa).
5 Os motoboys são demonizados e criminalizados por suas condutas nas ruas
(Culley, 2002; Fincham, 2006, 2007; Wehr, s,d; Oliveira, 2003; Riccio-Oliveira,
2002, 2005), assim como pelos delitos violentos (e transações com drogas)
envolvendo motociclistas e pela infiltração criminosa da categoria.
6 Cada um desses métodos se subdivide, por sua vez, em procedimentos
específicos: ocultação (evitação e camuflagem), dissuasão (imitação), superação
(defesas físicas e defesas grupais), desestímulo (distanciamento, comunicação
da intenção de fuga, despistamento e defesas simbióticas), oposição (defesas
armadas, armamento repentino e defesas sociais emergentes). Ver Felson, 2006.
7 As motocicletas percorrem uma média de 33 km por litro de gasolina, o que
chega a representar uma economia superior a 100% quando comparada aos carros
brasileiros mais econômicos (Oliveira, 2003).
8 Tal competência depende de quatro características do seu ambiente de trabalho
que também são compartilhadas por outros condutores profissionais: o veículo,
as vias de circulação, o público (Young, 2002; Stenning, 1995) e os agentes de
controle de trânsito.