As bases do Lulismo: a volta do personalismo, realinhamento ideológico ou não
alinhamento?
Introdução
Em outubro de 2006, Lula foi reeleito com margem considerável de votos. Tal
feito seria impensável um par de anos antes. No meio de seu primeiro mandato, a
administração petista viu-se às voltas com o envolvimento de sua alta cúpula em
escândalos sucessivos de corrupção. Deu-se por certa, principalmente pela
oposição, a derrota do governo nas eleições de 2006. Chegou-se, inclusive, a
cogitar a hipótese de um pedido de impeachment, mas não se foi adiante com a
ameaça apostando em que a sina eleitoral de Lula estava traçada pelos
escândalos de corrupção. Como, então, um desacreditado Lula conseguiu a
reeleição em 2006, com confortável margem de votos no segundo turno das
eleições?
A resposta passa por uma constatação inicial básica: desde a sua primeira
candidatura à presidência, em 1989, Lula e o Partido dos Trabalhadores(PT)
sedimentaram seu papel na política brasileira' mas não necessariamente na mesma
intensidade. Inicialmente, o PT conseguiu consolidar-se como uma alternativa
viável no Poder Legislativo no nível federal e nos níveis Executivos
municipais. O partido cresceu de forma inconteste. Enquanto isso, Lula sofria
derrotas eleitorais consecutivas, primeiro para Fernando Collor, em 1989, e
depois para Fernando Henrique Cardoso, nas eleições de 1994 e 1998.
Em 2002, Lula renasce das cinzas eleitorais como candidato não só dos petistas,
mas de uma parcela maior da população brasileira. O PT também se torna o maior
partido na Câmara dos Deputados. Dessa forma, podemos afirmar que até 2002, o
eleitorado de Lula não era assim tão distinto daquele do PT (Hunter e Power,
2007; Zucco, 2008).
Em 2006, no entanto, a diferença entre os eleitorados de PT e Lula tornou-se
mais profunda, principalmente em sua dimensão geográfica (Idem, ibidem).
Portanto, parece haver, principalmente a partir de 2002, um descolamento maior
entre o voto em Lula e o voto no PT. O objetivo deste trabalho é traçar o
perfil predominante, se houver algum, da parcela da população que votou em Lula
em 2006, mas que não simpatiza ou tem preferência pelo PT. Em outras palavras,
pretendemos explorar o que diferencia os lulistas dos petistas. Assim sendo,
nossa pergunta é: o lulismo, entendido como aprovação e lealdade ao líder Luis
Inácio Lula da Silva, que transcende a identificação partidária com o PT, é
motivada por quais fatores? Quais são as bases do lulismo? Este artigo,
portanto, contribui para o crescente debate sobre esse tema no Brasil (Samuels,
2004a; Singer, 2009).
Embasados em pesquisa de opinião pública realizada ao final das eleições de
2006, acrescentamos dois elementos ao estudo do tema ainda ignorados pela
literatura especializada (Idem, ibidem). Primeiro, decompomos o voto em Lula,
além de diferenciá-lo do voto nos demais candidatos. Os estudos anteriores
sobre lulismo, tanto de Samuels (2004a) como de Singer (2009), não atentam para
as possíveis diferenças internas no interior do dito lulismo. Samuels
diferencia petistas dos demais eleitores; Singer analisa apenas cruzamentos de
ideologia e renda com intenção de voto. Aqui, matizamos as potenciais
diferenças entre lulistas novos, que passaram a votar em Lula em 2006, e
lulistas antigos, que votaram em Lula em 2002 e 2006. Ambos os grupos são
formados por eleitores que declararam voto em Lula, mas não se identificam com
o PT. Iremos, portanto, desagregar o eleitorado brasileiro em diversas
categorias ' lulistas antigos, lulistas novos, petistas e demais eleitores
Desta forma poderemos identificar o impacto de diferentes variáveis políticas,
econômicas e sociais na diferenciação entre esses grupos. 1
Nossas hipóteses serão derivadas não só dos dois estudos supracitados (Samuels,
2004a; Singer, 2009), como também de uma extensa literatura sobre os
determinantes de curto e longo prazo do voto. Nossas conclusões distanciam-se
das alcançadas por Samuels e Singer. Os resultados indicam que os lulistas não
representam um novo realinhamento político-ideológico, com base em classe e
ideologia, como argumenta Singer, nem uma nova forma de personalização da
política, como defende Samuels. O lulista, na verdade, é um eleitor pouco
informado politicamente e desatento a campanhas eleitorais, que não apresenta
afinidades partidárias de qualquer tipo ou intensas rejeições a partidos, e
tampouco, identificações personalistas fortes. Contradizendo os estudos
anteriores, detectamos que os eleitores que declaram identificação com o PT, os
aqui chamados petistas, simpatizam mais fortemente com a pessoa de Lula do que
os eleitores lulistas.
Em suma, o lulista assemelha-se ao eleitor não alinhado, ou independente, no
sentido atribuído ao conceito pelos estudos de comportamento eleitoral nos
Estados Unidos.2 O eleitor não alinhado é aquele que não demonstra preferências
políticas fortes e que vota, até certo ponto, influenciado por suas redes
pessoais ou sua avaliação retrospectiva do desempenho do governo. Ele, por sua
vez, não se concentra em uma classe social específica, distribuindo-se por
diferentes camadas sociais, dispersando-se entre elas. Assim, no caso
brasileiro, trata-se de um eleitor que não é fiel à Lula a despeito do
desempenho do governo ou por motivações ideológicas: não é um eleitor que segue
o líder incondicionalmente ou que o escolhe porque esse líder apresenta postura
ideológica similar à do eleitor. Portanto, mais do que um atributo pessoal e
ideológico de Lula, o desempenho de seu governo é crucial para entendermos uma
parte do voto em Lula. Uma outra parte, menos influenciada pelo desempenho do
governo, é determinada possivelmente por fatores mais circunstanciais e menos
estruturais.
Nesse sentido, parcela dos eleitores lulistas, provavelmente, são os mesmos que
votaram em Fernando Henrique Cardoso duas vezes no passado, mas não em seu
sucessor em 2002, e que seguirá votando em políticos que fazem boas
administrações e campanhas eleitorais eficientes.3 Portanto, o lulismo não
representa um realinhamento partidário estável e tampouco a volta da
personalização à política brasileira. Se há algo que pode explicar em parte o
lulismo é o voto retrospectivo, que avalia o governante no poder.
Para desenvolver esse argumento, este texto parte de uma discussão sobre as
eleições de 2006, relacionado-a com o debate sobre lulismo e petismo,
desenvolvido mais detalhadamente na terceira seção. Em seguida, discorre
brevemente sobre a literatura acerca dos determinantes de curto e longo prazo
do voto que podem ser utilizados para se pensar o lulismo. Expomos a seguir as
hipóteses e a discussão dos resultados da análise. Nos comentários finais não
só refletimos sobre o impacto do lulismo em 2006, mas também especulamos sobre
seus desdobramentos eleitorais no futuro e lançamos propostas para novas
pesquisas sobre o tema.
As eleições presidenciais de 2006
As eleições de 2006 tiveram diversas características importantes: foram
precedidas por uma campanha pautada por acusações de corrupção à alta cúpula do
governo petista. Portanto, trouxe de volta à agenda nacional a discussão sobre
corrupção. Também foi a primeira oportunidade que o eleitor teve para exercer
algum tipo de voto retrospectivo que comparasse os mandatos presidenciais do PT
e PSDB. Além disso, a eleição registrou uma mudança geográfica da base de apoio
de Lula, o que dá margem para especulações sobre um possível realinhamento
político de longo prazo no país.
De acordo com dados do Eseb de 2006, a corrupção foi o traço marcante dessa
eleição, principalmente em comparação com 2002.4 Os anos anteriores à eleição
de 2006 presenciaram diversos escândalos que atingiram a alta cúpula do governo
Lula. A oposição, obviamente, deu destaque a essa questão em sua propaganda
eleitoral. Rennó (2006, 2007) e Carvalho (2006) especulam que apenas houve
segundo turno por conta dos escândalos de corrupção. Do contrário, Lula teria
ganhado no primeiro turno e com boa margem de votos. Rennó e Hoepers (2010)
apresentam evidências de que uma parcela relevante do eleitorado votou de forma
estratégica nas eleições de 2006. Esse eleitorado puniu Lula pelo envolvimento
de sua administração em escândalos de corrupção, embora Lula fosse um de seus
candidatos preferidos.
Não obstante esse cenário, Lula conseguiu ser reeleito com margem satisfatória
de votos no segundo turno. Essa margem, por sinal, foi obtida graças ao grande
apoio de eleitores em regiões que Lula anteriormente não tinha tanta força
eleitoral, ampliando o descolamento do voto em Lula e no PT. O fato mais
marcante, no entanto, foram os resultados obtidos na região Norte e Nordeste,
onde o ganho percentual sobre as eleições de 2002 foi expressivo (Zucco, 2008;
Hunter e Power, 2007).
Diversos trabalhos, como os de Nicolau e Peixoto (2007), Hunter e Power (2007),
Zucco (2008), Abensur et al. (2007), Ferreira et al. (2007) e Lício et al.
(2009), por exemplo, correlacionam tal ganho com o programa Bolsa Família, que
ganhou uma magnitude nunca antes vista durante o primeiro mandato de Lula '
aproximadamente 8 bilhões de reais por ano.5 A maior parte desses recursos
direcionou-se às regiões em que, depois se constatou, Lula teve maior ganho
eleitoral. Singer (2009) acrescenta a isso os vários ganhos econômicos que
beneficiaram eleitores dessas regiões, como redução no custo da cesta básica,
crédito consignado e maior acesso a financiamentos públicos. Já as regiões que
foram sub-representadas na alocação de recursos do Bolsa Família e que não
foram tão beneficiadas pelas outras políticas mencionadas acima, votaram menos
em Lula.
Para Baquero (2007), a campanha de Lula, principalmente entre os dois turnos
das eleições, reforça a percepção de que as políticas sociais, mais
especificamente o programa Bolsa Família, teve impacto central na vitória do
governo nas eleições. Segundo o autor, isso foi uma tentativa deliberada de
focar a eleição em Lula e não no partido, o PT, resgatando uma velha tradição
personalista existente no país. Assim, o lulismo seria uma retomada de padrões
tradicionais da política brasileira, que enfocam mais as características
pessoais dos líderes do que as instituições. As afirmações de Baquero tem
grande ressonância com a tese de Samuels (2004a) de que o petismo é, em grande
parte, expressão do lulismo.
Essa interpretação estimula-nos a traçar um esboço mais detalhado do eleitor de
Lula para tentar determinar o que de fato levou à configuração eleitoral que
marcou o pleito de 2006. A coincidência geográfica por si só não permite chegar
a conclusões sobre os determinantes individuais do voto. Uma constatação é
óbvia: a base geográfica do voto em Lula mudou e sua votação se descolou da do
PT nas últimas eleições. Isso dá indícios de que a identificação partidária com
o PT, sempre uma variável suspeita de influenciar o voto em Lula, não é
explicação nem necessária e muito menos suficiente para entendermos a escolha
eleitoral por Lula. A questão é de matemática simples: há mais lulistas do que
petistas. Assim, fatores de curto prazo, como as características pessoais de
Lula e seu estilo de governar podem ter afetado seu sucesso eleitoral,
independentemente do PT (Samuels, 2004a).
O foco deste trabalho são esses últimos eleitores, ou seja, os lulistas "não
petistas". A literatura sobre comportamento eleitoral no Brasil tem destinado
atenção ao tema, discutindo tanto as raízes da identificação com o PT como as
bases do lulismo. Assim, o que se busca identificar são os traços
característicos do lulismo. Trata-se de uma volta do personalismo ou de um
realinhamento eleitoral, de cunho ideológico? Ou ainda, não será o lulismo uma
simples reação de aprovação do eleitor pelos ganhos obtidos durante sua
administração? Por último, o voto dado a Lula em 2006 não poderia ser simples
expressão de apoio ao líder das pesquisas ou influência de redes sociais locais
em um eleitor pouco interessado por política e não alinhado ideologicamente?
Passemos à esse debate.
O petismo e o lulismo
"As bases do petismo", de David Samuels (2004a), coloca algumas interessantes
questões: sendo o PT o partido com o maior número de simpatizantes no Brasil, o
que explica tamanho apoio? O apoio ao PT se dá com bases distintas do apoio a
outros partidos? Mais ainda, qual a relação entre simpatia com PT e com Lula?
Sendo o PT o partido considerado mais institucionalizado, as raízes do petismo
são personalistas e influenciadas por Lula?
Assim, o autor busca identificar as raízes do petismo medindo o apoio ao PT com
base na identificação partidária e testando várias hipóteses sobre o que
diferencia os petistas dos demais eleitores. Samuels refuta a maioria das
hipóteses, indicando que os petistas se assemelham à maior parte da população
em vários aspectos. Não obstante, algumas variáveis apresentam resultados
estatisticamente significativos, sendo a mais importante a opinião sobre Lula,
seguida pelo auto-posicionamento de esquerda. A primeira corrobora os estudos
de Von Mettenheim (1995, apud Samuels, 2004a), Carreirão (2002a) e Almeida
(2004, apud Samuels, 2004a), para quem o personalismo é a variável mais
importante na definição do voto no Brasil, e a segunda, os estudos de Singer
(1999), que enfatiza posições ideológicas do eleitor petista. Mesmo o PT sendo
menos influenciado pela identificação com Lula do que outros partidos são por
seus líderes, ainda sim o petismo é, em boa margem, fruto da simpatia por Lula.
Além disso, Samuels se pergunta também quais os fatores que influenciam a
simpatia por Lula, entrando em um debate próximo à ideia das bases do lulismo.
Em sua análise, que avalia a opinião sobre diversos temas e sua correlação com
apoio a Lula, a simpatia por Lula está correlacionada a uma tolerância a
protestos políticos. Outros fatores, como a crítica ao clientelismo e a
tolerância à corrupção, não estão associados à simpatia por Lula, apesar de
isso ocorrer em relação a líderes de outros partidos. Mas, Samuels não vai
muito além dessas afirmações em seu trabalho, que se volta mais para explicitar
as bases personalistas da identificação com o PT do que explicar o que leva
eleitores a apoiarem Lula.
O que, então, leva eleitores a simpatizarem com Lula? Se aceitarmos que
identificação com partidos políticos no Brasil é, em parte, condicionada pela
simpatia personalista por líderes, então explicar as bases do lulismo parece
ser mais relevante do que explicar as bases do petismo. Isso se torna ainda
mais central tendo em mente o descolamento do voto em Lula do voto no PT no
pleito de 2006.
É justamente a essa tarefa que se dedica André Singer em artigo recente,
polêmico e bastante influente. Para ele, o lulismo é resultado de um
"realinhamento político de estratos decisivos do eleitorado" e "expressa um
fenômeno de representação de uma fração de classe que, embora majoritária, não
consegue construir desde baixo as próprias formas de organização" (2009, pp.
83-84). Essa fração de classe é caracterizada por uma expectativa de Estado
forte, que reduz a desigualdade, mas sem ameaçar a ordem estabelecida. De
acordo com Singer, há um realinhamento político significativo, pois esse grupo
de eleitores passa a ser a base de apoio de Lula em 2006, com implicações de
longo prazo para a disputa política no Brasil.
Ainda segundo Singer, Lula finalmente conquistou o eleitor que ganhava até
cinco salários mínimos e principalmente aqueles que ganhavam até dois salários
mínimos nas eleições de 2006. Isso representou uma mudança dramática em sua
base eleitoral, antes dominada por setores da classe média, composta por
intelectuais, estudantes, funcionalismo público e profissionais liberais. Foi
só durante seu primeiro mandato que Lula conseguiu construir uma base de apoio
sólida entre os setores mais pobres da população, enquanto perdeu entre a
classe média e alta. Mas o que teria gerado,então, esse realinhamento?
Singer passa então a divulgar os ganhos ocorridos no primeiro mandato de Lula e
a contabilizar as perdas causadas pelos escândalos de corrupção. Ambos os
fatores levaram ao realinhamento eleitoral. Lula perde setores da classe média
por conta do "cerco político-midiático" que sofreu entre maio e novembro de
2005 referente aos escândalos de corrupção (Idem, p. 84). Mas ganha setores
mais pobres da população. Primeiro, Lula mantém as políticas de estabilização
econômica iniciadas pelos governos de Fernando Henrique Cardoso. Em seguida,
Singer ressalta uma série de outras decisões importantes que o governo Lula
tomou e que levaram a ganhos na qualidade de vida da população, principalmente
dos setores mais pobres.
A lista é grande e passa pelos programas sociais (principalmente, mas não
exclusivamente o Bolsa Família), aumentos no poder de compra com quedas nos
preços da cesta básica no Norte e Nordeste, aumento do salário mínimo, crédito
consignado e expansão do financiamento popular. Segundo o autor, citando o
trabalho de Marcelo Neri intitulado "O Real de Lula", há, a partir de 2004,
diminuição significativa da pobreza. Assim, parte das bases do lulismo são
materiais e devem-se aos ganhos econômicos que setores excluídos tiveram em seu
primeiro mandato.
Singer, no entanto, vai além e argumenta que há bases ideológicas para o
lulismo. A ideia é de que o lulismo representa uma nova orientação ideológica,
marcada pela preferência por redução da desigualdade, mas com manutenção da
estabilidade. Lula cria uma ponte ideológica com os eleitores mais pobres ao
manter a estabilidade econômica em seu governo. Para ele, portanto, há
diferença entre o eleitorado do PT e o eleitorado de Lula, sendo que Lula
consegue agora agregar setores conservadores e de direita das camadas mais
pobres da população. Ou seja, não é que os mais pobres deixem de ser
conservadores e de direita, é que Lula agora se molda a esse eleitorado em seu
discurso e prática. Assim, Lula reúne eleitores de direita e de esquerda em sua
base eleitoral.
É claro que tanto Samuels como Singer dão passos importantes para entendermos o
fenômeno do lulismo. Samuels, na verdade, dá suporte às afirmações de Baquero
ao afirmar que o petismo é embasado, em boa parte, na simpatia por Lula, ou
seja, no personalismo. Mais importante ainda, já em 2002 Samuels aponta para o
fenômeno do lulismo, indicando que este não é fruto de um realinhamento
político que ocorre apenas durante o primeiro mandato de Lula, como argumenta
Singer. Mais adiante, ao diferenciarmos os diferentes tipos de eleitores no
Brasil, comprovaremos que uma boa parcela dos eleitores que votam em Lula não
simpatizam com o PT, e esse fato não constitui fenômeno novo na política
brasileira. A maioria, 75% destes, já havia votado em Lula em 2002! Esse é um
primeiro indício que questiona a ideia de realinhamento ocorrido em 2006
proposta por Singer. Há traços de que o lulismo já existe desde muito. Em 2006
Lula incorporou um novo setor do eleitorado, que não votava nele antes e que
não é petista, mas sim avesso a partidos políticos e lideres específicos. Lula
conquistou o eleitor não alinhado em 2006. Se isso se mostrar estável no tempo,
então estamos falando de um alinhamento eleitoral que se inicia agora, e não de
um realinhamento, o que pressupõem que esse eleitorado tinha preferências
definidas anteriormente.6
Além disso, a despeito de suas inegáveis contribuições, nenhum desses estudos
testou corretamente as hipóteses sobre o que pode diferenciar o lulismo do
petismo. Samuels é, sem dúvida, o que mais se aproxima desse objetivo, testando
hipóteses usando técnicas de estimação econométrica multivariada, mas falhando
ao não diferenciar lulismo de petismo em sua variável dependente. Ao avaliar a
identificação com o PT com base em simpatia por Lula usando apenas uma pesquisa
pós-eleitoral, Samuels incorre em erro grave de especificação do modelo quando
desconsidera o problema da endogeneidade.7 Não sabemos qual variável é causa e
efeito: para ele o lulismo causa o petismo, mas pode muito bem ser o contrário.
Ou seja, não sabemos a direção da causalidade no argumento de Samuels. Em nosso
trabalho, analisamos o lulismo separando-o do petismo.
Singer, por sua vez, testa suas hipóteses de forma mais descritiva,
apresentando a relação entre número de salários mínimos e preferência
ideológica com voto. Com bases nesses dados, ele constrói o argumento de que
Lula conquistou a periferia, como Collor havia feito em 1989 (Singer, 1990). No
entanto, é importante ressaltar que, para Singer, de forma distinta a que
ocorreu com Collor em 1989, a conquista da periferia por Lula é diferente e não
é, aparentemente, um sinal de populismo, como aconteceu no caso de Collor.
Na realidade, esse ponto gera ainda mais confusão sobre o que é realinhamento
eleitoral. Realinhamento implica em mudanças de preferências ideológicas e
partidárias do eleitorado com durabilidade no tempo (Valentino e Sears, 2005;
Putz, 2002; Abramowitz e Saunders, 1998). Mas o argumento de Singer enfoca não
uma mudança do eleitorado, mas sim da posição de Lula. E não sabemos ainda se
essa mudança, de elites e não de massas, é de longo prazo.
Segundo Singer, as constantes declarações de Lula a favor da manutenção da
estabilidade satisfizeram não só os banqueiros e investidores, nacionais e
estrangeiros, como também o eleitor pobre e conservador, que teme a ruptura da
ordem, embora deseje a redução da desigualdade e pobreza. Assim, a própria
argumentação de Singer pode nos levar a pensar que Lula de 2006 passa a ser
mais parecido com Collor em 1989, em seu discurso, do que a achar que tenha
havido, de fato, um realinhamento ideológico e partidário do eleitor. Essa
afirmação se torna ainda mais pertinente tendo em vista o deslocamento do voto
no Partido dos Trabalhadores do voto em Lula em 2006. Ou seja, o voto em Lula
deixa de ter bases partidárias, o que caracteriza o populismo atribuído à
Collor, quando este conquista a periferia em 1989, pelo próprio Singer (1996).
Seguindo essa linha de raciocínio, o eleitor continua o mesmo, quem teria
mudado é Lula. A pergunta correta então seria: há um realinhamento de elites ou
de massas no Brasil no período de 2002 a 2006? Essas mudanças são permanentes
ou refletem apenas um episódio circunstancial?
Para além dessas questões, que não poderão ser respondidas de forma definitiva
aqui, nenhuma das hipóteses básicas sobre lulismo são adequadamente testadas
por Singer, já que não são contrapostas a outras possíveis explicações. Singer,
portanto, também comete erro de especificação do modelo ao não incluir em sua
construção teórica possíveis alternativas explicativas para o fenômeno
estudado. Ou seja, não há controle por causas espúrias (King et al., 1994).
Argumentamos, dessa forma, que estudos anteriores não testaram adequadamente as
hipóteses que diferenciam lulismo de outras tendências político-partidárias.
Faremos isso decompondo o voto em Lula, diferenciando-o do petismo e do voto em
outros políticos e buscando explicações para essas variações não só na
literatura sobre o caso brasileiro, mas nos amplos estudos sobre comportamento
eleitoral.
Os determinantes de curto e longo prazo
Desde a década de 1960, um grande debate sobre o que determina o voto ' e em
que grau ' se desenvolveu na literatura norte-americana. A discussão geralmente
revolve em torno do impacto de preferências sobre temas (issues), partidos e
características de candidatos no voto, com bastante dissenso sobre o que é mais
importante na mente do eleitor na hora de escolher seus candidatos. De qualquer
forma, uma boa maneira de resumir o debate é centrá-lo em dois grandes grupos
de fatores que explicam as escolhas eleitorais: fatores de longo prazo, mais
duradouros e gerais, e de curto prazo, específicos, circunstanciais a
determinada eleição ou campanha eleitoral (Niemi e Weisberg, 2001).
Entre os fatores de longo prazo, destaca-se, primeiramente, a identificação
partidária. Tal conceito foi introduzido na década de 1960 para tratar de
sentimentos de eleitores sobre partidos políticos, que antecedem as eleições e
marcam suas trajetórias de vida. Sua importância na literatura, principalmente
norte-americana, declinou nas décadas de 1970 e 1980, mas houve uma
revitalização na década de 2000 (Idem).
No Brasil, a identificação partidária é uma variável de difícil e controverso
tratamento. Há um amplo debate sobre qual o impacto que a identificação
partidária teria no voto. Tende a haver consenso de que o PT funciona como uma
âncora do sistema político, centralizando simpatia e rejeição que influenciam
escolhas eleitorais (Carreirão e Barbetta, 2004). Rejeição a partidos passa a
ser, então, fator importante para entender o papel destes na organização das
preferências eleitorais no Brasil.
Além da identificação partidária, a identificação ideológica é fundamental para
se entender o voto. Singer define identificação ideológica como "a adesão a uma
posição no contínuo esquerda-direita ou liberal-conservador que, mesmo sendo
difusa, isto é, cognitivamente desestruturada, sinaliza uma orientação política
geral do eleitor" (1999, p. 49). Para Singer, essa seria a principal variável
na previsão do voto nas eleições de 1989 e 1994. Essa linha de raciocínio segue
a discussão de Pappi (1996), que aponta para o papel central que predisposições
ideológicas têm em sistemas multipartidários. No caso em que há muitos partidos
políticos, gerando sobreposição de partidos considerados de esquerda e de
direita, a orientação ideológica passa a ser um diferencial mais marcante entre
os competidores na arena política do que a identificação partidária. Contudo, a
mensuração de ideologia esbarra em um problema metodológico, que é muito
significativo em pesquisas de opinião pública, pois muitos eleitores não
conseguem se posicionar nesse escala ou entender seu significado.8
A associação do eleitor a determinados grupos, como classes sociais, religião,
gênero etc., também é tida como um importante fator na decisão de voto, mas não
de forma intrínseca, e sim quando existe algum fator político que potencialize
a relevância da associação. Em 2006, classe social teria tido tal papel
(Holzhacker e Balbachevsky, 2007; Singer, 2009).
Um último fator importante de determinação do voto tem natureza ambígua quando
pensamos em sua dimensão temporal, se relacionado com o longo ou o curto prazo:
trata-se do voto econômico, ou seja, a noção que o estado da economia afeta a
decisão de voto. Há grande debate quanto à forma pela qual a economia afeta o
voto, sendo que a discussão principal recai sobre avaliações retrospectivas,
baseadas no desempenho passado do governante, e prospectivas, relativas a
promessas para o futuro (Fiorina, 1981). Lewis-Beck e Nadeau (2001) argumentam
que, nos Estados Unidos, avaliações retrospectivas são especialmente
importantes em eleições nas quais um dos candidatos busca a reeleição, ao
contrário do que ocorre em relação a avaliações prospectivas. Adaptando essa
discussão para a América Latina, Stokes (2001) discute a possibilidade do
cálculo intertemporal, ou seja, uma análise de custos e benefícios
intertemporais feita pelo eleitor, o que pode levá-lo a tolerar resultados
econômicos ruins no curto prazo desde que haja expectativa de melhora no
futuro.
De qualquer forma, a conclusão de Niemi e Weisberg (2001) sobre o assunto é que
a importância da economia sobre o voto varia com fatores institucionais e
temporais que possam afetar a atribuição de responsabilidades sobre políticas
públicas. Portanto, apesar de ser importante em qualquer eleição, aproximando o
voto econômico retrospectivo de uma explicação de longo prazo da explicação do
voto, há, ainda, um componente conjuntural ao voto econômico, dependente do
desempenho do governante do momento, o que o aproxima de um fator de curto
prazo para a explicação do voto.
Além disso, a economia não seria o único componente de uma avaliação
retrospectiva ou prospectiva. Rennó (2007), por exemplo, introduz a questão da
corrupção como possível influência do componente retrospectivo do voto e
analisa seus efeitos sobre as eleições presidenciais de 2006. Já Almeida (2008)
discute a influência de avaliações retrospectivas de caráter mais geral, sem
destacar um aspecto específico da atuação do governo.9
Em relação a fatores de curto prazo, a estratégia da campanha eleitoral e das
propagandas dos candidatos, os debates entre candidatos e a opinião sobre
características pessoais de candidatos (considerados fatores de curto prazo,
pois seriam específicos a cada campanha) seriam os mais importantes. Podemos
acrescentar à esses fatores também a influência de redes sociais, que podem
influenciar as escolhas eleitorais individuais de eleitores (Baker, Ames e
Rennó 2006). Niemi e Weisberg (2001), ao revisar a literatura, concluem que o
grande efeito das campanhas seria de informar e "ativar" as preferências do
eleitor. Ou seja, o impacto de fatores de curto prazo é condicionado pelos de
longo prazo.
Fatores de curto prazo tendem a ser mais relevantes em sistemas onde fatores de
longo prazo são ineficientes para diferenciar candidatos. Uma possibilidade,
portanto, é que em sistemas políticos novos, ainda não institucionalizados,
onde partidos políticos não têm reputações estabelecidas e as divisões
ideológicas são obscuras, fatores de curto prazo, como o impacto da campanha,
das propagandas e das características dos candidatos, ganham maior relevância.
Ou, ainda, em sistemas democráticos novos, é possível que tanto fatores de
curto como de longo prazo influenciem as escolhas eleitorais, sendo que apenas
a verificação empírica pode comprovar o grau de influência de cada um. Adotamos
aqui essa última postura e passamos então a discutir hipóteses que expliquem a
adesão à Lula em detrimento de outras escolhas eleitorais com base nas
variáveis-chave discutidas anteriormente.
Hipóteses
Nosso objetivo é modelar o que leva um eleitor a apoiar Lula, independentemente
do PT. Assim, enfocamos os eleitores que votaram em Lula, mas não simpatizam
com o PT (lulistas), e os contrastamos com os petistas que votaram em Lula
(petistas) e com os não-lulistas, não-petistas (Outros), aqueles que não
simpatizam com o PT e que não votaram em Lula.
No Eseb 2006, com base no resultado do primeiro turno, os lulistas somam 40% do
total; os petistas somam 18% da amostra e os demais eleitores chegam a 42%.
Portanto, fica claro que a base de apoio de Lula transcende em muito a de
eleitores que se identificam com o PT.
Além disso, podemos diferenciar entre lulistas novos e antigos, distinguindo
entre aqueles que votaram em Lula pela primeira vez em 2006 dos que já haviam
votado nele em 2002. Essa diferenciação é importante porque o argumento de
Singer refere-se, principalmente, ao eleitor de Lula que passa a votar nele
apenas em 2006. Assim, os dados do Eseb apontam que os lulistas que votaram em
Lula pela primeira vez em 2006 somam 25% desse grupo, sendo que 75% declaram
ter votado em Lula em 2002. Ou seja, o fenômeno do lulismo não é recente.
Quando pensamos em quatro possíveis grandes grupos eleitorais no Brasil, temos
os lulistas antigos somando 27% do total dos eleitores, lulistas novos
totalizando 13% e petistas que votam em Lula, 18%. Os restantes 42% votam em
outros candidatos e não simpatizam com o PT. Serão esses os quatro grupos
analisados aqui.
Esse achado descritivo põe parcialmente em xeque a ideia de realinhamento
proposta por Singer. O lulismo, como também já havia apontado Samuels, não é
fenômeno recente e remonta, no mínimo, ao ano de 2002. Mesmo assim, é
importante verificar o que diferencia os distintos grupos dentro do lulismo. Só
então poderemos afirmar com certeza quais os componentes sociais, econômicos e
políticos que configuram a base de apoio de cada uma dessas opções político-
eleitorais.
Para analisarmos a variação combinada nas preferências eleitorais e
partidárias, e destrinchar a votação de Lula entre eleitores com perfil
distinto, utilizaremos um modelo multivariado que inclui várias hipóteses sobre
o lulismo.10
A primeira hipótese que testaremos é aquela proposta por Singer sobre renda,
que para ele representa um amálgama dos diversos sucessos econômicos e das
políticas sociais de Lula (2009). Para Singer, a chave do realinhamento
eleitoral de 2006 é o ganho de apoio significativo nos eleitorados de
baixíssima renda, menos de dois salários mínimos, assim como o ganho, também
considerável, entre eleitores de baixa renda ' que recebem entre dois e cinco
salários. Como Singer, usamos também a renda da família como uma proxypara o
público beneficiado por programas sociais, aumento do salário mínimo e
programas de expansão do crédito e financiamento popular. Trabalharemos essa
variável, em virtude de sua importância no modelo, como uma série de variáveis
dummies, em vez de uma variável contínua, já que se espera que seu impacto
favorável ao lulismo seja bem mais acentuado nas categorias mais baixas de
renda, portanto apresentando efeito não linear. Essa variável é o principal
teste da hipótese de realinhamento proposta por Singer. Em se confirmando que
há preferência maior por Lula entre os eleitores pobres, teremos possíveis
indícios de que classe foi fator decisivo nas eleições.
Seguindo a tradição de Singer (1999, 2009), também se considerarão os efeitos
do posicionamento esquerda-direita sobre o apoio a Lula. A literatura chegou a
resultados divergentes em relação à importância desse fator na decisão de voto'
Singer (2000) enfatiza tal variável, enquanto Carreirão (2002b) considera-a de
menor importância, especialmente para os menos educados. Em 2006, no entanto,
como mostra Carreirão (2007a), o primeiro mandato tornou as diferenças entre
partidos brasileiros menos claras em termos ideológicos na percepção de parte
considerável do eleitorado brasileiro. Isso significa que, diferentemente de
outras eleições, o posicionamento de Lula no espectro esquerda-direita pelo
eleitor deve ter sido dificultado, obscurecendo o impacto empírico dessa
variável.
Singer propõe interpretação diversa para o impacto da ideologia em 2006,
contradizendo Carreirão. Lula conquista, ideologicamente, um novo eleitorado,
que não é de esquerda. Assim, o eleitor de Lula passa a ser tanto de esquerda
como de direita. O resultado estatístico seria, portanto, uma mistura de
preferências ideológicas nos eleitores de Lula que levaria a um efeito nulo da
variável "ideologia" na nossa análise.
Testaremos essa hipótese incluindo uma variável que mede o auto-posicionamento
de esquerda na explicação de voto. Nossa hipótese é de que essa variável será
relevante na diferenciação entre eleitor petista e lulista. Contudo, como
argumentaremos adiante, nossas conclusões sobre essas questões serão
preliminares, já que não temos os instrumentos adequados para testá-la em
definitivo.
Outra variável interessante a ser considerada retrata a opinião dos eleitores
acerca dos atributos pessoais de Lula.11 Passamos assim a avaliar o impacto de
uma variável central de curto prazo para entendermos se há personalização da
política no apoio a Lula. Trabalhamos aqui com a mesma estratégia de mensuração
usada por Samuels (2004a) para aferir o que ele considerava lulismo. Essa
variável mede o apreço pela pessoa de Lula, e servirá como um indicador da
influência do personalismo no voto em Lula. Como dissemos antes, se o eleitor
de Lula for, de fato, um eleitor não alinhado, sem fortes preferências,
deveremos verificar que o apreço por Lula é maior entre petistas do que entre
os ditos lulistas.
Após testar as principais hipóteses dos estudos de Singer e Samuels, passamos a
explorar explicações alternativas para as escolhas eleitorais em 2006.
Começamos com avaliações retrospectivas do governo. Como se trata de um
candidato buscando reeleição, e o histórico das eleições brasileiras mostra que
esse é sempre um dos principais determinantes do voto do eleitor brasileiro, é
possível que esta variável tenha grande influência nas escolhas eleitorais
(Camargos, 2001; Carreirão 2002a; Rennó, 2007). Assim, a hipótese é de que
eleitores lulistas serão muito mais sensíveis ao desempenho do governo durante
o mandato, baseando sua escolha mais intensamente na avaliação retrospectiva do
governo.
Além disso, deve-se considerar que o primeiro mandato de Lula foi conturbado,
com diversas acusações de corrupção à alta cúpula do governo. Enquanto não se
busca avaliar o efeito específico dessas acusações, espera-se testá-las com uma
variável que mede a percepção da corrupção como problema nacional.12 A
expectativa teórica é a de que eleitores lulistas não se preocupam tanto com
avaliações sobre corrupção. Lulistas não consideraram a corrupção um problema
nacional, principalmente aqueles que aderiram a Lula apenas em 2006.
Caso as variáveis que medem a avaliação do desempenho do governo sejam
significativas, podemos questionar até que ponto a escolha de lulistas
representa um realinhamento permanente, ligado a Lula, ou apenas é reflexo das
avaliações positivas sobre seu governo, o que não indica uma mudança nos
padrões de escolha eleitoral predominantes no Brasil.
Será considerada também a opinião dos eleitores acerca dos principais partidos
no páreo, PT e PSDB. O objetivo é medir a rejeição em relação a um e outro
partido, uma vez que a variável dependente já inclui identificação com o PT
como seu componente. Carreirão e Kinzo (2004), analisando dados de 1989 a 2002,
concluíram que se um eleitor não gosta de determinado partido, ele não votará
nesse partido de jeito nenhum em mais de 98% dos casos. Uma opinião negativa
acerca do PSDB deve ser mais comum entre petistas, enquanto uma opinião
negativa acerca do PT será mais comum entre eleitores que não votaram em Lula.
Já o eleitor lulista não deverá apresentar rejeição forte a partidos políticos.
Para esse eleitor, partidos não importam muito, sejam no apreço ou na rejeição.
Caso essa hipótese se confirme, teremos mais uma evidência do caráter "não
alinhado" do eleitor que vota em Lula, mas não simpatiza com o PT.
Por fim, controlaremos por duas variáveis que medem quantidade de informação
política do eleitor e sua atenção à campanha política. Segundo nossa hipótese
principal, o eleitor de Lula é não alinhado política e ideologicamente e pouco
interessado por política. Assim, o lulista, sobretudo o que passa a votar em
Lula em 2006, deverá ter pouca informação sobre política e acompanhar pouco a
eleição.
Entre os controles, incluímos também a região do país, com a Região Sul sendo a
categoria excluída. Esperamos que Lula tenha mais votos no Nordeste, conforme
os achados de estudos anteriores, mas a região não deverá diferenciar entre
lulistas e petistas ou alterar os resultados para classe social. Lula recebeu
mais votos no Nordeste, tanto de ricos como pobres, tanto de petistas como de
não petistas. Outras categorias como gênero e idade13 também serão analisadas,
mas não se espera que elas tenham grande influência.14 Além disso, também se
analisará o efeito da escolaridade, uma vez que em eleições passadas se
concluiu que essa variável condiciona o impacto de outras variáveis na decisão
de voto (Carreirão, 2002a), como o efeito já mencionado sobre o posicionamento
esquerda-direita.
Seguindo a literatura e considerando a natureza dos dados, será utilizado o
método de regressão probite multinominal. Esse modelo é adequado, pois a
variável dependente é nominal e assume diversos valores que identificam os
distintos grupos estudados: lulistas novos e antigos, petistas, e demais
eleitores.15
Resultados
A variável dependente, conforme dito anteriormente, é composta por quatro
categorias: eleitores que votaram em Lula no primeiro turno das eleições, mas
que não simpatizam com o PT e que já haviam votado em Lula em 2002 (lulista
antigo); eleitores que votaram em Lula no primeiro turno das eleições, que não
simpatizam com o PT e que não haviam votado em Lula em 2002 (lulista novo);
eleitores que votaram em Lula no primeiro turno e que simpatizam com o PT
(petista); e eleitores que não votaram em Lula e não simpatizam com o PT
(outro). Rodamos o modelo duas vezes, alternando a categoria de referência que
é comparada com as demais para diferenciar lulistas antigos e novos de todas as
demais categorias. Portanto, verificaremos como os lulistas antigos e novos se
diferem dos petistas e dos outros eleitores e entre si.
Nas Tabelas_1 e 2, coeficientes negativos indicam a maior probabilidade de
pertencer ao grupo de eleitores nas categorias de referência (lulistas antigos
na Tabela_1 e lulistas novos na Tabela_2). Valores positivos aumentam a
probabilidade de pertencer a alguma das outras três categorias representadas
nas colunas. Ou seja, na Tabela_1 comparamos os lulistas antigos com cada uma
das outras alternativas. Na Tabela_2 comparamos os lulistas novos com as outras
três categorias.16

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As duas tabelas são importantes apenas para confirmar de fato como os lulistas
novos e antigos se diferem dos demais grupos e entre si. Os resultados de ambas
as tabelas coadunam-se, o que reforça os achados finais do trabalho e forma uma
ideia mais clara sobre os fatores que diferenciam e assemelham lulistas aos
demais eleitores. Sendo assim, analisaremos ambas conjuntamente.
Começamos pelo conjunto de variáveis que mede o impacto da renda no
comportamento dos distintos grupos de eleitores. Essas variáveis são
importantes porque testam, de forma mais apropriada, a hipótese central do
realinhamento político de que nos fala André Singer. O argumento é de que os
novos eleitores de Lula, os que passaram pelo dito realinhamento, se encontram
nas camadas mais pobres da população, com menos de dois salários mínimos,
principalmente, seguidos pelos eleitores com até cinco salários mínimos.
Os resultados refutam cabalmente essa linha de argumentação. As variáveis
econômicas, que para Singer indicariam os grupos mais beneficiados pelo chamado
"Real do Lula", não têm qualquer impacto na diferenciação entre lulistas
antigos e novos, petistas e os demais eleitores. Renda, portanto, como uma
aproximação para o impacto que as variáveis econômicas e políticas sociais têm
na qualidade de vida dos eleitores, segundo o argumento de Singer, não tem
efeito em diferenciar lulistas, tanto antigos como novos, dos demais.17
Já uma variável que se mostra importante para diferenciar os grupos sugeridos é
a avaliação retrospectiva geral do governo Lula. Fica claro que os lulistas
antigos avaliam o governo Lula de forma mais positiva do que os lulistas novos
e do que os eleitores de outros candidatos. Não há diferença estatisticamente
significativa entre eleitores lulistas antigos e petistas. Os lulistas novos,
por sua vez, estão menos satisfeitos com o governo do que lulistas antigos e do
que petistas.18 Mais uma vez, a ideia de um realinhamento que trouxe novos
eleitores a Lula, devido ao crescimento da avaliação positiva do governo em
setores que antes não apoiavam Lula, parece não se sustentar ao escrutínio
empírico. Os novos lulistas não são mais propensos a avaliar bem o governo em
comparação com outros eleitores.
Visões sobre corrupção como um problema nacional, que foram consideradas
determinantes do voto em alguns candidatos em 2006, indicam aqui diferenças
marcantes apenas entre lulistas novos e antigos. Os primeiros são bem menos
propensos a ver a corrupção como um problema nacional do que os segundos. Mas
esse fator não diferencia os lulistas de petistas e de outros eleitores. Em
suma, a corrupção não é um problema tão sério para os lulistas novos, como é
para os lulistas antigos.
Outra variável importante para as explicações sobre o lulismo é a identificação
ideológica. De fato, a hipótese sugerida por Singer é muito difícil de ser
testada, já que a disponibilidade de dados sobre preferências individuais
acerca da ordem e da estabilidade, ao lado do combate à desigualdade, não estão
disponíveis no Eseb, nem na maioria dos bancos de dados. Assim, usamos a
variável de auto-posicionamento ideológico em uma escala que vai da esquerda à
direita para testar esse argumento. O único impacto que encontramos incide
sobre a diferença entre petistas e lulistas antigos e novos. Os petistas são
bem mais propensos a se considerar de esquerda do que os lulistas, tanto
antigos como novos. Isso confirma a afirmação anterior de Singer sobre os
petistas, mas apenas parcialmente sobre o lulismo. Os achados indicam apenas
que os lulistas não se diferenciam entre novos e antigos e dos outros eleitores
com base em preferência ideológica pela esquerda.
Mas, essa hipótese precisa ser mais bem testada no futuro, com dados que possam
aferir mais diretamente visões dos eleitores sobre desigualdade e ordem. A
ausência de efeito dessa variável pode indicar que Lula agora tem eleitores de
esquerda e direita, como afirma Singer, ou eleitores que, simplesmente, não tem
preferências ideológicas fortes, típicas de eleitores não alinhados, como
defendemos aqui. Precisamos de mais testes para destrinchar essas duas
explicações possíveis.
Passamos agora à hipótese, derivada do trabalho de Samuels, de como a variável
"simpatia por Lula" influencia o comportamento eleitoral. Essa variável mostra-
se bastante importante para diferenciar lulistas antigos de petistas e de
eleitores de outros candidatos. Lulistas novos e antigos não se diferenciam por
sua simpatia à Lula. Já petistas parecem ter mais simpatia por Lula do que
esses outros dois grupos. Ou seja, petistas avaliam Lula pessoalmente de forma
ainda mais positiva do que os eleitores que votam em Lula, mas não se dizem
petistas!
Vale destacar que ambos os fatores, simpatia por Lula e identificação com o PT,
parecem estar fortemente imiscuídos. O grau de ligação desses eleitores, os
aqui chamados lulistas, tanto novos como antigos, parece ser mais tênue com
Lula do que é o caso entre os petistas. Os ditos lulistas aparentam assumir uma
simpatia mais efêmera por Lula. Portanto, tanto lulistas novos como antigos são
menos propensos a avaliar Lula positivamente do que eleitores que se
identificam com o PT.
Assim, a ligação direta entre simpatia por Lula e petismo parece ser mais
estrutural, mais orgânica do que supõe Samuels. Isso, na verdade, não está em
contradição com discussões sobre lideranças partidárias e organização
partidária, que listam ambos os fatores como centrais para se entender o
funcionamento interno de partidos políticos (Strom, 1994). Apoio a líderes
partidários não está em contradição com partidos fortes nem é indício,
necessariamente, de personalização da política. Ainda mais quando o apoio
pessoal ao líder se dá com mais intensidade entre eleitores que se dizem
simpatizantes de seu partido do que eleitores que votam no candidato, mas não
simpatizam com o partido.
Confirmando ainda que apoio a Lula não significa menor atenção aos partidos por
parte de um segmento importante do eleitorado, os petistas têm rejeições mais
fortes ao partido da oposição do que os lulistas. E, entre estes, a rejeição ao
PSDB é maior por parte da categoria "lulistas antigos". Ou seja, novos
eleitores de Lula não têm rejeição tão forte ao PSDB quanto antigos, mas ambos
tem bem menos rejeição ao PSDB do que petistas. Em suma, os lulistas não
apresentam distanciamento claro com a oposição.
Já a rejeição ao PT não é um fator de diferenciação entre lulistas novos e
antigos, mas é entre esses dois grupos e eleitores petistas. Para lulistas, a
rejeição ao PT é bem mais provável do que entre os petistas. Assim, o lulista,
principalmente o novo, não tem apego ao PT, não rejeita tão fortemente o PSDB,
não tem preferência ideológica e tampouco tem afeição à pessoa de Lula.
Portanto, o eleitor lulista assemelha-se em muito ao eleitor não alinhado.
Essa sensação é corroborada quando observa-se que o lulista novo é menos
informado politicamente que lulistas antigos e petistas e presta menos atenção
à campanha eleitoral do que petistas. Lulistas antigos, apesar de mais bem
informados sobre a política, também são menos atentos à campanha eleitoral do
que petistas. Dessa forma esse eleitor é menos interessado e alinhado com a
política do que outros eleitores.
Por último, se compararmos a votação em Lula em todas as regiões do país, no
Sul é onde recebe menos votos e, no Nordeste, mais. Isso confirma o peso dessa
região no voto de Lula, já observado por estudos prévios. Contudo, no geral, a
região não marca diferença entre os distintos apoiadores de Lula: novos,
antigos e petistas. Ou seja, não há mais lulistas antigos do que novos ou do
que petistas dentro de cada região. Eles se distribuem de forma similar em
todas. Além disso, em um dos testes que fizemos, acrescentamos um termo
interativo entre região nordeste e renda abaixo de dois salários mínimos para
verificar se o eleitor pobre do Nordeste se comporta de forma diferente dos
demais. Essa variável jamais atingiu significância estatística e sua inclusão
não afetou os resultados apresentados nas Tabelas_1 e 2. Assim, a
reconfiguração geográfica não apresenta necessariamente um realinhamento
partidário, ideológico ou político ou a volta do personalismo ao cenário
político, alavancado por uma determinada região.
Em suma, o lulista, principalmente aquele que passa a votar em Lula a partir de
2006, não parece ser um eleitor personalista e tampouco alinhado
ideologicamente ou partidariamente a Lula. Trata-se de um eleitor não alinhado,
com preferências fluidas e transitórias, influenciadas, em parte, pelo
desempenho do governo.
Comentários finais
Concluímos, assim, que o fenômeno do lulismo, na realidade, é expressão do não
alinhamento de uma parcela significativa do eleitorado. O eleitor independente,
não alinhado, é aquele que não tem preferência por partido político, possui
alguma rejeição a partidos, mas não tão forte ou específica, não se apega
demasiadamente à pessoa do líder, é pouco informado sobre política e não
acompanha a campanha eleitoral. Avaliações do desempenho do governo parecem
importantes principalmente para os eleitores lulistas considerados antigos, os
que também votaram em Lula em 2002. Esses parecem ser orientados pela boa
governança e dispostos a premiar o governo que tiver bom desempenho. Não
encontramos evidências convincentes de um amplo realinhamento político, que se
presume estável e implica em mudanças no eleitorado, como argumenta Singer
(2009), nem de um retorno ao personalismo, como argumentam Samuels (2004a) e
Baquero (2007).
A ideia de eleitor não alinhado, sobretudo entre os novos lulistas, assemelha-
se à interpretação de Zucco (2008) de que eleitores em municípios pobres sempre
tendem a votar mais no candidato governista. Nossos achados também remetem a
uma tradição de explicação similar à proposta por Reis e Machado (1992), que
apontam para um voto desideologizado e despolitizado de uma parcela da
população. Acreditamos que os lulistas novos se assemelham a esse padrão.
A pesquisa confirmou que o lulista parece claramente não alinhado a posições
ideológicas, partidárias ou lideranças políticas, baseando seu voto, em parte,
no desempenho do governo. Há outras possíveis explicações que não pudemos
testar por falta de informação, mas que podem contribuir no futuro para um
melhor entendimento da dinâmica do voto em Lula. Uma possível explicação para o
determinante de voto desse grupo pode estar baseada em sua inserção em redes
sociais. Para Lazersfeld et al. (1968), eleitores independentes estariam mais
propícios a serem influenciados pelas redes e pelos formadores de opinião no
interior delas. Baker et al. (2006) já haviam confirmado o forte impacto que as
redes sociais têm na determinação do voto no Brasil. No futuro, cabe testar
essa hipótese com dados mais apropriados para o caso do lulismo.
Resta saber em quem o eleitor dito lulista votará nas eleições de 2010. O apoio
de Lula a algum candidato será suficiente para orientar o voto desse grupo de
eleitores? Nossos dados não permitem responder a essas questões de forma
definitiva. O que podemos afirmar é que eleitores lulistas antigos são bastante
influenciados pelo desempenho do governo. Votam em Lula porque consideram bom o
desempenho de seu governo, a despeito da corrupção. Como já votaram em Lula ao
menos em duas eleições, é possível que se sintam inclinados a votar no
candidato apoiado por Lula em 2010, ainda mais porque o segundo mandato de Lula
é muito bem avaliado pela população. Assim, podemos supor que pode haver maior
transferência de votos de Lula para seu candidato(a) em 2010 entre lulistas
antigos do que entre os novos. Por sua vez, a transferência deverá ser
automática entre petistas. A soma desses dois grupos ' lulistas antigos e
petistas ' chega a 45% do eleitorado, segundo os dados do Eseb. Portanto, a
transferência de votos dos lulistas novos será fundamental para assegurar a
vitória eleitoral do candidato(a) de Lula. Se os eleitores lulistas novos
votarem no candidato do governo, este (a) poderá ter até 58% dos votos no
primeiro turno. Mesmo assim, ainda será cedo para avaliar se isso representa um
alinhamento de longo prazo, já que os resultados apresentados antes fortemente
indicam o caráter não alinhado desse eleitor. A pergunta contra-factual que
fica é, se um futuro governo liderado pelo PT e à sombra de Lula for mal e
sofrer quedas em sua popularidade, esse alinhamento se mantêm?
Mas, antes, resta observar como esse jogo de eleitorados se manifestará nas
eleições de 2010, uma eleição histórica, quando Lula, pessoalmente, não
competirá pela presidência pela primeira vez desde a redemocratização do país,
mas lutará por seu legado e para, mais uma vez, fazer história elegendo sua
sucessora, Dilma Rousseff, a primeira mulher eleita presidente da República no
Brasil.19
Notas
1 Praticamente todos os petistas votam em Lula. Assim, não há petista
que não seja lulista.
2 O lulista assemelha-se à visão clássica de eleitor independente nos
Estados Unidos defendida em Campbell et al. (1960) e Lazersfeld et
al. (1968). Para uma discussão sobre o perfil do eleitor independente
nos Estados Unidos, ver Dennis (1988). Keith et al. (1992), no também
clássico estudo sobre eleitores independentes nos Estados Unidos,
apresenta tipos diferentes de eleitores independentes. O uso que
fazemos do termo aqui assemelha-se à que ele aponta como o eleitor
independente puro, aquele que não apresenta qualquer inclinação por
algum partido político.
3 A hipótese sobre o voto em FHC e Lula é algo que não podemos testar
aqui. Trata-se de uma sugestão, portanto, para futuros estudos. Sobre
voto retrospectivo no governo FHC, ver Camargos (2001).
4 Rennó (2007) discute mais aprofundadamente os efeitos da corrupção
nas eleições de 2006.
5 Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à
Fome.
6 Agradecemos à Timothy Power por nos indicar esse ponto.
7 Sobre endogeneidade, ver King, Keohane e Verba (1994). O conceito
indica uma relação ambivalente, de causalidade de "mão dupla" entre a
variável a ser explicada, chamada de dependente, e as variáveis que a
explicam, chamadas de independentes.
8 Carreirão e Kinzo (2004) discutem essas críticas. Carreirão e
Barbetta (2004), por exemplo, concluíram que tal variável só seria
significativa na determinação do voto nas eleições de 2002 para altos
níveis de escolaridade. Ver, também, o artigo de Almeida (2008) sobre
o tema.
9 Vale lembrar, ainda, que a grande função do voto retrospectivo é a
ratificação, ou não, pelo eleitor das ações do governo, ou seja, é
parte integrante do processo de accountability. Przeworski et al.
(2006) discutem essa questão.
10 No apêndice, apresentamos todas as questões do Eseb 2006
utilizadas na análise.
11 Para um debate acerca da relevância de tal categoria em eleições
anteriores, ver Carreirão (2002a).
12 Rennó (2007) aborda essas questões mais especificamente. Ele
conclui que a corrupção teria afetado somente a escolha entre os
candidatos da esquerda, ou seja, Lula, Heloísa Helena e Cristóvam
Buarque.
13 Não se incluiu religião, uma vez que sua importância nas eleições
de 2002 (como mostram os dados de Carreirão e Barbetta, 2004, por
exemplo) tenha sido circunstancial, devido à candidatura de Anthony
Garotinho.
14 Samuels (2004a) concluiu que elas não eram estatisticamente
significantes quando se analisa identificação ou não com o PT.
15 Sobre esse modelo de estimação, ver Alvarez e Nagler (1998).
16 Os coeficientes probite são de difícil interpretação substantiva.
Contudo, sua magnitude, direção da relação, se positiva ou negativa,
e sua significância estatística já nos dizem muito sobre a relação
entre as variáveis explicativas selecionadas e a variável dependente
analisada.
17 A variável "renda" é problemática pelo seu alto índice de não
respostas. Praticamente metade da amostra não respondeu à essa
questão. O uso das variáveis dicotômicas, ou dummies, é uma solução
ineficiente. Tais variáveis diferem os eleitores que deram alguma
resposta e são enquadrados na população representada por cada
variável dicotômica de todos os demais entrevistados, inclusive os
que não responderam à questão. Insere-se, dessa forma, imprecisão na
medida de renda. Por esse motivo, rodamos as mesmas regressões acima
com um outro indicador de classe social, baseado não na declaração de
renda, mas na posse de bens domésticos, como televisão, geladeira
etc. Essa variável foi recodificada e apresenta sete categorias, que
vão de classe A1 à classe E e não tem valores ausentes. Os resultados
com essa outra operacionalização da variável que mede classe social
confirmam os encontrados acima. Classe não tem efeito linear sobre o
lulismo, quando entrada em um modelo com as sete categorias. Rodamos
a equação também com classe separada em variáveis dummy, com duas
categorias incluídas na análise: classe E e D combinadas, e classe C,
para melhor replicar os testes das Tabelas_1 e 2. Classes A e B,
combinadas, formam a categoria excluída. Os resultados são
confirmados novamente. Ver Tabela_3 no apêndice, que apresenta esta
última análise.
18 Na Tabela_2, a diferença entre lulistas novos e petistas não se
mostra estatisticamente significativa a .10, mas por pouco. Assim,
podemos entender essa relação como a fronteira do que é
estatisticamente significativo.
19 A versão final deste artigo foi entregue em setembro de 2010,
quando a candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, já havia sido
confirmada por convenção partidária e liderava as pesquisas de
intenção de voto.
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