Sociologia do trabalho no Brasil: entrevista com Leôncio Martins Rodrigues
Esta entrevista oferece uma oportunidade ímpar de se conhecer, através das
palavras de um dos seus pioneiros, parte significativa da história da
sociologia do trabalho no Brasil. O relato de Leôncio Martins Rodrigues revela
aspectos de uma trajetória de vida voltada para a pesquisa, para a orientação
acadêmica de novas gerações e para a reflexão sobre o ofício de cientista
social.
A formação em Ciências Sociais, que se inicia no final dos anos de 1950, traz a
marca da USP sob a influência de Florestan Fernandes e seus assistentes. O modo
como diferentes gerações de intelectuais passaram a estudar e pesquisar
sistematicamente o Brasil tem um enorme valor para se entender o processo de
consolidação da nossa sociologia como disciplina. O mesmo se aplica à descrição
de como as diversas influências teórico-metodológicas foram incorporadas à
produção científica. Tal é o caso, por exemplo, da teoria marxista, que
"começou a ser cultivada no mundo acadêmico, ao mesmo tempo em que saía do meio
operário e sindical". Para Leôncio, embora já houvesse muitos trabalhos de
orientação marxista, a introdução dessa teoria nas Universidades se deu
principalmente "pelo portão da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da
USP, na rua Maria Antônia". Textos de Marx passaram a ser obrigatórios e sua
difusão "ganhou impulso com os seminários de estudo d'O Capital". Embora não
fizesse parte do núcleo central do seminário ("composto por professores de
prestígio da USP"), Leôncio, como aluno, presenciou e acompanhou de perto essa
iniciativa, com a peculiaridade de já ter ingressado na Universidade com uma
prática de militância política em um grupo trotskista. "Ao contrário da maioria
dos estudantes que se politizam depoisde entrar na Universidade, eu tinha me
politizado antes, ainda no colegial".
A lealdade com Florestan aparece no episódio que resultou na ordem de prisão ao
professor emitida pelo coronel encarregado do IPM da USP. Leôncio colaborou
para distribuir entre os estudantes e a imprensa a carta que Florestan tinha
lido em seu depoimento. E no retorno da prisão, quando quis passar pela
Faculdade na Maria Antônia, participou com ele de um dos eventos mais
espontâneos de resistência à arbitrariedade militar: "Ao entrarmos pela porta
principal, o bedel e outras pessoas que estavam no saguão de entrada [...]
começaram a bater palmas. [...] Os alunos saíram das salas de aula para ver o
que se passava viram Florestan e começaram também a aplaudir [...]".
Leôncio faz também uma reflexão sobre sua experiência de militância política,
considerada por ele hoje "valiosa para a atividade de sociólogo e cientista
político". Se inicialmente lamentou o tempo de sua juventude "desperdiçado
[...] na atividade revolucionária", agora reconhece "que não foram [anos]
perdidos": "Partidos de esquerda são uma espécie de escola onde se aprende
determinadas matérias, onde se adquire uma experiência de vida e se forma uma
rede de relacionamento que pode ser útil profissionalmente".
Em sua atuação como pesquisador e professor da USP, Leôncio descreve e
sistematiza todo um conjunto de atividades que constituíram os primórdios da
sociologia do trabalho no Brasil. Refere-se também à sua interlocução com
outros autores dessa área de estudos, como Juarez Brandão Lopes, Azis Simão e
José Albertino Rodrigues. Fala da criação do Centro de Sociologia Industrial e
do Trabalho (Cesit) nos anos de 1960, do programa de pesquisas sobre a
estrutura da empresa industrial em São Paulo e de sua contratação como
pesquisador desse centro. "Usei os dados da pesquisa [...] para fazer meu
mestrado sobre a ocorrência de greves no setor industrial". No doutorado,
escolheu fazer um estudo de caso sobre a montadora de automóveis Willys
Overland. "Estávamos dando os primeiros passos na área da sociologia industrial
ou da sociologia do trabalho". O foco deste estudo foram os "trabalhadores
manuais, os 'horistas', a maioria deles localizados na linha de montagem". A
tese de doutorado foi publicada posteriormente com o título Industrialização e
atitudes operárias.
Leôncio Martins Rodrigues nasceu na cidade de São Paulo, em 1934. Professor
titular da Universidade de São Paulo e da Universidade de Campinas fez sua
carreira acadêmica (graduação, mestrado, doutorado, Livre-docência e Titulação)
na USP, tendo publicado dezesseis livros, alguns dos quais se tornaram obras de
referência e leitura obrigatória para os pesquisadores do mundo fabril e da
classe trabalhadora industrial. Podemos citar, como exemplo, Conflito
industrial e sindicalismo no Brasil; Industrialização e atitudes operárias;
Trabalhadores, sindicatos e industrialização; CUT: os militantes e a ideologia;
Destino do sindicalismo; e mais recentemente Partidos, ideologia e composição
social; e Mudanças na classe política brasileira.No exterior, foi professor
visitante na Universidade de Louvain, na Bélgica, e diretor de estudos na
Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris; no Brasil foi sócio-
fundador do Cebrap, do conselho deliberativo do Cedec, participou do Idesp e do
CNPq e atualmente participa do Instituto Fernando Henrique Cardoso, do
Instituto Fernando Braudel de Economia Mundial, da Academia Brasileira de
Ciências, entre outros.
A seguir apresentamos a entrevista que concedeu durante sessão do curso
"Sociologia do Trabalho no Brasil" (PPGSA-IFCS-UFRJ), em 10 de setembro de
2007, no prédio do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.1 A
transcrição final foi revista e editada pelo autor.
***
Quando José Ricardo me convidou, por um momento, fiquei na dúvida se deveria ou
não aceitar dar a entrevista. Mas quando ele disse "queremos escutálo sobre a
sua carreira", concordei imediatamente. Como acontece com a maioria das
pessoas, especialmente com os intelectuais, não me desagrada falar sobre mim
mesmo... Mas, além disso, esperava passar alguma informação sobre os inícios da
sociologia do trabalho em São Paulo e, quem sabe, transmitir alguma experiência
de pesquisa para as novas gerações.
Origens sociais: a militância trotskista
Começo falando sumariamente de minhas origens e como fui cair no curso de
Ciências Sociais da USP. Nasci em São Paulo, em 1934. Meu pai era funcionário
público. Trabalhava na Secretaria da Agricultura num serviço de proteção da
fauna. Moramos em várias cidades do interior. Quando estava com 16 anos,
voltamos para a Capital, depois de morar por cinco anos em Santos. A mudança
para São Paulo foi muito importante para minha vida. Por influência de um tio
que era do Partido Socialista Brasileiro (PSB) passei a freqüentar a sede do
diretório municipal do partido. Estávamos em 1950. Em outubro, haveria
eleições. O PSB tinha João Mangabeira como candidato à presidência. Getúlio
Vargas era favorito, concorrendo pelo PTB e o PSD. O Brigadeiro Eduardo Gomes,
candidato da UDN, era seu principal adversário.
Nessa ocasião, havia dentro do PSB um grupo trotskista infiltrado. Na época, os
trotskistas se autodenominavam Partido Socialista Revolucionário (PSR). (Alguns
anos depois, o nome mudou para Partido Operário Revolucionário, POR.) Comecei a
ler o material que me passavam. O PSR era muito pequeno. Vivia numa
clandestinidade rigorosa e desnecessária, como se o FBI, a GPU e o DOPS
estivessem muito preocupados com nossas atividades. Tínhamos ligação com um ou
outro sindicato de trabalhadores. Contudo, a composição do partido era
majoritariamente pequeno-burguesa. Por isso, decidiu-se que eu deveria
trabalhar numa fábrica (me "proletarizar"), o que fiz por mais ou menos dois
meses. Por sorte, fui escolhido como um dos delegados brasileiros ao IV
Congresso da IV Internacional a realizar-se na França em 1954. Tinha 20 anos.
Foram enviados dois delegados. O outro era um argentino, apenas quatro anos
mais velho do que eu. Pertencia ao grupo do Posadas, a tendência trotskista
dominante na Argentina. Ele tinha sido enviado ao Brasil como assessor da
secção brasileira, na verdade para nos "educar" na linha posadista.
Eu tinha entrado para o PSR com cerca de 17 anos. Com o tempo, cheguei a ser
secretário de organização, posto mais importante depois do secretário político.
Mais tarde, penso que em 1955, passei a integrar o Bureau Latino-Americano. No
segundo semestre de 1956, abandonei a militância. Havia me convencido de que o
trotskismo não teria futuro e que não era muito diferente do stalinismo. Alem
disso, queria voltar a estudar. Tinha "descoberto" as ciências sociais graças à
Ruth Cardoso. Ela tinha sido minha professora de história no curso colegial do
Colégio Fernão Dias Paes. Fernando Henrique também deu algumas aulas nesse
colégio, mas não foi meu professor. Por coincidência, eu a reencontrei como
técnica num serviço de pesquisas sobre mão-de-obra da Secretaria do Trabalho,
onde eu era funcionário subalterno. Ela me falou sobre o curso de ciências
sociais. Era exatamente o que queria estudar. Como tinha abandonado os estudos,
tive que fazer mais dois anos de colegial para poder prestar vestibular.
Preferi cursar, no período noturno, dois anos de curso Normal que também dava
acesso ao vestibular de ciências sociais. Desse modo, acabei ficando cerca de
seis anos atrasado com relação à idade de entrada habitual na universidade.
Obtive o diploma aos 29 anos.
A rua Maria Antônia: curso de ciências sociais
Em 1958, quando me matriculei, o curso de ciências sociais tinha poucos alunos
e poucos professores. Na Cadeira de Sociologia I, o professor Florestan
Fernandes era o regente. Havia apenas cinco professores: além do Florestan, o
chefe, como às vezes entre nós o chamávamos, estavam Fernando Henrique (que era
o primeiro assistente), Octávio Ianni, Maria Sylvia de Carvalho Franco e Maria
Alice Mencarini Foracchi, que faleceu muito cedo.
A orientação predominante era funcionalista e estruturalista, como aliás em
todo mundo. Os primeiros trabalhos de Florestan, sobre a organização social dos
Tupinambá, eram estritamente funcionalistas, como indicava o título de um de
seus primeiros livros: A função social da guerra entre os Tupinambá. Talcott
Parsons, Merton, Durkheim, Mannheim, Tonnies e Weber eram os grandes nomes do
curso de primeiro ano, ministrado por Fernando Henrique. Uma boa indicação da
orientação teórica e metodológica predominante na época encontra-se num livro
que passou por várias edições. Trata-se de uma antologia de textos de
sociologia intitulada Homem e sociedade, organizada por Fernando Henrique e
Octávio Ianni.
Essa antologia iniciava-se com um capítulo sobre o conceito de sociologia.
Redigido pelo Florestan, era o único cujo autor era brasileiro. Os outros
dezoito capítulos eram de autores norte-americanos e europeus. Só de Talcott
Parsons, mais tarde execrado como funcionalista, havia quatro. Os textos
estavam voltados para questões conceituais na área de sistemas, processos e
interação social. Só no capítulo final aparecia um texto de Marx denominado "A
ideologia em geral".
O marxismo acadêmico
Não havia nada de assombroso nessa seleção. Marx não penetrava na academia,
aqui e em outros países. Foi por volta da década de 1960 que a teoria marxista
começou a ser cultivada no mundo acadêmico, ao mesmo tempo em que saía do meio
operário e sindical, fenômeno interessante, mas que não seria possível discutir
aqui. Fiquemos com algumas palavras sobre a transformação, aqui no Brasil, do
marxismo em ciência sociológica.
Certamente, fora da academia, já havia muitos trabalhos de interpretação do
Brasil de orientação marxista, como os de Caio Prado Jr. e de Leôncio Basbaum.
A entrada, porém, do marxismo nos meios acadêmicos se deu principalmente pelo
portão da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria
Antônia. Daí se estendeu para outras universidades e instituições acadêmicas do
país. Essa trajetória acompanhava o que acontecia no Primeiro Mundo. A França
era o principal foco de irradiação, com Poulantzas e Althusser à frente. Textos
de Marx eram obrigatórios num curso de sociologia que se pretendesse de alto
nível e não quisesse ser classificado como de "direita".
Em São Paulo, a difusão do marxismo acadêmico ganhou impulso com os seminários
de estudo d'O Capital. O seminário estava composto por professores de prestígio
da USP. Alguns tinham militância política, outros não. Houve variação na
participação. O núcleo central e mais constante era formado pelos seguintes
professores: Fernando Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti, Octavio Ianni,
Paul Singer, Roberto Schwartz, Fernando Novais, Juarez Brandão Lopes, Francisco
Weffort, Michel Löwy e Ruth Cardoso, a única mulher participante. Livros
considerados importantes, como Histoire et conscience de classe, de Georg
Lukács, então na moda, poderiam também ser discutidos e interromper por um
momento a leitura e a discussão de um capítulo d'O Capital. Uma vez me pediram
que fizesse uma exposição sobre o que era a teoria da revolução permanente de
Trotsky.
O professor Florestan não participava. Não sei se chegou a ser convidado ou foi
e recusou. No seu livro A sociologia no Brasil, no capítulo em que traça uma
ligeira biografia de sua vida, escreveu que tinha sido excluído, mas tinha
achado natural porque era "o professor". Nessa ocasião, eu era aluno do curso
de ciências sociais. Fui convidado para o seminário por especial deferência e
participei da discussão de alguns capítulos. Mas quando cheguei, o grupo já
tinha lido vários capítulos. Uma vez que não tinha participado dos seminários
iniciais, achei que podia ficar uma lacuna no meu conhecimento. Por isso,
decidi não continuar. Com a Eunice Durham, ajudei a criar outro grupo de
estudos da nova Bíblia, começando do começo. Mas esse seminário d'O Capital- um
dos muitos que se formaram na época - não durou muito. Não me lembro a razão de
seu término.
No meu caso, ao contrário da maioria dos estudantes que se politizam depoisde
entrar na universidade, eu tinha me politizado antes, ainda no colegial. Vinha
de cerca de seis anos de militância intensa e dedicação total ao "partido".
Assim, já tinha lido boa parte da literatura marxista e leninista mais
difundida (além dos livros de Trotsky, é claro). Passara a ver o marxismo com
críticas. Especialmente com relação a O Capital, cada vez mais julgava sua
leitura uma perda de tempo para compreender o mundo moderno. Por que estudar o
capitalismo do século XIX, e não o capitalismo do século XX, ou o socialismo
real? Acontece que tinha começado a ler Raymond Aron, Ralf Dahrendorf,
Galbraith, James Burham e outros autores "de direita" que pareciam capazes de
abrir outras pistas para explicar melhor as sociedades industriais da segunda
metade do século XX.
A escola da militância
Quero fazer uma pequena reflexão sobre minha militância de esquerda, que
retardou a obtenção do diploma. Durante um bom tempo, lamentei os anos
desperdiçados na atividade "revolucionária". Hoje, percebo que não foram
totalmente perdidos. Partidos de esquerda são uma espécie de escola onde se
aprende determinadas matérias, onde se adquire uma experiência de vida e se
forma uma rede de relacionamento que pode ser útil profissionalmente. A
atividade política, mesmo em pequenas organizações de esquerda, pode ajudar o
êxito profissional e a ascensão social. Naturalmente, não seria preciso dizer,
sob ditaduras de direita, pode trazer alguns riscos.
Mas para que a experiência da militância de esquerda possa render frutos na
vida profissional e social, é preciso que certas condições para a ascensão
social - como a obtenção de um diploma universitário - sejam preenchidas. No
meu caso, a entrada tardia na universidade trouxe alguns prejuízos, mas trouxe
algumas vantagens na competição com meus colegas mais jovens: permitiu-me
trazer para a carreira acadêmica uma experiência profissional anterior que foi
importante. Ademais, militância sempre é valiosa para a atividade de sociólogo
e de cientista político. Sem recomendar a ninguém qualquer militância de
esquerda (e muito menos de direita), creio que a militância partidária de
esquerda na juventude traz uma experiência útil de análise dos fatos
políticos... e de conchavos.
A entrada na carreira
Passo agora aos inícios de minhas atividades como pesquisador e professor da
USP. Naquela época, não havia concurso para a entrada na docência. A escolha
era do regente da cadeira que escolhia seus auxiliares, ou dava a última
palavra quando a sugestão inicial era de um de seus assistentes. Foi o que
aconteceu comigo e com outros que entraram para a cadeira nesse momento. No
início da década de 1960, o sociólogo francês Alain Touraine, nessa altura
começando sua carreira, veio para um período de palestras no Departamento de
Ciências Sociais. Essas palestras eram dadas em francês e somente para
professores. Contudo, foi aberta a uma exceção para mim. Foi mais ou menos
nessa ocasião que Fernando Henrique teve a idéia de criar o Centro de
Sociologia Industrial e do Trabalho, o Cesit. Fernando tornou-se seu diretor.
Como disse, na cadeira de Sociologia I (existia a cadeira de Sociologia II),
havia apenas cinco professores. Nesse momento, entrou mais dinheiro e recursos
na cadeira e no Cesit. Com isso, foi possível contratar cinco novos
pesquisadores para o Cesit. Eu estava entre eles. Vieram nesta ocasião, além de
mim, Lourdes Sola, Celso Beisiguel, Gabriel Bolaffi e o José Carlos Pereira.
Um programa de pesquisas alentado foi elaborado. Decidiu-se começar por um
surveysobre a estrutura da empresa industrial em São Paulo, com uma amostra de
trezentas empresas. Esse surveyseria feito pelos cinco pesquisadores recém-
contratados com participação da Maria Sylvia Carvalho Franco e de um sociólogo
inglês, Bertram Hutchinson, que trabalhava na Unesco. Dos resultados do
surveydeveria sair nosso mestrado. No programa de pesquisas elaborado na
cadeira, Fernando Henrique faria um estudo sobre empresários; Octávio Ianni,
sobre o Estado. Florestan Fernandes faria um estudo de interpretação mais geral
da sociedade brasileira.
Depois que terminassem o mestrado, os novos pesquisadores do Cesit deveriam
fazer para doutorado uma monografia sobre cinco empresas industriais. Para essa
pesquisa, cada um dos cinco recémcontratados ganhou dois auxiliares, o que era
um luxo para quem estava começando.
A situação política brasileira no início da década de 1960, sob governo Jango e
avanço da esquerda nacionalista, estava muito conturbada. Não era fácil se
concentrar no trabalho acadêmico. Apesar disso, vários dos projetos planejados
pela cadeira de Sociologia I e pelo Cesit chegaram ao fim. Usei os dados da
pesquisa sobre estrutura da empresa industrial em São Paulo para fazer meu
mestrado sobre a ocorrência de greves no setor industrial, intitulado Greves
operárias em S. Paulo. Foi publicado como a segunda parte do meu primeiro
livro, Conflito industrial e sindicalismo no Brasil, que saiu em pela Difusão
Européia do Livro, em 1966.
Para o doutorado, que deveria ser um estudo de caso, escolhi a Willys Overland.
Na ocasião, era a maior empresa automobilística brasileira, com cerca dez mil
empregados. A intenção inicial era estudar todaa empresa, fato indicativo de
minha inexperiência. Estávamos dando os primeiros passos na área da sociologia
industrial ou da sociologia do trabalho. Não havia quem me orientasse. A
diretoria da Willys concordou com o estudo e minha entrada na fábrica de São
Bernardo. Mas, ao tomar contacto pela primeira vez com a fábrica, me dei conta
de que teria que restringir meu foco de estudo, do contrário nunca chegaria ao
fim do doutorado. Como tinha muitas leituras anteriores sobre sindicalismo e
trabalhadores, resolvi estudar os trabalhadores manuais, os "horistas", a
maioria deles localizados na linha de montagem. Por outro lado, essa escolha
tinha uma ponte com minhas preocupações marxistas da época de militância.
Do ponto de vista da qualificação profissional e atividade na produção, esses
trabalhadores eram o que os franceses chamam de O. S (ouvriers spécialisés),
operários especializados na realização de tarefas repetitivas que não requerem
longa formação profissional. Para o Brasil, corresponderiam, grosso modo, aos
semiqualificados. No caso, o estudo se concentraria numa parcela da classe
operária empregada num dos setores fabris mais avançados da época, setor que
deveria representar o futuro e, conseqüentemente, permitiria algum prognóstico
sobre o comportamento do proletariado brasileiro. Na realidade, o trabalho em
série na Willys só poderia ser visto como o futuro porque a automação não
começara.
Dessa pesquisa resultou minha tese de doutorado, defendida em 1967. Foi
publicada em 1970 pela editora Brasiliense com o título Industrialização e
atitudes operárias. O termo "atitudes" não era ideologicamente correto.
Cheirava sociologia norte-americana e era um pouco "psicologizante". Deveria
ter dito consciênciaoperária. Mas o termo que utilizei me parecia mais adequado
para o tipo de pesquisa empírica que eu tinha feito.
Para esse trabalho, as influências mais fortes vieram de Touraine e Juarez
Brandão Lopes, embora ambos não partilhassem da mesma orientação metodológica.
Touraine (junto com a Orietta Ragazzi) havia publicado em 1961 os resultados de
uma pesquisa chamada Operários de origem agrícola, em que chamava a atenção,
numa fábrica francesa, para certos traços específicos do comportamento de
operários vindos da agricultura. Essa pesquisa, e depois outro de seus livros,
A consciência operária, ofereceram-me muitos elementos para a análise dos
operários da Willys, onde a grande maioria dos semiqualificados tinha vindo do
campo. Mas, apesar da influência de Touraine e da sociologia do trabalho
francesa, como disse, não usei, no título do meu livro, o termo "consciência".
A pesquisa do Juarez sobre operários metalúrgicos ("O ajustamento do
trabalhador à industria: mobilidade social e motivação"), de 1960, também me
ajudou bastante. Esse estudo trouxe pistas importantes para a compreensão da
conduta do grupo operário. Na época, era uma das poucas pesquisas que estudava
operários fabris. Juarez não vinha do marxismo. Estudou os trabalhadores "tal
qual eles eram" e não a classe operária teórica do marxismo. Nessa pesquisa,
chamou a atenção para o grande numero de operários vindos da agricultura, as
aspirações de ascensão social e a elevada mobilidade profissional dos
trabalhadores de baixa qualificação. Teve a chance de presenciar a ocorrência
de uma greve, o comportamento dos operários diante do movimento grevista e
captar suas opiniões sobre o sindicato, "visto pelos operários como algo feito
por outros para eles". Mais recentemente, Juarez notou com bom humor que essa
frase acabou sendo uma das mais citadas em estudos sobre o comportamento
operário no Brasil.
De quando é o livroSindicalismo e sociedade?
De 1968. É uma antologia. A idéia era difundir alguns artigos com análises mais
sociológicas e menos ideológicas sobre o sindicalismo e a classe operária.
Havia um texto de Touraine com Bernard Mottez e outro de Michel Crozier.
Incluía também um artigo polêmico de Lipset sobre os trabalhadores norte-
americanos e os valores da sociedade norte-americana.
Nessa época, além da pesquisa do Juarez Brandão Lopes, Azis Simão (que era da
cadeira de Sociologia II) já havia publicado alguns trabalhos como "O voto
operário em São Paulo". Nesse estudo, mostrou a relação do voto operário com o
PCB e, depois da cassação da legenda comunista, com o PTB. Azis Simão havia
também publicado o livro Sindicato e Estado. Fernando Henrique tinha escrito um
artigo sobre uma greve de sapateiros em São Paulo de antes da Primeira Guerra
Mundial. Lembro-me também de uma pequena pesquisa feita por Michel Löwy e Sara
Chucid sobre atitudes e opiniões de lideres sindicais metalúrgicos de 1964. Mas
era pouca coisa em comparação ao que existe hoje.
E Evaristo?
O livro O problema do sindicato único no Brasilé uma obra importante para o
estudo do nosso modelo corporativo. Mas Evaristo vinha de uma tradição
jurídica. O livro era sobre a estrutura sindical e tinha uma abordagem
jurídica. Não era um livro de pesquisa sociológica. Por isso não o mencionei.
Como surgiu a idéia do livro sobre a CUT?
A iniciativa veio da CUT. A proposta foi que eu dirigisse uma pesquisa com
delegados ao III Congresso da CUT, o Concut, que seria realizado em Belo
Horizonte, em setembro de 1988. A pesquisa teria o apoio do Instituto Latino-
Americano de Desenvolvimento Econômico e Social (Ildes). Houve um acordo entre
mim e a CUT. Não receberia nada como pagamento, mas teria os dados para redigir
um trabalho. A CUT teria uma cópia das tabelas e daria um apoio administrativo:
pessoal para aplicação dos questionários, tabulação etc. Por isso, houve duas
publicações: o meu livro e um caderno impresso pela própria CUT.
Mas teve toda uma repercussão com a CUT, que reagiu...
Eu planejei e dirigi toda a pesquisa. Mas contei com a colaboração de uma
assessora da CUT, Maria Sílvia Portela de Castro (que mais tarde fez mestrado
sob minha orientação) e de uma técnica do Dieese, Suzanna Sochaczewski. Para
cobrir os custos da parte da pesquisa sob minha responsabilidade, consegui um
auxílio da Fapesp. Convidei para trabalhar na pesquisa Iram Jácome Rodrigues
que foi comigo para Belo Horizonte. Depois que as tabelas ficaram prontas, a
direção da CUT recebeu uma cópia. Terminei a análise dos dados e esperei um
pouco para que a CUT publicasse os resultados. Eu tinha pressa porque a editora
Paz e Terra se interessara em publicar um livro de minha autoria sobre
resultados da pesquisa e não eu não poderia esperar muito. Do ponto de vista
comercial, não seria bom que um livro sobre o III Concut saísse depois do IV.
Minha análise acabou indo para as livrarias em 1990 com o título CUT: os
militantes e a ideologia,publicação da Paz e Terra.
A parte sob responsabilidade da CUT foi publicada por ela mesma no ano
seguinte, em forma de caderno, com o título Retrato da CUT: delegados do III
Concut. Representação das categorias. Está assinado por mim, Maria Silvia,
Suzana e Iram. Soube depois que alguns dirigentes da CUT se sentiram passados
para trás ou algo assim. Mas não havia acordo para dar à CUT a prioridade na
publicação. A única restrição, com a qual concordei, foi que a análise dos
dados relativos às delegadas ficaria a cargo da Suzana. Foi o que aconteceu. Os
dados sobre as mulheres apareceram no caderno publicado pela CUT. Já a análise
das teses e das tendências atuantes no congresso foi incluída no meu livro e
excluída do caderno da CUT. Na realidade, a análise das tendências políticas
que disputavam arduamente a direção da CUT (eram muitas) poderia acirrar os
conflitos internos. Do ponto de vista da divulgação dos dados, não acho que
houve algum prejuízo para a CUT. Apesar de focalizarem o mesmo objeto, os dois
textos são bem diferentes. O livro ficou mais acadêmico, já o Cadernotraz as
tabelas com um mínimo de comentário. Mas é possível também que do meu livro
certos dados não tenham agradado à direção da CUT, como, por exemplo, os que
mostram a baixa rotatividade na ocupação dos postos de direção. Disse "é
possível" porque ninguém veio reclamar comigo.
Você foi aos congressos anteriores para fazer uma prévia?
Não. Essa chance nunca apareceu. Mas isso não era necessário para a realização
da pesquisa. Gostaria de discutir essa pesquisa do III Concut com vocês porque
pode ter algum interesse do ponto de vista da técnica de pesquisas em reuniões
com um número muito grande de participantes. Nesses casos, há uma dificuldade
que vem da impossibilidade de extrair com antecedência uma amostra. Isso
acontece quando se quer trabalhar com questionários, mas não se sabe com
exatidão quantas pessoas estarão presentes ou, pior ainda, quando não se tem a
lista de participantes para um sorteio prévio de entrevistados.
Além do problema da amostragem, no caso do III Concut, havia a dificuldade da
entrega dos questionários aos delegados e do controle de sua devolução. Também
teríamos que ter um grau elevado de confiança de que os questionários não
seriam respondidos por algum "assessor", pelo líder de alguma das facções ou
pela chefia da delegação. A disputa entre as facções era muito renhida. Esse e
provavelmente outros Concuts reuniam, de um lado, delegados de nível de
escolaridade elevado, que dominavam as discussões e, de outro, delegados de
qualificação educacional muito baixa. Cerca de 15% eram analfabetos ou tinham
apenas um ano de escolaridade.
Os congressos da CUT eram congressos de massa. No III Concut, eram mais de seis
mil delegados, o que significava mais dificuldade para a aplicação dos
questionários. Além disso, a baixa escolaridade dificultava o preenchimento dos
questionários. Seria aconselhável usar uma amostra para diminuir
significativamente o número de entrevistados. Mas essa técnica se revelou
impossível de ser utilizada. Por isso, chegamos à conclusão de que a
probabilidade de um viés seria menor se tentássemos atingir o universo todo. A
aplicação de um questionário preenchido pelos participantes teria que ser feito
de uma só vez. É claro que isso afetaria o tipo de questionário a ser
elaborado. Para começar, não poderia ser de preenchimento demorado. Teria que
ser um questionário fechado, no qual os delegados iriam assinalar com um xuma
das alternativas apresentadas. Não teriam que escrever nada do próprio punho. A
ocasião que nos pareceu mais adequada para a entrega e o recolhimento dos
questionários foi a do credenciamento dos delegados, antesda abertura do
congresso. Enormes filas se formariam. Haveria tempo suficiente para
distribuição, preenchimento e recolhimento dos questionários. Contávamos com um
número suficiente de auxiliares, alguns fornecidos pela própria CUT.
Em meio à distribuição dos questionários aconteceu algo inesperado revelando
que na preparação de pesquisas nem sempre se consegue pensar em tudo. Tínhamos
comprado muitas caixas de canetas Bic. Junto com o questionário, e com uma
explicação sobre a natureza da pesquisa, entregávamos uma caneta que deveria
ser recolhida junto com o questionário preenchido. Mas não contávamos com a
eventualidade de a maioria das canetas não serem devolvidas. Foi o que
aconteceu. Logo não havia mais caneta para entregar junto com os questionários.
Não era um congresso de estudantes ou de professores ou de gente de classe
média. A maioria dos delegados não carregava caneta ou lápis. Portanto,
necessitavam das Bics para responder ao questionário. Comecei a temer que essa
"pequena" falha prejudicasse toda a pesquisa. No sufoco, disse a um dos
auxiliares: "Compre umas dez caixas de Bic o mais rápido possível". O único
problema é que era o feriado do sete de setembro. O comércio estava todo
fechado. Foi uma agonia. Finalmente, alguém conseguiu arrumar várias caixas de
Bic, creio que cedidas pela secretaria do congresso. No final, atingimos cerca
de 70% dos delegados.
E a pesquisa sobre a Força Sindical?
Na pesquisa sobre a Força Sindical, mais exatamente sobre seu congresso de
fundação, a metodologia foi diferente. O congresso foi realizado em São Paulo,
em março de 1991, no Memorial da América Latina. Da pesquisa, resultou um livro
em parceria com Adalberto Moreira Cardoso, Força sindical: uma análise sócio-
política, publicado em 1993, também pela editora Paz e Terra. Tal como no caso
do III Concut, a pesquisa focalizou as características socioprofissionais dos
delegados. Mas foi possível incluir algumas perguntas de natureza política,
como partido preferido, voto nas eleições presidenciais etc. No III Concut,
tínhamos preferido deixar as perguntas políticas de lado.
Desta feita, para a realização da pesquisa, a iniciativa não partiu da direção
sindical. Foi uma sugestão feita a mim por Adalberto. Decidimos fazer a
pesquisa uma semana antes do início do congresso. O tempo era curto, mas
conseguimos fazê-la.
Usaram o mesmo questionário?
Não, tivemos que fazer outro, mas aproveitamos algumas perguntas "objetivas",
classificatórias, feitas no questionário da pesquisa da CUT. Junto com
Adalberto, em poucas horas, elaboramos o questionário. Tiramos umas dez cópias
para o pré-teste. Mudamos algumas questões, mas pouca coisa. A direção da Força
Sindical encarregou-se da impressão. No sábado pela manhã, o congresso começou.
A idéia, seguindo a experiência do III Concut, era trabalhar com todo o
universo.
O número de delegados era muito menor. Oficialmente seriam cerca de 1.700. Mas
logo tivemos uma desagradável surpresa: a idéia de repetir a metodologia usada
na pesquisa da CUT revelouse impossível. Uma parte dos delegados de fora de São
Paulo tinha chegado na véspera e se credenciara antes. Outra parte estava
chegando no próprio sábado. O resultado é que não havia filas de delegados para
podermos distribuir e recolher os questionários antesdo credenciamento. Os
participantes chegavam, se credenciavam muito rapidamente e se dirigiam para o
salão aonde iria se realizar o congresso. Tínhamos que abordar os participantes
antes do credenciamento e lhes entregar o questionário. Tivemos que adotar
outra estratégia não muito honesta. Mas foi para o bem. Fiz uma placa para
pendurar no pescoço onde estava escrito: "Força Sindical" junto com o emblema
da nova central. No momento da chegada do delegado dizíamos mais ou menos o
seguinte: "O companheiro vai se credenciar? Por favor, vá para aquela mesa, mas
antes preencha esse questionário. É importante para a Força Sindical". Na
verdade, provavelmente, era mais importante para mim e para o Adalberto... Não
era dito explicitamente que o preenchimento do questionário era condição para a
participação. Mas dava essa impressão. Nesse momento, apareceu um pequeno
problema. Adalberto, por motivos políticos, se recusou a usar o emblema da
Força Sindical que nos dava um ar de autoridade... [risos]. E acabou ficando
sem usá-lo. Bom, além de cercar os participantes na entrada, usamos um
altofalante com mensagens lembrando aos esquecidos que não deixassem de
preencher os questionários e colocá-los depois num enorme cesto situado na
entrada. Também percorríamos a sala de tempos em tempos lembrando aos delegados
que estavam com questionários para que não deixassem de preenchêlo e devolver.
Não creio que tenha sido uma grande pesquisa, mas houve alguns achados
interessantes. Ficou patente que a Força era bem mais fraca do que a CUT, mas
de algum modo era mais "operária". Explico. Na CUT, a presença de metalúrgicos
era forte. Em número absolutomuito maior do que na Força. Proporcionalmente,
porém, havia na CUT mais sindicalistas das categorias de não manuais e de
classe média, especialmente professores, funcionários públicos e bancários. No
III Concut, havia uma distribuição meio esdrúxula, explicável em razão do peso
de delegados de classe média assalariada e de trabalhadores rurais: grande
proporção de trabalhadores de baixa escolaridade, num pólo, e alta proporção de
delegados com curso superior, no outro (mais ou menos 20%). Além disso, os
delegados da CUT eram mais politizados. A ideologia de esquerda, ausente na
Força, desempenhava um papel importante como motivação para a militância.
A pesquisa sobre a Força Sindical foi uma das últimas pesquisas empíricas que
realizei na área da sociologia do trabalho. Houve outras que não citei aqui e
que fiz com a participação de Iram Jácome Rodrigues: uma, com os empregados da
Ford, em São Bernardo, outra, com os bancários de São Paulo, outra com os
metalúrgicos de Santos. Mas acabamos não publicando nenhuma delas. Ou melhor,
publiquei uma pequena parte da pesquisa da Ford no livro Partidos e sindicatos,
com o título "Trabalhadores de uma indústria automobilística: perfil social e
participação sindical". Iram também usou dados dessas pesquisas para seu
mestrado e doutorado.
Posteriormente, usando dados estatísticos e fontes secundárias, fiz ainda um
livro sobre a situação do sindicalismo nos países desenvolvidos da Europa e da
América do Norte. Mais exatamente, foi um estudo sobre a queda das taxas de
sindicalização. Concentrei a pesquisa nos países do Primeiro Mundo porque, de
algum modo, eram eles que deixavam antever mais nitidamente o que estava
acontecendo com as organizações sindicais. O resultado desse estudo está no
livro Destino do sindicalismo, que publiquei pela Editora da Universidade de
São Paulo (Edusp). A primeira edição saiu em 1999 e a segunda em 2000. Sem
falsa modéstia, penso que, no Brasil, fui o primeiro - ou um dos primeiros para
não ser muito pretensioso - a chamar a atenção para o declínio do sindicalismo
nas economias globalizadas. Quando, em 1995, estive em Genebra na reunião da
OIT, como representante do governo brasileiro, aproveitei a ocasião para
recolher dados sobre a situação do sindicalismo no mundo. As estatísticas
mostraram uma queda geral, mas desigual, das taxas de filiação sindical nos
vários países. Os sindicatos de trabalhadores mais afetados eram aqueles onde a
automação estava mais avançada. No setor público, no entanto, onde a
sindicalização ganhara impulso a partir da década de 1960, o declínio era bem
menor. As causas não estavam apenas nas novas tecnologias, mas também em
mudanças econômicas, políticas e valorativas nos países ocidentais. Minha
conclusão era de que não se tratava de uma crise temporária do sindicalismo,
mas de um declínio de difícil reversão.
Nessa época, eu estava começando a migrar para a sociologia política, vindo de
estudos sobre o sindicalismo. Tinha escrito um capítulo, "Sindicalismo e classe
operária - (1930-1964)", para o volume X da História geral da civilização
brasileira, dirigida por Boris Fausto e publicada em 1981 pela Difel/Difusão
Editorial. Ao investigar o sindicalismo da década de 1960 e a atuação do
Comando Geral dos Trabalhadores (o CGT), encontrei o Partido Comunista
Brasileiro. Nessa altura, o PCB, agora aliado ao antigo rival PTB, controlava a
maior parte do sindicalismo brasileiro. Veio daí a idéia da redação de um
trabalho sobre a liderança do Partido Comunista Brasileiro. Esse trabalho saiu
como um capítulo da mesma publicação intitulado "O PCB: a Ideologia e os
Militantes. 1930-1964".
Mas o interesse pelo PCB não surgiu apenas da pesquisa sobre os sindicatos.
Mais ou menos por essa época apareceram vários estudos sobre o PCB: o do
Astrojildo Pereira e os dos brasilianistas John Foster Dulles e Ronald
Chilcote, para citar os principais. É curioso como há certos temas - e autores
- que, por razões não muito claras, entram na moda e depois desaparecem. Na
ocasião, o estudo sobre o PCB e sobre os partidos comunistas no mundo era uma
das modas. Eu segui a onda. Meu interesse não foi a história do PCB nem sua
atuação política, mas o exame da composição social de sua liderança.
O levantamento das origens sociais, das profissões e ocupações dos principais
dirigentes comunistas mostrou um recrutamento policlassista, com predominância
de certos segmentos das classes médias: intelligentsia(jornalistas e
professores), profissionais liberais (advogados e médicos, na maioria),
militares do Exército (tenentes, capitães, sargentos e cabos), estudantes
universitários e funcionários públicos. Mas o PCB recrutou também trabalhadores
qualificados (operários fabris, ferroviários, portuários). No entanto, nenhum
trabalhador manual chegou ao Bureau Político, a instância mais elevada de poder
no partido. O recrutamento entre os camponeses, teoricamente uma das classes
aliadas ao proletariado, foi mínimo.
Como era de se esperar, proprietários de modo geral não foram atraídos para o
PCB. Mas, no exame das fontes de recrutamento, sempre é preciso levar em conta
os períodos partidários, pois essas fontes tendem a variar com o tempo. Na
formação do PCB, na década de 1920, além dos intelectuais de famílias
tradicionais (Astrogildo Pereira, Osvaldo Brandão, por exemplo), o recém-
fundado PCB atraiu alguns trabalhadores de formação artesanal (alfaiates,
gráficos), talvez em razão das origens anarquistas do partido. O recrutamento
de militares cresceu na década de 1930 com a adesão de Prestes ao comunismo e a
formação da Aliança Nacional Libertadora. Depois de 1945, diminuiu bastante o
recrutamento do PCB no meio militar.
Com o projeto de pesquisa sobre o PCB concorri por uma bolsa de pesquisa
oferecida pela Fundação Guggenheim dos Estados Unidos. Era uma competição em
escala latino-americana bastante acirrada, mas acabei sendo um dos
contemplados.
O Partido dos Trabalhadores
Dessa preocupação de focalizar, além da atuação política e da ideologia, as
características sociais dos atores, veio a idéia de um levantamento da
composição das cúpulas do Partido dos Trabalhadores. Eu suspeitava que o espaço
ocupado pelas classes trabalhadoras no novo partido não era tão grande e que a
figura do Lula, a presença de sindicalistas e o nome do partido, tendiam a
ocultar o espaço majoritário ocupado por segmentos das classes médias
assalariadas de escolaridade elevada.
Resolvi pesquisar esse aspecto mais detidamente. Na realidade, a participação
dos trabalhadores fabris, basicamente diretores de sindicatos, tinha sido
dominante na formação do partido. Mas, aos poucos, os segmentos da classe média
foram se tornando majoritários. Tomei para exame a Comissão Executiva Nacional
eleita em 1987; os candidatos a deputados federais eleitos em 1986; os
deputados petistas eleitos em 1986; e os candidatos à Assembléia Legislativa de
São Paulo nas eleições de 1986. Em todas essas instancias predominavam
professores, bancários e médicos. Mas havia também metalúrgicos, seguramente
numa proporção muito maior do que em qualquer outro partido.
A sociologia política
A essa altura, eu tinha passado para o Departamento de Ciência Política, então
sob a coordenação de Francisco Weffort. O cargo de titular estava vago desde a
cassação de Fernando Henrique em 1969. Em 1968, ele venceu Paula Benguelman na
disputa pela cátedra de Política. Contudo, poucos meses depois, junto com
outros professores (Paula inclusive) foi aposentado compulsoriamente pelo AI-5.
Depois da anistia de 1979, Fernando foi convidado para reassumir o cargo de
titular mas não quis porque já estava mais voltado para a política. Nesse
momento, eu e o Weffort éramos os mais titulados em condições de fazer concurso
para o cargo de titular que tinha sido do Fernando. Achávamos que ninguém de
fora viria disputar contra um de nós. Eu nunca pensara em concorrer contra
Weffort, que era meu amigo desde os bancos da Faculdade, tinha sido da cadeira
de Política desde sempre e tivera a generosidade de me acolher quando resolvi
sair da Sociologia. Ele tinha sido assistente do professor Lourival Gomes
Machado, antigo catedrático da Cadeira de Política. Eu vinha da Sociologia e
tinha sido assistente do Florestan. Por isso, entre outros motivos, achava que
Weffort deveria ter prioridade para ocupar o cargo. Não havia mais razão para
deixá-lo vazio. A inexistência de um professor titular enfraquecia o grupo.
Tivemos uma conversa tête-à-tête.Nessa altura Weffort estava como secretário-
geral do PT. Entendeu que seria melhor para o Departamento se eu concorresse
porque eu estava mais ligado à universidade. Foi o que aconteceu. Fiz minha
inscrição. Ninguém veio disputar comigo. Fui aprovado como seria de se esperar
e passei a titular em 1981. Mais tarde, o Departamento de Ciência Política
conseguiu a criação de outro cargo de titular. Weffort concorreu, também sem
concorrentes, e foi aprovado.
Fiquei no Departamento até 1987, quando me aposentei da USP. A Unicamp, nessa
altura, só tinha permissão da Capes para cursos de pós-graduação em nível de
mestrado. Para nível de doutorado, necessitava de mais "massa crítica". O
Departamento de Ciência Política da Unicamp teria que reforçar o corpo docente.
Assim, fui contratado para dar aulas na pós-graduação da Unicamp. Vieram também
outros professores: Juarez Brandão Lopes, Luciano Martins e Sebastião Velasco e
Cruz. A Capes credenciou o doutoramento. Com o tempo, passei a dar aula também
na graduação. Fiquei na Unicamp até 2003, quando me aposentei.
Voltando às pesquisas. O interesse pela composição e origem social dos que
dirigem organizações políticas e sindicais voltou em mais três pesquisas sobre
partidos e a classe política. A primeira foi sobre os constituintes de 1986.
Está no livro Quem é quem na Constituinte, publicado em 1987 pela Oesp-Maltese.
A segunda foi sobre os deputados federais eleitos em 1998. Está num livro
Partidos, ideologia e composição social, publicado em 2002 pela Edusp. A
terceira pesquisa foi sobre os deputados federais eleitos em 2002. Os
resultados estão no livro Mudanças na classe política brasileira, publicado em
2006 pela Publifolha.
Começo falando sobre a pesquisa com os constituintes e sobre as razões que me
motivaram. Os resultados eleitorais, particularmente o crescimento fantástico
do PMDB, o aparecimento do PT e do PSDB, o surgimento de novas chefias
políticas, permitiam a hipótese de que o país não estava passando apenas por
mudanças nas instituições do poder e no sistema partidário. Indicavam também
que, junto com as transformações no sistema político - o retorno à democracia
-, outras estariam ocorrendo de modo mais subterrâneo na estrutura social.
Havia mudanças relacionadas com as próprias fontes de recrutamento político-
partidário. A abertura democrática ampliara as oportunidades de ascensão de
chefias políticas de origem popular.
A pesquisa sobre os constituintes permitiu uma primeira visão desses processos
de mobilidade política. Foi minha primeira pesquisa grande na área da ciência
política ou da sociologia política. Foi feita por meio de um questionário
preenchido pelos constituintes e distribuído por jornalistas do Estadãoe do
Jornal da Tardeque faziam a cobertura dos trabalhos constituintes. Num total de
487 deputados, consegui um retorno de 451 questionários. A pesquisa mostrou o
declínio no sistema político nacional das chamadas oligarquias tradicionais.
Aumentara o espaço dos políticos vindos das classes médias e até mesmo das
classes trabalhadoras. Contudo, as velhas famílias oligárquicas não tinham sido
eliminadas do palco político. Elas se mantinham principalmente no Nordeste e
Norte. Do controle do poder em nível regional, elas chegavam controlar partes
significativas das estruturas de poder em âmbito federal. No entanto, no Sul e
Sudeste, mudanças bastante profundas estavam se processando. Elas favoreciam a
ascensão de novas lideranças de classe média e impunham novos esquemas de
alianças partidárias.
Como indicação dessas alterações que ocasionavam o que chamei de
"popularização" da classe política, dou apenas um dado que acho muito
indicativo do movimento ascensional de políticos vindos da classe média e
popular. No total de deputados que responderam ao questionário, cerca de um
quinto disse que seus pais não tinham completado o primário, naquela época, de
quatro anos de duração. Entre os deputados dos estados do Sul, a porcentagem
era de aproximadamente 40%. No Nordeste, era de 13%, número indicativo de que o
recrutamento político nessa região se fazia, em proporção bem maior do que no
Sul e Sudeste, no interior das classes altas e da elite política local.
A pesquisa com os deputados federais eleitos em 1998 reforçou as indicações
sobre a ampliação da participação de novas lideranças originárias das camadas
populares e revelou significativas diferenças nas fontes de recrutamento
partidário das bancadas. Era visível que os partidos brasileiros, embora
recrutassem em vários segmentos da sociedade, não eram semelhantes do ponto de
vista sociológico. Poder-se-ia até encontrar uma relação entre a ideologia e a
linha política dos partidos e a composição socioprofissional de suas bancadas.
Por exemplo, e de um modo simplista: os partidos considerados de direita, como
o PFL e o PP, tinham significativamente mais empresários e pessoas de alta
renda em suas bancadas, enquanto os partidos considerados de esquerda, o PT e o
PCdoB, tinham suas bancadas compostas predominantemente por deputados que
tinham sido professores, bancários, trabalhadores industriais e de outros
estratos de classe média assalariada. Tinham também patrimônio bem mais baixo.
Nos partidos considerados de centro, o PMDB e o PSDB, a composição era mais
variada: havia menos empresários e deputados de renda elevada do que nos
partidos de direita. Mas, de modo geral, eram formados de segmentos
socioeconômicos mais elevados do que os deputados do PT e do PCdoB.
Estamos, assim, próximos da proposição marxista da relação entre classe social,
ideologia e orientação política. Penso que ela permanece válida desde que não
nos esqueçamos de levar em consideração outras variáveis, como os interesses de
poder da própria classe política, os valores, os segmentos de classe
específicos de onde vêm outras variáveis.
A pesquisa sobre os deputados eleitos em 2002 trouxe resultados que reforçaram
a tese de que o celeiro social de recrutamento partidário tinha relação com as
orientações políticas e ideológicas. Em 1998, a eleição para a Câmara de
Deputados fora influenciada pela vitória de Fernando Henrique. Em 2002, tinha
havido a eleição do Lula e o crescimento do PT. Contudo, nas duas legislaturas,
a relação entre origem social e partido permaneceu. Os perfis sociais dos
partidos partidários se mantiveram apesar das alterações na dimensão das
bancadas. Houve crescimento dos partidos de esquerda e declínio dos de direita.
A conseqüência foi o aumento do número de deputados de origem popular. As
bancadas sindicalista e evangélica cresceram. Embora as elites de origem
oligárquica tenham conservado posições, a classe política brasileira tornou-se
cada vez mais de classe média.
Queria que você falasse um pouco do Aziz Simão. Não há uma ponte entre os
trabalhos de Azis Simão, de Albertino Rodrigues, e o Dieese? Quando você falou
das discussões existentes nas décadas de 1960 e 1970, houve um período em que
pessoas próximas a você, como Fernando Henrique e Weffort, participaram de uma
série de debates sobre a reestruturação de esquerda no Brasil etc. Depois, eles
tomaram caminhos diferentes. Quero saber se você participou desses debates.
Vou começar pelo mais fácil [risos] e rápido: José Albertino. Embora o
conhecesse e nos encontrássemos de vez em quando, tivemos pouca relação. Ele
não lecionava na USP: estava no interior. Além disso, morreu muito cedo. Ele
também foi diretor do Dieese. Tenho a impressão que ele estava mais próximo dos
sindicatos do que do nosso meio acadêmico propriamente dito.
Mas você fez a apresentação de um livro dele...
Nós fizemos uma espécie de "troca", que hoje eu não faria. Ele tinha lançado um
livro mais ou menos no mesmo momento em que eu estava lançando o meu. Ambos
sobre trabalhadores e sindicatos. Não havia muitos "especialistas" na área. Eu
imaginei que seríamos duas pessoas qualificadas, cujos comentários valorizariam
o livro do outro. Se fosse apenas um de nós como comentarista, penso que tudo
estaria bem. Mas não foi bom do jeito que ficou.
Por que você se arrependeu de ter feito essa troca?
Ficou parecendo uma ação entre amigos, o que, de fato, era. A nosso favor posso
dizer que sempre, ou quase sempre, a apresentação de uma obra, como prefácio ou
na contracapa, é um pouco uma ação entre amigos. As "orelhas" são sempre
favoráveis ao autor. Servem para valorizar o livro e não para diminuí-lo. Se eu
pedisse a Florestan ou a Fernando Henrique, tudo pareceria correto e normal,
embora fôssemos do mesmo círculo de relacionamento.
Falando agora sobre Aziz Simão. Ele era de uma geração acima da minha. Tínhamos
excelente relação. Ele era uma pessoa extraordinária. Ficou cego quando adulto.
Não é preciso dizer que a falta de visão é uma limitação terrível. Por isso,
Azis não escreveu muito. Mas se mantinha muito informado. Sua mulher e outras
pessoas liam para ele. Uma vez dei a ele, em fita cassete, todo o meu capítulo
sobre o PCB gravado por mim mesmo. Devemos a ele uma das primeiras pesquisas
sobre sindicalismo, "O voto operário em São Paulo" de 1955 e, depois, o livro O
Sindicato e o Estado, de 1966. São trabalhos anteriores aos outros, aos quais
fiz referência, inclusive os meus. Azis tinha tido militância socialista. Creio
que esse fato teve influência na escolha de seu objeto. Eu situaria Azis entre
os pioneiros da sociologia do trabalho no Brasil.
E Weffort? Ele foi candidato a deputado federal, mas não se elegeu, não é?
Sim. Apesar de secretário-geral do partido, não se elegeu. Uma explicação que
correu é que teria havido uma manobra do José Dirceu estimulando a candidatura
de Florestan para dificultar a eleição de Weffort ao concorrer no mesmo espaço
do eleitorado. Não tenho informações a respeito. O que torna um pouco plausível
essa história, mas não comprova sua veracidade, é que Florestan se inscreveu no
partido no último dia em que se encerrava o prazo de inscrição para poder se
candidatar para a Câmara. E conseguiu se eleger apesar disso. Ele tinha um
prestígio difuso como intelectual opositor da ditadura. Creio que teve também o
apoio de alguns dos movimentos negros.
Florestan Fernandes
Por que você acha que Florestan foi para o PT?
Não sei dizer. Acho que ele não participou da formação do partido. Se
participou não teve papel importante. Mas devia ter simpatias pelo PT. Quando
jovem, ele militou por cerca de quatro anos num pequeno grupo trotskista de São
Paulo. Foi na época do Estado Novo. Essa informação está num capitulo de seu
livro A sociologia no Brasil. De todo jeito, não teve papel importante no
trotskismo.
Contudo, mesmo quando se ocupava mais da vida universitária e de sua carreira,
continuava a ter uma "visão esquerdista" do mundo. Tinha certa dificuldade de
lidar com poderosos, especialmente se fossem das classes ricas. Florestan, como
sabemos, veio muito de baixo. Fez um esforço danado para ascender. A mãe era
uma portuguesa, ex-lavadeira. Curiosamente, na descrição que faz de sua
carreira, Florestan não faz referência ao pai. Morou com a mãe em cortiço e
quartos de aluguel. Teve que trabalhar desde cedo. Foi engraxate, trabalhou em
bares e restaurantes e depois como entregador de amostras de uma empresa
farmacêutica. Antes tinha tido que abandonar a escola elementar no terceiro
ano. Aos 17 anos voltou a estudar. Fez madureza e trabalhava enquanto estudava.
Não veio, como outros professores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras,
de uma família paulista de quatrocentões de classe média ou alta, como Fernando
de Azevedo, Antônio Candido de Mello e Souza, Maria Izaura de Queiroz, Lourival
Gomes Machado, Ruy Coelho de Andrade Galvão, Sérgio Buarque de Hollanda, Maria
Sylvia de Carvalho Franco... Mas é preciso dizer que, nesse aspecto, na minha
época, a Faculdade de Filosofia já era bastante aberta e refletia, de algum
modo, a composição étnica da sociedade paulista. No corpo docente havia muitos
professores de famílias de imigrantes estrangeiros, na maioria de origem judia,
italiana ou sírio-libanesa, como Paula Benguelman, Octávio Ianni, Azis Simão. O
próprio Florestan, embora com muito esforço, chegara a fazer parte da elite
acadêmica paulista. Penso que isso era uma indicação de que a sociedade
paulista permitia alguma mobilidade social, mobilidade que Florestan
subestimava.
O professor era pessoalmente corajoso. Em setembro de 1964, depois do golpe
militar, fora convocado para depor num inquérito policial-militar (um IPM, como
dizia) que tinha sido instalado na USP para "investigar atos de subversão e
corrupção". A história tem a sua graça e vale a pena ser contada com um pouco
de detalhe.
Alguns professores, tidos como de esquerda, tinham sido intimados a depor num
IPM conduzido por um coronel do Exército. Para tanto, uma pequena sala havia
sido reservada pela direção da Faculdade. O primeiro a ser chamado para depor -
não tenho certeza - foi o professor Cruz Costa, catedrático do Departamento de
Filosofia. Consta que, lá pelas tantas, o coronel lhe perguntou se ele sabia
cantar o Hino Nacional. Cruz Costa, que tinha muito espírito, respondeu:
"Sozinho não sei, mas se o senhor cantar, eu acompanho". Não me lembro de como
terminou a história, mas nenhuma medida foi tomada contra Cruz Costa que,
aliás, não tinha nada de esquerdista.
No caso do Florestan foi diferente. Ele não se recusou a depor. Mas, ao entrar
na sala do IPM, onde o coronel o esperava, tirou do bolso uma carta onde dizia
que tinha recebido a convocação como uma injúria, mas que tivera que aceitar.
Entregou ao coronel. A carta era educada, mas o coronel não gostou e respondeu:
"Considere-se preso" [risos]. Florestan obteve permissão para a ir até seu
escritório antes de acompanhar o coronel ao quartel. Tudo muito cavalheiresco.
Eu estava na faculdade, esperando ansioso para saber o resultado do depoimento
do chefe. Quando Florestan saiu da sala do IPM, me viu e disse: "Leôncio, estou
preso. Entregue essa carta aos estudantes".
Em três tempos a carta estava mimeografada e divulgada nos jornais, que deram
em manchete: "Florestan preso". O impacto na opinião pública foi enorme. Tinha
sido conduzido a um quartel em São Paulo mesmo. Quando ele estava detido, fui
visitá-lo com Procópio Camargo (que mais tarde foi presidente do Cebrap).
Procópio teve a idéia de levarmos uma caixa de bombons de presente. Achei
engraçada a iniciativa, mas concordei. E Florestan recebeu na prisão um
presente que talvez não fosse muito habitual.
Depois de três dias, ele foi solto. Fui buscálo de automóvel no quartel. "O
senhor quer ir para casa?" perguntei. "Não, eu quero ir para a Faculdade". Ele
tinha um certo senso de criação do fato político. Quando chegamos no prédio da
faculdade, na rua Maria Antônia, aconteceu algo surpreendente e emocionante.
Nada tinha sido preparado para recebê-lo. Os alunos nem sabiam que o professor
seria solto. Ele chegou de surpresa. Ao entrarmos pela porta principal, o bedel
e outras pessoas que estavam no saguão de entrada, reconheceram-no. Começaram
espontaneamente a bater palmas. O barulho chamou atenção de outros funcionários
e alunos que saíram das salas de aula para ver o que se passava. Viram
Florestan e começaram também a aplaudir, sem dizer nada. Até hoje me emociono
quando me lembro da cena. As nossas salas de trabalho eram no segundo andar.
Florestan foi subindo as escadas. Mais gente aparecia para aplaudi-lo. Ele ia
agradecendo, meio sem jeito. No final, havia uma multidão batendo palmas. Não
houve discursos. Foi tudo muito autêntico e inesperado. Por isso, foi muito
emocionante. Essa cena ocorreu de dia. Creio que no período da manhã. Ante o
sucesso, resolvemos repetir o evento à noite, explorando-o politicamente. A
mídia foi convocada com antecedência. Florestan repetiu a entrada na faculdade,
com muita gente à espera no saguão de entrada. O diretório estudantil havia
sido informado. A TV e a imprensa estavam presentes. Mas desta feita a cena não
foi tão impactante. De todo jeito, FF, como o chamávamos às vezes, conseguiu
acabar com o IPM na faculdade. Depois disso, não se falou mais em IPM. Ele se
tornou também bastante conhecido, o que provavelmente ajudou, muitos anos
depois, sua eleição para a Câmara dos Deputados.
Alguém perguntou por que acho que Florestan foi para o PT. Não é fácil captar
as motivações das pessoas, especialmente quando fazem política, atividade muito
mistificada, manifestamente sempre efetuada em benefício de outrem, nunca do
político. No caso de Florestan, acho que, efetivamente, ele tinha uma visão do
mundo radical. Eleito, não se destacou na Câmara nem no PT, talvez por ser
muito individualista e não saber "fazer política". A atuação na Câmara, e em
outros órgãos com muitas pessoas que são formalmente iguais, requer capacidade
de barganha, de conchavo, de adaptação a um grupo. Minha impressão é que
Florestan não tinha essa capacidade.
Como é que você vê a relação que os intelectuais constroem com os
trabalhadores, com os sindicatos? Você acha que a sua relação com os sindicatos
mudou ao longo do tempo? Você se pensava como um intelectual que iria ajudar o
sindicato, ou como um intelectual que simplesmente iria lá, faria uma análise e
apresentaria para o grande público?
São várias perguntas, algumas delas difíceis de responder. Vou tentar dizer
alguma coisa começando por mim mesmo. Em todas pesquisas que realizei como
sociólogo, minha preocupação era fazer um bom trabalho acadêmico. Queria
escutar mais do que falar, entender mais do que mudar, justamente o contrário
do que faria um bom militante, intelectual de esquerda ou um político.
E, neste ponto, penso que convém não confundir o sociólogo com o intelectual. O
risco aqui é cair numa discussão sobre a definição de intelectual, discussão
que não terminaria nunca e nos levaria a tentar classificar os tipos de
intelectual. Mas, qualquer que seja a definição, geralmente o intelectual é
alguém que fala para a sociedade e divulga uma verdade que contém uma crítica,
mais ácida ou mais suave, à ordem existente. Por isso, o contacto dos chamados
"intelectuais críticos" com as classes trabalhadoras sempre acaba tendo um
componente político. O intelectual pretende ser a figura dominante dessa
relação, passar uma mensagem que se legitima pelo saber que supostamente teria.
No caso da visão leninista, a posição dominante do intelectual é explícita. Sem
o intelectual socialista, que dominaria a teoria marxista, a classe operária
"por si só", como dizia Lênin no Que fazer, não vai além do economicismo.
Nas situações em que a classe operária está desorganizada sindicalmente, é
muito pobre e humilde, os intelectuais de esquerda podem efetivamente ter
alguma influência doutrinária e política sobre os trabalhadores e os pobres. No
entanto, quando há sindicatos fortes com lideranças vindas do próprio meio, a
influência dos intelectuais de esquerda, normalmente efetivada por meio de um
partido, tende a se reduzir ou mesmo a desaparecer. As lideranças sindicais não
gostam desses intrusos que se metem na seara alheia e pretendem ganhar a sua
clientela. Os sindicalistas tendem a ser reformistas e moderados; os
intelectuais tendem a ser críticos do status quoe freqüentemente das chefias
sindicais moderadas ou conformistas.
Assim, vejo uma diferença entre o intelectual e o sociólogo do trabalho. Ao
contrário do intelectual, o sociólogo é, ou deveria ser, um profissional que
pretende analisar um objeto, um sindicato, um grupo de trabalhadores,
geralmente. Não deveria querer doutrinar os trabalhadores. Portanto, em
princípio, teria menos atritos com as chefias dos sindicatos. Mas, mesmo se
limitando ao seu trabalho de pesquisa, pode ter atritos com lideranças
sindicais. Os sindicatos são instituições burocráticas com interesses próprios.
Quase sempre estão divididos em facções. O sociólogo do trabalho, para fazer
uma pesquisa com alguma objetividade, pode ter que revelar aspectos que as
chefias sindicais não gostariam de ver divulgadas. Assim, mesmo não sendo um
militante revolucionário que pretenda influenciar os associados, um pesquisador
"neutro" pode se ver também em situações delicadas que o levariam a atritar com
as cúpulas sindicais.
Mas de que maneira você, como pesquisador, como intelectual, se enquadra nessa
análise ampla que acabou de fazer?
É uma boa pergunta... Podemos passar para outra? [risos]. Eu me via
simplesmente fazendo um trabalho acadêmico sobre um assunto que me interessava.
Obviamente, tinha muita simpatia com meu objeto. Sem essa simpatia dificilmente
se pode fazer um bom trabalho. Mas não tinha nenhuma pretensão de influenciar
os trabalhadores.
Pensando um pouco nos contatos, nas interlocuções nacionais e internacionais...
Você falou de Touraine naquele período, mas na medida em que você foi
consolidando a carreira e amadurecendo que contatos nacionais foram
importantes? Eventualmente só se deram num âmbito de rede, como a da Anpocs por
exemplo, e também no âmbito internacional?
Em termos de estágio ou trabalho no exterior, em comparação com alguns colegas
de nível profissional mais ou menos igual ao meu, minha experiência
internacional não foi grande. Passei, em 1969-1970, um ano escolar como
professorvisitante na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica.
Naturalmente, estive muitas vezes fora do Brasil em congressos e reuniões e
estágios de curta duração. Fiz palestras em outros países e estive por três ou
quatro vezes como diretor-associado na École Practique des Hautes Études, a
convite de Touraine e Bourdieu. Mas foram curtas temporadas de um mês. Ao
contrário de vários colegas que passaram anos de sua vida acadêmica estudando
ou lecionando em universidades estrangeiras, sempre tive dificuldade para morar
no exterior. Não gosto de me sentir estrangeiro. Gosto de viver no Brasil. Não
consigo produzir intelectualmente ou pesquisar fora daqui.
Os trabalhos do Touraine sobre o sindicalismo e a classe operária me
influenciaram. Na tese de doutorado, utilizei alguns de seus conceitos. Mas não
posso me considerar seu discípulo ou seguidor. Não consegui acompanhar suas
considerações sobre a "sociologia da ação". Às vezes, não entendia ou não
achava corretas certas passagens. Mas tinha boas relações com ele e lia seus
escritos. Eu o achava muito inventivo e estimulante. Aqui, da América Latina,
gosto dos trabalhos do argentino Torcuato Di Tella, de quem sou amigo há muito
anos. Torcuato, que é realmente um intelectual cosmopolita, tem muitos estudos
sobre sindicalismo e classes trabalhadoras. Gosto do tipo de análise que ele
faz. Não é exatamente political science, mas sociologia política focalizando,
geralmente de um modo "macro", os movimentos sociais e políticos, os partidos e
o sindicalismo da América Latina. Mas de modo geral, tenho uma visão eclética
das ciências sociais. Não me pretendo discípulo de ninguém ou seguidor de
alguma escola, o que me dá mais liberdade para me apoiar e buscar dados em
várias fontes.
***
Bem, tentei fazer um breve relato de minha carreira acadêmica e transmitir
alguma informação sobre o aparecimento da sociologia do trabalho em São Paulo.
Também procurei passar, de modo bem sintético, um ou outro dado mais concreto
vindos das pesquisas que efetuei. Mas tenho consciência de que foi tudo um
pouco superficial. Agradeço a José Ricardo e a todos vocês a paciência de me
escutarem. Para mim, foi realmente um encontro muito estimulante.
Notas
1 Além dos professores do curso "Sociologia do Trabalho no Brasil", José
Ricardo Ramalho e Marco Aurélio Santana, participaram também da entrevista os
professores Elina Pessanha (PPGSA-UFRJ) e José Sérgio Leite Lopes (PPGAS-UFRJ),
e os alunos do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.