Democracia, arenas decisórias e política econômica no governo Lula
Introdução
As escolhas políticas que levaram as novas democracias a se inserirem na
economia global têm trazido exigências paradoxais para seus governos. De um
lado, o modelo de integração internacional impõe a necessidade de gerar
confiança e credibilidade para os mercados financeiros com relação à capacidade
de solvência governamental, e, portanto, restrições fiscais. De outro lado, a
democratização e a maior liberdade de expressão das demandas populares por
políticas redistributivas empurram os governantes em outra direção. Dessa
forma, a dinâmica democrática nesses países faz com que os governos, ao
definirem seus rumos, levem em conta não apenas as exigências do mercado, mas
também as demandas mais amplas da sociedade (crescimento, expansão do emprego,
distribuição de renda), fundamentais para sua legitimação política (Przeworski,
1995; Sola, 2004).
O objetivo deste texto é discutir os impactos na agenda macroeconômica,
particularmente na área fiscal, deste processo duplo de transformações que
desafiam os governos das chamadas democracias de mercado emergente (Whitehead,
2002). A escolha da temática fiscal merece esclarecimento. De modo geral, ela
costuma ser foco privilegiado por economistas ortodoxos e políticos
conservadores. Desde as crises dos anos de 1970-1980, analistas atacavam as
políticas keynesianas e os gastos com programas sociais do Welfare State com a
retórica de que o déficit público era o resultado de gastanças irresponsáveis
dos governos, exprimindo a falta de compromisso moral em face das gerações
futuras (Buchanan, Rowley e Tollison, 1987).
Questionando tais pressupostos ideológicos, a presente análise distancia-se da
visão conservadora e leva em conta várias pesquisas empíricas que revelaram o
fracasso das políticas ortodoxas destinadas a zerar o déficit público. Tanto
nos Estados Unidos como nos países europeus foram grandes as dificuldades
políticas para reduzir os déficits públicos na situação de recessão econômica e
de desemprego que caracterizou os anos de 1980. Os estudos mostraram que a
maioria dos países só conseguiu equilibrar seus problemas fiscais quando
ocorreram novos ciclos de expansão econômica. Provavelmente, foi esse quadro de
dificuldades econômicas e políticas que levou os mentores da comunidade
econômica europeia, no tratado de Maastricht, a estabelecer um teto de 3% do
PIB para o déficit nominal, abandonando a meta do déficit zero (Schich, 1993;
Brady e Volden, 1998; Briffault, 1996; Evans, 1997). Em tempos mais recentes, a
crise financeira global desencadeada em 2008 tem ajudado a reforçar as críticas
ao conservadorismo econômico e político.
O presente texto se distingue ainda das análises convencionais porque procura
enfatizar a questão fiscal pelo prisma político e, mais particularmente, a
partir das possibilidades trazidas pela democracia. A literatura produzida na
economia, especialmente na área de finanças públicas, muitas vezes supõe que a
lógica democrática traz obstáculos ou constrangimentos à "racionalidade
econômica" e às iniciativas de ajuste fiscal.1 Ao contrário, argumentamos que a
democracia permite melhorar a qualidade das políticas públicas (tornando-as
mais representativas e próximas às demandas sociais) e aumentando, assim, a
probabilidade da eficácia de sua implementação.
Recorrendo-se à própria história brasileira das últimas décadas, pode-se
relembrar que foi sob o regime democrático que se alcançou o ordenamento das
contas públicas legadas em profunda desordem pela ditadura militar. As eleições
regulares, o sistema de poder descentralizado pelo federalismo e pelo
multipartidarismo não têm sido obstáculos para o desenvolvimento de um processo
gradual de mudanças na área fiscal. Independentemente de julgamentos de valor
acerca do conteúdo destas políticas, destaca-se aqui que os processos
democráticos não têm sido empecilhos à efetivação de mudanças consideráveis
nesta área no país. Em outras palavras, o poder compartilhado não tem sido
obstáculo à governabilidade, como a literatura convencional sustenta. Novas
abordagens teóricas têm permitido explicar que políticas públicas formuladas de
forma negociada com os atores políticos relevantes e implementadas gradualmente
têm mais chances de sucesso do que as decididas de forma intempestiva em arenas
restritas e insuladas do restante do sistema político e das demandas da
sociedade.
Diferentemente de concepções (formuladas com frequência em bases apenas
dedutivas) que veem nessa situação de desconcentração de poder uma limitação à
governabilidade e propõem arranjos decisórios de tipo majoritários ou mais
centrípetos, pesquisas empíricas mais recentes têm mostrado situações inversas.
A partir de estudos quantitativos, Lipjhart (1999) mostrou que o sistema
político mais consociativo (em que o poder está menos concentrado) é não só
mais representativo em sociedades heterogêneas, mas também não tem sido
obstáculo à gestão macroeconômica, em especial ao controle da inflação. Outros
autores, como Stark e Brustz (1998), ao examinarem as bases institucionais da
coerência (ou sustentabilidade temporal) das políticas econômicas adotadas em
países do Leste Europeu no pós-socialismo, indicam que a capacidade de elaborar
e implementar programas de reforma mais eficazes é aumentada quando o Poder
Executivo é menos concentrado, ou seja, quando é mais constrangido a prestar
contas de suas decisões às diversas forças políticas no parlamento e na
sociedade organizada. E, portanto, tem sua responsabilidade política
(acccountability) mais estendida. Tendo que debater e negociar suas propostas
com outros atores, os decisores aumentam a compreensão dos problemas, ampliam a
capacidade de obter informações, corrigindo erros de cálculo que, na ausência
desse processo, só apareceriam no momento da implementação, e, portanto, com
menor possibilidade de correção. Isto encoraja, ainda, os formuladores a pensar
vários passos à frente nos jogos estratégicos das políticas públicas, além de
comprometer e responsabilizar mais atores políticos com os resultados dos
programas adotados. Em suma, o argumento desenvolvido por essa literatura (e
que endossamos aqui) é que a democracia pode funcionar como uma oportunidade e
não um obstáculo à gestão macroeconômica adequada (em outras palavras, como
enabling e não como desenabling constraints).
Com relação à questão fiscal no Brasil, cabe lembrar que ela tem estado em
nossa agenda pública há quase três décadas, mas com objetivos cambiantes. Nos
anos de 1980-1990, ela estava focada nas reformas institucionais destinadas ao
ordenamento das contas públicas, de modo geral bem-sucedidas, como a unificação
dos orçamentos, a criação da Secretaria do Tesouro Nacional, a estabilização
monetária, a reestruturação do sistema bancário público e privado. A partir de
1999, concentrou-se na política de geração de superávits primários que tem
servido de garantia de solvência para o mercado, também consolidando, com a Lei
de Responsabilidade Fiscal, medidas mais severas de controle dos gastos e do
endividamento público, particularmente para os governos subnacionais.
No primeiro governo Lula, sob o comando do ministro da Fazenda Antônio Palocci,
a política macroeconômica caracterizou-se pela continuidade em relação à
orientação predominante no governo Fernando Henrique Cardoso, e a política
fiscal, em particular, foi marcada pela intensificação do nível do superávit
primário e ainda por propostas de déficit nominal zero. Todavia, o segundo
governo apresentou mudanças, com o lançamento do programa de aceleração do
crescimento (PAC), a expansão do sistema de crédito consignado para bens de
consumo, a ampliação dos programas de transferência de renda, a concessão de
aumentos reais para o salário mínimo, além de novas contratações e aumentos
salariais para o funcionalismo público. Tais mudanças indicam que a política
fiscal deixou de ser apenas um instrumento de garantia de solvência para os
credores (credibilidade financeira) e adquiriu também o papel de instrumento de
política de crescimento econômico e de melhoria da distribuição de renda.
Como tais mudanças da política fiscal ocorreram e como elas podem ser
entendidas na dinâmica da democracia brasileira? Em outras palavras, o que
possibilitou o adensamento da agenda fiscal no governo Lula, permitindo que ela
passasse também a responder às demandas por crescimento econômico e
transferência de renda?
Em primeiro lugar, cabe destacar o timing dessas mudanças. Elas ocorreram
predominantemente a partir do segundo mandato, quando o governo já havia
conseguido provar aos investidores que iria cumprir as promessas efetuadas
durante a campanha de 2002 na "Carta ao Povo Brasileiro".Além disso, o novo
clima internacional - que, mesmo antes da eclosão da crise financeira de 2008,
já apresentava indícios de questionamento da agenda liberal e de seus impactos
nos países em desenvolvimento - repercutiu fortemente no Brasil.2 E foi
reforçado com a divulgação de informações econômicas do país no final de 2006,
indicando níveis bastante baixos de crescimento econômico.. Por fim, a
substituição da equipe econômica por outra mais distante da ortodoxia que
prevaleceu no Ministério da Fazenda no primeiro mandato também é fator
relevante na flexibilização da agenda fiscal do segundo governo Lula.
Com relação à forma ou estilo decisório na área fiscal, é possível afirmar que
também houve mudanças no segundo governo Lula, e essas se processaram no padrão
típico de nosso presidencialismo de coalizão (Abranches, 1988). Exigindo
negociação constante entre os atores políticos com poder de veto, essa
modalidade de sistema político acaba levando à segmentação da burocracia: de um
lado, núcleos decisórios insulados que garantem a realização do programa de
governo, especialmente as políticas econômicas;3 de outro, arenas abertas à
pressão e à negociação de diferentes atores políticos. Pode-se mesmo definir
essa segmentação como procedimento quase típico de nossa democracia
presidencialista, na medida em que foi praticada, tanto no quadro institucional
de 1946-1964, no segundo governo Vargas e no governo JK (D'Araújo, 1982;
Geddes, 1994) como no marco pós-1988 nos mandatos de Fernando Henrique Cardoso
(Loureiro e Abrucio, 1999).
No caso do segundo governo Lula, essa segmentação manifestou-se na
impermeabilidade da política monetária do Banco Central às pressões do sistema
político mais amplo e, de outro lado, na abertura para negociações na política
fiscal. Além do Ministério da Fazenda, outras agências governamentais (como
Casa Civil, BNDES etc.) passaram a fazer parte das arenas decisórias, o que
permitiu a ampliação do conteúdo da política. Em outras palavras, o adensamento
da política fiscal, desdobrando-se para além do objetivo de gerar credibilidade
para o mercado financeiro e incluindo também crescimento do emprego, da renda,
do crédito etc. foi possível pela ampliação da arena decisória e pela adoção de
estilo mais negociado de tomada de decisão.
Todavia nunca é demais frisar que a tendência de mudança da agenda fiscal chega
até o limite em que não ameace os interesses da coalizão política dominante no
país, centrada no capital financeiro e em grupos "rentistas" (o chamado "poder
de fogo do mercado"). Politicamente, essa coalizão tem se expressado na ação
dos dirigentes do Banco Central, respaldada pelo mainstream dominante na
comunidade epistêmica (organismos internacionais, universidades norte-
americanas e nacionais, empresas de consultoria etc.) e difundida
constantemente na mídia.4 Do ponto de vista econômico a coalizão sustenta-se na
dependência estrutural do Estado em relação ao setor financeiro para a rolagem
da dívida pública interna, já que parte significativa da dívida mobiliária
federal é composta por títulos de curto prazo baseados na taxa Selic, detidos
majoritariamente pelas instituições financeiras. Na composição desses
interesses incluem-se até mesmo fundos de pensão de importantes segmentos
sindicalizados da classe trabalhadora brasileira, como os bancários e os
petroleiros, que são base de sustentação do próprio Partido dos Trabalhadores.
É pertinente relembrar, para reforço deste argumento, a literatura que discute
os momentos de autonomia do Estado em relação aos capitais privados. Ela aponta
as tensões existentes entre as políticas sociais, redistributivas, e aquelas
voltadas a garantir condições seguras de acumulação de capital, especialmente
na arena financeira (Skocpol, 1985). Como argumentou Przeworski (1995), em
situações em que o capital é internacionalmente móvel a teoria da dependência
estrutural do Estado ao capital pode ser aplicada. A atual dependência
estrutural do Estado brasileiro ao setor financeiro internacionalizado é
resultado das escolhas efetuadas no passado e reafirmadas no presente. Dessas
escolhas decorrem as exigências paradoxais entre acumulação financeira e
legitimação política, configurando situação em que as políticas destinadas a
atender demandas sociais devem se submeter à necessidade de garantir a
solvência governamental. Assim, as políticas sociais e de desenvolvimento
econômico só avançam até o limite em que não contrariam a credibilidade exigida
pelo mercado financeiro. A despeito desse limite, eles não deixam de fazer
diferença na configuração política e econômica do país na última década.
O texto a seguir está assim organizado. Inicialmente há uma breve descrição da
trajetória da agenda fiscal no Brasil ao longo das três últimas décadas,
destacando seus pontos principais de inflexão gerados pelas crises externas e
dinâmicas políticas internas. Em seguida, comparam-se as agendas
macroeconômicas do PT antes e durante a experiência à frente do governo
federal, destacando-se o período Palocci, em que há a continuidade do
receituário liberal e mesmo tentativas de aprofundá-lo, com a proposta de
déficit nominal zero. Na terceira parte, examina-se como o segundo governo Lula
opera a dupla face da política fiscal e concilia suas ambivalências. As
considerações finais procuram sistematizar os argumentos.
A trajetória da agenda fiscal no Brasil
Do descalabro da ditadura ao ordenamento das contas
Durante o regime militar, o poder do Congresso Nacional de legislar sobre
questões de financiamento público foi transferido para um órgão da burocracia
governamental, o Conselho Monetário Nacional (CMN). Este tinha total poder para
administrar a dívida mobiliária sem que as operações transitassem pelo
Orçamento Geral da União (OGU). Em consequência do descrédito do OGU, que não
tinha capacidade para impor limites e restrições à política fiscal, surgiram
orçamentos paralelos que eram submetidos apenas ao Executivo, como, por
exemplo, o orçamento monetário. Na verdade, durante as décadas do governo
militar, as finanças do setor público brasileiro eram norteadas por uma grande
multiplicidade orçamentária. Além do OGU, havia o orçamento monetário, a conta
da dívida e ainda o orçamento das empresas estatais.5
O orçamento monetário funcionava como uma ferramenta de controle do passivo
monetário e não monetário que era utilizado para a política cambial, para
autorizar subsídios e linhas de crédito a diferentes setores de atividade
econômica e outros programas. Cada orçamento era aprovado por uma autoridade
pública diferente e em momentos também diferentes, o que causava total
desarticulação entre as políticas econômicas implementadas pelo governo. O
orçamento monetário era um artifício jurídico/contábil que funcionava como uma
espécie de ralo por onde vazavam os recursos do Tesouro, em ações como crédito
à agricultura e às exportações e na política de preços mínimos agrícolas (OCDE-
Brasil, 2001).
Além disso, havia a estratégia, adotada pelos governos de utilização das
autoridades monetárias como bancos de fomento do desenvolvimento econômico,
como forma de viabilizar a política de "crescimento com endividamento". Grandes
volumes de recursos eram levantados sem elevar a carga tributária, ou seja, sem
desestabilizar politicamente o regime militar vigente. A contrapartida era
sempre a expansão monetária ou elevação da dívida mobiliária (Idem).
Na verdade, do ponto de vista monetário, além do Banco Central (Bacen), também
o Banco do Brasil (BB) operava na área, disputando e ganhando poder em relação
ao Bacen. Quando este foi criado em 1964, o BB, que até então exercia funções
de autoridade monetária, era uma agência extremamente forte na estrutura de
poder do país. Tal poder permitiu-lhe reter parcela considerável de atribuições
de política econômica, gerando assim uma situação esdrúxula de duas autoridades
monetárias em concorrência e, consequentemente, de ausência de controle efetivo
da política monetária. O BB passou a ser o titular da chamada "conta-
movimento", instituída para processar o nivelamento das reservas com o Bacen.
Tratava-se de um passivo do BB em relação ao Bacen, inventado para suprir sua
falta de infraestrutura administrativa e técnica no período inicial de
atividades. Embora criada para ser um expediente provisório a vigorar apenas no
momento de transição institucional, essa conta acabou sendo perpetuada por
facilitar a liberação de empréstimos e financiamentos sem que estes constassem
do orçamento do governo. Em outras palavras, a conta-movimento permitia ao BB
sacar sem limites contra o Tesouro, inviabilizando qualquer controle fiscal.
Além disso, na ausência de uma Secretaria do Tesouro, o governo não tinha meios
de saber, de fato, como andavam suas contas (Gouvea, 1994; OCDE-Brasil, 2001).
Como se não bastasse, havia a conta da dívida que, a partir do início da década
de 1970, funcionou de forma autônoma e garantiu a cobertura dos juros e
amortizações (serviço da dívida) sempre por meio da emissão de novos títulos.
Esse processo ficou conhecido como o "giro da dívida interna". A dívida crescia
em função de diversos fatores, do seu próprio serviço e do financiamento de
gastos extra-orçamentários, nunca se sabendo, ao certo, o quanto era devido a
cada fator (OCDE-Brasil, 2001).
Esta era a situação da área fiscal até a crise que atinge as economias
capitalistas nos anos de 1970/1980, desencadeada por vários fatores, entre eles
o choque dos preços do petróleo que repercute nos países periféricos, como o
Brasil, sob a forma de uma grave crise de dívida externa. Como se sabe, essa
crise levou ao esgotamento do modelo de desenvolvimento econômico fundado no
endividamento externo crescente (Bresser-Pereira, Maravall e Przeworski, 1993).
A situação das finanças públicas no Brasil agravou-se ainda mais, gerando outro
sério problema fiscal: o do aval da União a qualquer empréstimo externo
efetuado pelos estados, municípios e empresas estatais, honrados pelo BB
através do Orçamento Monetário. Também os aportes de recursos aos bancos
estaduais passaram a ser supridos por esta Conta-movimento do Banco do Brasil
(OCDE-Brasil, 2001).6 Embora tenham ocorrido, sob pressão dos organismos
internacionais, tentativas de ordenamento das finanças públicas ainda sob o
governo militar, elas não surtiram efeito (Gouveia, 1994).
Portanto, foi tal quadro caótico - no qual era impossível qualquer controle
eficaz sobre o orçamento público, a política monetária e o endividamento do
governo e das estatais - que a ditadura e a gestão tecnocrática da economia
legaram ao país. Se fatores macroestruturais de ordem econômica e situações da
conjuntura internacional tiveram impactos na geração deste quadro, não se pode
deixar de enfatizar que a desorganização das finanças públicas brasileiras foi
profundamente acentuada pelo caráter autoritário do governo, dado que não havia
controle público democrático das decisões altamente insuladas tomadas pela
tecnocracia econômica.
Medidas de ordenamento das finanças governamentais, tais como a unificação dos
orçamentos, a criação de órgãos de controle das contas públicas como a
Secretaria do Tesouro Nacional (STN) e regras mais rigorosas sobre
endividamento público só ocorreram após a redemocratização, na segunda metade
dos anos de 1980 e ao longo da década seguinte. A consolidação dessas medidas,
bem como a centralização da autoridade monetária no Banco Central só se
efetivaram após a implementação do Plano Real, a partir de 1994, e com a adoção
de reformas econômicas voltadas à estabilização monetária. Na verdade, para
melhor compreender a trajetória da agenda fiscal no Brasil, é necessário situá-
la dentro da própria trajetória da agenda neoliberal no país.
A adoção da agenda neoliberal
Como se sabe, a abertura comercial trazida pelo governo Collor, em 1990,
desencadeia o processo gradual de rompimento com o modelo de substituição de
importações, predominante no Brasil no período do nacional-desenvolvimentismo
(iniciado com Vargas e consolidado nos governos militares). Este modelo foi
gradualmente desmontado pelas políticas econômicas dos anos de 1990,
especialmente no governo FHC: abertura financeira, eliminação dos monopólios
estatais nos setores de petróleo, energia e telecomunicações, privatizações de
numerosas empresas e bancos públicos. Além do processo de estabilização
monetária, com o Plano Real, é necessário destacar também outras mudanças menos
conhecidas, mas igualmente significativas ocorridas ao longo destes anos. Elas
envolvem a informatização das contas públicas e seu maior ordenamento e
transparência, a renegociação das dívidas dos governos subnacionais com a lei
9.496 de 1997, a efetivação dos programas de reestruturação dos bancos públicos
e privados (Proer e Proes) e ainda a criação de sistemas mais sólidos de
proteção e fiscalização bancária (Sola e Kugelmas, 2002; Marques, 2005).
Esta experiência trouxe uma nova cultura política para o país, na qual a
estabilização monetária se tornou o maior objetivo da política macroeconômica
desde então. Como se sabe, a convivência com altas taxas de inflação, que
caracterizou boa parte da história econômica brasileira na segunda metade do
século passado, gerou impactos perversos para as finanças públicas e para
parcelas da sociedade (Sola e Kugelmas, 2002), com perdas para as camadas de
mais baixa renda sem contas bancárias e sem acesso à correção monetária de seus
salários. Para os governos, a crônica hiperinflação significava que o orçamento
era uma "peça de ficção", como se costumava dizer, pois impossibilitava o
planejamento de receitas e gastos e qualquer tipo de transparência e controle
das contas públicas.
Todavia, se a política econômica do primeiro governo FHC foi bem-sucedida no
tocante à estabilidade de preços, ela se mostrou insustentável devido à
acumulação contínua de passivos públicos e externos. Embora o Plano Real
tivesse colocado o ajuste fiscal como seu eixo fundamental e identificado o
desequilíbrio das contas públicas como a causa fundamental da alta inflação,
não houve ajuste fiscal "prévio" ou simultâneo à estabilização. Ela só veio a
se consolidar após a crise de 1999, por imposição do FMI. Diante da
vulnerabilidade, manifestada de forma dramática com a crise externa de 1998 que
levou à desvalorização do Real em janeiro de 1999 e que explicitou os limites
da política econômica adotada até então, o segundo mandato de FHC teve que
produzir mudanças. Como são bem conhecidas, tais mudanças apoiaram-se no tripé:
1) adoção do regime de metas de inflação; b) câmbio flutuante; e c) ajuste
fiscal voltado para a geração de superávits primários - estes necessários à
garantia de confiança dos credores na solvência do governo, devido ao aumento
da despesa com juros, desencadeado pela instabilidade financeira (Oliveira e
Turolla, 2003).
A agenda fiscal no governo Lula
Os documentos programáticos do Partido dos Trabalhadores apresentados antes da
campanha de 2002 eram relativamente vagos sobre o regime de política fiscal a
ser adotado em caso de vitória eleitoral. Ainda assim, é possível perceber que
as críticas à política adotada por FHC deslocavam-se de uma rejeição completa
ao "arrocho fiscal" para a preocupação crescente com a "viabilidade" das
medidas a serem implementadas em um eventual governo de Lula. O elevado
endividamento público, seu perfil de curto prazo e os gastos com juros eram
entendidos como restrições fundamentais a serem consideradas em uma possível
reorientação da política fiscal em direção a um modelo "redistributivo e
indutor do crescimento".7
Enfatizando a perspectiva de mudança, os programas do PT faziam menções
genéricas à necessidade de aumentar os gastos públicos em políticas de
habitação, saneamento e infraestrutura e, ainda, elevar o investimento das
estatais, especialmente nas áreas de energia. Mesmo rejeitando a simples volta
ao modelo nacional desenvolvimentista, eles propunham retomar algumas
estratégias para reativar o papel do Estado na economia (agora como indutor e
coordenador) com o objetivo de alcançar o pleno emprego e universalizar as
políticas sociais. Ênfase especial era também atribuída aos bancos públicos
federais no que concerne ao investimento, expansão do crédito e formação de
poupança obrigatória, como FGTS (Fundo de Garantia de tempo de Serviço) e FAT
(Fundo de Amparo ao Trabalhador).
Entre os documentos formulados durante a campanha, o mais importante foi a
"Carta ao Povo Brasileiro", que representou o compromisso explícito do então
candidato Lula com o superávit primário, garantindo uma taxa estável de
endividamento ante o PIB. Esse compromisso, de fato incorporado posteriormente
no programa de governo, foi fundamental para acalmar os credores e o mercado
financeiro, na medida em que se intensificavam, na competição eleitoral, o medo
e as expectativas negativas sobre o que ocorreria em um governo do PT. Ele foi
decisivo para a vitória de Lula.
Não entrando na controvérsia relativa à continuidade ou ruptura do governo Lula
em relação às políticas defendidas na campanha, é relevante enfatizar outro
ponto: se a continuidade da política econômica de Lula com relação à do segundo
mandato de FHC pode ser interpretada como um desfecho possível ou mesmo
previsível da trajetória programática do PT, o que causa surpresa, entretanto,
é o fato de que o primeiro mandato de Lula tenha sido uma radicalização da
política fiscal de FHC.
A proposta de radicalização da ortodoxia fiscal
Em abril de 2003, o Ministério da Fazenda lança o documento intitulado
"Política econômica e reformas estruturais", apresentando a opção da agenda
econômica daquele momento: equilíbrio fiscal, focalização das políticas sociais
e reformas estruturais (como a reforma da Previdência Social).
No que se refere à política fiscal, o documento afirma que foram os graves
desequilíbrios das últimas décadas geradores de inflação e aumentos da relação
dívida líquida/PIB. Esse indicador da solvência do setor público que chegou a
56% em 2002 acarretou o aumento da desconfiança na capacidade do governo em
honrar seus compromissos futuros, levando aos maiores prêmios de risco dos
títulos da dívida pública e ao aumento da taxa de juros. Por isso, o primeiro
compromisso da política econômica do governo foi resolver o problema fiscal.
Assim, adotaram-se medidas para produção de maiores e continuados superávits
primários (4,25% do PIB), necessários para assegurar a redução gradativa da
relação dívida/PIB. Peso maior foi dado ao ajuste fiscal sob o pressuposto de
que ele condicionaria as principais variáveis macroeconômicas, como a taxa de
inflação, as taxa de juros e a taxa de câmbio. A condução de parte desse
receituário permitiu o recuo da taxa de inflação, que tinha chegado a 12,5% em
2002, e a diminuição da taxa de juros, que estava no patamar de 27% no começo
de 2003 (ou seja, em 16% em termos reais).
Complementando essa agenda, o Ministério da Fazenda divulga, no final de 2004,
outro documento, intitulado "Reformas microeconômicas e crescimento de longo
prazo", que expressa o entendimento de que a política macro deveria ser
completada pelas reformas microeconômicas. Estas enfatizam a importância das
condições institucionais para o adequado funcionamento do mercado, a melhoria
do ambiente de negócios, além das reformas trabalhistas e regulatórias. No que
concerne ao ambiente de negócios, destacam-se as medidas de ampliação dos
mecanismos para o financiamento da infraestrutura, como a lei das parcerias
público-privadas, aprovada pelo Congresso Nacional.
Ademais, em 2005, desenvolveu-se dentro do governo a proposta de zerar o
déficit nominal num curto horizonte de tempo (em torno de cinco anos), como
forma de acelerar a diminuição da relação dívida/PIB. A implantação de tal
proposta, no entanto, exigiria medidas consideradas "penosas", no curto e médio
prazo. Muitas delas por meio de emenda constitucional, como forma de "amarrar
as mãos do governo" (ou de sinalizar o credible commitment), "blindando-o" de
mudanças políticas, e evitar o chamado stop and go da política fiscal.
O programa do déficit nominal zero propunha as seguintes medidas: elevação da
meta de superávit primário para 5% do PIB; desvinculação das receitas da União
(em saúde e educação principalmente) dos atuais 20% para 35% do orçamento;
congelamento real do custeio da máquina pública, principalmente de salários e
contratações ("choque de gestão"); e uma nova rodada de reforma previdenciária,
para diminuição do chamado "déficit previdenciário", via desvinculação dos
benefícios ao salário mínimo e da revisão para cima da idade limite para a
aposentadoria. Em suma, essa proposta, claramente marcada pelo aprofundamento
da ortodoxia neoliberal, projetava a possibilidade de o Brasil crescer 5%
apenas em 2017.
O início da discussão pública da proposta, ocorreu junto com a crise política
de 2005, conhecida na mídia como "mensalão". Essa crise, como se sabe, provocou
a troca do comando da Casa Civil da Presidência da República. A ministra Dilma
Rousseff, que então assumiu a Casa Civil, passou a participar também das
decisões em matéria econômica. Com relação à ideia de déficit zero, a nova
ministra, em entrevista à imprensa, imediatamente a desclassificou, definindo-
a de "rudimentar" e, portanto, retirando-a da agenda econômica. A ruptura com
essa proposta de radicalização da política fiscal, por sua vez, foi reforçada
com a substituição de Palocci por Guido Mantega à frente do Ministério da
Fazenda.8 Em outubro de 2006, no contexto da reeleição do presidente Lula, o
então ministro das Relações Institucionais chegou a afirmar que "a era Palocci"
(que marcou os três primeiros anos do governo Lula) havia acabado. O fim da
"era Palocci" representou não apenas a inflexão da política fiscal, mas
igualmente a ampliação da arena decisória, como se indicará a seguir.
A política fiscal no segundo governo Lula
No debate eleitoral que levou à reeleição de Lula em 2006, discutiu-se a
dificuldade do modelo macroeconômico, praticado desde 1999, em promover o
crescimento da economia. Nesse contexto, o presidente encomenda à Casa Civil e
ao Ministério da Fazenda a elaboração de um conjunto de medidas para
"destravar" a economia, atingir a meta de crescimento do PIB de 5% já em 2007 e
para todo o segundo mandato. Contudo, a mudança no discurso da política
econômica não se processou sem contestações, havendo opositores à sua inflexão
dentro do próprio governo, que cobravam a manutenção da orientação anterior e
mesmo o aprofundamento do ajuste fiscal.9
Juntamente com o pífio desempenho da economia (que apresentava taxas inferiores
a 2% de crescimento anual), as mudanças no Ministério da Fazenda e a nova
liderança da Casa Civil foram fatores decisivos para uma reorientação das
diretrizes prevalecentes na chamada "era Palocci". A participação da Casa Civil
no comando da gestão econômica significou maior abertura desta arena decisória
a outros atores políticos, uma vez que é o espaço institucional de articulação
entre o Executivo e o Legislativo e entre o governo federal e os governos
subnacionais. Também houve troca de comando em outras áreas importantes da
administração econômica, como no BNDES, cujo presidente, com mais legitimidade
política, pôde intensificar a orientação de apoio às políticas de cunho
desenvolvimentista e, portanto, mais abertas a negociações com grupos
econômicos privados.
Na verdade, a flexibilização da equação ortodoxa se dá no segundo governo,
quando gradativamente se acentuam as mudanças iniciadas de forma mais tímida em
2003. Houve a ampliação e extensão dos programas de transferência de renda que
cresceram paulatinamente ao longo dos dois mandatos. A expansão sistemática do
salário mínimo real que cresceu cerca de 65% acima da inflação foi muito
significativa para a elevação da demanda interna.10 Assim foi também a expansão
do crédito, especialmente o consignado, considerado "uma revolução na estrutura
do crédito no país".11 Iniciativa da Central Única dos Trabalhadores (CUT), o
crédito consignado foi fruto de acordo entre sindicatos e bancos.
Posteriormente, ele foi estendido para os servidores públicos e aposentados do
INSS. Também houve aumento do crédito para empresas e governos subnacionais
(com a capitalização e os empréstimos do Tesouro ao BNDES e a flexibilização
das autorizações para operações de crédito de prefeituras e estados) que
permitiram a ampliação do investimento. É interessante destacar que todas essas
iniciativas puderam ser realizadas sem necessidade de mudanças legais. Na
verdade, em confronto com ativismo institucional do governo FHC, o governo Lula
trouxe mudanças na política fiscal e nos indicadores de desempenho econômico
mesmo sem realizar grandes modificações no aparato institucional da área.
Assim, o governo Lula desafiou a visão convencional não só ao afirmar que "é
possível ter uma aceleração do crescimento mantendo a inflação sob controle",
mas também ao inverter na prática a seguinte fórmula: em vez de extremado
ajuste fiscal ser a condição para o crescimento, é o crescimento que fortalece
o equilíbrio fiscal. O maior crescimento, aumentando as receitas públicas,
permitiu manter a agenda de superávits primários necessários à diminuição
progressiva da relação dívida/PIB e à sustentação da credibilidade no mercado
financeiro. Ademais, o crescimento também gerou recursos para um relativo
aumento dos investimentos públicos, sem necessidade de redução de gastos
correntes (em pessoal, programas sociais, como o Bolsa Família, e previdência
social). Por fim, mas não menos importante, o crescimento econômico e a
elevação do emprego formal permitiram também que se prescindisse da reforma na
área previdenciária, a qual implicaria redução de benefícios sociais. A
condução do tema da reforma previdenciária é, na verdade, outro indício da
mudança de foco na política fiscal. No início do segundo governo, foi
instituído um fórum que, no final dos trabalhos, decidiu de forma consensual
que a Previdência Social deveria continuar sendo parte integrante do conceito
de seguridade social e que seu financiamento seria feito com recursos de
contribuições dos trabalhadores e empregadores, e seus elementos
redistributivos financiados por recursos do orçamento da seguridade social,
conforme previsto na Constituição Federal. Mesmo não havendo consenso sobre
regras de idade mínima e de tempo de contribuição para acesso a benefícios, os
integrantes do fórum - composto de representantes de trabalhadores,
empregadores e governo - conseguiram estabelecer acordo com relação à
permanência da vinculação dos benefícios assistenciais ao salário mínimo - item
cuja modificação é considerada fundamental pelos economistas ortodoxos. Em
outras palavras, as conclusões foram claramente contrárias às propostas de viés
fiscalista e levaram ao abandono da agenda da reforma tributária. Do ponto de
vista político, a retomada da agenda desenvolvimentista foi a chave capaz de
atender a todas as constituencies do governo, sem infringir a nenhuma delas
perdas econômicas e, portanto, custos políticos.
O lançamento do PAC, em janeiro de 2007, no início do segundo mandato pode ser
compreendido nesses termos. Visando prioritariamente ao investimento público em
infraestrutura, o programa estabelece também medidas de desoneração e mudanças
do sistema tributário e ações fiscais de longo prazo. Pode-se afirmar que por
intermédio do PAC o governo começa a atribuir à política fiscal função
adicional, ou seja, mesmo garantido o superávit primário fixado, utiliza o
espaço para uma política de crescimento, criando, por exemplo, a possibilidade
de abater da meta de superávit primário de 4,25% gastos com investimentos nos
Projetos Piloto de Investimento (PPI) de até 0,5% do PIB e, posteriormente, de
abater gastos do próprio PAC.
As medidas de ativação da demanda fizeram emergir gradualmente uma nova
configuração na área econômica. Mesmo não sendo novidade histórica, no segundo
mandato, o governo transformou as políticas sociais em políticas econômicas.
Incorporando o receituário keynesiano, foi obtendo a clara percepção de que a
expansão do consumo permitiria expandir a produção e gerar crescimento
econômico.12 Ou seja, o bem-estar dos pobres não é apenas um problema para a
caridade privada ou para os programas assistenciais que recebem verbas
residuais do orçamento público. Ele se transforma em fonte decisiva de
crescimento econômico.
Com a crise financeira internacional de 2008, as políticas expansionistas
destinadas a recuperar o nível de atividade econômica tiveram um reforço
adicional, destacando-se dois grupos de medidas. O primeiro visou gerar
provisão de liquidez ao sistema financeiro, por meio da redução dos depósitos
compulsórios, criação de financiamento de curto prazo às exportações e
desoneração de vários setores. O segundo grupo procurou atuar em dimensões mais
estruturais, com o lançamento do programa habitacional dirigido para a
população de baixa renda (Minha Casa, Minha Vida), mobilizando os bancos
públicos que assumiram política ativa de expansão do crédito e procuraram,
assim, compensar o "atraso" da política monetária em estimular a recuperação
econômica. Embora os sinais da crise já estivessem desenhados no horizonte, o
Copom iniciou, em janeiro de 2008, um novo ciclo de elevação da taxa de juros,
argumentando eventual possibilidade de recrudescimento da inflação.13 A
explosão da crise em setembro de 2008 tampouco gerou a redução rápida da taxa
de juros; ao contrário, esta se manteve elevada (no patamar de 13,75% ao ano)
até janeiro de 2009, quando inicia lenta trajetória de queda.
Mesmo considerando que durante a crise financeira de 2008 o insulamento de
núcleo decisório da política monetária no Banco Central tenha se mantido, as
mudanças das políticas econômicas - responsáveis pelos indicadores positivos de
crescimento econômico, elevação da taxa de emprego, redução da pobreza e da
desigualdade - são significativas. E, como interessa ressaltar nesse texto,
elas têm a ver não só com a conjuntura de crise econômica, mas igualmente com a
ampliação do núcleo decisório e, consequentemente, com a maior accountability
dos decisores a um leque maior de atores políticos.
Considerações finais
Segundo a literatura convencional, a abertura das arenas decisórias às pressões
de eleitores ou às demandas sociais compromete os objetivos estabelecidos para
as políticas macroeconômicas que, frequentemente, implicam a aplicação de
"pílulas amargas" à população (elevação de taxas de juros, cortes em gastos
públicos, redução dos programas sociais etc.). Por essa razão, considera-se
necessária a concentração de poder de decisão em mão de técnicos ou burocratas
que não precisam se apresentar em campanhas eleitorais. Ou seja, é necessário o
insulamento dos policymakers para que as políticas possam ser corretamente
formuladas e efetivamente implementadas e seus objetivos não sejam deturpados
pelo populismo, clientelismo e a irresponsabilidade que, nessa visão
caracterizam necessariamente todos os atores políticos, uma vez que esses
dependem do voto popular e do apoio de grupos de interesse que sustentam suas
campanhas.
Neste trabalho, argumentou-se em outra direção. O insulamento burocrático não é
a solução para os chamados "males" da política. Ao contrário da retórica de
seus patrocinadores, ele não é de forma nenhuma um processo técnico e apolítico
(Nunes, 1997). No caso do Banco Central, sua impermeabilidade às pressões que
lhe tem permitido praticar política de juros elevados há mais de uma década não
se explica por uma ideia abstrata "de racionalidade econômica", por uma lógica
estritamente técnica e neutra, como muitos afirmam. Trata-se de política
imposta pelo chamado "poder de fogo" do mercado financeiro, que pode
constranger os governos que se financiam através do endividamento público
interno ou externo, impondo-lhes a "autonomia" (se não legal, pelo menos, de
fato) da autoridade monetária, "protegendo-a" contra pressões do restante do
sistema político e, portanto, gerando credible commitment.
Ademais, contrariando ainda a visão convencional, mostrou-se que a consolidação
democrática, mesmo sob a forma de presidencialismo de coalizão, que exige
negociações continuadas entre uma pluralidade de atores (com partidos no
Legislativo e com os governos subnacionais), não foi obstáculo à efetivação das
políticas de estabilidade monetária e de ordenamento das contas públicas que
lograram sucesso no Brasil dos anos de 1990. Também a regularidade do processo
eleitoral tem sido fator fundamental para que os temas do crescimento e de
redistribuição de renda passassem a ser incorporados na agenda pública
brasileira dos anos 2000. A eleição de Lula em 2002, sua reeleição em 2006 e,
sobretudo, o segundo mandato, orientado por políticas de estímulo ao
crescimento e de expansão da demanda interna, são expressivos desse processo.
Mesmo que tais políticas permaneçam subordinadas ao modelo macroeconômico
baseado no tripé de metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário,
as mudanças são relevantes. Elas indicam que, a despeito dos limites impostos
pelo mercado financeiro, na era da mobilidade dos capitais, há espaços para
escolhas de políticas que também atendam às demandas sociais, como as aqui
mencionadas.
Contudo, se os processos eleitorais são fundamentais em uma ordem democrática,
eles não são suficientes para o aprofundamento da democracia. Como vários
teóricos contemporâneos têm apontado, não só os mecanismos de escolhas de
governo, mas também as formas de se tomar decisões, com arranjos institucionais
que aumentem a responsabilização política dos governantes, são fundamentais
para a efetivação dos princípios democráticos. A extensão da responsabilidade
política envolvendo um leque mais amplo de atores, durante todo o mandato (e
não apenas nos momentos eleitorais), é necessária e supõe, inclusive, o
aperfeiçoamento da capacidade de fiscalização das ações dos governantes: além
dos sistemas tradicionais de checks and balances, ela contempla também novos
experimentos de controle social no qual se possa exercer o chamado "poder
negativo do demos" - "que não só autoriza, mas também pode destituir seus
representantes" (Held, 2006; Urbinati, 2006).
Por fim, cabe assinalar o padrão de continuidade e mudança, típico da tradição
política brasileira e presente na estratégia do governo Lula. Ele consistiu na
realização de projetos historicamente adiados - inclusão de grandes
contingentes populacionais no mercado de consumo e início do processo de
redução da desigualdade de renda - por meio de adaptações às circunstâncias
para abrir brechas na estrutura de poder, de modo pragmático, isto é, sem
enfrentamentos radicais. Essa estratégia (e não apenas seus resultados) tem
certamente impactos significativos para o aprofundamento da democracia
representativa no Brasil. Todavia, o dimensionamento de tais impactos só poderá
ser avaliado de forma consistente por novas pesquisas orientadas pela teoria
democrática contemporânea.
Notas
1 Belluzzo sintetiza a visão de economistas conservadores nos seguintes termos:
"O mal é a política. Se o Estado se limitasse a cumprir os seus deveres de
guardião da livre-concorrência, de bom administrador das finanças e da moeda,
um discreto provedor de 'externalidades', mediante o investimento em
infraestrutura, tudo correria às mil maravilhas" (1999, p. 18).
2 Essas críticas partiam não só de dissidentes como Stiglitz (2000), mas também
de dirigentes dos organismos internacionais como Strauss-Kahn (2008).
3 Olhando a experiência brasileira, podemos observar com a ajuda de ampla
literatura que as políticas econômicas têm sido basicamente formuladas no
interior da burocracia do Executivo, "protegidas" pelo respaldo do presidente
da República contra as pressões (vindas do sistema partidário, do próprio
Congresso e da sociedade civil organizada). Estas arenas são compostas não
somente de altos funcionários, mas também de acadêmicos de prestígio e de
economistas vindos do mercado financeiro que se tornam temporariamente
dirigentes ou assessores governamentais, com amplos poderes para formular e
implementar medidas ou programas econômicos. (Souza, 1976; D'Araujo, 1982;
Martins, 1985; Loureiro, 1997; Diniz, 1997; Sola, 1998). Embora tais traços
tenham emergido em regimes autoritários, eles estão igualmente presentes na
atual ordem democrática, que atribui grande poder institucional ao Executivo
através de medidas provisórias e controle sobre a execução orçamentária
(Mainwaring, 1997; Figueiredo e Limongi, 1999).
4 Como se indicará a seguir, no primeiro governo Lula, também o Ministério da
Fazenda pautava-se por orientações calçadas nesta visão. Para a discussão do
conceito de coalizão de interesses e seus processos de formação e sustentação,
ver Sabatier (2007).
5 Até o final dos anos de 1970, as receitas e as despesas das empresas estatais
não haviam sido agregadas em um orçamento consolidado. Somente com a criação da
Secretaria de Controle das Empresas Estatais (SEST), em 1979, é que o governo
começa a ter um conhecimento um pouco menos precário do número total de
entidades estatais e fazer um orçamento geral das empresas estatais para o ano
seguinte (Martins, 1985).
6 Devido à elevação das taxas de juros internacionais no início dos anos de
1980, tornou-se insustentável o processo de financiamento externo da economia
brasileira: o pagamento de juros atingiu US$ 13 bilhões em 1982, o que
equivalia a 82% das exportações, e o déficit em conta corrente representava
mais de 5% do PIB (OCDE-Brasil, 2001).
7 "Concepção e Diretrizes do Programa de Governo do PT para o Brasil",
aprovadas em dezembro de 2001 no Encontro Nacional do PT. Embora com críticas
duras ao governo FHC, o documento traz também a preocupação de sinalizar uma
crítica "à esquerda": "teremos de romper com o voluntarismo utópico e ingênuo
que tantas vezes entusiasmou e frustrou as propostas históricas da esquerda
brasileira". O eixo da crítica à política econômica é o aumento da
vulnerabilidade externa da economia brasileira, em especial a perda de
autonomia do país para fazer política macroeconômica.
8 Palocci saiu do Ministério da Fazenda devido à quebra ilegal do sigilo
bancário da conta-poupança do caseiro Francenildo dos Santos Costa, que acusou
Palocci de frequentar a mansão alugada em Brasília pela chamada "República de
Ribeirão Preto".
9 Em novembro de 2006, por exemplo, a diretoria de Estudos Macroeconômicos do
Ipea divulga "Uma agenda para o crescimento econômico e a redução da pobreza",
no qual reafirma a agenda da "era Palocci". O texto argumentava que só por meio
de medidas fiscais duras e penosas o país conseguiria fazer crescer o PIB em 5%
- e isto apenas a partir de 2017 (Levy e Villela, 2006).
10 Isso se considerada a variação estimada entre 31/12/2002 (R$ 200,00) e 31/
12/2010 (R$ 510,00). O índice de crescimento do salário mínimo varia conforme a
escolha de critério. O mais adequado seria o valor real médio de 2002 comparado
com o valor real médio de 2010.
11 Segundo o banqueiro Roberto Setubal, "o Brasil não precisa de reformas.
Essas não são prioritárias para sustentar o elevado crescimento econômico de
2010 pelos próximos anos. Grandes reformas como a tributária, a trabalhista e a
política 'param o país' e não necessariamente servem para alterar tanto.
Imagina uma reforma trabalhista: O Brasil iria parar para discussões
intermináveis que, ao final, poderiam nem alterar tanto as coisas. Medidas
pontuais são mais efetivas. Veja o caso da criação do crédito consignado que
produziu uma revolução em termos de crédito à pessoa física no Brasil "
(Declarações publicadas no jornal Valor Econômico, em 22/10/2010, p. A5, grifo
nosso).
12 Como vários teóricos e políticos da social democracia europeia já tinham
percebido, o keynesianismo significou politicamente que o bem-estar dos pobres
é um problema e também uma solução para a economia. León Blum já dizia na
França dos anos de 1930: "uma melhor distribuição [...] reviverá a produção e
ao mesmo tempo fará justiça" (Przeworski, 1989, p. 246).
13 O Copom (Comitê de Política monetária) é um colegiado composto pelo
presidente e por diretores do Banco Central, encarregado de executar as metas
de inflação. Estas são estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional que, por
sua vez, tem, desde 1994, uma composição também restrita: presidente do Banco
Central, ministro da Fazenda e ministro do Planejamento.