Interpretações da "cultura japonesa" e seus reflexos no Brasil
Introdução
Durante o ano de 2008, discursos sobre a "cultura japonesa" ganharam atenção
considerável tanto das autoridades políticas como dos meios de comunicação
devido às comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil. Uma das
principais consequências disso foi a difusão e a celebração de vários símbolos
e virtudes considerados "típicos" da cultura japonesa. Imagens da bandeira
japonesa (hinomaru) eram exibidas em revistas, jornais e na televisão. O hino
japonês (kimigayo), presente em todos os eventos comemorativos, talvez nunca
tenha sido tocado com tanta frequência. E a visita de um membro da família
imperial, o príncipe herdeiro Naruhito, serviu para reforçar o clima de
encantamento com a tradição japonesa. Além disso, as comemorações eram
invariavelmente acompanhadas de louvores às virtudes "japonesas" do trabalho e
do estudo, que teriam sido a causa da ascensão social dos imigrantes japoneses
na sociedade brasileira.
No entanto, esse discurso celebratório começa a apresentar sérios problemas
quando examinado mais cuidadosamente. Tomemos, por exemplo, o caso do hinomaru
e do kimigayo. Poucos no Brasil chegaram a lembrar que ambos só foram
oficializados como a bandeira e o hino japoneses em 1999 (até então seu uso não
tinha nem reconhecimento nem obrigatoriedade legal), através de uma medida
polêmica duramente criticada por alguns dos principais intelectuais japoneses e
por diversas minorias, como coreanos e chineses, que veem na bandeira e no hino
um símbolo do colonialismo e da violência perpetrada pelo Japão entre o fim do
século XIX e a primeira metade do século XX (Takahashi, 2005; Ukai, 2005).
Também não se mencionou que a família imperial japonesa depois da Segunda
Guerra Mundial foi construída e legitimada mediante a colaboração entre os
governantes japoneses e a ocupação norte-americana (1945-1952) como mecanismo
de acomodação dos interesses das elites japonesas na transição do pós-guerra
(Dower, 1999, pp. 319-45; Harootunian e Sakai, 1999, p. 604; Yoshimi, 2000).
Não nos esqueçamos de que a tão celebrada ética da educação e do trabalho é
muito menos uma tradição vinda de tempos imemoriais, do que um programa
político voltado para a implantação do sistema capitalista e da centralização
estatal durante a segunda metade do século XIX (Mita, 1992, pp. 224-247). Essa
ética serviu, ademais, como instrumento de dominação na colonização das regiões
de Okinawa, Hokkaido, Coreia e Taiwan, onde os povos nativos eram obrigados a
trabalhar para abastecer o mercado japonês, e estudar em escolas japonesas para
esquecer seus costumes "bárbaros", tornando-se súditos dignos de pertencer ao
"Grande Império Japonês" (Oguma, 1998).
O modo como esses aspectos mais problemáticos foram estrategicamente evitados
durante as comemorações do centenário parece confirmar a tese de que não apenas
os imigrantes japoneses e seus descendentes, mas também a sociedade brasileira
em geral tende a adotar uma postura conservadora e acrítica em relação à
"cultura japonesa" (Maeyama, 2001, 5-11).1
Creio que uma das principais razões para isso é a ausência no Brasil de uma
discussão consciente das transformações e das contradições sociais da sociedade
japonesa, e o desconhecimento dos debates entre os principais pensadores
sociais do cenário intelectual japonês.2 Como resultado, as ideias que
predominam no Brasil sobre a cultura japonesa tendem a reificá-la,
apresentando-a como uma totalidade homogênea, imutável e exótica, sem atentar
para os sérios conflitos políticos que este tipo de perspectiva oculta.
Por isso, o objetivo principal deste artigo é fazer um esboço dos debates em
torno da noção de cultura japonesa, bem como de seu contexto histórico, a fim
de possibilitar uma compreensão mais crítica e informada. Com base neste
panorama, concluo este trabalho com uma breve reflexão sobre o modo como a
cultura japonesa vem sendo tratada até agora no Brasil, e as consequências que
o discurso apologético atual traz tanto para a sociedade brasileira como para a
sociedade japonesa.
A "cultura japonesa" em construção
Embora muito se fale sobre a "milenar" cultura japonesa, nenhuma discussão
séria pode ignorar que a ideia de uma base cultural comum a toda uma nação
japonesa é bastante recente. Mesmo aqueles que buscam as origens de uma
identidade japonesa no período Edo (1603-1867) reconhecem que o pleno
desenvolvimento de uma noção de cultura nacional se dá somente durante a
transição para o período Meiji (1868-1912) (Yoshino, 1992, p. 62; Kang, 2001).
Um dos processos mais significativos nesse sentido foi a construção de uma nova
imagem do imperador. Durante o período Edo, o poder político era exercido
através de uma complexa e ambígua relação entre o imperador e o shogun, líder
militar. No período Meiji a figura do shogun é eliminada, o que no entanto não
significa uma restituição de poder ao imperador. Este permanece sem efetivos
poderes políticos, mas as novas elites conferem a ele um novo papel simbólico.
O mecanismo pelo qual o imperador assume essa função é um perfeito exemplo de
"tradição inventada" (Hobsbawm e Ranger, 1983). Embora no começo do período a
população em geral desse muito pouca atenção ao imperador, isso foi mudando por
conta de uma poderosa política oficial, principalmente nos meios de comunicação
e nos currículos escolares, que passaram a difundir a crença de que, por
existir desde tempos remotos, a instituição imperial deveria ser cultuada como
expressão máxima do espírito japonês (Gluck, 1985, pp. 73-101; Yoshimi, 2000).
Como toda tradição inventada, o culto ao imperador utilizava uma visão
idealizada da história não para simplesmente resgatar o passado, mas para
justificar uma série de inovações e mudanças (Mita, 1992, pp. 247-254; Kang,
2001, pp. 54-73). Assim, quando as elites começaram a implantar, nos moldes
europeus, um sistema social "moderno" baseado em Estado centralizado, economia
industrial e sistema colonial em regiões asiáticas como Okinawa, Hokkaido,
Coreia, Taiwan e Manchúria, todas essas novas políticas eram legitimadas em
nome do imperador, símbolo da tradição japonesa.
Esse processo paradoxal de legitimização do moderno por meio do recurso à
tradição, do qual a instituição imperial é apenas o aspecto mais evidente,
encontrou um limite a partir da década de 1920, com o crescimento cada vez mais
intenso dos grandes centros urbanos japoneses (Harootunian, 2000, pp.13-4;
Yoshimi, 2007, pp. 46-51). Cidades como Tóquio e Osaka passaram a abrigar um
estilo de vida cada vez mais "moderno", marcado por cinemas, cafés e salões de
beleza, onde a influência europeia e principalmente norte-americana se fazia
sentir sem que houvesse a mediação de instituições "tradicionais" japonesas.
Nas cidades, os padrões ocidentais impunham-se por conta própria, não sendo
mais necessário invocar o imperador para justificá-los. Ao mesmo tempo em que o
imperador perdia sua função legitimadora, as próprias noções de identidade e de
cultura japonesa se enfraqueciam sensivelmente (Ohsawa, 1998, pp.19-21).
Isso levou eventualmente a um movimento de reação por parte de muitos dos
principais pensadores sociais da época. O ponto culminante desta tendência foi
uma conferência famosa ocorrida em 1942 intitulada "Kindai no Cho-koku"
(Superação da Modernidade), em que vários intelectuais ilustres lastimavam a
condição de crise moral e ocidentalização desgovernada vivida pelo Japão de
então, propondo como solução um retorno às tradições.3 Esse apelo pelo
refortalecimento da cultura japonesa era invariavelmente associado a uma
renovada devoção ao imperador e a um discurso de resistência à dominação
ocidental. Na prática, ainda que implicitamente, isso significava legitimar as
invasões japonesas em outros países da Ásia e apoiar a atuação do Japão na
Segunda Guerra Mundial. (Harootunian, 2000, pp. 34-94).
Algumas das mais influentes teorizações sobre a cultura japonesa são elaboradas
justamente nessa época. É o caso de Iki no Ko-zo- (A Estrutura do Iki, 1930) de
Shu-zo- Kuki, ou de Fu-do (Clima, 1935) de Tetsuro- Watsuji, que procuram,
ainda que de maneiras diferentes, recuperar uma essência imutável da cultura
japonesa.
Kuki vai encontrar essa essência na noção de iki, termo de difícil tradução que
se refere a certo ideal estético presente principalmente nas cidades do período
Edo. Fruto da combinação dos valores das classes comerciais, da ética dos
guerreiros e do budismo, iki relaciona-se a uma atitude de refinamento e
sofisticação (bitai), de perseverança (ikiji) e de lucidez (akirame). Esse
senso estético teria perdurado no Japão até os tempos atuais, impermeável às
influências ocidentais (Kuki, 2004).
Watsuji é provavelmente o autor mais radical e ambicioso. Ele propõe uma
classificação de todos os povos do mundo de acordo com as condições climáticas
de cada região. Temos assim, em linhas gerais, três grandes tipos de clima - e
consequentemente de cultura: clima de monções, clima de deserto e clima de
cerrados. Os asiáticos seriam representativos do primeiro, e as adversidades
causadas pelas chuvas e pelas ventanias teriam dado a esses povos um caráter
resignado e adaptativo. Os árabes seriam exemplo do segundo, e pela dureza de
seu ambiente esses povos teriam desenvolvido um caráter igualmente duro e
combativo. Os europeus corresponderiam ao último tipo de clima, que por ser
mais ameno teria tornado possível o exercício da contemplação e do
racionalismo. Watsuji se debruça principalmente sobre a comparação entre o
caráter europeu e o caráter japonês (que embora pertença à categoria asiática
tem, segundo ele, uma lógica sui generis e superior). Watsuji enfatiza, por
exemplo, as diferenças entre as casas japonesas e as casas europeias como tema
estratégico para entender o contraste. Segundo ele, a casa japonesa baseia-se
numa distinção absoluta entre as noções de uchi (dentro) e soto (fora), de modo
que o ambiente interno ocupado pela família estaria completamente isolado do
mundo exterior, habitado por estranhos. O costume de tirar os sapatos antes de
entrar na casa seria um símbolo desta separação, pois evitaria que a impureza
do mundo exterior contaminasse o mundo interior. A casa europeia, ao contrário,
não estaria tão nitidamente separada do espaço público da rua, gerando uma
confusão entre as duas esferas, algo inaceitável do ponto de vista japonês
(Watsuji, 1988).
É importante enfatizar, no entanto, que esses discursos essencialistas e
excepcionalistas, embora cada vez mais influentes como uma forma de resistência
à ocidentalização nos centros urbanos, tinha uma limitação importante: não se
podia enfatizar demais o caráter único e incomparável da cultura japonesa, pois
uma vez que o Japão estava comprometido com um projeto colonialista de invasão
e dominação de diversos outros países asiáticos, era necessário que a cultura
japonesa fosse retratada como passível de ser assimilada por esses povos
colonizados, que passariam então a se identificar como japoneses, ou pelo menos
como súditos leais ao imperador. Em outras palavras, se para o Ocidente a
cultura japonesa permaneceria para sempre incompreensível, para os demais
países da Ásia ela seria acessível por fazer parte de uma tradição comum,
cabendo ao Japão, porém, assumir um papel de liderança. Para legitimar essa
penetração da cultura japonesa nas regiões dominadas, muitos intelectuais e
figuras públicas destacavam, ao falar das características da cultura japonesa,
não apenas atitudes como iki ou a distinção entre uchi e soto, mas também uma
certa ideia de miscigenação. Embora estejamos acostumados com discursos que
descrevem a cultura japonesa como fechada ou isolada, até o fim da Segunda
Guerra Mundial ela era frequentemente retratada como uma mescla das diversas
tradições da Ásia, e o próprio povo japonês como o resultado da mestiçagem
entre vários povos asiáticos. Segundo esse raciocínio, ao invadir esses países
e impor seus valores, o Japão não estaria eliminando os costumes locais nem
subjugando seus habitantes, pois esses costumes e essas populações na verdade
seriam já parte integrante da própria tradição japonesa (Tanaka, 1995; Oguma,
2002).
Contudo, a derrota na Segunda Guerra Mundial fez com que todo o debate sobre a
cultura japonesa até então mudasse radicalmente, devido a uma série de
profundas transformações sociais.
Consequências da Segunda Guerra Mundial
A primeira consequência da derrota foi uma extraordinária reorganização da
própria constituição geográfica do Japão: Coreia, Manchúria, Taiwan, Okinawa e
inúmeros outros territórios asiáticos foram removidos do "Grande Império
Japonês", diminuindo drasticamente a esfera da autoridade política japonesa.
Isso implicou, por sua vez, uma enorme onda migratória. De um lado, os
japoneses que, seja como militares seja como funcionários civis, estavam
vivendo nessas regiões se viram diante da necessidade de abandoná-las. De outro
lado, milhares de asiáticos, principalmente coreanos e chineses que até 1945
haviam migrado voluntária ou involuntariamente para regiões que hoje
correspondem ao território político japonês, tiveram que retornar a seus países
de origem.
Além disso, os Estados Unidos ocuparam o Japão, intervindo diretamente nos
assuntos de governo por intermédio do "supremo comandante das forças aliadas",
o conhecido general Douglas MacArthur. Uma vez que o Japão se comprometia a
eliminar todas as suas forças militares como condição de rendição, os Estados
Unidos assumiram também todas as funções de defesa, construindo diversas bases
militares pelo país.
Todas essas mudanças exigiam uma reinterpretação da identidade e da cultura
japonesa. Primeiro, porque tanto o espaço geográfico como a população já não
eram mais os mesmos. Segundo, porque as ideologias dominantes de louvor à
tradição japonesa do período anterior foram questionadas diante da realidade da
derrota. Como continuar vendo positivamente uma tradição que não apenas perdeu
a guerra, mas que também seria acusada, no Tribunal de Tóquio (1946-1948) e em
outros julgamentos organizados pelas forças aliadas, de ser conivente com
crimes de guerra, crimes contra a paz, e crimes contra a humanidade?
Mais uma vez, as disputas simbólicas em torno da figura do imperador assumiriam
grande importância, sinalizando as direções que o debate acerca da cultura
japonesa iria tomar.
Logo após a rendição japonesa, a posição dos Estados Unidos era, em princípio,
a de responsabilizar o imperador pelos crimes de guerra. Alguns propuseram
inclusive que além da punição individualizada do imperador, a própria
instituição imperial deveria ser eliminada como condição sine qua non para a
criação de um regime verdadeiramente democrático. As elites políticas japonesas
fizeram enormes esforços para reverter essa postura, o que de fato ocorreu. No
entanto, é fundamental ter em mente que a principal razão para que o imperador
fosse finalmente eximido de toda e qualquer responsabilidade não foi a pressão
dessas elites, até certo ponto desmoralizadas com o fim da guerra, mas sim a
atuação da própria ocupação norte-americana, especialmente por parte do general
MacArthur. Embora as autoridades em Washington cobrassem a punição do
imperador, MacArthur e seus conselheiros em Tóquio estavam convencidos de que
para um melhor controle dos conflitos da sociedade japonesa de então, a
permanência da figura do imperador era essencial. Ele poderia ter um papel
simbólico positivo no Japão do pós-guerra, desde que manipulado adequadamente
(Dower, 1999, pp. 319-345). Esse perdão quase oficial dado pela ocupação norte-
americana mudou o sentido da autoridade imperial, marcando o início de uma nova
fase de cumplicidade entre o Japão e os Estados Unidos. O imperador torna-se
uma figura híbrida, cara às elites japonesas, mas válida somente quando
sancionada pelas forças norte-americanas (Kang, 2001, p. 97; Harootunian e
Sakai, 1999, p. 604; Yoshimi, 2000).
Isso significa que a instância última capaz de conferir legitimidade a uma
prática ou a uma instituição passaria a ser o ponto de vista da ocupação. Por
outro lado, as noções de cultura japonesa ou de tradição japonesa seriam
relegadas a uma posição de dependência e mesmo de inferioridade, pois sem a
orientação adequada elas acabariam levando à violência e à barbárie, como as
atrocidades do Japão na Segunda Guerra teriam deixado claro. Nesse contexto, os
intelectuais passam a se questionar de que modo seria possível conceber formas
para que essa cultura japonesa, atrasada mas ainda assim dotada de potencial,
pudesse alcançar os níveis modernos de civilização dos Estados Unidos e da
Europa ocidental. Isso deu origem a uma série de estudos extremamente
influentes, animados em grande parte por um ideal de modernização. Dois autores
da época que articulam de maneira admirável essas questões são Masao Maruyama e
Yoshimi Takeuchi.
Masao Maruyama é provavelmente a figura de maior influência no cenário
intelectual do Japão no pós-guerra. Sua obra mais importante, Nihon Seiji
Shiso-shi Kenkyu- (Estudos sobre a História do Pensamento Político Japonês,
1948) é uma coleção de artigos escritos ainda durante a guerra, mas que já
refletem as preocupações que passariam a marcar a sociedade japonesa
posteriormente. A fim de entender um presente conturbado, Maruyama propõe uma
arqueologia do pensamento político japonês, definindo como seu ponto de partida
o período Edo.
Para Maruyama (1974), a base de todo o pensamento nesta época era o
confucionismo. Analisando as doutrinas confucionistas do começo do período, ele
argumenta que, em princípio, este tipo de filosofia tinha como fundamento a
noção de que existiria uma ordem natural absoluta à qual todas as coisas e
pessoas estariam sujeitas. Haveria, portanto, uma supremacia da natureza
(shizen) na ordenação das coisas. No entanto, Maruyama assinala que esta
concepção sofreu grandes transformações ao longo do século XVIII,
principalmente por influência do confucionista Ogyk Sorai, para quem a ordem e
os princípios supremos não seriam mais um dado da natureza, e sim algo
construído por pessoas, mais precisamente por sábios antigos dotados de
qualidades excepcionais. Em outras palavras, a supremacia passa da natureza
para a criatividade e a invenção humanas (sakui).
Essa transição do ideal de shizen para o ideal de sakui é importante para
Maruyama porque ele vê aqui o surgimento, dentro da própria cultura japonesa,
de um princípio nativo compatível com a concepção ocidental de modernidade, ou
seja, a capacidade humana de inovação e de superação dos limites impostos pela
natureza. O pensamento japonês estaria, portanto, equipado com recursos
intelectuais receptivos às instituições modernas.
Mas é importante ter em mente que embora essa tese pareça oferecer uma imagem
positiva da cultura japonesa, Maruyama deixa claro que a lógica de sakui
proposta por Sorai e seus seguidores ainda deixava muito a desejar com relação
às ideias do Ocidente. A principal razão para isso estava na incapacidade
japonesa de iniciar, por suas próprias forças, um processo de industrialização,
processo este que era, para Maruyama, imprescindível na consolidação de uma
verdadeira modernidade. Consequentemente, a tradição intelectual herdada do
período Edo permaneceria como um símbolo de modernidade inacabada e incompleta,
aguardando a intervenção do Ocidente (Maruyama, 1974, pp. 301-302).
O mundo ocidental interveio intensamente a partir do período Meiji. No entanto,
em um artigo célebre intitulado "Cho--kokkashugi no ronri to shinri" (Lógica e
Psicologia do Ultranacionalismo, 1946), Maruyama afirma que essas influências
ocidentais nunca chegaram a penetrar completamente na sociedade japonesa, que
permaneceu presa ainda a ideais pré-modernos. Foram justamente esses resquícios
culturais que levaram o Japão a cometer atos de violência e envolver-se em
invasões e guerras ilegítimas. Mas com a derrota na Segunda Guerra Mundial, o
país ganhava a chance de libertar-se de vez das amarras tradicionais e entrar
efetivamente em uma era moderna (Maruyama, 1963). Evidentemente, está implícito
aqui que o Ocidente tornou-se o guia que conduziria o Japão neste novo caminho
(Ohsawa, 1998, pp. 53-54).
A reflexão de Yoshimi Takeuchi também tende a apontar os aspectos negativos e
conservadores da tradição japonesa, destacando a necessidade de adotar uma nova
mentalidade modernizadora. No entanto, sua perspectiva tem uma diferença
importante com relação a Maruyama, pois para ele só é possível compreender a
possibilidade de uma modernidade japonesa se pensarmos não somente na relação
entre o Japão e o Ocidente, mas também no papel da Ásia, e principalmente da
China, na construção desta modernidade. Ele tem muita consciência dos efeitos
perversos do colonialismo japonês na Ásia, e enfrentar essa questão é
imprescindível em qualquer tentativa de modernização da sociedade japonesa.
Em seu texto mais conhecido, "Kindai to wa Nani-ka" (O que é a Modernidade?,
1948), Takeuchi afirma que a modernidade é de fato uma criação do Ocidente, e a
sua assimilação no Japão não poderia deixar de ser problemática. Mas em vez de
enfatizar, como Maruyama, o papel mediador de aspectos da própria cultura
japonesa que seriam compatíveis com a modernidade, Takeuchi argumenta que o
Japão, ao adotar instituições modernas, deveria tomar a China como modelo.
Embora o país tenha sido celebrado como a nação asiática que melhor e mais
rápido incorporou o ideal moderno ocidental, na realidade essa modernização,
apressada e acrítica, nunca passou de uma imitação superficial e desajeitada. A
China, ao contrário, a despeito de ser comumente descrita como um país que
permaneceu fechado ao Ocidente, foi na realidade muito mais eficiente, pois
incorporou o ideal moderno de maneira seletiva e responsável. (Takeuchi, 2005).
Takeuchi, assim, não negava a necessidade de seguir a Europa ou os Estados
Unidos, mas enfatizava a importância de recorrer à China como mediador nesse
processo.
Embora de modos diferentes, Maruyama e Takeuchi são portanto dois autores
representativos de um ideal modernizador e, ao mesmo tempo, de uma certa noção
de inferioridade e atraso da cultura japonesa. Ambos estavam tentando
compreender a posição do Japão na época, de contração territorial, de ocupação
política e militar e de desestabilização social. No entanto, esse quadro, assim
como a noção de cultura japonesa nele embutida, sofreria grandes mudanças a
partir das décadas de 1950 e 1960.
O processo-chave nessas mudanças foi o extraordinário crescimento econômico que
o Japão passou a mostrar durante esse período. As empresas japonesas
apresentavam um grande aumento tanto de produção como de desenvolvimento
tecnológico, e isso era impulsionado por uma sociedade cada vez mais
direcionada para o consumo.
Deve-se ressaltar aqui que este período de crescimento econômico foi marcado
por uma difusão cada vez maior de valores e padrões de consumo norte-
americanos. As tendências ocidentalizantes dos anos de 1920 e 1930 ganhavam
força mais uma vez, mas agora o processo não se restringia aos grandes centros
urbanos. A população era cada vez mais exposta, por exemplo, ao ideal do mai
hoomu (pronúncia japonesa da expressão inglesa my home), que tomava o estilo de
vida da família de classe média norte-americana da época como modelo. A base
material deste modelo estava na aquisição da casa própria, com um carro na
garagem e uma televisão na sala de estar. A televisão, aliás, exerceu um papel
estratégico, tornando populares programas de inspiração norte-americana, como a
luta livre (wrestling), que se tornou uma verdadeira febre na sociedade
japonesa (Yoshimi, 2007, pp. 162-206).
Mas é preciso enfatizar que ao mesmo tempo em que a influência norte-americana
ganhava um impulso avassalador, também surgia - ou ressurgia - de modo cada vez
mais evidente um discurso de afirmação e celebração da cultura japonesa
(Harootunian, 1993). Este tipo de discurso passou a ganhar cada vez mais espaço
tanto na literatura popular como nas pesquisas acadêmicas da época,
consolidando uma corrente conhecida como nihonjinron (teorias sobre o caráter
japonês). Essas teorias eram divulgadas por autores como Takeo Doi ou Chie
Nakane, e muitas vezes resgatavam diversas ideias de O crisântemo e a espada de
Ruth Benedict. Elas procuravam, de modo semelhante ao trabalho de Kuki e
Watsuji, identificar novamente uma essência imutável e única à cultura japonesa
(Befu, 2001).
No entanto, é preciso destacar duas importantes diferenças entre aquelas obras
publicadas nos anos de 1920 e 1930 e as teorias difundidas a partir das décadas
de 1960 e 1970. Primeiro, uma vez que a colonização japonesa na Ásia tinha
chegado ao fim, não havia mais a necessidade de enfatizar ideais de
miscigenação ou de pan-asianismo. É justamente a partir dessa época que se
solidifica a imagem do Japão como um país fechado e da população japonesa como
uma nação etnicamente homogênea (Kang, 2001, p. 87; Oguma, 2002). Em segundo
lugar, enquanto Kuki e Watsuji tinham uma visão negativa da influência
estrangeira, e viam o retorno à tradição como uma forma de resistência, os
autores de nihonjinron dos anos de 1960 e 1970 eram muito mais receptivos ao
Ocidente, mostrando uma atitude de conciliação.
O crescimento econômico e o consumismo eram vistos menos como sinal de
decadência moral, e mais como prova do espaço conquistado pelo Japão no cenário
mundial junto aos outros países desenvolvidos. Nesse contexto, o que os autores
de nihonjinron faziam ao teorizar sobre a essência da tradição japonesa era no
fundo identificar traços culturais típicos do Japão que servissem não para
criticar, mas para explicar e legitimar o sucesso do capitalismo japonês
(Harootunian, 1993; Ochiai, 2005). Assim, a produtividade das empresas
japonesas era atribuída, por exemplo, a uma suposta ética japonesa de
fidelidade e sacrifício herdada dos samurais, ou então a uma atitude de
conformismo derivada de princípios confucionistas, ou ainda a uma rigorosa
estrutura hierárquica própria da família tradicional.
O tom triunfalista dessas teorias chegava por vezes ao ponto de sugerir
inclusive que o Japão teria finalmente não apenas alcançado, mas até
ultrapassado o próprio Ocidente, tornando-se mais moderno e mais avançado do
que a Europa e os Estados Unidos graças ao caráter único de sua cultura. Mesmo
autores fora do Japão adotaram uma posição semelhante, popularizando expressões
como "Japan as number one" (Vogel, 1979).
Portanto, se no período imediatamente posterior ao final da Segunda Guerra
Mundial a cultura japonesa encontrava-se numa posição de inferioridade, a
partir das décadas de 1950 e 1960 ela volta a ser vista como motivo de orgulho.
Mas esse orgulho não será usado para rejeitar os padrões capitalistas da Europa
e dos Estados Unidos; pelo contrário, o grande mérito da tradição japonesa
estaria justamente na sua capacidade de incorporar e eventualmente até mesmo
aperfeiçoar esses padrões.
Desconstrução e reconstrução da cultura japonesa
A década de 1980 representou o ápice mas também o limite da lógica do período
de crescimento econômico. Se, de um lado, a economia japonesa foi capaz de
superar a crise do petróleo na década de 1970 e continuar se fortalecendo na
década seguinte, a base dessa força, de outro lado, começou a se distanciar do
setor real da economia, passando a depender cada vez mais de especulações no
mercado imobiliário (Noguchi, 1994). Assim, embora a economia permanecesse
ativa, seu suporte dependia, perigosamente, de uma enorme bolha financeira que
não tardaria em estourar.
De maneira semelhante, a própria visão confiante da cultura japonesa, que como
vimos estava diretamente ligada ao crescimento econômico, passou a ser cada vez
mais problemática. O essencialismo e a autoindulgência do nihonjinron
continuariam populares durante essa época. Mas o consumismo, a apatia política
e o cinismo moral se tornavam cada vez mais evidentes na sociedade japonesa, o
que ficava patente no profundo enfraquecimento dos movimentos estudantis e
sindicais e no tom acrítico de grande parte da produção artística, desde
programas televisivos até a literatura. Munesuke Mita, um dos mais influentes
sociólogos japoneses, cunhou o termo "era da ficção" (kyokM no jidai) para se
referir a este período, termo este adotado por diversos outros autores (Mita,
1992, pp. 522-527; Ohsawa, 2008; Azuma, 2009). Isso colocava em dúvida a ideia
otimista de que o Japão seria o local onde os valores tradicionais e o sistema
capitalista teriam unido forças para criar uma sociedade para além da própria
modernidade.
É neste ambiente de desconfiança que começam a surgir novas ideias sobre a
cultura japonesa. Estes autores, sob forte influência do pós-estruturalismo e
do pós-modernismo, não vão se concentrar mais em investigar as características,
os méritos ou os deméritos da cultura japonesa. Em vez disso, eles irão propor
a desconstrução da própria ideia de cultura japonesa, negando a existência de
qualquer característica essencial, e denunciando as relações de poder por trás
desse tipo de discurso.4
Uma obra pioneira desta nova orientação teórica é Nihon Kindai Bungaku no Kigen
(Origens da Literatura Moderna Japonesa, 1980) de Kojin Karatani. Apesar do
título, trata-se de uma coleção de artigos que cobre uma variada gama de áreas,
desde a literatura até a pintura e a arquitetura. A tese central comum a estes
textos é a de que a cultura japonesa, longe de ser uma totalidade orgânica
dada, é na realidade uma intrincada prática discursiva construída a partir do
século XIX. Karatani destaca por exemplo o papel de um movimento intelectual
iniciado em meados deste período chamado genbun-itchi (unificação linguística),
que procurava uniformizar os textos escritos japoneses em torno de um padrão
comum supostamente mais próximo da língua falada. Esta seria uma forma de
promover a integração cultural e construir uma identidade nacional japonesa,
que seria então mais tarde projetada retroativamente até os tempos mais
remotos, como se sempre tivesse existido (Karatani, 1993).
Esses questionamentos da noção de cultura japonesa estiveram presentes não
apenas entre os intelectuais, mas também de maneira mais difusa na sociedade em
geral. Como apontam vários observadores, durante a década de 1980 o apego à
tradição e a afirmação de uma identidade japonesa perderam muito de seu terreno
para novos ideais cosmopolitas (Ohsawa, 1998, p.22; Kitada, 2005).
Porém, esse quadro sofreu grandes mudanças a partir da década de 1990. De um
lado, o fim da Guerra Fria e o surgimento de um novo cenário mundial cada vez
mais complexo e interdependente serviram de incentivo para que ideologias de
internacionalização e globalização continuassem a relativizar a importância
dada à cultura nacional. De outro, no entanto, o estouro da bolha especulativa
e o início de uma era de recessão colocaram o Japão em uma posição de
insegurança no seu relacionamento com outros países. Além disso, o grande
terremoto de Kobe e os ataques com gás sarin no metrô de Tóquio, ambos em 1995,
só serviram para aumentar o ambiente de instabilidade e incerteza na sociedade
japonesa.
Embora houvesse quem argumentasse que a solução para a crise estaria em
promover mais abertura e maior interação com a comunidade internacional, muitos
enveredaram para o caminho oposto, culpando a globalização e a
internacionalização por todos os problemas, e sustentando que a sociedade
japonesa só poderia sobreviver se retomasse um projeto de fortalecimento
interno, resgatando suas tradições culturais e seu orgulho nacional. Formaram-
se assim duas correntes, em princípio opostas, mas como veremos intimamente
ligadas: globalismo e nacionalismo (Yoda, 2006).
É preciso reconhecer, entretanto, que foi a corrente nacionalista, ou
"neonacionalista" (neonashonarizumu), que esteve em maior evidência nestas
últimas duas décadas, com inúmeras questões sociais. Quando, por exemplo,
várias mulheres de origem coreana vieram a público durante os anos de 1990 para
exigir reconhecimento do governo japonês e compensação por terem sido usadas
como escravas sexuais dos soldados durante a Segunda Guerra Mundial, uma enorme
reação conservadora descartou o apelo dessas mulheres como mera invenção
destinada a enfraquecer o espírito japonês (Ueno, 2004).
Outro problema de grande repercussão foi a formação, em 1997, de uma associação
voltada para a criação de novos livros de história para o ensino fundamental
(Atarashii Kyo-kasho o Tsukuru Kai). Esta associação afirma que, principalmente
pela influência norte-americana, a história ensinada pelas escolas até agora
vem incutindo uma consciência histórica "autodepreciativa" (jigyaku-teki),
divulgando uma imagem negativa e distorcida do povo e da cultura. Como
resposta, os livros produzidos por este grupo procuram negar ou atenuar as
diversas atrocidades cometidas pelo Japão contra outros países asiáticos,
ressaltando a necessidade de respeitar e honrar as conquistas japonesas no
passado (Kang, 2005; Ivy, 2006).
O governo japonês também tem se mostrado receptivo a essas tendências. Como já
foi mencionado, em 1999 o parlamento aprovou o reconhecimento oficial e a
obrigatoriedade do uso da bandeira e do hino nacional japoneses, dois símbolos
que até então não tinham ainda sanção legal. A principal razão para a ausência
de tal sanção era justamente a crítica, por parte de intelectuais e minorias
como coreanos e chineses, de que tanto a bandeira como o hino estavam
intimamente associados ao colonialismo e às violências cometidas pelo Japão
(Takahashi, 2005; Ukai, 2005). Mas no fim da década de 1990 as autoridades
públicas já haviam se tornado mais receptivas às tendências nacionalistas em
ascensão na época. Além disso, o fortalecimento de políticos com claras agendas
nacionalistas como o atual governador de Tóquio, Shintaro Ishihara (eleito em
1999), e o ex-primeiro-ministro Junichiro Koizumi (2001-2006) só serviram para
reforçar esta postura do governo.
O "neonacionalismo" deixou sua marca também no meio intelectual. Uma das obras
mais influentes da época foi Haisengoron (Teoria sobre as Consequências da
Derrota, 1997) de Norihiro Kato. A ideia básica de Kato é de que depois da
Segunda Guerra Mundial o Japão teria passado a viver uma realidade "distorcida"
(nejire): com a derrota, a cultura e a identidade japonesa passaram a ser
vistas apenas negativamente, um sinônimo de violência, intolerância,
colonialismo e imperialismo. Os japoneses estariam, portanto, condenados a
desprezar suas tradições e seus antepassados, e a pedir perdão aos outros
países asiáticos que eles exploraram. Mas, segundo Kato, os japoneses jamais
serão capazes de pedir perdão com sinceridade a não ser que eles possam
encontrar primeiro um senso de identidade e autoestima. Em outras palavras,
Kato não chega a negar as atrocidades cometidas pelos japoneses, mas ele
argumenta que antes de se desculpar perante outros países, o Japão deve
primeiro aprender a perdoar os próprios crimes. Somente depois desse tipo de
terapia coletiva e da consolidação de uma identidade nacional é que o país deve
se preocupar com sua relação com os outros países (Kato, 1997).
Com isso, a noção de cultura japonesa que havia sido desconstruída durante os
anos de 1980 parecia retornar à forma na década seguinte. Mas é importante
fazer aqui duas observações. Primeiro, como já foi dito, esse neonacionalismo,
embora seja sem dúvida o aspecto mais visível da sociedade japonesa nos últimos
anos, é apenas uma das correntes ideológicas surgidas a partir dos anos de
1990; a outra consiste no ideal de globalismo. Em segundo lugar,
neonacionalismo e globalismo, mais do que termos antagônicos, são na realidade
duas tendências que mantêm uma relação de cumplicidade.
Tomemos como exemplo o caso da associação Atarashii Kyo-kasho o Tsukuru Kai. Em
princípio este movimento aparenta estar relacionado unicamente com a sociedade
japonesa, tratando de um problema de ordem puramente interna: a defesa do
orgulho nacional. No entanto, a associação trabalha ativamente para obter a
colaboração e o apoio de historiadores e intelectuais fora do Japão, enviando
panfletos e abaixo-assinados, inclusive para os Estados Unidos, que
ironicamente costumam ser retratados como o grande culpado pelas mazelas do
Japão atual (Ivy, 2006). Além disso, a associação afirma que seu objetivo é
apenas fazer com que o povo japonês aja como todos os outros países e honre sua
história nacional. Portanto, quando analisada a fundo, esse grupo prega na
verdade não o fechamento ou o caráter excepcional da sociedade japonesa, mas,
ainda que de maneira extremamente questionável, a assimilação de um standard
global já compartilhado pelo mundo inteiro. A oficialização da bandeira e do
hino, bem como muitas outras práticas seguem uma lógica semelhante.
Esta problemática simbiose entre globalismo e neonacionalismo tornou-se
possível graças à forma particular com que os neonacionalistas concebem a
cultura japonesa. Embora eles proponham um resgate de sua cultura para renovar
o orgulho nacional, não há mais uma preocupação em explicar exatamente quais os
traços característicos dessa cultura. Para o neonacionalismo atual, a cultura
japonesa funciona mais como um signo aberto, um rótulo ou marca que pode em
princípio ser estampado em qualquer prática ou discurso, o que, ademais,
explica seu enorme alcance e sua popularidade (Kitada, 2005; Azuma, 2009).
Assim, a cultura japonesa torna-se cada vez mais um produto a ser consumido de
acordo com os interesses e as relações de poder vigentes (Yoshino, 1999).
Como todo objeto de consumo, esta noção de cultura japonesa está claramente
inserida em um mercado global. Ela deve, portanto, ser atraente não somente ao
consumidor interno no Japão, mas também a outros países, cuja aprovação passa a
ser determinante para o status e o valor dessa "cultura japonesa". Daí a
necessidade paradoxal de construir um nacionalismo que precisa ser reconhecido
em escala global. Por isso mesmo, a mídia japonesa não se cansa de realizar
reportagens sobre a disseminação da cultura japonesa no mundo por meio da
literatura, das histórias em quadrinhos, dos desenhos animados, ou do cinema,
que são apontados como sinal do vigor da cultura e da sociedade japonesas. Tem
razão, portanto, Renato Ortiz (2000) ao enfatizar que o Japão e a cultura
japonesa só podem ser pensados a partir de uma reflexão mais abrangente do
ponto de vista da globalização.
O caso japonês revela portanto que, embora muitos teóricos sociais atuais
tendam a interpretar o nacionalismo no mundo contemporâneo como uma forma de
resistência e oposição à globalização (Appadurai, 1996; Beck, 2002; Kaldor,
2004), o nacionalismo hoje pode também se aproveitar de redes e conexões
transnacionais para produzir e reproduzir seu discurso. É ingenuidade supor que
movimentos nacionalistas estão apenas manifestando frustração com a
complexidade e a fluidez do mundo atual. Eles estão na realidade fazendo uso
dessa mesma complexidade.
Consumidores de "cultura japonesa" no Brasil
O esboço traçado, ainda que necessariamente incompleto e seletivo, nos permite
tecer alguns comentários sobre os diversos modos como a cultura japonesa vem
sendo apropriada e representada no Brasil, uma vez que o debate no Japão
mantém, ainda que indiretamente, relação com os desdobramentos na situação
brasileira.
O início da imigração japonesa em 1908 obrigou pela primeira vez a sociedade
brasileira a pensar seriamente sobre a cultura japonesa. Como apontam diversos
autores, a avaliação feita pelos intelectuais e governantes da época era
ambígua e conflituosa. Se de um lado muitos deploravam os imigrantes japoneses
por pertencerem a uma sociedade considerada primitiva e racialmente inferior,
de outro, havia também aqueles que os defendiam, com o argumento de que o Japão
era a nação oriental onde os modernos padrões europeus haviam sido mais bem
assimilados, o que seria sinal de que a raça japonesa poderia influir
positivamente sobre o Brasil (Ramos, 1996; Seyferth, 1996; Lesser, 1999). Essa
tensão entre os autores brasileiros no fundo refletia, como vimos, a
ambiguidade com que os próprios intelectuais japoneses da época estavam
tentando construir e "inventar" a cultura japonesa a partir de atitudes
conflitantes com relação às noções de tradição e modernidade.
No entanto, a imigração continuou se intensificando, principalmente entre
meados da década de 1920 e fins da década seguinte. Durante a Segunda Guerra
Mundial, porém, quando o Japão foi declarado país inimigo, a postura brasileira
pendeu para o lado mais hostil do debate. Foi quando ganharam força discursos
sobre a barbárie da cultura japonesa e o "perigo amarelo" representado tanto
pelo Japão como pelos imigrantes japoneses (Takeuchi, 2002).
Depois da guerra, contudo, principalmente a partir da década de 1960, ocorre
uma guinada em sentido contrário. As opiniões negativas passam a se tornar
minoritárias, e o Japão se torna gradativamente um símbolo de modernidade,
desenvolvimento e progresso, um país que, por ter se tornado uma das maiores
potências econômicas mundiais deveria ser visto como modelo no caminho do
Brasil rumo ao primeiro mundo. A ascenção social de vários imigrantes japoneses
na sociedade brasileira fortalecia tais ideias (Cardoso, 1998). É a partir
desse período que se consolida uma imagem positiva dos japoneses e seus
descendentes. Eles seriam trabalhadores e aplicados nos estudos, traços
culturais supostamente japoneses (Lesser, 2007). Vale ressaltar que essa
apologia da cultura japonesa no Brasil coincide com o período de ascensão das
teorias triunfalistas do nihonjinron no Japão, e em ambos os países isso serviu
para legitimar ideologias desenvolvimentistas e modernizantes em voga na época.
Os desdobramentos no Brasil até este período estão bem documentados, mas como
compreender o contexto atual e o tom laudatório com que a cultura japonesa
continua sendo representada, como nas comemorações do centenário da imigração
japonesa em 2008? Em princípio, essa tendência pode parecer apenas o efeito da
permanência de um pensamento desenvolvimentista herdado das décadas de 1960 e
1970.
No entanto, creio que só podemos compreender o real alcance do fenômeno atual
se levarmos em consideração a situação atual do debate no Japão. Como já vimos,
a década de 1990 marcou o início de uma era de recessão e de grande
instabilidade social na sociedade japonesa. Como resposta a essa situação,
surgiu um curioso amálgama de ideais globalizantes e neonacionalistas em que a
cultura japonesa, a fim de reunir força suficiente para desempenhar o papel de
resgatar o orgulho nacional, precisa ser reconhecida, admirada e consumida em
escala global.
As comemorações do centenário da imigração são justamente uma das formas mais
visíveis de como o Brasil se tornou um dos consumidores deste neonacionalismo
global vindo do Japão. Assim, quando a sociedade brasileira ostenta a bandeira
e o hino japoneses e rende homenagens à família imperial que vão muito além do
protocolo, ela está endossando e legitimando, ainda que inadvertidamente, os
ideais de grupos neonacionalistas japoneses. Está também, ao mesmo tempo,
ignorando por completo as lutas e os protestos políticos de países asiáticos e
grupos minoritários dentro do próprio Japão que não dispõem dos recursos
necessários para divulgar seus discursos no mercado global.
Algumas leituras essencialistas da cultura japonesa feitas por acadêmicos no
Brasil nas vésperas e durante a época das comemorações também acabaram
reproduzindo essa tendência. Ninomiya (2008, pp. 152-153), por exemplo,
enfatizando o alto nível de escolaridade dos japoneses no Brasil, cita uma
suposta tradição japonesa de valorização da educação que remete às tradições
confucionistas e às escolas estabelecidas em templos budistas no período Edo,
que recebiam crianças de todas as classes. Essa tradição educacional teria
continuado sem interrupções no período Meiji, sendo transmitida aos japoneses
que na época vieram para o Brasil.
Esse tipo de interpretação sugere uma cultura japonesa única, que segue
imutável durante os séculos, alheia à contaminação ocidental, tal como defendem
os neonacionalistas. Porém, uma análise mais detida revela uma série de
dificuldades. As escolas nos templos budistas do período Edo de fato recebiam
crianças das classes populares, mas eram apenas locais em que elas aprendiam
noções básicas de escrita e matemática para fins instrumentais, ou seja, para
poder lidar com o trabalho do dia a dia. Diferentemente das escolas voltadas
para a nobreza e as classes guerreiras, não havia uma conotação propriamente
ética, e a verdadeira educação era tida como aquela que a criança aprendia
trabalhando, para mais tarde continuar o ofício dos pais (Dore, 1965, p. 252;
Koyama, 2002, pp. 69-70). No período Meiji, verifica-se uma clara ruptura com
este modelo. Surge uma filosofia de valorização da educação para fins de
modernização e unificação nacional, e a escola torna-se o principal espaço para
difundir esse tipo de ideologia. No entanto, muitos pais recusavam-se a mandar
seus filhos para as novas escolas impostas pelo governo, onde se ensinavam
matérias consideradas inúteis na vida cotidiana, tais como ciências ou educação
moral. Várias escolas chegaram inclusive a ser queimadas em protesto, o que
deixa claro que a política escolar do período Meiji era vista como uma afronta
ao modo como as classes populares vinham tradicionalmente educando seus filhos
(Koyama, 2002, pp. 67-68; Platt, 2004, pp. 185-213).
Lembremos também que a educação do período Meiji, mais do que seguir tradições
budistas ou confucionistas, buscava inspiração claramente nos modelos
ocidentais, que utilizavam a instituição da escola para consolidar a figura do
Estado-nação. Não por acaso, os primeiros livros didáticos usados no Japão eram
traduções de textos ocidentais (Mita, 1992, p. 227).
Vale ressaltar que mesmo autores preocupados em enfatizar a diversidade e a
historicidade da cultura japonesa acabam muitas vezes reproduzindo visões
essencialistas. Assim, embora demonstre grande cuidado em enfatizar os perigos
dos estereótipos da cultura japonesa, Sakurai (2007) acaba afirmando, sem
especificar momento histórico, classe social ou qualquer outro contexto, que
"os japoneses" gostam de olhar as flores das árvores de cerejeira e de tomar
banhos de imersão, ou que "os japoneses" têm uma admiração especial pela
natureza. Sobre esta relação com a natureza ela sugere ainda uma tese
problemática. Um elemento da natureza especialmente admirado no Japão seria o
sol, que por isso mesmo estaria representado na bandeira japonesa. Embora não
deixe de comentar que essa bandeira tem conotações militares, ela afirma que a
bandeira continua "motivo de orgulho e sinal de reconhecimento de uma ligação
particular com a natureza e o passado do país" (Idem, p. 11). No entanto, como
vimos, são numerosos aqueles que sentem profunda aversão à bandeira e que
manifestaram sua revolta quando ela foi oficializada em 1999. Apresentar o
hinomaru como símbolo de um vínculo especial dos japoneses com a natureza e com
seu passado negligencia os conflitos por trás deste símbolo e, ainda que
indiretamente, legitima o neonacionalismo japonês em uma de suas principais
demandas, a saber, a imposição da bandeira nacional.
Não devemos, é claro, exagerar o impacto que o Brasil exerce sobre o debate na
sociedade japonesa. Contudo, referências ao Brasil e principalmente aos
brasileiros descendentes de japoneses são também usadas para justificar
ideologias nacionalistas. Um dos exemplos mais claros foi a minissérie de
televisão Haru to Natsu: Todokenakatta Tegami (Haru e Natsu: As Cartas que Não
Chegaram), produzida em 2005 pela rede NHK do Japão.5 O enredo conta a
trajetória de duas irmãs japonesas, uma delas vindo ao Brasil com a família,
enquanto a outra é obrigada a permanecer sozinha no Japão. É marcante o modo
pelo qual os japoneses no Brasil são retratados como mantendo um espírito nobre
e uma grande lealdade ao imperador e às tradições japonesas. Em contraste, os
japoneses no Japão tornam-se cada vez mais frios e cínicos sob a sombra da
presença norte-americana. O final mostra o reencontro das duas irmãs, que
decidem ir juntas para o Brasil, onde permanece intacta a "verdadeira" cultura
japonesa, ou seja, aquela que continua orgulhosa de si e não precisa prestar
contas a ninguém. A sociedade brasileira é idealizada e apropriada assim como
um local onde as demandas do neonacionalismo japonês podem vir a ser
reconhecidas e legitimadas (Oda, 2010).
É extremamente difícil discutir e criticar esse processo no Brasil devido à
escassez de trabalhos conscientes do contexto histórico e dos debates
intelectuais em curso no cenário japonês. Ainda predominam na literatura em
português referências a ideias e autores de nihonjinron, o que tende a
popularizar visões essencialistas e esotéricas da cultura japonesa. Por isso,
não é de estranhar que os brasileiros mais propensos a apresentar uma
perspectiva mais crítica são justamente aqueles que a partir da década de 1990
passaram a viver e trabalhar no Japão como dekasseguis. Por vivenciarem de
perto os conflitos e as contradições da sociedade japonesa, e sendo eles
próprios o alvo de preconceito e discriminação por parte dos japoneses, esses
brasileiros acabam desenvolvendo uma imagem muito mais crítica com relação à
ideia de cultura japonesa (Tsuda, 2003). Da mesma forma, são pesquisadores
voltados para este tema que tendem a mostrar maior consciência dos problemas em
torno da noção de cultura japonesa, desde o peso do passado colonialista até o
neonacionalismo conservador atual (Sasaki Pinheiro, 2009).
Conclusão
Procurei neste artigo traçar um panorama muito geral e seletivo6 do conturbado
processo de formação e transformação da noção de "cultura japonesa",
enfatizando seu caráter histórico e dinâmico, em contraposição ao modo
essencialista e monolítico com que este problema costuma ser tratado no Brasil.
Isto nos permitiu perceber que a cultura japonesa configura um discurso
político cujo conteúdo varia de acordo com as relações de poder em curso não
apenas no âmbito interno do território japonês, mas também num contexto social
mais amplo de escala transnacional.
Como argumentei, o Brasil encontra-se inserido nesta rede de relações,
influenciando e sendo influenciado pelos desenvolvimentos em curso no Japão.
Uma vez que a noção de "cultura japonesa" se torna objeto de consumo disponível
dentro de um mercado global, o Brasil também se apresenta como um dos
consumidores desse tipo de "produto".
Tal consumo pode ser observado em práticas associadas aos imigrantes japoneses
e seus descendentes no Brasil, como foi o caso das comemorações do centenário
da imigração em 2008, com a celebração de símbolos nacionalistas como a
bandeira, o hino e o imperador japoneses. Também pode ser visto em leituras
essencialistas de textos acadêmicos que identificam uma cultura japonesa
imutável, independentemente de contexto histórico e imune a conflitos sociais.
Esses reflexos da noção de "cultura japonesa" no Brasil sugerem a necessidade
de pensar nacionalismo e globalismo não como termos antagônicos, mas como uma
realidade única em que canais transnacionais podem servir para reproduzir
ideias nacionalistas para além das fronteiras do Estado-nação.
Notas
1 Em contrapartida, as comemorações dos 500 anos do "descobrimento" do Brasil
foram acompanhadas de críticas tanto por parte dos intelectuais como de
movimentso sociais (Silva, 2003).
2 Uma notável exceção é o trabalho de Renato Ortiz (2000).
3 Os textos da conferência estão em Calichman (2008).
4 A perspectiva adotada neste artigo deve muito às contribuições desses
autores, especialmente ao trabalho de Naoki Sakai (1989, 1997).
5 A minissérie foi exibida no Brasil em 2008 pela rede Bandeirantes.
6 Não pude tratar, por exemplo, da chamada "Escola de Kyoto", um grupo de
pensadores cujo trabalho é de fundamental importância. Ver sobre o tema Heisig
e Maraldo (1995) e Goto-Jones (2007).